quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Bajulações ao Espiritismo


A temporada de mentiras do "movimento espírita" se intensifica. Os mistificadores da Doutrina Espírita e deturpadores do pensamento de Allan Kardec tentam alegar fidelidade absoluta ao pedagogo francês, enquanto cometem traições o tempo todo.

Achando que Kardec é como a esposa traída que tudo perdoa, os "espíritas" tentam fazer crer que reprovam o igrejismo, a mistificação, a deturpação e as fraudes. No entanto, são práticas que eles mesmos fazem, mas que no discurso tentam renegar como se quisessem apenas condenar o mau exemplo dos outros.

É assustador que muitos sítios dessa forma deturpada de Espiritismo venham com manifestações de "fidelidade absoluta" e "cumprimento rigoroso" do pensamento de Allan Kardec. Chegam a citar Erasto, enquanto põem uma ilustração em que Chico Xavier parece quase escondidinho, como se entrasse nos debates kardecianos pela porta dos fundos.

Surgem "cavaleiros da esperança" julgando "total e inabalável lealdade" à trajetória de Kardec e seu pensamento, podendo ser um já falecido Rino Curti e seu "espiritismo progressista (?!)", como os recentes Alamar Régis Carvalho, Orson Peter Carrara ou mesmo um Artigos Espíritas lá de Portugal, todos se achando "fiéis defensores" do cientificismo de Allan Kardec.

Um artigo recente do blogue Artigos Espíritas, Espiritismo ou Espiritismos?, apela para a "boa teoria", naquela mesma declaração de suposta fidelidade ao professor francês, em que existe a reprovação do igrejismo, alegando que a Doutrina Espírita não pode "ser mais um joguete dos seres humanos, que a utilizassem a seu belo prazer". Um trecho ilustrativo é este:

"A obra de Kardec permanece segura, bem estruturada, e ainda não é bem entendida pela grande maioria de nós, o que é natural tendo em conta que é algo muito recente, apenas com 158 anos de idade.

Os espíritas (adeptos da ideia espírita) entendem a Doutrina dos Espíritos de acordo com a sua capacidade de entendimento, que varia em grau e em profundidade, o que é perfeitamente normal, saudável, desde que haja bom senso, discernimento, lucidez, equilíbrio e uma normal troca de ideias, dentro da assertiva espírita da fraternidade, da caridade, do Amor entre todos.

Pelo processo da reencarnação, muitos de nós, espíritas, somos ex-padres e ex-freiras, oriundos do catolicismo dominante no Ocidente, desde sempre. Ainda presos aos atavismos do passado, vamos levando para os centros espíritas muitas coisas que nada têm a ver com a essência universal do Espiritismo, como toalhas brancas para a mesa (saudades dos altares?), fotografias de Jesus e de vultos espíritas (saudades dos santos das Igrejas?), rezas em coro e cânticos igrejeiros (reminiscências do catolicismo?), o "Amen" no fim de uma prece, posturas igrejeiras e castradoras por parte de dirigentes espíritas (saudades do clero?) (tudo isto criticado por Kardec, in "Viagem Espírita em 1862", cap. XI e seguinte).

Paralelamente, ao nível da divulgação espírita, em termos locais, regionais, nacionais e internacionais, vamos perdendo a essência do espiritismo, o estatuto de livre-pensador, para começarmos a criar organizações, grupos, por vezes sectários, dentro dos movimentos espíritas, feitos pelos homens, que muitas vezes vão contra a essência da Doutrina dos Espíritos (que não é sectária).

É fundamental que as organizações de divulgação espírita, seja a que nível for, as Federações Espíritas em todos os países, não se tornem uma reedição dos Bispados de outrora, assim como é importante que o Conselho Espírita Internacional (CEI) não seja entendido como um papado espírita".

