sábado, 30 de julho de 2016

Rio de Janeiro e a mesmice que não quer acabar (ou quer acabar com o povo)


O Rio de Janeiro deixou de ser um Estado de um povo combativo e insubmisso para ser um local de gente resignada, que aceita qualquer prejuízo e transtorno no seu dia-a-dia, iludida com a suposta reputação superior de políticos, empresários, tecnocratas, celebridades ou religiosos.

A decadência do Rio não é só econômica, política ou policial. Ela atinge vários valores, vários procedimentos, vários fenômenos, e as pessoas acreditam que, segurando uma Bíblia ou um livro de Francisco Cândido Xavier (que todos conhecem como o "adorável" Chico Xavier), estarão protegidas e podem sofrer todo tipo de infortúnio.

Mesmo em âmbitos como o transporte - já que os ônibus são o principal meio de se deslocar aqui e ali - ou o entretenimento midiático - como o rádio que muitos ainda ouvem - , o Rio de Janeiro virou um palco de medidas decadentes e voltadas à mesmice.

Amanhã sairá do ar a desastrada Rádio Cidade, que se lançava como um suposto canal de expressão da rebeldia juvenil. A Cidade usava o rock como trilha sonora mas era um rock limitado aos "sucessos das paradas" e, salvo exceções, predominantemente ruim, ancorado no pior do nu metal e do poser.

A Cidade sai de cena mais ou menos como Eduardo Cunha saiu da Câmara dos Deputados. Em ambos os casos, por causa de condutas retrógradas. A Cidade com sua mentalidade pop, mais preocupada em criar programas de besteirol cujas músicas de rock eram mais um gancho do que o foco principal. Em vários programas, esperava-se até que ex-membros do Big Brother Brasil, que pagam pau para qualquer evento de "sertanejo", fossem entrevistados.

O fim da Cidade, a se consumar no fim deste mês, foi motivo de muito choro de carneirinhos submissos, que nem tinham ideia das bandas que ouviam - não viam diferença entre um Soundgarden e um Rage Against The Machine - desde que fizessem um mesmo som de guitarras distorcidas, vocais agonizantes e baterias nervosas. Se botasse som de britadeira com máquina Bosch em cima, iam imaginar que tudo isso também era "rock'n'roll".

Mas a breve existência dessa rádio, que os ouvintes fanáticos viram como um milagre religioso - sim, gente dizendo que foi Deus que fez a Rádio Cidade voltar ao "roquenrol" - , estava aquém de um Estado que teve emissoras como Fluminense e Eldo Pop, já que a Cidade nunca teve, sempre quando explorava o rock, uma equipe especializada no gênero, sendo quase toda composta por locutores pop, gente com talento para contar piadas, mas sem competência para representar o rock.

Tinha que fracassar, afinal, decadência no Rio tem limites. Até porque, pelo jeito, faltou dinheiro para fortalecer o marketing da Cidade, que seria na prática um veículo oficial das empresas organizadoras de eventos. A programação era tão ruim que a audiência sempre era baixa, por mais que a minoria de ouvintes fosse entusiasmada e ostensiva.

Mas se a Cidade não persistiu, as autoridades tentam manter na marra a horrenda medida da pintura padronizada nos ônibus, que fazem empresas diferentes serem visualmente iguais. Os passageiros ficam resignados, mas é um sacrifício pegar um ônibus nas ruas cariocas e prestar atenção duas vezes para não pegar ônibus errado, porque se ir ao destino errado pode ser garantia de encontro com um bandido depois do desembarque.

Isso para não dizer os acidentes diversos. Dá pena a Prefeitura do Rio de Janeiro, que empurrou essa medida grosseira que nem o Movimento Passe Livre tem coragem de combater, mostrar desfile de ônibus novos todos padronizadinhos, que daqui a quatro meses circularão com lataria amassada, com acidentes com mais de 20 feridos, representando empresas de ônibus que mudarão de nome, trocarão de linhas e o povo carioca sendo sempre o último a saber.

E a imprensa não critica isso? Porque é bonito ônibus mostrar logotipo de prefeitura, empresa A ter a mesma pintura de empresa B, porque é visto como um erro menor uma empresa ter um nome, depois ter outro, depois voltar ao nome antigo, depois ter outro nome, mudar razão social e usar a pintura padronizada para "legitimar" ônibus com documentação vencida etc etc etc.

E por que a imprensa não critica nem sai protestando contra isso? Por que a opinião pública não parte contra os ônibus padronizados, mera propaganda política travestida de mobilidade urbana? As pessoas, com tantas coisas a fazer e com muitas coisas a memorizar, são obrigadas a prestar atenção para não pegar, por engano, um ônibus para a Tijuca achando que pegou para o Leblon.

A sociedade do Grande Rio teve uma trabalheira para fazer extinguir a Transmil (empresa da Baixada Fluminense marcada pelo péssimo serviço), só porque foi possível identificá-la pela pintura própria, pois, se ela tivesse a mesma pintura de uma Caravelle, Reginas ou uma Flores as dificuldades seriam enormes, a empresa estaria circulando livremente, ainda que fosse obrigada a usar um pseudônimo para dar a falsa impressão de outra empresa entrando no lugar.

Ficamos imaginando o que significaram uma "rádio rock" com nome de Rádio Cidade (do Rio de Janeiro) e uma pintura padronizada onde se destaca o nome "Cidade do Rio de Janeiro". A marca "Cidade do Rio de Janeiro", feita para turista ver, para norte-americanos ligarem o rádio e ouvir seus grunges na "Rádio Cidade do Rio de Janeiro" e circularem pela cidade com os ônibus "Cidade do Rio de Janeiro", só revela uma propaganda fajuta de autoridades atrapalhadas.

