quinta-feira, 17 de março de 2016

E se disserem que Lula "era bondoso"?


Sem querermos aqui ser petistas ou anti-petistas, a pergunta desse título é um convite à reflexão. Aqui não temos propósitos ideológicos, mas para testar até que ponto pessoas podem considerar personalidades "bondosas" ou não.

Hoje o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva foi empossado como Ministro-Chefe da Casa Civil, causando imensa revolta nos seus opositores. A posse se deu um dia depois do juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava-Jato, ter divulgado uma conversa particular entre Lula e a presidenta Dilma Rousseff.

Vieram protestos dos dois lados. A raivosa revolta contra a posse de Lula e pedindo a renúncia de Dilma Rouseff e os protextos, até dentro do local da cerimônia, o Palácio do Planalto, contra a Rede Globo de Televisão, principal manipuladora do inconsciente coletivo nacional, que faz as pessoas falarem como Faustão e Luciano Huck, pensarem como William Bonner e agirem como se estivessem no elenco da novela das nove.

E aí, vem aquela visão reacionária de Lula como "o maior ladrão da História do Brasil", porque está "envolvido" com a corrupção na Petrobras, faz acordos com empreiteiros, combina esquemas de propina, etc etc etc. Muitas dessas acusações não têm provas, mas Lula é hostilizado pela sociedade de qualquer maneira, como um inimigo do establishment.

E aí, suponhamos que alguém venha dizendo: "Lula fez todo esse esquema, mas pelo menos ele é bondoso e, como presidente, ajudou muita gente". Como é que o cidadão médio, que vê o tendencioso Sérgio Moro como "herói da pátria", veria diante dessa ideia?

Nós dizemos isso porque o "espiritismo" que é feito no Brasil foi uma doutrina marcada por muitas fraudes e muita demagogia. Em outros tempos, até era mais sincero no seu desprezo a Allan Kardec, preferindo a mistificação de Jean-Baptiste Roustaing do que o cientificismo do professor francês.

Nos últimos anos, porém, o que se vê é um cafajestismo doutrinário, de uma turma que passou a adotar a chamada "postura dúbia", jurando de pés juntos que mantém "fidelidade absoluta" a Allan Kardec e "respeito rigoroso" à sua obra e no entanto se mantém a mistificação igrejeira que faz o "espiritismo" ser uma espécie de versão mais informal do Catolicismo.

E, diante de tantas denúncias de escândalos de deturpação doutrinária, envolvendo sobretudo os maiores astros do "movimento espírita", Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco. Eles são associados a escândalos graves no "movimento espírita", mas seus seguidores usam sempre a mesma desculpa: "... mas pelo menos eles eram bondosos e ajudaram muita gente".

Três observações põem em xeque o mito de "bondade" de Chico Xavier e Divaldo Franco. Primeiro, porque suas fraudes "mediúnicas" foram gravíssimas, se utilizando de falsidade ideológica, atribuindo mensagens pessoais a personalidades já falecidas.

Segundo, porque eles cometeram certas crueldades. Chico Xavier defendeu a ditadura, ofendeu as vítimas (gente humilde!) do incêndio em um circo de Niterói acusando-as de terem sido "romanos sanguinários" em outra encarnação e ainda fez comentário maldoso quando os amigos de Jair Presente, que conviveram com ele, duvidaram da suposta psicografia que usava seu nome.

Mesmo aparentemente mais "sóbrio" e "elegante", até posando de "kardecista autêntico", Divaldo Franco também fez das suas: como "medium", começou plagiando os livros de Chico Xavier e, como deturpador da Doutrina Espírita, fez coisa pior ainda: espalhou as mentiras igrejistas, com algumas lorotas esotéricas (como as "crianças-índigo", que ele pegou de um ex-casal de estadunidenses) e inseriu as mistificações brasileiras até na França de Allan Kardec!

O que se deve destacar é que esses episódios são comprovados, possuem evidências, as provas são indiscutíveis, os argumentos consistentes. Para piorar, os "espíritas" reagem a isso preferindo ficar à margem da lógica e preferir apenas o que agrada a seus pontos de vista. Daí o mito de "bondade" que eles julgam estar "acima da lógica e do bom senso".

Terceiro, a "bondade" dos dois anti-médiuns é bastante discutível. A de Chico Xavier é vaga, marcada por donativos relatados de maneira superficial, "caridades" que não têm recibo nem rigorosa comprovação. Além disso, são medidas paliativas e pouco transformadoras.

Outro aspecto é que recusar cachê de venda de livros não é em si uma caridade. E se Chico Xavier aparentemente não cobrava taxa alguma para atender as pessoas, isso também não influi muito neste sentido. Até porque ele sempre teve vida confortável, era cortejado pelos poderosos, fazia o jogo das elites, defendia políticos conservadores (os generais da ditadura e Fernando Collor) e, ao morrer, estava internado em um bom hospital de Uberaba.

Divaldo Franco, no ano passado, comemorou demais por pouca coisa. Sua Mansão do Caminho, se constatou, desde seu surgimento a instituição não ajuda mais do que 0,08% da população de Salvador. O risível é que Divaldo é considerado "o maior filantropo do Brasil" e esse índice, se já é vergonhoso em níveis municipais, em nível nacional é deplorável. Imagine o "maior filantropo do Brasil" com índice ZERO de pessoas beneficiadas.

