sábado, 17 de junho de 2017

Deturpadores agora querem "exaltar" espíritas brasileiros autênticos


A crise no "movimento espírita" se torna tão aguda, com as velhas e as mais recentes contradições sendo reveladas na Internet - só falta um "Joesley Batista" entregar os deturpadores ao establishment da opinião pública - , que seus dirigentes, palestrantes e "médiuns" estão apelando para tudo para evitar a decadência.

Paciência, eles fizeram suas más escolhas, que um dia acabam cobrando seu preço caro, uma conta que os infratores de outrora não querem pagar. A desonestidade doutrinária das traições em torno de Allan Kardec e a preferência original por J. B. Roustaing criou impasses que foram sendo maquiados pouco a pouco por essa doutrina que praticamente rompeu com o pedagogo de Lyon.

Como não podem afirmar a veracidade de tantas mediunidades fake, forjadas pelos "tarimbados" Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, eles tentaram se projetar pela aparente "filantropia". Mas como a "caridade" de Chico Xavier e Divaldo Franco não trouxe os resultados desejados, os "espíritas" então fazem todo tipo de malabarismo para se manterem em pé.

E aí o que é que estão fazendo ultimamente? Andam bajulando espíritas autênticos, como José Herculano Pires e Deolindo Amorim - um foi sobrinho do prosador caipira Cornélio Pires, outro pai do jornalista e "ansioso blogueiro" Paulo Henrique Amorim - , descrevendo fatos biográficos ou reproduzindo seus textos, como se a deturpação tivesse feito seu dever de aula com o Espiritismo mais genuíno.

Sabemos que não. Afinal, os "espíritas" deturpadores, que professam na verdade um Catolicismo paralelo que se encontra escancarado nas "casas espíritas", e nesses horrendos romances "espíritas" que parecem folhetins de segunda categoria - isso quando não é a ficção científica de baixa qualidade, como Nosso Lar - , nunca abririam mão desse igrejismo sem batina que tanto defendem e praticam.

Nas últimas décadas, o "movimento espírita" entrou numa fase de profunda hipocrisia e demagogia, como se ser contraditório fosse a receita do sucesso. Roustanguistas, seus membros apenas romperam com o "alto clero" da Federação "Espírita" Brasileira, que ficou isolado no seu roustanguismo ortodoxo.

Chama-se de "fase dúbia". Afinal, o "espiritismo" brasileiro passou a ter duas caras, saindo daquela linha assumidamente roustanguista do antigo presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas. A "fase dúbia" também rompeu com o poder central da FEB reafirmado pelo Pacto Áureo de 1949 e passou a enfatizar mais as federações regionais.

A "fase dúbia" do "espiritismo" brasileiro, que passou a se autodenominar "kardecismo" ou "espiritismo kardecista", na verdade nem de longe representa a volta aos postulados de Kardec, até porque as fontes kardecianas são ainda muito duvidosas. Apenas se trocou as traduções da FEB de Guillón Ribeiro pelas da IDE por Salvador Gentile. Mas o igrejismo, na essência, permanece o mesmo.

Trata-se, na prática, de um roustanguismo heterodoxo, acolhendo apenas na fachada os postulados espíritas originais e o eventual desfile de personagens da Ciência e do Ativismo Social mais autênticos. A "fase dúbia" permitiu aos roustanguistas mais regionais tentar agradar os espíritas autênticos e promover uma pretensa "fraternidade" que mais favorece os deturpadores, vistos como "conciliadores" e "tolerantes".

A manobra, que voltou com mais força, dos deturpadores que "vaticanizam" o Espiritismo em "valorizar" os exemplos dignos de Herculano e Deolindo, tem como objetivo criar um bom-mocismo entre determinadas personalidades da doutrina deturpada, sendo o mesmo apelo que víamos após o fim da fase Wantuil, em que todos os roustanguistas que não integravam a alta diretoria da FEB passaram a embarcar no navio da "retomada das bases kardecianas".

Evidentemente, os próprios deturpadores tentam fazer o público esquecer que Herculano e Deolindo fizeram duras críticas aos que praticam a Deturpação. Tem deturpador que fala mal de "falsos Constantinos que vaticanizam o Espiritismo", mas ele mesmo se traveste de um "falso Herculano" que fala em "pureza doutrinária" mas depois vai lá dizer amém a um livro mistificador de Chico Xavier.

Os deturpadores do Espiritismo tentam nos fazer crer que, exaltando os espíritas autênticos, promovem o "equilíbrio", a "tolerância", a "imparcialidade" e o "esquecimento das diferenças". Tentam trabalhar um estranho conceito de "fraternidade", em que o "esquecimento das diferenças" torna-se uma desculpa traiçoeira para que os deturpadores continuem no domínio ou, quando muito, sejam coadjuvantes oportunistas da aparente recuperação das bases doutrinárias.

É uma "fraternidade decidida de cima", se não dos escritórios centrais da FEB, ao menos de ilustres dirigentes "espíritas" regionais e seus festejados "médiuns". É como na frase-denúncia no livro Revolução dos Bichos de George Orwell: "Todos somos iguais, mas uns são mais iguais do que outros". De que adianta elogiar os espíritas autênticos se a deturpação igrejeira segue inteira?

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Pobre de direita: uma ameaça masoquista às classes populares


Um episódio terrível ocorreu em um ônibus de Niterói, ontem pela manhã. Um homem, negro, pobre e evangélico, estava reclamando da corrupção política e passou a fazer um discurso de defesa ao deputado Jair Bolsonaro, um dos símbolos da extrema-direita brasileira e considerado um grande ídolo no Grande Rio.

