sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Os egoístas tomaram o poder no Brasil. E os "espíritas", acreditem, estão no lado deles

VOLTARAM AS REPRESSÕES AO MOVIMENTO ESTUDANTIL, UM DOS FATOS DESSE PAÍS MARCADO PELO EGOÍSMO TRIUNFANTE.

O egoísmo voltou a todo vapor no Brasil. Desde maio passado, quando uma grande alianças de forças retrógradas levou ao poder o então vice-presidente da República, Michel Temer, e todo um projeto em prol da justiça social foi posto por água abaixo, em nome de um projeto político que beneficiará os mais ricos e poderosos.

A chamada "boa sociedade" está feliz, porque voltaram velhos paradigmas de "superioridade" dos quais tinham saudade, em muitos casos desde o fim da ditadura militar. A "superioridade" dos diplomas acadêmicos, do prestígio religioso, da fama, da riqueza, da velhice, do patriarcado, do poder político, todo um teatro da supremacia social que ainda deslumbra muitos.

É certo que essas forças retrógradas agiam desde os anos 90, e ainda durante o governo Lula se tornaram intensas. É só ver o cyberbullying nas redes sociais, ainda nos tempos do Orkut, em que grupos organizados humilhavam todo internauta que expressasse alguma discordância com valores estabelecidos pelo poder político, empresarial e midiático.

Essas pessoas, que pareciam estar a alguns passos da cadeia por causa de suas humilhações extremas, seus blogues ofensivos, suas zoeiras ao mesmo tempo risonhas e furiosas, seus comentários machistas e racistas cruéis, reencontraram hoje o caminho da impunidade plena, como se suas atrocidades voltassem a ser práticas socialmente aceitas.

Isso é horrível. Mas temos também um governo retrógrado como o de Michel Temer, cercado direta ou indiretamente por políticos denunciados por corrupção, como Romero Jucá, José Serra, Geddel Vieira Lima, Moreira Franco e Aécio Neves, mas que se mantém em alta reputação protegidos pela mítica dos velhos paradigmas de "competência administrativa", "capacidade técnica" e "isenção política".

Estão em andamento projetos horripilantes como a Escola Sem Partido, que irá reprimir e censurar professores e impedir o real aprendizado dos alunos, autorizados a permanecer em suas fantasias religiosas, mantidas até na plenitude da vida adulta e idosa, mas estão proibidos de analisar a realidade brasileira com imparcialidade, porque agora isto é visto como "doutrinação política".

Há a PEC 241, o terrível monstro que irá travar o desenvolvimento do país, com congelamento de investimentos públicos feito por um governo que faz de tudo para agradar aliados, aumentando salários do Judiciário e do Legislativo, despeja fortunas estatais para os grandes veículos de comunicação (como Globo e Abril) e, para aprovar a PEC do Teto, ou seja, a PEC da Morte (ou da Desencarnação?), realizou um jantar milionário para pedir apoio dos parlamentares.

Michel Temer quer entregar tudo para a iniciativa privada, da Educação ao Saneamento. E quer vender as reservas de petróleo e as empresas nacionais de construção civil para grupos estrangeiros, que não têm muito compromisso em investir no Brasil, pois o valor que os gringos investem volta para seus bolsos surpreendentemente multiplicado.

As pessoas ficam felizes. De repente o Brasil passou a viver o clima de sadomasoquismo social. Para os pobres e desafortunados, impõe-se sacrifícios além das capacidades e cobra-se esforços aquém de dificuldades que só crescem. Puro sadismo.

Em contrapartida, os confortados da fortuna material e dos privilégios nababescos são até mais socorridos e amparados. Enquanto isso, a classe média aceita até que as empresas brasileiras sejam vendidas para grupos estrangeiros, que os salários dos trabalhadores se reduzam e os gastos públicos diminuam, a pretexto de um suposto desenvolvimento econômico. Puro masoquismo.

E o que faz o "movimento espírita" com isso? Ah, eles, que falam tanto em bondade, amor e caridade, estão no lado dos egoístas. Palestrantes "espíritas" ganham prêmios e fazem turismo ao redor do planeta ao lado das elites, falando sobre "felicidades" em seminários em hotéis milionários, sendo condecorados juntando tesouros terrenos e tomados da ilusão de que à espera desses "espíritas" está o banquete eterno dos puros.

Enquanto isso, o que se vê são os mesmos textos "espíritas" fazendo apologia ao sofrimento, sempre pedindo para o sofredor suportar desgraças visando o prêmio das "bênçãos futuras", como se a vida terrena, com seu limitado prazo de validade, fosse um mero serviço militar.