Embora tenha que se discutir seriamente sobre o caso Lula, sem paixões ideológicas de esquerda ou direita, a verdade é que as acusações foram feitas às pressas, repercutidas pelo efeito da emoção e sem qualquer investigação séria e imparcial. O Sérgio Moro posa de imparcial e sem vínculo ideológico, mas aparece sempre nos eventos patrocinados pelo PSDB e pela mídia associada (Globo, Folha de São Paulo, Veja etc).

E aí, se alguém disser que Lula "é bondoso", o pessoal não gosta. O Bolsa Família pode até ser um projeto paliativo, mas com certeza ajuda muito mais do que a Mansão do Caminho do "maior filantropo do Brasil" que ajuda 0.000% da população nacional.

Em todos os casos, são paixões aqui e ali que movem paixões cegas e exageradas, criando "heróis" e "vilões" sem qualquer motivo consistente, movidos por estereótipos - o "bom velhinho" Chico Xavier e o "elegante mestre" Divaldo Franco contra o "brutamontes" Lula - e por convicções meramente pessoais. Pelo jeito, o pessoal anda vendo demais as novelas da Rede Globo.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Brasil e a manipulação da vida amorosa das mulheres

A MOÇA QUE DIZ PROCURAR HOMENS DE CARÁTER NÃO É A DA FOTO À DIREITA.

Recentemente, houve uma declaração de uma famosa que afirmava que procurava um homem que a valorizasse, que valesse pelo caráter e que não se limitasse a dar flores de presente. A famosa em si diz ser "feminista" e alega lutar pela verdadeira emancipação da mulher e pela dignidade feminina.

Que famosa é essa? Uma atriz de novela que, embora sexy, é capaz de circular no aeroporto vestindo roupão? Uma cantora de MPB que vive acompanhada de uma banda instrumental impecável? Uma apresentadora de TV que mostra turismo sob o fundo musical de rock alternativo? Uma jornalista de TV que fala sobre coisas interessantes ou urgentes para a humanidade?

Não. A declaração partiu de Valesca Popozuda, que havia terminado um romance com um rapaz, e que é considerada um dos ícones do "funk carioca", sendo portanto um dos principais nomes do comercialismo musical brasileiro.

Não vamos dizer aqui que ela queira aceitar qualquer tipo de homem ou ficar reprovando a esmo sua posição, mas o grande problema é que ela apenas vê um lado da questão. Será que os chamados "homens legais" também não querem ter mulheres de caráter e que não se limitassem a presenteá-los com uma noite de sexo vestindo o mais curto shortinho?

Ela se diz "feminista" num país em que esta palavra tem seu sentido corrompido, depois que o termo esteve associado, até os anos 90, a militantes radicais não necessariamente atrativas, e passou a ser espetacularizado de maneira surreal, em que mulheres-objeto também podem ser consideradas "feministas autênticas", usando a desculpa esfarrapada da "liberdade do corpo".

Mulheres ficam "mostrando demais" por causa da farsa da "liberdade do corpo" ou do "direito ao sexo" sem parar um pouco para pensar: se elas são donas de seus corpos, por que elas ficam mostrando em excesso na Internet? Elas desconhecem que, quando elas se exibem, "donas de seu corpo", elas na verdade mostram para os outros, exibem não para expressar sua liberdade, mas para serem potenciais escravas simbólicas dos machões.

Elas criam uma ilusão na qual a "liberdade do corpo", seu pretexto maior, esconde, que é a permissividade do erotismo exagerado, traz uma crença de que "tudo é possível" e, por isso, a "disponibilidade" das "solteiras que mostram demais" inspira no público machista, ainda que de forma simbólica e virtual, os faz terem impulsos sexuais desenfreados.

Nem se fala tanto de Valesca Popozuda ou, por exemplo, de Aline Riscado (ex-dançarina do Domingão do Faustão que integra o Pânico na Band), consideradas mais "politicamente corretas" (Valesca já pegou "pesado" em outros tempos, mas não parece se arrepender dessa fase), mas nos casos de Mulher Melão e Solange Gomes, que postaram nas mídias sociais mensagens em que elas se diziam "desejáveis" ou "carentes", ao lado de fotos "apelativas".

MERCADO DA "CULTURA POPULAR" COMPRA ATÉ DIVÓRCIO

O mercado pantanoso da "cultura popular" acaba fazendo esse jogo de promover uma sensualidade compulsiva, forçada e grosseira, que em muitos momentos desmoraliza a mulher solteira e condiciona a emancipação feminina aos limites determinados pelo machismo.

Daí ser ilustrativo o "feminismo pela metade" de Valesca Popozuda, que deseja homens de caráter, gentis e decentes, mas ela se afirmou na carreira fazendo o papel de "objeto sexual" nos espetáculos de "funk". Apesar de ter passado a se vestir discretamente e moderado até no tamanho do silicone, ela demonstra sempre ter orgulho pela sua carreira.

Quer dizer, há o outro lado da questão. Homens dotados de caráter e personalidade diferenciada, que valorizam a mulher de maneira digna, respeitosa e admirável, estão destinados a ter como namoradas apenas mulheres associadas a referenciais culturais duvidosos e a uma imagem grotescamente sensual, que mesmo diante de mudanças tendenciosas de postura se apresentam como motivo de afirmação e ascensão pessoal dessas mulheres.