Com pontos de vista de valor duvidoso, mas suficientes para criar um clima de catarse coletiva dentro do veículo, os demais passageiros passaram a concordar com o rapaz, que ainda descreveu a fábula de Adão e Eva como se fosse um episódio da História da humanidade. Um verdadeiro espetáculo de burrice, de estupidez, mas que se impõe como se fosse uma verdade indiscutível.

Esse é o pobre de direita, que virou um fenômeno esquisito no Brasil. Um pobre que aceita o fim dos direitos trabalhistas, a venda de riquezas brasileiras para corporações estrangeiras e quer o país governado por pessoas autoritárias ou elitistas. O pobre de direita é um masoquista social, achando que, quanto mais o Brasil agir contra os pobres, melhor. O pobre direitista é, portanto, um lambedor de gravatas, um babador de paletós e de fardas militares.

O pobre deu um tiro no pé. Três dias antes, Jair Bolsonaro deu uma palestra numa instituição judaica, o Clube Hebraica, na zona sul do Rio de Janeiro. O "heroico homem" passou a difundir comentários racistas e machistas para uma plateia que assistia àquela estranha palestra.

Ele disse que ter uma filha era "fraquejada", demonstrando seu machismo, já conhecido em outras ocasiões, como na discussão com a deputada Maria do Rosário, contra a qual Jair declarou que "só não a estuprava porque ela era feia". E depois despejou comentários racistas que deixariam o passageiro do ônibus bastante preocupado, se ele tivesse consciência do que realmente falou.

Entre outras coisas, Jair Bolsonaro falou que o "afrodescendente" era incapaz até de procriação e que, se fosse presidente da República, ele não criaria áreas de terras para negros e indígenas. Isso é terrível, e a declaração causou indignação de setores do poder Judiciário e do Legislativo que, pelo menos, têm algum senso mínimo de humanidade.

Isso é muito perigoso. O Estado do Rio de Janeiro, sofrendo uma decadência vertiginosa, virando antro de fumantes, tendo a capital como cidade mais poluída do país, e, mesmo sendo um dos centros distribuidores de mercadorias, deixou de reabastecer com regularidade os seus mercados, sem falar que o Grande Rio tem os caminhões de lixo mais fedorentos, as ruas cheirando a fuligem e é o maior reduto de cyberbullies e de policiais truculentos no país.

Nós não somos necessariamente petistas, mas sabemos o quanto os opositores do governo Dilma estão abusando de seus preconceitos sociais. De repente sofremos um surto reacionário de gigantescas proporções e isso é um grande alerta. Especialistas sérios, juristas que estudam as leis com cautela e objetividade, alertam que o Brasil vive um clima semelhante ao da Alemanha do começo dos anos 1930.

A catarse coletiva dos reacionários, sempre furiosos quando os movimentos sociais se manifestam, mas tolamente alegres quando são os próprios direitistas que se envolvem em graves escândalos políticos, como se isso não fosse escândalo e sim uma piada de programa humorístico, é um fenômeno muito perigoso que deveria preocupar juristas e legisladores, se eles tivessem algum pingo de consideração ao ser humano.

Tudo virou uma epidemia de comentários racistas, machistas, rancorosos em geral, como se, em pleno século XXI, tivessem sido liberados todo tipo de visão desumana, ofensiva, depreciativa e reacionária. E uma parcela psicopata da sociedade acaba tendo uma forte esperança de ver um homem como Jair Bolsonaro comandando o Palácio do Planalto. Vai ser um pesadelo. Já tem gente querendo que ele seja governador do Rio de Janeiro. Será uma catástrofe sem tamanho!

Temos um Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal e as pessoas ainda vão dormir tranquilas. Ele está lá como advogado de Michel Temer, e já contradisse o que o próprio ministro do STF, anos antes, havia escrito em seus livros de direito. Ver alguém contrariando suas próprias ideias é de arrepiar os cabelos, mas as pessoas saem de casa tranquilas, achando que vivem os "dias mais felizes de todos os tempos".

Estamos numa catástrofe política no Brasil, num pesadelo sem fim. A despreocupação das pessoas é preocupante, porque o Brasil está desgovernado, caótico, desordeiro, retrógrado. Recentemente, o ator José Mayer, antes uma figura de prestígio inabalável, foi denunciado por assédio sexual por tocar numa genitália de uma figurinista, Susllem Tonani, e causou grande revolta no país.

Jair Bolsonaro fez apologia ao estupro, mas como ele discutiu com uma deputada do PT e não com uma jornalista da Globo - se ele tivesse discutido com Miriam Leitão e dito a mesma coisa, talvez tivesse dificuldades de contornar o escândalo - , tudo ficou nisso mesmo.

E o "espiritismo", como fica? Os palestrantes, tão cheios de palavras bonitinhas, só ficam dizendo para os sofredores "suportarem as desgraças" e "perdoarem os abusos dos algozes", mais compactuando com o egoísmo que dizem condenar. Ficam tão vagamente reprovando o egoísmo e o materialismo, mas da forma como pregam as elites só ficam gratas a essa Teologia do Sofrimento fantasiada de "postulados de Allan Kardec" (ele reprovaria tudo isso que os "espíritas" daqui fazem).

