domingo, 25 de setembro de 2016

A estranha tranquilidade dos brasileiros com o governo Temer


Assusta a tranquilidade das pessoas diante do cenário calamitoso do governo de Michel Temer, que simboliza o que há de mais retrógrado em sua volta, e que no entanto nada faz abalar sua tranquilidade e sua alegria diante dos tempos sombrios que já prenunciam.

Que as pessoas possam manter tranquilidade e alegria diante de dificuldades, vá lá. Que elas possam superar tragédias e infortúnios mantendo o senso de humor, tudo bem. Que a esperança é a última que morre, como diz o ditado popular, isso é compreensível. Mas a situação de hoje não permite isso, temos uma tragédia na frente e as pessoas felizes, na areia da praia, jogando bolinha, vendo WhatsApp...

É como um dia de praia, com um sol maravilhoso, céu de brigadeiro etc, que termina numa noite de violenta tempestade, com raios, ventos fortes, chuva pesada e enchentes. Na tarde aparecem brancas nuvens que formam uma espécie de "montanha de algodão" e tudo parece lindo e feliz.

Só que essa formação de nuvens se torna azul e, depois, cinza, e, quando atinge uma coloração castanha, pode se preparar porque aí é que virão os raios e as trovoadas que obrigam as pessoas a irem para casa e evitarem usar aparelhos eletrônicos. Portanto, adeus, WhatsApp, e não adianta disparar trolagens xingando fulano e sicrano porque, se o raio atingir o celular, o troleiro morrerá eletrocutado.

Não por acaso, realidades trágicas assim acontecem no Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba (a praia é só cortesia do cotidiano carioca), antigas "cidades-modelo" brasileiras que sofrem decadências profundas e surtos de reacionarismo sociopolítico que contribuíram para o cenário deplorável em que vivemos.

O governo de Michel Temer é movido pela insegurança político-institucional, que revela a corrupção de setores da Justiça, o Ministério Público e o Poder Judiciário, cada vez menos comprometidos com o rigor da lei e cada vez mais voltados a ações tendenciosas, hesitantes e oportunistas.

Temer segue a mesma cartilha. Impõe uma agenda extremamente retrógrada, recua em alguns pontos, não oferece segurança para a direita e é recebido com repúdio extremo pela esquerda. Mas é tolerado e aceito confortavelmente por setores da sociedade que parece viver numa felicidade inabalável.

As riquezas brasileiras serão vendidas para empresas estrangeiras, sem representar uma real compensação para a renda dos brasileiros. Propostas de reforma trabalhista que farão com que trabalhadores terão uma realidade degradante à sua frente, recebendo menos salários e perdendo garantias sociais, consolidando rotinas desumanas de empresas como Riachuelo e McDonalds, serão oficial e definitivamente implantadas.

A decadente grande mídia brasileira - que não pode assumir a decadência e empurra com a barriga até a queda de audiência, compensando com sintonias compradas em estabelecimentos comerciais - mostra uma realidade de contos de fadas, com Henrique Meirelles no papel de Papai Noel, para dar brinquedos para a criançada, e muita gente acredita e vai dormir tranquila.

O pior é que a equipe de Michel Temer é composta não somente por políticos incompetentes envolvidos em escândalos de corrupção (os mais sérios, os mais graves, diga-se de passagem), mas acusados até de crimes. O ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, por exemplo, é acusado de ter sido advogado de criminosos do PCC (Primeiro Comando da Capital).

Longos e grossos volumes de livros, numa série de centenas, teriam que ser acumulados para descrever os casos de corrupção envolvendo todos os políticos que, direta ou indiretamente, estão associados ao governo Temer. O próprio Michel Temer já é um dos incluídos, tendo sido até um condenado político, estando proibido de se eleger a qualquer cargo público por oito anos.

No entanto, as pessoas que vivem um estado viciado de "felicidade" e acreditam que no governo Temer só existem pessoas de "notório saber técnico", pouco se importando com as gafes que o ministro da Relações Exteriores, o antipático, arrogante e analfabeto em diplomacia José Serra, faz no seu cargo, incluindo desconhecimento sobre o bloco econômico BRICS e uma piada machista contra senadoras mexicanas.

Os corruptos do governo Temer assumiram o poder para livrar-se de condenações judiciais, ou para amenizar o rumo das investigações. Mas o cidadão médio acha que isso "não vem ao caso" e cria uma novela política na qual seus principais heróis são Michel Temer, José Serra, Henrique Meirelles, Sérgio Moro, Eliseu Padilha e outros que, a seus olhos, "são gente muito séria e responsável, que realmente sabe das coisas".

