sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Brasileiros têm dificuldade para se despedir de Doca Street


Nosso país é ultraconservador e dotado de estranhos "heróis", que incluem ídolos religiosos, políticos do tempo da ditadura militar, tecnocratas e até machistas de perfil bem moralista, os quais temos medo de perder, como se fossem nossos tios queridos.

Todos morrem, mas os feminicidas são os únicos que "não podem morrer". Eles que mais descuidam da saúde, sofrem pressões morais violentas por todos os lados, fragilizam suas almas alternando raivas explosivas e depressões abatedoras, e nós temos que acreditar que eles são feito ciborgues aos quais nem uma doença incurável consegue abatê-los.

Há 40 anos exatos, um caso de machismo violento aconteceu em Armação de Búzios. O empresário Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street, então com 42 anos, assassinou, com dois tiros, a socialite Ângela Diniz, a "pantera de Minas Gerais", que chegou a fazer uma sessão de moda para a revista A Cigarra, nos anos 60.

O motivo alegado era o da "legítima defesa de honra" e Doca, machista irredutível, acusava a mulher de "irresponsável" e promíscua. Doca foi preso mas, sob a habilidosa atuação do advogado Evandro Lins e Silva, foi condenado à prisão em regime semi-aberto, em 1981.

Ele havia sido tabagista inveterado - em 2006, em suas últimas entrevistas, ele afirmava que continuava fumando, só que "com menos frequência" - e no passado usava cocaína e se embriagava com álcool. Antes que algum moralista se revoltasse com qualquer alegação de fragilidade de Doca, lembramos que seus melhores amigos já se preocupavam com seu tabagismo (provavelmente o equivalente a três vezes o total consumido por José Wilker), já em janeiro de 1977.

Doca, no entanto, causou um prejuízo ainda mais grave. Matou uma mulher alegando motivos moralistas ligados ao machismo e à família, se livrou da cadeia e, com isso, inspirou uma onda de assassinatos conjugais que se reflete até hoje, porque, a cada assassino, marido ou namorado, impune, surgem outras ondas de feminicídios conjugais (durante anos definidos como "crimes passionais"). O jornalista Pimenta Neves teria se inspirado em Doca para matar sua namorada, em 2000.

Hoje há sérios rumores de que Doca e Pimenta estão no fim da vida. Suas idades são consideradas elevadas, 82 e 79 anos, e os respectivos históricos de intenso tabagismo e overdose de remédios, pelas razões lógicas da biologia, lhes fazem os organismos numa fragilidade extrema. Tal constatação de tragédia não é fruto de ódios ou calúnias, mas da natureza do corpo físico e sua falência diante dos descuidos da saúde.

Por alguma sorte, Doca Street não morreu no final dos anos 80, porque o que ele consumiu de nicotina e cocaína, que causava preocupação intensa de seus amigos mais íntimos, poderia ter causado um óbito na casa dos 55 anos de idade. Nessa época, o pai da atriz Maitê Proença, que assassinou a mãe dela em 1970, se tratava de câncer e, abalado com o sucesso da filha em comparação com seu crime, se suicidou em 1989.

Rumores indicam que Doca já sofre algum tipo de câncer, provavelmente de pulmão, desde o fim dos anos 80. Indício disso foi a tentativa de doar um rim a um sobrinho, em 1994, que foi em vão, porque o sobrinho faleceu com a rejeição do órgão doado.

Outro indício foi o esforço que os advogados fizeram para evitar a produção do filme Quem Ama Não Mata, no qual já haviam sido escolhidos os atores para fazer Doca e Ângela, respectivamente Alexandre Borges e Deborah Secco.

Pimenta Neves já havia sido noticiado, não pelo Estadão que o teve como chefe de redação, mas pelo portal IG, que em 2016 estava sofrendo de diabetes e suspeitas de câncer na próstata. Há quem diga que, pela ingestão excessiva de remédios, Pimenta já sofra de falência múltipla dos órgãos. O assassino de Sandra Gomide não seria mais forte que Heath Ledger.

Infelizmente, somos duramente criticados quando expomos as tragédias e fragilidades dos feminicidas conjugais. Acham que é raiva da impunidade deles. Não é. O fato é que, como eles cometem assassinatos sabem do risco desses atos, eles sofrem as consequências emocionais fortíssimas e pesadas, diante de um ato irreversível e que causa prejuízos gravíssimos à sociedade.

"Também morre quem atira", é o que diz o verso final de "Hey Joe", na versão do grupo O Rappa de uma canção do compositor Billy Roberts que, em sua letra original, se dirigia justamente a um homem que havia assassinado uma namorada por ciúmes doentios e havia fugido para outro lugar.

Pelas pressões emocionais, os homens que assassinam suas próprias namoradas, noivas e esposas e, às vezes, colegas de trabalho etc, são os que mais sofrem riscos de sofrer infartos fulminantes, acidentes de trânsito (sobretudo quando combina bebida e volante) e câncer. É só comparar os relatos médicos que indicam que os machistas que não cometem esses crimes já sofrem esses mesmos riscos. Imagine se cometessem.

Em tempos de convulsões sociais, então, os feminicidas desse tipo, conjugal ou afetivo, são jurados de morte em potencial, diante desse clima de ódio terrível, reprovável mas infelizmente muito frequente, que faz com que internautas ameacem de morte tais assassinos, que poderiam apenas viver o resto dos dias na cadeia. Um homem de São Paulo que mata a namorada pode ser morto por um internauta do Piauí, bastando este ler o jornal e se sentir atraído ao ver a foto da vítima.

São esses assassinos que produzem suas tragédias. Tirar a vida da própria mulher não é como quebrar um copo, as consequências são extremamente danosas e irreversíveis. E se o homicida inspirar atos semelhantes, pelo seu exemplo de impunidade, mais grave ainda, porque, para uma parcela de machistas doentios, o feminicida que saiu da cadeia é visto como "símbolo de sucesso e ascensão social".

Mas o Brasil é machista e seu moralismo é bastante seletivo. Muitos se arrepiam de imaginar que Doca e Pimenta podem morrer a qualquer momento, embora o país já tenha perdido gente muito importante e adorada. Perdemos Renato Russo, Elis Regina, Lauro Corona, Ayrton Senna.

Mais recentemente, Domingos Montagner era o galã admirado da TV e, num determinado dia, morreu afogado durante um mergulho arriscado. Perdemos quase todo o time da Chapecoense, criando uma baita comoção e tristeza. Mas não nos preparamos quando aquele burguês que assassinou a mulher pode morrer com 40 e poucos anos de um simples infarto. Nem a imprensa, que evita noticiar tais ocorrências, mesmo se o morto foi notícia nacional no último julgamento.

Essas pessoas se assustam quando temos que nos despedir de Doca e Pimenta, ou talvez imaginar que um promotor Igor Ferreira - que apresentou indícios de fraqueza extrema e abatimento físico, segundo relatos de testemunhas quando ele, que mandou matar Patrícia Aggio Longo, em 1998, estava foragido - possa também nos deixar de repente.

Só que são essas mesmas pessoas que torcem pela morte de petistas ou que fazem cara de desdém quando o "condenado" por um câncer maligno ou um infarto é um músico de rock. E o pior é que assassinar uma mulher vira um "diferencial" para as pessoas de repente se preocuparem com a tragédia. Se Pimenta Neves não tivesse cometido assassinato, ele poderia ter morrido ontem que as pessoas continuariam calmas e tocando a vida de certa forma.

Claro que devemos pensar o machismo com muito cuidado. Sem raivas, sem ódios, sem vinganças. A tragédia do feminicida é um efeito natural de seu ato, em muitos casos motivado pelo próprio descuido da saúde, como uso de drogas ou álcool, ou por uma fúria intensa que massacra o coração e injeta adrenalina no sangue.

