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"Espiritismo" brasileiro só quer que você "aceite as coisas"

SEGUNDO OS "ESPÍRITAS", ESTE É UM INSTRUMENTO PERIGOSO E MALICIOSO.

O "espiritismo" brasileiro, em tese, apoia a busca do Conhecimento, a ação da Ciência, a prática da Lógica, e valoriza a inteligência humana. Mas tão somente em tese. Na realidade, porém, o que está por trás de tanta retórica está o contrário disso tudo.

É bom desconfiar quando enunciados são desmentidos pelos pormenores, quando a teoria é contrariada pela prática, quando o conteúdo revela-se oposto ao que a aparência sugeria. E isso se observa no "espiritismo" brasileiro, que pelo seu histórico sempre demonstrou ser contrário à verdadeira busca do Conhecimento e da Lógica.

Surgido em 1884, o "movimento espírita" brasileiro teve sua raiz formada pela adesão de dissidentes católicos. A opção original era a obra de Jean-Baptiste Roustaing, e não de Allan Kardec, considerado "indigesto" e "complicado" para aqueles religiosos.

Além disso, o "movimento espírita" buscava respeitar a religiosidade conservadora, até por uma questão de sobrevivência, porque a prática de curandeirismo fazia os "espíritas" serem perseguidos pela polícia. Daí que a doutrina brasileira sempre desenhou seus princípios a partir das tradições trazidas pelo Catolicismo português.

O Catolicismo português formou o padrão de religiosidade que o Brasil exerceu desde o período colonial. É conhecidíssima a ação dos jesuítas, sobretudo José de Anchieta e Manuel da Nóbrega. Não por acaso, Nóbrega reapareceu no "movimento espírita" através de Emmanuel, mentor de Francisco Cândido Xavier.

E o Catolicismo português ainda era medieval. Há registros de práticas de inquisição e condenações à queimada em praça pública de hereges à fé católica. O autor teatral, o brasileiro radicado em Portugal, Antônio José da Silva, o "Judeu", foi morto queimado em praça pública aos 34 anos, em 1739, quando o Iluminismo, conhecida filosofia humanista, já repercutia na Europa mais desenvolvida.

"ESPIRITISMO" APROVEITOU O QUE HÁ DE VELHO NO CATOLICISMO

O conteúdo moralista do Catolicismo pode ter aberto mão de condenações tão cruéis, como a queimada pública, a forca e a decapitação pela guilhotina, mas manteve sua essência praticamente intata até a Igreja Católica começar a ser pressionada pelas transformações da modernidade, em meados do século XIX.

Daí ser curioso que o "espiritismo" aproveitou do Catolicismo o que ele já tinha de velho, e, com seu inicial desprezo a Allan Kardec, compensou tal ignorância propositalmente decidida com dois conceitos herdados da Idade Média.

No nível doutrinário, o "movimento espírita" brasileiro tomou como base os valores moralistas da Igreja Católica e adaptou seus ritos e dogmas. Um exemplo é adaptar a classificação de "santos" para o conceito de "espíritos de luz", criando uma "canonização" sem a burocracia do Vaticano, apenas pelos clichês de "bondade", "humildade" e "caridade" apresentados.

Além disso, o "espiritismo" criou equivalentes aos eventos católicos. A missa católica virou "doutrinária". A penitência, o "tratamento espiritual". A novena, o "Evangelho no Lar". A igreja católica, o "centro espírita". O confessionário, "auxílio fraterno". A "água benta", "água fluidificada". A ideia do Céu e do Inferno, a concepção do "mundo superior" e do "umbral". O "pecado original", o "resgate moral". E por aí vai.

No que se diz ao âmbito da espiritualidade, o "espiritismo" compensou o desprezo às teses científicas de Allan Kardec com as práticas hereges de ocultismo, curandeirismo e esoterismo, também medievais. Bruxarias, feitiçarias, quiromancias e outros ritos eram adaptados à maneira light de homeopatias, arremedos de psicologia e astronomia e uma mediunidade fingida.

Em vez de se desenvolver uma mediunidade séria, conforme as recomendações originais de Kardec, o que se viu foi uma prática que combinava "tábua Ouija" (espécie de "brinquedo" em que pessoas faziam jogos de pergunta e resposta com "fantasmas"), bola de cristal e feitiçaria. Até as "curas espirituais" adotavam métodos que passavam à margem do verdadeiro trabalho científico.

Com isso, o "espiritismo" que cortou os pés do pensamento kardeciano, escolheu velhas muletas medievais, combinando o moralismo católico com heresia ocultista, como se fosse um resultado de um hipotético acordo entre a Igreja Católica do período bizantino com os hereges antes condenados à morte.

ROUSTAING FOI REJEITADO POR MOTIVOS POLÍTICOS

Eles combinavam um "arranjo" para compensar a rejeição ao cientificismo kardeciano, e tomaram como fonte primária o livro Os Quatro Evangelhos, de Jean-Baptiste Roustaing. O roustanguismo continua valendo até hoje, mas por razões de disputas institucionais, o nome de Roustaing, associado à alta cúpula da Federação "Espírita" Brasileira, foi rejeitado por motivos políticos, enquanto o nome de Allan Kardec passava a ser bajulado pelos grupos "regionalistas" (das federações regionais).