O grande problema é que o blogue corteja Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, dois dos maiores traidores da Doutrina Espírita e dois dos maiores mistificadores e deturpadores de sua doutrina, dois dos responsáveis diretos pela conversão da Doutrina dos Espíritos num puro igrejismo. E essa condenação ao "papado espírita" já teve exemplo similar através de Alamar Régis.

De que adianta defender a fidelidade a Allan Kardec e, ao mesmo tempo, exaltar dois dos maiores traidores de seu pensamento? Artigos Espíritas já publicou um artigo intitulado "A Essência do Espiritismo", com todo o papo sobre fidelidade a Kardec.

O mesmo texto depois exalta Divaldo Franco, citando que o anti-médium baiano recebeu um premiozinho na Assembleia Legislativa da Bahia. E sabemos por que, sendo ele um suposto médium que é considerado "o maior filantropo do mundo" porque a Mansão do Caminho só ajudou 0,08% de soteropolitanos, algo que, em dimensões mundiais, é sinônimo de nada.

É muita bajulação a Allan Kardec, é tanta falsa defesa à trilogia Ciência, Filosofia e Moral e, por debaixo dos panos, transmite o mesmo igrejismo que diz reprovar e exalta justamente duas figuras que mais traíram e mais deturparam o pensamento de Allan Kardec, dois anti-médiuns brasileiros que no fundo nunca se sentiram identificados com o pensamento do professor francês.

Chico Xavier, católico de carteirinha, foi o que mais estimulou a invasão de espíritos jesuítas no "espiritismo" brasileiro. Divaldo Franco inseriu misticismo barato, como a ideia discriminatória de "crianças-índigo", uma forma de isolar "positivamente", como num "holocausto do bem", pessoas que não conseguem pensar como as "multidões bovinas" da sociedade pós-moderna e tecnocrática.

Esses dois foram justamente os que mais traíram Kardec, os que mais contrariaram sua doutrina, o que mais desrespeitaram, empastelaram e arruinaram com a novidade espírita, destruindo o legado de Kardec com fantasias, alucinações, fraudes, pastiches e tudo o mais que é traiçoeiro e leviano, mas é acobertado pelo pretexto tendencioso do "amor e caridade".

É muita bajulação à pessoa de Allan Kardec e ao seu legado. Parece coisa de Rolando Lero da Escolinha do Professor Raimundo bajulando o seu professor, mas não entendendo bulhufas dos seus ensinamentos. Mas é o "movimento espírita", que puxa o saco do professor lionês fingindo que segue rigorosamente suas lições mas cometendo traições o tempo todo. Dizer é fácil, fazer é que é difícil.

sábado, 22 de agosto de 2015

Mentira de amor não dói?


Mentira a serviço do amor e da caridade não dói? Os erros que o "espiritismo" brasileiro faz são apenas inocentes mentirinhas que não fazem mal e não prejudicam os projetos de fraternidade e solidariedade humanas?

Nota-se que o "espiritismo", no Brasil, se serve de muitas mentiras. A mediunidade não passa de um simulacro, feito para fazer propaganda religiosa das casas "espíritas", além de oferecer publicidade dos supostos médiuns à base do sensacionalismo.

Isso se vê em várias atividades. Psicografias, psicofonias, psicopictografias. Observa-se até um amontoado de clichês, como a mesma narrativa "Nosso Lar" das mensagens "espirituais" ou da mania de usar uma suposta falange de pintores nos trabalhos de pintura "mediúnica", como se vários pintores, de diferentes lugares e épocas, estivessem sempre a dispor para qualquer "parada".

Um rol de leviandades é feito dentro de um clima de pieguice que se torna aceito não porque ele expressa alguma superioridade moral, mas porque as pessoas são receptivas a um modelo de "caridade" e "bondade" que está de acordo com seus valores conservadores e provincianos.

São valores originários de antigas ideologias familiares, professorais e até profissionais. Estigmas de caridade que não passam de projetos paliativos. Sistemas de castração da vontade humana, como se a vontade fosse um mal, campanhas educativas para transformar as pessoas em "carneirinhos", como se ser bondoso fosse aceitar tudo e nunca agir para romper as estruturas vigentes, mesmo injustas.

