sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Como se faz a ideologia da "caridade"?


Muitos ficam chocados quando se contestam totens associados à ideia consagrada de caridade e filantropia. Curiosamente, a gente vê o lado real dessas pessoas "tão bondosas": em maioria, elas reagem como egoístas, raivosas e rancorosas que ainda são, presos nas suas zonas-de-conforto da fé deslumbrada e do fanatismo religioso.

Ao divulgar que Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco fizeram muito pouco pelo próximo, portanto, muito menos que suas consagradas imagens sugerem, muita gente fica chocada e reage com fúria, irritada e deprimida, tomada dos piores sentimentos. Afinal, que energias elevadas eles julgam ter? Eles não conseguem ser bons e evoluídos por conta própria.

O que está em jogo é que muitas pessoas se aprisionam a uma ideia formal de caridade, solidariedade, fraternidade e amor ao próximo. São apenas ideias materialistas de humildade, estereótipos de desapego, abnegação, resignação e doação que se prendem aos clichês moralistas relativos à caridade.

Mesmo a ideia de fraternidade se subordina à ideia medieval de sermos forçadamente iguais, eliminarmos nossas individualidades e nossa diversidade. E a filantropia defendida é sempre aquela que não incomoda as estruturas das verdadeiras desigualdades que a fé religiosa deixa passar, com a complacência diante dos privilégios e abusos dos poderosos e dos algozes em geral.

O Brasil se mostra muito atrasado. Paciência, o país só tem 515 anos de existência, não passou por dramas que as nações europeias passaram, o que pode nos fazer apostar que uma Grécia no fundo do poço tenha maior capacidade para dar a volta por cima do que o Brasil festivo e triunfante que "apenas" vive "momentânea crise".

Daí que o nosso país se prende a uma ideia medieval de fraternidade, solidariedade e amor ao próximo, preso ao igrejismo e ao donativo elitista. Nosso "ativismo" se perde no maniqueísmo de Black Blocs e Revoltados On Line, de um lado, e as esmolas e inócuos cursos de alfabetização, de outro.

Surpreendemos em todo ano com muitas pessoas que, supostamente modernas, se demonstram profundamente conservadoras. Pessoas que parecem modernistas, alternativas, rebeldes, vanguardistas, acabam exibindo sempre algum ponto retrógrado no Brasil. Seja defendendo a degradação cultural do povo pobre ou a intervenção militar, a consciência das pessoas de uma forma ou de outra vai "descendo até o chão".

Dentro desse contexto, Chico Xavier é considerado "ativista" e "progressista" por coisa nenhuma. Isso porque no Brasil existe o chamado malabarismo discursivo, em que as pessoas tentam parecer mais avançadas e corretas do que realmente são, e ficam usando todo tipo de desculpa para adotar posições tão retrógradas.

E isso quando não há a tripla truculência de políticos obscurantistas como o deputado Eduardo Cunha, jornalistas reacionários como Reinaldo Azevedo e o fascismo circense dos trolls da Internet, a defender de modismos da mídia a preconceitos raciais, que causam apreensão de como será o futuro de nosso país.

Embora sabemos que o Catolicismo propriamente dito tenta sobreviver e crescem as chamadas "seitas evangélicas" no país, o "espiritismo", com sua retórica "racional", faz parte dessa "santíssima trindade" do obscurantismo da fé que busca dividir o tráfico de influência no país.

Daí que até mesmo entre pessoas libertinas há um certo conservadorismo ideológico. Movimentos de bregalização cultural, que se dizem defensores da causa LGBT e se autoproclamam libertários, defendem o duvidoso ofício da prostituição como algo "progressista", sem saber dos históricos de violência, machismo e criminalidade que cruzam os caminhos das prostitutas aqui e ali.

Isso é conservador porque os "animados ativistas", que cobrem suas personalidades direitistas com as bandeiras das esquerdas - há muitos assim entre a intelectualidade "cultural" mais reacionária, mas parasita de verbas da Lei Rouanet - , querem que as mulheres pobres sejam prostitutas a vida inteira, impedindo-as de buscar um trabalho melhor que não lhes dê só salário, mas dignidade.

É muito simplório dizer que o ativismo social é manter os pobres na pobreza, apenas "minimizando" seus efeitos. Se a intelectualidade cultural mais empenhada se comporta assim, se irritando quando sambas autênticos voltam a bater nos corações dos pobres moços, imagine quem vê a fraternidade e a solidariedade sob a miopia da fé religiosa!

A IDEOLOGIA DA "CARIDADE"

Criam-se paradigmas os mais inócuos e inofensivos de caridade, que apenas ajudam um pouco, sem romper com a desigualdade e a injustiça. Os próprios ideólogos da "caridade", como o próprio Chico Xavier, adepto da Teologia do Sofrimento, apelam para que aceitemos resignados o arbítrio dos algozes e dos dominadores, na esperança de que eles "pagarão pelo que fazem um dia".

Isso mostra o que é essa ideia de fraternidade que faz as pessoas dormirem tranquilas. Afinal, é uma ideia de filantropia e amor ao próximo que não trazem grandes transformações, apesar de tanta retórica nesse sentido. São apenas ações paliativas que minimizam o sofrimento mas não fazem as pessoas saírem definitivamente da miséria.

Afinal, os donativos que consistem em ser o carro-chefe dessa ideologia, sejam roupas, material de limpeza e alimentos para os pobres são apenas benefícios provisórios que se consomem. Se eles se esgotam, os pobres voltam à situação inferior que viveram antes. A caridade não teve resultado definitivo, porque foi apenas provisória, daí sua falta de mérito.

Há também os cursos de alfabetização e outras matérias escolares que apenas ensinam a ler e escrever, a fazer contas e respeitar as pessoas, mas não a pensar ativamente sobre a realidade em volta. Em muitos casos, a "brilhante educação" tem como preço o proselitismo religioso. "Você vai ler, escrever e até se virar na vida, mas tem que seguir nossas crenças", diz, não necessariamente de maneira assumida.

E realmente por que essa caridade não é transformadora, por mais que consiga tirar as pessoas da pobreza? Para responder a isso, podemos enumerar alguns aspectos da ideologia da "caridade" restrita a paradigmas religiosos para entender a situação:

1) As atividades em prol do próximo são geralmente paliativas ou de restrita eficiência.

2) Elas não representam ameaça ao sistema de desigualdades que causa esse mesmo quadro de pobreza, "melhorando" sem melhorar de fato.

3) A caridade se fundamenta sempre em valores fundamentados no conformismo e na resolução parcial e amena de problemas apenas de extrema gravidade.

4) Há uma exploração publicitária da imagem dos pobres, como uma multidão de gente submissa que deve obter melhorias relativas sem que ultrapassem sua pobreza simbólica, de gente resignada, ingênua e inócua, sempre defendida pela ideologia religiosa.

5) O sistema de relações sociais continua sendo desigual, e para quem sofre basta adotar uma postura de resignação e submissão dócil, com batalhas apenas limitadas ao que o "sistema" permite para "vencer na vida", dentro dos estereótipos trazidos pela meritocracia.

6) A caridade paliativa causa uma sensação enganosa de que as pessoas estão ajudando, e disfarça a insegurança moral dos indivíduos que não costumam ser dispostos a ajudar de maneira ampla e efetiva, e até constroem suas vaidades atraves da caridade pouca (em quantidade e qualidade) que exercem.

E AS "CARIDADES" DE CHICO XAVIER E DIVALDO FRANCO?

Chico Xavier ajudou pouco, dentro dos limites que o conservadorismo religioso permite para a filantropia. Nada que o pudesse ser visto realmente como ativista e transformador. Doações de cestas básicas, algumas visitinhas a obras de caridade, e a "caridade de cabra-cega" que é deixar de receber dinheiro pela venda dos livros e outros produtos associados.

Por que "caridade cabra-cega"? Porque o "beneficiado" simplesmente não vê o dinheiro chegar em suas mãos. Ele deixa de recebê-lo e só. Isso não corresponde, necessariamente, a um ato de generosidade, mas apenas a renúncia de receber algum dinheiro.

Além disso, o dinheiro era destinado para a cúpula da Federação "Espírita" Brasileira, o que não é um ato de caridade, em si. Até porque os líderes são poderosos e sabemos que instituições assim também acumulam bens materiais.

Um exemplo é que o poderio do então presidente Antônio Wantuil de Freitas, "padrinho" religioso de Chico Xavier e seu parceiro na produção de vários livros, sobretudo os que levam (de forma fútil) o nome de Humberto de Campos, foi alimentado por essa doação de cachê e fez a FEB ter seu domínio cada vez mais centralizador, discriminando até mesmo as federações regionais coligadas.

Algumas aparentes caridades de Chico Xavier foram paliativas, apenas minimizando os efeitos extremos da pobreza. Mas nada que transformasse o povo brasileiro num padrão de Primeiro Mundo. Por outro lado, algumas das outras alegadas caridades de Chico Xavier se revelaram bastante traiçoeiras e oportunistas.

Daí, por exemplo, as psicografias bastante duvidosas. É até estranho que Chico Xavier, que dizem ter feito também psicofonia, seja pouco conhecido nessa atividade. Ela apenas é defendida pelo viúvo de Irma de Castro, Meimei, o já falecido Arnaldo Rocha, que alega ter registrado psicofonias entre 1954 e 1956.

Curiosamente, também, é estranho que o Chico Xavier das supostas psicografias "reapareça" agora em psicofonias, via Ariston Teles, e não por supostas psicografias, atividade mais típica de seu mito, até por causa das tais misteriosas e risíveis "senhas".

A crueldade está em torno da usurpação dos nomes dos mortos, não só através da fraude de cartas e livros que mostram apenas o estilo do "médium" e, no caso das cartas, só mostram sua caligrafia pessoal, como por dois aspectos traiçoeiros que a medida acaba trazendo para as famílias dos falecidos.

Primeiro, é o prolongamento das tragédias familiares, que poderiam ser sofridas na intimidade de seus lares, mas são exploradas pelo sensacionalismo midiático e pelo exotismo que a glamourização dessas tragédias, sobretudo a de jovens de boa aparência, inspira no grande público.

Segundo, é o fato de que o caráter mediúnico é bastante duvidoso, porque as mensagens têm sempre o estilo do "médium" e a caligrafia dele, o que torna incerto o caráter de consolação de mensagens divulgadas dessa forma.

Chico Xavier era moralista, ultraconservador, católico heterodoxo em método - afinal, era um paranormal - , mas bastante ortodoxo em ideias. Era devoto de Nossa Senhora da Abadia e Santa Teresa de Lisieux, uma das ideólogas da Teologia do Sofrimento.

Por outro lado, Chico Xavier se promovia através dos mortos, levianamente evocados, em mensagens "espirituais" que mostram divergências sérias à personalidade original de cada falecido. Humberto de Campos, que havia sido intelectual e literato, mais parecia um padre católico nas obras atribuídas a seu espírito.