E são dois pesos e duas medidas. Mesmo o nerd comum, que adoraria ter uma moça muito inteligente, não necessariamente "a mais bonita do mundo" mas suficientemente atraente e interessante para ele, está sujeito a ser paquerado e até assediado por "periguetes" que até são desejadas pelos machistas de suas comunidades.

Aqui há um desequilíbrio de relações amorosas e até no cenário social de mulheres solteiras. A dita "cultura popular" da grande mídia consiste num mercado voraz que, não bastasse empurrar a canastrice musical para os redutos da MPB - nomes como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Alexandre Pires e Belo são exemplos disso - , é capaz de manipular até a vida amorosa das famosas.

Uma ex-integrante do Big Brother Brasil, por exemplo, vivia um casamento feliz, estabelecia sociedade comercial com seu marido, administrando juntos uma loja e parecendo felizes com seus filhos. De repente, da noite para o dia, ela surtou, surgiu uma "briga feia" com o marido, o casal se divorciou e o marido disse que "se arrependeu" de ter se casado com ela, que agora faz o papel de "solteira convicta" se "mostrando" nas mídias sociais.

Para ter "mais uma mulher sensual" no "mercado", os empresários do entretenimento "popular" fazem tudo. É um mercado que vale pelas mentiras e pelo jabaculê praticados sem controle por empresários inescrupulosos que se autodefinem como "produtores culturais". Para eles, vale o sucesso popular a qualquer preço, com produtos de baixo valor - canastrões musicais, mulheres "apelativas" e subcelebridades em geral - e retorno financeiro fácil, maior e imediato.

Daí que eles compram mesmo o divórcio de muitas mulheres casadas, se é do interesse deles recrutá-las para "povoar" as mídias sociais de "fotos sensuais", alimentando os impulsos sexuais de homens de baixo poder aquisitivo ou de baixa instrução escolar e moral.

DEPRECIANDO A IMAGEM DA MULHER SOLTEIRA

Se esses impulsos são perigosos, já que o brutamontes que, na lan house, vê a Solange Gomes "livre, leve e solta" no Instagram parecendo virtualmente "disponível", e depois vai à noite se esconder na mata de um campus universitário para estuprar a primeira moça indefesa que aparecer na frente, eles também mostram a imagem depreciativa que a mulher solteira recebe no Brasil.

Afinal, existem dois pesos e duas medidas. No machismo brasileiro, a mulher contraditoriamente está dispensada de se vincular a um homem se ela faz o papel que o machismo quer dela. Se é a "sensual demais" que mostra seu corpo siliconado, ou se é a "pobre coitada" que se submete às tarefas do lar geralmente ao som de "pagode romântico", então ela está dispensada de ter sequer um namorado.

Se, no entanto, é uma mulher com muita coisa para dizer, marcada pela inteligência, pela criatividade, pelos bons referenciais culturais, ela é "convidada" pelo "sistema" a se submeter à "ação moderadora" de um marido poderoso, geralmente um empresário ou político poderoso, mas podendo ser um simples profissional liberal (economista, médico, advogado), desde que sempre algum homem com maior status sócio-econômico.

Exemplo disso é a atraente ex-jornalista da Rede Globo, Cláudia Cruz, que parecia sofisticada e de personalidade muito interessante, até ser revelado, nos últimos tempos, que ela é esposa do tenebroso deputado federal Eduardo Cunha, um brutamontes político que preside a Câmara dos Deputados e que ameaçou derrubar a Constituição Federal quando governou em nome de convicções pessoais.

O machismo acaba fazendo mal até aos homens diferenciados, e cria uma desigual distribuição de homens e mulheres na vida amorosa, e isso mostra o quanto o "feminismo" de Valesca Popozuda é uma forma velada de machismo, porque ela, ao "desejar homens diferenciados", acaba dizendo que os homens diferenciados não merecem mulheres diferenciadas, mas meros objetos sexuais como as "musas do funk".

A grande mídia - aquela reacionária, como Rede Globo, Veja, Folha de São Paulo, Estadão etc - promove a imagem depreciativa da mulher solteira, como aquela que só quer saber de curtição e erotismo barato, como se mostram as ex-BBBs, mulheres-frutas, popozudas, "musas de futebol", "miss Bumbum" e por aí vai.

Mesmo quando Valesca se lançou como arremedo de "classuda", dizendo que leu até Gustave Flaubert, ela não escapa desse contexto, até pelo tendenciosismo que marca a "cultura" popularesca e bregalizada em geral, quando as pessoas primeiro se afirmam pela cafonice e pelo grotesco tentam se passar por "cultos" e "refinados" em troca de alguma vantagem. É isso que faz com que "pagodeiros" e "sertanejos" da Era Collor tentem se passar por "artistas de MPB" com sua canastrice habitual.

Isso faz com que a mulher solteira seja vista como uma "vagabunda", intimidando as mulheres diferenciadas, que correm para se casar com o primeiro empresário, médico, economista, advogado ou político que encontrarem pela frente, para não "ficarem para titias" ou ganharem a pecha de "encalhadas".