Por outro lado, havia o medinho da Rádio Cidade voltar como emissora meramente pop, como há o medinho de ver cada empresa de ônibus municipal voltando a ter sua pintura própria. De repente os cariocas adquiriram certas neuroses, e depois não gostam quando falamos que o Rio de Janeiro anda decadente.

Estas duas medidas, na Comunicação e no Transporte, são amostras de um Rio decadente, movido pelo fanatismo esportivo, pelo consumismo frenético, pela obsessão doentia das mídias sociais, pela mercantilização até mesmo das relações de amizade, das mulheres insensíveis, dos supermercados com operadores de caixa lentos e com estoques faltando, do comércio caro, das pessoas fumando, dos políticos mentindo, dos tecnocratas prepotentes, dos religiosos donos da verdade etc.

A saída de Eduardo Cunha do trabalho do Legislativo federal e da Rádio Cidade são apenas males que tiveram que ser extirpados à força das circunstâncias. Mas o Rio de Janeiro de seus ônibus padronizadinhos e refrigeradinhos, sem cobrador e destinados aos próximos acidentes de trânsito que irão ferir mais de 20 passageiros, precisa tomar muito mais juízo, porque sua decadência o fez o pior Estado do Brasil, com uma decadência atingindo dimensões olímpicas. Algo tem que mudar.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

"Espiritismo" brasileiro prova seguir a Teologia do Sofrimento


Caiu a máscara. O "espiritismo" brasileiro confirmou mesmo seguir a Teologia do Sofrimento, corrente do Catolicismo medieval, trazida no Brasil através dos jesuítas portugueses, que descreve o sofrimento humano como caminho para a "purificação da alma".

Em diversos sítios "espíritas", o que se observa é esse mesmo discurso: aceitar as dificuldades como meio de "salvação" e abrir mão de desejos e necessidades, achando que a desgraça é "um tipo de benefício" e que os infortúnios garantem um ingresso rápido para obtenção das "bênçãos futuras".

São recomendações do tipo "não reclame", "abandone muitos de seus desejos", "você está sendo testado o tempo todo", "bem-aventurados os perseguidos e deserdados da sorte", "não mostre sofrimento para os outros", "suas necessidades são fontes de sensualismo e cupidez", "no pior dos sofrimentos, você está sendo abençoado", "confie que estão garantidas as bênçãos da vida futura".

Isso é o quê? Textos filosóficos? Preceitos científicos? Ideias progressistas? Nada disso. Isso tudo é a Teologia do Sofrimento, que nem toda a Igreja Católica apoia, mas apenas alguns setores dela, justamente os mais retrógrados.

Ela foi popularizada nos tempos mais recentes por Santa Teresa de Lisieux (1873-1897), freira carmelita francesa que viveu vários de seus últimos anos com tuberculose, doença que veio a matá-la prematuramente. Ela via no sofrimento uma forma de "purificação da alma" e consta-se que a última palavra que a jovem disse em vida era "Meu Deus, eu te amo!".

No século XX, quem consagrou a Teologia do Sofrimento foi Madre Teresa de Calcutá (1910-1997), madre albanesa que, vivendo na Índia, criou as casas aparentemente assistenciais dedicadas a crianças ou a idosos e doentes.

Segundo denunciou o jornalista inglês Christopher Hitchens (1949-2011), Madre Teresa deixava os assistidos sofrerem sem o devido cuidado. Eram mal alimentados, expostos doentes uns diante dos outros, a princípio deitados no chão, mas depois com camas pouco confortáveis, e, para piorar, só eram remediados com aspirina ou paracetamol e recebiam seringas recicladas, o que é bastante perigoso.

Hitchens acrescentou que Madre Teresa desviava dinheiro que recebia de autoridades e outras instituições para os cofres do Vaticano e também viajava com magnatas que doavam suas fortunas para ela. Quase nada ia para as mãos dos assistidos.

Madre Teresa vai ser considerada "santa" em breve, como se isso garantisse alguma pureza espiritual. No entanto, consta-se que, nos bastidores, ela era antipática e tinha um semblante carrancudo, coisa que seus adeptos se desculpam pelo fato dela ter vivido doente nas suas últimas décadas de vida.

Ela dizia sempre que o sofrimento humano era um "presente de Deus" e falava que o mundo "deveria aprender muito" com os sofredores, como se os desgraçados fossem as pessoas mais sortudas do mundo. Isso é Teologia do Sofrimento.

NO BRASIL...

Os "espíritas" adoram Madre Teresa de Calcutá. Adotam ela como se fosse uma personalidade de sua doutrina, embora admitissem que ela era uma freira católica. Até Robson Pinheiro inventou uma "psicografia" atribuída a ela, que, sabemos, nunca teria escrito o livro A Força Eterna do Amor porque, possivelmente, teria reencarnado ou estaria sofrendo as amarguras de ter sido desmascarada já em vida, por Hitchens e por um grupo de acadêmicos sérios.

Mas, quando o assunto é Teologia do Sofrimento, os "espíritas" se omitem e, quando admitem sua existência, acham que ele se restringe aos redutos mais fechados do Catolicismo, entre párocos e sacerdotes do interior ou, quando muito, entre os burocratas do Vaticano.

Estão enganados. A Teologia do Sofrimento, no Brasil, foi popularizada dentro do "movimento espírita", através da figura do suposto médium Francisco Cândido Xavier, que nunca escondeu ser um beato, dos mais fanáticos, da Igreja Católica Apostólica Romana.