A "injustiça social" que o "espiritismo" promete combater com sopinhas, doações e programas educativos que nunca fazem mais do que criar cidadãos "carneirinhos" que cumpram todas as obrigações da vida, é exaltada mais por uma questão de publicidade do que de idealismo.

Falam que isso transforma, mas até hoje não se viu efeitos concretos nessas atividades. E, por trás disso, o que há é um monte de mentiras e tolices que só serve para transformar o "espiritismo" num engodo sensacionalista, místico e moralista da pior espécie.

Em vez de assumirem sua ignorância diante da Ciência Espírita, criam métodos mediúnicos que se limitam a simulacros de mediunidade, ou, no caso das supostas cirurgias espirituais - sempre feitas de forma rudimentar e à margem da Medicina, como se suas conquistas e avanços fossem um "mal" - , a evocação de espíritos traiçoeiros tidos como curandeiristas.

A influência do Catolicismo do Segundo Império brasileiro, que por sua vez é herdado do português que, de sua parte, guardou heranças medievais, o "espiritismo" brasileiro, pela sua própria natureza ideológica, combinando moralismo católico com práticas hereges clandestinas (como bruxaria e esoterismo), atrai os espíritos que suas vibrações permitem atrair.

São espíritos que variam de padres jesuítas, freiras e madres, a centuriões romanos, passando por bruxas, advinhos, médicos nazistas, mascates a vender mel de abelha como se fosse remédio milagroso, astrólogos e até praticantes de vodu. Toda essa multidão se sente atraída pelo "movimento espírita" se se instala na doutrina querendo mandar e obter vantagens.

Eles "orientam" toda essa bagunça que se vê, a partir da figura contraditória e confusa de Francisco Cândido Xavier, que só era sinônimo de "coerência" nas mentes confusas de pessoas que só se emocionam, mas não raciocinam de maneira correta.

Daí essa ideologia confusa. Daí os "centros espíritas" que falam de família, de criancinhas brincando de ciranda, de vovô brincando com o netinho, de passarinhos na janela, de flores no parapeito, de tantas coisas, exceto a Doutrina Espírita, tema quase nunca estudado nesses lugares.

Aliás, podemos dizer, NUNCA estudado. Isso porque o pobre do Allan Kardec, que suou, investiu seu próprio dinheiro e, até nos piores momentos de sua doença final, tentou explicar o máximo possível sobre a novidade do Espiritismo, viu sua doutrina arduamente sistematizada sendo empastelada e deturpada por supostos seguidores que se promovem às custas do seu nome.

E isso é a maior mentira. Os "espíritas" se julgam os "seguidores fiéis" de Allan Kardec. Se dizem rigorosamente vinculados ao seu pensamento e dizem não cometerem o menor deslize. Tentam até mesmo condenar os deslizes e mistificações dos outros.

Transformam o "espiritismo" num arremedo de quinta categoria do Catolicismo, mas criticam o desvio do cientificismo kardeciano para o dogmatismo religioso. Vejam só. O "espiritismo" mente, porque quer professar a mais absoluta e rigorosa fidelidade a Allan Kardec, quando em verdade é o que mais comete traições ao seu legado.

Quando se denuncia essa doutrina confusa e deturpada, os "espíritas" ainda se armam, à sua maneira. Reagem, como lobos em pele de cordeiro, escrevendo poeminhas, artigos floridos, ilustrados com fotos de crianças, jardins cheios de flores, passarinhos voando sobre rosas, céus azulados com sol brilhando e águas do mar serenas.

Se não conseguem esconder que deturpam a Doutrina Espírita e seus trabalhos mediúnicos são questionados de forma rigorosa por seus questionadores, os "espíritas" reagem com pretenso bom-mocismo. Como se as falsas psicografias pudessem ser questionadas pelo pão e abrigo dados aos pobres carentes.