Um breve histórico do "movimento espírita", que adotou Chico Xavier como seu maior propagandista, encarnando (vejam só o termo) o estereótipo do "caipira humilde" que estabeleceu um jogo de contrastes ideológicos - o "fraco que ficou forte", o "ignorante que virou fraco", o "derrotado que venceu", o "pobre que era rico", entre outras coisas - para manipular as emoções das pessoas, mostra o quanto a vocação kardeciana foi jogada no lixo.

Eles agora tentam bajular Kardec e, com tanta gente acostumada com a mistificação e a construção de totens inabaláveis, há quem pense em recuperar as bases kardecianas mantendo Chico Xavier e seu seguidor Divaldo Franco (que optou por outro estereótipo, mais "professoral" e pseudocientífico, embora delirantemente esotérico) como enfeites, só por causa da "bondade".

E aí vemos um Brasil conservador se ajoelhar a essa doutrina neo-medieval, o "espiritismo" brasileiro, que através de Chico Xavier incorporou o que havia de mais retrógrado no Catolicismo, como a Teologia do Sofrimento, expressa de maneira explícita por muitas frases do "médium" mineiro, que recomendava aos sofredores "aceitarem suas desgraças" em silêncio, sem reclamar.

Sim, Chico Xavier pedia para os sofredores esconderem seus sofrimentos, até deles mesmos. Sofrer dificuldades pesadas, aceitar tudo e entregar a salvação a uma figura até agora misteriosa como Deus. Se você é humilhado, sorria. Se a vida não está de acordo com seus planos (e não falamos desejos, mas PLANOS!), aceite tudo da forma que vier.

Se você tem dons para ativista cultural através do trabalho de servidor público mas só lhe resta optar entre ser flanelinha de rua - buscando espaços e, talvez, disputando com rivais com sede de sangue - ou ser um repórter de uma FM corrupta que um ex-político adquiriu com desvio de dinheiro público para grandes obras (que ficaram paradas).

Se um rapaz deseja uma mulher com a personalidade de Natalie Portman (e não destacamos a beleza, mas a PERSONALIDADE!) e só lhe resta no seu caminho uma siliconada arrogante e exibida que nada tem a dizer, então "tenha fé em Deus" e aceite essa moça que lhe vem ao caminho e "dialogue" com ela, como se fosse fácil resolver as diferenças e moldar a moça de acordo com as perspectivas do rapaz.

"NÃO QUESTIONE. ACEITE O SOFRIMENTO E CONFIE EM DEUS"

A ideia é não questionar, e recentemente muitos artigos do "movimento espírita" de diversas fontes faz a mesma recomendação: se encontra dificuldades insuperáveis no caminho, "aceite e confie em Deus". "Mude seus pensamentos", "nos momentos de maior angústia, sorria", "quando humilhado, perdoe e agradeça", "quando tudo acontece o contrário do esperado, faça o inesperado".

É tudo assim. Um jogo de desilusões e ilusões. Quando você se desilude e passa a desenvolver outros dons e outras visões, as circunstâncias se tornam adversas e, mais uma vez, você terá que desaprender o que aprendeu. Você se torna brinquedo dos próprios infortúnios, e ainda por cima tem que se comportar como um debiloide aceitando, agradecendo, vibrando pelo próprio algoz.

Ficamos imaginando se, caso seguíssemos os conselhos dos "tão maravilhosos espíritas", um negro com cabelo crespo que é xingado de "cabelo de esponja de aço" tenha que bancar o bondoso e, "misericordioso" com os inimigos, dizer alegremente que cortou um pedaço de cabelo, botou detergente e esfregou numa panela e ela ficou limpa e brilhando. Será que perdão é também faltar com o respeito a si próprio?

Não raciocine, não questione. Usar o cérebro virou "maldição". Saber é "perigoso", raciocinar é "arriscado", o melhor é "acreditar" e "aceitar", mesmo que seja em detrimento da lógica e do bom senso. Só no Brasil tem respaldo essa ideia aberrante e absurda da "overdose de raciocínio", como se buscar a lógica e a coerência fosse sinônimo de "pensar demais", de "excesso de ciência".

Aceitar, aceitar e aceitar. O sofredor é que tem que mudar seus pensamentos, ficar feliz com as limitações e desgraças que acumula na vida, esperar as "graças futuras", como o bom religioso da Teologia do Sofrimento, aquela ideologia que diz que "sofrer é lindo" e que, lá fora, fez a Madre Teresa de Calcutá ser definida como um "anjo do inferno".

Aqui, porém, aceitar o sofrimento e ficar calado é "ativismo". Abrir mão de ideias, vontades, projetos e interesses de vida por causa das dificuldades, criando um racionamento de nossos próprios potenciais, nossos próprios dons, é "autoconhecimento" e "ativismo". Agradecer e servir aos algozes é "lição de vida" e tudo isso é trazido por uma doutrina "espírita" que trai o próprio Codificador.

Assim não há vida que possa se seguir tranquila em frente. Até porque, segundo o "espiritismo", temos que aceitar o sofrimento e as desgraças e seguirmos adiante com isso. "Superação", para os "espíritas", é a pessoa deixar de ser ela mesma para "vencer na vida". Ideia muito triste e lamentável.

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