As pessoas precisam reagir, porque o Brasil está tomado por elites retrógradas que veem o topo da pirâmide arder em chamas - é o "inferno na torre" - e tentam jogar o ônus da decadência para os "de baixo". É preciso dar um freio a esse pessoal porque o Brasil corre um grave risco de sucumbir ao obscurantismo mais repressivo, a um holocausto que não saberemos como se dará. É preciso realizar uma faxina nessa ponta da pirâmide cada vez marcada pela podridão mais doentia.

sábado, 1 de abril de 2017

Divaldo Franco fez juízo de valor contra refugiados do Oriente Médio


Imagine a seguinte situação. Você e seus familiares vivem em uma cidade onde os atentados a bomba e tiroteios ocorrem nas proximidades. Sua casa é um potencial alvo de bombardeios. Barulhos de explosões e de tiros são constantes na madrugada, de forma a impedir que as pessoas tenham um sono tranquilo.

Você e seus familiares, evidentemente, vão arrumar as malas com tudo o que podem levar e, com muito sacrifício, se juntar a multidões que iniciam sua peregrinação difícil para se mudarem para outro país. Escolhem um país europeu para se exilarem, não pela aparente imponência do Velho Continente, mas porque lá há um nível menor de insegurança, com mais chances de viver num ambiente de paz e tranquilidade.

Vocês se instalam num país europeu e decidem trabalhar em empregos modestos, mas que possam garantir renda para manter o aluguel, uma alimentação minimamente digna e algum entretenimento para distrair as mentes cansadas e traumatizadas.

Mas, de repente, longe de suas casas, um palestrante religioso, dotado do mais alto prestígio entre os seus, tido como "sábio" e supostamente em contato com as mais altas esferas da espiritualidade, acusa você e seus familiares de terem sido sanguinários colonizadores europeus, que dizimaram povos na América Latina e que, por isso, vão pagar as consequências dos delitos de vidas passadas.

Você e seus familiares, enfrentando com a mais possível calma e um mínimo de habilidade, as dificuldades para viver num outro país, porque o país de origem virou um cenário de guerra. Todos tentam arrumar suas vidas, com calma e perseverança, se alegrando com as pequenas conquistas alcançadas, e vem um ídolo religioso, à distância, acusar vocês de terem sido colonizadores com sede de sangue, que retornaram à Europa em busca de antigos privilégios.

Pois é justamente isso que foi o julgamento de valor de ninguém menos que o anti-médium baiano Divaldo Pereira Franco, um habilidoso manipulador de palavras e dono de um discurso rebuscado. Tido como "sábio" e considerado "unanimidade" religiosa, veio com a seguinte "pérola" ao ser entrevistado para um periódico português durante um congresso "espírita" na Espanha:

"No campo das deduções e de acordo com o meu pensamento, penso que aqueles que estão hoje, de volta à Europa, são os antigos colonizadores que deixaram, até hoje, a América Latina na miséria.
Como foi negado todo o direito aos seus residentes, como aculturaram os silvícolas, destruindo culturas veneráveis, pela Lei de Causa e Efeito aqueles estão retornando hoje à pátria, no estado de miséria, e que ameaçam os próprios países de onde saíram, para, um dia, buscarem a fortuna para o conforto europeu. 

Mas, também me recordo dos grandes problemas que estão a acontecer no antigo Levante, graças às tropas muçulmanas. “O Homem é o lobo do Homem” e, verificamos que estamos a transformar este lobo em cordeiro. Como sou otimista, acredito que em breve, o lobo e o cordeiro beberão no mesmo regato, em fraternidade. Já vemos muitas dessas uniões, através da educação que é proporcionada, e nós vemos isso na Internet, diariamente. Porque não, na realidade, amanhã?".

Terrível julgamento de valor seguido ainda de ideias truncadas sobre o "lobo" e o "cordeiro". Um típico deturpador da Doutrina Espírita, que comete a hipocrisia de se autoproclamar "rigorosamente fiel" a Allan Kardec, mesmo contrariando seus ensinamentos - Divaldo acredita, por exemplo, em fantasias como "crianças-índigo" - , usa seu prestígio religioso para acusar os refugiados dos países asiáticos e africanos do Oriente Médio de terem sido "antigos colonizadores em busca de fortuna".

Depois, no morde-e-assopra de sua retórica espetacular, com seu exército de palavras de pretensa erudição, Divaldo não parece claro diante de sua exposição prolixa sobre a ideia de que o "homem é o lobo do homem". Até que ponto Divaldo fala na intenção de transformar o lobo em cordeiro, se para o bem e para o mal, não dá para entender.

Além disso, ele tenta um conceito igrejista de "fraternidade" - mais próxima de um "gado" ou "rebanho", como reza o Catolicismo medieval, do que do convívio harmônico da sociodiversidade humana - , embora também não deixe claro que "uniões" ele fala de "lobos" e "cordeiros" na "educação proporcionada na Internet".

A julgar da tendência comum, nós, que fundimos a cuca diante desse relato prolixo de Divaldo Franco, indagamos se a tal "união entre lobos e cordeiros" não seria os ataques de cyberbullying que os valentões fazem contra as pessoas pouco convencionais, apoiados por demais internautas que pareciam simpáticos e admiráveis. Seriam os "lobos" que chamam os "cordeiros" para humilhar as "ovelhas negras" nas redes sociais?