O mais complicado, para os "espíritas", é que é impossível eles reagirem a essa constatação sob a desculpa de que "não foi Chico Xavier que disse isso". A influência da Teologia do Sofrimento no pensamento de Chico não é invenção nossa, isso está claro em suas palavras, mesmo quando elas usam nomes alheios, como Humberto de Campos e Auta de Souza.

É só verificar várias ideias "progressistas" de Chico Xavier: "sofrer sem mostrar sofrimento", "sofrer amando", "sofrer sem queixumes", "não reclamar da vida", "nas piores dificuldades, ter paciência e acreditar nas bênçãos da vida futura" etc etc etc. Está tudo claro nas palavras dele.

O próprio "espiritismo" nasceu catolicizado, em primeiro momento por razões de sobrevivência, já que as atividades realizadas sob o nome de "Doutrina Espírita" eram reprimidas pela polícia, que invadia os "centros espíritas" e detinha seus praticantes acusados de charlatanismo e curandeirismo.

Charlatanismo sabemos que se pratica, sim. A quase totalidade dos "médiuns" não tem concentração sequer para receber espíritos enganadores, e eles, sabendo disso, influem os "paranormais" através dos maus conselhos, como Chico Xavier recebendo conselhos do traiçoeiro Emmanuel para embarcar no sucesso do falecido Humberto de Campos ou o maligno "Máscara de Ferro" (talvez usando depois o codinome Joana de Angelis) sugerindo Divaldo Franco a plagiar o plagiador Chico Xavier.

O "médium" geralmente inventa mensagens, faz umas pesquisas aqui e ali, pede ajuda a algum colaborador e monta uma falsa psicografia de um morto, juntando um repertório considerável de informações. Às vezes informações mais sutis são dadas, tipo "o tio do falecido me falou de informações que a mãe do mesmo não sabia", que muitos pensam ser psicografia autêntica.

O "espiritismo" brasileiro, seguindo o vício do nosso país em que toda novidade é acolhida aqui misturando pioneiros e usurpadores - até a Jovem Guarda brasileira surgiu misturando roqueiros legítimos como Bill Haley e Chuck Berry com canastrões tipo Pat Boone e Bobby Darin - , surgiu aparentemente acolhendo tanto o pioneiro Allan Kardec quanto ao usurpador Jean-Baptiste Roustaing.

E vemos que, durante muitos anos, havia um entusiasmo por Roustaing que se seguiu até uma parte da trajetória de Chico Xavier, que na prática foi usado pela FEB como adaptador das ideias igrejistas escritas no livro roustanguista Os Quatro Evangelhos e criar um "espiritismo" catolicizado com caraterísticas bem brasileiras, com sotaque de "mineiro que come quieto".

É uma manobra muito conhecida no Brasil. Há vezes em que certos reacionários são usados para impor certas circunstâncias, mas, quando atingem seus objetivos, são descartados. Foi assim com Carlos Lacerda, jornalista e político carioca que pediu a ditadura militar para derrubar o trabalhismo, e, recentemente, com Eduardo Cunha, deputado também carioca que se empenhou pela derrubada do "lulopetismo" da política carioca.

Desta forma, quando Roustaing parecia reinar no inconsciente dos brasileiros, ele foi descartado. Assim como as "pautas-bombas" de Eduardo Cunha, como a terceirização do mercado de trabalho em geral e a definição conservadora de família como "grupos de marido, mulher e filhos", na medida em que foram assimiladas pelo governo de Michel Temer, não foi preciso mais manter seu idealizador.

Com Chico Xavier dando um tempero bem brasileiro à ideologia católica de Roustaing, não foi preciso apelar para o advogado francês que deturpou Kardec. E aí Chico Xavier traz um "espiritismo" catolicizado e os brasileiros acham natural, só porque é "inofensivo" e "não faz mal".

As pessoas aceitam Chico Xavier falando que "sofrer é obter bênçãos futuras" e o pessoal acredita. E ainda há idiotas que acham que ele é reencarnação de Allan Kardec. De incoerência em incoerência, de complacência em complacência, o pessoal vai oferecendo seus pescoços à forca. Só falta eles pedirem que as cordas pelo menos sejam bonitas e coloridas.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

As pessoas que estão "em cima" não estão com medo de cair?

POLÍTICOS DO PSDB: ELES TOMARAM O DINHEIRO DOS BRASILEIROS E SÃO ENDEUSADOS. AFINAL, SÃO TECNOCRATAS.

As pessoas que estão relacionadas com algum tipo de status social não estão preocupadas? Fora o ódio um tanto debiloide ao Partido dos Trabalhadores e tudo a ele ligado, não existe algum senso de vulnerabilidade? Não existe algo trágico nesse sadomasoquismo de uma sociedade plutocrática?

A gente se espanta com a invulnerabilidade de quem detém uma posição social superior em alguma coisa: idade, dinheiro, diploma, fama, poder político, poder empresarial ou mesmo uma combinação entre crime de elite e impunidade legal.

É um Brasil que não quer romper com o velho, com o estabelecido, seja ele o machismo, seja o neoliberalismo (que de "neo" só tem o nome, pois ele cada vez mais se aproxima do velho capitalismo selvagem), seja o deslumbramento religioso, um Brasil que preserva o que já está apodrecendo, enquanto joga fora o que é novo e benéfico.

As pessoas que estão "em cima" estão tranquilas, desde famílias cujos pais reclamam respeito à hierarquia até para filhos adultos até veículos de comunicação que se recusam a se admitirem decadentes.

Vivemos uma sociedade em crise e o que nós vemos? O "velho" se recusando a admitir sua obsolescência, São movimentos retrógrados que vão de atos homofóbicos até atentados terroristas que mostram o quanto estruturas velhas e podres da sociedade mundial, mas sobretudo no Brasil, tentam resistir a tudo e até tentar mover os ponteiros do relógio da humanidade em sentido contrário.

