sexta-feira, 26 de junho de 2015

"Irmãozinhos sofredores" atrapalharam a produção de 'Chatô'?


O "espiritismo" parece dar azar para muita gente. As pessoas se envolvem de uma maneira ou de outra com a causa "espírita" e, de repente, sofrem algum infortúnio pesado na vida ou então perde aqueles entes não só queridos mas muitíssimo especiais. Em todo caso, se envolver com um evento "espírita" é pior do que passar debaixo de uma escada ou quebrar um espelho em casa.

Temos o caso de Juscelino Kubitschek. Ele foi um dos melhores presidentes da República do Brasil. Mas foi só ele fazer amizade com Chico Xavier e dar à Federação "Espírita" Brasileira o título de "entidade filantrópica com fins de utilidade pública" para o azar bater à porta do político e médico nascido em Diamantina.

Kubitschek não conseguiu eleger seu sucessor, o mesmo marechal Henrique Lott que garantiu a posse do mineiro para 1956 (Lott fez um contragolpe em 1955 contra lacerdistas contrários à vitória eleitoral de JK e do vice João Goulart - votava-se para vice-presidente em separado), para governar o país.

Além disso, JK não conseguiu seguir carreira política. O Brasil mergulhou numa confusão política que deu no golpe de 1964 e Juscelino foi um dos primeiros cassados, perdendo para sempre a chance de ser presidente de novo e começar mandato em Brasília.

Não bastasse isso, Juscelino não se elegeu para a Academia Brasileira de Letras (que hoje bota um Merval Pereira qualquer para ser "imortal", sem lançar um livro que preste, mas umas coletâneas chinfrins de artigos mal-escritos), e ainda morreu num estranho acidente de carro que tinha tudo para ser um atentado, mas legistas recentemente tentaram provar que não.

A maré de azar contagiou até mesmo a filha, Márcia Kubitschek, que morreu em 2000 aos 56 anos, ainda bela e charmosa. E sobrou até para José Wilker, que interpretou JK em minissérie da Globo, um ateu que foi só recorrer a um "centro espírita" para fazer consulta para, pouco depois, falecer de repente por infarto, abortando tanto projeto de vida e trabalho pela frente.

Mas há também outras vítimas. Os próprios anônimos que, de repente, perdem seus entes queridos, ou, quando não há tragédia, é traição da namorada, desejo que nunca se realiza, projetos que nunca dão certo etc.

Há pessoas que fazem "tratamento espiritual" em busca de sorte para arrumar emprego e pioram sua situação. Tentam estudar feito condenados e não passam em concursos. Seguem todas as recomendações para entrevista de emprego e são passados para trás por um zé-mané bonitão que mal fala o português mas convenceu com seu inglês de cursinho. E por aí vai.

Aí nos lembramos de Guilherme Fontes, ator que, na sua trabalhosa estreia como cineasta, virou vidraça pela demora surreal para lançar um filme, num mercado dominado por cineastas que fazem bobagens mas são casados com belíssimas atrizes.

Guilherme havia feito um papel de um espírito obsessor numa novela "espírita", A Viagem, transmitida pela Rede Globo em 1994. Ator em ascensão e considerado talentoso, ele quis ampliar suas habilidades com um ambicioso projeto de filmar a vida de Assis Chateaubriand.

O projeto consumiu dinheiro e, aparentemente, Guilherme "administrou mal" a direção e produção, levando vinte anos para finalizar o longa-metragem, baseado no livro Chatô - O Rei do Brasil, do jornalista Fernando Morais.

Guilherme chegou a ser processado por improbidade administrativa, perdendo o sono para explicar os gastos com o filme e a demora na montagem, enquanto os cineastas "conspiradores" e diretores "globais" dormiam suas noites tranquilas depois de transarem com suas deliciosas mulheres-atrizes.

Só recentemente, o filme foi finalizado. E quem pensa que isso não passou de conversa para boi dormir, o próprio Fernando Morais divulgou o trailer do filme. Logo ele, que hipoteticamente teria sido o primeiro a repudiar o filme e querer dar um puxão de orelha no cineasta "inexperiente".