Em outro sentido, sabendo da existência da reencarnação, o feminicida que porventura falecer prematuramente não deveria se desesperar, porque, em vez de tentar recuperar um nome "sujo na praça", poderia ter reencarnado em uma vida nova, recomeçada do nada e prevenindo erros. Se Doca Street tivesse morrido em 1989 e reencarnado dois anos depois, seria um jovem de 25 anos vivendo novas experiências, com outro nome e sem o peso de um velho nome apodrecido por um erro grave.

Essas questões são muito complexas e o ideal, também, é rever a natureza das relações amorosas, já que a maioria esmagadora das relações conjugais estimuladas por nosso sistema de valores nunca valorizam a afinidade de personalidades. Pelo contrário, em nome das conveniências e da fantasia politicamente correta de "superar as diferenças", a sociedade empurra a formação de casais sem afinidade que, nos piores casos, quase sempre terminam de forma tensa e, às vezes, trágica.

A imprensa fez cobertura do caso Doca Street e Ângela Diniz como um fato passado e sem desdobramentos mais recentes. Quando muito, cita-se as entrevistas dele, que lançou o livro Mea Culpa há dez anos, dadas na época. Embora não parecesse, as coberturas feitas por jornais como O Globo e Folha de São Paulo soam como requiém a um machista que, aos olhos da sociedade plutocrática e moralista que retomou o poder este ano, é o "brasileiro que não pode morrer".

Mas se perdemos gente muito importante em 2016 - até mesmo um Leonard Cohen, com a mesma idade de Doca Street, 82 anos, se declarou "pronto para morrer" após lançar o último álbum - , porque o medo de tanta gente de, ao menos, se preparar para se despedir dos feminicidas?

Por ironia, morreu há poucos dias um Luís Carlos Ruas ("ruas", em inglês, significa streets), vítima de espancamento por dois homens já presos. Ruas havia defendido um travesti que estava sendo perseguido pelos dois valentões. Ironicamente, Street havia matado a esposa por suspeitá-la de ter um caso lésbico, e mais tarde a vítima teria uma homônima famosa, a Ângela Diniz que usaria o sobrenome risonho de Rô-Rô.

E isso ao longo dos anos em que o machismo mais agressivo se simbolizou num empresário cujo apelido combina o cais das águas com o asfalto das ruas e que matou a esposa a poucos quilômetros do túmulo de Casimiro de Abreu, poeta ultrarromântico que representou o oposto do macho agressivo e garanhão, pois ele havia sido um jovem sensível, humanista e saudoso da inocência da infância.

O jeito é orarmos por eles, nesse preparo para a partida, e desejarmos sorte para eles reencarnarem com novos nomes, talvez sem o status social da encarnação recente, mas com mas dignidade e o esquecimento dos atos gravíssimos da vida em encerramento.

Temos que nos despedir de Doca Street, de Pimenta Neves e outros machistas que já veem obsoletas as motivações de "defesa da honra" que os protegiam nos seus crimes. Hoje os crimes que eles cometeram são considerados hediondos e já não recebem mais o respaldo da sociedade. Esse machismo sanguinário, por mais que impulsione novos crimes, vive o seu crepúsculo social.

Vamos, portanto, nos despedir de Doca Street e desejar, de coração limpo, a ele muita boa sorte quando iniciar uma nova encarnação. O Brasil deve dar adeus a Doca Street.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Mídia ainda continua depreciando a imagem da mulher solteira


A grande mídia sempre tratou a mulher solteira como uma "vagabunda". Os programas de entretenimento, sobretudo "popular", sempre se esforçaram, embora com muita sutileza, para tratar a imagem da mulher solteira como aquela que "só vive na curtição" e que "não tem compromisso para coisa alguma".

É uma espécie de "feminismo" negociado com o machismo. A mulher, segundo os padrões difundidos de forma quase imperceptível, mas bastante decisivas, pelo poder da grande mídia comercial, tem duas opções.

Uma é que, se a mulher quiser se destacar pela personalidade, pelo intelecto, pelas opiniões próprias e por um estilo de vida variado, sem a hipersexualização do seu corpo e, quando muito, apenas com uma sensualidade inserida dentro do contexto, ela é aconselhada a se casar com um homem, geralmente um empresário, profissional liberal ou alguém com poder de liderança ou influência.

Outra é que, se a mulher se ocupar apenas com a rotina de festas, ginástica, praia, noitadas e muitas, muitas poses "sensuais", aproveitando o que a indústria do entretenimento define como "as boas coisas da vida", ainda que às custas de gafe e muitas baixarias, ela está dispensada de arrumar um homem, podendo ficar "encalhada" à vontade.

A mulher pode ser siliconada, ser tatuada, posar semi-nua o tempo todo, como se isso fosse "atitude", e ainda usar um apoio tendencioso aos movimentos LGBT para disfarçar ainda mais o "machismo", não bastando o suposto "feminismo" que, na verdade, demonstra ser misandria (aversão ao sexo masculino).

Há muito tempo o Brasil vive retrocessos. Os retrocessos sócio-culturais ocorreram antes dos políticos, com um lobby de intelectuais culturais que usavam o termo "popular" para fazer apologia a todo tipo de degradação, sob a desculpa da "afirmação e empoderamento das periferias".

Quanto à mulher, isso se tornava bastante cruel. A favelada queria um emprego digno, mas o establishment da intelectualidade cultural queria que ela fosse prostituta pelo resto da vida. Criava-se um falso ativismo, supostamente "feminista", das prostitutas, algo feito para garantir o recreio de antropólogos, sociólogos e micro-empresários divorciados.

Criava-se uma massa de prostitutas resignadas com sua situação sob o pretexto do "empoderamento" e da "autoafirmação feminina", para favorecer o turismo sexual e garantir aos machistas uma considerável quantidade de prostitutas para eles poderem realizar seu "recreio", vários desses homens longe das "patroas".

Fora da prostituição, o que se vê é a hipersexualização nas páginas de famosos. Ver que mulheres aceitam sua imagem de "brinquedo sexual", apenas "sensualizando" usando uma falsa justificativa de "liberdade do corpo" (estranhamente, não se fala em liberdade de mente), fazendo a festa do mercado machista para depois ficarem posando de "feministas" no maior cinismo.

Existe uma média, para cada dez famosas que se tornam solteiras, apenas três ou quatro escapam do mundo hipersexualizado das siliconadas e a obsessão doentia pela curtição noturna. É uma situação muito grave, porque mostra o quanto se chegou o machismo no Brasil.

A mulher tem que negociar com o machismo para ter sua emancipação sob condições. Ou ela segue o machismo por conta própria ou pagará o preço da emancipação real como esposa de um homem "de sucesso". Isso cria distorções muito sérias nas vidas conjugais em ambos os lados.

Há rumores de funkeiras e sub-celebridades que escondem relações conjugais estáveis, nas quais se força um aparente divórcio para elas venderem a imagem de "solteiras convictas" porque a solteirice é uma condição rentável, sendo um potencial atrativo para o aumento de fãs. "Solteira vende mais", segundo o mercado em que o sexo faz o dinheiro acumular mais facilmente.

Por outro lado, mulheres casadas com empresários vivem vidas de solteiras, são quase sempre vistas sozinhas e, quando aparecem com seus maridos, não convencem com a falsa cumplicidade familiar e não disfarçam o distanciamento conjugal quando aparecem juntos em eventos chiques. Vivem solidão a dois, as mulheres são solteiras apenas patrocinadas por seus maridos com o qual geraram filhos.

Há várias denúncias desse nível na Internet e o mercado de fofocas apenas mostra parte disso. Funkeira "solteira" que inventa uma gripe para ver o marido isolado em alguma cidade do Nordeste do Brasil. Apresentadora "muito bem casada" fazendo longas viagens sozinha porque o marido está "ocupado demais" com sua empresa.

É coisa de louco, mesmo. E temos um dos piores mercados midiáticos brasileiros, que praticamente entrega o Brasil a uma situação catastrófica, porque os executivos de TV manipulam os valores sociais ao seu bel prazer, como se quisessem avacalhar com a sociedade. O pior é que a sociedade que adere a essa mídia predadora fica feliz com essa avalanche que destrói valores sociais um a um no nosso país.

