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Lula não é o líder ideal da Pátria do Evangelho, mas de um Brasil melhor



As esquerdas precisam ser criticadas, e muito. E mesmo semiólogos de esquerda que criticam as esquerdas mas não são capazes de criticar "médiuns" de direita, que também são peças estratégicas de uma "guerra híbrida" na qual as ideias de "bondade" e "caridade" são deturpadas e personalizadas na figura de um único homem que não foi necessariamente tão bom e caridoso quanto até hoje se insiste em acreditar.

Esse único homem, Francisco Cândido Xavier, é um paiol de bombas semióticas. Era um direitista convicto, um reacionário histérico, cujo ideal de "caridade" era espetacularizado e muito conservador. As pessoas babam diante da suposta filantropia atribuída a Chico Xavier, mas ela nunca trouxe resultados significativos de combate à pobreza e nem representavam risco aos privilégios abusivos dos mais ricos.

Além disso, Chico Xavier nunca cobrou coisa alguma dos poderosos, preferindo receber prêmios daqueles que oprimem os mais necessitados. E, além disso, o moralismo do "médium", descrito em depoimentos e livros, confirmadamente representa uma "omissão de socorro" expressa na Teologia do Sofrimento, que pede para os sofredores extremos "segurarem a barra", fingir que está tudo bem e "agradecer a Deus pela desgraça obtida".

Lula é o extremo oposto de Chico Xavier. As esquerdas deslumbradas pensam que ambos são "almas gêmeas", baseado em embalagens publicitárias, que usam os clichês como "defesa da paz e do amor ao próximo" como fachadas. Mas, se observarmos com muita e muita atenção, veremos que os dois sempre foram extremamente opostos. Antagônicos, até. Isso é doloroso, mas realista. Paciência. É impossível nos perdermos nas águas frescas, porém perigosas, do pensamento desejoso.

Lula foi condenado à prisão sem provas, pela acusação envolvendo um triplex no Guarujá cuja estória é muito mal contada. Chico Xavier foi inocentado mesmo com provas consistentes de crimes como o de falsidade ideológica, como suas "psicografias literárias" que comprovadamente apresentam aspectos de obras fake, porque há claramente falhas estilísticas.

Infelizmente, em obras que levam os nomes de autores mortos, famosos ou não, mas sobretudo envolvendo figuras como o escritor maranhense Humberto de Campos, a sociedade brasileira apenas finge que as acusações, comprovadas, de literatura fake, não existem. Mas só mesmo uma sociedade desinformada para admitir que, sem estudos sérios sobre mediunidade, essa literatura fake como "autêntica", só porque "traz mensagens cristãs".

Se observarmos bem as ideias de Chico Xavier, confrontadas com as de Lula, veremos que a "mesma embalagem" mostrará conteúdos totalmente diferentes. Não são diferenças que as pessoas admitam apenas como "naturais" ou "compreensíveis", mas divergências antagônicas e preocupantes, que revelam o "médium" como um bastião do ultraconservadorismo que as pessoas, seduzidas pelas paixões religiosas, não querem assumir.

Vejamos bem. Temos a entrevista de Chico Xavier no programa Pinga Fogo, da TV Tupi, que revela o seu reacionarismo insuperável. Ele estava com 61 anos e mostrou ideias ultraconservadoras que defendeu desde a juventude. E quem imagina que ele iria mudar 15 ou 20 anos depois, virando progressista de carteirinha, é bom tirar o cavalo da chuva. Como um conservador, Chico não iria mudar de ideia depois de 70 anos, ainda mais fragilizado.

Recentemente, temos a entrevista que o ex-presidente Lula deu na sede da Polícia Federal em Curitiba, onde está preso. É um manifesto de lucidez, de humildade e de profunda inteligência de um dos maiores líderes progressistas do mundo. Um relato esperançoso, muito diferente da entrevista do "médium", que apenas dizia para aceitarmos tudo como está.

Devemos abrir mão de devaneios emocionais, que moldam os ídolos religiosos com uma imagem sempre agradável. Imaginamos que ídolos religiosos só apoiam a ditadura a contragosto, que seu conservadorismo só ocorre nos limites da religiosidade, e confundem o débil e fajuto Assistencialismo que produzem para os mais necessitados - incluindo o confinamento de pessoas pobres e doentes, a níveis de cativeiros - com um heroico progressismo.