A caridade de Divaldo Franco também não foi muita. Além de compartilhar da mesma psicografia e psicofonia irregulares de Chico Xavier, seu trabalho filantrópico, que chegou a ser comemorado por uma reportagem do Fantástico, da Rede Globo (logo ela), na Mansão do Caminho, não foi mais do que meramente inexpressivo.

Isso não é maledicência de gente invejosa. É só fazer os cálculos. A Mansão do Caminho, surgida em 1952, alega ter ajudado cerca de 160 mil pessoas, em toda sua existência. Isso requer um cálculo, comparando esse dado com o da população de Salvador e o tempo de existência da instituição.

Primeiro dividimos o número 160.000 por 63, correspondente ao tempo de atividade da Mansão do Caminho em 2015. Dá algo em torno de 2.540, equivalente à média de beneficiados por ano. Depois, comparamos com o número de habitantes de Salvador, cerca de 2,9 milhões, que arrendondamos para 3 milhões devido às irregularidades do êxodo rural, já que as cidades do interior baiano costumam creditar como seus habitantes cidadãos que delas emigraram para a capital baiana.

Isso significa fazer a prova dos nove, colocando 3.000.000 como 100% e 2.540 como "x" e o resultado obtido dá 0,08%. O que indica que Divaldo Franco só beneficiou menos de 1% da população de Salvador, número bastante inexpressivo que, em escala mundial, é sinônimo de nada. Ser considerado o maior filantropo do mundo dessa maneira é completamente ridículo.

A caridade existe de outras formas, e é fora da religião que existem exemplos mais belos, em que a solidariedade ultrapassa os limites do sofrimento resignado e da submissão devota. O Método Paulo Freire é um exemplo, em que o educador mineiro ensina alfabetização mas também com estímulo ao raciocínio crítico, à mobilização comunitária e até uma introdução ao trabalho jornalístico.

Personalidades como o poeta Vinícius de Moraes, Oscar Niemeyer e Mário de Andrade também fizeram muita caridade, apoiando projetos em prol da cultura brasileira e das causas democráticas. Uma caridade de cabeça erguida, sem as amarras da fé. Isso é que muitos não conseguem perceber, apegados a paradigmas religiosos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Filantropia de Chico Xavier não passou de jogada marqueteira da Rede Globo


Sabe-se que Francisco Cândido Xavier tem uma trajetória muito mais cheia de confusões e escândalos do que qualquer esboço de coerência e consistência. Só que ele é adorado, até de maneira ferrenha e fundamentalista, porque ele é "bonzinho".

As pessoas falam tanto na sua "bondade e humildade", elas que não conseguem ser boas e humildes por conta própria. Além do mais, que bondade Chico Xavier realmente fez? As "afirmações" são muito vagas, superficiais e subjetivas, não têm qualquer tipo de embasamento.

O que poucos se lembram é que a "bondade e humildade" de Chico Xavier não passa de um truque publicitário montado pela Rede Globo de Televisão, à semelhança do que o jornalista britânico Malcolm Muggeridge, da BBC, fez com Madre Teresa de Calcutá, no documentário Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), de 1969.

MALCOLM MUGGERIDGE "INVENTOU" O MITO "FILANTRÓPICO" DE MADRE TERESA.

A Madre Teresa, na verdade a freira albanesa Anjezë (ou Agnes) Gonxhe Bojaxhiu, era apenas uma católica como outras que montaram instituições aparentemente filantrópicas, a partir dos anos 1950. Iniciativas sem muito caráter transformador, apenas um alojamento de pessoas infelizes, que não necessariamente são assistidas de forma brilhante, mas apenas paliativa.

De repente, o documentário de Muggeridge tocou nos sentimentos que misturam o apreço pelo sensacionalismo midiático e uma moral herdada do Catolicismo desde a Idade Média, e aí a Madre Teresa acabou sendo vista como "santa" e até canonizada pelo Vaticano.

No Brasil, Chico Xavier já havia sido mitificado como um paranormal católico que tentava se passar por "porta-voz dos mortos", primeiro usando nomes de poetas ilustres, através de Parnaso de Além-Túmulo, de 1932. A fraude não foi difícil de ser constatada, diante de dois aspectos:

1) O livro, que se pretendia "expressão acabada dos espíritos superiores", teve que sofrer bruscas revisões cinco vezes e no prazo de 23 anos. o que causa muita estranheza, afinal, um livro que se supõe contar com "mensagens mais elevadas da espiritualidade" nunca iria fazer revisões tão sucessivas e durante muito tempo, bastando sua primeira edição como definitiva. Em vez disso, poemas foram reescritos, outros foram incluídos, outros excluídos. Isso é elevado?

2) Os poemas apresentados não correspondem aos estilos dos autores originais. Há pastiches literários que apenas se assemelham na forma, à primeira vista, como um produto pirata, visto de longe, se parece muito com o original. Olavo Bilac "perdeu" a métrica poética. Castro Alves, o seu lirismo baiano. Auta de Souza, a sua doçura de menina. Antero de Quental, a sua dramaticidade lusitana.

MADRE TERESA DE CALCUTÁ, EM DOCUMENTÁRIO DA BBC, E CHICO XAVIER, EM REPORTAGEM DO JORNAL NACIONAL, DA REDE GLOBO.

Até o Brasil ter alguma noção da repercussão de Algo Bonito para Deus, que como de praxe ocorreu em meados dos anos 1970, Chico Xavier era trabalhado como um mito de maneira atrapalhada e sujeita a escândalos.

De incidentes como a usurpação do nome de Humberto de Campos - que teria sido uma revanche de Chico Xavier contra a resenha um tanto irônica que o autor maranhense fez a Parnaso de Além-Túmulo, já que Chico inventou um suposto Humberto que escrevia não como intelectual mas como um padre - ao caso da farsante Otília Diogo, o mito de Chico trilhava um caminho de pedras.

Ele só se tornou mais organizado tempos depois, por volta de 1977, 1978, quando as Organizações Globo fizeram as pazes com Chico Xavier. Sabe-se que a corporação da família Marinho, por influência de católicos ortodoxos como Gustavo Corção, Alceu Amoroso Lima e outros, era inicialmente hostil a Xavier e chegou a corroborar denúncias que o Diário de Minas divulgou em 1958, vindas do sobrinho Amauri Xavier Pena, que disse que a mediunidade do tio era uma farsa.

Duas décadas depois, a família Marinho fez as pazes e as relações da Globo com Chico Xavier são tão harmoniosas que os filmes relacionados à trajetória dele e suas obras são co-produção da Globo Filmes, e se encaixaram bem na linha noveleira de sua dramaturgia.

MADRE TERESA DE CALCUTÁ E CHICO XAVIER ACOLHENDO CRIANÇAS - SEMELHANTE APELO PUBLICITÁRIO.

A Rede Globo herdou da extinta TV Tupi a apreciação de Chico Xavier. Sabe-se que os Diários Associados viveram uma relação de amor e ódio contra o anti-médium mineiro. Geralmente a revista O Cruzeiro era contra e a TV Tupi (casa de amigos como Augusto César Vannucci, Nair Bello, Ivani Ribeiro e Ana Rosa), a favor.

O Cruzeiro tinha reportagens como as de David Nasser e Jean Manzon que desconfiaram das obras literárias que Chico Xavier atribuía a espíritos de grandes escritores, sem falar do caso da ilusionista Otília Diogo, desmascarada diante das fraudes de materialização que contaram com o apoio de Chico e Waldo Vieira (provavelmente o episódio foi pivô do rompimento entre os dois).

A TV Tupi foi a primeira a transmitir a novela A Viagem, de Ivani Ribeiro, inspirada em Nosso Lar. Tinha profissionais, como os acima citados, que eram amigos e seguidores de Chico Xavier. Além disso, o programa Pinga-Fogo também recebeu Chico Xavier para a famosa entrevista de 1971 (na qual ele se assumia católico e defendia a ditadura militar) porque o apresentador era amigo dele.

Se prestarmos atenção nas reportagens que passaram a ser feitas, no final dos anos 1970, sobre Chico Xavier, observa-se todo o roteiro do documentário de Muggeridge. Todo o discurso devocional, marcado por tomadas como o suposto filantropo acolhendo humildes e sendo recebido pela população, o cuidado com pessoas carentes e tudo o mais.

OUTRO APELO PUBLICITÁRIO: MADRE TERESA E CHICO XAVIER ACOLHENDO HUMILDES.

A única diferença é o contexto brasileiro, como foi o caso de Chico Xavier representar a visão de Jean-Baptiste Roustaing, o homem que primeiro deturpou a doutrina do pedagogo Allan Kardec. Associar Chico Xavier ao roustanguismo é muito doloroso para seus seguidores, mas é uma realidade da qual não cabem contestações diante de tantas e tantas evidências deixadas em livros.

No caso da Globo, há os aspectos brasileiros, há a atividade "mediúnica" no lugar dos "lares de moribundos", a roupagem "espírita" no caso de Chico Xavier etc. Mas a verdade é que, descontados esses aspectos particulares, tudo o que se fez a respeito de Chico Xavier é idêntico ao trabalho de Malcolm Muggeridge.

MADRE TERESA E CHICO XAVIER ERAM ADEPTOS DA TEOLOGIA DO SOFRIMENTO.

Com base no caso de Madre Teresa, a grande mídia brasileira, num contexto de crise causada pela ditadura militar, que não conseguiu realizar o prometido desenvolvimento do país, precisava também de um mito que se associasse aos estereótipos de amor e bondade usados para anestesiar as almas humanas.

Dessa forma, as reportagens que programas da Globo, como Jornal Nacional, Globo Repórter e Fantástico sobre Chico Xavier tinham o mesmo roteiro de Muggeridge devidamente adaptado. Os mitos de bondade, humildade e caridade eram trabalhados com todos os clichês conhecidos.

Além de aparecerem acolhendo pobres, abraçando crianças e sendo saudados pela população, eles ainda davam depoimentos com frases de efeito, ideias aparentemente elevadas mas que, em dado momento, sempre esbarravam na apologia ao sofrimento e em valores ultraconservadores do mais rígido moralismo, que pregavam a subserviência dos humildes e dos bons.

Tanto Chico Xavier quanto Madre Teresa eram adeptos da Teologia do Sofrimento, defendendo a frase de Santa Teresa de Lisieux, que disse que "o próprio sofrimento passa a ser a maior das alegrias, quando é buscado como o mais precioso dos tesouros", interpretando de forma deturpada e sado-masoquista a visão glamourizada do martírio de Jesus.

PONTOS SOMBRIOS: POBRES MAL-TRATADOS PELA MADRE TERESA E FALSA PSICOGRAFIA DE CHICO XAVIER.

Tanto Madre Teresa de Calcutá quanto Chico Xavier apresentaram pontos sombrios em suas trajetórias. A partir de pesquisas divulgadas pelo escritor inglês Christopher Hitchens e por acadêmicos canadenses, a caridade de Madre Teresa mostrou aspectos negativos, como o descaso aos abrigados em suas casas de caridade e o apoio dela aos poderosos.

