sábado, 9 de setembro de 2017

Mídia brasileira continua depreciando a mulher solteira


A mídia do entretenimento brasileira é famosa por glamourizar preconceitos sociais. Pobres, negros, mulheres, crianças, quem não representar o paradigma do macho, mais velho, branco, rico e poderoso acaba sendo manipulado pela mídia de forma que, em certos casos, abordagens pejorativas sejam promovidas como se fossem "qualidades positivas".

A mulher solteira é também vítima dessa manipulação midiática, comandada pela Rede Globo mas exercida também por suas concorrentes. E mais uma vez a apelação atinge as solteiras através da música "Tô Solteira de Novo", "continuação" do antigo sucesso da funkeira Valesca Popozuda, intitulado "Agora Eu Tô Solteira".

Alguém em sã consciência vai parar para pensar e constatar que uma solteira de verdade não se preocuparia em fazer "músicas de solteira". Isso não existe. No Primeiro Mundo, a mulher que se considera "solteira e feliz" não fica alardeando isso, ela fica falando de outros assuntos, sem ficar a todo momento falando em sensualidade ou sexo.

Valesca é das últimas "musas populares" que, após o fim do portal Ego - reduto do sensualismo obsessivo das "musas populares", que não raro beirava ao mau gosto gratuito - , vende uma imagem caricatural e forçada da "mulher solteira", se valendo sempre dos mesmos bordões que causam muita suspeita por serem sempre o mesmo texto.

São esses bordões: "Estou solteiríssima", "os homens fogem de medo de mim", "estou à procura de um príncipe encantado" e outras frases parecidas. Desde o sucesso do É O Tchan, ouvimos ou lemos diferentes mulheres dizendo a mesmíssima coisa, como se fosse um texto decorado.

Essas "musas" sempre estão a serviço de uma visão caricatural da mulher solteira no Brasil, voltada a uma sensualidade obsessiva, uma curtição compulsiva, um hedonismo extremamente forçado. É como se, sutilmente, a mídia trabalhasse a mulher solteira como uma desocupada que só fica preocupada em frequentar noitadas, ir à praia ou exibir suas "generosas formas corporais", geralmente com glúteos e bustos siliconados, piercing no umbigo e alguma tatuagem.

Valesca tenta, agora, promover uma imagem de "líder feminista" e está fazendo tratamento de redução de glúteos. Isso não adianta muito, porque ela sempre trabalhou uma "sensualidade" que está de acordo com os padrões machistas de mulher-objeto.

HIGIENISMO

Essa imagem extremamente caricata da mulher solteira tem dois propósitos, de caráter higienista e até mesmo eugenista. Um é desestimular, nas mulheres pobres, a busca de uma vida amorosa estável, evitando a união de homens e mulheres afins nas classes populares, impedindo a solidariedade conjugal e familiar que possa refletir na união comunitária e na ampliação dos movimentos populares.

Desta forma, crianças nascem sem a ideia da união conjugal do pai e da mãe. A figura paterna, associada a ações de enfrentamento e coragem - não que a figura da mãe não se associe também a ações deste nível, mas os contextos são outros - , é praticamente ausente ou, na melhor das hipóteses, distante e eventual, o que faz com que os meninos tenham dificuldade de aprender o que um homem adulto faz para vencer na vida.

Em comunidades ainda dominadas por valores retrógrados, como são as favelas e os subúrbios, herança da opressão coronelista de muitas pessoas vindas das zonas rurais para as cidades, novidades como a causa LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) são indigestas, ainda mais quando as religiões evangélicas, hostis a essa novidade, dominam o imaginário religioso do povo pobre.

A imagem "descontraída" e "livre" da "solteira que não tem medo de se divertir" e, a pretexto de expressar a "liberdade do corpo", exibe seu físico exagerado por uma demanda de machos, que lotam plateias, compram revistas e dão mais audiência à TV e à Internet por conta da "boazuda do momento", é feita para impedir que moças jovens pobres, que veem nas "musas" um ideal de ascensão social, se preocupem em se casarem e formarem famílias.

Isso faz com que a higienização social ocorra nos dois lados. Um, evitando que nasçam mais filhos nas classes populares, sobretudo negros, índios e mestiços. Outro é que, se caso as solteiras tiverem uma vida sexual descontrolada, a alta natividade de crianças é "compensada" pelos abusos da violência policial ou marginal, que dizimam tantos pobres inocentes, sem poupar crianças.

A ideia é estabelecer, a médio ou longo prazo, um "enxugamento" da população pobre, negra, índia ou mestiça, diminuindo a natividade. Através de uma "cultura" popularesca, difundida pelas redes de televisão, mostra mulheres de origem mestiça adotando uma postura caricatural da mulher hipersexualizada, e ídolos musicais com canções que falam de conflitos amorosos que soam como hipnoses para um público que também ouve tais músicas nas rádios FM regionais.

Por outro lado, nas classes mais abastadas, o processo é o inverso. Estimula-se o casamento à mulher de considerável instrução e que, embora dotada de beleza atrativa e formosura corporal, não se preocupa em vender a imagem de sexy o tempo inteiro. Ela pode até posar em fotos sensuais de vez em quando ou usar roupas sensuais, ainda que sem exageros, mas de vez em quando ela pode abrir mão da sensualidade e se ocupar em outras atividades.

Ainda que essa mulher, ao se casar, geralmente com um homem mais velho e que ocupa uma posição de comando ou liderança, leve uma vida de "solteira" - pelo menos comparecendo à maior parte dos eventos sem que o marido apareça ou tenha, ao menos, sua presença registrada em fotos - , o vínculo dela com seu cônjuge é um fator que o sistema de valores dominante no Brasil se empenha em manter estável e permanente.

Esta mulher se sente desencorajada a ficar solteira, ao ver que o paradigma da solteira vigente no Brasil é o da ociosa "sensual", a desocupada que só frequenta noitadas, usa tatuagem, exibe demais o corpo e não demonstra grandes qualidades intelectuais. No gosto musical, a "solteira" está associada às piores músicas que ouve através de rádios "populares" controladas por oligarquias empresariais locais.

Isso desestimula a mulher de perfil mais diferenciado de viver uma vida de solteira. A imagem de vulgaridade a constrange, fazendo com que a mulher diferenciada tenha que se apressar na vida amorosa, acolhendo o primeiro homem "mais influente" que aparece em seu caminho.