Mas isso não se deu: Fernando afirmou que viu o filme, achou maravilhoso, e deu os parabéns a Guilherme Fontes. Um comentário vindo de um jornalista que teve a obra adaptada para o referido filme e que é considerado um dos biógrafos mais respeitáveis do país.

Independente do que havia ocorrido, pergunta-se se a doutrina de "amor e luz" que no entanto é comandada por "irmãozinhos sofredores" - eufemismo para espíritos negativos, que ajudam a transformar o "espiritismo" na bagunça que é hoje, com "mediunidade" de faz-de-conta e pregações moralistas - é que influenciou os obstáculos ou tentações que tentaram impedir Guilherme Fontes de realizar o seu trabalho.

E o pior é que o "espiritismo" sempre implica com pessoas diferenciadas, dando-lhes tragédia ou azar, por mais que estas sigam a doutrina com o amor e a dedicação exemplares e façam todos os sacrifícios para ter alguma realização na vida.

A gente fica até perguntando se Divaldo Franco, na sua turnê europeia-estadunidense de 2006, não viajou no mesmo voo da coitadinha da Brittany Murphy, a atriz de As Patricinhas de Beverly Hills. Isso porque, ela, uma estrela em ascensão, acabou contraindo um casamento infeliz, uma carreira oscilante e uma tragédia prematura que abortou todo o brilhante talento de atriz e cantora.

Os "irmãozinhos sofredores" que animam os espetáculos "espíritas" são mesmo "da pesada".

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Violência e vandalismo são sempre uma propaganda às avessas


No último dia 18, um grupo de vândalos causou estragos no mausoléu de Francisco Cândido Xavier, que está enterrado, desde 2002, na cidade de Uberaba, no Triângulo Mineiro, cidade adotiva do anti-médium.

Um vidro foi danificado por pancadas e mármores retiradas de um túmulo vizinho teriam sido usadas pelos desordeiros. Vendo os estragos, o filho adotivo de Chico Xavier, Eurípedes Higino, já entrou em contato com serralheiros para preparar grades de proteção, para evitar novas desordens.

Não é o primeiro ato de vandalismo, já que em outras ocasiões, vários objetos foram roubados. No mausoléu, além da estátua de Chico Xavier, existem objetos associados à sua atividade dita "mediúnica", além de alguns livros que fizeram sucesso em sua trajetória.

O ato de vandalismo é deplorável, porque é um protesto irracional que nada condiz com as verdadeiras manifestações de oposição. É possível até que o vandalismo não seja motivado por intolerância religiosa, apesar de ocorrências terem havido na semana passada, principalmente no Rio de Janeiro.

Uma menina foi agredida por dois homens porque estava com os pais que saíram de um culto de candomblé, na região da Penha, no Rio de Janeiro. Um templo ecumênico foi apedrejado também no Rio, no bairro de Humaitá, na Zona Sul.

Na rede de rádios Band News FM, o jornalista Ricardo Boechat, em seu programa, ao comentar a violência contra a menina da Penha, fez duros ataques ao pastor Silas Malafaia, acusando-o de incitar a intolerância religiosa e de ser "tomador de dinheiro dos fiéis". Silas, irritado, ameaçou Boechat no Twitter, mas também repercutiu mal com seu habitual reacionarismo neopentecostal.

Ainda houve o caso de um jovem desequilibrado de 21 anos, que havia recebido um revólver do pai como presente de aniversário, que foi a uma missa numa igreja protestante em Charleston, Carolina do Sul, EUA, e, depois do fim resolveu atirar contra as pessoas, matando nove. O rapaz foi preso depois de policiais vasculharem o local da chacina.

No âmbito "espírita", um suposto médium de curas, Gilberto Arruda, uma das figuras mais antigas do Lar de Frei Luiz, na Taquara, região de Jacarepaguá, também bairro carioca, foi encontrado assassinado, com sinais de espancamento e um corte no braço, fato que teria ocorrido na manhã do último dia 19.