Por outro lado, as mulheres que se reduzem a serem objetos sexuais acabam sendo manipuladas pelo poder midiático a aderir a uma liberdade desenfreada, um celibato forçado e dissimulado por um narcisismo que é vendido como se fosse um suposto feminismo. Em outro contexto, as chamadas "escravas do lar" também são induzidas a apenas brincar de namoradas com afilhados, enquanto são empurradas a um celibato insolúvel sob a trilha sonora de "pagodeiros" e bregalhões chorosos.

Com isso, a vida amorosa das mulheres é manipulada. Intenções como "higiene social" que faz com que no âmbito do "popular" haja a contraditória relação de sexo desenfreado e celibato feminino, torna-se um ponto chave da manipulação machista midiática, causando um descontrole e um caos que depois refletirá na mortalidade do povo pobre.

É isso que faz com que o "sistema" só recomende a solteirice às mulheres que cumprem a cartilha do machismo. Mulheres-objetos e "princesas do lar" podem ficar solitárias e viver longos anos sem uma única paquera, enquanto brincam de carinhos com afilhados ou sobrinhos. Já as mulheres de perfil mais diferenciado têm que moderar sua emancipação sob a sombra de maridos poderosos. O machismo agoniza, mas ainda resiste.

terça-feira, 8 de março de 2016

Rio de Janeiro e a "religião" dos "carimbos" e dos "roquinhos"


Nova Iguaçu vai implantar mais uma seita. A religião do São Carimbo. Seus sacerdotes, isto é, suas autoridades políticas - que têm uma secretaria com o nome pomposo de "Transportes, Trânsito e Mobilidade Urbana" - , vão cobrir os ônibus sob um mesmo manto (batina? burca?) sob promessas milagrosas de "agilidade", "operatividade", "transparência" e blablablá.

Os caras já saem mentindo. Dizem que a tal "padronização visual" das diferentes empresas de ônibus vai "facilitar a identificação" pelos usuários. Como, cara pálida? Esconder empresas de ônibus com uma mesma pintura (empresas como Brasinha, do grupo Flores, e Vera Cruz, originária de Belford Roxo, terão a mesma pintura) nunca é facilitar e sim confundir. Está na cara, ou melhor, nas cores.

Outra mentira é que os políticos daquela cidade da Baixada Fluminense dizem que a pintura padronizada e exigência do processo de licitação - a Lei 8.666, a chamada Lei de Licitações, nunca determinou isso - e os caras-de-pau da Prefeitura de Nova Iguaçu ainda falam que se trata de um sistema de concessão.

Quer dizer, eles concedem as linhas mas ficam com a imagem. A pintura padronizada, seja que desculpa for - consórcio, zonas de bairros, tipo de ônibus etc - , é na verdade um outdoor político que reflete a imagem da prefeitura ou do governo estadual (no caso de linhas intermunicipais). É a religião do logotipo de governo, que promete o "milagre da mobilidade urbana" para todos.

As empresas de ônibus recebem as linhas, mas não podem mostrar sua identidade visual. A concessão fica com a metade porque quem concede quer ficar com a imagem, e se faz "licitação" não para mostrar as empresas, mas para escondê-las da população. Isso é facilitar identificação? Nem em sonhos!

O que os passageiros se esquecem e o Movimento Passe Livre não quer saber (eles deveriam ampliar suas pautas, que andaram atoladas em algum buraco de rua) é que a pintura padronizada, na medida em que esconde as empresas de ônibus, aumenta a burocracia, facilita a corrupção e traz transtornos sérios para os passageiros que, na correria diária, têm mais risco de pegar ônibus errados.

Mas quem é que vai enfrentar a Santíssima Trindade - o "deus" Jaime Lerner, os "jesus" em forma de "micrão" dos secretários de Transportes e o "espírito santo" dos logotipos políticos (os "carimbos") na pintura padronizada (aqueles nominhos de cidade e do Estado estampados nos ônibus, tipo "Cidade do Rio de Janeiro", "Prefeitura de Nova Iguaçu" ou simplesmente "São Gonçalo")?

Quem acredita em mar se partindo ao meio é claro que vai acreditar que logotipozinho estampado em pintura padronizada vai trazer "milagres" como ônibus possantes, com ar condicionado, comprimentos longos (BRTs) - há quem reze para ter BRT até em Santa Teresa, bairro carioca de ruas estreitas e curtas - e chassis de marca sueca (Volvo e Scania), como se isso fosse o transporte coletivo do Paraíso.

Há ônibus com ar condicionado, BRTs e chassis sueco que podem ficar sucateados, se enguiçar, sofrer acidente etc. E se o ar condicionado pifar e as janelas não tiverem abertura, o povo poderá morrer sufocado. Mas aí a gente até imagina os "espíritas" dizendo: ah, eles morreram porque foram patrícios romanos que queimavam cabanas com famílias dentro.

Esse papo todo dos políticos de Nova Iguaçu - é bom lembrar que a Baixada Fluminense é reduto do coronelismo político fluminense, porque no Estado do Rio de Janeiro existe até coronelismo, latifúndio, pistolagem, escravidão e voto-de-cabresto, não é a Ipanema cercada de Maracanãs por todos os lados que se fica pensando por aí - o próprio Eduardo Paes deu em 2010.