Muitas pessoas que recorreram a tratamentos espirituais nas "casas espíritas" - algumas delas tidas como de "alto conceito" - reclamam que, em vez de conseguir superar as dificuldades que as inspiraram a tão arriscado socorro, conseguiram mais azar, e não raro pessoas vão fazer tratamento para depois serem vítimas de bullying na Internet e alvo de páginas ofensivas das quais eles têm alguma dificuldade de denunciar sem sofrer alguma represália.

O que Divaldo Franco fez não merece aprovação alguma e põe em xeque seu aparente prestígio, conseguido em milionárias palestras feitas para elites embevecidas. É algo que nem a pose de humildade nem uma suposta filantropia que não ajuda mais do que 0,01% do povo brasileiro, consegue atenuar, pois o julgamento de valor, mesmo em tenras palavras, é de uma gravidade sem tamanho.

Será que Divaldo Franco gostaria de ser acusado de ter sido, em antiga encarnação, um antigo sacerdote medieval europeu que, designado para colaborar com Anchieta e companhia na dizimação cultural das crenças indígenas no Brasil, regressou séculos depois à Europa para usufruir de confortáveis palestras cheias de pompa e receber prêmios dos ricos e poderosos?

Deve-se levar em conta que seu "espiritismo" deturpado não tem moral para atribuir encarnação passada aqui e ali, e, além disso, Kardec recomenda o esquecimento de vidas passadas para evitar situações e sentimentos desagradáveis ou exagerados. Além disso, os refugiados, pelas dificuldades que sofrem, merecem respeito, e não é o prestígio religioso que permitirá juízos de valor severos contra pessoas que não têm como recorrer para processar alguém por danos morais.

sábado, 25 de março de 2017

Terceirização e reformas trarão prejuízo aos brasileiros


Quando houve, no ano passado, a queda de Dilma Rousseff e a ascensão de seu vice, Michel Temer, que rompeu com a titular e abraçou um projeto político ultraconservador, uma boa parcela dos brasileiros se iludiu com o aparato de status e prestígio social do presidente.

A impressão que se tinha é que um presidente de perfil moderado, dotado de uma equipe dotada de competência técnica e prestígio político havia chegado ao poder. Gente tida como responsável, defensora da Família, associada a paradigmas de moralidade velhos, porém ainda tidos como sagrados. O governo Temer tentava passar essa imagem, associada à disciplina e à precisão cirúrgica da capacidade administrativa.

Tudo isso se revelou uma ilusão. Uma sucessão de escândalos políticos, até hoje se acumulando nesse histórico, tornaram o governo Temer uma grande vergonha nacional, embora os brasileiros mais convencionais vissem tais escândalos como se fossem um programa de comédia da TV.

Só que isso não tem a menor graça. Está em andamento uma série de medidas amargas que trarão sérios prejuízos para a vida dos brasileiros, inclusive para aqueles que acham que podem dormir tranquilos diante desse governo cheio de gravíssimos escândalos de corrupção.

Várias delas já foram aprovadas ou estão perto de serem sancionadas pelo sombrio presidente. O congelamento das verbas públicas para os próximos 20 anos deixará setores como Educação e Saúde mais precarizados, forçando apelar para a iniciativa privada, que nem está aí para o interesse público.

Na fila de aprovação, tem-se a terceirização para atividades-fim. O que deveria ser feito era regulamentar a terceirização apenas para atividades-meio, estabelecendo limites para os abusos dos empregadores, mas, infelizmente, o que se fez foi ampliar a terceirização para atividades-fim e dar sinal verde para os patrões tratarem os empregados feito gato e sapato.

Nesta proposta, os trabalhadores deixarão de ter vínculo empregatício com a empresa em que trabalham. Haverá um contratante que fornecerá a mão-de-obra para a prestadora de serviços. Em muitos casos, isso permitirá a "pejotização", termo baseado na sigla PJ, pessoa jurídica, que transformará cada trabalhador em uma empresa-fantasma para assim dispensar dos patrões o cumprimento de obrigações trabalhistas.

Outra armadilha será a "quarteirização", espécie de terceirização ampliada. Na quarteirização, haverá um contratante, outro intermediário e uma empresa que "acolhe" o trabalhador, como prestadora. O trabalhador terá dificuldades para processar, até porque também perderá direitos trabalhistas e deixará de ser um empregado nos moldes formais. A terceirização nivela o emprego aos padrões do mercado informal.

O trabalhador perderá os encargos e as remunerações adicionais, ainda que como ajuda de custo. Se o trabalhador, por exemplo, ganhava R$ 5.500 mais alguma remuneração extra para transporte, alimentação e outros gastos, essa remuneração extra é eliminada e o referido salário incluirá essas despesas.

Somada à reforma trabalhista e à reforma da Previdência Social, o trabalhador terceirizado ainda viverá novos dramas. Poderá trabalhar numa jornada diária maior, sem receber mais por isso, talvez até recebendo menos. Sobrecarregado, poderá sofrer acidente de trabalho e morrer. Sendo seriamente ferido, será demitido e/ou não terá assistência médica, tendo que pagar pelo sistema privado, porque a essas alturas o SUS, Sistema Único de Saúde, será sucateado com as verbas no freezer.

No caso da aposentadoria, existe a proposta de idade para 65 anos, tanto para homem e para mulher, e o tempo de 49 anos de contribuição. Boa parte das cidades brasileiras tem expectativa de vida nesta mesma idade. Na hora de se aposentar, o trabalhador já foi sepultado ou cremado. No caso do tempo de contribuição, então, o trabalhador pode morrer e ainda estar no seu processo de contribuição à Previdência Social.