Isso é outra mentira. Usa-se a caridade para acobertar a fraude. Usa-se a solidariedade para permitir que um Chico Xavier seja "dono" do legado de Auta de Souza, Humberto de Campos e outros, e, se deixarmos, toda a literatura brasileira e seus autores mortos passarão a ter copyright póstumo nas "mãos espirituais" do "velho Chico".

Sim, porque Chico Xavier é o maior beneficiário dessa mentira, e o maior beneficiário da impunidade que arruina o nosso país. Ele se apropriou de mortos, de maneira leviana e oportunista, e saiu ileso e imune diante de tudo isso. Ele propagou a mentira "espírita" e virou santo por isso. Vergonhoso.

Chico Xavier foi o maior traidor de Allan Kardec, o que mais deturpou e profanou seu legado, e há ainda quem ache que ele era reencarnação do pedagogo francês. Isso é um descaramento dos piores, um acinte deplorável. Mas, como "mentira de amor" não dói, tudo fica nisso mesmo e os mortos terão que viver sem sossego, porque, mesmo já falecido, Chico Xavier acaba sendo dono de todos eles.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Aberta a temporada de muita mentira no "movimento espírita"


Nunca se mentiu tanto no "movimento espírita", quando à alegada fidelidade a Allan Kardec. Nas últimas quatro décadas, época estimada para o agravamento da crise do roustanguismo, os "espíritas" passaram a adotar uma postura dúbia, bastante badalada e festejada entre eles.

Esta postura consiste em alegar, na teoria, fidelidade absoluta e o mais rigoroso respeito à obra, à trajetória e ao pensamento de Allan Kardec. Na prática, porém, as coisas são feitas para contrariar, o máximo possível, a tudo o que o pedagogo francês escreveu, disse e analisou.

A fidelidade é traída de imediato quando ídolos como Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco são exaltados. Eles lançaram ideias e procedimentos que contrariam severamente o pensamento de Kardec, da maneira mais vergonhosa possível.

Para piorar, um exército de pretensos heróis do "espiritismo" vieram também engrossar o refrão da tão cantada em alto e bom som "fidelidade a Allan Kardec". Cantada, mas nunca praticada. E aparecem sempre como "salvadores da pátria" a defender a suposta fidelidade com discursos dos mais mirabolantes.

Desde 1975 é assim. De Rino Curti a Orson Peter Carrara, de Carlos Baccelli a Alamar Régis Carvalho, todos se aproveitando de que muitas pessoas são tratadas como idiotas para lançar sua postura falsamente fidedigna ao pensamento kardeciano, enquanto se divertem (ou divertiram, no caso dos já falecidos) com mistificações e outros conceitos que deturpam a Doutrina Espírita.

Isso é bastante vergonhoso. Mas, o que é pior, bastante frequente, constante, insistente e, se depender desses traquinas da boa-fé espírita, permanente. E todos posando de "bondosos" só porque dissimulam a traição doutrinária com arremedos de filantropia.

É preciso denunciar essas e outras pessoas que cometem deslizes graves em relação ao pensamento de Allan Kardec, inserindo igrejismo, moralismo conservador, esoterismo e outros enxertos alheios ao cientificismo original do professor francês, que fazem a tão prometida "coerência espírita" no Brasil não ser mais do que uma conversa para boi dormir.

Sao coisas como "crianças-índigo" defendidas por Divaldo Franco, a apologia do sofrimento e a ideologia do silêncio defendidas por Chico Xavier, fora aspectos como a pretensão de fazer profecia e a adoção de ritos católicos nos "centros espíritas", em que o debate dá lugar ao religiosismo mais rasteiro e mais conservador.

Isso sem falar do faz-de-conta da suposta mediunidade, que não passa de verdadeiras molecagens causadas por supostos médiuns, cujo conhecimento de vida espiritual e práticas mediúnicas não vai além do superficial, não tendo concentração suficiente para o devido contato com os espíritos do além.