Essa tendência revela o quanto o feminismo, no Brasil, ainda tem que negociar com o machismo para ter algum espaço. Contraditoriamente, o machismo "aconselha" as mulheres emancipadas a se casarem, se vinculando à imagem masculina do "provedor", enquanto libera as mulheres que fazem o papel de "objetos sexuais" para ficarem sozinhas até não se sabe quando.

É como se o machismo tivesse que controlar os impulsos da mulher de se livrar do jugo machista. O machismo age para controlar a emancipação feminina, impondo a figura do marido poderoso, como se a mulher emancipada tivesse que ser domada pela figura machista do "provedor".

Por outro lado, as mulheres que fazem o papel de "brinquedos sexuais", mesmo quando se autoproclamam, tendenciosamente, "feministas" - algo feito, sobretudo, para agradar acadêmicos e ativistas culturais - , obedecem "por contra própria" as diretrizes machistas, sendo dispensadas da figura "reguladora" do marido.

No sentido da geração de filhos, nas classes abastadas se estimula a figura da família conjugal estável, do casamento que dura anos, mesmo que seja sem amor nem afinidades pessoais. A figura da mulher atraente por sua inteligência, charmosa e discreta, é associada ao marido poderoso (geralmente um empresário ou profissional liberal, tipo médico, economista e advogado), às vezes bem mais velho e mais sisudo, é feita também para permitir a formação social estável dos filhos.

Claro que também há problemas. Nas classes pobres, os filhos sentem uma forte tristeza ao verem outros casais de pais e mães com seus filhos, e, comparando com estes, se sentem "órfãos de pais vivos", a só ter o convívio paternal "de vez em quando" e, geralmente, com a companhia de outra mulher, não havendo o prazer das crianças pobres em ver seus pais biológicos unidos.

Já nas classes mais abastadas, os problemas são outros. Casais sem afinidade, mas forçadamente estáveis, transtornam os filhos de outra maneira. Embora eles estejam em situação confortável de viverem sob o casamento estável de seus genitores, eles percebem a falta de cumplicidade, não raro vendo a "solidão a dois" do casal, sobretudo quando a mãe se reúne com as amigas para falar mal do marido e este, com seus amigos, reclamar também da esposa.

Ser mãe solteira é mais complicado nas classes pobres do que nas classes abastadas, por razões óbvias. Mas há um elemento extra: a surreal situação de que casais afins, nas classes pobres, se dissolvem com muito mais facilidade que os casais abastados sem afinidade, que, quando se separam, enfrentam divórcios caríssimos e deixem perplexos amigos, sócios e colegas de trabalho.

Numa época em que os retrocessos sociais são retomados com toda a força, uma "saudável" abordagem da mulher solteira pela mídia do entretenimento esconde um processo muito perverso de higienização social, pois há a sutil preocupação de evitar que populações negras, índias e mestiças gerem mais descendentes, enquanto a população branca é estimulada a gerar filhos em relações estáveis e com formação social menos problemática.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Articulador do golpe político, Rio de Janeiro se perde em tantos (e graves) problemas


O Rio de Janeiro tem problemas cuja frequência e gravidade são preocupantes demais para serem considerados "normais para uma cidade moderna". Até porque o Estado do Rio de Janeiro e sua capital há muito deixaram de simbolizar alguma modernidade, vivendo agora um surto de provincianismo de assustar até matuto do Norte, e deixou de ser referência de progresso para o Brasil.

Enumeramos muitos e muitos problemas envolvendo não só a cidade do Rio de Janeiro, que vão além da violência ou da crise financeira, e incluem até mesmo a sua responsabilidade pelo golpe político já que, num surto de catarse moralista-administrativa, os cariocas puseram na Câmara dos Deputados reacionários como Eduardo Cunha (hoje cassado e preso) e Jair Bolsonaro (que segue impune depois de dar declarações claramente ofensivas a negros e mulheres).

Chega a soar estranho que o Rio de Janeiro não esteja incluído entre as cidades mais perigosas do país - na prática, é a capital brasileira mais perigosa para se viver - , num tendencioso levantamento estatístico que demonstrou claro preconceito contra os nordestinos, colocando em altas posições cidades consideradas tranquilas como Aracaju.

Este levantamento surreal, que colocou o Rio de Janeiro como a 23ª capital mais perigosa do país (algo equivalente como dizer, numa inversão de ranking, que a cidade é a 5ª capital mais tranquila do Brasil), mesmo com um bairro inteiro se "fortificando" contra a violência (o de Vila Kosmos, na região da Penha), é compreensível.

Explica-se: os dados do Rio foram colhidos entre 2014 e 2016, época de eventos turísticos de grande envergadura (Copa de 2014 e Olimpíadas Rio 2016) e auge do domínio político do grupo de Sérgio Cabral Filho, hoje preso por corrupção, e que também simbolizou o poder dos hoje denunciados Eduardo Paes e Luiz Fernando Pezão. Os dados "pacíficos" da ex-Cidade Maravilhosa foram uma maquiagem para não assustar os turistas nem os investidores.

Vamos enumerar os defeitos que contribuem, de uma maneira ou de outra, para a decadência do Estado do Rio de Janeiro e sua capital, e que contribuíram para a perda do status de "cidade-modelo" da cidade do Rio, que, mesmo com suas imperfeições, "ditava" o que poderia valer no país em termos de cultura, mercado, sociedade, mobilidade urbana etc.

1) VIOLÊNCIA - O crime organizado deixou-se crescer, pelo descaso político e outras falhas, desde os tempos da ditadura, quando perigosos assaltantes de banco foram alojados junto com presos políticos e, de conversa em conversa, os bandidos criaram organizações criminosas. O Rio de Janeiro vive o domínio do narcotráfico, da milícia e da contravenção que, juntos, apresentam práticas de violência que, em muitos momentos, lembram a pistolagem e o domínio coronelista dos latifúndios da região Norte.

2) ULTRACONSERVADORISMO - Os cariocas se revelaram, a partir dos anos 1990, algo que apenas estava latente neles depois do golpe de 1964: um certo ultraconservadorismo reacionário, que faz com que muitos indivíduos tenham um "pensamento único" para qualquer coisa, desprezando as diferenças do outro e criando uma perspectiva extremamente limitada, voltada à mesmice consumista das boates, praias e estádios de futebol. O Rio de Janeiro é famoso também por ser um reduto da direita ideológica, que prefere manter as desigualdades sociais entre pobres e ricos.