Falava-se tudo, todas as promessas que os "mandões" de Nova Iguaçu prometem para o próximo dia 14, em que os passageiros receberão panfletos tentando explicar porque é "ótimo" esconder empresas de ônibus sob uma mesma pintura, algo comparável a explicar por que jogar pimenta nos olhos melhora a visão. Eduardo Paes apenas não teve o cuidado de explicar, mas falou as mesmas coisas.

E aí o que deu? Todo o trágico quadro de decadência do sistema de ônibus do Rio de Janeiro. Com Bilhete Único, BRT, ônibus com ar condicionado e até chassis suecos, as frotas se sucatearam, a corrupção aumentou, a burocracia aumentou e os acidentes mais ainda, com saldo de mortos de fazer os antigos brutamontes do DOI-CODI (órgão de repressão da ditadura) ficarem de cabelos em pé.

Não bastassem os passageiros pegarem ônibus errado por causa da pintura padronizada, cobradores irem para o olho da rua porque quem cobra passagem agora é o motorista, ônibus circularem sucateados e tudo, ainda tem os trajetos esquartejados que obrigam pessoas a pagarem mais passagem com dois ou três ônibus, porque o Bilhete Único tem tempo limitado e nem sempre funciona.

E como o Estado do Rio de Janeiro é considerado um dos mais religiosos do país, em que o fundamentalismo movimenta até um exército de troleiros ou trolls - espécie de Estado Islâmico da opinião pública, terroristas da palavra, jagunços que fuzilam reputações nas mídias sociais - , qualquer arbitrariedade é considerada divinizada e qualquer sofrimento, um "sacrifício necessário" para o benefício da população. Que benefício?

E O "ROQUINHO" DE CADA DIA

No Rio de Janeiro, se diviniza até time de futebol. O fanatismo pelo futebol dos cariocas - fenômeno igual só existe no Rio Grande do Sul, pois mesmo em São Paulo e Minas Gerais o fanatismo existe e não é pouco, mas também chega ao "fundamentalismo da bola" de fluminenses e gaúchos - é tanto que muitas pessoas, quando querem conhecer alguém, primeiro perguntam o time para depois perguntar o nome.

Mas a divinização também atinge o rock. Num Estado que diviniza logotipos de prefeituras por causa da nefasta pintura padronizada e transforma secretários de Transportes em semi-deuses, faz sentido que emissoras de rádio cretinas sejam divinizadas pela promessa de tocar aquilo que chamam de "rock".

E aí vem a Rádio Cidade enganando o pessoal do Grande Rio com sua bandeira de "Rock de Verdade", espalhada em outdoors, transdoors e banners de Internet, com todo o discurso pelo "autêntico rock'n'roll", quando se constata a dura verdade: a equipe de radialistas da "heroica" emissora carioca não tem um mínimo de envolvimento nem vivência com rock.

Na verdade, eles vieram da Jovem Pan, Mix, tem até um coordenador "sertanejo" da antiga Beat 98 apelidado de "Van Damme". Todos levantando a bandeira do "roquenrooooool!!!!", inclusive aquelas meninas tresloucadas que parecem versões neuróticas da Emília do Sítio do Picapau Amarelo (pintam tanto o cabelo e maquiam demais o rosto que dá nisso), como se a "galera" radialista que aprendeu a trabalhar numa Mix FM e tocar Justin Bieber fosse capaz de encarar até um Cannibal Corpse.

Você sintoniza a rádio e nada de lá lembra uma rádio de rock de verdade. Os locutores são animadinhos, falam como maricas, fazem piadinhas sem graça, e posam com caras e bocas para fotos publicadas no Facebook. Há trocentos programas de piadinha, até sobre futebol (sob uma mal disfarçada influência do Pânico da Pan), mas nenhum de rock'n'roll. Quanto tem programa de rock, faz apenas aquela linha "grandes sucessos", tipo um "Top 40" de ontem, hoje e amanhã.

Mas como o pessoal do Rio é muito religioso, os bovinos ouvintes da Rádio Cidade aceitam qualquer coisa, desde que siga aquela sequência ininterrupta de músicas com algum desses ingredientes: vocal desesperado ou agonizante, guitarras distorcidas, algum solo virtuose ou alguma canção acústica com um vínculo histórico ao rock. Na pior das hipóteses, algum acústico do Nando Reis.

PASMEM, ESSES "ENGRAÇADINHOS" PENSAM QUE SÃO OS "MAIORES ROQUEIRÕES" DO GRANDE RIO.

Pouco importa se o que estiver tocando na rádio é uma banda pós-grunge de quinta categoria ou algum clássico do rock que o hit-parade autoriza a tocar, se é uma sequência de sons "radicais" sem que surja uma voz robotizada ou alguma batida eletrônica - até as vozes femininas têm que soar desesperadas, nada da voz miudinha de Britney Spears nem do vocal robotizado da Nicky Minaj - , tudo bem, ainda que ouça sempre as mesmas músicas e os mesmos hits a cada quatro meses.

Falam da Rádio Cidade como "rádio rock" como se Deus tivesse determinado isso. Os ouvintes tratam o rock como religião e, com isso, jogam no lixo a lógica e até a própria natureza do rock. E, para piorar, nem os roqueiros autênticos parecem muito dispostos a combater a Cidade.