Claro, o "movimento espírita", em crise, vai aproveitar a situação para fazer sua campanha coitadista, dizer que é vítima de intolerância e tentar se autopromover com suas lágrimas de crocodilo, para assim abafar a crise e suas lideranças continuarem apunhalando Allan Kardec pelas costas, já que ele é bajulado com a enorme intensidade com que os "espíritas" traem sua linha de pensamento.

Os "espíritas", sem poder convencer com as reportagens especiais nos noticiários da televisão, e questionados a ponto de se descobrir que a "caridade" que Chico Xavier com as famílias que perderam entes queridos não era mais do que uma maldade perniciosa, precisaram desses dois incidentes: a morte do "médium" carioca e o vandalismo contra o mausoléu de CX.

Para quem não sabe, a "mediunidade" de Chico Xavier em relação aos familiares dos mortos, na verdade, trouxe uma série de prejuízos: mensagens apócrifas, iguais umas às outras, usando o nome dos falecidos, exposição sensacionalista da dor das famílias, obsessão com espíritos do além.

Se já se espalha na Internet que "a maior caridade" de Chico Xavier foi um ato perverso, os "espíritas" tiveram a sorte de serem acidentalmente beneficiados com a reação dos "irmãozinhos sofredores" contra a vida de um "médium" e o mausoléu de outro.

Com isso, as discussões em torno dos erros que o "movimento espírita" fez em torno da doutrina de Allan Kardec, que rendeu até texto sobre os bastidores do roustanguismo da FEB (sim, Jean-Baptiste Roustaing continua em boa conta na cúpula da federação), foram abafadas por incidentes de suposta intolerância religiosa.

O que podemos inferir, no entanto, que a repercussão dos questionamentos ao "movimento espírita", embora crescente, não chega ao ponto de inspirar desordeiros ou criminosos a eliminarem "médiuns" ou destruírem túmulos ou mausoléus.

Provavelmente, o que pode ter acontecido foi, no caso de Gilberto Arruda, uma reação de algum paciente vingativo - ele fazia tratamento com dependentes químicos - , descontente com uma pequena desavença (mas suficiente para estimular irritação e rancor) e, no caso do mausoléu de Chico Xavier, foi uma ação de drogados que viram o primeiro mausoléu bonitinho na frente e resolveram bagunçar com ele.

Podia ser até o mausoléu de um líder católico ou evangélico, ou de algum político veterano. Os desordeiros destruíram porque não gostam de algo organizado, estavam ali chapados de "baseado" e viram alguma coisa organizada para atacar e destruir. Nada a ver com as críticas que, no âmbito das ideias e do debate sadio do conhecimento, se faz na Internet contra Chico Xavier.

Violência e vandalismo são sempre uma propaganda às avessas, acidental e sem vínculo com os defensores de uma causa supostamente combatida por esses atos. São atos independentes de causas, contextos, pretextos, a não ser pelas desavenças pessoais ou pelo desejo de desordem. Eles vêm de pessoas desajustadas e muito confusas para terem uma bandeira de intolerância religiosa na mente.

No entanto, eles foram suficientes para fazer os internautas correrem para a já viciada e acomodada publicação de frases de Chico Xavier, aquelas mesmas frases adocicadas que dizem que o sofrimento é lindo e que temos que suportar "amando" qualquer barra pesada em nossas vidas, em nome de uma recompensa futura (e póstuma) da qual não temos a menor ideia que seja.

Portanto, o "movimento espírita" continua sofrendo sua crise, e apenas momentaneamente atraiu para si sua multidão de seguidores, tomados de muita emoção e contentes com a linha mistificadora e religiosista que faz o "espiritismo" feito no Brasil distante da coerência científica e racional de Allan Kardec.

sábado, 6 de junho de 2015

Até que ponto a moral "espírita" pode acusar as pessoas?


Muitas pessoas não gostaram quando os blogues que questionam os abusos do "movimento espírita" brasileiro, o Dossiê Espírita e o Data-Limite, identificaram sutis alusões ao racismo em uma das matérias de capa do Correio Espírita deste mês, intitulada "Africanos retornam à sua pátria, a Europa", com a "licença" do título definir um continente inteiro como um "país".