Há até mesmo o tal "poeta alegre" que disse para abraçar o mal como se fosse uma mulher. E palestrantes "espíritas" apelando para abrir mão de desejos, necessidades, habilidades, tudo, fazendo com que, do indivíduo que lutou para desenvolver talentos e projetos de vida, nada sobrasse senão a sina de ser um instrumento para os abusos e as vaidades de seus pretensos superiores, para não dizer os algozes e encrenqueiros que aparecem no caminho.

E por que há tantos textos assim? É porque temos um governo totalmente retrógrado como o de Michel Temer, que seguramente pode ser considerado o pior de toda a história da República, dentro do pior de todos os contextos sociais e históricos de nosso país, em que as forças sociais mais retrógradas tentam recuperar seus privilégios e forçar o Brasil a ficar preso no passado, como numa areia movediça histórica.

Machistas, racistas, elitistas, privatistas, moralistas, mistificadores, rentistas, censores, entre tantos outros tipos retrógrados que parecem sentir raiva profunda do século XX, querem retomar o poder movido pela ilusão de suas reputações sociais, da suposta experiência profissional e vital, da suposta predestinação sócio-econômica, que lhes permite o egoísmo que estabelece um sentimento seletivo diante do destino de outras pessoas.

É gente que estabelece leitura seletiva e tendenciosa da Justiça social, condenando juridicamente políticos e ativistas de esquerda e inocentando direitistas corruptos. Gente capaz de festejar o falecimento de um músico de rock, mas se ofende quando se fala que um rico feminicida conjugal está com câncer. Que é capaz de expressar ideias racistas, machistas e homofóbicos na Internet, animados com seu anticomunismo que permite sonhar com novos holocaustos contra os humildes.

Ninguém cobra dos privilegiados e retrógrados qualquer concessão ou punição. É muito fácil dizer que a vítima é a culpada e que resta ao sofredor ter jogo de cintura para conviver com as graves limitações de sua vida.

Vivemos tempos egoístas. Quem quer demais, acaba recebendo mais e mais. E quem não tem precisa lutar demais só para ganhar uma micharia. Quem abusa muito não é prometido enquanto as pessoas simples têm que tomar cuidado para não serem presos por apenas darem bom dia a alguém.

A verdade é que se tem que dar um freio para esses egoístas que já tiveram seus privilégios sem limites em vários momentos de nossa história, como a República Velha e a ditadura militar. Principalmente agora, quando todo esse "espírito do tempo" que cerca o Brasil de Michel Temer quer derrubar as conquistas sociais obtidas com muito sacrifício ao longo dos anos. A chamada plutocracia precisa de uma boa lição de desilusões.

sábado, 22 de outubro de 2016

Prisão de Eduardo Cunha e o país imprevisível


O Rio de Janeiro teve que desfazer um de seus estragos. Permitiu a decadência política do deputado Eduardo Cunha, artífice do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, comandante das votações de 17 de Abril, mentor intelectual do governo de Michel Temer.

Feito o trabalho, porém, Eduardo Cunha, até pelo robusto histórico de corrupção em mais de duas décadas de carreira pública, pôde ser descartado e seu ocaso político, embora feito com demora bastante suspeita, o fez ser afastado da presidência da Câmara dos Deputados, ser cassado do mandato parlamentar e, depois, ser preso.

Nesse momento de jogadas políticas, a crise do Brasil só tende a se agravar. Do contrário dos "admiráveis espíritas", que chegaram a definir as histéricas (não é erro de digitação) passeatas anti-Dilma como "despertar da humanidade" e "início da regeneração", dizem com tamanha convicção, apesar de tais manifestações serem movidas por um ódio doentio.

O país está imprevisível, com um sistema de Justiça - Poder Judiciário e Ministério Público - marcado pela incompreensão real das leis ou seu eventual uso visando interesses espúrios, geralmente favorecendo os anseios do PSDB para voltar ao poder e vender as riquezas do Brasil para os estrangeiros.

Se temos uma Justiça pouco confiável e corrupta, diante da ignorância popular que considera o juiz Sérgio Moro um herói, quando sua atuação, como juiz, é bastante irregular, não dá para considerarmos que vivemos um período de regeneração, diante de um Brasil à deriva sob risco de uma grande catástrofe institucional, diante da balança quebrada da nossa Justiça.