Deixam a Petrobras se dissolver em vendas graduais de seu espólio para companhias petrolíferas estrangeiras, achando que os estrangeiros são pessoas altruístas que vão dar tudo que têm para o povo brasileiro. E acham que, privatizando empresas públicas, o serviço melhorará assim que seus compradores, tidos como "gente responsável e especializada", assumirem os serviços.

Ficam felizes até com as propostas de privatização do ensino público, que acreditam permitir maiores investimentos à Educação. E felizes com a privatização da saúde pública, ignorando a hipocrisia da saúde privada, cuja boa parcela de suas tarifas serve para as festas chiques dos médicos de nome e seus (suas) cônjuges altamente elegantes e atraentes.

Tanta serenidade que faz os ricos sentirem a impressão de que estão vivendo no paraíso. Coitados. Diante das sérias restrições impostas às classes populares, corremos o risco de voltarmos a períodos de turbulência política e crise econômica grave, que sempre resultaram em ondas de assaltos e latrocínios que, não raro, matam muita gente rica, também.

Nos períodos dos generais Ernesto Geisel e João Figueiredo e nos governos civis de José Sarney e Fernando Collor, estouraram surtos de assaltos, sequestros e latrocínios, a ponto de fazerem as pessoas ricas recorrerem a serviços particulares de segurança e à fortificação de condomínios, mansões e casarões.

Foi Collor confiscar as poupanças dos brasileiros para explodir as ondas de sequestros. os latrocínios etc. E, hoje, quando o apetite das elites privilegiadas, que compõem o que se chama de "plutocracia", se torna ainda muito maior do que durante a ditadura militar ou a Era Collor, tragédias piores podem acontecer.

Afinal, o povo pobre não gostará de perder o protagonismo histórico e as conquistas sociais que lhes pareciam definitivas. Se o apetite das elites em reconquistar o poder se tornou desmedido, a reação do povo que perde direitos também será drástica. Como as propostas do governo Temer tendem à exclusão social, o risco de muitos populares caírem no crime pela falta de opções para obter renda pela via honesta é muito grande.

Assaltos acontecerão nas entradas dos condomínios de forma a obrigar que motoristas tenham que se mover com habilidade olímpica para entrar em suas garagens para evitar o assédio de assaltantes furiosos. E até as praias, redutos da "felicidade" desmedida dos desavisados de hoje, terão que se adaptar à rotina de arrastões.

O cenário político atual não fez encerrar a crise política, que também não se encerrará se caso Michel Temer ter que deixar o poder - ele é investigado por irregularidades eleitorais da chama Dilma-Temer de 2014 - e uma eleição indireta eleger seu sucessor (provavelmente, alguém do PSDB).

Pelo contrário, com pessoas assim no poder, mais voltadas a interesses de grupos financeiros e setores moralistas e ultraconservadores da sociedade, o que se pode esperar é que a crise só aumente de maneira descontrolada, até pelo fato das elites e da parcela solidária da classe média se cegarem numa "felicidade" imprudente e exagerada.

A solução para a plutocracia reverter essa crise deveria ser fazer tudo para reduzir suas finanças, suas posses materiais e parar de sonhar com as listas da Forbes. Se não devolverem o dinheiro para o povo brasileiro, nesse contexto imprevisível, só restará aos ricos desmedidos o uso do excedente de dinheiro para pagar o funeral de seus filhos. O Brasil não vive uma situação fácil.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Rio de Janeiro de fumantes inveterados e masoquistas


O preço do cigarro deve estar baratinho demais para que a população das capitais do Sul e Sudeste, sobretudo o Rio de Janeiro (as demais são Curitiba, São Paulo e Porto Alegre), para o pessoal sair fumando adoidado pelas ruas. Pelo jeito, devem almoçar, jantar e lanchar cigarro.

É terrível ver isso. A arrogância e o descaso que os fumantes têm com os outros, andando pelas ruas expelindo suas fumaças tóxicas que poluem a atmosfera e incomodam os não-fumantes, que cada vez mais perdem espaço nas ruas, sobretudo as que são cercadas por verdadeiras muralhas de prédios, são chocantes.

Embora boa parte das pessoas que insistem em fumar já são velhas, e por sinal bem mais velhas que suas aparências sugerem - há gente com apenas 56 anos que aparenta ter vinte a mais - , há muitos jovens fumando e estes, então, são os mais arrogantes e desrespeitosos possíveis.