É claro que muitos não percebem o quanto a solteira é avacalhada pela mídia. Isso porque, na vida comum, há uma aparente liberdade da mulher estar solteira ou não. Mas diante da força dos padrões sociais dominantes, a imagem da solteira é cruelmente depreciada, criando um contraste com a solteira do Primeiro Mundo, que valoriza a inteligência, a decência e não ostenta seu corpo como "carne de rua" em liquidação. Convém combater esse problema.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Você se deslumbra demais com o alto status social. E paga por isso


Você que se irritava só de ver Dilma Rousseff na televisão ou nas primeiras páginas dos jornais e na Internet, que apoiou as passeatas "contra tudo que está aí", com gente vestindo camiseta da CBF e masturbando com a bandeira do Brasil, deve parar para pensar.

Agora que temos um governo desastroso, com a PEC do Teto que limita o orçamento para a Educação, Saúde e outros setores públicos, prejudicando a população, e as reformas como a trabalhista, que fará o trabalhador ter mais carga horária e menos salários, e previdenciária, que transformará a aposentadoria numa ilusão, já que nem todo mundo vive até os 65 anos e ainda tem o tempo de contribuição de 49 anos, a coisa é muito grave para ficar sorrindo feito bobo por aí.

Os brasileiros estão pagando muito caro pelo deslumbramento do alto status social e pelo endeusamento daqueles que possuem privilégios de âmbito jurídico, empresarial, acadêmico, lúdico etc. Estão levando gato por lebre, por confiar naqueles que têm diploma, fama, dinheiro, poder político, prestígio religioso etc etc.

Fomos confiar na campanha da mídia - como a Globo, controlada por uma família de empresários sonegadores de impostos e acumuladores de fortunas exorbitantes - contra Dilma e agora temos um governo Temer que legalizou o sucateamento de escolas públicas e hospitais e causará as mortes de muitos brasileiros com trabalho desgastante, mal remunerado, aposentadoria difícil e tardia e hospitais com poucos recursos para atender tanta gente.

As ilusões do status quo deslumbram desde a escola ou no recreio das redes sociais. Surpreende que pessoas de bem participem de atos de bullying, não por terem a mesma covardia dos valentões, mas por acharem eles "divertidos" e o ritual de humilhação "uma gostosa brincadeira". Muitas pessoas assim caem no apoio ao linchamento moral, na boa-fé, e acabam virando cúmplices de um crime, sem querer.

Muitos se iludem com a pretensa superioridade social. É o cara "mais divertido", é o juiz "mais tarimbado", é o arquiteto que "sabe tudo de urbanismo", o jornalista cultural que "entende tudo de música brasileira", o político "com austeridade", o economista que "vai conduzir o nosso dinheiro", o prefeito tido como "bom administrador", o religioso que "representa Deus", o famoso que "todos gostam".

Hoje vemos exemplos aqui e ali de desastres, escândalos gravíssimos, e muitos de nós ainda vão dormir tranquilos diante de incidentes tão preocupantes, reputações sujas que se protegem sob o diploma, a fama, o dinheiro, a visibilidade, o prestígio religioso, o poder político. A podridão do alto da pirâmide exala seu fedor e as pessoas acham isso um "novo e delicioso cheiro de perfume" no ar.

Endeusamos Michel Temer, pelos atributos "elegantes" e "moderados" de "administrador austero" e agora vamos trabalhar mais, ganhar menos e, adoecendo mais, não poderemos ser atendidos em hospitais.

Endeusamos um Luciano Huck e sua fama e altíssima visibilidade, um Jaime Lerner e seus ônibus padronizados, um Sérgio Moro aqui, um Neymar ali, e ainda achamos que um Divaldo Franco ainda vai ser recebido, no mundo espiritual, com solenidades e corais de anjos na sua preparação para o jantar eterno dos "puros".

Esquecemos de muitos escândalos, erros, gafes, corrupções, deturpações, que dariam livros e livros de tão preocupantes relatos, de potenciais "anjos caídos" a cair do alto de seus pedestais para as profundezas dos planos mais sombrios da história humana.

Ver que até um Divaldo Franco começou plagiando o plagiador Chico Xavier e espalha uma bobagem como "crianças-índigo", uma farsa tão ridícula que, depois de fazer sucesso, fez o casal que criou essa palhaçada se divorciar por desentendimentos trazidos pelo enriquecimento e pela fama.

Mas se as pessoas se deslumbram com bullies e participam de linchamentos morais pensando serem "uma brincadeira saudável", o que imaginar do apego que se dão ao prestígio dos diplomas, dinheiro, prestígio religioso, fama, visibilidade etc?

O deslumbramento é tal que as pessoas ficam complacentes com os erros, quando cometidos por pessoas com estas atribuições "elevadas". Erros gravíssimos, escândalos de arrepiar os nervos, mas que, por serem cometidos por gente "importante", podem ser abafados como se fossem pequenos deslizes.

Enquanto isso, vamos perdendo a qualidade de vida, entregando nossas riquezas a gananciosos magnatas estrangeiros, perdemos a soberania entregando satélites e investigações de corrupção para estrangeiros, deixamos os ricos ficarem mais ricos e ainda assinamos embaixo quando ídolos religiosos vivem a doce ilusão de terem um aposento no "céu".

Com isso, o Brasil está vulnerável, caótico, inseguro. Por enquanto, as pessoas vão felizes para as praças e praias comprar doces para a criançada e contar piadas por aí. Até o momento em que nem isso se tornará mais possível. É bom as pessoas acordarem e pararem de cultuar os "deuses" do topo da pirâmide social.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Por que as elites devem temer as convulsões sociais?


A situação está delicada no Brasil e boa parte da sociedade, depois de sofrer a histeria anti-PT, agora parece pular sobre as nuvens do paraíso, mesmo diante de um desastrado governo de Michel Temer e uma desordem institucional desenfreada.

Temos desde o risco de perdermos as riquezas naturais para os estrangeiros - o nosso petróleo será um patrimônio estrangeiro, através da venda gradual do espólio da Petrobras - até mesmo a venda dos satélites de segurança estratégica do Brasil, que deveriam se subordinar à soberania brasileira usando apenas tecnologia nacional e concessões restritas à empresas brasileiras - , dentro de um cenário em que o Judiciário e o Ministério Público atuam de acordo com as conveniências.

O assustador não é somente a ameaça que está em curso, principalmente quando a possibilidade do presidente Michel Temer ser tirado do poder, em 2017, só permitirá sua sucessão através de uma eleição indireta, no qual os parlamentares do Congresso Nacional, majoritariamente conservadores, irão escolher o candidato à altura de seus interesses de classe.

Desde que foi aprovada a PEC dos Gastos Públicos, que limitará o orçamento para os setores públicos - como Educação e Saúde - por duas décadas, praticamente sufocando a vida nacional, tudo se espera nos retrocessos que aprofundarão ainda mais as desigualdades sociais.

Só as reformas da Previdência Social e do Trabalho tendem a forçar os brasileiros a trabalharem mais e por mais tempo, ganhando menos salários, perdendo garantias sociais e praticamente nunca se aposentando, porque não terão força para chegarem vivos à idade de aposentadoria, ainda mais quando serão obrigados a ter quase 50 anos de contribuição só para receber a tal "aposentadoria integral", ou seja, umas migalhas a mais para o "salário de fome" da aposentadoria geral.

Diante de tudo isso, a perda de protagonismo das classes populares no Brasil ocorrerá em doses muito pesadas, porque as elites voltaram com apetite descontrolado de recuperar seus privilégios. Já surgem rumores de que poderão ser revogados a Lei Áurea e até o Sete de Setembro, alterando o Dia da Pátria para o Quatro de Julho, pois o Brasil estará cada vez mais subordinado aos interesses dos EUA.