3) INTOLERÂNCIA - O Rio de Janeiro é um dos maiores redutos de bullying e cyberbullying no Brasil, por causa tanto da intolerância de muitos indivíduos à discordância alheia quanto à defesa do "estabelecido" por conta do status social de quem impõe certas medidas e valores retrógrados ou restritivos. A fúria em humilhar o outro, que produz ataques em massa nas redes sociais e blogues de conteúdo calunioso e difamatório, é tanta que os valentões são imprudentes. Suas páginas ofensivas são denunciadas para a Polícia Federal e suas visitas à cidade de residência de sua vítima são tão frequentes que chama a atenção de milicianos. Os valentões reagem com sua risada digital "KKKKK", até que sejam condenados, tenham seus computadores e celulares confiscados ou serem mortos por algum pistoleiro de ocasião.

4) MESMICE CULTURAL - O antigo vanguardismo e diversidade cultural dos cariocas está se dissolvendo, em razão da mentalidade consumista que predomina nos cariocas e nos fluminenses por associação. Enquanto a Bossa Nova é condenada ao esquecimento e a apreciação de MPB se restringe a eventos claramente saudosistas e o rock se limita a um gênero de one-hit wonders (artistas de um sucesso só), a mais recente gafe do momento (imagine um Deep Purple com longa trajetória, reduzido a um único sucesso, "Smoke on the Water"!), os cariocas estão mais receptivos ao canhestro "funk" e ao embuste chamado "sertanejo universitário". Chama a atenção também que, seja no pop dançante juvenil ou no pop adulto, os cariocas ficam ouvindo sempre um mesmo punhado de músicas. Fora do âmbito musical, a mesmice cultural revela apego à atrações da TV aberta, um cenário teatral reduzido a comédias americanizadas ou franquias de personagens infantis estrangeiros e a aberrações literárias como "livros para colorir" e diários de youtubers.

5) LAZER LIMITADO - Há uma piada que diz que é preciso apresentar o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e outros pontos turísticos para os cariocas. Os únicos pontos turísticos que os cariocas conhecem são as praias de Copacabana e Ipanema e o Maracanã. O lazer limitado ao consumo de celulares (Facebook e WhatsApp), à televisão, o apego à noitada e o fanatismo esportivo revelam que o carioca, para se divertir, está se tornando bastante repetitivo.

6) FANATISMO PELO FUTEBOL - O grande problema do Rio de Janeiro é que o fanatismo pelo futebol, que envolve quatro times (Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco), torna-se moeda corrente nas relações sociais. Muitos cariocas, quando querem conhecer alguém, perguntam seu time antes de perguntar seu nome. Além disso, há denúncias de que não gostar de futebol é fator determinante para o assédio moral, pois uma simples postura desse tipo é motivo para demissões no trabalho, e, com a reforma trabalhista, que liberou os patrões da fazerem o que querem, isso se torna ainda mais grave. O fanatismo pelo futebol só é considerado "natural" pelos cariocas, mas para os demais brasileiros isso é sinônimo de chatice e falta de assunto.

7) DESUMANIDADE - Os cariocas, tomados de tanto consumismo, precisam se reencontrar. A vida carioca tornou-se desprovida de humanidade. As pessoas estão menos preocupadas em arrumar amigos do que parceiros de alguma diversão (mas sempre aquela: noitadas, vôlei na praia, ver futebol no "Maraca" etc). Não há lugares para paquera se não os redutos caros e perigosos das boates. E as pessoas ainda carecem de alguma afeição, a ponto de extrovertidos esperarem que introvertidos se tornem extrovertidos e pessoas deprimidas virem piadistas para se "entrosar" com os cariocas. As mulheres são muito insensíveis para paquera e se esquecem que os homens também adoram serem amados.

8) APEGO AO STATUS QUO - Alguns retrocessos cariocas recentes, como rádios de rock feitas por quem NÃO é do ramo (Rádio Cidade), o falso folclore do "funk" e a pintura padronizada dos ônibus cariocas (uma medida que confunde passageiros e favorece a corrupção político-empresarial; que o diga a Operação Lava Jato que prendeu empresários cariocas de ônibus), chegaram ou chegam a prevalecer porque quem decidiu por tudo isso era gente ligada a algum status quo: tecnocratas do transporte trabalhando na Prefeitura do Rio, empresários do ramo de shows que se associam com rádios, acadêmicos que julgam ter uma visão "ideal" de "cultura popular" etc. Mas foi essa visão divinizada do "alto da pirâmide" que faz os cariocas endeusarem a Rede Globo e elegerem figuras "moralistas" como Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro. Os cariocas superestimam as pessoas pelo privilégio social que estas possuem.

9) CONTENTAMENTO COM POUCO - Existe uma piada em que o carioca, num restaurante, assim que chega um garçom, faz um único pedido: "Eu quero arroz, feijão, carne e alguma salada. O que todo mundo come. O que matar a fome, está bom demais". A ideia do carioca gostar do "básico" (que, em muitos casos, é abaixo do básico) faz com que limitações diversas como a falta de certos produtos nos mercados e a ausência de revistas e fotos raras nos sebos ou na Internet, além da repetição dos mesmos sucessos musicais em rádio FM - que envolve até os one-hit wonders forjados no segmento rock - revela o contentamento dos cariocas com pouco, o que mostra sua visão de mundo superficial e pragmática demais.

10) FALTA DE LOGÍSTICA - Os supermercados cariocas são ilustrativos. Há uma lentidão no reabastecimento de estoques, e a falta de percepção de que não se pode oferecer apenas "produtos básicos". Produtos mais baratos e diferenciados somem nos estoques e levam até um mês para serem repostos. Não há diversidade de produtos, e os mercados se concentram apenas em duas ou três marcas, complicando a concorrência e dificultando o barateamento dos preços. Além disso, o gerente parece se comportar como um boneco de corda que só age se houver pressão da freguesia, carecendo de visão estratégica para pressentir as necessidades da demanda.

11) PERDA DE SENTIDOS E SENTIMENTOS - O carioca deixou-se de emocionar, preferindo a catarse que favorece mais os instintos do que as emoções. Até a "emotividade religiosa", como vemos, por exemplo, no "espiritismo", são mais uma "masturbação com os olhos" nos quais pessoas se divertem às custas do sofrimento alheio, através do entretenimento das "estórias de dor e superação". Mas também deixou de sentir até mesmo o fedor do lixo em sua volta. Caminhões de lixo circulam fedorentos e mal-conservados pelas cidades do Grande Rio e as pessoas nem sentem mais o odor incômodo e asqueroso. Pessoas ficam na praia rindo e contando piadas com fezes de animais ao seu lado, sem que houvesse algum senso de repugnância. Isso gera até um trocadilho do Rio de Janeiro com a Síndrome de Riley Day (que faz a pessoa ser insensível à dor e outros sentidos), criando o apelido de "Riley Day Janeiro".