Enquanto os pobres e miseráveis eram alojados uns aos outros sem qualquer proteção, facilitando o contágio de suas graves doenças, e eram remediados apenas com aspirina e parecetamol, enquanto tesouras e seringas eram reutilizadas sem higiene e lavadas apenas com água suja de torneira, Madre Teresa desfilava ao lado de ditadores, políticos tiranos e magnatas corruptos sob o pretexto de atrair dinheiro para si e "doá-lo" para os grandes sacerdotes do Vaticano.

Chico Xavier fazia pastiches literários, usava "leitura fria" através de seus colaboradores para colher o máximo de informações sobre pessoas falecidas e forjar cartas que tinham o mesmo estilo do "médium" e só apresentavam sua caligrafia, enquanto repassava os lucros de seus livros para os chefões que comandavam a Federação "Espírita" Brasileira, cuja sede (primeiro no Rio de Janeiro, na Av. Passos, depois em Brasília) é apelidada de "Vaticano" por causa de sua pompa.

É até lamentável que familiares, como a senhora que mostra uma "carta mediúnica" na foto acima, acreditem na "veracidade" dessas cartas, que só mostram a caligrafia de Chico Xavier até mesmo quando é no caso da suposta assinatura espiritual. Exibem tais cartas como se fossem um troféu, um atestado de suposto contato com os espíritos do além. Mas nada há que indicasse, de maneira segura e confiável, alguma caligrafia do espírito atribuído em cada mensagem.

Chico Xavier também cortejava os poderosos e não representou qualquer ameaça a eles. Pelo contrário, sua figura tranquilizava os conservadores e a ditadura militar nunca agiu contra ele. Até a frase "não censures" do "mentor" Emmanuel não tem a ver com o protesto contra o arbítrio militar - que Chico Xavier achava necessário para "reprimir ideologias desagregadoras" - e sim com o apelo para que ninguém questionasse coisa alguma na vida.

Entre os seguidores de Chico Xavier, a comparação com Madre Teresa de Calcutá é até estimulada e defendida. Chegam mesmo a ficar entusiasmados diante dessa postura. Mas, entre os questionadores de Chico Xavier, faltou um Christopher Hitchens que pudesse repercutir bem com as investigações sobre o lado sombrio de sua "filantropia" que nunca foi além de medidas paliativas e outras até traiçoeiras, como sua falsa psicografia.

Talvez nesse aspecto é que Chico Xavier, mesmo com um mito bastante confuso e cheio de irregularidades, torna-se um mito difícil de ser desmascarado. O de Madre Teresa o foi, mesmo quando houve o risco de Hitchens chamá-la de "anjo do inferno", em contraste com a imagem de "santa" que ela expressava ainda viva.  Talvez pelo fato do Brasil ser, em si, um país confuso e irregular, que mal recomeça a se conhecer e se reencontrar.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Curto e grosso: Erasto reprovaria Chico Xavier

CHICO XAVIER SERIA REPROVADO, SEM RECUPERAÇÃO, PELO ESPIRITISMO AUTÊNTICO. E SEM ESSE PAPO DE SER BONZINHO.

Alguns ideólogos "espíritas", desesperados com as críticas que receberam, assustados com a crise que seu movimento sofre nos últimos anos, a pior desde que a corrente roustanguista - ligada a Jean-Baptiste Roustaing, o primeiro deturpador da Doutrina Espírita - , sofreu sua grave crise no Brasil e deu origem à atual corrente dúbia, agora tentam apelar.

Eles tendenciosamente usurpam o pensamento de Erasto, o espírito do antigo discípulo de Paulo de Tarso que havia divulgado seu aviso enérgico através de um discreto médium, conhecido apenas pelo nome de Sr. d'Ambel, discreto membro da Sociedade Espírita de Paris.

Tentam deturpar o sentido do aviso de Erasto para acobertar as mistificações que o "movimento espírita" sofre e se esforçam em manter de pé o abalado mito de Francisco Cândido Xavier, um dos maiores charlatães e traidores do pensamento espírita no mundo.

Tentam "salvar" Chico Xavier usando como pretexto a "bondade e humildade" a ele associadas. Só que sabemos que toda essa imagem maravilhosa não passava de um truque de marketing, rigorosamente semelhante ao que se fez com Madre Teresa de Calcutá.

E, para quem acha que isso tudo nada tem a ver com manipulações da mídia, advinhem quem espalhou a ideia de que Chico Xavier era "o homem mais bondoso do mundo": a Rede Globo de Televisão, capaz de promover bonapartistas como Fernando Collor e Aécio Neves como se fossem "heróis salvadores" da nação brasileira.

E tudo isso copiando milimetricamente o documentário Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), que o jornalista Malcolm Muggeridge fez sobre Madre Teresa. As reportagens sobre Chico Xavier nos jornalísticos da Globo imitavam as tomadas, as abordagens, o discurso, colhiam do enfocado frases de efeito, criando todo um marketing da caridade com níveis de generosidade no padrão de um McLanche Feliz.

Chico Xavier não ajudou muito. Há milhões de brasileiros que dão um banho nele em caridade, sem sombra de dúvida. Até Vinícius de Moraes fez mais caridade que Chico Xavier. O que o anti-médium fez foi apenas caridade paliativa, recusar a receber pelo faturamento dos livros e só. Ele fez até atos "caridosos" que, numa observação cautelosa, se revelam bastante maliciosos.

Vide a falsa mediunidade dele. Obras literárias que não correspondem ao estilo original dos autores espirituais alegados. Cartas supostamente mediúnicas que só possuem o estilo e a caligrafia do suposto médium, e levantam indícios sérios de "leitura fria" (método de seduzir um entrevistado a dar informações mais sutis) e pesquisas diversas para forjar dados de indivíduos mortos.

Só as "cartas mediúnicas", supostamente consoladoras, causaram mais problemas que confortos. Pior: até o suposto conforto espiritual era, em si, um engano. E só essas cartas revelam uma série de maldades que Chico Xavier acabou causando nas pessoas. Vamos a elas:

1) As cartas causavam divisão em muitas famílias e grupos de amigos, porque havia alguns familiares desconfiados com o teor das mensagens divulgadas e outros não. As mensagens "consoladoras" mais desuniam que uniam, nesse sentido, pois havia os que se despertaram no ceticismo e havia os que se adormeciam na fé.

Um aspecto curioso é em relação aos amigos de Jair Presente, um jovem que morreu afogado em 1974 e que teve seu nome associado em algumas mensagens divulgadas por Chico Xavier, ainda naquele ano. Os amigos, que conviveram com Jair, nunca acreditaram na veracidade das mensagens ditas espirituais, e Chico Xavier ficou irritado (isso mesmo: IRRITADO) com isso.

2) As cartas prolongavam o sofrimento das famílias que perderam entes queridos, pela exposição a que eles estavam sujeitos e pela publicidade que fazia os efeitos das tragédias perpetuarem por meses e até por anos. Se Chico Xavier ajudou alguém, ele ajudou, na verdade, a imprensa sensacionalista, que encontrou em seus trabalhos farto material para notícias bastante apelativas.

3) O caráter fraudulento das cartas e dos livros revelava que Chico Xavier pesquisava muito, lendo muitos livros e imitando - com imperfeição e grandes falhas, diga-se de passagem - os estilos dos autores falecidos. Houve denúncias de que ele havia confundido, em estilo, o poeta português Antero de Quental com o parnasiano brasileiro Augusto dos Anjos, dadas pelo crítico literário Osório Borba.

Chico Xavier chegava a plagiar capítulos inteiros de livros. Geralmente os livros eram escritos por ele e outros parceiros, como Antônio Wantuil de Freitas, presidente da Federação "Espírita" Brasileira. Geralmente os livros eram verdadeiros "Frankensteins" literários, montados a partir de plágios e citações diversos.

Quanto às cartas, era comum que Chico Xavier tivesse, nos "centros espíritas" em que atuava, colaboradores que colhiam informações, via "leitura fria" (técnica psicológica que se fundamenta numa entrevista "mais intimista"), dos parentes dos mortos. Mas outros recursos eram aproveitados, desde uma conversa informal no fim de uma doutrinária até dados colhidos em fontes que variam de notícias na imprensa até diários deixados pelos próprios mortos.

4) As atividades "mediúnicas", da forma como são feitas, eliminam o caráter intermediário do suposto médium. Ele deixa de ser o "canal" para ser o "emissor". O "médium" passa a ser o centro das atenções e, portanto, deixa de ser médium, no sentido da palavra "medium", "intermediário". Vira o anti-médium, o paranormal-estrela, o dublê de pensador e arremedo de conselheiro sentimental.

Em outras palavras, a atividade acaba transformando o "médium" em celebridade, contrariando a reputação dos verdadeiros médiuns dos tempos de Allan Kardec, tão discretíssimos que a eles cabia apenas servir de intermediários dos contatos espirituais, sem cair na tentação de bancarem os falsos filósofos.

Aliás, Erasto deu o seu recado através de um desses discretos médiuns, tão discreto que foi conhecido praticamente só por um sobrenome, d'Ambel. O extremo oposto de Chico Xavier e Divaldo Franco, que usam seus nomes todos para identificar suas carreiras de estrelas, dublês de pensadores, pretensos filantropos, sempre a dar pitaco nas vidas das pessoas e bancar os "donos da verdade".

Erasto advertiu que os espíritos mistificadores viriam, Com toda a mensagem inserida como resposta ao item 230 do capítulo XX de O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec, Erasto, definido como um espírito que produziu considerações com o cunho incontestável da profundidade e da lógica, parecia se dirigir, neste texto, a Chico Xavier.

Prestemos muita atenção a esse relato, lançado em 19 de setembro de 1861, de contundente atualidade:

"É essa a pedra de toque das imaginações ardentes. Porque, levados pelo ardor das suas próprias idéias, pelos artifícios dos seus conhecimentos literários, os médiuns desprezam o ditado modesto de um Espírito prudente e, deixando a presa pela sombra, os substituem por uma paráfrase empolada. Contra esse temível escolho se chocam também as personalidades  ambiciosas que, na falta das comunicações que os Espíritos bons lhe recusam, apresentam as suas próprias obras como sendo deles".

Note-se que os livros de Chico Xavier sempre possuem as tais "paráfrases empoladas", arremedos de erudição que revelam uma escrita pesada, misturando "ideias heterodoxas" (contrárias à Doutrina Espírita e várias explicitamente fora de qualquer sentido lógico) com "coisas boas", de forma a seduzir os leitores mais incautos.

Esse outro trecho de Erasto também serve para reprovar Chico Xavier, e é bom prestar atenção nestas seguintes palavras:

"Mas onde a influência moral do médium se faz realmente sentir é quando este substitui pelas suas pessoas aquelas que os Espíritos se esforçam por lhe sugerir. É ainda quando ele tira, da sua própria imaginação, as teorias fantásticas que ele mesmo julga, de boa fé, resultar de uma comunicação intuitiva. Nesse caso, há mil possibilidades contra uma de que isso não passe de reflexo do Espírito pessoal do médium".

