terça-feira, 26 de janeiro de 2016

"Espiritismo" brasileiro só quer que você "aceite as coisas"

SEGUNDO OS "ESPÍRITAS", ESTE É UM INSTRUMENTO PERIGOSO E MALICIOSO.

O "espiritismo" brasileiro, em tese, apoia a busca do Conhecimento, a ação da Ciência, a prática da Lógica, e valoriza a inteligência humana. Mas tão somente em tese. Na realidade, porém, o que está por trás de tanta retórica está o contrário disso tudo.

É bom desconfiar quando enunciados são desmentidos pelos pormenores, quando a teoria é contrariada pela prática, quando o conteúdo revela-se oposto ao que a aparência sugeria. E isso se observa no "espiritismo" brasileiro, que pelo seu histórico sempre demonstrou ser contrário à verdadeira busca do Conhecimento e da Lógica.

Surgido em 1884, o "movimento espírita" brasileiro teve sua raiz formada pela adesão de dissidentes católicos. A opção original era a obra de Jean-Baptiste Roustaing, e não de Allan Kardec, considerado "indigesto" e "complicado" para aqueles religiosos.

Além disso, o "movimento espírita" buscava respeitar a religiosidade conservadora, até por uma questão de sobrevivência, porque a prática de curandeirismo fazia os "espíritas" serem perseguidos pela polícia. Daí que a doutrina brasileira sempre desenhou seus princípios a partir das tradições trazidas pelo Catolicismo português.

O Catolicismo português formou o padrão de religiosidade que o Brasil exerceu desde o período colonial. É conhecidíssima a ação dos jesuítas, sobretudo José de Anchieta e Manuel da Nóbrega. Não por acaso, Nóbrega reapareceu no "movimento espírita" através de Emmanuel, mentor de Francisco Cândido Xavier.

E o Catolicismo português ainda era medieval. Há registros de práticas de inquisição e condenações à queimada em praça pública de hereges à fé católica. O autor teatral, o brasileiro radicado em Portugal, Antônio José da Silva, o "Judeu", foi morto queimado em praça pública aos 34 anos, em 1739, quando o Iluminismo, conhecida filosofia humanista, já repercutia na Europa mais desenvolvida.

"ESPIRITISMO" APROVEITOU O QUE HÁ DE VELHO NO CATOLICISMO

O conteúdo moralista do Catolicismo pode ter aberto mão de condenações tão cruéis, como a queimada pública, a forca e a decapitação pela guilhotina, mas manteve sua essência praticamente intata até a Igreja Católica começar a ser pressionada pelas transformações da modernidade, em meados do século XIX.

Daí ser curioso que o "espiritismo" aproveitou do Catolicismo o que ele já tinha de velho, e, com seu inicial desprezo a Allan Kardec, compensou tal ignorância propositalmente decidida com dois conceitos herdados da Idade Média.

No nível doutrinário, o "movimento espírita" brasileiro tomou como base os valores moralistas da Igreja Católica e adaptou seus ritos e dogmas. Um exemplo é adaptar a classificação de "santos" para o conceito de "espíritos de luz", criando uma "canonização" sem a burocracia do Vaticano, apenas pelos clichês de "bondade", "humildade" e "caridade" apresentados.

Além disso, o "espiritismo" criou equivalentes aos eventos católicos. A missa católica virou "doutrinária". A penitência, o "tratamento espiritual". A novena, o "Evangelho no Lar". A igreja católica, o "centro espírita". O confessionário, "auxílio fraterno". A "água benta", "água fluidificada". A ideia do Céu e do Inferno, a concepção do "mundo superior" e do "umbral". O "pecado original", o "resgate moral". E por aí vai.

No que se diz ao âmbito da espiritualidade, o "espiritismo" compensou o desprezo às teses científicas de Allan Kardec com as práticas hereges de ocultismo, curandeirismo e esoterismo, também medievais. Bruxarias, feitiçarias, quiromancias e outros ritos eram adaptados à maneira light de homeopatias, arremedos de psicologia e astronomia e uma mediunidade fingida.

Em vez de se desenvolver uma mediunidade séria, conforme as recomendações originais de Kardec, o que se viu foi uma prática que combinava "tábua Ouija" (espécie de "brinquedo" em que pessoas faziam jogos de pergunta e resposta com "fantasmas"), bola de cristal e feitiçaria. Até as "curas espirituais" adotavam métodos que passavam à margem do verdadeiro trabalho científico.

Com isso, o "espiritismo" que cortou os pés do pensamento kardeciano, escolheu velhas muletas medievais, combinando o moralismo católico com heresia ocultista, como se fosse um resultado de um hipotético acordo entre a Igreja Católica do período bizantino com os hereges antes condenados à morte.

ROUSTAING FOI REJEITADO POR MOTIVOS POLÍTICOS

Eles combinavam um "arranjo" para compensar a rejeição ao cientificismo kardeciano, e tomaram como fonte primária o livro Os Quatro Evangelhos, de Jean-Baptiste Roustaing. O roustanguismo continua valendo até hoje, mas por razões de disputas institucionais, o nome de Roustaing, associado à alta cúpula da Federação "Espírita" Brasileira, foi rejeitado por motivos políticos, enquanto o nome de Allan Kardec passava a ser bajulado pelos grupos "regionalistas" (das federações regionais).