No Brasil, vemos o governo de Michel Temer configurado como uma mistura de República Velha com governo do general Ernesto Geisel, prometendo "medidas austeras" de combate à recessão, dentro de um projeto político que acolheu propostas inconstitucionais e fascistas como Educação Sem Partido, que proíbe os alunos de conhecer e debater a realidade, mas permite que eles acreditem em fantasias religiosas dignas de contos de fadas.

As pessoas estão tranquilas. Muito, muito felizes. Quem está "em cima" acha que recuperará a supremacia, sob a desculpa de que voltará a ter a respeitabilidade de antes. Como se qualidades meramente materiais como a idade, o cargo de comando, o prestígio diante de multidões, o diploma e o dinheiro fossem suficientes para garantir superioridade, mas não garantem.

Pelo contrário, o que vemos é que essas pessoas são as que mais cometem gafes, crimes, omissões, são as que mergulham em ilusões, principalmente de caráter religioso, em que absurdos como um mar se rachando no meio, na interpretação fabulosa da trajetória de Moisés, tivessem realismo fidedigno, por mais que atentassem contra a lógica e o bom senso.

Na tecnocracia, no mundo das celebridades, no meio político, no empresariado, no meio acadêmico, são justamente os "experientes" e "tarimbados" que demonstram mais insegurança e cometem muito mais erros, algo que a carteirada moral do "quem nunca erra?" não consegue minimizar.

Salvo exceções, cada vez mais raras e eventuais, a experiência, o prestígio, a reputação religiosa, o poder político e econômico, a formação acadêmica, a função tecnocrática, estão associados aos atos e procedimentos mais equivocados e injustos, às maiores besteiras, aos grandes desastres, aos impasses diversos e outros equívocos graves.

A reação da sociedade hoje se compara a um dono de uma mansão numa cidade cujo furacão se aproxima, e ele monta barricadas e um canhão para atirar contra o furacão. Acha que, assim, o furacão será intimidado e desviará o caminho com medo do figurão de "máxima importância social".

As pessoas deveriam ficar assustadas. A sociedade que reage até agora ao esquerdismo político, ao feminismo, ao senso crítico dos mais diversos, seja despejando cyberbullying nas mídias sociais, seja atropelando a Constituição criando um jogo jurídico-parlamentar sujo para garantir a posse do traiçoeiro governo de Michel Temer, não era para ser triunfalista.

Valores caem, totens caem. Caem tecnocratas com projetos obsoletos, ídolos religiosos que cometem irregularidades, políticos que adotam medidas antipopulares, empresários que prejudicam os trabalhadores. Não é o prestígio deles que, apodrecendo, terá chances de ser recuperado.

A lógica é que, em que pese a violência e a aparente urgência de muitas dessas reações, o perecimento do "topo da pirâmide social", em todos os aspectos, desafia os mais convictos de que seu conservadorismo está acima dos tempos. Não está.

Do igrejeiro "espiritismo" brasileiro aos ônibus "padronizados", da Escola Sem Partido à "honra machista", da supremacia do mercado à breguice cultural, tudo isso está perecendo, ficando podre, decadente, obsoleta. Não há como recuperar essas coisas e lançá-las como "novidade", porque o contexto do tempo será um furacão a varrer todo esse cenário.

sábado, 23 de julho de 2016

PMDB é um partido "espírita"? Ou seria o PSDB?

VÃO ESCONDENDO O DEPUTADO EDUARDO CUNHA POR TRÁS DO GOVERNO TEMER, COMO OS "ESPÍRITAS" FIZERAM COM ROUSTAING.

Os "espíritas" estão felizes. Alegam eles que o Brasil está repleto de boas notícias (onde, "irmãos"?), que nunca se fez tão bem ao próximo, que estamos entrando em fase de "regeneração", por causa de pessoas que, movidas pela "espiritualidade superior", mandam mensagens "elevadas" como "por que não mataram todos os petistas?", nas "históricas" passeatas de 13 de Março de 2016.

Só falta dizer que o Pato da FIESP era a reencarnação do Espírito Santo, que veio na forma de pombo para dizer que Maria ficaria grávida do nada, para gerar um Jesus divinizado e surreal, muito mais um mágico esotérico e moralista do que uma figura humanista que havia sido em seu tempo.

O Pato da FIESP seria o pombo da paz? Mas para quem considera "libertadoras" as passeatas de camisas verde-e-amarelas pedindo a volta da ditadura militar e, se preciso, a pena de morte a Lula e Dilma Rousseff, tudo é possível.

A gente, vendo o governo, ou melhor, o desgoverno, do presidente interino Michel Temer e sua "equipe de notáveis", que mais está para corruptos, vide as denúncias que vazam como uma tsunami diante da porta de uma casa, vindo para derrubar tudo mesmo, a gente pergunta se o PMDB, o partido do chefe do Executivo federal, não seria na verdade um partido "espírita".

A ideia de um governo conservador mas "conciliador", defendido pelo establishment da opinião pública, comprometido com medidas "duras" mas "necessárias para o progresso", lembra muito o ideário do "espiritismo" brasileiro, com sua Teologia do Sofrimento e com suas ideias que na prática terceirizam a vida humana.

O que vemos é o paralelo que existe entre o "espiritismo" que escondeu o encrenqueiro Jean-Baptiste Roustaing debaixo do tapete e o PMDB que escondeu o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, nos bastidores do governo de Michel Temer.