12) NITERÓI CONFORMADA EM SER QUINTAL DO RJ - Niterói era capital do Estado do Rio de Janeiro quando a cidade vizinha era capital do Brasil e, depois, da Guanabara. Quando veio a fusão, o antigo status de Niterói, que fazia o sonho de todo interiorano fluminense, ruiu aos poucos, mas o sinal mais evidente se deu nos anos 1990, quando a antiga Cidade Sorriso, fundada pelo valente Arariboia, passou a se comportar como uma cidade do interior, e, o que é pior, como uma cidade do interior que nem as cidades do interior querem mais ser. Uma mentalidade provinciana, matuta, indiferente e resignada a tudo, uma indigência cultural, coisa que não é diferente do que ocorre no município vizinho, mas em Niterói isso se torna ainda mais intenso. É preocupante essa sensação dos niteroienses em estarem felizes em serem província.

13) EXCESSO DE FUMANTES - É terrível como no Grande Rio as pessoas fumam cigarro, apesar de tantas campanhas de esclarecimento. E, mais grave, nem as mortes de pessoas que de alguma forma tiveram uma trajetória ligada ao fumo, como atores e jornalistas de TV mortos ainda na casa dos 60 anos e até menos, conseguem sensibilizar os fluminenses. E nem as notícias de amigos prematuramente falecidos por câncer ou infarto devido ao fumo. Há até mesmo o hábito de pessoas ficarem muito tempo com o cigarro na mão, quando poderiam abandonar o cigarro de vez.

14) ALTO CUSTO DE VIDA - Produtos e serviços, no Grande Rio, custam muito caro, o que justifica o aumento dos assaltos, porque muitos pobres não têm dinheiro sequer para comprar o mais barato dos almoços. Os fornecedores de serviços e os vendedores, assim como os empresários ligados, deveriam ter noção de que o dinheiro do povo não é capim e poderiam baixar serviços e produtos de forma a se tornarem mais acessíveis à população, garantindo movimentação de renda e impedindo o perecimento de produtos e a falência de empresas.

Esses catorze itens são apenas os principais. O Rio de Janeiro, Estado e capital, precisa de uma violenta mudança e reavaliação de sua realidade, de forma a, pelo menos, alcançar uma reputação mais respeitável. Do jeito que está, o Estado sucumbirá a uma decadência tão grande que até o Acre passará a se tornar mais moderno e cosmopolita. O Rio de Janeiro não pode mais "continuar sendo", tudo tem que mudar.

sábado, 17 de junho de 2017

Deturpadores agora querem "exaltar" espíritas brasileiros autênticos


A crise no "movimento espírita" se torna tão aguda, com as velhas e as mais recentes contradições sendo reveladas na Internet - só falta um "Joesley Batista" entregar os deturpadores ao establishment da opinião pública - , que seus dirigentes, palestrantes e "médiuns" estão apelando para tudo para evitar a decadência.

Paciência, eles fizeram suas más escolhas, que um dia acabam cobrando seu preço caro, uma conta que os infratores de outrora não querem pagar. A desonestidade doutrinária das traições em torno de Allan Kardec e a preferência original por J. B. Roustaing criou impasses que foram sendo maquiados pouco a pouco por essa doutrina que praticamente rompeu com o pedagogo de Lyon.

Como não podem afirmar a veracidade de tantas mediunidades fake, forjadas pelos "tarimbados" Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, eles tentaram se projetar pela aparente "filantropia". Mas como a "caridade" de Chico Xavier e Divaldo Franco não trouxe os resultados desejados, os "espíritas" então fazem todo tipo de malabarismo para se manterem em pé.

E aí o que é que estão fazendo ultimamente? Andam bajulando espíritas autênticos, como José Herculano Pires e Deolindo Amorim - um foi sobrinho do prosador caipira Cornélio Pires, outro pai do jornalista e "ansioso blogueiro" Paulo Henrique Amorim - , descrevendo fatos biográficos ou reproduzindo seus textos, como se a deturpação tivesse feito seu dever de aula com o Espiritismo mais genuíno.

Sabemos que não. Afinal, os "espíritas" deturpadores, que professam na verdade um Catolicismo paralelo que se encontra escancarado nas "casas espíritas", e nesses horrendos romances "espíritas" que parecem folhetins de segunda categoria - isso quando não é a ficção científica de baixa qualidade, como Nosso Lar - , nunca abririam mão desse igrejismo sem batina que tanto defendem e praticam.

Nas últimas décadas, o "movimento espírita" entrou numa fase de profunda hipocrisia e demagogia, como se ser contraditório fosse a receita do sucesso. Roustanguistas, seus membros apenas romperam com o "alto clero" da Federação "Espírita" Brasileira, que ficou isolado no seu roustanguismo ortodoxo.

Chama-se de "fase dúbia". Afinal, o "espiritismo" brasileiro passou a ter duas caras, saindo daquela linha assumidamente roustanguista do antigo presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas. A "fase dúbia" também rompeu com o poder central da FEB reafirmado pelo Pacto Áureo de 1949 e passou a enfatizar mais as federações regionais.

A "fase dúbia" do "espiritismo" brasileiro, que passou a se autodenominar "kardecismo" ou "espiritismo kardecista", na verdade nem de longe representa a volta aos postulados de Kardec, até porque as fontes kardecianas são ainda muito duvidosas. Apenas se trocou as traduções da FEB de Guillón Ribeiro pelas da IDE por Salvador Gentile. Mas o igrejismo, na essência, permanece o mesmo.

Trata-se, na prática, de um roustanguismo heterodoxo, acolhendo apenas na fachada os postulados espíritas originais e o eventual desfile de personagens da Ciência e do Ativismo Social mais autênticos. A "fase dúbia" permitiu aos roustanguistas mais regionais tentar agradar os espíritas autênticos e promover uma pretensa "fraternidade" que mais favorece os deturpadores, vistos como "conciliadores" e "tolerantes".

A manobra, que voltou com mais força, dos deturpadores que "vaticanizam" o Espiritismo em "valorizar" os exemplos dignos de Herculano e Deolindo, tem como objetivo criar um bom-mocismo entre determinadas personalidades da doutrina deturpada, sendo o mesmo apelo que víamos após o fim da fase Wantuil, em que todos os roustanguistas que não integravam a alta diretoria da FEB passaram a embarcar no navio da "retomada das bases kardecianas".