Um breve histórico do "movimento espírita", que adotou Chico Xavier como seu maior propagandista, encarnando (vejam só o termo) o estereótipo do "caipira humilde" que estabeleceu um jogo de contrastes ideológicos - o "fraco que ficou forte", o "ignorante que virou fraco", o "derrotado que venceu", o "pobre que era rico", entre outras coisas - para manipular as emoções das pessoas, mostra o quanto a vocação kardeciana foi jogada no lixo.

Eles agora tentam bajular Kardec e, com tanta gente acostumada com a mistificação e a construção de totens inabaláveis, há quem pense em recuperar as bases kardecianas mantendo Chico Xavier e seu seguidor Divaldo Franco (que optou por outro estereótipo, mais "professoral" e pseudocientífico, embora delirantemente esotérico) como enfeites, só por causa da "bondade".

E aí vemos um Brasil conservador se ajoelhar a essa doutrina neo-medieval, o "espiritismo" brasileiro, que através de Chico Xavier incorporou o que havia de mais retrógrado no Catolicismo, como a Teologia do Sofrimento, expressa de maneira explícita por muitas frases do "médium" mineiro, que recomendava aos sofredores "aceitarem suas desgraças" em silêncio, sem reclamar.

Sim, Chico Xavier pedia para os sofredores esconderem seus sofrimentos, até deles mesmos. Sofrer dificuldades pesadas, aceitar tudo e entregar a salvação a uma figura até agora misteriosa como Deus. Se você é humilhado, sorria. Se a vida não está de acordo com seus planos (e não falamos desejos, mas PLANOS!), aceite tudo da forma que vier.

Se você tem dons para ativista cultural através do trabalho de servidor público mas só lhe resta optar entre ser flanelinha de rua - buscando espaços e, talvez, disputando com rivais com sede de sangue - ou ser um repórter de uma FM corrupta que um ex-político adquiriu com desvio de dinheiro público para grandes obras (que ficaram paradas).

Se um rapaz deseja uma mulher com a personalidade de Natalie Portman (e não destacamos a beleza, mas a PERSONALIDADE!) e só lhe resta no seu caminho uma siliconada arrogante e exibida que nada tem a dizer, então "tenha fé em Deus" e aceite essa moça que lhe vem ao caminho e "dialogue" com ela, como se fosse fácil resolver as diferenças e moldar a moça de acordo com as perspectivas do rapaz.

"NÃO QUESTIONE. ACEITE O SOFRIMENTO E CONFIE EM DEUS"

A ideia é não questionar, e recentemente muitos artigos do "movimento espírita" de diversas fontes faz a mesma recomendação: se encontra dificuldades insuperáveis no caminho, "aceite e confie em Deus". "Mude seus pensamentos", "nos momentos de maior angústia, sorria", "quando humilhado, perdoe e agradeça", "quando tudo acontece o contrário do esperado, faça o inesperado".

É tudo assim. Um jogo de desilusões e ilusões. Quando você se desilude e passa a desenvolver outros dons e outras visões, as circunstâncias se tornam adversas e, mais uma vez, você terá que desaprender o que aprendeu. Você se torna brinquedo dos próprios infortúnios, e ainda por cima tem que se comportar como um debiloide aceitando, agradecendo, vibrando pelo próprio algoz.

Ficamos imaginando se, caso seguíssemos os conselhos dos "tão maravilhosos espíritas", um negro com cabelo crespo que é xingado de "cabelo de esponja de aço" tenha que bancar o bondoso e, "misericordioso" com os inimigos, dizer alegremente que cortou um pedaço de cabelo, botou detergente e esfregou numa panela e ela ficou limpa e brilhando. Será que perdão é também faltar com o respeito a si próprio?

Não raciocine, não questione. Usar o cérebro virou "maldição". Saber é "perigoso", raciocinar é "arriscado", o melhor é "acreditar" e "aceitar", mesmo que seja em detrimento da lógica e do bom senso. Só no Brasil tem respaldo essa ideia aberrante e absurda da "overdose de raciocínio", como se buscar a lógica e a coerência fosse sinônimo de "pensar demais", de "excesso de ciência".

Aceitar, aceitar e aceitar. O sofredor é que tem que mudar seus pensamentos, ficar feliz com as limitações e desgraças que acumula na vida, esperar as "graças futuras", como o bom religioso da Teologia do Sofrimento, aquela ideologia que diz que "sofrer é lindo" e que, lá fora, fez a Madre Teresa de Calcutá ser definida como um "anjo do inferno".

Aqui, porém, aceitar o sofrimento e ficar calado é "ativismo". Abrir mão de ideias, vontades, projetos e interesses de vida por causa das dificuldades, criando um racionamento de nossos próprios potenciais, nossos próprios dons, é "autoconhecimento" e "ativismo". Agradecer e servir aos algozes é "lição de vida" e tudo isso é trazido por uma doutrina "espírita" que trai o próprio Codificador.