Pesquisas sérias apontaram esse aspecto em Chico Xavier. Vide as "cartas" que tinham o mesmo estilo de narrativa e apelos religiosos. Além disso, em livros como os que usam o nome de Humberto de Campos, é gritante a presença do "estilo Chico Xavier".

O coitado do Humberto, intelectual laico de seu tempo, "voltava" em livros com linguagem de padre! Mas havia outros casos. Nos poemas supostamente espirituais, Auta de Souza, por exemplo, deixava de ser ela mesma para ser Chico Xavier. E o suposto Olavo Bilac abria mão de seu próprio talento poético em nome da "caridade".

Erasto recomendava não dar ouvidos a médiuns e espíritos mistificadores. Ele se consagrou com a frase "mais vale repelir 10 verdades do que aceitar uma única mentira". Ele sempre alertava que a mentira se mostraria habilidosa, cheia de mensagens atraentes, com um simulacro de amor e bondade, pronta a seduzir e convencer as pessoas invigilantes.

Pois Chico Xavier comprovadamente cometeu atos e posturas contrários à razão e ao bom senso. Isso os fatos mostram e não dá para escondê-los sob o verniz da "bondade e humildade". O anti-médium mineiro personificou muito bem os erros e mistificações que Erasto tentava evitar.

E se Erasto tentava prevenir os franceses das armadilhas depois reveladas pela "revelação da revelação" de Jean-Baptiste Roustaing, o roustanguismo foi depois adaptado para o contexto brasileiro por Chico Xavier, que muito inseriu de Roustaing no seu confuso e emporcalhado caldeirão de ideias.

O chiquismo é o roustanguismo com tempero brasileiro, como se Roustaing se servisse da culinária mineira. E se Erasto reprovou Roustaing, reprovaria Chico Xavier sem qualquer hesitação. E para ele não tinha essa conversa de "respeitar Chico Xavier por sua bondade e humildade". Até porque essas qualidades são muito vagas e duvidosas, e ainda mais ante os gravíssimos erros que Xavier fez em relação à Doutrina Espírita.

O próprio Erasto disse:  "Deve-se então eliminar sem piedade toda palavra e toda frase equívocas, conservando no ditado somente o que a lógica aprova ou o que a Doutrina já ensinou".  Diante disso, Erasto nunca aprovaria Chico Xavier.

Quem for que usasse os recados de Erasto para defender Chico Xavier, pode garantir é mentira da grossa. Pois essas pessoas, que existem aos montes no "espiritismo", só querem usar uma mensagem de sentido lógico e coerente para deturpá-la em benefício delas, acobertando mentiras pelo véu da falsa lógica e do falso bom senso.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Quem é que deixou Eduardo Cunha ser eleito?


Quem é que deixou Eduardo Cunha ser eleito? A prepotência descomunal e o senso de astúcia e oportunismo do presidente da Câmara dos Deputados, seu apetite por corrupção e sua arrogância em desmenti-la e ameaçar as pessoas mostra o quanto ele é um perigo para o país.

E quem elegeu Eduardo Cunha? Boa parte dos cariocas. Já dá para perceber que o Rio de Janeiro, que sofre uma infinidade de retrocessos, contribuiu muito para a chegada ao poder de uma figura dessas, um ex-chefão da Telerj que, como político, era um dos mais medíocres do Estado.

Até ser escolhido presidente da casa legislativa, Cunha era um político inexpressivo. Como vários do PMDB carioca que se promovem causando estragos na Segurança, no Transporte e na Economia, sem dar Educação que preste, sem garantir moradia digna para a população e fazendo pouco e comemorando demais para isso.

Só para se ter uma ideia, outro Eduardo, o Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro tão autoritário quanto seu xará, mas com a diferença de saber usar a simpatia, afirmou, feliz da vida, que a (ex-) Cidade Maravilhosa vai ganhar 10 mil novas casas em um prazo de dez anos.

Façam os cálculos. 10 mil casas em 10 anos. Mil casas por ano. O Rio de Janeiro tem mais de seis milhões de habitantes. Construir mil novas casas é muito pouco, diante da grande população que os recenseadores chegaram a contabilizar, fora aqueles que o Censo de 2010 nem chegou perto, já que sabemos que em muitas favelas os criminosos governam com mãos de ferro, em poder paralelo ao Estado.

E isso com galpões desocupados, edifícios com apartamentos ociosos, muitos terrenos baldios, muito espaço urbano ocioso. O Rio de Janeiro está assim, mesquinho, embora se deva respeitar seu povo, até porque é ele o maior lesado dessa tragicomédia toda.

As pessoas já ficam desnorteadas no direito de ir e vir. Primeiro, foram os ônibus padronizados que fizeram o povo ficar confuso, pegando o 328 para Bananal achando que está pegando o 378 para Marechal Hermes, ou correndo atrás do 229 para Usina acreditando ser o 119 para Copacabana (acho que não existe mais essa linha, né?).

E aí tem a redução de itinerários. Agora é um clone da 455 que só vai até a Candelária, e a pessoa que tem sorte de pegar um lugar sentado no terminal Gelton, no Méier, coitado, vai ter que pegar um ônibus em pé na Central, chegando cansado ao trabalho na Zona Sul.

E o secretário Rafael Picciani, em seu complexo de superioridade - de repente o rapazinho rico passou a se achar "entender de ônibus" - , disse que isso era para "racionalizar" o sistema de ônibus. e ele, com sua "vivência" no transporte coletivo (deve ter conhecido os ônibus cariocas através das novelas da TV Globo), acha que só 20% da população iria usar a baldeação.

Vá entender. Para ele, ônibus com lotação ideal é aquele que sai do ponto inicial com todos os passageiros sentados e no mínimo seis pessoas em pé. E tem os ambulantes e o pessoal que carrega caixas de isopor com bebida para vender na praia.

Isso é reflexo do autoritarismo dessa turma toda da política carioca, seja Eduardo Cunha, seja a turma do Eduardo Paes, Luiz Fernando Pezão e Sérgio Cabral Filho, sejam os "generosos" Carlos Roberto Osório, amigo dos "cartolas", o José Mariano Beltrame que hoje é acusado de improbidade administrativa e tudo o mais. Fora da órbita do PMDB, só a trolagem parlamentar de Jair Bolsonaro.

VAMOS "SER FELIZES"?

Dá para perceber que, nas mídias sociais, os cariocas e seus simpatizantes do Sul e Sudeste andam muito, muito aborrecidos. Eles querem um Facebook feliz, um Twitter asséptico, um WhatsApp alto astral, um YouTube mais condescendente, um Instagram mais positivo.

Essa "boa sociedade" e seus colegas de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, andam boicotando quem faz muitas críticas aos absurdos da realidade de hoje e andam definindo esses contestadores como "chatos" e "insuportáveis". A onda de "acomodados" ou "conformados on line" quer que as mídias sociais sejam quase um mar de rosas.

A gente diz quase, porque, se for para esculhambar o Partido dos Trabalhadores e dizer que Luís Inácio Lula da Silva é reencarnação de Al Capone, isso é válido. Dizer que o PT foi o partido mais corrupto da História do Brasil - ninguém mais se lembra da roubalheira da República Velha - também é estimulado pelos Acomodados On Line.

Mas, fora isso, o que se aceita são vídeos de bichos fazendo gracinhas, crianças pequenas cantando - tinha um menino cantando sobre galinha, sobre pintinho fazendo piu-piu - , publicar fotos tomando cerveja em alguma adega em Petrópolis ou similares e fotos com times de futebol carioca. Claro, é o fanatismo do futebol que faz cariocas gritarem até mesmo no final da noite.

Só que esse "convite à felicidade" não tem a ver com a celebração do bom humor para levar a vida na frente. Até porque as pessoas que pensam assim são as mais mal-humoradas do mundo. Eles cobram dos outros a "felicidade" que são incapazes de transmitir.

Esse "convite" tem muito mais a ver com o peso da consciência de uma parcela de cariocas "bem de vida" que, apoiados por seus congêneres do Sul e Sudeste, elegeram o Eduardo Cunha esperando que ele desse uma injeção de moralidade no país. Acabou ele fazendo o contrário.

Elegeram Cunha e também o Bolsonaro e por isso pagaram um preço caro de ver dois encrenqueiros no Congresso Nacional. Isso refletiu uma vocação autoritária dos cariocas que, num momento, permitia a trolagem aberta nas mídias sociais, mas como hoje isso pode ser enquadrado como crime, dependendo do caso, agora a onda é o mau humor enrustido.

"Vamos ser felizes e pronto". Que inventemos o "mar de rosas" artificial nas chamadas "redes sociais", já que se tem até praia artificial, no entorno de Madureira e bairros vizinhos. Se é livro para colorir, aceitemos. Se é vlogues de piadas no YouTube, aceitemos. Se é criancinha dublando cantor veterano na TV, aceitemos. Mesmo se a marquise cair sobre nossas cabeças.

A ideia é se preparar para as Olimpíadas e darmos a impressão de que somos felizes para os turistas, que o Rio de Janeiro é a cidade mais moderna do mundo e até o esgoto da Baía da Guanabara deve ser visto como uma lama medicinal temperada por algas marinhas no cio.

A obrigação da "felicidade" exigida pelos cariocas "bem de vida" e seus "papagaios de pirata" que vivem até em Londrina, Uberlândia e Mogi das Cruzes, a aceitação de que, num momento de intensa decadência cultural, a cultura de qualidade sobrevive fechada em espaços raros e pequenos que nem seus apreciadores conhecem, tem, portanto, dois motivos.

Um é esquecer que o Rio de Janeiro, com seus retrocessos e o reacionarismo das elites - até os trolls cariocas tinham o temperamento e o QI do Comando de Caça aos Comunistas - , é em boa parte responsável pela eleição de Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro, que despejam seus preconceitos sociais lá em Brasília.

Outro é preparar-se para o evento Rio 2016 e dar a impressão de que se trata de uma nação feliz, alegre, positiva. Por isso é que, quando pessoas andam carregadas de senso crítico, analisando problemas sérios e urgentes, a discriminação contra elas explode nas mídias sociais e o sol artificial dos "bem de vida" se torna uma tempestade de nuvens cinzas e trovões de mau humor e desaforos.

Até quem tem boa cultura e vê seus espaços serem fechados passaram a ficar felizes, como as pessoas que perdem livrarias e espaços de arte e acham que lhes basta pesquisar arte e literatura pelo Google (inclusive o Google Livros que nunca reproduz um livro na íntegra)

Ou então, no âmbito musical, é a MPB com novos talentos isolados e exilados em programas obscuros da TV paga e webradios de rock que não dão para sintonizar na praia, enquanto a Rádio Cidade, na sua forte sintonia disponível em qualquer lugar e também com versão webradio, trata a cultura rock como se fosse uma bobagem curtida por filhinhos-de-papai.