A arrogância dos fumantes é clara quando vemos esse pessoal, geralmente razoavelmente abastado e com educação suficiente para ter bons modos, joga o cigarro no chão, fazendo cara feia, toda vez que vai entrar num ônibus ou ir a uma estação de metrô ou algum recinto qualquer que proíba o fumo.

Que o Rio de Janeiro virou um antro de conformismo, de indiferença e de falta de sensibilidade, com os cariocas perdendo até a percepção do fedor das fezes de cachorros à sua volta, enquanto preferem uma felicidade que assusta pela ignorância absoluta dos graves problemas em volta, isso é verdade, a mais contundente verdade.

As supostas "cidades-modelo" do país estão ruindo numa decadência avassaladora e irreversível. Depois da "noite de Cinderela" dos jogos olímpicos, o Rio de Janeiro volta à sua trágica decadência, depois do relativo cartaz mundial dos breves eventos esportivos, que aliás deram fim a um ciclo espetacularizado da Era Eduardo Paes de 2009.

Hoje não dá mais para usar São Paulo como paradigma para medidas, fenômenos ou mesmo modismos a serem impostos para o resto do país. Hoje o Rio de Janeiro perde essa condição, causando desespero na plutocracia, exceto nos cariocas, que reagem à decadência como se ela fosse uma piada de A Praça É Nossa.

Curitiba "deixa de ser" a "Escandinávia brasileira" que no fundo nunca foi, com o reacionarismo direitista, com a vingança sanguinária dos machistas, com a corrupção política, com a tirania do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal, e dos ônibus padronizados que perderam a razão de ser (hoje é comprovado o fracasso de jogar diferentes empresas de ônibus sob uma mesma pintura de "consórcio", "zona de bairros", "tipo de ônibus" e outros critérios).

Porto Alegre era a capital da cultura de vanguarda, do ativismo político, até meados dos anos 90 parecia ser a San Francisco brasileira, pela juventude que prometia transformar o país à sua maneira, chamando a atenção de cariocas e paulistas. Mas hoje Porto Alegre virou antro da violência, sua maior manifestação "cultural" é a tchê-music (precursora do "sertanejo universitário") e, depois do Rio de Janeiro, virou reduto de fanatismo doentio pelo futebol, com gritarias até na noite.

As cidades que no passado revelaram nomes como Paulo Leminski, Érico Veríssimo, Tom Jobim e Mário de Andrade hoje não passam de províncias mofadas, sujas, sem civilidade, cidades que pararam no tempo, provavelmente em algum ano da década de 1990 (a década perdida brasileira), com uma mentalidade atrasada de fazer o coronelismo do Norte e Nordeste nos tempos ditatoriais parecerem a vanguardista Swinging London dos anos 1960.

Todas essas quatro capitais, que deixaram de ter a reputação de lugares modernos e de vanguarda cultural ou social de qualquer espécie, mostram gente fumando adoidado, fazendo cara de arrogância e desprezo ao outro, atitude que é o que existe de mais decadente e doentio numa pessoa.

A gente até vê, com justa indignação, o quanto supermercados e outros estabelecimentos comerciais, na contrapartida dos reajustes dos preços de alimentos e de laticínios, aumentarem muito pouco os preços dos cigarros, fazendo a festa dos fumantes inveterados que podem comprar estoques mensais de, pelo menos, vinte maços.

Nas bancas, pessoas que "não têm dinheiro" para comprar bons livros (nada a ver com os estúpidos best sellers entre os quais até "livros para colorir" são enquadrados como não-ficção) usam o mesmo valor que alegam "não possuir" para comprar maços e maços de cigarros, só comprando por vez para não assustar a criançada.

Só que essas pessoas brincam com fogo com sua arrogância masoquista e o conselho que se dá, mesmo a um jovem fumante, é que arrume o tempo para escrever um testamento e fazer um levantamento dos bens que deixará para seus entes queridos. Fumantes já deveriam se preparar para se despedir dos seus melhores amigos o quanto é tempo.

Quanto a estes, melhor seria que fossem curtir e conviver o máximo possível com os fumantes, porque mesmo os mais jovens poderão não estar mais entre nós, pelo menos na forma física. Se bem que, no mundo espiritual, a maioria dos fumantes das citadas capitais brasileiras estará perturbada demais sequer para estar na Terra cuja podridão lhes assustará vista sob outro ponto de vista.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

A canonização de Madre Teresa de Calcutá no Brasil pós-Dilma


Tinha que ser o espírito do tempo, mesmo. Com a retomada do poder de elites ultraconservadoras, das quais envolvem burocratas, tecnocratas, corruptos de direita, extremo-direitistas, barões da grande mídia, entreguistas, rentistas e especuladores financeiros e outras espécies reacionárias - não nos esqueçamos dos valentões que "zoam" nas redes sociais - , tinha que Madre Teresa de Calcutá ser canonizada por um segundo "milagre" ocorrido no Brasil.