Tudo isso vai contra o pensamento original de Allan Kardec, mas os praticantes das deturpações "espíritas" tentam a todo custo fazer crer que agem em completo respeito à Doutrina Espírita. E, quando não conseguem argumentar, ficam posando de "bonzinhos" e dizendo que seu maior foco é "a caridade e o amor ao próximo".

Vão mentir o tempo todo, através dessas contradições, como já o fazem e pretendem repetir, como se fosse num disco de vinil riscado que faz a agulha pular nos mesmos sulcos. E não se pode aceitar essa farsa, porque até a "bondade" é usada para permitir que se desobedeça levianamente as diretrizes da Doutrina Espírita.

Deve-se perder o medo de denunciar essas práticas, de não temer a "doce" intimidação da reputação gloriosa dos astros do "movimento espírita". Não se deve temer a contestação de totens consagrados, porque quem fez graves erros deve ser denunciado, pouco importa sua popularidade e prestígio.

Por outro lado, deve-se também rebater as acusações de intolerância religiosa, que se tornam julgamentos falsos vindos dos pretensos sábios do "espiritismo". Porque nossas denúncias não são intolerância à liberdade religiosa, mas intolerância à mentira, à contradição, à fraude e a demagogia, vícios que não podem ser acobertados pelas virtudes da bondade, caridade e solidariedade.

Daí que se deve denunciar as fraudes do "movimento espírita" de forma intensa, rebatendo cada episódio em que as mistificações e deturpações são feitas impunemente, enquanto seus praticantes tentam a todo custo jurar que são fiéis a Allan Kardec. Só que esse juramento é, como sabemos, mentiroso.

sábado, 8 de agosto de 2015

Os anos 90 ajudariam o Brasil a ser o tal "Coração do Mundo"?


Num desses aspectos surreais existentes no Brasil, diferentes personagens que estiveram em evidência no período entre 1990 e 1992 e que estavam comprometidos, cada um à sua maneira, com a degradação social, cultural e econômica dos brasileiros, tentam a todo custo uma reabilitação como se tivessem sido personalidades de grande valor para nosso país.

Os "espíritas" prometem tanto o "novo Eldorado" para o Brasil que, a partir do exemplo "iluminado" de Francisco Cândido Xavier, a expectativa é que o país se torne o tão prometido "coração do mundo e pátria do Evangelho" que o anti-médium mineiro tanto pregou durante décadas.

Aliás, é estranho, mas acontece. Um articulado e quase silencioso esforço de elites empresariais, jornalísticas, publicitárias e acadêmicas quer transformar a década de 1990, que muitos consideram a "década perdida" do Brasil, em uma espécie de "década dourada", atribuindo seus personagens uma genialidade que na verdade nunca existiu nem existe.

Não estamos aqui mostrando aversões pessoais a esses indivíduos, mas apenas dizendo que eles estão longe de representar qualquer genialidade, não bastasse estarem eles associados aos processos de mediocrização e degradação de ordem política, cultural, econômica etc. Eles de certa forma colaboraram para esse processo.

Será que esses personagens ajudarão a construir o tal "coração do mundo"? Afinal, o "espiritismo" não valoriza muito a qualidade de vida, a vida material é vista como algo "qualquer nota", e é curioso que uma doutrina tão "espiritualista" impede, de forma mais materialista possível, que se aproveite a vida material para realizar verdadeiras transformações culturais.

A impressão que se tem é que o "espiritismo" segue o zeitgeist brasileiro dos últimos 50 anos, em que todo um sistema de retrocessos foi trazido a partir do golpe militar de 1964 e que culmina com o que se vê por aí no Brasil. A década de 90 intensificou essa derrocada.

Vamos comparar os personagens dessa década, e o que eles representaram nos anos 90 e o que a campanha de reabilitação do período 1990-1992 quer fazer deles, não apenas como pessoas em evidência (que seria até direito deles de se manterem), mas como se fossem personalidades "indispensáveis" para nossa cultura.