Quer dizer, temos que ser felizes para os outros ou eles reagirão infelizes conosco. Se perdemos quase tudo, fiquemos felizes e agradeçamos aos nossos algozes que nos fazem de gato e sapato. Tudo por umas míseras medalhas de ouro e prata que pouquíssimos dos nossos atletas ganharão nas arenas cariocas. Tudo para darmos a impressão de falsa felicidade para os turistas que trarão para nós menos dólares do que o esperado.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O Brasil e as questões mal-resolvidas da mulher com o machismo

CLÁUDIA CRUZ E SOLANGE GOMES - Duas maneiras de lidar com o machismo.

O Brasil está na vanguarda mundial? Não. Sua idade histórica de 515 anos não permite que nosso país esteja na dianteira do concerto das nações. Ele é o mais desafinado e demonstra incapaz de perceber questões e dilemas que os estrangeiros tiram logo de letra.

Eles desmascararam Madre Teresa de Calcutá de forma bem menos temerosa e traumática, mesmo quando seu mito parecia verossímil e arraigado a estigmas e paradigmas tradicionais da "boa velhinha". E no Brasil, um mito bem mais confuso e desastrado - e ainda por cima, com o escancarado lobby da Rede Globo - como o de Francisco Cândido Xavier, é difícil de ser desmascarado.

Aqui é o país em que os valores de vanguarda só encontram valor quando são deturpados, mesclados com princípios e práticas conservadores e se consolidam sem sequer metade de sua essência original. De repente, muitos dos "novos valores" que valem no nosso país não passam de uma dissimulação de valores retrógrados que usam uma "nova roupagem".

Não é preciso imaginar que o Brasil tornou-se um terreno fértil para esse Espiritismo que, com toda a declarada "fidelidade a Allan Kardec", nada tem da essência do pedagogo francês. Pelo que se observa pela doutrina de Chico Xavier e Divaldo Franco, a "nossa Doutrina Espírita" não é mais do que uma combinação de dogmas do Catolicismo medieval com feitiçaria e ocultismo. Nada do pensamento lógico de Kardec.

Isso cria uma mania terrível de acolher novos valores na forma deturpada. É o "velho" que busca trabalhar o "novo". Novos edifícios em bases velhas e enferrujadas. Bolo cheio de mofo por dentro, mas que recebe uma nova cobertura. Maçãs que parecem frescas por fora e são podres por dentro.

É isso que traz um terrível diferencial negativo para o Brasil em relação ao resto do mundo e que revela a inexperiência do país de buscar sua emancipação. Até agora, 193 anos depois de Dom Pedro I dar seu grito da independência - que sabemos foi só jogo de cena, porque o Legislativo é que agiu pelo verdadeiro sentido da data - , esperamos uma verdadeira emancipação.

De que adianta o Brasil ter deixado de depender politicamente do Portugal ainda medievalizado, se até o Espiritismo que temos está mais próximo do imperador Constantino do que de Allan Kardec? E se ainda dependemos do "velho" para fazer o "novo", com revoluções sendo feitas por aqueles que deveriam ser seus combatidos, então o Brasil não é um país que irá pela frente.

MACHISMO E FEMINISMO

Um país que não quer ver os feminicidas morrerem - por mais hostilizados que sejam, eles ainda são protegidos pela aura moralista da "legitima defesa da honra" - , por mais doentes e vulneráveis que estes sejam, o machismo está até decadente no Brasil, mas ele resiste comendo pelas beiradas a mudança dos tempos e procurando encaixar seus valores em contextos aparentemente novos.

Daí que o machismo procura se condicionar ao feminismo de certa forma, como se fosse em alguma negociação. O feminismo só teria vez no Brasil se pudesse ceder para o machismo, como em todo movimento avançado que procura sempre fazer concessões para o retrógrado, sob o pretexto da "moderação" e do "equilíbrio".

Descontando as exceções - que, por serem exceções, não são regra, do contrário que muitos insistem em supor - , a situação da mulher brasileira segue dois caminhos em que a emancipação feminina é condicionada sem representar ruptura ao machismo, seja de que forma ele seja seguido.

Se a mulher quer se livrar de valores machistas e buscar uma emancipação inteligente, buscando atividades diversas, aprimoramento intelectual e valores considerados edificantes para a mulher independente, ela tem que viver sob a sombra de um marido poderoso, patrocinador da independência dessa mulher.

Mas se a mulher aceita fazer o papel de mulher-objeto, de "brinquedo sexual" do imaginário machista, "sensualizando" além da conta e se afirmando somente pela ostentação corporal, "temperada" por bustos e glúteos siliconados e usando roupas apelativas até em funerais e vestindo roupas curtas em dias de frio, então elas são dispensadas de ter qualquer marido.

Vemos casos de jornalistas, atrizes, modelos e apresentadoras que, dotadas de personalidade bastante interessante e perfis bastante atrativos, serem casadas por empresários sisudos, políticos reacionários, profissionais liberais obsessos pela elegância e formalidade a qualquer preço. Essas mulheres bacanas e seus maridos sem graça, mais preocupados estes com a próxima festa de gala que irão frequentar.

Por outro lado, observa-se a lista de "solteiras felizes" que predomina, só entre as famosas: "mulheres-frutas", ex-BBBs, ring girls, "peladonas", candidatas ao Miss Bumbum, quarentonas que haviam participado da Banheira do Gugu e foram casadas com ídolos musicais popularescos. Na melhor das hipóteses, atrizes de TV viciadas em "funk" ou fanáticas por axé-music.

DIZEM QUE O QUE SOLANGE GOMES FAZ É UM NOVO TIPO DE FEMINISMO. DÁ PARA ACREDITAR?

De um lado, uma Cláudia Cruz que era cult com sua beleza e talento, casada com um retrógrado Eduardo Cunha que havia sido seu patrão na extinta Telerj. Combinando charme, sofisticação intelectual e beleza classuda, Cláudia mesmo assim não foi imune às traquinagens político-financeiras do marido e até participou de seu esquema de corrupção através de empresas "fantasmas".

De outro, uma Solange Gomes que parece só ter conhecido a vida de casada através de uma relação turbulenta com um cantor de "pagode romântico" e que, com 41 anos, representa a geração "sênior" das que ficam "mostrando demais" na mídia, com uma "sensualidade" compulsiva que a ninguém seduz, através de seu físico exagerado e suas eventuais gafes.

Solange está em dia com os valores machistas, trabalhando sua imagem de "objeto sexual" e, portanto, dispensada de vincular sua imagem a algum outro homem. Como outras que, com corpos siliconados e traseiros redondos demais, trabalham uma imagem machista de "mulher desejada" (que ironicamente é mais repulsiva que desejável) e, por isso, podem viver seus "celibatos" à vontade.

A impressão que se tem é que o estabilshment brasileiro tenta arrumar um jeito de domar a emancipação feminina. As mulheres que tentam romper com paradigmas machistas precisam ser domadas pela figura de um marido poderoso. As que seguem padrões machistas ficam liberadas disso, porque "estão mais consciente de seu papel".

Sim, é surreal como muita coisa no Brasil. A Solange Gomes que ignorou quem havia sido o escritor José Saramago, um dos maiores nomes da língua portuguesa, é "mais consciente do seu papel" na sociedade machista brasileira, e por isso pode viver "feliz sozinha" e dispensar o vínculo a um homem.

Já jornalistas, atrizes, modelos e apresentadoras que apresentam algum aprimoramento intelectual, falam de coisas interessantes e não ficam explorando levianamente seus corpos - até sua sensualidade é mais discreta e eventual dentro do contexto - , elas devem viver sob a sombra de algum marido poderoso, "maduro" e "influente".

A mulher que segue o machismo, contraditoriamente, não precisa ser domada por um machista. Ela parece seguir o roteiro que a sociedade machista determina para ela, ela é "machista" por conta própria. Já a mulher que não segue o machismo precisa da "vigilância" machista na figura de um marido poderoso, rico e influente.

O discurso apela para a aparência, daí que a mulher que simplesmente não tem marido e não vive sob a simbólica influência de um homem é tida como "feminista". Se bem que as "musas" que "sensualizam demais" são empresariadas por homens, mas a "sombra masculina" se encontra escondida em seus escritórios refrigerados.

O quadro é estarrecedor se percebermos que, no Brasil, já morreram prematuramente muitas mulheres dotadas de perfil diferenciado, enquanto uma multidão de outras mulheres fica perdendo tempo se "sensualizando demais" até mesmo quando o contexto não permite. Já não são muitas as mulheres que combinam, com brilhantismo, talento e visibilidade.

É evidente que o Brasil, só através desse exemplo das mulheres, está em situação retrógrada. O Brasil precisa se reavaliar e repensar seus valores, porque está preso a paradigmas correspondentes às relações de poder e status quo originárias da ditadura militar, que deixou como herança para a democracia a burocracia acadêmica e o fisiologismo político-institucional.

Mas no país em que os questionadores do "estabelecido" são discriminados nas mídias sociais, nas rodas de amigos e no mercado de trabalho, como alertar as pessoas das armadilhas do dia a dia? Estas estão muito ocupadas vendo bichinhos fazendo gracinhas no WhatsApp ou lendo "livros para colorir"...

domingo, 11 de outubro de 2015

Brasil, Curral do Mundo, Pátria do Latifúndio


Há uma onda de medo nas mídias sociais. Só que esse medo é muito mal direcionado. As pessoas andam se afastando das pessoas erradas, preferindo boicotar aqueles que demonstram ser uma grande enciclopédia de problemas a serem combatidos, resolvidos ou rejeitados.

É um quadro surreal num Brasil que quer derrubar a presidenta Dilma Rousseff mas pouco está aí para o macartismo de chanchada do deputado Eduardo Cunha ou para o fascismo pós-tropicalista de Eduardo Paes e sua turma no Rio de Janeiro.

Um Brasil que acha normal pessoas chamarem Dilma de nazi-fascista e Lula de gângster, mas se afastam quando alguém diz que o Rio sofre um retrocesso vertiginoso. O afastamento de pessoas aparente amigas a gente que "reclama demais" mostra o caráter de medo, conformismo e subserviência de pessoas presas no Titanic de suas "zonas de conforto".

Daí que o que se observa no inconsciente coletivo das pessoas é o medo do ativismo. Evitam dar ouvidos a quem contesta mais de três irregularidades do cotidiano e vão para o Facebook boicotar seus memes teclando "não quero ver isso", enquanto educadamente mandam mensagens dizendo que ele é "pessimista", "arredio" e "mal-humorado".

Eles não olham ao seu redor. Há uma grande diferente entre aqueles que "reclamam demais" do "estabelecido" e os Revoltados On Line. Estes, sim, são os que reclamam demais das coisas. O pavor das pessoas é direcionado para o alvo errado, para as pequenas Cassandras que anunciam retrocessos escondidos em supostas novidades.

Até quem defende a intervenção militar no Brasil é socialmente mais tolerado. As pessoas educadamente vão para essa pessoa e dizem "Não é bem assim que o país vai sair da crise, meu amigo, veja a História e verá que estou certo", e depois continuam se divertindo juntos nos bares e boates da vida.