Diz o texto sobre a matéria: "Agora, os invasores do pretérito aparecem reencarnados, no mesmo solo que pintaram de sangue, e com a roupagem física de africanos e tentam voltar às pátrias de origem, necessitando drasticamente de amparo, proteção e ajuda".

Muitos alegam que a identificação de posições racistas foi "injusta", mas ela segue a mesma postura que se vê até mesmo no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de Francisco Cândido Xavier, de 1938.

A visão depreciativa do povo africano, a definição da negritude como um castigo, se observa sutilmente mas de forma concisa nesse trecho da "roupagem física de africanos", definida como um castigo para invasores que "banharam a África de sangue" no passado.

Alegam os "espíritas" e, certamente, os partidários e membros do referido periódico, que se trata apenas de uma punição para quem havia maltratado os negros no passado. Só que esse "dedo acusador" segue critérios bastante duvidosos de avaliação.

Afinal, todos os africanos que se dirigem em embarcações destinadas a Europa são necessariamente tiranos sanguinários reencarnados? Esse julgamento generalizado, que já rendeu contra o "movimento espírita" pesado processo judicial por calúnia, não indica algum racismo?

Woyne Figner Sacchetin, médico de São José dos Campos e dublê de médium, foi usar o nome do espírito de Alberto Santos Dumont para acusar de "romanos sanguinários" da Gália, em "outras vidas", as 199 vítimas do acidente da TAM em São Paulo, em 2007, e foi processado por calúnia pelas famílias das vítimas.

O processo só foi possível porque as famílias das vítimas tiveram dinheiro para pagar advogados. Mas quando as vítimas são das classes populares e, sobretudo, da raça negra, não há grana que possa processar os "espíritas" por acusações levianas e presunções reencarnatórias sem provas cabíveis.

Chico Xavier passou impune quando, usando o nome de Humberto de Campos - meio disfarçado pelo codinome "Irmão X", sob o pretexto de "evitar maiores dissabores" - , acusou levianamente as inocentes vítimas do incêndio do Gran Circus Norte-Americano, em Niterói, no final de 1961, de terem sido "romanos sanguinários", também da Gália, em "outras vidas".

Não são pessoas com dinheiro ou mesmo instrução suficiente para acionarem advogados. São duplamente vitimadas pelo julgamento de valor dos "espíritas", tão "sabedores" das coisas e tão preocupados em ver os pobres como irremediavelmente inferiorizados.

TABLOIDE ROUSTANGUISTA

O preocupante moralismo "espírita", travestido de um paternalismo "consolador", primeiro acusa os pobres coitados, gente trabalhadora ou desempregada, humilde, necessitada, batalhadora, sofredora e cheia de sonhos e desejos, de terem sido tiranos no passado, uma classificação que tem tudo de suposição, mas é jogada assim a esmo como se fosse uma verdade indiscutível.

O julgamento especulativo dos "espíritas", difundido pelo Correio Espírita, no fundo um tabloide roustanguista, é que envergonha e não os comentários sobre alusão de racismo. Afinal, não existem provas científicas de que todos aqueles infelizes que enfrentaram até naufrágio, com vários sucumbindo à morte, teriam sido realmente invasores sanguinários das nações africanas.

O que chama a atenção é que os "espíritas" parecem ver a África como uma mera selva e as tribos como um bando de selvagens. Grande erro. Muitos dos legados das tribos africanas revelam um admirável caráter de Educação, Cultura, de estrutura política, que tantas coisas admiráveis trouxeram para a "civilização".

O problema é a mania do "movimento espírita" em querer julgar as coisas, sem ter qualquer tipo de fundamento e aí é que os "espíritas" são cobrados pela falta de estudo da Doutrina Espírita e pela sua inclinação mal-disfarçada ao Catolicismo medieval português, base da doutrina brasileira.