Parlamentares lutam para aprovar todo tipo de retrocesso. Frear verbas para Educação e Saúde. Limitar salários dos trabalhadores. Extinguir garantias sociais. Atenuar os abusos do empresariado. Perdoar a sonegação fiscal dos mais ricos. Privatizar empresas públicas. Desnacionalizar a economia. Entregar nossas riquezas para estrangeiros, ainda que não exclusivamente dos EUA (uma reserva de pre-sal em Santos já foi vendida para uma estatal norueguesa). É jogar o Brasil para baixo!

CARIDADE PALIATIVA

Aí as pessoas acham que a "caridade" institucional - ou seja, a caridade paliativa - , que expõe mais o benfeitor do que os benefícios fajutos que traz, é a salvação máxima do povo brasileiro, e basta as elites e os movimentos religiosos investirem em "casas de caridade" e "projetos filantrópicos" resolverão a situação das desigualdades sociais.

Embora sejam válidas algumas dessas instituições - não é o caso do "espiritismo", cuja "filantropia" só serve para acobertar as irregularidades dessa doutrina deturpadora com "bom-mocismo" - , isso em si não rompe com as estruturas sociais injustas que agora estão sendo não apenas recompostas, mas ampliadas com os vorazes projetos de exclusão social que o governo Temer está realizando e poderá ser continuado por um sucessor eleito indiretamente.

Isso porque o projeto excludente é cruel demais e o povo pobre, que viu o comecinho de sua emancipação social, não aceitará perder o protagonismo social que se iniciou. O povo pobre sabe muito bem da diferença que é trabalhar e ter uma casa própria e uma vida independente e ficar hospedado numa "casa de caridade" tomando sopinha e sendo subordinado a um líder religioso que, por mais "generoso" que possa parecer, irá impor suas regras.

Daí o risco de convulsões sociais. Já se observa o "espírito do tempo" num estranho assalto a uma agência do Banco do Brasil, em Niterói, no qual se desconfia de que o ato, ocorrido em horário movimentado, a poucos metros de um posto policial e com o detector de metais previamente desligado, pode ter sido combinado por um funcionário demitido do banco.

A ocorrência se deu após o governo Temer anunciar um plano de demissões e fechamento de agências da instituição financeira. O que mostra o preparo que a "sociedade feliz" com o atual governo que "não é lá grande coisa mas está resolvendo o país" precisa tomar muito cuidado com as convulsões sociais. Meses atrás, até a "paradisíaca" praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, foi palco de um estranho linchamento, típico das mais matutas cidades do interior.

O que vemos nos últimos meses é a formação de elites ainda mais poderosas e blindadas, como as de juízes, banqueiros e, pasmem, os movimentos religiosos, que aparentemente só possuem "os tesouros do céu" mas, quando lhes convém, sempre acariciam os afortunados da Terra. Podemos incluir os "espíritas" nessa empreitada? Sim, vide o exemplo de Divaldo Franco, que sempre recorreu às elites não para cobrar delas alguma ajuda, mas para bajulá-las e receber delas prêmios.

A toga, o setor financeiro e a fé religiosa garantem a seus detentores uma blindagem na qual seus erros e abusos são sempre protegidos. Não há punição contra eles, e a "luminosidade" na Terra cria uma ilusão até para os supostos médiuns do "espiritismo", que se valem do "culto à personalidade" e da roupagem "filantrópica" que lhes blinda,

Pode-se pintar um quadro e atribui-lo falsamente a um pintor falecido, processo que consiste em fraude, e a Justiça nunca pegar no pé porque tudo é feito com o pretexto do "pão dos necessitados". É a caridade paliativa blindando fraudes pseudo-mediúnicas.

Isso não vai conter a convulsão social, porque sabemos que as pessoas não toleram tantos retrocessos. E a gente vê os "espíritas" apelando para "aceitar o sofrimento", inventando que "perder tudo é um ganho" e tudo o mais, recomendando para "ninguém reclamar" e "nunca contestar", como se valesse, entre os "espíritas" brasileiros, o ditado popular de que "pimenta nos olhos dos outros é refresco".

As elites têm que se preocupar, e os ricos que estiverem voltando de carro para seus condomínios de luxo têm que fazer manobras rápidas e serem amigos dedicados dos porteiros, para que eles aceitem colaborar com rapidez para abrir os portões. Isso porque o projeto de exclusão social do governo Temer, ao promover milhares de desempregos e subempregos, irá irritar muitos cidadãos pobres que, sem ter a que recorrer, virarão assaltantes.

Isso se dará tanto pela falta de dinheiro para pagar as contas quanto pela revanche de ver os benefícios sendo cortados dia após dia. E é isso que fará com que o preço mais caro da retomada conservadora se volte para os mais ricos, o que pode fazer com que as elites mais endinheiradas, como as dos magnatas da mídia e do mercado financeiro, tenham que usar o excedente de seus nababescos depósitos bancários para enterrar seus filhos.

Afinal, o que se verá de reação das classes populares é imprevisível. As elites acreditam que tudo está sob controle e basta apenas compensar os projetos de exclusão social das reformas econômicas vorazes do governo Temer - já inauguradas pelo estrangulamento do orçamento público - com festinhas beneficentes e filantropia de fachada (que mais promove o benfeitor do que o benefício, que é pouco).

Isso é impossível. As pessoas não aceitarão ficar numa posição social subalterna e o que se observará é a repetição dos trágicos episódios que atingiram as elites nas crises econômicas graves do final da ditadura militar e do governo de José Sarney.

Serão tragédias atingindo sobretudo jovens ricos, estabelecendo o preço que a exclusão social causará sufocando a vida do povo pobre a ponto de muitos humildes, desamparados na vida, tenham que recorrer ao crime para protestar contra sua situação. Isso não é praga, será um efeito natural daqueles que veem suas conquistas sociais dificilmente obtidas serem dissolvidas tão bruscamente.

A situação ainda poderá ser mais grave do que os outros períodos políticos citados, porque a exclusão social agora é institucionalizada, dentro de um governo propositalmente voltado para os mais ricos e agindo para o desmonte das conquistas sociais das classes populares, muitas delas históricas e tradicionais. As convulsões sociais ocorrerão na mesma proporção da exclusão social, pela natureza das atitudes e suas consequências diretas.

domingo, 18 de dezembro de 2016

A pediatra e a responsabilidade dela e do "espiritismo" brasileiro


Estranha moral em que vivemos, nesses tempos de retomada ultraconservadora, quando uma parcela da sociedade despreza as mudanças do tempo e força o Brasil a andar para trás e para baixo, dando nesse desastrado governo republicano que agora temos.

Numa sociedade machista, as pessoas têm medo só de imaginar que feminicidas também podem morrer um dia. De repente, homens que tiraram a vida de suas próprias mulheres viraram "entes queridos", machistas que sofrem pressões emocionais, descuidam da saúde etc e ainda cometem crimes e as pessoas se arrepiam só de ver que eles podem adoecer e falecer um dia. E nisso num país em que pessoas bem mais importantes e valiosas morrem mais cedo!

Num país marcado pela pós-verdade, se dois homens fumam demais, maltratam o coração com algum dano à saúde etc, com o mesmo organismo vulnerável e frágil, se um deles é ator de teatro e outro um rico e poderoso qualquer que assassinou a ex-mulher e se livrou da cadeia, muitos ignoram as lógicas da Biologia e acreditam que o segundo chegará inteiro e sereno aos 90 anos, enquanto se conformam em ver o primeiro morrer cedo de repente. Dois pesos, duas medidas.

Sem falar que as vítimas desses machistas morrem com 20, 30 anos. Seus assassinos não podem morrer sequer com 50, mesmo entupindo o organismo com cigarro, drogas, álcool e levando uma vida estressante. Um famoso feminicida atingiu a idade de Leonard Cohen, que se preparou para morrer e morreu, e os machistas não se prepararam sequer para dar adeus a ele, que com um passado tabagista que arrepiou os próprios amigos, poderia ter morrido há mais de 25 anos.