Idosas falando que Dilma Rousseff é nazista em um banco movimentado, pessoas perguntando nas ruas por que Dilma, José Genoíno e José Dirceu não foram mortos pelo DOI-CODI e muita gente achando natural e, fora o "não quero ver isso" do Facebook, os amigos continuam chamando tais pessoas para jantar em casa, participar de excursões e frequentar juntos as noitadas.

Mas se alguém disser que a gíria "balada" é invenção dos fascistas da Jovem Pan FM, que a Rádio Cidade, do Rio de Janeiro, é uma espécie de "Eduardo Cunha" das rádios rock, que o modelo de transporte coletivo implantado na (ex-)Cidade Maravilhosa remete à lógica da ditadura militar, pode ficar seguro de que perderá seguidores nas mídias sociais ou ser boicotados por amigos no dia a dia.

E se é ofensivo definir como direitistas intelectuais que defendem a degradação cultural das classes populares, como o astro da imprensa paulista, Pedro Alexandre Sanches - espécie de Rodrigo Constantino mais caetânico - ou dizer que Jaime Lerner, mesmo com evidências históricas, é "filhote da ditadura", porque ninguém se incomoda quando outros dizem que Lula é "mafioso"?

CONFORMISMO TIRÂNICO

É claro que se pode lidar com as crises usando o bom humor, mas isso não significa que possamos ceder submissos aos retrocessos. Para quem acha normal outros xingarem o PT de "partido nazista", não há mérito algum quando julgam "insuportável" aquele que questiona o "estabelecido" pelo poder da mídia, do mercado e do poder político-tecnocrático.

Isso porque as pessoas que evitam dar ouvidos aos que "reclamam demais" e não correspondem à indignação aceitável (?!) dos Revoltados On Line também fazem das suas. Nas mídias sociais, se ocupam demais com vídeos e memes engraçados sobre coisa nenhuma, ou sobre as mesmas vídeocassetadas de sempre.

Mas isso é pouco. Hoje a moda é a "leitura" de livros para colorir, que praticamente não têm texto. o que diz muito sobre o medo de encontrar algum questionamento na vida. Depois que os Black Blocs se infiltraram nos movimentos sociais de 2013, que surgiram com uma rara diversidade social e ideológica, a sociedade passou a sentir medo de questionamentos aprofundados.

O conformismo ficou tirânico. Só se permite reclamar de, no máximo, três problemas cotidianos, e mesmo assim nos espaços privativos das mídias sociais e dos fóruns digitais. Se a pessoa levar esse questionamento para a mobilização social, começa a ser discriminada e abandonada por amigos, isso quando não aparece o exército de trolls  para esculhambar o coitado do contestador a pregar no deserto das mobilizações sociais.

Virou uma ditadura do conformismo, da complacência. A pessoa tem que ter sua cota de conformismo e mostrar que cedeu um pouco a cada retrocesso sócio-cultural. e que não se importa se, por exemplo, os 60 anos da Bossa Nova forem comemorados com um evento reunindo Chitãozinho & Xororó, Mr. Catra, Valesca Popozuda, Psirico, Anitta, Belo, Alexandre Pires e Wesley Safadão.

O ideal é fingir que o Rio de Janeiro continua vivendo os Anos Dourados e achar que sua tragédia cotidiana é "caso isolado" e apenas um "reflexo normal" da pós-modernidade urbana. Não é preciso saber por que, nos bares da vida, há tanta gente gracejando com ironia sobre os tiroteios que acontecem nos subúrbios cariocas.

Fingimos que o autoritarismo do PMDB carioca é consequência de seus "critérios técnicos" e confundimos arbitrariedade com precisão cirúrgica. Fingimos que a imbecilização sócio-cultural do "funk carioca" é efeito da "descontração e irreverência" do ritmo. De repente, passamos a acreditar numa "negritude de chanchada" em que até as louras siliconadas são "negras" e "bem brasileiras".

Até quem tem cultura e sabe das coisas está preferindo se refugiar nos poucos espaços que restam e trabalhar um mundo fantasioso onde combinam uma nostalgia de tempos melhores e o culto a um passado que já não é presente. Roqueiros e emepebistas, no Rio de Janeiro, de repente se contentaram em seus pequenos exílios em espaços fechados onde podem falar para si mesmos, enquanto seus valores são deturpados pela grande mídia e pela sociedade a céu aberto.

O Rio de Janeiro, preso num paradigma de urbanismo e cosmopolitismo que não existe mais, dificilmente consegue despertar nas pessoas sua atual condição de província que deixa nordestinos de queixo caído. Nem a Bahia de Antônio Carlos Magalhães chegou a tanto.

Poluída, barulhenta, desigual, injusta, congestionada, ditatorial, a cidade do Rio de Janeiro já mostra, há pelo menos 25 anos, aspectos de grande província: o coronelismo político do PMDB carioca, os latifúndios rurais e suburbanos dos banqueiros do jogo-do-bicho, a pistolagem de traficantes, milicianos e capangas de bicheiros, o terrorismo matuto dos trolls de Internet, a baixa visão do mundo da mídia do entretenimento e por aí vai.

Por isso é que o Rio de Janeiro, o Brasil levado às últimas consequências, reflete um quadro de decadência assustador. O Estado do Rio de Janeiro e sua famosa capital ainda são vistos como "modelos a serem seguidos" pela sociedade, o que causará problemas para nortistas e nordestinos que começam a buscar soluções próprias para seu provincianismo histórico.

E é através do Rio de Janeiro que o Brasil corre o risco de se degradar. Afinal, uma amostra do provincianismo carioca é o fato de trogloditas como Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro terem sido espetacularmente eleitos. Eles refletem o confuso sistema de valores carioca que periga prevalecer em todo o país, tornando distante o já improcedente futuro do Brasil como nação-líder do mundo.

Afinal, se continuarmos considerando o Rio de Janeiro, hoje em situação decadente, como "modelo a ser seguido" pelo país, o futuro do Brasil será ainda mais sombrio, fazendo o país se tornar um Curral do Mundo e uma Pátria do Latifúndio.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O desespero dos "espíritas"

TERREMOTO EM NOSSO LAR.

Os "espíritas" brasileiros estão preocupados com o crescimento de denúncias e questionamentos que se multiplicam na Internet, pondo em xeque crenças e procedimentos antes estáveis. É verdade que eles estão surpresos, porque durante muito tempo a doutrina confusa que eles defendiam nos últimos 40 anos sempre se mantinha em estabilidade e êxito.

Agora os escândalos se multiplicam, além da divulgação, na Internet, de antigos escândalos que tiveram raiz nos dois maiores erros cometidos pelo "movimento espírita" brasileiro: a preferência pelo misticismo católico em detrimento do cientificismo de Allan Kardec e o desconhecimento das práticas, conceitos e critérios da Ciência Espírita.

Acreditavam seus seguidores e líderes que o "movimento espírita" viveria na eterna paz e no equilíbrio infinito adotando uma postura dúbia de declarar fidelidade absoluta a Allan Kardec e seguir as ideias igrejistas de Francisco Cândido Xavier.

Achavam que todo mundo era ingênuo para acreditar que os "espíritas" seguem os alertas de Erasto de evitar a mistificação no Espiritismo, que eles seguem o rigor científico de Allan Kardec, que o movimento combate a "vaticanização" da Doutrina Espírita, enquanto louva figuras como Chico Xavier e Divaldo Franco, vaticanizados até a medula.

Com isso, muitos resolveram questionar. Textos e mais textos são bombardeados analisando as milhares de incoerências do "movimento espírita" e isso assusta seus integrantes que reagem, chorosos e assutados, ao que definem como "tempestade de confusão e intriga".

Sem explicar direito suas posturas, eles se fazem de vítimas. Se limitam a dizer que "encaram com muita tristeza" os "dissabores" que sofrem, e declaram serem vítimas injustas de campanhas movidas pela confusão, desconhecimento, inveja e intolerância contra "pessoas que só agem pelo bem".

Há até algumas acusações que se tornaram clichês, que os "espíritas" com seus maremotos de lágrimas tanto atribuem aos "maliciosos" contestadores:

1) Os "espíritas" se dizem vítimas de intolerância religiosa;

2) Os "espíritas" se dizem vítimas de campanhas de difamação e calúnia;

3) Os "espíritas" se dizem vítimas da inveja contra o "trabalho pelo amor ao próximo";

4) Os "espíritas" se dizem vítimas da confusão e desconhecimento dos contestadores;

5) Os "espíritas" se dizem vítimas da valorização excessiva e maldosa do pensamento científico.

Sim, eles são capazes até de dizer que estão sendo agredidos pelo "excesso de ciência", eufemismo que usam para definir que os contestadores se aprofundam nos exames e análises das irregularidades da doutrina brasileira.

Fora isso, os "espíritas" se limitam a dizer que os erros relativos à sua doutrina ou são apenas pequenos deslizes da imperfeição humana ou são delitos cometidos apenas por integrantes pouco disciplinados da doutrina. No entanto, os grandes líderes e ídolos "espíritas" sempre arrumam um jeito para serem inocentados de suas próprias culpas.

Sabemos que o "movimento espírita" no Brasil só aceita a Ciência quando ela se subordina à supremacia da fé religiosa e não ultrapassa os limites que possam invalidar as fantasias dessa crença. Porém, o caso da previsão de vida em Marte mostra o caráter censor dos "espíritas", para os quais a Ciência é bem vinda, mas nem tanto.

Afinal, enquanto o mundo inteiro reconhece em Percival Lowell, astrônomo estadunidense, o pioneirismo de analisar com mais substância aquilo que era quase uma especulação para cientistas anteriores, lançando três livros sobre o assunto em 1895, 1906 e 1908, o Brasil atribui a Chico Xavier esse pioneirismo nos anos de 1935 e 1939.

Isso é uma ofensa à lógica e à História da Ciência. Os "espíritas" se acham os ofendidos e ignorados, mas eles é que ofendem a lógica e ignoram a realidade, tentando fazer prevalecer uma visão sem sentido, porque muito antes de Chico Xavier lançar esses dois livrinhos o pessoal já escrevia páginas e páginas, fazia palestras e palestras discutindo a presença de água e humanos em Marte.

O que queria que fizéssemos? Que jogássemos a lógica que salta aos olhos para o lixo e acreditássemos em fantasias que só brasileiros incautos acreditam e acham que o mundo irá se render a elas a médio prazo? Teríamos que aceitar visões subjetivistas e tomar como "científicos" relatos piegas sem qualquer tipo de embasamento?

É só ler Cartas de uma Morta e Novas Mensagens para ver que esses relatos nada têm de científicos. São narrativas dignas de ficção, em que o escritor imagina aquilo que não consegue provar. É uma "realidade" inventada. Além disso, são pouquíssimas páginas, muito pouco diante do imenso material que estudou a vida em Marte em publicações numerosas e substanciais no século XIX.