Foi uma coisa maluca. Uma beata religiosa que dependia de dois supostos milagres, mas bastou o segundo para ser canonizada pelo Vaticano, ontem. Isso porque provas foram apresentadas que invalidaram o "primeiro milagre", já que a indiana Monica Besra, doente de câncer em 2002, foi curada não por causa da medalha de Teresa, mas por ter feito um tratamento contra o câncer com rigoroso procedimento médico.

O "segundo milagre" é que é coisa de doido. Em 2008, o engenheiro Marcílio Haddad Andrino, de Santos, foi fazer uma lua-de-mel com a esposa, em Gramado, Rio Grande do Sul. De repente ele se sentiu mal e o casal voltou para a cidade de origem. Internado, houve um suposto diagnóstico de um sério coágulo no cérebro, e Marcílio, então com 35 anos, teria sido desenganado pelos médicos, sendo obrigado a fazer uma cirurgia de difícil êxito.

Ele teria entrado em coma e aí a esposa foi para uma paróquia na cidade, falou com um padre, que a recomendou a orar para Madre Teresa de Calcutá e pôr a medalhinha no peito do marido, que supostamente tinha pouquíssimas chances de sobreviver.

De repente, Marcílio acordou como se nada tivesse acontecido, e estava apenas abatido como alguém que acordou ainda com sono. Foi tomar o café e os médicos o examinaram, concluindo que ele havia sido curado do terrível mal. Os médicos aparentemente teriam constatado que a cura escapou de qualquer avaliação médica e teria sido clinicamente inexplicável.

A estória é linda, mas duvidosa. Com todo o respeito com o aparente sofrimento dos familiares, deve-se levar em conta que o hospital que protagonizou o "milagre" é um hospital católico, São Lucas. Além disso, há posturas estranhas como o cuidado que os partidários do "milagre" fazem em consideraer apenas as fontes oficiais da Igreja, evitando que o caso Monica Besra se repetisse.

Há indícios de que o que Marcílio teria sofrido pode ter sido uma intoxicação alimentar, que causa uma sensação de formigamento na cabeça, dores fortes e que fazem com que o enfermo seja internado e tivesse que ter um sono prolongado.

A canonização, na verdade, foi tendenciosa, assim como a de José de Anchieta, um jesuíta de mentalidade medieval e parceiro de Manuel da Nóbrega (que regressou mais tarde como o espírito Emmanuel) nas atrocidades "catequistas" no período colonial, que pelo jeito traz muitas saudades nos brasileiros de classe média alta que pediram o "Fora Dilma" e agora têm que engolir esse governo decadente de Michel Temer.

Por trás desse mito de Madre Teresa, há a estereotipação da caridade como um produto de consumo simbólico, que alimentará o turismo e encherá de fortunas empresários de agências de viagens, autoridades políticas envolvidas, donos de companhias aéreas e, sobretudo, o alto clero do Vaticano.

Segundo se investiga nos bastidores, Madre Teresa nunca foi amiga dos pobres, antes inventasse a pobreza para forjar caridade. Como ideóloga, foi tão perversa quanto Francisco Cândido Xavier. Aliás, se "almas-gêmeas" existissem mesmo, Madre Teresa e Chico Xavier seriam exemplos típicos.

Os dois professavam a "cultura do sofrimento", ou melhor, a Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica que fazia apologia das desgraças humanas como caminho de "purificação" da alma. É, mal comparando, um "AI-5 do bem", um holocausto disfarçado com "palavras de amor" e "mensagens de esperança", que ludibriam e seduzem muitas e muitas pessoas.

Madre Teresa condenava o planejamento familiar, o controle da natalidade e o aperfeiçoamento de técnicas e medidas de combate à pobreza. A freira condenava o aborto até no caso de estupro, quando a mulher vítima desse crime sofre um trauma enorme. Ela talvez não fosse com a cara de Paulo Freire, ironicamente falecido no mesmo ano dela, 1997.

Mas Paulo Freire, ateu e socialista, tinha um projeto educacional que ensinava os pobres a se unirem em busca de direitos e benefícios, usando a solidariedade das pessoas como meio de buscar qualidade de vida, despertando corações e mentes para a mobilização, uma caridade verdadeira que, não fossem os empecilhos político-econômicos conhecidos, traria benefícios de quantidade imensurável.