Daqui a pouco, assim como os "espíritas" praticam igrejismo roustanguista mas fazem tudo para bajularem Allan Kardec (eles até banalizaram o termo "kardecista", hoje renegado pelos próprios adeptos das bases do Espiritismo original), o PMDB possa evocar Juscelino Kubitschek, mesmo adotando as pautas-bombas trazidas por Eduardo Cunha e herdadas por Michel Temer.

O próprio governo Temer se baseia em um processo jurídico bastante confuso e irregular, representado por setores "partidarizados" do Judiciário e do Ministério Público, complacentes com políticos do PSDB (os tucanos voltaram a ser aliados do PMDB), e por figuras pouco confiáveis como o juiz Sérgio Moro, que mais parece um tira hollywoodiano vindo de um "enlatado" da Sessão da Tarde, e o fanfarrão Gilmar Mendes.

De processo jurídico confuso e irregular entendem os "espíritas", devido ao processo movido pelos herdeiros de Humberto de Campos contra a FEB e Chico Xavier, no qual deu em nada por causa da habitual incompreensão jurídica de que a suposta obra do "espírito Humberto de Campos" foi uma grande fraude.

O caso deu num empate, que até perguntamos se Sérgio Moro não é reencarnação de um juiz dessa época. O fraudador Chico Xavier saiu-se bem, como um espertalhão blindado pela plutocracia, e ele ainda foi seduzir não só a mãe de Humberto, que, na sua paixão cega de mãe saudosa, via nas obras "mediúnicas" atribuídas ao filho, uma autenticidade que nunca existiu, como aliciou o próprio filho do autor de O Brasil Anedótico.

É patético ver que Humberto de Campos Filho caiu na armadilha de Chico Xavier que, numa instituição "espírita" em Uberaba, em 1957, armou uma propaganda com cozinheiras fazendo sopinha e, depois, mostrando um idoso debiloide num quarto, usando a "caridade" para justificar a apropriação indébita de Chico Xavier sobre o falecido Humberto de Campos, criando livros que fogem ao estilo original do escritor maranhense.

Voltando ao governo Temer, ele é apoiado pela mesma Rede Globo que reinventou Chico Xavier, pois poucos conseguem admitir que o mito de "símbolo máximo de caridade" atribuído ao anti-médium foi um truque de marketing da Rede Globo tanto para amansar os brasileiros durante a crise da ditadura militar quanto para fazer frente aos pastores eletrônicos R. R. Soares e Edir Macedo criando um ídolo religioso que não se vestia de batinas folheadas a ouro.

No Brasil, infelizmente, vive-se de estereótipos. O ex-presidente Lula, que tentou, mesmo de forma imperfeita, consertar o país e recuperar o poder aquisitivo e a qualidade de vida da população, é hostilizado porque tem aquela aparência ao mesmo tempo rústica e robusta, que lembra aquele Brutus dos desenhos do Popeye dos anos 1960 que passam muito na TV.

Já Chico Xavier lembra o velhinho frágil, caipira, doente, e por isso a ela são atribuídas supostas qualidades relacionadas à humildade, perseverança, bondade, filantropia, sabedoria e paciência que seduzem e entorpecem as emoções de muitas pessoas, como num processo hipnótico eficaz.

Daí que uma parcela de brasileiros quer esfolar Lula, que revalorizou os salários dos trabalhadores brasileiros, reduziu as desigualdades sociais e buscou recuperar os serviços públicos. E endeusam Chico Xavier pelos grotescos pastiches literários que não refletem os estilos originais dos autores alegados e só valem pela mensagem igrejista gosmenta, mas agradável o suficiente para o gosto dos conservadores de formação católica.

Neste quadro político, em que Dilma Rousseff, com seu jeito de professora, também é hostilizada pelos mesmos motivos que Lula. Enquanto isso, outro farsante, Divaldo Franco, com visual de catedrático dos anos 1930 e cujo projeto educacional na Mansão do Caminho, em Salvador, agradaria os defensores da autoritária Escola Sem Partido, é endeusado e chamado até de "filósofo" por incautos que gostariam de ver a verdadeira filosofia (Sócrates, Platão etc) banida nas escolas públicas.

Dito tudo isso, os brasileiros que acreditam na palhaçada da "data-limite" e do "Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", devem esperar que um fanfarrão como Aécio Neves, meio escondido debaixo do tapete da mídia privada, retorne como "herói" para conduzir um modelo de país sonhado por Chico Xavier. E aí a gente pergunta se o PSDB também não seria outro partido "espírita".

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Michel Temer cita Emmanuel e você, "espírita", não sabe!


O "espiritismo" está feliz. Estamos entrando numa "era de regeneração". Chacinas em Orlando (EUA), e agora em Nice (França), explosões de ódio, movimentos fundamentalistas etc, e o pessoal acreditando que são apenas manifestações desesperadas em "defesa da fé e da família".

E o governo que temos, aqui no Brasil? Ver Robson Pinheiro escrever um romance espírita contra o PT, dizendo que aquelas manifestações de Revoltados On Line, Movimento Brasil Livre, Pato da Fiesp, Batman do Leblon, Japonês da Federal, juíza ensandecida (Janaína Paschoal) e tudo o mais são "despertar da humanidade" e "obedecem" aos "inevitáveis desígnios da espiritualidade superior" é preocupante.

E agora, a "inexorável lei do progresso" de que falam os "espíritas" resultou nesse governo que quer retroceder o país, eliminando as conquistas sociais obtidas com muito sacrifício e sangue ao longo de nossa História. O mais recente episódio é uma reunião do presidente interino Michel Temer com empresários na sede da Confederação Nacional da Indústria, em que o presidente Robson Braga disse que a carga horária semanal do trabalhador deveria aumentar de 44 para 80 horas.