Fica muito fácil julgar se os "infelizes" em questão são pobres, negros, judeus, índios, mulheres, crianças. Eles sofrem porque foram "maus" no passado, embora não haja garantia de que todos tenham sido assim. E quem está ao lado deles e havia sido uma pessoa alegre em outras encarnações, pode ser acusado de ter sido um "tirano"?

Não existem métodos nem critérios seguros. Os defensores do Correio Espírita reclamam de tão "injusta" acusação, mas deveriam ver o erro que o periódico cometeu. Claro, se não fossem os africanos em busca de algum lugar ao sol, mas navegadores portugueses vindos da colônia brasileira, o papo seria outro e o "julgamento" mais otimista.

Os povos africanos merecem respeito. Nem todo mundo foi "tirano" em Roma, Lisboa, Londres ou onde quer que fosse. Até quando vamos aceitar dos "espíritas" esse morde-e-assopra moralista, que primeiro faz acusações sem fundamento para depois prestar misericórdia? Até que ponto os "espíritas" poderão usar sua moral para acusar as pessoas dessa maneira tão lamentável?

segunda-feira, 1 de junho de 2015

"Desafio Charlie" é uma perigosa brincadeira infanto-juvenil. Mas tem a dos adultos


Há uma folha de papel em que as palavras "Sim" e "Não" são escritas duas vezes, em posição diagonal, formando uma quadrinha. Sobre esta folha, dois lápis são colocados, um sobre o outro e em posição transversal, formando uma cruz.

Pessoas que participam desse joguinho fazem então as suas regras: fazem perguntas quaisquer, e depois interrogam: "Charlie, você está aqui?". Se o lápis apontar para uma das opções, a resposta será correspondente à palavra apontada pelo lápis de cima. Por exemplo, se o lápis aponta para "Sim", a resposta é afirmativa.

A brincadeira é bastante perigosa e causa mal-estar na medida em que as pessoas passam a sentir a presença de espíritos zombeteiros e levam o jogo às últimas consequências. Em certos casos, as perguntas maledicentes, sobre os destinos que os curiosos querem dos desafetos, aumenta mais a influência de espíritos obsessores.

Claro, é uma brincadeira infanto-juvenil e é fácil condená-la. Com toda a certeza, também consideramos a prática condenável e bastante nociva. Como outras como a tábua Ouija, a brincadeira dos três copos e outros jogos maliciosos.

E aí perguntamos se, no lado do "movimento espírita", feito por adultos que se declaram experientes, amadurecidos e disciplinados, a tal mediunidade que eles alegam exercer está isenta do perigo e da ação de espíritos obsessores.

Eles até dizem que "alguns casos" de alguns "espíritas pouco cautelosos" estão sujeitos a "acontecer, sim", mas a "regra" que eles seguem é "conduzir a mediunidade com a máxima disciplina e sempre procurando a ação do bem, o perdão e a fraternidade". Então tá.

Na prática, porém, a "mediunidade" feita pelos "espíritas" brasileiros é quase sempre de fraudes e mistificações. Consta-se que, se os "irmãozinhos sofredores" (eufemismo para espíritos obsessores) agem nessas atividades, é em boa parte indireta, porque a maioria do que se supõe ser psicografias, pictopsicografias e psicofonias vem da própria imaginação do suposto médium.

E, para desespero de muitos, as fraudes vêm mesmo de pessoas "de altíssima reputação" como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco. Pior: existe até mesmo um livro que tentou substituir o seguro e preciso O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec, chamado Nos Domínios da Mediunidade.

Lançado em 1954, Nos Domínios da Mediunidade é um livro lançado por Chico Xavier atribuído ao espírito de André Luiz, que, sabemos, nunca passou de pura ficção. Há indícios de que Waldo Vieira teria co-escrito o livro.

Fã de ficção científica e "médium" desde a infância, Waldo, hoje ligado à Conscienciologia e Projeciologia (arremedos brasileiros da Cientologia), teria dado sugestões para o personagem André Luiz desde a elaboração de Nosso Lar, em que pese sua estrutura narrativa ser copiada, na essência, de A Vida Além do Véu, do inglês George Vale Owen.