Isso é um moralismo que parece sair de um livro de Franz Kafka, mas é a realidade do Brasil. Daí o "espiritismo" brasileiro que temos, que, pelo jeito, tem um aspecto muito comum com a dos machistas da tal "defesa da honra": considerar a vítima "culpada" se ela sofre algum infortúnio ou tragédia. "A vítima é a culpada", reza esse moralismo que insiste em resistir no século XXI.

MÉDICA ACUSA MENINA DE SETE ANOS DE SER "CULPADA" PELO ESTUPRO

Em Rondonópolis, Mato Grosso, uma pediatra se recusou a atender uma menina de sete anos cuja mãe afirmou ter sido vítima de um estupro. A criança estava abalada e assustada, porque havia sido assediada sexualmente pelo tio. A pediatra então fez seu juízo de valor para explicar por que não pode atender a menina.

A médica alegou que "vítimas não existem" e que a menina era a culpada pelo estupro. Disse que a criança exibia "uma energia sexual" que puxou o tio para ter sexo com ela e alegou que a menina tinha esse problema contraído de "vidas passadas".

Afirmando-se "espírita", a médica, depois que foi processada pela mãe da menina, alegou, em sua tese de defesa, que expressava sua "liberdade de crença, consciência e religião" para se recusar a dar atendimento à menina.

Mas a médica foi condenada a indenizar a mãe da menina por danos morais, no valor de R$ 10 mil, e uma sindicância foi aberta, havendo possibilidade da pediatra perder o registro profissional do Conselho Regional de Medicina. A sentença ainda permite recurso.

É um caso gravíssimo e que, aparentemente, foi apenas um deslize pessoal de um julgamento de valor exagerado. Mas, embora a pediatra tenha, acima de tudo, que se responsabilizar individualmente pelo que fez, o "movimento espírita", pelo seu caráter deturpador e pelo seu moralismo severo, também deve ser responsabilizado.

MORALISMO "ESPÍRITA" É ASSIM MESMO: SEVERO

A pediatra não tirou do nada seu julgamento de valor. Também não partiu apenas de "certos centros espíritas" que "falharam" na compreensão doutrinária. Ela se deve à doutrina do "espiritismo" brasileiro como um todo. Seu moralismo severo está no conjunto da obra e mostra o lado sombrio de sua própria ideologia, associada aparentemente a uma combinação de religiosidade, filantropia e consciência da vida espiritual.

A título de comparação, é bom deixar claro que esses juízos de valor partem do "mais gabaritado médium" da doutrina, Francisco Cândido Xavier. Beato católico e moralista ultraconservador, ele se "fez espírita" apenas porque foi excomungado pela Igreja Católica por ser paranormal - embora os valores católicos que Chico Xavier defendia sejam bem ortodoxos e medievais - e, por isso, muitos não acreditam que ele fosse capaz de fazer também juízos de valor cruéis.

O processo contra a pediatra, que os fanáticos "espíritas" definem como "perseguição da Justiça terrena aos propagadores da fraternidade e da consciência da vida eterna", não é o primeiro por danos morais que ocorre em relação ao "movimento espírita".

Quando lançou o livro O Voo da Esperança, o médico e "médium " Woyne Figner Sacchetin, de São José do Rio Preto, atribuindo a "psicografia" a uma estranha autoria de Alberto Santos Dumont, ele também acusou as vítimas de um acidente do voo da TAM, ocorrido em 2007, de terem sido romanos sanguinários do século II. Usou "vidas passadas" para justificar a tragédia, o que ofendeu algumas famílias das vítimas, que moveram um processo judicial.

O livro saiu de circulação. O mesmo Woyne havia lançado também um livro sobre Juscelino Kubitschek, JK - Caminhos do Brasil, no qual imitou direitinho a narrativa do ex-presidente que mandou construir Brasília. Deve ter lido Manchete adoidado.

A narrativa é verossímil, mas comete, pelo menos, uma séria falha: quando foi perguntado pelo Toniquinho da Farmácia, no comício em Jataí, Goiás, se Juscelino, caso eleito presidente, cumpriria o artigo constitucional que determinava a construção de Brasília, o então candidato hesitou alguns segundos para responder. O "espírito" disse que "respondeu sem hesitar".

Mas existem outros casos. A própria tragédia do circo de Niterói, o Gran Circo Norte-Americano, em 17 de dezembro de 1961, é de responsabilidade do próprio Chico Xavier. Lançando o livro Cartas e Crônicas, com a habitual usurpação do nome de Humberto de Campos, dissimulada pelo codinome "Irmão X", Chico acusou as vítimas do criminoso incêndio de terem sido romanos sanguinários em "vidas passadas". O "puríssimo médium" cometeu muitas crueldades com isso.

Primeiro, logo um "médium" conhecido por sua humildade acusou gente humilde de ter sido uma multidão de "aristocratas sanguinários". Segundo, Chico se esqueceu de sua tão alegada qualidade de "misericordioso" e fez acusação tão leviana e perversa evocando uma época distante, como se uma tragédia contemporânea significasse uma "vingança" de algo feito numa época muitíssimo antiga.

Outra crueldade foi inventar tudo isso e atribuir responsabilidade a um autor falecido, ainda mais um Humberto de Campos cujo estilo pessoal nunca se reconhece nas ditas "obras espirituais", uma obviedade que os juízes de 1944 tiveram a preguiça de reconhecer e que poderia muito bem ter condenado Chico Xavier e evitado que ele se tornasse o "semi-deus" do imaginário religioso das últimas décadas.

E olha que não falamos de certos equívocos da compreensão espírita, como a não-existência de "resgates coletivos" - as vítimas do incêndio do circo, de procedências tão dispersas e diversas, dificilmente poderiam cumprir juntas um mesmo destino nem terem vivido juntas outras épocas - ou o fato de que os "espíritas" atribuem as vidas passadas no achômetro, como fazem "mediunidade" de faz-de-conta, sem apreciar corretamente os ensinamentos de Allan Kardec.

Portanto, não existe essa coisa de "certos espíritas não entenderam direito" se vemos que a deturpação é generalizada e envolve até mesmo Chico Xavier e Divaldo Franco, este capaz de acreditar numa bobagem como "crianças-índigo", uma farsa tão ridícula que o casal que o inventou se divorciou quando o sucesso financeiro gerou um conflito de interesses.

Por isso, entendemos que a pediatra deva ser punida pessoalmente, sim. Mas devemos admitir, também, que esse é o preço caro que a deturpação do "movimento espírita", que sempre achou "natural" catolicizar o legado kardeciano, pela desculpa da "identificação aos ensinamentos cristãos", estabelece ao seu movimento.

Esse moralismo cruel, que levou uma pediatra a acusar uma vítima de estupro de ter sido a própria culpada, vem dos próprios livros "espíritas" feitos no Brasil (inclui os de Chico Xavier), que temperaram com o dado católico do moralismo severo meras alegações de vidas passadas trazidas pelos trabalhos espíritas europeus, a partir da própria obra de Kardec. Portanto, o erro da pediatra é, também, o erro do "movimento espírita" do Brasil no conjunto da obra.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Como ensinar a morte aos feminicidas?


Morre todo tipo de pessoa na humanidade. Isso é fato, temos um prazo limitado de vida. Mas, na sociedade dotada de surtos surreais em que vivemos, existe um tipo de pessoa que "não pode morrer", e cuja informação de sua tragédia pessoal soa, para muitos, ofensiva.

É a do feminicida, sobretudo conjugal. Aquele feminicida que mata uma mulher, na maioria das vezes a própria companheira, e alegando desculpas como a "defesa da honra" ou a falácia de que a vítima "gritou com ele", se livra da cadeia.

Numa sociedade moralista e retrógrada em que vivemos, esses homens, que simbolizam um machismo retrógrado, sanguinário e burro, são tidos estranhamente como pessoas que "não podem morrer", ou, quando morrem, isso nunca deve ser informado. A ideia é sempre passar uma ideia de linearidade da vida, o que é um contrassenso, porque os feminicidas são as pessoas mais vulneráveis que existem na Terra e, no contexto do Brasil, eles são praticamente um grupo de risco.