Assim não há vida que possa se seguir tranquila em frente. Até porque, segundo o "espiritismo", temos que aceitar o sofrimento e as desgraças e seguirmos adiante com isso. "Superação", para os "espíritas", é a pessoa deixar de ser ela mesma para "vencer na vida". Ideia muito triste e lamentável.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Por que a mídia brasileira avacalha tanto a imagem da mulher solteira?

A EX-BBB PRISCILA PIRES PERSONIFICA ESTEREÓTIPOS QUE A GRANDE MÍDIA ATRIBUI À MULHER SOLTEIRA: APEGO À CURTIÇÃO E AO SENSUALISMO.

O Brasil tem uma das piores mídias do mundo. Isso influi em muitos aspectos, até no "espiritismo" que temos, igrejista, mistificador e hipócrita, e em muitos hábitos e crenças que seguem mais a cartilha de sociedades conservadoras e obscurantistas do que da modernidade de hoje.

Muito se fala das manobras que a grande mídia reacionária e corporativista faz. Defende os interesses de grandes grupos empresariais em detrimento do interesse público, e confunde o direito de fazer oposição ao Partido dos Trabalhadores com a depreciação gratuita do partido e de seus políticos, da "livre" difamação que se faz contra Lula, Dilma Rousseff, José Dirceu, José Genoíno etc.

Mas esses são apenas alguns aspectos principais. Há preconceitos sociais cruéis expressos, às vezes sem muita sutileza, nos programas humorísticos e nos comerciais de publicidade. Alusões a machismo e racismo aparecem em mensagens aparentemente bem humoradas. E há o noticiário policialesco, acusado de moralista e de glamourizar a violência.

O que poucas pessoas conseguem notar é que até a imagem da mulher solteira é depreciada, até com certa perversidade, pela grande mídia. Mas como certas manobras de depreciação social acontecem sob o véu do "popular", a opinião pública evita dar comentários maiores.

Sob o manto do "popular", tende-se a aceitar tudo, como se fosse um universo tomado pela "inocência" e pela "despretensão". Se fosse assim, como explicar os fratricídios, parricídios e homicídios diversos que ocorrem nas roças e subúrbios? O cara esfaqueou alguém porque queria testar o funcionamento da faca? E o assaltante comete esse crime porque quer se divertir?

E por que o problema da mulher solteira não é levado em conta? Por que muitos dos analistas da mídia são pessoas casadas e não conseguem ver o problema. E as mulheres solteiras que realmente trabalham também não conseguem acompanhar a mídia popularesca, até pelo "bom preconceito" de que o entretenimento "popular" está às mil maravilhas e, para qualquer problema, a Lei Rouanet resolve para transformar qualquer siliconada numa "nova Audrey Hepburn".

ESTEREÓTIPO DE SOLTEIRA INCLUI PÉSSIMOS REFERENCIAIS CULTURAIS

Mas a verdade é que a mulher solteira é um tipo massacrado pela grande mídia. Ela é depreciada através dos estereótipos que a exploração midiática, principalmente em páginas de celebridades (ou subcelebridades, em quantidade maior que as celebridades, o que revela que "esquecíveis" querem sempre ser lembrados), trabalha constantemente.

Através de "exemplos" que surgem aos montes - destaca-se Solange Gomes, Priscila Pires, Geisy Arruda, Mulher Melão etc - , esses estereótipos sempre apelam para péssimos referenciais culturais e para um estigma de que a mulher só quer solteira para "curtir" e "sensualizar", como se ela fosse uma "vagabunda" ou "irresponsável", segundo a ótica machista.

Geralmente a mulher solteira tem um péssimo gosto musical, se apega demais às noitadas e fica mostrando o corpo sem necessidade. É capaz de ir a um velório usando um vestido colante, apertado e curto, Ou, quando muito, um vestido "comportado" que, no entanto, deixa um "decote generoso" para os seios siliconados da moça.

A solteira sempre tem que ter os ouvidos sujos. Ela curte preferencialmente ritmos de gosto duvidoso como "sertanejo", axé-music, "pagode romântico" e "funk". E, quando tenta curtir MPB ou Rock Brasil, sempre pauta no que a Rede Globo de Televisão impõe como o que deve ser ouvido.

Não fossem as trilhas sonoras de novelas da Rede Globo, mesmo a solteira "um pouco mais intelectualizada" nunca iria apreciar Elis Regina ou Cássia Eller, não cantaria uma música de Tom Jobim e nunca ouviria Gonzaguinha para ficar berrando "É a vida, é bonita e é bonita! No gogó!".

O "grosso" das solteiras são aquelas que usam o corpo como mercadorias. Aí o machismo traz seu aspecto cruel. A mulher que não quer se casar nem ter um namorado é vista como "coisa", sua "missão" e seu "trabalho" são exibir seus corpos, porque o que importa é o corpo, aliás, nem o corpo, mas os peitos e glúteos reforçados por silicones.