Mas também vivemos um período de muita incompreensão, ignorância, desinformação e, sobretudo, muita teimosia. Os "revoltados" que começaram fazendo cyberbullying e trolagem nas redes sociais passaram a ir para a rua pedir o "Fora PT" e pressionar a opinião pública para substituirmos o governo de Dilma Rousseff pelo já desastrado governo de Michel Temer.

Além disso, temos uma religião bastante corrompida, o "espiritismo", cujos compromissos com o legado de Allan Kardec não passam de conveniências formais e desculpa para botar o igrejismo medieval debaixo do tapete, que também é afeito a posturas bastante reacionárias.

O exemplo de Francisco Cândido Xavier é ilustrativo. O tão adorado Chico Xavier, que os incautos chegam a definir como "progressista", defendeu o golpe de 1964 e continuou defendendo a ditadura militar mesmo na pior fase, pedindo para orarmos pelas Forças Armadas porque elas estavam "construindo o reino de amor" do Brasil futuro. Com o sangue de inocentes mortos e jogados na vala?

Chico Xavier, que apoiou Fernando Collor em 1989, teria apoiado o "Fora Dilma". Isso condiz com a postura de um de seus seguidores, Robson Pinheiro, que veio com barbaridades literárias que pelo jeito são uma série literária: O Partido - Projeto Criminoso de Poder e A Quadrilha - O Foro de São Paulo. "Foro de São Paulo" foi o nome de um encontro de partidos esquerdistas internacionais organizado pelo Partido dos Trabalhadores.

Robson Pinheiro, sob a suposta colaboração do "espírito" Ângelo Inácio, tenta, com sua série de romances "mediúnicos" de altíssimo teor reacionário - já estão chamando as obras de "psicografia-coxinha" ou "Revoltados do Além-Túmulo" - , tenta insinuar que os governos progressistas da América Latina, voltados à justiça social e ao atendimento dos interesses das classes populares, teriam sido um projeto de "inteligências malignas".

É aquela neurose que vemos na revista Veja, que trata o ex-presidente Lula como a "personificação do mal". A Veja, que chegou a comparar um livro medíocre do ex-editor Mário Sabino (do terrível site O Antagonista) à obra de Machado de Assis, poderia ter recomendado o livro de Robson Pinheiro, um sujeito que deveria pensar duas vezes antes de inventar supostas psicofonias de Getúlio Vargas e Tancredo Neves.

Vargas teria apoiado Lula e Dilma. Ele veria nos dois a continuação de seu trabalho e o político gaúcho se suicidou em 1954 porque foi pressionado pela direita política, por tensões e crimes políticos já conhecidos na nossa História. E Tancredo provavelmente teria se decepcionado com o neto Aécio Neves, que se tornou apenas um cafajeste político e corrupto até a medula.

E O PAPEL DE EDUARDO CUNHA NA "REGENERAÇÃO"?

Como os "espíritas", sobretudo o "iluminado" Robson Pinheiro, que jura defender a "busca do conhecimento", embora não nos esqueçamos de outros - Juliano Pozati, Geraldo Lemos Neto e até Divaldo Franco - poderiam definir o papel do truculento deputado Eduardo Cunha na "regeneração" do Brasil e do mundo?

Teria sido, sob essa ótica igrejista-medieval do "movimento espírita", o hoje ex-deputado, cassado, preso e definitivamente sem chance de estar na sucessão hierárquica da Presidência da República, um colaborador de "espíritos benfeitores" para a promoção da paz entre os brasileiros?

Eduardo Cunha então teria sido, sob esse ponto de vista, um "agente" de "espíritos de luz"? Se isso fosse verdade, que sintonia os "benfeitores espirituais" teriam diante de uma figura arrogante e cheia de ideias retrógradas, além de um apetite voraz pela corrupção, a ponto de ameaçar seus colaboradores se eles não obedecerem as exigências do hoje ex-deputado.

Mas o "espiritismo" e o "iluminado" Robson Pinheiro tem outras incoerências. Como explicar a tese da "regeneração" e da influência de "benfeitores espirituais" a manifestantes movidos pelo ódio, uns baixando as calças nas ruas e mostrando seus traseiros nojentos, outros pedindo intervenção militar (eufemismo para golpe), outros exibindo suásticas nazistas e até uma senhora segurando tranquila um cartaz com o nome "Por que não mataram todos em 64"?

E como explicar essa "regeneração", esse "clamor" por um país "mais solidário e irmão", com tamanha raiva, e quando um dos principais grupos manifestantes desses eventos reacionários se chama Revoltados On Line? Logo o "espiritismo", que diz condenar o ódio e a revolta!