Nos anos 80, a Estácio FM (da Universidade Estácio de Sá), zilhões de vezes melhor que a Cidade, foi golpeada e irremediavelmente extinta. A Rádio Cidade até saiu do ar em 2006, e voltou em 2014 tão ruim quanto era há dez anos, mas de vez em quando surge algum roqueiro autêntico com esse papo de "não vamos combater a rádio, ela tem seu espaço e nós temos os nossos".

Que espaço os roqueiros autênticos têm? Webradios que consomem muita bateria quando sintonizadas no celular? Ou será que o pessoal vai, resignado como carneirinhos - algo bem anti-rock'n'roll - , ligar os 102,9 mhz e fingir que o Deep Purple, com tantos e tantos anos de carreira, só gravou "Smoke on the Water"?

Cadê a rebeldia do rock? Cadê o tal "marketing de guerrilha" para combater os bobos-alegres da Rádio Cidade e jogar a emissora para as mais baixas posições do Ibope? A rádio até cai em audiência, mas os caras depois compram sintonia em academias de ginástica (?!), concessionárias de carros e quiosques de praia e depois inventam que estão com a audiência nas alturas, por mais que a liderança do segmento jovem hoje esteja dividida, no Grande Rio, entre a Mix e a Top Rio FM.

O pessoal prefere guerrear com bonequinhos de Minecraft do que protestar contra uma rádio que nem tradição tem com o rock - a Rádio Cidade nunca teve histórico de rádio de rock, só foi pegar carona na extinção da Fluminense visando uns trocados publicitários e passar a perna de outras rádios pop com um "produto diferente" - e que nunca teve vocação nem competência para o gênero. Ainda mais comandada por um fanático por "sertanejo universitário" como o tal de Van Damme.

Em nome da religião, ou pelo menos da maneira religiosa de se ver as coisas, as pessoas acabam perdendo o discernimento das coisas. Ninguém percebe, no caso dos ônibus padronizados, a ganância política de autoridades que nada fazem pelo cidadão terem que apresentar suas logomarcas nas frotas de ônibus que circulam nas cidades.

Da mesma forma, ninguém é capaz de discernir que uma rádio comercial, que nunca teve tradição, nem competência e muito menos vocação para rádio de rock, passa a assumir "definitivamente" esse perfil, monta seu repertório musical já previamente selecionado pelos executivos de gravadoras.

O pessoal prefere então rezar para que melhorias surjam do nada, que os ônibus padronizados se transformem em comboios de perfeição e eficiência, provavelmente com Jesus dissolvendo os congestionamentos nas ruas, e uma rádio comercial passe a tocar mais rock depois de seus ouvintes lerem alguma passagem da Bíblia ou de um livro de Chico Xavier.

Isso é mau. A religiosização trava o discernimento, corrompe a mente, obscurece a razão, causa deslumbramentos e fanatismos sem a menor necessidade. E é isso que provoca a crise no Estado do Rio de Janeiro, já que esse modo religiosista de encarar as coisas só está degradando a vida, com passageiros sofrendo acidentes de ônibus e roqueiros tendo que suportar breguices fantasiadas de rock como os finados Mamonas Assassinas. A fé cega derrubou o povo do Grande Rio.

terça-feira, 1 de março de 2016

Exemplos insólitos de apego e fanatismo


O Brasil é um país surreal. Seu cotidiano é uma verdadeira tragicomédia, na qual a religião e os valores moralistas, mal digeridos, inspiram sentimentos e abordagens que soam estranhos quando são descritos, mas que constam no inconsciente coletivo de maneira surpreendentemente convicta.

Criam-se tabus, fanatismos, santificações fora das igrejas, tempos ou mesmo de "centros espíritas". Criam-se neuroses moralistas das mais absurdas. Criam-se histerias e temores inesperados, por motivos que, em tese, parecem inimagináveis.

Um exemplo. Num país em que perdemos, prematuramente ou no auge da produtividade, grandes artistas, intelectuais e cientistas, o maior medo de parte da sociedade está em ver feminicidas conjugais ricos morrerem de repente.

Sim. Isso mesmo. Homens que assassinam suas mulheres e se livram da cadeia não podem morrer. Dizer que um feminicida idoso sofre de câncer é um tabu, as pessoas reagem a qualquer rumor desse tipo, por mais construtivo que seja, é visto como "ofensivo".

Quer dizer, se perdemos um comediante aos 44 anos, as pessoas se resignam, dizem coisas como "é a vida", e tudo o mais. Se é um músico de rock pesado que morre nessa idade, há até torcida para ele morrer.

E são as mesmas pessoas que, no entanto, quando se fala que aquele rico que matou a namorada ou esposa, seja ele com 44, 79 ou 82 anos, pode estar com câncer ou sofrer risco de infarto, se irritam e reagem gritando "deixem ele em paz!". Os mesmos que assim gritam são os que não veem a hora de um headbanger "bater as botas", estando nas mesmas condições.

RELIGIOSIZAÇÃO

Mas o outro aspecto surreal é a perspectiva religiosa que se tem a coisas não-religiosas, como decisões e fenômenos nem muito bons assim, mas que são encarados como se fossem resultantes da "vontade divina", aceitos como se a "vontade de Deus" tivesse decidido por tal coisa.