Pois Nos Domínios da Mediunidade, que em boa parte parece ser um plágio de No Invisível, de Leon Denis (admirador frágil e cheio de preconceitos religiosistas de Allan Kardec, embora sem o caráter grotesco dos "espíritas" brasileiros), soa como um receituário confuso sobre mediunidade, mas no fundo não é mais do que um equivalente sofisticado ao "roteiro do Desafio Charlie".

Pois o "Desafio Chico" consiste em criar uma mensagem apócrifa cheia de apelos religiosos. O "médium" cria, da sua própria mente, uma historinha triste, do falecido que sentiu angústia depois que morreu, foi socorrido nas colônias espirituais, soube o valor de Jesus Cristo e retornou para dizer para as pessoas da terra se unirem "no amor e na fraternidade cristãos".

É sempre esse mesmo roteiro, podendo valer tanto para João Paulo II quanto para Ronnie James Dio, tanto para Sérgio Naya quanto para Mahatma Gandhi. Descontadas umas pequenas variações de roteiro, a historinha fica sempre nessa essência, nesse propagandismo religioso barato.

E onde está o "Desafio Charlie" nessa? Ora, está nas famílias de adultos e idosos que perderam entes queridos e recorrem aos "Ouija humanos" que são os ditos "médiuns espíritas". E aí as pessoas têm a mesma curiosidade, a mesma ansiedade, dos praticantes do "Desafio Charlie".

Tem até a perguntinha "(Ente falecido), você está aqui?" e Chico Xavier, que se declarava o "lápis de Deus", tendo sido, enquanto vivo, o "instrumento humano" do "Desafio Chico", poderá dizer "sim" ou "não" e a pessoa acreditar.

O "Desafio Divaldo" é a mesma coisa, com a diferença que Divaldo Franco, espécie de concorrente frustrado do Orlando Drummond no dom de imitar velhos bonachões (o "Seu Peru" de Escolinha do Professor Raimundo é imbatível nessa função), também inventa falsetes que ele vai logo dizendo que é algum personagem do século XIX, seja Adolfo Bezerra de Menezes, Marechal Deodoro, Dom Pedro II etc.

Mas como essas brincadeiras são feitas com adultos e estão de acordo com as hierarquias familiares, elas são tidas como "sérias" e "confiáveis", até porque usam o verniz da "caridade" e da "fraternidade" e se apoiam apenas em mensagens "edificantes" e "consoladoras".

Coitados! Mal sabem quantas mensagens de espíritos traiçoeiros são muito carregadas de mel e que mesmo a fúria de muitos deles não os faz incapazes de aconselharem os supostos médiuns a escrever textos de tão esplendorosa mansuetude.

Iludidos pela mera condição material do tempo biológico e da utopia da "experiência de vida", muitos pais, mães, avôs e avós se perdem em tamanhas fantasias, seduzidos pelo apelo religiosista carregado, pela fé deslumbrada tida como "raciocinada" e por mensagens apócrifas que os entes falecidos nunca seriam capazes de escrever.

Iludidos, igualmente, pelas hierarquias terrenas, não sabem que correm o mesmo perigo dos participantes do "Charlie Challenge" e práticas semelhantes, e sabemos o quanto o mundo adulto não está imune a surtos de vergonhosa imaturidade, desses que fazem qualquer criança pequena ficar constrangida.

A mediunidade falsa, irresponsável e mais preocupada com a propaganda religiosa, "mendigando" a fraternidade que não é capaz de exercer - e há muitos ateus que deram um banho de fraternidade em Chico Xavier, como Carl Sagan, Millôr Fernandes e Paulo Freire - fazem com que o "movimento espírita" se torne uma prática muito perigosa.

Falam que não temos tolerância religiosa com o "espiritismo". Isso não é verdade. Tolerância com religiões nós temos. O que não temos tolerância é com a mentira, a fraude e o charlatanismo. E o "espiritismo", lamentavelmente, se serve de muitas fraudes e mistificações, além de pregar um moralismo embolorado que faz apologia ao sofrimento humano.