E como podemos esperar uma posição nobre do Brasil, comandando o "concerto das nações", se o projeto político que está aí, com o retrógrado Michel Temer, propõe uma atrocidade chamada PEC 241, a PEC da Morte (não seria PEC da Desencarnação? Mas aí os "espíritas" ficariam mansinhos e alegres), que propõe cortes de gastos públicos, deixando o Brasil mais pobre e impedido de investir nas melhorias da Saúde, Educação e Assistência Social, entre outros âmbitos públicos.

Que Brasil será este que irá "liderar o mundo" com sua "lição de fraternidade", se ele voltará, até de forma ainda mais radical, a se tornar um país inexpressivo e serviçal aos EUA, sobretudo depois de vender o pré-sal e privatizar a Petrobras, empobrecendo seu povo e castrando todo tipo de progresso social?

Mais uma vez os "espíritas" foram pegos em calças curtas. Sem poder explicar os rumos políticos desastrosos de hoje, eles se limitam a pedir para os sofredores aceitarem desgraças, abrirem mão das "paixões" (eufemismo para necessidades humanas) e sorrirem felizes diante do prejuízo, sentindo misericórdia dos algozes etc. É uma forma de apoiar Michel Temer, PEC 241 e tudo, sem abrir o jogo, mas apostando num país mais conservador, bem mais apropriado para os "espíritas".

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A outra violência dos torcedores do futebol carioca


Para começo de conversa, não somos contra o futebol. O futebol, em si, não é um mal, porque é uma diversão, um entretenimento, um lazer. Seu mal está na supervalorização que, em regiões metropolitanas como as do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, atinge um fanatismo em níveis preocupantes.

No Rio de Janeiro, então, a coisa chega a ser tirânica. Em vez do igual direito de pessoas gostarem ou não de futebol, há o fanatismo a níveis intolerantes, com a relativa concessão de que patrões flamenguistas de empregados vascaínos, por exemplo, possam conviver harmoniosamente.

O que preocupa o Rio de Janeiro, que sofre uma decadência nem sempre aceita pelos próprios cariocas - que acham as denúncias um exagero e só esperam um quiosque enferrujado em Copacabana cair e um tiroteio ocorrer nas proximidades para sentir que o mito da Cidade Maravilhosa realmente acabou - , é que o fanatismo pelo futebol é uma espécie de moeda corrente das relações sociais.

Se você não for torcedor de qualquer um dos quatro times - Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo - , suas chances de conviver com a sociedade, no Rio de Janeiro, diminuem drasticamente. Infelizmente o futebol é usado pelo assédio moral nos ambientes de trabalho e, para quem não curte futebol, as chances de perder amigos e perder o emprego são muitíssimo altas.

Isso é terrível. E faz com que muitos que não compartilham desse narcisismo de cariocas que, em suas zonas de conforto, acham que a decadência do Estado do Rio de Janeiro é "mimimi" de quem está "fora da festa" - claro, não são eles que ficam feridos por quiosques caídos, bueiros voando e tiroteios no meio da rua - , torcerem por derrotas sucessivas do futebol carioca, para ver se, pelo menos, os torcedores possam ter um mínimo de humildade.

A violência dos torcedores de futebol, aquela propriamente dita, é muito conhecida, de brigas de torcidas, tiroteios e práticas de vandalismo. Nem precisamos comentar. Mas existe também a outra violência, tão terrível e ameaçadora, embora aparentemente não tão agressiva em termos físicos.

Essa violência é a da barulheira dos torcedores, toda vez que um time realiza o gol. No Fla X Flu de ontem, a gritaria da vizinhança foi extrema, nas residências do Grande Rio. E o que essa "alegria" de pessoas berrando em sons guturais tem a ver com violência?

Simples. É a violência contra o sossego do outro. Há pessoas que moram longe de seus locais de trabalho, que precisam dormir cedo e acordar cedo, chegando tarde em casa só para fazer refeição, descansar por uma hora e depois dormir, porque irá acordar no começo da madrugada para fazer o café e enfrentar trens e ônibus lotados e encarar um trânsito infernal.

São pessoas que geralmente não possuem um emprego estável, o salário é sofrível mas necessário (melhor tê-lo que não ter um centavo sequer nas mãos) que têm que enfrentar patrões estressados e impacientes, e nem conseguem curtir a vida porque perdem boa parte do dia em congestionamentos, em uma jornada cansativa de trabalho, na qual terão que desafiar seu sono para ter um mínimo de rendimento possível, pelo menos, para permanecer alguns meses a mais no emprego.