No discurso de posse desse governo golpista, que teve direito até um extasiado Aécio Neves vibrando como se fosse o aniversariante perto do momento de assoprar a vela, Michel Temer falou a frase "Não fale em crise, trabalhe", inspirada no que viu em um cartaz de um posto de gasolina em São Paulo.

Só que o autor da frase, João Mauro de Toledo Piza, o Joca, de 71 anos, dono do referido posto, está preso e condenado por vários crimes, entre estelionato, sonegação fiscal e tentativa de homicídio contra um rapaz por motivos banais (desavenças pessoais). Joca foi condenado em 2014, quase na mesma época que Michel Temer, condenado em 2015 pelo TRE paulista por crime eleitoral (doou mais do que devia para candidaturas de seu partido, o PMDB, no Estado).

João Mauro, segundo relatos, sempre falava aos filhos "não reclame da vida, trabalhe", "não fale da crise, trabalhe", e isso nos lembra Emmanuel, o jesuíta medieval que Francisco Cândido Xavier que sempre dizia para "não reclamar, mas trabalhar e seguir adiante".

Para um Chico Xavier que defendia a ditadura - só faltava ele, em 1971, no Pinga Fogo, dizer para os brasileiros abençoarem os truculentos Brilhante Ustra e Sérgio Paranhos Fleury - , isso faz sentido. Ele foi um dos maiores divulgadores da corrente medieval do Catolicismo, a Teologia do Sofrimento, mais do que qualquer católico em nosso país.

E faz sentido esse apelo. E como os "espíritas" falam tanto em "felicidade futura" - daqui a 100, 200 anos, "um segundo diante da eternidade", como se fosse legal passar 80 anos sofrendo desgraças e humilhações o tempo todo - , esse governo Temer só pode ser sinal de "progresso" e "libertação".

Trabalho com 80 horas semanais, salários menores, fim dos encargos como assistência gratuita à saúde, a Escola Sem Partido proibindo ensinar marxismo e movimentos LGBT mas permitindo asneiras como dizer que o homem surgiu do barro e a mulher, da costela do homem, isso tudo é "libertação"?

Claro, o ensino inócuo da Mansão do Caminho, de Divaldo Franco, o homem que exibe o título de "maior filantropo do país" beneficiando menos de 0,1% da população brasileira, se manterá em boa conta por esse país plutocrático que promete recuperar os "valores cristãos".

Já o Método Paulo Freire, que desperta consciências, faz as pessoas serem criativas, ativas e ativistas, promove solidariedade na luta por qualidade de vida, esse não pode haver. Não tem o selo da religiosidade, não tem o verniz da fé cristã e nem parte do princípio de manter as pessoas resignadas feito rebanho de carneirinhos submissos.

Estamos voltando aos padrões mais retrógrados do Brasil colonial e as pessoas felizes com isso, sobretudo porque sua maior fonte de informações, o Jornal Nacional, está mais próximo de um show do que um programa noticiário. William Bonner a cada vez mais mostra seu lado animador, e as pessoas felizes porque ele transforma o tenebroso governo Temer num conto de fadas.

O país vai piorar com essa gangue no poder, com Michel Temer, Aécio Neves, Henrique Meirelles, Rodrigo Maia, Mendonça Filho, com o apoio justamente dos revoltados e odiosos que os "espíritas", que tanto reprovam a revolta e o ódio, definem como "missionários da libertação e do despertar dos brasileiros", e as pessoas achando que "tudo vai melhorar" só porque o PT está fora do poder.

A coisa vai ficar feia. As pessoas vão trabalhar mais horas, se aposentarem mais tarde, recebendo menos grana, perdendo garantias sociais, e o dinheiro que Temer e companhia arrecadarem com as medidas contra a recessão irá suas fortunas pessoais e para os habituais lucros estratosféricos das empresas estrangeiras. Se sobrar alguns centavos, eles dão esses restos para o povo.

terça-feira, 5 de julho de 2016

O que o "espiritismo" brasileiro entende como "regeneração"?

AH, ELA SÓ PEDE "RESGATES ESPIRITUAIS"...

O "movimento espírita" de repente, com alguns meses de atraso, foi definir as passeatas anti-Dilma, anti-Lula e anti-PT como "momentos de despertar político" da juventude e "gritos de libertação" do povo "oprimido". Periódicos como "Correio Espírita" e livros como O Partido, de Robson Pinheiro, mostram esse sinal.

De repente tudo ficou maravilhoso. Pessoas vestindo trajes verde e amarelo indo para as ruas, animados por um trio elétrico, exibindo a bandeira brasileira e falando bordões ao som de diversas músicas, de "Que País é Este?" da Legião Urbana ao Hino Nacional Brasileiro.

Os "espíritas", com um certo atraso - as passeatas ocorreram até maio, quando houve o afastamento da presidenta Dilma Rousseff - , passaram a exaltar esses protestos como se fosse um "recado da espiritualidade" para o Brasil "avançar no caminho do progresso" e, por isso, "benfeitores" teriam intuído a população para gritar por um "novo país".

Isso é o que oficialmente se argumenta. Mas, por trás dessa visão linda de "crianças-índigo" liderando manifestações e o papai, mamãe, vovô, vovô, titio, titia, sogro, sogra, irmão, irmã e cachorrinho e cadelinha indo junto, há um lado muito sombrio nestas manifestações, que os afobados "espíritas", sedentos de ver o Brasil sendo "pátria do Evangelho" de uma vez, definem como "memoráveis".

Alguns aspectos devem ser levados em conta.