Isso é terrível. Já se fala em genocídio silencioso, porque tudo o que o governo Temer quer fazer, sob a desculpa de "estimular o crescimento", é degradar o trabalho assalariado de forma a desgastar progressivamente os trabalhadores e sufocar, sutilmente, qualquer esforço de sobrevivência.

E o "espiritismo", com isso? Os palestrantes "espíritas" só ficam apelando para "aceitar o sofrimento", com uma série de falácias que vão desde as rimas simplórias de um tal de "poeta alegre" aos apelos um tanto hipócritas sobre o "ser e o ter". Isso porque os palestrantes "espíritas" não sofrem aquilo que aconselham aos desafortunados da sorte.

Para eles, tanto faz pedir ao trabalhador terceirizado apenas "trabalhar e ter fé". O bombardeio de textos "espíritas" dizendo para abrir mão de necessidades, revisar projetos de vida partindo do zero, abandonar desejos e anseios, é enorme e preocupante, e tudo isso parece "lindo", mas vai um palestrante "espírita" viver aquilo que ele aconselha ao outro. O palestrante não iria gostar.

O "espiritismo" é um reflexo dessa sociedade conservadora, hipócrita. É difundido por supostos médiuns dotados do culto de personalidade, vaidosos em serem os centros do espetáculo de entretenimento da fé religiosa, com suas palestras verborrágicas e suas exibições de pretensa mediunidade, que mais parecem ilusionismo ou produção de mensagens apócrifas.

E tudo isso é defendido como se fosse autêntico. Afinal, as desculpas se apoiam no deslumbramento religioso, que protege até o mais charlatão dos anti-médiuns. Simulacro de humildade, arremedo de filantropia, que mais ajuda o "benfeitor" do que o necessitado, sempre protegem esses astros do "espiritismo", que nunca promove o verdadeiro Conhecimento e ainda recomenda outrem a aceitar e até amar o sofrimento. O "espiritismo" já terceiriza a vida humana há muito tempo.

domingo, 12 de março de 2017

Os pesos e medidas diferentes na Justiça e na Internet


Estamos em risco, nesses tempos de convulsões sociais. E isso cria uma realidade desigual, mas igualmente perigosa. A repressão a trabalhos investigativos, por um lado, e a tolerância a atos de difamações digitais, por outro, revelam o quanto se compreende muito mal a ideia de liberdade e ética.

Do tucano mineiro Eduardo Azeredo, que enquanto senador queria votar leis de restrição à liberdade de informação na Internet, até o hoje ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, ordenar a retirada da entrevista do ex-ministro da Justiça da ex-presidenta Dilma Rousseff, Eugênio Aragão, por conter informações tidas como "inverídicas".

Moraes, aliás, antecessor de Aragão na pasta ministerial, é conhecido pela atuação repressiva. Como secretário de Segurança Pública do governador paulista Geraldo Alckmin, ele investiu em violenta repressão policial contra estudantes que se manifestavam pacificamente contra a reforma educacional do governo paulista. A ação se repetiu contra movimentos sociais que, em Brasília, protestavam contra a PEC dos Gastos Públicos em Brasília.

A investida contra Eugênio Aragão, o que sugere a oficialização de um Judiciário policialesco, é motivada pelo fato deste ser ligado ao PT, o que faz muitos cidadãos torcerem o nariz. Mas a atuação de Aragão não tem cunho ideológico, e em suas entrevistas ele se manifestou um profundo conhecedor de leis.

Moraes, em contrapartida, entrou no STF por indicação do presidente Michel Temer, que não tinha condições para tal tarefa, já que era um usurpador de poder político, um impedido político - proibido de concorrer a novos cargos eletivos, por conta de um crime eleitoral em 2014 - e que conquistou a República sem legitimidade popular e com um projeto político que daria sempre errado nas urnas.

Moraes também é acusado de ter feito plágios em seus livros sobre direito, de obras de um jurista espanhol falecido no ano passado. Moraes jura ter citado o autor em referências bibliográficas. Mas, também, plágio não vem ao caso, quando o status social fala mais alto.

Vemos o caso de Francisco Cândido Xavier. O aclamado Chico Xavier cometeu muitos plágios literários nas obras que usam os nomes de autores mortos, e cometeu até a aberração de copiar um capítulo de um livro cômico de Humberto de Campos, O Brasil Anedótico, para compor um capítulo no tendencioso Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, atribuído oficialmente ao autor maranhense.

Chegamos ao ponto deplorável de permitir que uma parcela de cidadãos se apropriasse dos nomes dos mortos, escrevendo (ou falando, ou pintando) mensagens apócrifas, que destoam dos aspectos pessoais dos falecidos, em que pese aparentes semelhanças. Basta usar o pretexto da caridade e ter algum prestígio religioso para usurpar o morto de sua escolha e escrever em seu nome qualquer mensagem de propagandismo religioso.

Infelizmente, em casos assim, a Justiça não pega. Se alguém possui prestígio religioso, tem alguma casa "filantrópica" (uma "casa espírita" que faz assistencialismo) e constrói um carisma com palestras de palavras bonitinhas, a única hipótese de um juiz abordá-lo é para pedir um autógrafo, um abraço e ser fotografado ao lado do suposto médium publicada alegremente nas colunas sociais.