E aí temos o "livre direito" de torcedores, nas altas horas da noite, gritarem feito uns dinossauros em euforia, toda vez que o respectivo time carioca realiza um gol. Reclamar contra isso é tido como "preconceito", como tudo que vem do Rio de Janeiro, pois a "boa sociedade" carioca reage às denúncias de decadência com um choroso "não é bem assim". Para todo efeito, até os peidos das mulheres-frutas do "funk" representam a boa fase da cultura carioca. Não se pode contestar.

A decadência do Rio de Janeiro é tal que o Estado foi responsável direto pelo cenário político degradante em que vivemos, com o presidente Michel Temer cortando gastos públicos e fazendo o Brasil "sair da crise" às custas do agravamento da miséria popular.

Temer é paulista, mas teve o caminho aberto por um carioca, o deputado Eduardo Cunha, eleito por uma sociedade carioca que se dizia "sedenta por moralidade" e colocou na Câmara dos Deputados um vândalo político com ideias retrógradas que o meio jurídico e político tiveram dificuldade ou até desinteresse em tirá-lo do poder, pelo menos antes de Dilma Rousseff perder definitivamente o mandato.

Paciência. Se os cariocas não gostam de serem criticados, que então resolvam os erros cometidos. Eliminem a pintura padronizada nos ônibus, substituam o "funk" pela Bossa Nova, melhorem os supermercados com a agilização de operadores de caixa e repositores de estoques, ponham rádios de rock feitas por quem entende de rock, diminuam o número de fumantes no Grande Rio e, acima de tudo, façam os torcedores de futebol respeitarem o silêncio dos que necessitam desesperadamente de silêncio para dormirem bem e acordarem para um novo e duro dia de trabalho.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

PEC 241: uma proposta "espírita"?


Os deputados federais aprovaram, por 366 votos contra 111 negativos e 2 abstenções, a proposta de emenda constitucional que estabelece limites para os gastos públicos do Governo Federal, a chamada PEC do Teto, a PEC 241, uma das bandeiras do retrógrado governo do presidente Michel Temer, que conquistou o poder de maneira ilegítima e sem representação popular.

Pouco importam os argumentos de que Temer chegou ao poder sob "legitimidade jurídica", "normalidade constitucional" e teve o "respaldo democrático" das urnas há poucos dias. Todo esse simulacro de legalidade e democracia se deu pela campanha, não obstante caluniosa, que a mídia e setores da Justiça fizeram contra a então presidenta Dilma Rousseff e seu antecessor Lula.

Agora, do contrário que antes tivemos, políticas progressistas que pareciam se ampliar, hoje a catástrofe dos limites de gastos irá sucatear ainda mais a Educação e a Saúde, e fará com que os aposentados passem a viver de empréstimos.

De maneira errônea mas proposital, os defensores da proposta de corte de gastos públicos tentam argumentar que o governo "antes gastava demais", que havia "muita gordura" e que as verbas públicas "favoreciam a corrupção". Tentam convencer que os cortes de gastos irão "racionalizar" e "otimizar" as contas públicas para permitir o que eles chamam de "crescimento econômico".

Mas, diante de uma população pobre gigantesca, diante da complexidade dos setores Educação, Saúde e Assistência Social, deveriam ser exigidos maiores gastos, e não o contrário, como será de hoje a duas décadas. O colapso que isso trará nos setores públicos irá prejudicar seriamente a população, sendo praticamente um holocausto.

Isso não é exagero. Com os cortes de verbas, a Saúde será a mais grave, porque, com o fim do SUS, único meio de atendimento médico para a população carente, as pessoas pobres, que já se desgastam fisicamente com mais rapidez do que os mais ricos, irão agravar sua situação, pois, com remédios caros e sem atendimento médico, com hospitais causando mal-estar de superlotados, sujos, escuros e apertados, muita gente doente vai morrer só vendo esse ambiente de horror e fragilidade.

Enquanto isso, Michel Temer nunca estabelece uma política de cortes de investimentos para os ricos. Até a grande mídia, como a propagandista-mor da PEC 241, a Rede Globo de Televisão, vai receber muito mais dinheiro do que o valor a ser retido com os cortes de gastos. Sem falar que as privatizações previstas por Temer irão fazer com que o dinheiro arrecadado pelas vendas possa repousar em algum paraíso fiscal nas contas pessoais dos políticos e seus familiares.