Aí é que a coisa se agrava. A mulher solteira não tem valor, o valor dela não está nela, mas em quatro bolsas de silicones, que forjam um erotismo forçado, um sensualismo obsessivo, ininterrupto, repetitivo, grotesco, um sensualismo "na marra" que derruba qualquer possibilidade de sedução, porque a verdadeira sensualidade é sutil, eventual e discreta.

Uma inserção de quatro bolsas de silicones, as maiores para os glúteos, e sua combinação, em resultado grotesco e forçadamente sensual, nos corpos femininos, é o único sentido dominante da mulher solteira, reduzida a um mero objeto sexual.

Fora dessa órbita popularesca, mesmo as solteiras mais "discretas" ou "cultas" não escapam de estereótipos cruéis. Na classe média baixa, há a "coitadinha" que gosta de "pagode romântico" e "forró eletrônico" e que tem um comportamento submisso e ultraconvencional, que até ouve MPB, mas só as canções incluídas nas trilhas de novelas das 21 horas que ela tanto gosta de ver.

Há, por outro lado, as moças "descoladas", como as muitas musas de blocos de ruas do Rio de Janeiro ou uma parcela de ativistas, acadêmicas, atrizes ou musicistas "mais bacanas". Se as "coitadinhas" enfatizam o "mau gosto" das músicas que ouvem e só escutam a "MPB de trilha de novela", as "descoladas" enfatizam a MPB, mas são também "receptivas" às breguices culturais, que veem como "provocativas".

Há também a tendência das mulheres solteiras preferirem tatuar seus corpos do que ampliar seus conhecimentos. Se, com muita trabalheira, só conseguem conhecer o finado David Bowie através de uma versão do grupo gaúcho Nenhum de Nós que tocou até em rádios popularescas, elas compensam a dificuldade de ampliar suas mentes com a "modernidade transgressora" das tatuagens que há muito tempo deixaram de ser modernas ou transgressoras.

SE A MULHER SAIR DO ESQUEMÃO, TEM QUE TER MARIDO

Numa sociedade machista, a mulher solteira tem que se apegar à curtição, ao sensualismo e a baixos referenciais culturais. Segundo essa ideologia, quanto mais a solteira se comportar como uma idiota nas redes sociais, melhor. Isso é muito constrangedor e humilhante, mas infelizmente acontece com muita frequência.

Isso é muito diferente do que acontece na França, Bélgica e Alemanha, onde a mulher solteira é aquela que lê bons livros, lê bons filmes e ouve boas músicas. Mesmo a mais modesta mulher solteira é culta, se preocupa em desenvolver conhecimento, ampliar o saber, até se sensualiza mas não faz isso o tempo todo, mas de acordo com a natureza da situação.

O que acontece no Brasil é uma aberração. A solteira não quer ampliar conhecimentos, acha que exibir o corpo é "trabalho", acha "corajoso" ouvir músicas ruins que aparecem no topo das rádios de maior audiência e se comporta como uma idiota infantilizada nas mídias sociais.

Se a mulher sai desse esquema e quer adotar o perfil francês de mulher solteira, ela terá que deixar de ser solteira. Terá que ter um marido, geralmente um empresário insosso e desanimado para tudo, a não ser para as festas de gala, o que traz uma grande ironia.

Pois se as solteiras que "mostram demais" são meros objetos de culto erótico, combinações brutais de bolsas de silicone e corpos insossos, os maridos das mulheres realmente de perfil mais interessante é que não passam de paletós e sapatos de verniz abrigando corpos de homens insossos, que não têm o que dizer e só conseguem se afirmar pelo controle de uma empresa ou, se não for o caso, de um cargo de liderença dentro de uma profissão liberal.

Isso também é grave. A mulher que quer sair das pressões machistas, de "curtição e sensualidade a qualquer preço" e busca referenciais culturais de qualidade, precisa viver a sombra de um marido "importante", "bem-sucedido" e "poderoso", como se a independência feminina fosse um mal que precisa ser domado pela figura de um marido "prestigiado".

Daí a desigualdade que se observa. As mulheres casadas, em sua maioria, têm o perfil que poderia ser de mulheres independentes e sem vínculo com estereótipos machistas, mas que têm seu feminismo neutralizado pela figura machista de um marido "importante".

Já as mulheres solteiras têm que ser aquelas que "só se preocupam" em "curtir a vida" e "mostrar demais", seguindo "por conta própria" o receituário machista. Elas já cumprem "sozinhas" o que os homens querem que elas cumpram, podem ficar "encalhadas" à vontade.

Com isso, fica a impressão de que a mulher que luta por independência e aprimoramento cultural é desobediente com a supremacia machista e por isso precisa ser "amestrada" por um marido "poderoso". A mulher só pode "viver sozinha" se aceita ser objeto de curtição e erotismo, por obedecer ao machismo de forma que não precisa mais de um macho para controlá-la.

Essas aberrações deveriam ser denunciadas com mais frequência e mostram a perversidade da cultura midiática em criar e promover estereótipos sociais.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Ex-funcionário acusa líder "espírita" de amaldiçoá-lo quanto a busca de emprego


Recebemos um e-mail de um homem de cerca de 40 anos, que deixou o "espiritismo", que reclama das energias que o impedem de arrumar um emprego. Ele conta um histórico muito triste, envolvendo uma empresa controlada por um conhecido líder "espírita". Ele preserva sua identidade sob sigilo.