O caso da Rádio Cidade, na condição de pretensa rádio de rock, é um exemplo. Os fanáticos ouvintes da emissora carioca tratam a experiência dela no segmento rock - que, em verdade, é extremamente ruim, só para usar uma definição mais educada - como se fosse uma "decisão de Deus", tamanha a devoção e o fanatismo mais típicos de beatos religiosos.

São pessoas que, segundo reclamam muitos roqueiros sérios que nem se atrevem a sintonizar os 102,9 mhz das ondas de FM no Grande Rio, não sabem sequer o que estão ouvindo, se contentando em apenas ouvir uma sequência ininterrupta de sons qualquer nota desde que tenham uma roupagem que alterne entre guitarras distorcidas, virtuoses guitarrísticos ou músicas semi-acústicas com algum vínculo aparentemente roqueiro.

Eles nem estão aí se o que toca é Nirvana ou Smash Mouth, Metallica ou Creed, ou se rasga a seda do Guns N'Roses ou só toca dois sucessos do Pink Floyd, desde que o repertório não saia do desfile de guitarras em solo ou em barulheira e vocais que se alternam entre o berro e o sussurro sonolento, entre a "voz de vômito" e o "grito em prisão de ventre". Só aceitam "sair da linha" quando é um Nando Reis cantando uma balada acústica, por exemplo.

O mais incrível disso é que a Rádio Cidade nunca teve tradição no rock - ela havia se consagrado como uma rádio pop - , não tem vocação no gênero (há e houve uma zaralhada de rádios bem melhores que ela) e sua performance no segmento é, na melhor das hipóteses, desastrada, mais preocupada em criar programas de besteirol do que uma programação séria de rock. Seus locutores vêm até de experiências com radialismo pop e brega, mas não são especializados em rock.

A gente até pergunta qual é o interesse dessa FM extremamente medíocre - ela é só uma grife, uma marca, mas a programação rock é um lixo - em trabalhar o rock. Será uma zoada de uma parcela de ouvintes de FM que sempre odiou a Rádio Cidade original, a de 1977? Ou será a frustração dos donos da rádio, que sentiram ciúme do sucesso da Fluminense FM e, por isso, ficaram decepcionados em ver que a Cidade FM não alcançou o mesmo prestígio?

"BEATAS DE SÃO CARIMBO"

Como se não fosse suficiente a religiosização de uma FM supostamente roqueira (e desastrosamente roqueira, admitamos), ainda há outros casos de religiosização, num Estado do Rio de Janeiro predominantemente religioso - é a principal arena de luta entre católicos, neopentecostais e "espíritas" - , que diviniza times de futebol (Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo) e endeusa até mesmo políticos fascistas, como Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro.

Há o fanatismo pela pintura padronizada nos ônibus, que não é um fenômeno exclusivamente carioca, é um fenômeno nacional - Jaime Lerner é tratado como se fosse a reencarnação de Moisés - , mas tem no Estado do Rio de Janeiro seu reduto de fanatismo, uma espécie de "Estado Islâmico" sobre rodas.

Se a gente percebe que os políticos têm medinho de abrir mão de colocar logotipo de prefeitura ou governo estadual nas frotas de ônibus, municipais e, em muitos casos, intermunicipais, como se um logotipo bobo pudesse trazer milagres para o sistema de ônibus e a mobilidade urbana (esta cada vez mais desmobilizada, para não dizer imobilizada, uma "mobilidade" tetraplégica), imagine as pessoas comuns.

Houve até trolagem de fanáticos por pintura padronizada, que pouco estavam aí para o problema de o fato de empresas de ônibus diferentes terem a mesma pintura vá prejudicar a população e facilitar a corrupção político-empresarial.

Tinha até busólogo psicopata que não aguentava ver sequer petição na Internet pedindo o fim da pintura padronizada e buscava zoar de qualquer maneira. O esquentadinho comprou tanta briga que quase abriu seu peito para o revólver dos milicianos, porque, de tanto visitar as cidades de seus desafetos (estes que discordam dos chiliques pró-padronização do busólogo-problema), passou a ser "paquerado" pela "máfia das vans", sempre desconfiada com "estranhos no ninho".

De repente a pintura padronizada virou uma "religião", logotipos de prefeituras e governos estaduais e o fato de diferentes empresas de ônibus usarem a camisa-de-força das "pinturas de consórcios", que trazem mais burocracia e custos - há mais obrigação de mudar a pintura de ônibus que operam de um ramal de linhas para outro - , tornou-se uma obsessão doentia de autoridades e tecnocratas.

Entre os busólogos, é até irônico que os fanáticos por pintura padronizada tenham, de início, ironizado seus questionadores, xingados de "viúvas de latas de tinta", quando a euforia neurótica e ensandecida dos defensores da PP (pintura padronizada) os faz tornarem-se "beatas de carimbo de prefeitura", tamanho o seu fanatismo que, em certos casos, beira à debilidade mental.

A obsessão é tanta que, quando a pintura padronizada se torna uma medida decadente, as autoridades, em vez de liberar o direito de cada empresa de ônibus ter sua própria identidade visual - o que traria maior transparência, maior comodidade para o passageiro e diminuiria a burocracia e os custos de repintura - , preferem mudar o leiaute da pintura padronizada, trocando as cores-padrão antes vigentes por cores-padrão novas, o que é trocar o seis por meia-dúzia.