INGENUIDADE DAS ESQUERDAS

É claro que as esquerdas, mesmo os petistas, agirão em boa-fé e, diante do espírito de acolhimento de todos, que já cometeu o erro de dialogar com aproveitadores de ocasião - os mesmos políticos do PMDB e do baixo-claro da direita (PP, PR, PRB etc) que depois golpearam contra o PT e apoiaram Jair Bolsonaro - , continuará iludido com o canto-de-sereia de Chico Xavier.

Até hoje não se viu um esquerdista fazendo sua mea-culpa em torno da adesão do "médium" que virou o "namoradinho do Brasil", ignorando que ele sempre manifestou um horror anti-petista igual a de Regina Duarte. Ninguém veio a público dizer que "eu me iludi com Chico Xavier, pensei que ele era marxista porque o vi acariciando um pobre numa foto e não imaginei que ele era um reaça de carteirinha, falando daquele jeito contra os movimentos sociais".

No entanto, das religiões que enviaram representantes para visitar Lula na prisão, nenhum esteve ligado ao "movimento espírita". Ninguém do "espiritismo" brasileiro foi visitar o ex-presidente. E não dá para fazer pensamento desejoso e supor que os fantasmas de Chico e Emmanuel - há quem acredite que ele ainda não reencarnou, nesse rol de confusão que é o "espiritismo" brasileiro - foram rondar a prisão para obsediar o carcereiro para soltar o petista.

Só porque em Curitiba foi lançada uma peça musical, muito tola por sinal, sobre Chico Xavier, cujo ator-protagonista votou em Fernando Haddad acreditando ingenuamente que o "médium" faria o mesmo, isso não procede. Aliás, a realidade diz é que, com base nas ideias de Chico Xavier, ele, se vivesse em 2018, teria apoiado a campanha de Jair Bolsonaro e, hoje, estaria orando para o atual presidente "deixar de ser influenciado por aliados exaltados e governasse para os brasileiros".

Chico Xavier apoiaria, com gosto, até a reforma da previdência! Com base nas suas ideias sobre o trabalho exaustivo, ele provavelmente diria: "Os irmãos querem se aposentar antes da hora. Com 60 anos e com força para servir, a pessoa já quer descansar antes de ficar cansado, é o entardecer da vida e a pessoa já pensa em dormir antes do pôr do Sol. Paciência, irmãos, que a mudança da idade da aposentadoria estará de acordo com o que Deus determinar sobre o momento do esgotamento físico, oremos para que essa mudança esteja de acordo com os desígnios da vontade divina".

Mas como temos esquerdistas que ainda admiram, ingenuamente, a Madre Teresa de Calcutá, ignorando que ela era uma reacionária e radicalmente contra o aborto (uma das causas mais caras das esquerdas), a ponto de preferir que a estuprada e o estuprador entrem em acordo sobre a guarda do filho que gerarem. Ela viajava em jatinhos particulares ao lado de magnatas e ditadores para exigir grandes fortunas "para a caridade" que ela mesma desviava para as contas dos sacerdotes do Vaticano.

E Chico Xavier? Acreditam que o faturamento de seus livros foi realmente dado para matar a fome dos mais necessitados? Se isso ocorresse, não teríamos moradores de rua, loucos pobres, gente faminta nas ruas. Temos uma overdose de adoração a Chico Xavier e isso em nada refletiu para transformações reais para os brasileiros. Consta-se que o papo do "pão dos pobres" fez a fortuna de muito dirigente "espírita" amigo de Chico Xavier E não pense que ele foi enganado por eles, porque ele colaborou muito para esse enriquecimento ilícito.

"BRASIL, CORAÇÃO DO MUNDO, PÁTRIA DO EVANGELHO" É CAUSA FASCISTA

Há coisas ocultas na "seara espírita" brasileira e, até agora, ninguém consegue perceber que o projeto do Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, que muitos veem como a chegada do Paraíso na Terra, é, na verdade, uma causa fascista.