Era uma editora, localizada em uma capital do Nordeste. O líder "espírita" é uma figura bem conhecida, com seus textos grotescos e aparentemente coloquiais, nos quais ele usa jargões que lhe são próprios como "é preciso deixar de ser besta". Atualmente ele vive em São Paulo e de vez em quando publica textos na Internet.

Jornalista formado, o rapaz viu o anúncio de uma oferta de emprego na editora "espírita" na reitoria de uma Universidade. Se dirigiu para lá e foi entrevistado pelo próprio dono da editora, o tal líder "espírita" (considerada figura respeitada no meio, em todo o país). Deixou seu currículo para que a editora avaliasse sua proposta de trabalhar lá.

O líder "espírita" ficou animado e resolveu contratar o rapaz, a título de "estágio". Só que, mais tarde, o jovem percebeu que não era estágio e havia o carimbo da editora na sua carteira de trabalho. Mas até aí, nada demais, não fosse a rotina que ele passaria a ter.

O funcionário foi contratado para editar textos para uma revista de circulação nacional, que recebia textos de colaboradores "espíritas" diversos, além de um cartunista muito conhecido em uma revista de rock. O funcionário poderia escrever dois ou três textos, desde que só creditasse autoria a apenas um deles por edição.

O problema é que a prometida remuneração de R$ 1000, salário da época - há pouco mais de dez anos - , era na verdade dissolvida em tíquete-alimentação. Na maioria das vezes, ele recebia apenas o dinheiro do almoço, trabalhava quase de graça só recebendo a remuneração com muito atraso, e em parcelas pequenas.

Indignado, ele aproveitava que ia almoçar antes do patrão e seus familiares e ia para um supermercado comprar um biscoito wafer para comer, para segurar o dinheiro do almoço para o sustento pessoal. Havia vezes que isso não era possível e aí ele teria que almoçar junto com o chefe e seus familiares.

Ele conversou com uma funcionária que servia o café e ela afirmou que era um problema comum na empresa. Os trabalhadores eram explorados. Os salários saíam sempre atrasados. A funcionária era mãe solteira e tinha que pedir emprestado a parentes dinheiro para comprar remédio, já que ela não recebia a remuneração devida.

A situação era tão séria que, vendo que os funcionários estavam se demitindo, um a um, o editor, que o patrão prometia promovê-lo como chefe de redação, decidiu pedir demissão depois de apenas três meses de serviço. Era uma situação dramática, e ele sentiu o quanto havia sido explorado.

O patrão tentou "segurá-lo". Além de prometer um cargo de redator-chefe, meses depois enviou uma funcionária de sua emissora de TV comunitária - transmitida no serviço por assinatura - para convidá-lo a participar do seu quadro profissional. Mas como o editor se recusou a trabalhar, coisas piores aconteceram.

Primeiro, a editora se recusou a registrar, na carteira de trabalho do ex-funcionário, a data de término do serviço. Cometeu a burrada de carimbar como registro profissional um trabalho que era anunciado como estágio, e não quis registrar a data de encerramento, dando a crer que era uma data "pendente".

Além disso, diante das acusações de que estaria remunerando mal os funcionários - o que consiste em escravidão, conforme a legislação trabalhista atual - , o líder "espírita" se defendia e, reclamando dos processos trabalhistas feitos contra ele (que tinha que, após o almoço, comparecer a vários julgamentos num fórum do município), dizia que os funcionários deveriam trabalhar "por caridade" e não por dinheiro.

O problema é que o salário prometido já era baixo e ganhar remuneração não é apenas um luxo ou capricho. Pessoas precisavam pagar suas contas, comprar remédios, cestas básicas, abastecer a casa, se alimentar dignamente, e não podia trabalhar de graça sob o pretexto de que isso era "mais caridoso".

Havia um tesoureiro casmurro, sisudo e com ar de traiçoeiro que arrumou desculpas de que a editora não tinha o dinheiro restante para pagar o ex-funcionário, nas vezes em que ele voltou para tirar satisfações. O ex-editor não decidiu processar a empresa - ele e os pais foram aconselhados por uma amiga advogada a não fazer isso - , mas acabou depois amaldiçoado pelo ex-patrão.

Meses depois, o ex-editor viu um currículo dele jogado no lixo da editora, inteiro, como se tivesse sido jogado de raiva. Tempos depois, a vida do rapaz, quanto aos esforços de procura de emprego, passaram a se tornar um drama azarento.

Por mais que o rapaz se esforçasse para estudar para concursos públicos ou se oferecer para outras propostas de emprego, ele nada conseguia. Não conseguia se inscrever sequer em cursos de mestrado. Num curso de mestrado em que ele poderia ser aluno-ouvinte, com 30 vagas disponíveis, a faculdade preferiu cortá-lo do benefício e a instituição, estranhamente, fechou a turma de alunos-ouvintes para apenas 29, conforme o rapaz havia sido informado depois.