Ultimamente, dois feminicidas conjugais bastante conhecidíssimos, que viraram noticiário nacional, um nos anos 1970 e 1980, outro já nos anos 2000, estão no caminho da morte. A gente diz isso porque odeia eles e porque quer que eles se ferrem? Não, pois isso pode ser constatado até pelos seus amigos mais queridos, como no caso do que cometeu o crime mais antigo, cujo tabagismo já preocupava justamente aqueles que mais o amavam.

É mais difícil ensinar a ideia da morte a um feminicida do que a uma criança. O feminicida só conhece a morte pelos outros e pela morte que impõem a suas vítimas, sejam companheiras, amigas, colegas de trabalho, vizinhas etc. Para eles pouco importa se sua vítima foi morta aos 25 anos, mas lhes amedronta a ideia de que poderão morrer de alguma grave doença aos 55 anos.

Os feminicidas são muito mais vulneráveis do que se imagina. Principalmente quando são beneficiados pela impunidade e são expostos a uma realidade caótica e conflituosa do mundo aberto. Eles podem, por exemplo, serem potenciais vítimas de assaltos e o ladrão não irá lhes abordar para pedir um autógrafo. Para quem potencialmente matou várias pessoas, como um assaltante, tanto faz atirar contra quem assassinou apenas uma pessoa.

Para começar, boa parte desses homens têm uma consciência do risco que é tirar a vida de alguém. Sobretudo contra mulheres com quem tinham uma relação social mais amistosa. O ineditismo da atitude lhes faz acelerar o coração, despejar doses de adrenalina e os fazer decidir pela medida mais arriscada, que pode trazer consequências devastadoras e irrecuperáveis.

Imagine o quanto o organismo de alguém, que com sua fúria atira e enfia uma porção de facadas em alguém que antes lhe nutria alguma afeição, é abalado por esses poucos minutos de fúria, que bombardeiam o organismo com a força de uma tragada de crack? Alguém imaginaria que pessoas assim chegariam tranquilas e saudáveis aos 90 anos?

Pesquisas mostram, no caso das atitudes dos machistas (sem mencionar os que praticam feminicídio), que eles costumam cometer atitudes de risco. Se recusam a fazer exame de câncer, sobretudo próstata, dirigem em alta velocidade e, não raro, sob ingestão de álcool e vivem em constantes explosões nervosas, além de se alimentarem muito mal.

Some-se a isso a fúria com que vários machistas se dirigem às mulheres que, educadamente, pedem para encerrar uma relação. Elas são tratadas como troféus, são desprezadas por seus homens como prêmios guardados no armário, e quando elas pedem para encerrar uma relação, eles não gostam.

Cria-se uma discussão, eles perdem a cabeça, elas acabam gritando e eles, em atitude de fúria, correm para as gavetas pegar facas e revólveres para matá-las, ou arrumar outras formas, como envenenamento.

Isso já causa um bombardeio emocional estarrecedor. Os homens são tomados de uma emoção descontrolada que lhes castiga o organismo. E, a partir de então, passam a sofrer graves pressões emocionais, ainda mais quando a Justiça injusta do Brasil das conveniências beneficia os feminicidas conjugais e não-conjugais (quando eles matam, por exemplo, colegas de trabalho ou escola) com uma impunidade preocupante.

Mesmo quando o crime passou a ser considerado hediondo, há casos de crimes conjugais que são dissimulados pela disputa dos filhos, que diante de certas interpretações jurídicas, traz atenuantes penais. Desta forma, alguns casos recentes de maridos que mataram mulheres e depois levaram os filhos consigo servem como tática para transformar o crime hediondo em apenas doloso, que permite a liberdade condicional.

Só que as pressões emocionais que a impunidade trazem ao feminicida os abala gravemente, fazendo com que, na melhor das hipóteses, haja envelhecimento precoce. As famílias que o viam como um membro querido passaram a vê-lo com sombrio desprezo, às vezes com silencioso ódio. A sociedade feminista os hostiliza, e mesmo homens que sentem lesados ao ver tantas mulheres assassinadas - menos mulher para escolher para namorar - também reagem com ódio e revolta.

Os feminicidas, mesmo os de elite e beneficiados pela impunidade não só jurídica mas social - a mídia conservadora tenta lher dar uma imagem "simpática" deles, como se eles ainda pudessem ser genros ideais para as boas famílias - , sofrem até mesmo um conflito pessoal, entre o orgulho da "defesa da honra" e a vergonha do crime cometido, praticamente arruinando suas vidas e pondo sua reputação social no lixo.

Mesmo assim, eles tentam empurrar tudo pela barriga. Tentam salvar sua reputação, uma mera ilusão de prestígios materiais e relações de poder que eles fingem serem recuperáveis. Evitam que noticiários e filmes relembrem seus crimes, fingem para eles mesmos que suas tragédias pessoais - pela relação criminal, todo assassino carrega, em si, sua tragédia pessoal - não existem e buscam uma tranquilidade que nunca lhes sossegará a consciência, já duramente pesada.

Se falamos que a morte também ronda a vida dos feminicidas, não o fazemos por ódio a seus crimes. Os próprios criminosos estabelecem riscos diversos, sobretudo numa sociedade machista em que os machistas se acreditam tão fortes que nem a nicotina é capaz de abatê-los.

Até porque, se um médico lhes diagnostica um câncer, muitos desses homens se sentem ofendidos e ameaçam processar o respectivo médico por danos morais, até perceberem depois que o câncer chegou ao estado terminal.

Pior é que, num contexto de convulsões sociais graves, em que o ódio extremo contagia até pessoas de reputação considerável na sociedade, despejando preconceitos sociais inimagináveis, os feminicidas conjugais são jurados de morte em potencial, diante da indignação de muitos internautas que falam que esses criminosos deveriam morrer. Nada impede que um feminicida de São Paulo seja morto por um internauta do Ceará, se ele ver a foto da vítima e despertar afeição a ela.

É chocante falar em morte para os feminicidas, porque nem a imprensa se interessa a mencionar essas tragédias. Que razão isso se dá não entendemos, e a gente pergunta se não é para evitar suicídio de homens diante da notícia de machistas morrendo ou se isso vai influir no prejuízo da indústria do armamento ou é um medo do movimento feminista sair em comemoração.

Isso é um aspecto surreal da sociedade conservadora. Afinal, todos têm um limite vital, mas os feminicidas são os únicos que "não podem morrer". Contraditoriamente, matar uma mulher virou um "diferencial" e o status quo parece indicar que feminicidas tenham que viver para explicar a seus netos como "vovô tirou a vida da vovó". Algo que soa desnecessário, porque tudo o que um feminicida pode dizer de alguma amarga lição é possível de ser transmitido por terceiros.

Na lei de reencarnação, o prejuízo menor seja os feminicidas se preocuparem menos em prolongar demais suas vidas, no desespero de salvar reputações que já estão perdidas. Antes deixarem seus nomes ilustres perecer no túmulo, enquanto reencarnam com nomes e situações novas, recomeçando a vida com condições maiores de evitar futuros crimes.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

As elites que se preparem para a "convulsão social"


Se você é rico, pode começar a mudar sua rotina. Mude o horário de suas festas noturnas para mais cedo, evitando o fim de noite e a madrugada. Acerte com o porteiro do prédio uma rápida abertura da garagem de seu condomínio e não faça manobras hesitantes, tipo marcha-a-ré ou curvas, sob pena de não ser rendido por um ladrão em tocaia.

A "convulsão social" é uma realidade e as elites têm que tomar muito cuidado. Como o projeto de desmonte de direitos sociais está sendo bastante radical, as classes populares, entregues à desgraça, começarão a reagir com violência.

Nos últimos dias, dois indícios disso já ocorreram. Um invasor foi detido tentando entrar na casa do presidente Michel Temer, em São Paulo. Depois da aprovação da PEC dos Gastos Públicos, ontem, manifestantes atacaram a sede da FIESP, patrocinadora dos protestos anti-Dilma que abriram caminho para o atual governo.