Ser tucano e "espírita" tem dessas blindagens. Enquanto isso, se alguém tem um trabalho investigativo que vai contra os interesses dominantes, ou alguém não corrobora com certos posicionamentos, aí há tanto o risco da censura pela Justiça quanto pelo reacionarismo de internautas valentões.

Enquanto entrevistas como a de Eugênio Aragão recebem notificação para serem retiradas do ar, ocorrem livremente as publicações de páginas ofensivas na Internet. Páginas de ofensas e difamações são impunemente mantidas, e haja trabalheira para acionar o Safernet e sair pedindo ajuda para apoiar na denúncia da página ofensiva, que só é retirada do ar quando a vítima, ainda que "incômoda ao sistema", possui uma notável visibilidade.

Se essa visibilidade não existe, a página é mantida. E isso é horrível. Vê-se dois pesos e duas medidas, em que páginas que colaboram com a informação mais transparente, ainda que invista em denúncia, principalmente contra o grupo político que está no poder, são condenadas a saírem do ar, enquanto páginas de calúnias e difamação continuam no ar, numa boa.

Não estamos aqui falando de petismo, de esquerdismo ou coisa parecida. Aqui não se está falando de ideologia, mas de ética. A gente observa que existem irregularidades do lado da plutocracia política e não se pode publicar trabalhos profundamente investigativos sobre certas personalidades.

Por outro lado, há até engraçadinhos publicando páginas ofensivas de "comentários críticos", "piadas hilárias", "humor divertido" e outras barbaridades e se precisa gastar horas na Defensoria Pública ou no Ministério Público para banir as páginas, levando semanas e com o risco de contrapartida de um advogado alegando que "não há conteúdo ofensivo".

E isso quando o agressor não sai de seu quarto onde usa o computador para ir à cidade do desafeto para fazer ameaças, até de morte. É verdade que um cyberbullying é um imprudente por excelência, mas até ele, na sanha em perseguir seu desafeto, se esbarrar no cano de revólver de um miliciano - que estranha as visitas do valentão num mesmo lugar, achando que é alguém de quadrilha rival - , a ameaça assusta e deixa a vítima insegura.

Esses fatos todos revelam uma realidade que nos põe a pensar. Que ética queremos? Que transparência queremos? Que liberdade queremos? Usar o status quo como peso social - que favorece, nos planos mais rasteiros, os valentões que são tidos como "os mais divertidos" nas redes sociais - não é suficiente para garantir a justiça humana.

Nem o prestígio religioso pode permitir abusos como usurpar pessoas mortas e mandar mensagem qualquer nota de propaganda religiosa. Fazer isso e depois se "esconder" por trás de crianças pobres e velhinhos doentes não pode ser visto como atestado de honestidade, mas fuga de possíveis acusações e processos.

Os valentões da Internet, os politiqueiros do Judiciário, também não podem cometer abusos como se fossem os donos da verdade. Devemos deixar de lado o critério do prestígio social e evitar as carteiradas diversas que só fazem com que a justiça social seja sempre desigual, desumana e humilhante.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O Brasil passará por uma fase de corrupção escancarada


Com o caminho aberto para a entrada, praticamente garantida, de Alexandre de Moraes para a vaga de Teori Zavascki no Supremo Tribunal Federal, o Brasil consagra sua mais aberrante fase, em que uma coleção de retrocessos gravíssimos que transformam o país numa nação institucional e politicamente insegura e vulnerável.

Mas o que mais preocupa a todos é a despreocupação daqueles que, meses antes, despejavam fúria descontrolada quando viam Dilma Rousseff ou Lula discursando na televisão, a ponto de baterem panelas de cozinha ou soprarem vuvuzelas em plenas horas noturnas.

São pessoas que vão para as ruas ou praias sorrirem, como se vivessem num paraíso, se reunindo para cantar sobre flores e amores, jogar conversa fora, contar piadas e, nas redes sociais, mostrarem fotos de viagens, selfies com amigos, reencontros com antigos colegas, tudo o mais. Não que isso não deva ser feito, mas da forma como se faz, num momento de catástrofe política em que vivemos, essa alegria mais assusta do que conforta.

Hoje prevalece uma mentalidade que já causou uma tragédia ecológica devastadora, com quase vinte pessoas mortas - animais, então, nem se fala - , que foi a de Mariana, em Minas Gerais, num contexto em que há um plano de privatizações vorazes, em que, se deixarmos, até as creches públicas serão entregues a corporações educacionais dos EUA, venda de nossas riquezas e até entrega de parcelas do território brasileiro para empresas estrangeiras, criando "principados" empresariais gringos aqui.

Que as pessoas possam discordar do PT, de Dilma, de Lula, de José Dirceu e achar que o projeto político deste partido não é de agrado da população, tudo bem. Têm todo o direito de pensar assim. Mas faltou paciência ao aguentar Dilma Rousseff por mais dois anos, perdendo uma boa oportunidade dos opositores "se vingarem" nas urnas em 2018, dando vitória eleitoral a um tucano ou coisa parecida.

Quiseram derrubar as coisas na maior pressa e abriram caminho para um processo de delinquência política que pode trazer defeitos danosos para os brasileiros. E é bom deixar claro que as pessoas que estão felizes hoje também vão pagar a conta, altíssima, dos retrocessos que se acumulam como numa tragicomédia de erros graves.