E quando conseguimos comprovar que a tese de que Chico Xavier "previu" vida em Marte não tem o menor fundamento, os líderes "espíritas" reagem chorando, chamando os contestadores de confusos, ignorantes, traiçoeiros, maliciosos ou coisa parecida.

Olhem só quem fala. Eles é que corroboram as confusões trazidas por Chico Xavier, um católico dos mais fanáticos que foi empurrado para representar Kardec, pedagogo que o suposto médium mineiro, ainda que fosse um habitual leitor de livros, nunca se interessou em estudar. Nunca. Podem garantir que Chico nunca se interessou por Kardec. Isso é verdade, está explícito nas obras do mineiro.

Confusa e ignorante é a "doutrina espírita" que se faz no Brasil, em que a mediunidade vira uma coisa qualquer nota que nada tem de mediúnica, a vida espiritual é concebida por especulações e fantasias e os conceitos são mais carregados de fanatismo místico-religioso do que de lógica científica.

Essa é a verdade. E certamente os "espíritas" não conseguem explicar as coisas de maneira lógica. Preferem se dizer "vítimas de dissabores". Caem em contradições o tempo inteiro e não querem ser criticados. Cometem mil erros e acham isso natural, quando boa parte desses erros é fruto de uma conduta irresponsável de deturpação e desconhecimento da doutrina de Allan Kardec.

O que resta a eles é admitir que não se identificam com as ideias de Allan Kardec. Afinal, não é preciso ser acadêmico para ver as aberrantes e grotescas contradições que os livros de Chico Xavier, Divaldo Franco e companhia têm em relação ao pensamento de Kardec, essas contradições saltam aos olhos de tão explícitas, tão evidentes e facilmente identificáveis.

Por isso é que vieram as críticas. Os contestadores não estão confusos, eles cobram dos "espíritas", estes tão certos de sua "superioridade moral", uma coerência que não se vê nesta doutrina, em que até o bom-mocismo serve para mascarar a incompetência diante dos ensinamentos kardecianos.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Notaram que o Brasil regrediu demais?

BANDEIRA DO BRASIL PERDENDO AS CORES E O BRILHO.

Notaram que o Brasil regrediu demais nas últimas cinco décadas? E perceberam que isso é muito mais grave do que se imagina? E sabem que isso pode afetar diretamente suas vidas e pode comprometer seu futuro?

Antes das pessoas começarem a rir, fingir que isso é uma informação óbvia e retornarem para "coisas importantes" como contar piadas sem graça para os amigos, tomar chope, ir ao Maracanã - meca do fanatismo futebolístico, no Brasil - , ir ao WhatsApp para ver aquela nova imagem do cavalo que levou um susto ao ver um coelho, sem falar da "boa leitura" dos livros para colorir.

Fingir concordar com alguma coisa é fácil. As pessoas curtem uma postagem, dizem OK e fica nisso. Depois voltam para as suas bobagens ou se isolam nas mídias sociais para suas zonas de conforto culturais, conformados com os retrocessos que se acumulam feito bola de neve.

E por que o Brasil caiu tanto, a ponto do sonho de Francisco Cândido Xavier de 1969 de que o Brasil seria o país mais poderoso do mundo não ser apenas ridículo e impraticável - condição, ou melhor, falta de condição notável naquela época, em que a ditadura "botava pra quebrar" - como a essas alturas simplesmente impossível.

A própria ignorância de que cientistas e intelectuais discutiam a hipótese de existência em Marte no século XIX e a conformação de todos de que Chico Xavier "previu" vida no Planeta Vermelho em 1935, com direito aos "comovidos agradecimentos a Deus pela certeza de tornarmos seres humanos melhores", mostra o grau patético a que se chegaram os brasileiros.

Lá fora, a coisa é mais séria. Reconhece-se nomes como Giovanni Schiaparelli, da Itália, e Percival Lowell, dos EUA, como cientistas que analisaram a possibilidade de haver vida em Marte, Isso no século XIX, muito antes do "médium" nascer. Mas aqui fica a "unânime" visão de que Chico Xavier "previu" a existência de vida em Marte.

No Brasil, vale o que os umbigos de uma minoria de narcisistas diz, decide ou quer que a gente acredite. Em outros tempos, o Brasil tinha realmente valores. Como Alberto Santos Dumont, o grande engenheiro e pioneiro da aviação.

Só que não dá para atribuir a mesma vantagem no Brasil X EUA que fez Santos Dumont derrotar os irmãos Wilbur e Orville Wright - que só são "pais da aviação" para os estadunidenses - quando se confronta Chico Xavier com Percival Lowell na descoberta de vida em Marte. A comparação é risível.

Temos que admitir que, no caso da aviação, os irmãos Wright se esforçaram para testar veículos voadores, só não ousaram tanto e nem divulgaram amplamente seus feitos e métodos. Já dizer que Chico Xavier anunciava que Marte tinha canais de água, vida humana e cidades futuristas antes de todo mundo é completamente ridículo pela forma como foi feito.

Os relatos atribuídos ao espírito da mãe do "médium", Maria João de Deus, e um falso Humberto de Campos que escrevia como padre, são de um subjetivismo que mais parece imaginação de criança. Suposições, relatos meramente imaginários, descrições de imaginação fértil, sem embasamento científico, sem comprovação lógica, tudo assim gratuitamente aceito como "verdade absoluta".

De repente não é mais a lógica que vale. O que vale oficialmente no Brasil é porque Chico Xavier disse, e o status quo de quem diz bobagens vale mais do que a lógica e o argumento dos fatos, E isso ocorre não somente no âmbito da religião, mas em todos os aspectos.

Se dizem que uma bobagem chamada BRT - um trenzinho sobre rodas que dizem ser a última palavra de ônibus no mundo - faz sucesso nos países de Primeiro Mundo, temos que acreditar nessa lorota porque uma minoria de engenheiros e políticos assim o quer.

Se intérpretes de "funk carioca" surgidos do nada vão fazer turnê em biroscas e puteiros das piores cidades da Itália, Bélgica e Espanha, ou de locais ainda menos expressivos na Alemanha e Reino Unido, e inventam que fizeram uma "turnê bem sucedida na Europa", temos que acreditar porque a mídia diz e porque os antropólogos e jornalistas culturais assinam embaixo.

Somos o país que comemora o Dia Mundial do Rock que nenhum outro país do mundo inteiro comemora. Acolhemos ídolos musicais decadentes como se fossem artistas do outro mundo e louvamos subcelebridades como se fossem deuses vindos no Olimpo.

Aqui as mulheres-objeto podem ser consideradas "feministas", intelectuais locais pautam o futuro do folclore brasileiro pela exploração caricatural do povo pobre nas rádios e TVs, e achamos que apenas uma injeção de dinheiro para eventos de entretenimento trará cidadania, cultura e arte melhores para os brasileiros. Se dinheiro não traz felicidade...

As pessoas regrediram tanto que o Brasil corre o risco de perder o que tem de valioso. Nosso rico patrimônio cultural virou coisa de museu ou objeto de culto das elites paternalistas. O que era a vigorosa MPB hoje se resume a um festival de tributos revivalistas. O rock, que já teve uma Fluminense FM, reduziu-se a um McDonalds sonoro na abobalhada Rádio Cidade. E por aí vai.

Como achar que um país desses irá comandar a vanguarda do planeta? Isso é impossível. Também apelar para o desejo subliminar de ver o "velho mundo" ser destruído por atentados a bomba, terremotos, tufões e erupções vulcânicas não é a solução. Pelo contrário, irá agravar ainda mais o atraso.

Se o "velho mundo" acabar, por exemplo, ficará difícil provar que Percival Lowell estudou melhor a possibilidade de haver vida em Marte e trouxe ideias mais consistentes e objetivas do que o choroso Chico Xavier de relatos tão piegas e tolos.

O "fim do velho mundo" da tal "profecia da Data-Limite" só representará uma queima-de-arquivo coletiva e uma nova etapa para o medievalismo que já tentou eliminar o legado da Grécia Antiga, e agora quer eliminar a experiência de europeus e similares para abrir caminho para o neo-medievalismo do anti-médium de Minas Gerais. Aí os retrocessos irão mais longe.

domingo, 4 de outubro de 2015

Não dá para ser fiel e infiel ao mesmo tempo

NO DISCURSO, FICA MAIS FÁCIL - O aparente "equilíbrio" entre religião e ciência atribuído a Allan Kardec.

O "movimento espírita" tem o grande cacoete de se julgar "equilibrado" com sua contradição. Se julgam rigorosa, inabalável e sinceramente fiéis ao pensamento científico de Allan Kardec e o traem o tempo todo, mantendo as mistificações que descaraterizaram a Doutrina Espírita no Brasil.

Criam todo um malabarismo discursivo, todo um aparato de posturas e ideias que, nos últimos 40 anos, sempre revelava seus "cavaleiros da esperança" na pretensa luta pelo respeito ao pensamento kardeciano.

De repente, surgem páginas "espíritas" condenando a "vaticanização do Espiritismo", criticando as inserções de dogmas e ritos católicos na Doutrina Espírita, enfatizando a missão científica de Allan Kardec, seu projeto pedagógico, suas análises científicas e tudo o mais.

E aí vão fazendo um desfile de cientistas e assuntos de sua natureza, em artigos pretensiosos, em que áreas como Psicologia, Física e Sociologia desfilam nos periódicos "espíritas" com as festejadas citações de Galileu Galilei, Isaac Newton e Albert Einstein, entre outros, que parecem até terem virado figuras "espíritas" de tão mencionadas nesses meios.

Tudo bem que parasse por aí, mas a verdade é que, em dado momento, há a tentação de citar Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco, exaltados como figuras "de mais alto valor moral" do Brasil, para não dizer do mundo e do universo, com direito a atribui-los a "discípulos fiéis e indispensáveis" do pensamento e do trabalho de Allan Kardec.

Ficamos indecisos se é para rir ou para chorar. Rir, pelo ridículo de atribuir a Chico Xavier e Divaldo Franco uma fidelidade a Allan Kardec que nunca existiu em suas obras. Chorar, porque infelizmente o vínculo dos dois ao pensador francês, apesar de hipócrita e oportunista, tornou-se tão intenso que não dá para dissociar o pensamento kardeciano do estigma desses dois usurpadores.

Aí está a pior contradição. Os "espíritas" brasileiros se julgam fiéis a Allan Kardec, juram ter por ele um rigor absoluto de respeito e comprometimento com as ideias do francês, mas em dado momento expressam louvores entusiasmados aos dois traidores.

Que críticas eles têm moral de fazer contra a "vaticanização do Espiritismo" se eles justamente idolatram dois supostos médiuns que transformaram a Doutrina Espírita nesse catolicismo informal, sem batina, sem catedrais cobertas de ouro ou órgãos gigantes sendo tocados em missas, mas com todas as crendices, delírios e práticas do mais puro medievalismo católico?

Eles se esquecem, por exemplo, do que Chico Xavier foi capaz de fazer com o falecido Humberto de Campos. O "médium" criou um Humberto de Campos falso, que nada tinha a ver com o original, em pura sacanagem com o que o escritor maranhense fez com o "médium".