Evidentemente, os próprios deturpadores tentam fazer o público esquecer que Herculano e Deolindo fizeram duras críticas aos que praticam a Deturpação. Tem deturpador que fala mal de "falsos Constantinos que vaticanizam o Espiritismo", mas ele mesmo se traveste de um "falso Herculano" que fala em "pureza doutrinária" mas depois vai lá dizer amém a um livro mistificador de Chico Xavier.

Os deturpadores do Espiritismo tentam nos fazer crer que, exaltando os espíritas autênticos, promovem o "equilíbrio", a "tolerância", a "imparcialidade" e o "esquecimento das diferenças". Tentam trabalhar um estranho conceito de "fraternidade", em que o "esquecimento das diferenças" torna-se uma desculpa traiçoeira para que os deturpadores continuem no domínio ou, quando muito, sejam coadjuvantes oportunistas da aparente recuperação das bases doutrinárias.

É uma "fraternidade decidida de cima", se não dos escritórios centrais da FEB, ao menos de ilustres dirigentes "espíritas" regionais e seus festejados "médiuns". É como na frase-denúncia no livro Revolução dos Bichos de George Orwell: "Todos somos iguais, mas uns são mais iguais do que outros". De que adianta elogiar os espíritas autênticos se a deturpação igrejeira segue inteira?

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Pobre de direita: uma ameaça masoquista às classes populares


Um episódio terrível ocorreu em um ônibus de Niterói, ontem pela manhã. Um homem, negro, pobre e evangélico, estava reclamando da corrupção política e passou a fazer um discurso de defesa ao deputado Jair Bolsonaro, um dos símbolos da extrema-direita brasileira e considerado um grande ídolo no Grande Rio.

Com pontos de vista de valor duvidoso, mas suficientes para criar um clima de catarse coletiva dentro do veículo, os demais passageiros passaram a concordar com o rapaz, que ainda descreveu a fábula de Adão e Eva como se fosse um episódio da História da humanidade. Um verdadeiro espetáculo de burrice, de estupidez, mas que se impõe como se fosse uma verdade indiscutível.

Esse é o pobre de direita, que virou um fenômeno esquisito no Brasil. Um pobre que aceita o fim dos direitos trabalhistas, a venda de riquezas brasileiras para corporações estrangeiras e quer o país governado por pessoas autoritárias ou elitistas. O pobre de direita é um masoquista social, achando que, quanto mais o Brasil agir contra os pobres, melhor. O pobre direitista é, portanto, um lambedor de gravatas, um babador de paletós e de fardas militares.

O pobre deu um tiro no pé. Três dias antes, Jair Bolsonaro deu uma palestra numa instituição judaica, o Clube Hebraica, na zona sul do Rio de Janeiro. O "heroico homem" passou a difundir comentários racistas e machistas para uma plateia que assistia àquela estranha palestra.

Ele disse que ter uma filha era "fraquejada", demonstrando seu machismo, já conhecido em outras ocasiões, como na discussão com a deputada Maria do Rosário, contra a qual Jair declarou que "só não a estuprava porque ela era feia". E depois despejou comentários racistas que deixariam o passageiro do ônibus bastante preocupado, se ele tivesse consciência do que realmente falou.

Entre outras coisas, Jair Bolsonaro falou que o "afrodescendente" era incapaz até de procriação e que, se fosse presidente da República, ele não criaria áreas de terras para negros e indígenas. Isso é terrível, e a declaração causou indignação de setores do poder Judiciário e do Legislativo que, pelo menos, têm algum senso mínimo de humanidade.

Isso é muito perigoso. O Estado do Rio de Janeiro, sofrendo uma decadência vertiginosa, virando antro de fumantes, tendo a capital como cidade mais poluída do país, e, mesmo sendo um dos centros distribuidores de mercadorias, deixou de reabastecer com regularidade os seus mercados, sem falar que o Grande Rio tem os caminhões de lixo mais fedorentos, as ruas cheirando a fuligem e é o maior reduto de cyberbullies e de policiais truculentos no país.

Nós não somos necessariamente petistas, mas sabemos o quanto os opositores do governo Dilma estão abusando de seus preconceitos sociais. De repente sofremos um surto reacionário de gigantescas proporções e isso é um grande alerta. Especialistas sérios, juristas que estudam as leis com cautela e objetividade, alertam que o Brasil vive um clima semelhante ao da Alemanha do começo dos anos 1930.

A catarse coletiva dos reacionários, sempre furiosos quando os movimentos sociais se manifestam, mas tolamente alegres quando são os próprios direitistas que se envolvem em graves escândalos políticos, como se isso não fosse escândalo e sim uma piada de programa humorístico, é um fenômeno muito perigoso que deveria preocupar juristas e legisladores, se eles tivessem algum pingo de consideração ao ser humano.

Tudo virou uma epidemia de comentários racistas, machistas, rancorosos em geral, como se, em pleno século XXI, tivessem sido liberados todo tipo de visão desumana, ofensiva, depreciativa e reacionária. E uma parcela psicopata da sociedade acaba tendo uma forte esperança de ver um homem como Jair Bolsonaro comandando o Palácio do Planalto. Vai ser um pesadelo. Já tem gente querendo que ele seja governador do Rio de Janeiro. Será uma catástrofe sem tamanho!

Temos um Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal e as pessoas ainda vão dormir tranquilas. Ele está lá como advogado de Michel Temer, e já contradisse o que o próprio ministro do STF, anos antes, havia escrito em seus livros de direito. Ver alguém contrariando suas próprias ideias é de arrepiar os cabelos, mas as pessoas saem de casa tranquilas, achando que vivem os "dias mais felizes de todos os tempos".

Estamos numa catástrofe política no Brasil, num pesadelo sem fim. A despreocupação das pessoas é preocupante, porque o Brasil está desgovernado, caótico, desordeiro, retrógrado. Recentemente, o ator José Mayer, antes uma figura de prestígio inabalável, foi denunciado por assédio sexual por tocar numa genitália de uma figurinista, Susllem Tonani, e causou grande revolta no país.

Jair Bolsonaro fez apologia ao estupro, mas como ele discutiu com uma deputada do PT e não com uma jornalista da Globo - se ele tivesse discutido com Miriam Leitão e dito a mesma coisa, talvez tivesse dificuldades de contornar o escândalo - , tudo ficou nisso mesmo.