Isso é fanatismo, apego a medidas que não trazem qualquer tipo de funcionalidade, não garantem transparência, não trazem qualquer vantagem para os passageiros, e além disso agrava a burocracia, encarece o transporte, favorece a corrupção, até porque empresas boas e ruins passam a ter a mesma pintura e os passageiros nem tem ideia de que empresa realmente serve o ônibus que pega.

No Rio de Janeiro, teve empresa de ônibus que mudou o nome e ficou na mesma porcaria. Tem linha de ônibus que mudou de empresa, tem linha de ônibus operada por mais de uma empresa, tem ônibus circulando com pintura padronizada mas com documentação vencida, e os passageiros são sempre os últimos a saber, se é que são informados de alguma coisa.

Até empresas de ônibus que eram consideradas boas e que servem áreas como a Zona Sul estão com frota sucateada, provocam acidentes fatais, têm pneus se soltando, lataria amassada, rodando com parafusos soltos, ar condicionado sujo, teto com goteiras, assento de banco se soltando.

Além disso, com a divinização que os cariocas dão aos secretários de Transportes, eles se tornam autoritários graças a esses "poderes divinos" e acabam fazendo o que querem. Além de botar diferentes empresas de ônibus sob a mesma cor, eles demitem cobradores de ônibus por causa da dupla função dos motoristas e hoje andam esquartejando itinerários de ônibus da maneira que querem.

SEGREGAÇÃO SOCIAL NÃO ASSUMIDA

Linhas funcionais foram extintas ou tiveram percursos reduzidos sob a desculpa de "otimizar" e "racionalizar" o sistema de ônibus. A ligação direta entre a Zona Norte e a Zona Sul está sendo extinta aos poucos, por causa dessa bobagem de "linhas alimentadoras e troncais" que só força o passageiro comum a gastar mais de uma passagem e viajar em pé no segundo ônibus.

Integrante de uma rica família de latifundiários, o secretário municipal de Transportes, Rafael Picciani, um mauricinho que nunca viajou de ônibus na vida, acha que tais medidas são "benéficas", e ainda tem o descaramento de desmentir o óbvio: o fim da ligação direta Zona Norte - Zona Sul é um processo de segregação social, para dificultar o deslocamento da população suburbana (Zona Norte) para os bairros da Zona Sul, e não só para suas praias, mas para os estudos e o trabalho.

Pior: as autoridades, para "dispensar" a população suburbana de se deslocar para as praias naturais cariocas - o corredor litorâneo "do Leme ao Pontal" cantado por Tim Maia - , criou uma praia minúscula, a de Rocha Miranda, no Parque Madureira, que é desastrosa por ter horário de funcionamento restrito, que abre num horário desaconselhado por dermatologistas, às 9h da manhã.

Mas as autoridades não estão aí para recomendações médicas. Muitos especialistas apontam erros na Praia de Rocha Miranda, e sua pequena extensão - um laguinho e alguns chuveiros - , correspondente a um oitavo da área de Copacabana, é obviamente insuficiente para a enorme população suburbana que as autoridades cariocas destinaram a "magnífica praia".

Imagine a extensão das áreas envolvidas, com base no roteiro de linhas esquartejadas. A população suburbana que deixaria a Zona Sul para ir ao Parque Madureira vai desde Jacarepaguá a Inhaúma, do lado Sul-Norte dos pontos cardeais, e de São Cristóvão e Tijuca até Realengo, no lado Leste-Oeste. É uma área enorme para ser destinada uma praia com laguinho com o tamanho de uma piscina de clube esportivo.

As pessoas veem as coisas sob o prisma religioso e aceitam sofrer esperando que Deus lhes traga algum benefício. Esperam o benefício vir com a prece e ele não vem. Os dias passam, os prejuízos se acumulam, e as pessoas só rezando.

Elas divinizam pessoas, instituições, emissoras de rádio, times de futebol, logotipos de prefeituras e governos estaduais, e, diante da crise, ainda correm para ler livros religiosos ruins de autores que surgiram do nada para se enriquecerem através do palavreado da fé.

Assim, as pessoas se apegam a coisas nem tão boas, de maneira desesperada, sem saber que são prejudicadas, que poderiam ter uma coisa melhor se abrirem mão dos entulhos no qual, simbolicamente, se agarram com fé cega e intransigente. Se tornam fanáticas e obsediadas, e se enlouquecem quando são questionadas no seu deslumbramento cego a coisas chinfrins ou ruins.

É por isso que o Brasil passa por uma situação decadente, e as pessoas acham que crise só existe quando falta dinheiro. O problema não é falta de dinheiro, até porque o país tem muito dinheiro, o problema é que poucos têm demais e muitos não tem sequer o que precisam.

A verdadeira crise é a de valores, princípios e medidas e a crise se torna ainda pior quando as pessoas se recusam a admiti-la e fogem para o entretenimento anestesiante da literatura água-com-açúcar, da mediocridade musical e da imbecilização cultural em geral. Se as pessoas não conseguem admitir sua própria crise, é porque essa crise atingiu níveis alarmantes.