Sabe-se que Humberto de Campos ficou meio desconfiado com Parnaso de Além-Túmulo, embora aparentemente admitisse - possivelmente, com certa ironia - semelhanças entre os poemas "espirituais" e os dos autores atribuídos deixados em vida. Ele depois reclamou da concorrência desses poemas "psicografados" com o trabalho dos autores vivos.

Aí Chico Xavier não gostou, e talvez tivesse inventado aquele sonho com Humberto de Campos e resolveu se vingar, lançando livros com o nome de Humberto de Campos carregados de muito apelo religioso, como se Humberto, em vez de ter sido membro da Academia Brasileira de Letras, fosse um padre brasileiro frequentador dos mais altos círculos católicos do Vaticano.

Chico Xavier botou batina em Humberto de Campos e muitos ficam associando as estórias do "padre Humberto" em bobagens literárias como Brasil, Coração do Mundo, Crônicas de Além-Túmulo, Novas Mensagens, Cartas e Crônicas, Lázaro Redivivo, e tantos outros, alguns usando o nome de Irmão X que não passa de paródia de Conselheiro XX, ao falecido autor de O Brasil Anedótico.

O pessoal aceita tudo confortavelmente como se fosse natural Humberto ter se "ordenado padre" assim que foi ao mundo espiritual. E mostra o quanto o hábito de leitura no Brasil é ainda precário, pois as pessoas até passaram a ler mais (embora estejam lendo mais "livros para colorir"), mas estão longe de conceber algum discernimento resultante do que foi lido.

Se o hábito de leitura fosse maior em quantidade e melhor em qualidade, as pessoas ficariam horrorizadas ao ver que o estilo que Humberto de Campos teve em vida nada tem a ver com o de seu suposto espírito em livros lançados por Chico Xavier. E não é apenas pelo simples fato de ter sido um escritor ateu que "virou padre", mas pela forma de descrita, muito diferente.

A obra de Humberto produzida em vida é fluente, descontraída, ao mesmo tempo culta e coloquial, simples e prazerosa de ser lida, e enfatiza temas da cultura popular e referências do seu meio intelectual. Já a do suposto espírito Humberto é pesada, pedante e forçadamente culta, mas grosseiramente rebuscada, e enfatiza temáticas bíblicas e referenciais católicos.

E o pessoal exaltando Chico Xavier ao mesmo tempo que jura fidelidade absoluta a Allan Kardec. Isso é um contrasenso. Pelo menos, os "espíritas" deveriam admitir que acham Kardec chato, que nunca gostaram de suas ideias e que seu negócio é rezadeira e fé, não ciência. Falta sinceridade no "movimento espírita" brasileiro. Daí sua desonestidade.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Como os "espíritas" podem ser tão burros?

GERSON SIMÕES MONTEIRO - O homem que espalhou a mentira de que Chico Xavier "descobriu" vida em Marte.

Como os "espíritas" podem ser tão burros? Como eles podem ser tão estúpidos? A ideia é não reagir assim a tantas bobagens cometidas pelo "movimento espírita", mas ver que eles são capazes de mandar a lógica às favas em nome do "amor ao próximo" é de assustar.

Afinal, não somos nós que inclinamos a ofender os "espíritas" quando eles se fixam em crendices e delírios absurdos. Eles é que se inclinam a ofender a realidade dos fatos, achando serem os detentores da "visão do outro mundo". Eles é que tentam dizer que a ignorância que eles têm sobre tantas coisas é um "tipo de sabedoria".

Isso é assustador. É estarrecedor! E ainda querem mandar no mundo com sua burrice. Não conhecem coisa alguma sobre História, sobre Ciências em geral, e acham que podem ser os "mais sábios", usando a desculpa do "amor", da "fraternidade", da "solidariedade" e da "tolerância". Logo eles que não toleram a lógica e nem a realidade.

Pois o caso mais recente, de atribuir a Francisco Cândido Xavier uma suposta previsão de existência de vida em Marte é uma coisa das mais deploráveis e abomináveis que se pode ver no Brasil, atribuindo a dois livrinhos, um de 1935 e 1939, um pioneirismo de cerca de sete a oito décadas de previsões sobre a existência de água, vida humana e civilizações avançadas em Marte.

A mentira foi plantada por Gerson Simões Monteiro, presidente da Rádio Rio de Janeiro AM, que se aproveitou do prestígio e da visibilidade que tem para espalhar uma lorota dessas, se aproveitando de que os brasileiros desconhecem História e não sabem sequer a trajetória da Ciência no mundo inteiro.

Achar que a história das ciências se limitou a Isaac Newton, Charles Darwin, Galileu Galilei, Albert Einstein e uma dezena de outros "loucos", como se vê no Brasil, é um gravíssimo erro, uma estupidez sem tamanho e um atestado de como o Brasil está atrasado, ignorante e desinformado das coisas.

Os "espíritas" assinaram um atestado de burrice, de desinformação, de desconhecimento da história sob todos os aspectos, e o movimento se equiparou à estupidez historiográfica vista em movimentos como Revoltados On Line ou como jornalistas que se vê em veículos como a revista Veja, a Globo News e a rádio Jovem Pan.

O que gente como Reinaldo Azevedo, Marco Antônio Villa, Eliane Cantanhede, Rodrigo Constantino e Merval Pereira menos sabe fazer é informar. É claro, tivemos uns dez anos de AI-5 que emburreceu o país, e mais uns vinte de ditadura midiática que só botou vermes nos cérebros dos brasileiros.

Pois o que o senhor radialista que usou de seu prestígio e da "Lei de Gerson" ("Lei de Gerson Monteiro"?) para espalhar uma lorota não sabe é que, quando Chico Xavier e seus amigos "do além", como o espírito de sua mãe e um falso Humberto de Campos que escreve como se fosse pároco de igreja, falaram em "vida em Marte", o assunto já era muito velho para a época.

Estamos causando ofensas graves aos "espíritas", caluniando-os ao não reconhecer em Chico Xavier uma suposta profecia, reagindo com fúria a um pretenso reconhecimento científico de um homem humilde que só agia pelo bem do próximo? Não, em nenhum momento.

O que estamos querendo dizer é que Chico Xavier já divulgava coisa muito velha, já em 1935. A existência de vida em Marte era um dos assuntos bastante discutidos nos meios científicos e intelectuais no século XIX, bem antes de Chico nascer e antes do surgimento da Federação "Espírita" Brasileira.

O motivo de nossa revolta é a ignorância dos fatos, o desprezo da realidade só porque ela corresponde ao cotidiano da Terra. Os "espíritas" sempre desprezaram a vida na Terra, e, medievais, acham que apenas o "outro mundo" basta. Eles é que ofendem a gente ao pregar que temos que desperdiçar cerca de oitenta anos de encarnação (ou menos) sofrendo e suportando infortúnios.

Pois enquanto os brasileiros festejam eufóricos por achar que Chico Xavier "descobriu" vida em Marte em 1935, gritando para os quatro ventos que "foi há 80 anos", o astrônomo estadunidense Percival Lowell, com um abordagem mais consistente, falava sobre o mesmo assunto antes mesmo do "bondoso médium" nascer.

É só parar para pensar. Lowell lançou três livros entre 1895 e 1908: o primeiro, Mars (Marte), em 1895, Mars and Its Canals (Marte e Seus Canais), em 1906, e Mars as the Abode of Life (Marte Como a Morada da Vida), em 1908. Os livros resultam de pesquisas astronômicas, várias a partir de seu observatório no Arizona.

Façam os cálculos. O livro mais recente desta trilogia de Lowell foi publicado em 1908. Chico Xavier nasceu em 1910. Já o primeiro livro foi lançado quando Adolfo Bezerra de Menezes ainda estava vivo, em 1895.

Lowell afirmava que havia água em Marte, e tudo isso que os brasileiros mais tolos atribuem a Chico Xavier era descrito com mais consistência pelo astrônomo, cerca de quatro décadas antes dos dois livrinhos: presença de água, possibilidade de vida humana, chance de haver civilizações avançadas.

Paremos para pensar. Lowell pesquisou que Marte, muito provavelmente, estava se ressecando, perdendo reservas de água. Marcianos, segundo ele, teriam construído um sistema de canais para tentar irrigar as áreas desertas, próximas a colinas e junto a declives, na tentativa de salvar o planeta.

Isso indica que Lowell, já três ou quatro décadas antes de Chico Xavier, falava da hipótese de haver vida em Marte, de haver reservas de água e presença de civilizações bastante adiantadas. E isso era tão discutido nos círculos intelectuais do século XIX que inspirou até a produção de obras de ficção científica.

Bem antes de Chico Xavier, autores como H. G. Wells, Edgar Rice Burroughs (ele não criou só Tarzan, gente!) e outros já criaram obras inspiradas no que se debatia a respeito de possibilidade de haver vida inteligente em Marte.

Só para sentir a gafe de atribuir pioneirismo ao "médium", até Buck Rogers e Flash Gordon chegaram antes de Chico Xavier. pois o primeiro foi um personagem criado em 1928, e o segundo, em 1934, portanto, um ano antes de Cartas de uma Morta, livro atribuído à mãe de Chico, Maria João de Deus. Quando Buck surgiu, nem Parnaso de Além-Túmulo havia sido sequer planejado.

Flash Gordon foi criado quando Humberto ainda estava vivo, escrevendo suas memórias, apesar de já doente. Flash surgiu em 07 de janeiro. Humberto morreu em 05 de dezembro e, com toda a certeza, nunca teve a ver com o "vaticanizado" espírito que está associado aos livros de Chico Xavier que usam o nome do escritor maranhense, como o "marciano" Novas Mensagens, de 1939.

Temos que parar de ser estúpidos e burros. Chico Xavier não previu coisa alguma sobre vida em Marte. Tudo o que ele publicou neste sentido era um assunto velho já no tempo de nossos avós. Eles consideravam o assunto coisa de seus bisavós, porque muitos debates sobre Marte eram feitos quando até Allan Kardec estava vivo.

Portanto, não valeu essa "preciosa informação" trazida por Gerson Monteiro. O boato é de uma descarada irresponsabilidade, aceitável só porque o Brasil desconhece a história da ciência e outras realidades do meio intelectual que muita gente lá de fora conhece.

E o pior é que, quando denunciamos a mentira e a hipocrisia, ainda ganhamos a pecha de "intolerantes", "rancorosos" e "ofensores". Raciocinar de forma questionadora é considerado por muitos um crime no Brasil. A fé cega impera, somos proibidos de pensar à luz da verdadeira razão e da lógica.

Diante disso, o que podemos afirmar é que, dos "espíritas" não queremos preces sob o pretexto de "aliviar nossas tensões". O que queremos é que eles assumam seus erros e admitam por definitivo que Chico Xavier nunca previu a existência de vida em Marte. Ele é que chegou atrasado a esse assunto que já era muito velho no tempo dos dois livros.