Afinal, desconfiemos sempre de um projeto em que um país se declare destinado a dominar o mundo através da política e da religião. Isso é cilada. Não sejamos ingênuos em acreditar que, através do "espiritismo" brasileiro, a tal "Pátria do Evangelho" possa acolher os divergentes com carinho e compreensão. Essa mesma conversa foi feita quando o suposto "novo Cristianismo" que se configurou no Catolicismo medieval, foi instaurado pelo imperador Constantino, no século IV.

Ninguém vai abrir o jogo diante de certas armadilhas. Infelizmente imaginamos que inimigos internos do Espiritismo ficam na retaguarda, são cabisbaixos, soturnos e quietos, e atuam às escondidas. Não imaginamos que o maior inimigo interno da Doutrina Espírita está na frente da bancada, usando peruca, óculos escuros e ternos brancos, difundindo abertamente um igrejismo medieval e um moralismo retrógrado, blindado pela imagem da "caridade"...

O Catolicismo medieval, a Igreja Católica Apostólica Romana, também veio com ideais de "amor e fraternidade", de "acolhimento amoroso" aos que não professavam a "crença na Igreja do Cristo". O enunciado era maravilhoso, mas a realidade mostrou que atrocidades mil foram cometidas "em nome do Cristianismo", como as cruzadas, as queimas em praça pública, as decapitações públicas de hereges, os espetáculos de genocídios e extermínios exibidos até em estádios etc.

O que não esperará da "Pátria do Evangelho" nos próximos tempos? Os seguidores de Chico Xavier demonstraram serem vingativos, rancorosos, odiosos, espumando de raiva diante da menor contestação. O "espiritismo" brasileiro atua com um moralismo punitivista e retrógrado, baseado na Teologia do Sofrimento, na culpabilidade da vítima, nos "reajustes espirituais" que podem sinalizar uma certa indiferença ao sofrimento do outro.

Isso é chocante, mas é o que se vê de dentro das atividades "espíritas". A fachada mostra uma religião fraterna, amiga, cordial, generosa, amorosa etc. Mas, depois de aderir a esse suposto Espiritismo, vemos que a coisa não é bem assim. O que se apresenta, depois da adesão dos leigos e simpatizantes de toda ordem, é uma religião macabra, que, sob a desculpa de que "no mundo espiritual, será melhor", defende que os sofredores tenham que aceitar suas desgraças ou lutar feito condenados para se superarem dela (e olhe lá).

Daí que a Pátria do Evangelho não tem a ver com um Brasil melhor. Aliás, o livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de Chico Xavier e Antônio Wantuil de Freitas (mas levianamente creditado a Humberto de Campos), deu muito azar para Dilma Rousseff, que perdeu o poder anos depois sem poder oferecer resistência para tanto.

Diferente de Chico Xavier, o ex-presidente Lula, apesar do discurso conciliador, procurava, mesmo com concessões, evitar os abusos das elites mais ricas, valorizando as riquezas nacionais, melhorando os salários dos brasileiros, investindo alto em Educação pública para elas não só ensinarem a ler, escrever e trabalhar, mas a ter senso crítico, analisar a realidade, a vida. Vale lembrar que Chico Xavier sempre reprovou o senso crítico e isto está claro em várias de suas obras.

Apesar disso, alguns deslumbrados das esquerdas acreditam que a "Pátria do Evangelho" será petista, que Lula é o líder ideal para ela, ainda que seu projeto fosse executado por um herdeiro político etc. Com belas palavras tudo fica lindo e fácil. Mas a realidade não é bem assim como se apresenta e o pensamento desejoso não pode sair por aí relativizando o conservadorismo doentio dos "médiuns espíritas" só para manter ideias mais agradáveis.

Se até Djavan, cuja música bucólica que lembra uma boa rodada de cerveja em dia de Sol na Zona Sul do Rio de Janeiro (apesar do cantor ser alagoano), apoiou Jair Bolsonaro, por que muitos explodem de raiva quando se fala que Chico Xavier seria bolsonarista? Devemos deixar as fantasias de lado, porque as paixões religiosas que exaltam "médiuns", mesmo admitindo sua imagem de "imperfeitos e falíveis", sempre são um terreno de perdição pelo devaneios emocionais. Quem sonha demais sempre leva um choque na primeira desilusão.

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