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Falsas psicografias de roqueiros: Raul Seixas


Vivo, Raul Seixas era discriminado pelo mercado e pela sociedade moralista. Morto, é glorificado pelos mesmos que o discriminaram. Tantos oportunistas se cercaram diante da imagem do roqueiro morto e fingiram que sempre gostaram dele, usando-o em causa própria.

Em relação ao legado que Raul Seixas deixou, vemos "sertanejos" e axézeiros, além de "pop-roqueiros" de quinta categoria, voltando-se para o cadáver do cantor baiano como urubus voando em cima de carniças. Todo mundo tirando uma casquinha, usurpando, em causa própria, o prestígio e a credibilidade de Raulzito.

No "espiritismo" não seria diferente. Um suposto médium, Nelson Moraes, foi construir uma "psicografia" de Raul Seixas usando o pseudônimo de Zílio, no caso de haver algum problema na Justiça, através de uma imagem estereotipada do roqueiro.

Assim, Nelson Moraes, juntando sua formação religiosista, um "espiritismo" que sabemos é mais católico do que espírita, baseou-se no que a mídia não-especializada, como o Fantástico da Rede Globo e as revistas Amiga e Contigo, divulgavam sobre Raul Seixas para criar um "espírito" que, com toda a certeza, nada condiz com o que foi o roqueiro baiano.

Isso porque o tal do Zílio é demasiado místico, piegas e com uma religiosidade tão alta que chega a parecer bobo nos seus depoimentos. E é bom deixar claro que esse misticismo Raul Seixas deixou já no final da década de 1970.

O abobalhado Zílio, que os incautos acreditam "poder ser Raul Seixas", nada tem a ver com o Raul Seixas do final da vida, afiado e sarcástico que compunha coisas como "Muita Estrela, Pouca Constelação" e que dava entrevistas mostrando seu ceticismo em relação aos rumos do país.

O "Raul Seixas" de Nelson Moraes ainda parecia preso a "Gita" e "Metamorfose Ambulante", enquanto o Raul Seixas real se divertiu nos últimos meses de vida ao lado de Marcelo Nova, fazendo um rock'n'roll com o natural cinismo de dois músicos que não queriam se submeter à caretice e muito menos à pieguice.

Dois livros foram lançados, Um Roqueiro no Além e Há Dez Mil Anos, este último um trocadilho de muito mau gosto com o livro Há Dois Mil Anos, de Emmanuel e Chico Xavier, um título oportunista e sem muita imaginação.

Há um trecho do livro Um Roqueiro no Além que chega mesmo a expressar incoerência, pois uma passagem do livro mostrava a tampa do caixão sendo levantada, quando, na realidade, o caixão estava lacrado.

"Quando o carro parou escutei gritarem o meu nome seguido de muito pranto. Pelo movimento, percebi que alí deveria ser o local do velório. Tiraram o caixão do carro e, quando eu menos esperava, abriram a tampa.

Senti um grande alívio! Tentei levantar-me, mas não consegui. Muita gente debruçou sobre mim para chorar.

O que eu poderia fazer? Já havia tentado de tudo para sair dalí. A única explicação que eu encontrava para aquele fato é que eu estava realmente morto e o meu espírito preso ao corpo que já começava a cheirar mal".

O livro Um Roqueiro no Além mostra ainda um texto introdutório que nada corresponde à personalidade original de Raulzito, já que Zílio se comporta como um infantilizado, alguém que é medroso e submisso, e que só está preocupado com o misticismo religioso que, repetimos, Raulzito já havia largado por volta de 1978 até o fim da vida.

Vamos ler então essa mensagem, que força a barra com trocadilhos fáceis com as temáticas de Raulzito, o que indica tendenciosismo e falta de autenticidade, porque o contexto revela que Raul nunca faria trocadilhos gratuitos com os temas abordados por suas músicas.

"Frente a realidade que me surpreendeu, a metamorfose agora é outra!

A Sociedade Alternativa não acontece no embalo dos sonhos mal sonhados, nasce na individualidade daqueles que vivem na real. 

Vivi como um cometa que passa e causa espanto, não consegui ajustar-me na órbita que poderia sustentar-me na trajetória rumo a felicidade que sonhei para mim e para os outros. Porém, ainda não apaguei, vou continuar entre a luz e a sombra, procurando minha própria luz em constante metamorfose. 

Voltei sem alarde, faço da mente do médium o meu telegrafo para revelar ao mundo das ilusões, a verdadeira Sociedade Alternativa que nos aguarda no universo infinito e que deve ser construída no universo íntimo de cada um, aí e agora. 

Depois de atravessar os vales escuros da dor e do sofrimento, minha visão ampliou-se e pude compreender que aqueles que buscam afogar suas ansiedades e frustrações nas drogas químicas e alcoólicas, é como um epilético criado artificialmente, o qual sofre e faz sofrer. Por isso, vejo-me na obrigação consciencial de informar aos companheiros que estão a caminho que o sofrimento não pára aí, ele se estende pelos vales espirituais onde a epilepsia se torna real processando a duras penas os elementos venenosos inseridos no corpo perispiritual. 

Muitas vezes, embalados pelo sonho e pelo lirismo dos poetas e pelo modismo estimulado pela sociedade de consumo, deixamos de enxergar a realidade à nossa volta e buscamos distrair a nossa consciência das responsabilidades inerentes a verdadeira finalidade da vida. Conseqüentemente, alteramos o valor das coisas e os conceitos sobre juventude, lar, família e objetivos, deixando cair vertiginosamente o nosso amor próprio e o amor por aqueles que nos são caros. Nesse conceito equivocado, tudo se torna lícito, até mesmo o que não convém. Os que viveram esse tipo de liberdade na Terra, hoje superlotam os vales das sombras à semelhança de larvas, arrastando-se entre o limo e as escarpas dos abismos espirituais, situação em que, alguns casos, pode se prolongar por longos séculos. 

Antes de questionar a vida, questione a si mesmo, analise seus conceitos, seus sentimentos, sua gratidão por aqueles que o ajudaram a renascer na Terra e, com certeza, você encontrará uma grande razão para viver e lutar contra o único inimigo que pode derrotá-lo: Você mesmo".

Mas, no outro livro Há Dez Mil Anos, Zílio ainda carrega mais a sua religiosidade, com uma mensagem bastante tendenciosa que os críticos do "espiritismo" definem como "panfletarismo religioso". Porque a religiosidade passa a ser um apelo marqueteiro, monolítico, estando até acima de outras intenções.

"Hoje me sinto muito feliz quando encontro alguém lendo os meus depoimentos, mais do que quando executam as minhas músicas. Aos poucos estou alcançando o sucesso, não mais o sucesso do mito, mas sim, do ser humano que sou. Espero que aqueles que hoje são fã do mito, ao ler meus depoimentos, venham se tornar fãs de verdade e daquele que realmente merece nossa gratidão e reconhecimento: Jesus. Um dia, Ele será seguido como o grande ídolo da humanidade."

Observando bem as coisas, dá para concluir, com total certeza e segurança, que Zílio nunca foi Raul Seixas. Esses dois livros não são a praia de Raul e nunca foram roteiro de "suas viagens". O que se observa aí são caricaturas místicas e devotamente religiosas, que não condizem com a realidade e com a verdadeira personalidade do roqueiro baiano.

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