Coisas surreais aconteciam, e as únicas propostas de emprego que apareciam eram perigosas ou decadentes. Ele recebeu uma proposta para trabalhar num jornal comunitário de um subúrbio, mas o editor-chefe, que o entrevistou, afirmava que o jornal estava em implantação e que ele recebia ameaças de "rivais" por conta de seu trabalho. Que drama seria o rapaz aceitar o emprego e ver o corpo de seu chefe caído e morto com vários tiros.

O rapaz também só poderia trabalhar numa emissora de rádio local, controlada por um ex-prefeito da cidade, uma FM que havia surgido anos antes de um grave e escandaloso esquema de corrupção, quando o então prefeito e um comparsa desviaram grandes somas de dinheiro público, para obras urbanas de grande porte, que eram depositadas em suas contas pessoais.

Fora isso, não havia esforço que garantisse conquistar uma oportunidade. Se havia um concurso público com programa de estudo fácil de ser memorizado, havia empecilhos que atrapalharam o caminho. Num concurso para uma autarquia federal, o rapaz encontrou dificuldades pesadas para procurar o material de estudo, e uma greve de bibliotecários surgiu do nada para complicar as coisas.

Ele estudava e nunca conseguia alcançar mais de 60% dos acertos em provas. Se conseguia, as circunstâncias conspiravam para impedir seu provimento a um cargo, como num concurso recente em que ele até foi um dos 15 aprovados, mas fora um fracassado convite para trabalhar em outra capital, ele não conseguiu mais ser chamado.

O rapaz sofre porque nada o consegue fazer conseguir um emprego, o que é uma necessidade vital. Parentes perguntam, assustados, por que ele nunca consegue ter um emprego. O rapaz sofre danos morais por causa disso e vê sua vida se estagnar sem fazer alguma coisa útil e ter uma renda para seu sustento.

Segundo o rapaz, o fato dele ainda morar com os pais o faz evitar a vida miserável. Mas ele está preocupado porque seus pais estão idosos e nada acontece para ele obter um emprego. Mesmo em tempos de crise, a situação é cruel demais para ele, e o risco dele se transformar em mendigo é muito alto.

E isso ele deve por uma maldição que, como é de praxe numa doutrina marcada por contradições que é o "espiritismo" brasileiro, um engodo que mistura igrejismo, ocultismo e pseudociência, influenciou nas más energias que o impedem de obter um emprego, fosse o esforço que ele fizesse e as promessas que, nas entrevistas de emprego ou em envios de currículos, ele dava que faria um bom trabalho.

Enquanto isso, o ex-patrão se mudou da cidade em questão para São Paulo, e continua fazendo suas palestras "bacanas" para seus seguidores. Até uma amiga do ex-editor elogiou um texto do "espírita" no Facebook. Enquanto seus funcionários lutam, amaldiçoados, para vencer na vida, o líder "espírita" engrossa o coro dos que fingem fidelidade a Allan Kardec para fazer seu desfile de palavras bonitinhas.

Daí que a própria caridade do "espírita" em remunerar dignamente seus funcionários não foi levada em conta. Exigir "caridade" de quem está no lado de baixo é fácil. No entanto, o egoísmo do líder "espírita" e a vaidade que ele tinha de ter um jornalista talentoso como contratado o fez amaldiçoá-lo, quando ele decidiu não mais trabalhar para o seu chefe.

E isso faz muito sentido diante do que se percebe nas más energias que o "espiritismo" traz para as pessoas, prejudicando até mesmo aqueles que manifestam devoção a essa doutrina brasileira e a seus ídolos e totens.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O apego dos brasileiros ao antigo e retrógrado

FRASES BONITINHAS E ESTEREÓTIPOS RELIGIOSOS GARANTEM APEGO OBSESSIVO DOS BRASILEIROS AO MITO DE CHICO XAVIER.

É preocupante o apego que as pessoas no Brasil têm do que é velho e apodrecido, do que é retrógrado e antiquado. Tomados de temores diversos, de viciadas nostalgias a tempos mais primitivos e ainda inclinados a valores moralistas aqui e ali, os brasileiros que agem assim impedem de forma decisiva que o país progrida rompendo com seus entulhos ideológicos e culturais.

O caso de Francisco Cândido Xavier é bastante ilustrativo. A histeria e a idolatria extremas em torno de Chico Xavier chega aos níveis de obsessão e apego extremo, algo muito estranhos para uma doutrina como o "espiritismo" brasileiro, que se diz dedicado ao desapego e à desobsessão.

Mas esse é só um exemplo, e dos piores. Afinal, como um mero plagiador de livros, criador de pastiches literários rudimentares - seus livros eram pretensamente cultos, mas brutalmente rebuscados e ideologicamente retrógrados - , se transformou num ídolo absoluto, e, de marketing em marketing, virou o símbolo da "bondade extrema", é algo que não é fácil de explicar para leigos.

Chico Xavier simboliza o que há de retrógrado e ultrapassado no que se refere aos movimentos de espiritualidade contemporâneos. Era um católico ortodoxo em ideias, embora heterodoxo em rituais, que foi adotado por pessoas retrógradas do "movimento espírita" que tinham pavor do pensamento científico de Allan Kardec e regrediram seu legado ao gosto do igrejismo brasileiro.