O primeiro nome, Fernando Collor, havia sido apoiado por Chico Xavier durante a campanha eleitoral de 1989. O apoio não culminava a uma profunda amizade, mas parece que Emmanuel, o mentor de Chico, foi com a cara de Collor, porque ele sofreu apenas pequenos infortúnios políticos e até hoje tenta passar por cima dos escândalos que tem que enfrentar.

Vamos à lista:

FERNANDO COLLOR
O QUE ELE FOI: Presidente da República com ideias neoliberais, conservadoras e populistas, que confiscou a poupança dos brasileiros para atender ao esquema financeiro do seu tesoureiro de campanha eleitoral, Paulo César Farias, misteriosamente falecido. Adotava medidas contra as classes trabalhadoras e ameaçou privatizar as universidades públicas.
O QUE QUEREM QUE ELE SEJA: Um grande líder popular, orador habilidoso, político progressista e dotado de um populismo ainda mais festivo e uma atualização do mito de "caçador de marajás" que garantiu sua vitória eleitoral em 1989.

CHITÃOZINHO & XORORÓ
O QUE ELES FORAM: Primeira dupla a deturpar a música caipira aos conceitos abertamente comerciais. Misturando country music, guarânias, mariachis, boleros e influências trazidas por Waldick Soriano e Amado Batista, a dupla paranaense inaugurou toda uma linhagem do comercialismo "sertanejo" que ultimamente é representada pelos ditos "universitários".
O QUE QUEREM QUE ELES SEJAM: Ícones sofisticados da MPB e da música caipira de raiz, com coragem de gravar um disco inteiro em tributo a Antônio Carlos Jobim, sobretudo gravando os clássicos bossanovistas do músico carioca, vertidos para clichês comerciais da música caipira.

ALEXANDRE PIRES E BELO
O QUE ELES FORAM: Ex-vocalistas, respectivamente, do Só Pra Contrariar e Soweto, Alexandre Pires e Belo fizeram parte do cenário do "pagode romântico", espécie de variação da música brega que soa como um arremedo de samba. Saindo de seus grupos, seguiram trabalhos solo sempre se mantendo em evidência na canastrice musical digna de calouros de reality shows musicais.
O QUE QUEREM QUE ELES SEJAM: Grandes gênios da MPB, com um pé no soul brasileiro, tentando fazer o Belo um arremedo de Cassiano e Alexandre Pires um arremedo de Wilson Simonal, por mais que este tenha mais a ver, musicalmente, com um misto de Luís Miguel com Bobby Brown.

RAÇA NEGRA
O QUE ELES FORAM: Outro grupo de "pagode romântico", com ênfase nas influências mofadas de Odair José e Amado Batista, o som do grupo Raça Negra é tão mofado que os discos gravados entre o final dos anos 80 e o começo dos anos 90 parecem terem sido produzidos 20 anos antes. Musicalmente medíocre, vocalista ruim, músicas de cafonice irreparável.
O QUE QUEREM QUE ELES SEJAM: Grupo da vanguarda cultural, independente e alternativa, comprometido com a (suposta) renovação do samba-rock, representante de uma "nova cultura pós-tropicalista".

MICHAEL SULLIVAN
O QUE ELE FOI: Ex-integrante dos Fevers, grupo da Jovem Guarda, ele se chamava Ivanilton. Quando embarcou no modismo de cantores brasileiros fazerem imitação de música norte-americana, nos anos 70, virou Michael Sullivan. Nos anos 80, foi parceiro de Paulo Massadas, na composição, e do seu ex-colega de Fevers, Miguel Plopschi, no comando da produção. O comercialismo musical escancarado era imposto para destruir a MPB, subordinada à americanização e às regras de mercado. Seu objetivo é substituir a MPB autêntica pelo comercialismo ianque adaptado ao Brasil.
O QUE QUEREM QUE ELE SEJA: O maior gênio vivo da mesma MPB que quis destruir, tratado como se fosse uma versão pós-moderna de Tom Jobim, e convertido no "grande amigo" dos mais diversos emepebistas.