E o "espiritismo", como fica? Os palestrantes, tão cheios de palavras bonitinhas, só ficam dizendo para os sofredores "suportarem as desgraças" e "perdoarem os abusos dos algozes", mais compactuando com o egoísmo que dizem condenar. Ficam tão vagamente reprovando o egoísmo e o materialismo, mas da forma como pregam as elites só ficam gratas a essa Teologia do Sofrimento fantasiada de "postulados de Allan Kardec" (ele reprovaria tudo isso que os "espíritas" daqui fazem).

As pessoas precisam reagir, porque o Brasil está tomado por elites retrógradas que veem o topo da pirâmide arder em chamas - é o "inferno na torre" - e tentam jogar o ônus da decadência para os "de baixo". É preciso dar um freio a esse pessoal porque o Brasil corre um grave risco de sucumbir ao obscurantismo mais repressivo, a um holocausto que não saberemos como se dará. É preciso realizar uma faxina nessa ponta da pirâmide cada vez marcada pela podridão mais doentia.

sábado, 1 de abril de 2017

Divaldo Franco fez juízo de valor contra refugiados do Oriente Médio


Imagine a seguinte situação. Você e seus familiares vivem em uma cidade onde os atentados a bomba e tiroteios ocorrem nas proximidades. Sua casa é um potencial alvo de bombardeios. Barulhos de explosões e de tiros são constantes na madrugada, de forma a impedir que as pessoas tenham um sono tranquilo.

Você e seus familiares, evidentemente, vão arrumar as malas com tudo o que podem levar e, com muito sacrifício, se juntar a multidões que iniciam sua peregrinação difícil para se mudarem para outro país. Escolhem um país europeu para se exilarem, não pela aparente imponência do Velho Continente, mas porque lá há um nível menor de insegurança, com mais chances de viver num ambiente de paz e tranquilidade.

Vocês se instalam num país europeu e decidem trabalhar em empregos modestos, mas que possam garantir renda para manter o aluguel, uma alimentação minimamente digna e algum entretenimento para distrair as mentes cansadas e traumatizadas.

Mas, de repente, longe de suas casas, um palestrante religioso, dotado do mais alto prestígio entre os seus, tido como "sábio" e supostamente em contato com as mais altas esferas da espiritualidade, acusa você e seus familiares de terem sido sanguinários colonizadores europeus, que dizimaram povos na América Latina e que, por isso, vão pagar as consequências dos delitos de vidas passadas.

Você e seus familiares, enfrentando com a mais possível calma e um mínimo de habilidade, as dificuldades para viver num outro país, porque o país de origem virou um cenário de guerra. Todos tentam arrumar suas vidas, com calma e perseverança, se alegrando com as pequenas conquistas alcançadas, e vem um ídolo religioso, à distância, acusar vocês de terem sido colonizadores com sede de sangue, que retornaram à Europa em busca de antigos privilégios.

Pois é justamente isso que foi o julgamento de valor de ninguém menos que o anti-médium baiano Divaldo Pereira Franco, um habilidoso manipulador de palavras e dono de um discurso rebuscado. Tido como "sábio" e considerado "unanimidade" religiosa, veio com a seguinte "pérola" ao ser entrevistado para um periódico português durante um congresso "espírita" na Espanha:

"No campo das deduções e de acordo com o meu pensamento, penso que aqueles que estão hoje, de volta à Europa, são os antigos colonizadores que deixaram, até hoje, a América Latina na miséria.
Como foi negado todo o direito aos seus residentes, como aculturaram os silvícolas, destruindo culturas veneráveis, pela Lei de Causa e Efeito aqueles estão retornando hoje à pátria, no estado de miséria, e que ameaçam os próprios países de onde saíram, para, um dia, buscarem a fortuna para o conforto europeu. 

Mas, também me recordo dos grandes problemas que estão a acontecer no antigo Levante, graças às tropas muçulmanas. “O Homem é o lobo do Homem” e, verificamos que estamos a transformar este lobo em cordeiro. Como sou otimista, acredito que em breve, o lobo e o cordeiro beberão no mesmo regato, em fraternidade. Já vemos muitas dessas uniões, através da educação que é proporcionada, e nós vemos isso na Internet, diariamente. Porque não, na realidade, amanhã?".

Terrível julgamento de valor seguido ainda de ideias truncadas sobre o "lobo" e o "cordeiro". Um típico deturpador da Doutrina Espírita, que comete a hipocrisia de se autoproclamar "rigorosamente fiel" a Allan Kardec, mesmo contrariando seus ensinamentos - Divaldo acredita, por exemplo, em fantasias como "crianças-índigo" - , usa seu prestígio religioso para acusar os refugiados dos países asiáticos e africanos do Oriente Médio de terem sido "antigos colonizadores em busca de fortuna".

Depois, no morde-e-assopra de sua retórica espetacular, com seu exército de palavras de pretensa erudição, Divaldo não parece claro diante de sua exposição prolixa sobre a ideia de que o "homem é o lobo do homem". Até que ponto Divaldo fala na intenção de transformar o lobo em cordeiro, se para o bem e para o mal, não dá para entender.

Além disso, ele tenta um conceito igrejista de "fraternidade" - mais próxima de um "gado" ou "rebanho", como reza o Catolicismo medieval, do que do convívio harmônico da sociodiversidade humana - , embora também não deixe claro que "uniões" ele fala de "lobos" e "cordeiros" na "educação proporcionada na Internet".

A julgar da tendência comum, nós, que fundimos a cuca diante desse relato prolixo de Divaldo Franco, indagamos se a tal "união entre lobos e cordeiros" não seria os ataques de cyberbullying que os valentões fazem contra as pessoas pouco convencionais, apoiados por demais internautas que pareciam simpáticos e admiráveis. Seriam os "lobos" que chamam os "cordeiros" para humilhar as "ovelhas negras" nas redes sociais?

Muitas pessoas que recorreram a tratamentos espirituais nas "casas espíritas" - algumas delas tidas como de "alto conceito" - reclamam que, em vez de conseguir superar as dificuldades que as inspiraram a tão arriscado socorro, conseguiram mais azar, e não raro pessoas vão fazer tratamento para depois serem vítimas de bullying na Internet e alvo de páginas ofensivas das quais eles têm alguma dificuldade de denunciar sem sofrer alguma represália.

O que Divaldo Franco fez não merece aprovação alguma e põe em xeque seu aparente prestígio, conseguido em milionárias palestras feitas para elites embevecidas. É algo que nem a pose de humildade nem uma suposta filantropia que não ajuda mais do que 0,01% do povo brasileiro, consegue atenuar, pois o julgamento de valor, mesmo em tenras palavras, é de uma gravidade sem tamanho.