Até o "folclórico" senhor de idade, que diante das bancas de jornais, ao ver as más notícias na primeira página, ri dizendo que "não tem mais jeito" e volta para casa ou vai ao trabalho tranquilo, vai também pagar a conta. Quando a praia de Copacabana se tornar uma propriedade privada de hotéis de Los Angeles, o pessoal vai perceber.

Se até a cultura popular está privatizada - essa bregalização cultural que certos intelectuais treinados pela mídia patronal para fazer proselitismo nas esquerdas e sabotar os debates culturais - , então a situação está muito, muito feia para o país.

O Brasil virou um país em que uma minoria acha que pode tudo. E isso vem desde aquele valentão das redes sociais, que transforma fóruns de Internet em ringues, cria blogues de ofensas e difamação e depois, despindo de seus fakes truculentos, vai para eventos sociais mostrando seu verdadeiro nome e posando de civilizado, conciliador e antenado.

Chegamos a esse ponto dos abusos humanos de pessoas que julgávamos importantes, gabaritadas e moderadas. Tudo porque apostávamos nossas fichas àqueles a que se presumia alguma superioridade ligada a um atributo material: desde aquele internauta que parecia "o mais divertido" até aquele rico que parecia "responsável" no uso do porte de arma.

Nesse caminho, endeusávamos pessoas por causa do diploma, da fortuna, do poder político, da formação acadêmica, da visibilidade, da fama, e sobretudo do prestígio religioso. As paixões religiosas são justamente as mais perigosas, armadilhas traiçoeiras em que ideias supostamente "puras" ligadas a supostos ideais de simplicidade e humildade revelam sentimentos orgiásticos dos mais cruéis e mais perniciosos e fúteis.

Achávamos que uma coleção de paradigmas de superioridade social iria resolver as crises ocorridas desde 2013. Víamos em políticos conservadores e corruptos pessoas "moderadas" e "responsáveis" para tocar o país na frente. Acreditávamos que sacrifícios traziam mais benefícios do que a obtenção justa dos próprios benefícios.

E o que ganhamos de presente? A perda das nossas riquezas que, vendidas para estrangeiros, não se resultarão no retorno de investimentos sociais e renda socialmente compartilhada pela população, mas em meras migalhas investidas no Brasil, enquanto o grosso do lucro obtido pelas empresas gringas vai para as contas dos paraísos fiscais dos seus donos e de seus aliados mais chegados.

Mas não é só isso. Vamos perder conquistas trabalhistas, trabalhar até morrer, porque a forma como se dará a reforma administrativa só vai garantir os vencimentos da aposentadoria quando o beneficiário já estiver na "pátria espiritual". Se o dinheiro, pelo menos, estiver disponível para seus herdeiros, seria menos mal.

Com a aprovação do repressivo ministro licenciado da Justiça, Alexandre de Moraes, para a vaga do STF, a situação do Brasil ficará ainda pior. Teremos um Judiciário que já conta com pessoas de atuação duvidosa, como Gilmar Mendes. O STF, que monitora a aplicação das leis no Brasil, deixará sua isenção de lado e reafirmará como um órgão do PSDB.

Moraes promete que atuará de forma "independente e imparcial", mas sabemos que isso é conversa para boi dormir. Como é conversa para boi dormir tudo o que o presidente Michel Temer diz, achando que, por exemplo, prorrogar a aposentadoria para o fim da vida será ótimo para a população, assim como restringir investimentos públicos para a Saúde e Educação.

Os ricos ficam mais ricos, mais esnobes, mais sádicos, mais preconceituosos, mais violentos. De repente vivemos a ditadura de elites que acham que podem fazer o que querem. Não controlam seus impulsos, mas acham que podem controlar suas circunstâncias e saírem impunes numa boa. Vivemos uma catástrofe social que deve causar perplexidade em todos. Não é hora de sorrir e caçar borboletas pelas ruas das grandes cidades. A hora é de pararmos para pensar no que está o país hoje.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Cuidado, cyberbully, você está sendo vigiado!


Vivemos uma época em que as elites detentoras de algum privilégio social acham que podem fazer o que querem. Numa retomada ultraconservadora, pessoas cujos privilégios variam do domínio tecnológico ao prestígio religioso se viram, de repente, na plenitude de seus abusos, como se nada pudesse detê-las.

São pessoas que até se envolvem em escândalos, muitas vezes cabeludos, veem a encrenca bater à porta de sua casa ou de seu ambiente profissional, mas aparentemente dão a volta por cima, seja com algum jogo de cintura, seja com alguma represália.

Estamos vendo exemplos assim no governo Michel Temer, que empurra medidas impopulares e prejudiciais à população, enquanto põe seus integrantes da "equipe de notáveis" em cargos estratégicos ou até em cargos no Judiciário. Nunca um senhor de 77 anos se comportou como se fosse um menino teimoso e mimado (por sinal, pela grande mídia) de sete anos.

Recentemente, o ex-governador do Rio de Janeiro, Wellington Moreira Franco, citado inúmeras vezes em atividades de corrupção por delatores da Operação Lava Jato, e já definido pelo antigo rival Leonel Brizola (1922-2004) como "gatinho angorá", porque passa "de colo em colo" (ou seja, muda o padrinho político conforme as conveniências), conseguiu não só assumir o cargo de ministro da Secretaria-Geral da República, como adquiriu foro privilegiado, só podendo ser julgado pelo STF.