MÁRIO KERTÈSZ
O QUE ELE FOI: "Filhote" da ditadura militar, engenheiro ultraconservador e que, como prefeito de Salvador, capital da Bahia, realizou um aberrante esquema de corrupção no qual deixou obras de grande estrutura urbana paralizadas, já que desviou uma grande soma de dinheiro público para as empresas "fantasmas" criadas por ele e um aliado, que alimentavam suas fortunas pessoais. Da parte de Kertèsz, o dinheiro foi usado para comprar ações de emissoras de rádio e TV locais, sem falar que ele havia também colaborado para a decadência do Jornal da Bahia, do qual foi nomeado interventor.
O QUE QUEREM QUE ELE SEJA: Intelectual baiano, radiojornalista corajoso, amigo da sociedade baiana e encampador das causas sociais, imparcial acolhedor da diversidade social do país e do mundo e (para os "espíritas") patrão do "divertido" e "admirável médium" José Medrado.

SOLANGE GOMES
O QUE ELA FOI: Uma das musas da Banheira do Gugu, sub-celebridade que viveu um tumultuado casamento com um cantor de "pagode romântico". Ícone da vulgarização do corpo feminino, no qual a sensualidade se reduz a uma mera mercadoria grotesca e por demais apelativa.
O QUE QUEREM QUE ELA SEJA: Ícone do corajoso feminismo sensual, mulher que não tem medo de se "sensualizar" depois dos 40 anos e que reivindica a "liberdade do corpo" como ideal de vida.

DJ MARLBORO, MC JÚNIOR & MC LEONARDO E DERIVADOS
O QUE ELES FORAM: Depois que DJ Marlboro deturpou o tecnofunk para um formato comercial mais escancarado, O que seria uma adaptação dos bons sons do funk eletrônico e de variações como o freestyle dos EUA, tornou-se um irritante arremedo de cantigas-de-roda "cantados" por jovens sem talento vocal algum, daí as duplas de MC's que se seguiram.
O QUE QUEREM QUE ELES SEJAM: DJ Marlboro vende a imagem de "artista de vanguarda", protegido pela blindagem de intelectuais "provocativos", a empurrá-lo para eventos associados à cultura alternativa. Já os MC's foram convertidos em "música de protesto", embora suas letras sejam de um conteúdo claramente inócuo.

GUILHERME DE PÁDUA
O QUE ELE FOI: Ator medíocre e aspirante a galã, ele havia assassinado, juntamente com a então esposa Paula Thomaz, a colega de elenco Daniella Perez, filha da dramaturga Glória Perez e então esposa do ator Raul Gazolla. Condenado à prisão e depois entregue à liberdade condicional, Guilherme passou a agir com arrogância, exigindo tratamento diferenciado da imprensa e ameaçando processar até a mãe da vítima, só porque ela lhe chamou de "psicopata".
O QUE QUEREM QUE ELE SEJA: Sem qualquer oportunidade de reaproveitá-lo como ator, setores da grande mídia querem ao menos que ele se transforme em sub-celebridade "polêmica" que sempre dá "declarações bombásticas" em programas de entretenimento.

CONCLUSÃO

Que essas pessoas tenham algum lugar ao "sol" da mídia do entretenimento comercial ou do cenário político-midiático dominante, vá lá, porque já existem interesses diversos que os protegem neste sentido.

Mas o problema é quando eles forem empurrados - e uns já são há um tempo - para representarem um "período glorioso", como o "sistema" quer fazer do período 1990-1992, começo de uma época de perdição e derrocada maciça de valores no Brasil.

Mais grave ainda é quando essa década for usada como modelo de progresso e modernização do país e, na perspectiva "espírita", significar a ascensão do país na comunidade das nações, usando esses "exemplos" para mostrar o que o país teria de "valioso" para ser o "coração do mundo". Se isso ocorrer, estaremos ferrados.