O que assusta é que ser religioso garante uma fortíssima blindagem. Mesmo que o além-túmulo revele um choque aos canonizados da Terra, feitos "espíritos superiores" apenas pela leviana paixão religiosa, a blindagem é tão forte que ainda é quase um consenso que ídolos religiosos detenham a "superioridade" que parece firme aos olhos terrenos, mas que se dissolve no mundo espiritual, como um castelo de areia atingido pela onda do mar.

Para piorar, os partidários de Madre Teresa chegam a afirmar que a ciência, por "cometer exageros", perde sua validade em certos casos. Segundo o ministro das Relações Exteriores da Índia, Sushma Swaraj, "racionalistas também exageram exigindo provas científicas o tempo todo".

Isso lembra o "tóxico do intelectualismo" de Emmanuel. É uma herança da visão obscurantista do Catolicismo medieval, mas que apenas traz como concessão a aceitação da Ciência "com limites". A Ciência é bem vinda em atividades restritas ao seu âmbito, como estudar a cura da AIDS, por exemplo, mas não pode interferir no terreno da fé religiosa, na qual seus mistérios e mitos devam ser preservados sem questionamentos.

Ora, vamos pensar um pouco. É certo que a Ciência comete exageros e suas descobertas quase sempre estão sujeitas a questionamentos diversos. Mas se existe um equívoco cometido pela ciência, ele será corrigido não com a paralização da atividade científica, ou de qualquer linha de pensamento similar, mas com o seu avanço.

É como se dissessem que a pessoa, por tropeçar algumas vezes, nunca devesse mais andar. Imagine se considerássemos que o sujeito, só por ter cometido um tropeço enquanto andava, tivesse que ficar paralítico? É o caso do pensamento científico ou simplesmente do pensamento questionador.

Fala-se muito do "tóxico do intelectualismo". E do "tóxico da fé religiosa"? Com exceção de Karl Marx e seus seguidores, que falaram que a religião é o "ópio do povo", não se viu uma abordagem similar com semelhante repercussão.

Pois o "tóxico da fé religiosa" revela um fanatismo furioso de pessoas que, enquanto não são contrariadas, podem trazer a aparente impressão de profundo equilíbrio emocional e de admiráveis qualidades espirituais. Quando se concorda com essas pessoas, elas respondem com muita simpatia, apreço e alegria.

Mas é o efeito Gremlins. Quando contrariadas, as pessoas dotadas de deslumbramento ideológico deixam de ser as "iluminadas" e "abençoadas" pessoas para se transformarem em verdadeiros monstros despejando desaforos ou, mesmo quando tentam dizer palavras "bonitas", mal conseguem esconder sua irritação e desespero.

É por isso que se espera que um religioso apoie pessoas sórdidas como Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e Alexandre Frota, este convertido num "divulgador da boa educação". Os "espíritas" podem ver nos pentecostais algum exagero, mas em muitos momentos eles consentem com tais práticas e até agem de forma semelhante a eles.

Daí que a Escola Sem Partido e figuras como Madre Teresa de Calcutá - que em suas casas de caridade deixava seus "assistidos" em condições sub-humanas, sem higiene, mal alimentados e mal remediados e expostos ao contágio de doenças graves - são aceitas pelos "espíritas", diante daquela visão de "misericórdia" e "ensinamentos cristãos" que o dogmatismo religioso apresenta.

Daí essa "caridade" feita para consumo, uma caridade-mercadoria que é vendida como se fosse enredo de novela, que emociona mais do que mobiliza. Uma "caridade" que só serve para dissimular vaidades pessoais através de um falso sentimento de bondade que defende a "ajuda ao próximo" sem que se mexam drasticamente nas estruturas reais de desigualdades sociais existentes.

É ilustrativo que, no caso de Divaldo Franco e sua "escola sem partido" na Mansão do Caminho, que ensina as pessoas a ler, escrever e trabalhar desde que acreditassem em "crianças-índigo" e outras bobagens, um fanático divaldista, escondido numa comunidade de ateus no Facebook, não conseguiu explicar por que Divaldo é "o maior filantropo do país" ajudando menos de 0,01%.

Faz parte do contexto. Num Brasil ultraconservador, o sentimento religioso medieval, da caridade paliativa, da apologia do sofrimento como "purificador da alma", do fanatismo por ídolos religiosos tidos como "superiores", faz sentido esse clima que propiciou a canonização de Madre Teresa de Calcutá. Só falta agora dar o Prêmio Nobel da Paz ao Eduardo Cunha.