As elites têm que tomar cuidado até com dinheiro. Terão que abrir mão de seus bens, escolher entre vender metade de sua coleção de vasos e perder metade de seus filhos vítimas de assaltos. Terão que reduzir suas fortunas exorbitantes e não esconder o dinheiro em contas secretas e declarar apenas parte dela no Imposto de Renda.

A cada vez mais os membros da plutocracia estão vulneráveis. Decidem tudo à revelia do povo e, com isso, assumem o ônus desse prejuízo social. Elas querem o paraíso só para elas, com um descomunal apetite de retomar os privilégios, até de forma mais radical do que antes, e não querem se achar vulneráveis.

A coisa está tão enlouquecida que existem movimentos fascistas que se acham na liberdade de invadir páginas na Internet, assim como existem grupos que despejam comentários racistas, machistas e calúnias de todo tipo. Enquanto isso, a sociedade que se enfurecia com o PT, mas que hoje aceita até fedor de caminhão de lixo passando perto de um piquenique, acha natural haver casos de cyberbullying na Internet e, em certos casos, até aderem a essa "gostosa brincadeira".

Houve exemplos de pessoas antes dotadas de reputação admirável, como o diretor teatral Cláudio Botelho e o publicitário Nizan Guanaes, despejando preconceitos sociais gravíssimos, expressando um reacionarismo sem limites.

Alguma coisa tem que ser feita, um freio para os impulsos de setores conservadores e privilegiados da sociedade com medo de perderem os benefícios de antes. Esses setores se demonstram serem antiquados, decadentes e, por isso, sua retomada doentia de poder pode representar um preço muito caro.

As "convulsões sociais" representam o conflito entre o "novo" e o "velho", entre os novos agentes sociais reclamando de direitos e garantias que chegaram a conquistar parcialmente mas correm o risco de perdê-los em quase tudo, e os velhos privilegiados que nem perderam muitos privilégios mas querem não só reconquistá-los como querem muito mais, até além do que precisam e merecem.

O Brasil caminha para uma situação caótica e as crises não são feitas para carioca ficar rindo com copo de cerveja na mão. A situação é gravíssima e é o Estado do Rio de Janeiro que anda pagando mais caro pelas decadências sociais orquestradas pela plutocracia, a partir de campanhas que variam da fúria cyberbully às propagandas e noticiários de televisão.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

A perigosa blindagem que beneficia os "espíritas"

PINTURA DE JOSÉ MEDRADO ATRIBUÍDA A CÂNDIDO PORTINARI MOSTRA IRREGULARIDADES. O PORTINARI ORIGINAL APARECE NO QUADRO À ESQUERDA, NO ALTO, E, IMEDIATAMENTE ABAIXO, A ASSINATURA FEITA EM 1941.

Bom viver no Brasil, a República das Bananas. Dependendo do prestígio social, você pode fazer das suas que ninguém mexe. A Justiça não move um dedo e, se mover, você pode investir um pouco de vitimismo aqui, triunfalismo acolá e tudo fica na mesma coisa.

As pessoas na verdade não tem concentração para pensar no que elas fizeram na vida, e vão ter para conversar com os mortos? A quase totalidade da "mediunidade" que se pratica no Brasil é uma grande fraude, até porque, de repente, o Brasil possui uma quantidade de "médiuns" grande demais para uma atividade que muitos consideram excepcional e peculiar.

Sabemos que é chocante identificar fraudes de supostos médiuns, vários deles gozados de altíssimo prestígio. As pessoas, apegadas em convicções infantis, preferem aceitar a mentira e a falsificação, desde que elas transmitam "mensagens positivas" e sejam produzidas "em nome do pão dos necessitados". A bondade vira cúmplice da mentira e da farsa, fazer o quê?!

É aberrante e surreal essa situação. A mentira se transforma em verdade porque o trabalho do bem a purificou? Que coisa ridícula e estúpida! Por isso a gente vê, nas pregações "espíritas", gente condenando o que eles chamam de "overdose de raciocínio", "tóxico do intelectualismo" e atribuem "paixões terrenas" ao raciocínio investigativo e às contestações severas, mesmo com provas.

À ESQUERDA, OBRA E ASSINATURA ORIGINAIS DE HUMBERTO DE CAMPOS. À DIREITA, AS DO SUPOSTO ESPÍRITO DIVULGADO POR CHICO XAVIER.

A carteirada religiosa chega a investir em teses absurdas como atribuir a uma "percepção fora das limitações da matéria terrestre" ou a "compreensões que escapam da lógica humana" para permitir que fraudes supostamente mediúnicas sejam consideradas "autênticas". Basta apresentar uma mensagem "positiva", que "a ninguém ofenda", para ser considerada "verdadeira".

Paremos para pensar. O falso vira verdadeiro porque o nível de compreensão na Terra é limitado? Não. Se temos limites de compreensão para muitas coisas, isso não significa que, só por serem mensagens religiosas, os textos, sons e imagens fraudulentos, embora atribuídos à "gente do além-túmulo", sejam considerados "autênticos" por "escaparem da lógica dos homens".

Isso é deplorável. Observamos muitas das obras ditas "mediúnicas" e somos obrigados a identificar fraudes. É por ódio ou rancor a este ou aquele ídolo religioso. Não. Quem dera se pudéssemos realmente admirá-los, mas eles, em vez de apresentar qualidades realmente dignas, usam apenas um simulacro de "dignidade" para mascarar suas ideias mistificadoras e suas desonestidades diversas.

É assustador que muitas pessoas cheguem à idade adulta e à velhice esquecendo da estória do "homem do saco". Aquele homem que diz estórias lindas para uma criança, sob a intenção de sequestrá-la e que parece bondoso, simpático e com uma linguagem bastante animada e cativante.

Esquecemos tudo isso e muitos de nós aceitam as fraudes "mediúnicas" como "autênticas" por serem elas associadas a intenções "filantrópicas" ou transmitirem "mensagens de amor". Esquecemos das irregularidades e das disparidades de estilo, facilmente identificáveis em análises comparativas.

No alto, colocamos dois retratos pintados de São Francisco de Assis. Um é de Cândido Portinari, feito em 1941, que mostra o referido santo em olhar introspectivo, com traços precisos e fortes. Outro é o mesmo santo cuja pintura atribui ao mesmo espírito, pela obra do "médium" José Medrado.

Não há como dizer que isso não é fraude. Os estilos são puramente diferentes. O "Portinari" de José Medrado apresenta um São Francisco fazendo um sorriso matreiro, como se isso dissesse muito sobre a natureza da imagem. A pintura não tem as cores precisas e fortes de Cândido Portinari e a assinatura nada tem a ver com ele, mas com o estilo pessoal de José Medrado, já observado em pinturas atribuídas a outros espíritos de artistas.

Isso é calúnia, é ofensa, difamação? É perseguição ao trabalho do bem? Nada disso. Não podemos fingir que as duas obras são autênticas, que o espírito do pintor esquece seu estilo tomado de tanto amor no coração (?!), que tudo é válido pela "linguagem universal do amor" e outras alegações.

Paciência. Não deixamos nosso cérebro num copo d'água ou num freezer quando saímos de casa e sobretudo quando entramos em um "centro espírita". Somos seres racionais e, se nossos padrões de percepção das coisas são precários, no mundo espiritual eles não se transformam num vale-tudo em que os traços pessoais se tornam um critério desprezível diante da carteirada emocional do "amor" e da "caridade".

O caso de Humberto de Campos foi outro grande exemplo aberrante. Gerou um processo judicial que deu em nada. A carteirada emotiva e religiosa prevaleceu, e Francisco Cândido Xavier, o "popular" Chico Xavier, e o presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas, os verdadeiros autores da fraude que usava o nome do escritor maranhense, saíram impunes e o "médium" viu seu arrivismo pessoal atingir uma ascensão em níveis vertiginosos.