1) ÓDIO - O "espiritismo" brasileiro foi logo exaltar as manifestações de 13 de março de 2016 como se fosse um "clamor da espiritualidade superior", mas desconhece que tais protestos anti-PT são movidos por profundo ódio e rancor. Houve gente que até pediu morte a Lula e Dilma, faixas exibindo suásticas nazistas e reivindicações de intervenção militar. A imagem que escolhemos como ilustração mostra uma senhora sentada com o cartaz "Por que não mataram todos em 1964?".

2) CORRUPÇÃO - A raiz da "histórica" manifestação tão exaltada pelos "iluminados espíritas" está em boatos, fofocas e incompreensões diversas, fundamentadas no juízo de valor de que "só tem bandido no PT". O PSDB roubou muito mais, como provam documentos dos esquemas de privatização da Presidência da República (governos de Fernando Henrique Cardoso) e governos estadual e municipal de São Paulo (José Serra e Geraldo Alckmin), e ninguém se inquieta. E ainda se gabam em "combater a corrupção", abrindo caminho para o governo corrupto de Michel Temer.

3) ANALFABETOS POLÍTICOS - Os "espíritas" descrevem o "13 de Março" como um momento de "liberação e despertar político" da juventude. Balela. O que motivou tais manifestações, na verdade, foi uma aberrante ignorância política, uma raiva preconceituosa movida por uma elite com medo de perder privilégios e que não suportava ver a ascensão das classes populares. Dilma Rousseff quis assalariar até os empregados domésticos, mas hoje o "salvador" Michel Temer quer o contrário, transformar os assalariados em "trabalhadores informais" com a tal "flexibilização da mão-de-obra".

4) MENSAGEIROS - A julgar pelos motivos e por quem defendeu manifestações como as do "memorável 13 de Março", teremos que creditar superioridade espiritual a "mensageiros" que pregavam o ódio, a desinformação e faziam manifestos desequilibrados, como os jornalistas Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi e a juíza Janaína Paschoal.

As pessoas ignoram que a ditadura militar também veio por causa do medo das elites em perder privilégios. Veio a Petrobras e o aumento do salário mínimo do segundo governo de Getúlio Vargas e as elites pressionaram contra ele até ocorrer o famoso suicídio, em 1954. João Goulart foi em 1964 decretar limite de evasão de dinheiro (que alimenta fortunas de empresas estrangeiras) e os militares lhe expulsaram do poder e impuseram um regime repressivo que quase acabou com o Brasil.

Hoje os nossos "conscientizados" brasileiros, "orientados" pela "espiritualidade superior", pediram um governo que fosse, em muitos aspectos, pior do que a ditadura militar, tirando conquistas trabalhistas bem mais do que os generais no poder.

É constrangedor ver que alguns acreditam que o Brasil irá comandar o mundo com esses projetos sombrios: precarização do trabalho (a dita "flexibilização"), privatizações que só servem para enriquecer quem já é rico demais, a tal "Escola Sem Partido" que impedirá os professores de discutir a realidade mas permitirá transmitir mistificação religiosa (ou seja, fantasias de gente grande) e fim gradual de garantias sociais como assistência à saúde e licença-maternidade, além do prolongamento das aposentadorias até o fim da velhice, criando a "aposentadoria ao pé do caixão".

Isso é regeneração? Isso é progresso para o país? Que combate à corrupção é esse que beneficiará gente mais corrupta ainda? E que manifestações de "libertação" são essas que pedem um novo golpe militar ou reclamam por que esquerdistas não foram assassinados antes?

Ah, esquecemos! O "espiritismo" é uma dissidência do Catolicismo brasileiro, em que os medievais deixaram a Igreja Católica e foram criar uma doutrina usando o nome de Allan Kardec só para não assustar a criançada. É uma doutrina movida a caridade paliativa (que ajuda pouco e não afeta os privilégios das elites) e faz juízo de valor dizendo que as vítimas são culpadas e toda injustiça cometida contra alguém é porque este tem que sofrer os tais "resgates morais" ou "reajustes espirituais".

O próprio Francisco Cândido Xavier deu seu "bom exemplo". Ele, em 1971, na época mais cruel da ditadura militar, pedia para orarmos pelos militares que estavam "construindo o reino de amor do Brasil futuro". Isso significa orarmos em favor do general Emílio Médici, mas também do DOI-CODI e de carrascos como Sérgio Paranhos Fleury e Brilhante Ustra que só faziam o que fizeram por "amor ao próximo", os torturados e mortos é que foram muito cruéis com esses "homens de bem".

O professor Kardec ficaria envergonhado com essas atitudes reacionárias daqueles que juram serem seus "maiores discípulos".

sábado, 2 de julho de 2016

"Espiritismo" virou reaça?

MEMBROS DO MOVIMENTO BRASIL LIVRE - "Crianças-índigo" ou "coxinhas"?

Deu tanto no "Correio Espírita" quanto no novo livro de Robson Pinheiro, o "médium" escritor do momento. Citando os movimentos de 13 de março de 2016, auge das manifestações "Fora Dilma", o "movimento espírita" classifica esses movimentos como "libertação" e suposto indício de que a Terra começou seu "processo de regeneração".

Vejam que ridículo, Vamos para o livro de Robson Pinheiro. Intitulado O Partido (palavra que tem as letras P e T, o que faz trocadilho com o PT), e tendo como subtítulo Projeto Criminoso de Poder, o livro é uma risível ficção travestida de "psicografia" atribuído a um suposto espírito de nome Ângelo Inácio.

Nele há um maniqueísmo simplório e um enredo digno de estorinha de super-herói ruim. Algo como um rascunho de um enredo de Dragon Ball-Z não aproveitado antes e jogado no lixo. Um crítico da deturpação espírita já havia dito que os livros de Robson Pinheiro lembram aventuras de Naruto e similares.