Será que Divaldo Franco gostaria de ser acusado de ter sido, em antiga encarnação, um antigo sacerdote medieval europeu que, designado para colaborar com Anchieta e companhia na dizimação cultural das crenças indígenas no Brasil, regressou séculos depois à Europa para usufruir de confortáveis palestras cheias de pompa e receber prêmios dos ricos e poderosos?

Deve-se levar em conta que seu "espiritismo" deturpado não tem moral para atribuir encarnação passada aqui e ali, e, além disso, Kardec recomenda o esquecimento de vidas passadas para evitar situações e sentimentos desagradáveis ou exagerados. Além disso, os refugiados, pelas dificuldades que sofrem, merecem respeito, e não é o prestígio religioso que permitirá juízos de valor severos contra pessoas que não têm como recorrer para processar alguém por danos morais.

sábado, 25 de março de 2017

Terceirização e reformas trarão prejuízo aos brasileiros


Quando houve, no ano passado, a queda de Dilma Rousseff e a ascensão de seu vice, Michel Temer, que rompeu com a titular e abraçou um projeto político ultraconservador, uma boa parcela dos brasileiros se iludiu com o aparato de status e prestígio social do presidente.

A impressão que se tinha é que um presidente de perfil moderado, dotado de uma equipe dotada de competência técnica e prestígio político havia chegado ao poder. Gente tida como responsável, defensora da Família, associada a paradigmas de moralidade velhos, porém ainda tidos como sagrados. O governo Temer tentava passar essa imagem, associada à disciplina e à precisão cirúrgica da capacidade administrativa.

Tudo isso se revelou uma ilusão. Uma sucessão de escândalos políticos, até hoje se acumulando nesse histórico, tornaram o governo Temer uma grande vergonha nacional, embora os brasileiros mais convencionais vissem tais escândalos como se fossem um programa de comédia da TV.

Só que isso não tem a menor graça. Está em andamento uma série de medidas amargas que trarão sérios prejuízos para a vida dos brasileiros, inclusive para aqueles que acham que podem dormir tranquilos diante desse governo cheio de gravíssimos escândalos de corrupção.

Várias delas já foram aprovadas ou estão perto de serem sancionadas pelo sombrio presidente. O congelamento das verbas públicas para os próximos 20 anos deixará setores como Educação e Saúde mais precarizados, forçando apelar para a iniciativa privada, que nem está aí para o interesse público.

Na fila de aprovação, tem-se a terceirização para atividades-fim. O que deveria ser feito era regulamentar a terceirização apenas para atividades-meio, estabelecendo limites para os abusos dos empregadores, mas, infelizmente, o que se fez foi ampliar a terceirização para atividades-fim e dar sinal verde para os patrões tratarem os empregados feito gato e sapato.

Nesta proposta, os trabalhadores deixarão de ter vínculo empregatício com a empresa em que trabalham. Haverá um contratante que fornecerá a mão-de-obra para a prestadora de serviços. Em muitos casos, isso permitirá a "pejotização", termo baseado na sigla PJ, pessoa jurídica, que transformará cada trabalhador em uma empresa-fantasma para assim dispensar dos patrões o cumprimento de obrigações trabalhistas.

Outra armadilha será a "quarteirização", espécie de terceirização ampliada. Na quarteirização, haverá um contratante, outro intermediário e uma empresa que "acolhe" o trabalhador, como prestadora. O trabalhador terá dificuldades para processar, até porque também perderá direitos trabalhistas e deixará de ser um empregado nos moldes formais. A terceirização nivela o emprego aos padrões do mercado informal.

O trabalhador perderá os encargos e as remunerações adicionais, ainda que como ajuda de custo. Se o trabalhador, por exemplo, ganhava R$ 5.500 mais alguma remuneração extra para transporte, alimentação e outros gastos, essa remuneração extra é eliminada e o referido salário incluirá essas despesas.

Somada à reforma trabalhista e à reforma da Previdência Social, o trabalhador terceirizado ainda viverá novos dramas. Poderá trabalhar numa jornada diária maior, sem receber mais por isso, talvez até recebendo menos. Sobrecarregado, poderá sofrer acidente de trabalho e morrer. Sendo seriamente ferido, será demitido e/ou não terá assistência médica, tendo que pagar pelo sistema privado, porque a essas alturas o SUS, Sistema Único de Saúde, será sucateado com as verbas no freezer.

No caso da aposentadoria, existe a proposta de idade para 65 anos, tanto para homem e para mulher, e o tempo de 49 anos de contribuição. Boa parte das cidades brasileiras tem expectativa de vida nesta mesma idade. Na hora de se aposentar, o trabalhador já foi sepultado ou cremado. No caso do tempo de contribuição, então, o trabalhador pode morrer e ainda estar no seu processo de contribuição à Previdência Social.

Isso é terrível. Já se fala em genocídio silencioso, porque tudo o que o governo Temer quer fazer, sob a desculpa de "estimular o crescimento", é degradar o trabalho assalariado de forma a desgastar progressivamente os trabalhadores e sufocar, sutilmente, qualquer esforço de sobrevivência.

E o "espiritismo", com isso? Os palestrantes "espíritas" só ficam apelando para "aceitar o sofrimento", com uma série de falácias que vão desde as rimas simplórias de um tal de "poeta alegre" aos apelos um tanto hipócritas sobre o "ser e o ter". Isso porque os palestrantes "espíritas" não sofrem aquilo que aconselham aos desafortunados da sorte.

Para eles, tanto faz pedir ao trabalhador terceirizado apenas "trabalhar e ter fé". O bombardeio de textos "espíritas" dizendo para abrir mão de necessidades, revisar projetos de vida partindo do zero, abandonar desejos e anseios, é enorme e preocupante, e tudo isso parece "lindo", mas vai um palestrante "espírita" viver aquilo que ele aconselha ao outro. O palestrante não iria gostar.

O "espiritismo" é um reflexo dessa sociedade conservadora, hipócrita. É difundido por supostos médiuns dotados do culto de personalidade, vaidosos em serem os centros do espetáculo de entretenimento da fé religiosa, com suas palestras verborrágicas e suas exibições de pretensa mediunidade, que mais parecem ilusionismo ou produção de mensagens apócrifas.