Custou aos juízes um pouco de observação? A fraude era fácil de ser identificada. Os livros do "espírito" Humberto, em vez de ter o texto culto, gramaticalmente perfeito, narrativa ágil e descontraída, apresentam um texto pesado, narrativa cansativa e deprimente e sérios vícios de linguagem, não bastasse essa ser forçadamente culta, mas prolixa.

As pessoas aceitaram tudo isso e uma bibliografia "paralela" atribuída a Humberto de Campos passou a ser lançada impunemente, criando a tentação das pessoas juntarem as obras do Humberto deixadas em vida (inclusive lançamentos póstumos, mas escritos quando o autor estava vivo) e as supostas obras espirituais, "autenticadas" em nome da carteirada emotiva do "amor" e da "bondade".

A desculpa usada para tudo isso é que "o amor pode tudo", "o amor tem razões que a razão desconhece" e tudo mais, que permite todo tipo de falácia que transforma uma mentira descarada em "verdade indiscutível". Daí colocar o falso como "verdadeiro" por causa de "mensagens positivas", e o próprio Wantuil, no seu tempo (1944), disse que os livros do suposto Humberto "não ofendiam a memória" do autor maranhense.

Balelas. Um pouco de leitura atenta mostra que as obras são uma fraude, e temos que considerar isso. As maiores paixões terrenas não são as do raciocínio que vai "longe demais", mas da fé extrema que quer bloquear os avanços do raciocínio, quando ele põe em xeque mitos religiosos. É isso que os farsantes pensam, quando usam a "bondade" para blindar a fraude e a mentira. Pensam que mentira de amor não dói. Mas ela dói, dói muito. O problema é que muitos nem sentem essa dor, que fere e sangra secretamente.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A perigosa ascensão do fascismo no Brasil


Enquanto na Colômbia houve uma homenagem durante o horário que seria o jogo entre o Atlético Nacional, daquele país, e o brasileiro Chapecoense - jogo cancelado pelas vidas ceifadas no acidente do time catarinense - , repetida também no estácio Arena Condá, do referido time, em Chapecó, reacionários se preocupam com a punição que haverá contra abuso de juízes e procuradores.

O Brasil é surreal e está cada vez mais confuso desde que a chamada plutocracia retomou o poder e busca recuperar seus privilégios abusivos. Anteontem houve uma repressão policial contra manifestantes que protestavam contra a PEC dos Gastos Públicos. Ironicamente, ocorria um "modesto" coquetel promovido pela Câmara dos Deputados.

Esses protestos eram muito mais justos do que o panelaço que perturbou a vizinhança ontem à noite. Isso porque os protestos contra a PEC dos Gastos Públicos, ou PEC do Teto, de números 241, até ser aprovado na Câmara, e 55, até ser aprovado no Senado, são contra uma medida tenebrosa que sufocará o orçamento público quanto mais era necessário ampliar investimentos.

A gente observa hospitais funcionando mal, com tetos - ao pé da letra, no sentido dos prédios e casas - rachados, com ferrugem e goteiras, lâmpadas pifadas, médicos sobrecarregados e corredores cheios de gente, com pacientes morrendo deitados no chão ou no banco de espera, ou então os dramas da falta de professores, banheiros sem papel higiênico nem detergente, bebedouros inutilizados acumulando poeira e aposentados pedindo dinheiro emprestado para comprar remédios.

Isso já era resultado do descaso público, que com a PEC dos Gastos Públicos será autorizado a fazer, ou melhor, a deixar de fazer o que sempre deixou de fazer: investir em setores públicos. A PEC do Teto praticamente instituciona e legaliza o desvio de dinheiro público para os rentistas, banqueiros e para os próprios políticos, sempre os mesmos ricaços que acumulavam fortunas em cima do sofrimento humano.

É certo que existem vândalos em manifestações pacíficas. Mas é ilustrativo que a polícia sempre se preocupa em reprimir manifestações que não são aceitas pelas elites, enquanto a trágica invasão de neofascistas no Congresso Nacional, semanas atrás, resultou em poucos detidos para darem depoimentos e depois serem liberados, como se fossem apenas crianças travessas.

Aquilo não era travessura. E também não era, como divulgou parte da mídia reacionária - como a rede de rádios Jovem Pan - , um grupo de pessoas "que perderam a paciência com a corrupção e a impunidade". Era, sim, um perigosíssimo movimento que pode trazer ao poder um tirano dos mais ameaçadores, tão personalista e prepotente que é capaz até de eliminar aqueles que o levaram ao poder.

A coisa é séria e o pessoal sai brincando. Aí vem o pacote anticorrupção que, com todas as imperfeições, pelo menos define punição para abuso de juízes e procuradores, e vem uma campanha de panelaços que surpreendeu quem não estava fazendo plantão nas páginas reaças das redes sociais.

De repente as pessoas passaram a defender a prepotência de juízes, promotores e procuradores, como se eles estivessem acima da lei. É ilustrativo isso ocorrer quando um ex-promotor de Atibaia, acusado de feminicídio e tendo feito parte da lista de procurados da Interpol, seja entregue à mais aberrante impunidade, num país ainda furiosamente machista como o Brasil.


SÉRGIO MORO E DELTAN DALLAGNOL - QUANDO JUÍZES E PROCURADORES SE ACHAM ACIMA DAS LEIS.

De repente vemos uma moral seletiva, e juízes, promotores e procuradores, ou ministros do Supremo Tribunal Federal, podem agir acima da lei, da mesma forma que uma Rede Globo se julga acima de qualquer opinião pessoal, se impondo como um império midiático dotado de plenos poderes e cercado de uma mídia reacionária solidária, como Folha, Jovem Pan, Estadão, Abril etc.

É uma situação terrível e, juntando a invasão fascista no Congresso Nacional com os panelaços combinados pelo Movimento Brasil Livre, observa-se um terrível cenário de ações reacionárias, uma ilusão de que a plutocracia, o "topo da pirâmide", é um paraíso de lucidez, sensatez e coerência, e por isso se permite que "heróis" da catarse coletiva, como o juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, sejam considerados "acima do bem e do mal".

Pessoas já não conseguem mais perceber a imparcialidade das coisas. Combinam libertinagem e autoritarismo num país em que "cultura popular" é aquela que explora o ridículo das classes populares e faz apologia à pobreza, à ignorância e aos valores mais abjetos, e a Justiça está sendo tomada cada vez mais do ranço ideológico e da condenação desigual de acusados.

Nas redes sociais, há gente que se acha na liberdade de despejar comentários racistas, homofóbicos e machistas ou praticar cyberbullying. Pessoas "tarimbadas" como o diretor teatral Cláudio Botelho, o jornalista e biógrafo Guilherme Fiúza e o empresário e publicitário Nizan Guanaes despejaram comentários que revelam preconceitos antipopulares, coisa que não se imaginaria partir de gente com tais reputações.

Muitas pessoas realmente sérias falam que o Brasil está institucionalmente vulnerável. Entidades antes dotadas de inabalável superioridade, como Ministério Público e o Poder Judiciário, estão se corrompendo de maneira chocante, manipulando investigações, leis e sentenças ao sabor das circunstâncias e conveniências.

E isso diante de um clima de catarse coletiva de pessoas desejando o fechamento do Congresso Nacional, a intervenção de algum aventureiro político para governar a República, a privatização de tudo, a desnacionalização da economia, o fim da democracia.

É o velho moralismo doentio de 1964 que, de forma mais radical, quer voltar a vigorar na sociedade, aumentando injustiças e confundindo moralidade com repressão, acreditando na superioridade da economia privada, esquecendo que ela comete as piores roubalheiras. Gente que acredita que privatizando empresas públicas, desnacionalizando a economia brasileira e cortando investimentos para setores públicos irão melhorar o país. Isso já não é ingenuidade, é imbecilidade!

Só que reivindicar tais retrocessos em nome da "recuperação do país" só levará a crises ainda piores, que atingirão justamente aqueles que mais defendem o golpismo. Os fascistas pagarão um preço muito caro a eles mesmos se caso assumirem o poder.