A INTERPRETAÇÃO "ESPÍRITA"

E o que isso tem a ver com o "movimento espírita"? Muito. O "espiritismo" está dando seu apoio subliminar a Michel Temer, seja pelos apelos chorosos dos Simonetti, Carrara, Alamar e Divaldo da vida para que os sofredores aguentem o sofrimento visando o socorro futuro dos céus até um "revoltado" Robson Pinheiro criando romances "mediúnicos" sob o nome de Ângelo Inácio.

No caso de Robson Pinheiro, isso é grave, porque os romances O Partido: Projeto Criminoso de Poder e A Quadrilha, que não fariam feio se escritos por um colunista de Veja ou um blogueiro do portal O Antagonista (o que dá no mesmo), mostram uma visão deturpada e caricata do que a direita mais furiosa entende como "corrupção do PT".

É muito comum ver os "bondosos espíritas" falarem coisas do tipo "aguente o sofrimento com fé, alegria e esperança", "não reclame da dor que sente", "perdoe, agradeça e abençoe quem lhe faz sofrer", "abra mão de suas próprias necessidades, só o fato de estar vivo já é uma graça" ou "que importa perder uma encarnação na eternidade da vida espiritual?".

São argumentos sádicos, mas temperados com palavras de amor, que a gente até pergunta, nesse contexto em que os reacionários retomaram o poder de maneira inesperada, se o grande mal dos tiranos fascistas não era jogar pessoas para morrerem em campos de concentração, mas pela incapacidade de usar pretextos amorosos para tamanha atrocidade.

A gente fica imaginando isso porque se revelou que a Madre Teresa de Calcutá só fez suas "casas de caridade" meros depósitos de desgraçados. Doentes expostos ao contágio uns aos outros, falta de higiene que deixava os locais fétidos e asquerosos, má alimentação, remediação restrita aos inócuos paracetamol e aspirina, seringas infectadas reutilizadas e lavadas com água suja da bica.

Milhares de doentes faleceram sob os cuidados de Madre Teresa e ela disse que eram "mais anjos que foram para o Céu". E ela virou "santa" por isso, "símbolo máximo de caridade plena" e que faz com que até papelarias e outros estabelecimentos ostentem com orgulho retratos da megera, que ainda por cima viajava com magnatas e tiranos para arrancar fortunas que eram depositadas não em nome dos pobres, mas para os já ricos sacerdotes do Vaticano.

E aqui no Brasil tivemos o exemplo sádico de Francisco Cândido Xavier. Dizia Chico Xavier para os sofredores nunca mostrarem sofrimento e fingirem alegria até para si mesmos. Uma atrocidade, que muita gente pensa ser "iluminada" pela forma que é dita, com palavras dóceis, em tom maternal ou paternal, que assusta pelo apoio imenso que recebe, mesmo dos mais humildes.

No Brasil marcado de injustiças sociais e uma violência que faz o país ter índices de assassinatos comparáveis ao de países do Oriente Médio, ainda temos latifundiários que matam agricultores e sindicalistas e machistas ricos que matam suas esposas ou namoradas ostentando coitadismo cínico e tentando parecer caras legais aos olhos da grande imprensa.

É chocante o cenário em que vivemos e ainda temos autoridades que ficam felizes porque vão cortar gastos públicos e deixar a população na mão, por cerca de 20 anos, sob a desculpa de que irá fazer o Brasil crescer.

Mas que crescimento se esperará quando os setores públicos mais essenciais terão limites de gastos? Ou será que Temer vai aceitar qualquer pedido de hospital falido precisando de novos equipamentos e com uma demanda crescente de pacientes?

Infelizmente, a visão de Michel Temer se volta para o mercado, para as finanças, e o que pode vir será a atuação da iniciativa privada, E Temer vai privatizar o que ele julgar "o máximo possível". Com isso, as pessoas vão pagar mais para obter qualquer coisa. E vão pagar o excedente, como as festas granfinas de reitores universitários e médicos.

Diante disso, os "espíritas", sempre se achando donos da palavra final, ficam felizes. "Que é um sofrimento de décadas diante das graças da eternidade?" dizem eles, sádicos, pedindo para as pessoas sentirem o sabor, a nutrição e o frescor da pimenta que arde em seus olhos.

Para os "espíritas", tanto faz o holocausto, os navios negreiros, os naufrágios, os flagelos, as torturas. Cada vez mais demonstrando seu vínculo com a medieval Teologia do Sofrimento, o "movimento espírita" defende a ideia do "quanto pior, melhor" sob a desculpa de que, quanto maior o sofrimento, mais rápido é o caminho para as "bênçãos da vida futura".

domingo, 2 de outubro de 2016

O apoio dos "espíritas" ao governo de Michel Temer e ao que vem por aí


Prestemos atenção no que escrevem as páginas "espíritas" na Internet e o que seus palestrantes dizem em seus "centros". Prestemos atenção nos seminários "espíritas", cujos temas sempre se voltam para a "felicidade" e a "esperança". Prestemos atenção nos apelos contra o suicídio e pela "aceitação" das dificuldades na vida.