Nesse maniqueísmo, espíritos trevosos se rebelam e criam um plano para manipular os brasileiros. Tudo parece fácil, com a turma do mal induzindo todo mundo a mentir, roubar, matar e enganar, como se as pessoas não tivessem vontade própria e se transformassem em zumbis traiçoeiros.

Aí surgem os espíritos do bem, entre eles um tal de Miguel, que, intuindo a população, a leva a fazer passeatas para pedir o fim do governo que "estava aí". Um juiz teria sido intuído a "combater a corrupção" para "salvar o Brasil". O ápice dos protestos, as passeatas de 13 de março último, são definidas como "momento memorável" e a causa reivindicada, o impeachment, tida como sinônimo de "libertação".

A estorinha poderia ser muito bem um folhetim em algum desses veículos reacionários da grande imprensa, como Globo, Folha e Estadão, se os folhetins ainda fossem publicados em jornal. E a Veja ainda publicou, na capa, uma reportagem sobre o charlatão João Teixeira de Faria, o João de Deus, que diz curar outrem com cirurgias "mediúnicas" mas não teve coragem de usar seus "dons" para buscar a cura de um câncer.

Já o "Correio Espírita" definiu os protestos anti-Dilma como suposto indício de que o Brasil começou um processo de "regeneração". O texto enfatiza também o "despertar" dos jovens para a "conscientização política". Como, se o que vimos foi um atestado de profundo analfabetismo político?

"REGENERAÇÃO"? PEDINDO A VOLTA DA DITADURA MILITAR?

É só ver quem se mobilizou nestas passeatas e qual o conteúdo das mesmas. Entidades como Movimento Brasil Livre, Vem Pra Rua, Revoltados On Line e outros, fora grupos fascistas e paramilitares escondidos (em Niterói, um grupo inspirado na Klu Klux Klan espalhou panfletos pelas ruas), estão por trás desses "momentos memoráveis".

O conteúdo, além de ser rancoroso contra Dilma Rousseff, Lula e o Partido dos Trabalhadores, também era "temperado" por clamores fascistas. Gente pedindo a volta da ditadura militar e caluniando Dilma e Lula, senhoras carregando cartazes pedindo morte aos petistas e àqueles que lutaram contra a repressão militar e até exibição da suástica nazista eram observados nestas "lindas e pacíficas manifestações".

E é espantoso que o "espiritismo" esteja defendendo essas manifestações como se fosse "regeneração da humanidade" quando percebemos que essas passeatas eram carregadas de profundo ódio e rancor, justamente os sentimentos que o "espiritismo" diz reprovar e combater.

São passeatas apoiadas por nazistas, racistas, machistas. E, no Congresso Nacional, os que levaram a causa dos manifestantes para a votação, em 17 de abril, foram deputados federais que, votando pelo afastamento de Dilma Rousseff, eram em maioria gente envolvida em crimes como desvio de dinheiro público, desmatamento, homicídios, criação de empresas fantasmas, improbidade administrativa e outras barbaridades.

Cerca de um mês depois, o Senado Federal completou o "serviço". E é ilustrativo que o "benfeitor" da estorinha de Robson Pinheiro e seu "Ângelo Inácio" se chamasse Miguel, uma variante do nome Michel, que é o do presidente interino também envolvido em corrupção política. E, pior: Michel Temer está inelegível por oito anos por causa de doações ilegais em uma campanha eleitoral em São Paulo, em 2014.

Imagine gente como Paulo Maluf, Ivo Cassol, Jair Bolsonaro, Fernando Collor e sobretudo o presidente da Câmara dos Deputados, o monstruoso Eduardo Cunha, defendendo a causa dos "regeneradores". É defini-los como "espíritos iluminados" que, quando deixarem o planeta, devem seguir direto para o céu para disputar um lugar à direita de Deus Pai Todo Poderoso.

E os rapazes do Movimento Brasil Livre e Revoltados On Line (e logo o "espiritismo", que tanto clamou contra revoltas, vai apoiar um grupo desses!), são "crianças-índigo", "crianças-cristais" ou "crianças-estrelas"? Pessoas "coxinhas" como Kim Kataguiri e Marcello Reis (dos tais Revoltados), para não dizer Flávio Bolsonaro (filho de Jair) e a tresloucada jurista Janaína Paschoal, também se enquadram nesta gente supostamente de "elevada condição moral e intelectual"?

Para uma doutrina que se construiu transformando um plagiador de livros, um tal de Francisco Cândido Xavier, no Chico Xavier que se conhece, que muitos acham ser o único que pode ser "dono da verdade" pelo menos no Brasil, faz sentido esse surto reacionário, que no fundo é apenas um retorno à postura abertamente reacionária que o "movimento espírita" sempre teve.

O pseudo-futurista e falso progressista Chico Xavier defendeu a ditadura, a Teologia do Sofrimento e tudo, era uma criatura trevosa, mesmo, cuja foto de 1935 já mostrava o semblante pesado que os óculos escuros escondiam, o que tem a ver com esse deturpador da Doutrina Espírita que nunca passou de um beato católico ortodoxo de apetite medieval.

Agora vamos esperar que "espíritas" passem a integrar oficialmente a Bancada da Bíblia para, junto com os "iluminados" Aécio Neves e Eduardo Cunha (que, quando for afastado, atuará como consultor do governo Michel Temer), defenderem medidas retrógradas que transformassem o Brasil numa sociedade plutocrática e teocrática, fazendo o nosso país viver a Idade Média que as elites tanto sonham em viver. Lamentável, tudo isso.