E o que faz haver esse apego tão ferrenho a Chico Xavier? Ele representa clichês do que pessoas conservadoras entendem como associadas às ideias de "bondade", "humildade", "caridade" e outros aspectos que envolvem moralismo, misticismo e clichês de modéstia humana ou mesmo uma nostalgia a um primitivismo rural e interiorano.

As pessoas se apegam ao que há de mais velho. Não só com Chico Xavier, uma pessoa que nunca foi realmente associada a ideais progressistas, modernos ou futuristas, mas sempre foi o oposto disso tudo, para desespero dos seus seguidores extremados.

O apego ao antiquado e mofado na sua essência, que não pode ser confundido com a defesa de boas tradições (que o conservadorismo ideológico gosta de derrubar sem escrúpulos), é uma mania antiga dos brasileiros e que teima em persistir e resistir na marra ao sinal dos tempos.

Não é fácil definir o que é antiquado ou retrógrado, mas já se percebe, por exemplo, que a boa música caipira que tanto enriqueceu nosso cancioneiro passou a ser derrubada por um "sertanejo" que, desde os anos 80 e 90 (a partir de Chitãozinho & Xororó, que os incautos definem como "autênticos"), estabeleceu uma relação esquizofrênica entre roça e zona urbana.

No que se diz à alimentação, a ruptura ocorre quando se eliminam os produtos artesanais, vinculados a uma relação respeitosa com a natureza, e colocam no lugar os produtos industrializados, feitos sob o trabalho poluente e dotados de ingredientes que podem ser nocivos à saúde humana.

Há, nestes e outros casos, a essência velha e apodrecida que está por trás em embalagens "novas". Os reality shows da TV são culturalmente muito mais retrógrados que muitos programas de entretenimento que eram transmitidos pela televisão dos anos 1950.

Há também a pseudo-modernidade das "mulheres-frutas" e similares (como as Solange Gomes e Geisy Arruda da vida), a falsa provocatividade cultural do É O Tchan, que revelam aspectos ideológicos cheios de bolor, tanto pela evocação de valores machistas quanto pelo apoio que latifundiários e dirigentes carnavalescos (inclui banqueiros do jogo-do-bicho) tem para esse tipo de entretenimento "sensual").

A bregalização cultural teve, através de uma geração de intelectuais "provocativos", uma imagem falsamente associada ao moderno, vanguardista e desafiador. No entanto, esconde aspectos retrógrados como a glamourização da ignorância, da pobreza, do grotesco, do brutal, que os intelectuais definiam como "qualidades positivas" das classes pobres.

Como definir isso como "positivo" e "moderno", atribuindo ao brega (sobretudo dos primeiros ídolos cafonas aos "populares" esquecidos do começo dos anos 90) um falso vanguardismo, se seu público potencial é de mulheres pobres que nunca saem da prostituição e idosos cuja única ocupação na vida é ficar enchendo a cara de pinga ou cerveja não só nos fins-de-semana, mas todo "santo dia"?

Só mesmo explicando essa visão pela mania que muitos brasileiros considerados influentes têm em tentar justificar o velho pelo "novo", a trabalhar ideias novas em bases velhas e apodrecidas, e por trás disso existem ocultos preconceitos sociais que a "moderna" intelectualidade cultural brasileira esconde com a desculpa de que nunca os possui.

No transporte, há a visão ditatorial do sistema de ônibus marcado pela tenebrosa "santíssima trindade" da pintura padronizada nas empresas de ônibus, na dupla função de motorista-cobrador e na redução de percursos para "sistemas integrados".

Passageiros confusos que não sabem qual a empresa de ônibus que realmente opera tal linha, já que diferentes empresas de ônibus têm a mesma pintura e autoridades insistem na retrógrada medida da padronização visual porque continuam apegadas à ideia de impor a sua imagem, com as frotas de ônibus exibindo o logotipo da prefeitura, algo totalmente ultrapassado e comprovadamente ineficaz, mas que é mantido na marra.

Essa força-de-barra é tanta que, visando "mudar para continuar o mesmo", prefeituras e governos estaduais mudam apenas o leiaute da pintura padronizada: São Luiz, Fortaleza, Volta Redonda, Porto Alegre e São Paulo, mudaram apenas o visual da pintura padronizada, em vez de eliminar a medida, que não condiz mais às atuais exigências do sistema de ônibus, que exige que cada empresa de ônibus tenha sua própria identidade visual para facilitar a percepção de passageiros, numa sociedade movida pelo corre-corre diário.

Isso mostra o apego a velhos paradigmas. Todos querem salvar apenas o ideólogo dessas medidas nefastas para o transporte coletivo: o endeusado Jaime Lerner, espécie de Roberto Campos do urbanismo e do transporte coletivo, que elaborou esse padrão de sistema de ônibus no auge da ditadura militar, defendendo medidas antipopulares como a redução de ônibus em circulação nas ruas, que é justamente motivo de queixas e protestos enérgicos de muitos passageiros.