Se você é um cidadão médio, vai achar tudo isso natural. Vai achar que o "espiritismo" brasileiro age de maneira "saudável", contribuindo para um receituário moral de melhoria de vida, promovendo uma reeducação emocional - os gurus de auto-ajuda falavam em "inteligência emocional", uma moda nos anos 90 - e um convite ao desenvolvimento do otimismo e da qualidade de vida.

Só que tudo isso tem um propósito. Preparar os sofredores para enfrentarem uma tsunami ultraliberal, com um projeto político que, por mais que prometa melhorias para os trabalhadores, irá impor "sacrifícios necessários" aos trabalhadores. É um projeto que já vimos em outras ocasiões, sobretudo quando militares tomaram o poder, há 52 anos.

Isso traz uma mensagem subliminar: o "movimento espírita" brasileiro, e suas "sucursais" em outros países - como Portugal - apoia Michel Temer e torce para um tucano ser eleito por via indireta em 2017 ou por eleição direta em 2018, se Temer completar o mandato e não for afastado pela acusação de irregularidades na campanha eleitoral de 2014, quando ele era vice de Dilma Rousseff.

Sim. Falando direto, os "espíritas" apoiam Michel Temer e sua pauta retrógrada para o país, a tal "Ponte para o Futuro" que muitos apelidaram como "Pinguela para o Passado", uma volta aos tempos do general Ernesto Geisel, que impunha um "modelo ideal de democracia" para o Brasil.

Recebendo duras críticas nas redes sociais, até pelo roustanguismo que deixou de ser assumido nas últimas quatro décadas - assim como o deputado Eduardo Cunha na política direitista, Jean-Baptiste Roustaing virou um palavrão para aqueles que deturparam a Doutrina Espírita, que aproveitaram o legado do reacionário , ficando com as ideias e jogando fora o idealizador.

Também não precisa. Francisco Cândido Xavier deu o tempero brasileiro de sua cozinha mineira para o pensamento de Roustaing. Assim como Aécio Neves vai botar um tempero mineiro e tucano nas ideias de Eduardo Cunha, dar uma modernizada porque o deputado cassado era "medieval demais" com suas "pautas-bombas". Em termos de violar a Constituição, o PSDB é mais cauteloso do que o PMDB carioca, que mais parece uma versão "praia do Arpoador" do bolsonarista PSC.

Pois os livros de Chico Xavier representam violações graves ao pensamento de Allan Kardec. Se Chico suavizou no caso dos bichinhos no além, substituindo os criptógamos carnudos de Roustaing - se você for mau, vai reencarnar como ervas parasitas, micróbios ou insetos - por cachorrinhos, gatinhos e coelhinhos em Nosso Lar e a "bicharada ruim" (de dragões a mosquitos) no umbral, o "bondoso médium" botou pimenta demais em outros aspectos.

Chico Xavier levou o roustanguismo às últimas consequências. não só porque multiplicou em quatro centenas de volumes os três originais de Os Quatro Evangelhos, como neles inseriu elementos brasileiros, como folhetins, o sentimentalismo católico brasileiro, o moralismo familiar típico do país, o conservadorismo caipira, o sensacionalismo ufólogo, o curandeirismo e a paranormalidade espetacularizada, a devoção católica ortodoxa.

E como os brasileiros não entendem coisa com coisa, aceitando, por exemplo, a atuação cheia de equívocos, propositais ou não, do Poder Judiciário e do Ministério Público, numa verdadeira prostituição de autoridades jurídicas, como se Sérgio Moro, um juiz metido a xerife, fosse um "Deus", há quem pense em recuperar as bases kardecianas mantendo Chico Xavier e seu discípulo Divaldo Franco no pedestal, só porque "sempre foram bondosos".

Isso é um erro porque até a bondade dos dois é discutível e extremamente duvidosa. Pela importância que se atribui a eles, era para locais como Uberaba e o bairro de Pau da Lima, em Salvador, serem os mais evoluídos do mundo. Mas ela está justamente entre os locais onde a miséria e a violência atingem níveis assustadores. E não é falta de Chico e Divaldo no coração, porque eles são como celebridades nesses lugares e são extremamente adorados até por quem não é "espírita".