E tudo isso é defendido como se fosse autêntico. Afinal, as desculpas se apoiam no deslumbramento religioso, que protege até o mais charlatão dos anti-médiuns. Simulacro de humildade, arremedo de filantropia, que mais ajuda o "benfeitor" do que o necessitado, sempre protegem esses astros do "espiritismo", que nunca promove o verdadeiro Conhecimento e ainda recomenda outrem a aceitar e até amar o sofrimento. O "espiritismo" já terceiriza a vida humana há muito tempo.

domingo, 12 de março de 2017

Os pesos e medidas diferentes na Justiça e na Internet


Estamos em risco, nesses tempos de convulsões sociais. E isso cria uma realidade desigual, mas igualmente perigosa. A repressão a trabalhos investigativos, por um lado, e a tolerância a atos de difamações digitais, por outro, revelam o quanto se compreende muito mal a ideia de liberdade e ética.

Do tucano mineiro Eduardo Azeredo, que enquanto senador queria votar leis de restrição à liberdade de informação na Internet, até o hoje ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, ordenar a retirada da entrevista do ex-ministro da Justiça da ex-presidenta Dilma Rousseff, Eugênio Aragão, por conter informações tidas como "inverídicas".

Moraes, aliás, antecessor de Aragão na pasta ministerial, é conhecido pela atuação repressiva. Como secretário de Segurança Pública do governador paulista Geraldo Alckmin, ele investiu em violenta repressão policial contra estudantes que se manifestavam pacificamente contra a reforma educacional do governo paulista. A ação se repetiu contra movimentos sociais que, em Brasília, protestavam contra a PEC dos Gastos Públicos em Brasília.

A investida contra Eugênio Aragão, o que sugere a oficialização de um Judiciário policialesco, é motivada pelo fato deste ser ligado ao PT, o que faz muitos cidadãos torcerem o nariz. Mas a atuação de Aragão não tem cunho ideológico, e em suas entrevistas ele se manifestou um profundo conhecedor de leis.

Moraes, em contrapartida, entrou no STF por indicação do presidente Michel Temer, que não tinha condições para tal tarefa, já que era um usurpador de poder político, um impedido político - proibido de concorrer a novos cargos eletivos, por conta de um crime eleitoral em 2014 - e que conquistou a República sem legitimidade popular e com um projeto político que daria sempre errado nas urnas.

Moraes também é acusado de ter feito plágios em seus livros sobre direito, de obras de um jurista espanhol falecido no ano passado. Moraes jura ter citado o autor em referências bibliográficas. Mas, também, plágio não vem ao caso, quando o status social fala mais alto.

Vemos o caso de Francisco Cândido Xavier. O aclamado Chico Xavier cometeu muitos plágios literários nas obras que usam os nomes de autores mortos, e cometeu até a aberração de copiar um capítulo de um livro cômico de Humberto de Campos, O Brasil Anedótico, para compor um capítulo no tendencioso Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, atribuído oficialmente ao autor maranhense.

Chegamos ao ponto deplorável de permitir que uma parcela de cidadãos se apropriasse dos nomes dos mortos, escrevendo (ou falando, ou pintando) mensagens apócrifas, que destoam dos aspectos pessoais dos falecidos, em que pese aparentes semelhanças. Basta usar o pretexto da caridade e ter algum prestígio religioso para usurpar o morto de sua escolha e escrever em seu nome qualquer mensagem de propagandismo religioso.

Infelizmente, em casos assim, a Justiça não pega. Se alguém possui prestígio religioso, tem alguma casa "filantrópica" (uma "casa espírita" que faz assistencialismo) e constrói um carisma com palestras de palavras bonitinhas, a única hipótese de um juiz abordá-lo é para pedir um autógrafo, um abraço e ser fotografado ao lado do suposto médium publicada alegremente nas colunas sociais.

Ser tucano e "espírita" tem dessas blindagens. Enquanto isso, se alguém tem um trabalho investigativo que vai contra os interesses dominantes, ou alguém não corrobora com certos posicionamentos, aí há tanto o risco da censura pela Justiça quanto pelo reacionarismo de internautas valentões.

Enquanto entrevistas como a de Eugênio Aragão recebem notificação para serem retiradas do ar, ocorrem livremente as publicações de páginas ofensivas na Internet. Páginas de ofensas e difamações são impunemente mantidas, e haja trabalheira para acionar o Safernet e sair pedindo ajuda para apoiar na denúncia da página ofensiva, que só é retirada do ar quando a vítima, ainda que "incômoda ao sistema", possui uma notável visibilidade.

Se essa visibilidade não existe, a página é mantida. E isso é horrível. Vê-se dois pesos e duas medidas, em que páginas que colaboram com a informação mais transparente, ainda que invista em denúncia, principalmente contra o grupo político que está no poder, são condenadas a saírem do ar, enquanto páginas de calúnias e difamação continuam no ar, numa boa.

Não estamos aqui falando de petismo, de esquerdismo ou coisa parecida. Aqui não se está falando de ideologia, mas de ética. A gente observa que existem irregularidades do lado da plutocracia política e não se pode publicar trabalhos profundamente investigativos sobre certas personalidades.

Por outro lado, há até engraçadinhos publicando páginas ofensivas de "comentários críticos", "piadas hilárias", "humor divertido" e outras barbaridades e se precisa gastar horas na Defensoria Pública ou no Ministério Público para banir as páginas, levando semanas e com o risco de contrapartida de um advogado alegando que "não há conteúdo ofensivo".

E isso quando o agressor não sai de seu quarto onde usa o computador para ir à cidade do desafeto para fazer ameaças, até de morte. É verdade que um cyberbullying é um imprudente por excelência, mas até ele, na sanha em perseguir seu desafeto, se esbarrar no cano de revólver de um miliciano - que estranha as visitas do valentão num mesmo lugar, achando que é alguém de quadrilha rival - , a ameaça assusta e deixa a vítima insegura.

Esses fatos todos revelam uma realidade que nos põe a pensar. Que ética queremos? Que transparência queremos? Que liberdade queremos? Usar o status quo como peso social - que favorece, nos planos mais rasteiros, os valentões que são tidos como "os mais divertidos" nas redes sociais - não é suficiente para garantir a justiça humana.

Nem o prestígio religioso pode permitir abusos como usurpar pessoas mortas e mandar mensagem qualquer nota de propaganda religiosa. Fazer isso e depois se "esconder" por trás de crianças pobres e velhinhos doentes não pode ser visto como atestado de honestidade, mas fuga de possíveis acusações e processos.

Os valentões da Internet, os politiqueiros do Judiciário, também não podem cometer abusos como se fossem os donos da verdade. Devemos deixar de lado o critério do prestígio social e evitar as carteiradas diversas que só fazem com que a justiça social seja sempre desigual, desumana e humilhante.