Mas o apego não para por aí. Até o medo que parte da sociedade e da mídia em admitir que homicidas (sim, homicidas) em idade considerada avançada, como os feminicidas Doca Street e Pimenta Neves, e o mandante do assassinato de Chico Mendes, o "coronel" Darly Alves, estão no fim da vida, é considerado notório e, por incrível que pareça, é um medo de perdê-los que move setores moralistas e conservadores da sociedade.

Marcados por problemas sérios de saúde - Doca Street com passado que combinou intenso tabagismo (dizem que só o que ele fumou em cigarros comuns equivalia, em doses, a três José Wilker), alcoolismo, uso de cocaína, Pimenta Neves com overdose de remédios e Darly Alves com graves problemas de úlcera - , ninguém pode dizer que eles estão no fim da vida (eles estão nas casas dos 70 para os 80 anos) porque isso soa, pasmem, "ofensivo".

Senhoras de meia-idade chegam a reagir com indignação quando alguém pergunta se Doca está fazendo quimioterapia para câncer no pulmão, ele, que, ao matar a namorada, inspirou centenas de crimes semelhantes com seu exemplo de impunidade. "Deixem o pobre homem em paz", gritam elas, ignorando os efeitos naturais do passado tabagista, alcoólico e toxicômano que cobra seu preço na velhice (e Doca ainda perdeu um dos rins).

Se fosse um ator de novela, um comediante de antigas chanchadas ou um intelectual que lutou contra a ditadura nos anos 70, alertar que ele, por ter fumado demais, pode estar com câncer ao chegar aos 80 anos seria visto como natural e aceitável. Mas como é um machista rico que matou uma mulher, de repente o assassinato passou a ser um "diferencial" para ninguém cogitar que homicidas também constroem sua própria tragédia.

Se fosse um músico de heavy metal que, com seus 80 anos, anunciassem que estavam com algum tipo de câncer, essas mesmas senhoras estariam felizes e até diriam "80? Já é tarde, eles deveriam ter isso mais cedo!", comemorando. Mas quando se diz que homicidas ricos que mataram mulheres ou líderes sindicais estão "com os pés na cova", soa "ofensivo" e "desrespeitoso". Nem sequer orar para Doca, Pimenta e Darly morrerem em paz um dia essa sociedade tem coragem de fazer. Preferem vê-los como múmias centenárias simbolizando valores retrógrados em tempos futuros.

E por que isso acontece? Por que não podemos perder também nossos homicidas? Será que eles são arremedos de Deus? Ou será que eles são os "heróis às avessas", que cometeram seus crimes sob as bandeiras moralistas da "defesa da honra" ou do "direito à propriedade"? Nem cogitar que eles já estejam "apenas doentes" se pode expressar, porque a "boa sociedade" reage com raiva e medo.

É o medo de perder ícones do velho machismo ou do velho coronelismo, numa sociedade em mudanças de valores. Eles são protegidos até da velha mídia conservadora, e da boa sociedade moralista que não conseguem "largar os ossos" e não admitem que também morre quem atira, como diz a canção do grupo O Rappa.

Vemos uma sociedade medrosa e temerosa, que às vezes volta com surtos retrógrados aqui e ali, seja uma Mulher Melão e Solange Gomes - símbolos da mercantilização do corpo feminino, tão ao gosto dos machistas - , seja com "revoltados" saudosos da ditadura militar, que em seu tempo prometia uma "nova política" para o país, tanto que se autoproclamava "revolução democrática".

Preferimos perder pessoas e ideias mais modernas culturalmente. Nos livramos do novo para preservar o velho. De Leila Diniz a Glauber Rocha, passando por Renato Russo e Torquato Neto, ou então a cultura alternativa legada pela Fluminense FM que rádios digitais tentam manter com dificuldade (o FM está entregue a um grotesco pastiche chamado Rádio Cidade), sempre abrimos mão do renovador, do transformador, e ficamos com o caricato, grotesco, antiquado e podre.

De Chico Xavier a Darly Alves, passando por ônibus padronizados sem cobrador e de curtos percursos, pastiches comerciais de rádios alternativas como a Rádio Cidade ou falsos feminismos de glúteos das senhoras Melão e Gomes, o apego ao velho e ao antiquado se protege por um conjunto de valores moralistas e elitistas que setores da sociedade querem ver ainda prevalecendo no Brasil que já não os suporta mais.

Em todos os lados, nota-se o pânico dos que não querem remover seus entulhos ideológicos dos mais diversos. Um pavor, um medo de que aquilo que, embora velho e apodrecido, simboliza algum valor "positivo", mesmo que nostálgico, ou um símbolo de zelo aos privilégios de alguns, pereça em alguma decadência ou tragédia.

Daí que as pessoas andam presas a moralismos, pragmatismos e neuroses que as fazem presas ao entulho de valores, ícones e ídolos que sempre representam alguma coisa conservadora que as pessoas tentam em vão manter ou que sentem muito medo em perder. Eles pensam num Brasil velho do qual não querem se livrar. Para eles, cheiro de mofo é igual a perfume.