Chico Xavier é um patrimônio turístico de Uberaba. Divaldo Franco, uma das "autoridades máximas" em Pau da Lima. Mas, como deturpadores da Doutrina Espírita, só se pode esperar, deles, para desespero de seus seguidores, energias bastante pesadas vindas de seus "mentores", o medieval Emmanuel e o Máscara de Ferro, com seu transgênero do além chamado Joana de Angelis.

O repertório moral do "espiritismo" brasileiro é ultraconservador. A FEB e Chico Xavier defenderam o golpe militar de 1964 e, no auge da ditadura, vinha o "bondoso médium", erroneamente classificado como "progressista", pedir para orarmos pelos militares porque eles estavam construindo um "reino de amor" do Brasil futuro. Às custas do sangue de muitos inocentes abatidos nos porões da tortura?

Chico Xavier foi devoto da Teologia do Sofrimento, aquela que via nas desgraças um "caminho rápido para o céu". Quanto mais sofrer, mais perto se estaria de Deus, como diz essa cartilha medieval. E aí vemos Chico Xavier combatendo o questionamento, os queixumes, dizendo que é no silêncio que Deus ouvirá os infortunados etc.

A pauta de Chico Xavier sempre foi ultraconservadora. Nos livros deles, ou de Emmanuel - mas Chico sempre corroborou as ideias do jesuíta do além, se não considerarmos a hipótese que o próprio Chico teria inventado Emmanuel - , havia sutis alusões ao machismo, ao racismo e à homofobia, em seus diversos livros.

Em O Consolador (1941), há uma esculhambação do feminismo, com Emmanuel tendo dito que "o verdadeiro feminismo está dentro do lar e da prece", julgando os rumos do movimento feminista "muito perigosos", parecendo o tucano José Serra ironizando senadoras mexicanas. Esse "verdadeiro feminismo" se encaixa no mito de "bela, recatada e do lar" que a ultrarreacionária revista Veja definiu da primeira-dama, Marcela Temer.

Os índios e negros foram sutilmente ridicularizados no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, que Chico e Antônio Wantuil de Freitas, presidente da FEB, escreveram, mas atribuíram de maneira cínica e oportunista ao pobre do Humberto de Campos, que não está mais aí para reclamar. Eram tratados como se fossem "selvagens", num velho e apodrecido etnocentrismo que, naquele mesmo ano de 1938, já começava a ser superado pela Antropologia moderna.

Mais tarde, em 1969, Chico Xavier definiu os homossexuais como pessoas "emocionalmente confusas e doentes", como se não soubessem seu papel sexual na reencarnação. Uma sutil homofobia que ignora os livres direitos de escolhas das pessoas, sobretudo numa sociedade que sofre transformações nos últimos 50 anos.

Não é à toa que o mito "filantrópico" de Chico Xavier e Divaldo Franco foi popularizado por ninguém menos que a Rede Globo de Televisão. A Globo, já no final dos anos 1970, queria alimentar o mito de Chico Xavier, aos moldes de Madre Teresa de Calcutá, tanto para tentar domesticar as classes populares durante a crise da ditadura militar quanto para evitar a ascensão dos pastores eletrônicos Edir Macedo e R. R. Soares.

E isso sem falar de Divaldo Franco, o verborrágico orador que recebeu de graça o título de "maior filantropo do país" sem ajudar sequer 0,1% da população de Salvador, e menos em relação ao Brasil. Foi assim considerado mais pelo status religioso do que pelo que realmente fez, sobretudo um projeto educativo inócuo que não faria feio sob o selo de Escola Sem Partido!

E o pessoal fica ingênuo diante de tanto deslumbramento religioso. Não por acaso, as mídias sociais estão cheias de manifestações a favor desses ídolos "espíritas". O YouTube está cheio de bobagens em favor de Chico Xavier, que até se contradizem umas com as outras (a tese da "data-limite", por exemplo, não é aceita por todos os chiquistas) e o Facebook está cheio de deslumbrados religiosos que botam memes bonitos com as frases enjoadas de Chico e Divaldo.

Daí que tinham que se manifestar pelo cenário político de hoje. Um cenário político ultraconservador, retrógrado, que em nada vai mexer nas elites mais ricas e na classe média que lhe é solidária, por questões arrivistas. O "espiritismo" só faltou pedir para orarmos para Temer "prestar atenção no próximo" e "agir segundo os ensinamentos cristãos", porque o apoio, até pelos apelos inspirados na Teologia do Sofrimento, já diz muito sobre esse respaldo mal disfarçado.