A propósito, temos também a possibilidade de Alexandre de Moraes ser ministro do Supremo Tribunal Federal, mesmo com todo o acúmulo de inconvenientes. Foi constatado que ele não tem um pós-doutorado que havia sido declarado, porque ele foi registrado por engano. E, o que é mais grave, o "ilustre jurista" também é acusado de plagiar, em seus livros, um teórico espanhol, Francisco Rubio Llorente.

Isso lembra Francisco Cândido Xavier. Ele havia plagiado trechos de várias obras literárias. Em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, um livro pretensamente de "História e de Espiritualidade", há um capítulo que copiou um outro inteiro de um livro, pasmem, cômico, O Brasil Anedótico, que o alegado autor Humberto de Campos - que nunca escreveria as barbaridades que atribuem à sua autoria espiritual - havia produzido em vida.

Chico Xavier, sabemos, fez o que queria. De um pastichador de livros - tarefa que ele não fazia sozinho, mas com uma equipe de editores e redatores da FEB - , ele virou algo perto de um Deus, um "dono da verdade" e um "proprietário do Brasil". Seus defensores fazem o possível para manter ele no pedestal, ainda que haja desentendimentos mil, como uns achando que ele era profeta e outros pensando que ele era reencarnação de Allan Kardec (o que é um absurdo sem tamanho).

Ele fez o que queria porque gozava de prestígio religioso. Era um beato católico ortodoxo - sim, Chico era devoto da Igreja Católica Apostólica Romana, rezador de terços, adorador de imagens, rigoroso espectador de missas católicas - e entrou no Espiritismo pela porta dos fundos, graças a uma ajudinha do presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas.

A ascensão de Chico Xavier tornou-se tão descontrolada que hoje é um mito gigantesco no qual se torna difícil questionar. Ele poderia não entender de Espiritismo e sua mediunidade teria sido mais limitada do que muitos acreditam, mas ele entendia de hipnose e de técnicas de manipulação da mente, sendo habilidoso na técnica da falácia chamada Ad Passiones, ou "apelo à emoção".

No Ad Passiones, usa-se todo tipo de apelo emocional para seduzir a opinião pública. É uma tática de controle mental mais perigosa que a coerção, porque pode dominar o inconsciente. Chico Xavier foi um praticante de estratégias como o vitimismo ou coitadismo, reagindo em silêncio e com poses e depoimentos de tristeza quando era duramente questionado.

Graças a isso, o Espiritismo foi empastelado no Brasil. O legado que Kardec concebeu com muito trabalho e dor - seus últimos livros foram escritos quando ele sofria de aneurisma - foi simplesmente desmoralizado, reduzido, no Brasil, a um sub-catolicismo marcado pela permissividade e por uma falsa imagem de filantropia, feita mais para ajudar o benfeitor do que o povo carente.

Aí, faz-se o que bem entender. Se você é um novelista ruim, não mande seu roteiro para a televisão, mas adapte suas novelas medíocres com alguma temática sobrenatural, preencha as páginas com alguma lição moralista, use um mero prenome ou nome composto para um suposto espírito (Verônica ou Pedro Lúcio, por exemplo), e vai vender como água. Se disser que o lucro do livro será "para a caridade", melhor ainda. Blindagem na certa.

Da mesma forma, se plagiar e realizar pastiches literários ou falsificar quadros imitando (e muito mal) os estilos de vários pintores mortos, basta correr para adquirir uma casa velha, botar uns pobres dentro e sair por aí fazendo palestras com palavras bonitas sobre família, amor e compaixão, dentro daquele igrejismo que conhecemos e, pronto. Ninguém mexe com quem fizer tudo isso. Os juízes só chegarão perto de você só para lhe dar um abraço e pedir um livro autografado.

OS VALENTÕES DIGITAIS

Se você tem dinheiro, fama, poder político, poder de liderança em geral, porte de arma, prestígio religioso, diplomas, etc etc, você acha que faz o que quer. As elites surtaram e hoje despejam seus piores preconceitos sociais, sob os quais não medem escrúpulos em cometer crimes graves. Há poucos dias, um publicitário, ex-militar e saudosista da ditadura militar matou a filha só por causa de discussões tolas sobre herança.

O pior é que existe a ilusão da impunidade, da imunidade e, o que é pior, a ilusão de que tais pessoas podem cometer abusos e se manter em popularidade. Se você é do tipo que falsifica quadros e plagia livros e corre para um "abrigo institucional" da religião "espírita", ninguém mexe com você e, quando há um escândalo, nada que um Ad Passiones não possa resolver. A carteirada religiosa ainda arranca lágrimas de muita gente e cala a boca de muito questionador de vontade mais débil.

Até quando se tira a vida de alguém a pessoa que acha que pode fazer o que quer a ponto de homicidas ricos acharem que não podem adoecer pela forte pressão dos efeitos de seus atos. Acham que podem não só ficarem impunes como se acham no direito de uma vida "cor-de-rosa".

Acham que suas vítimas podem morrer até na mais tenra juventude, mas se revoltam quando um médico lhes alerta do risco de morrerem de repente antes dos 60 anos. Não querem morrer sequer antes dos 90! E, quando não há jeito, suas mortes não podem ser reportadas pela imprensa.

O egoísmo humano ou as demais ilusões que vão do luxo da alta sociedade à falsa modéstia do prestígio religioso - tão perigoso por direcionar a vaidade humana aos "tesouros do céu", desejando avidamente não o luxo terreno, mas as extravagâncias no "porvir" - consistem no espírito do tempo que faz com que valentões usem a Internet para intimidar e desmoralizar os outros.

Troleiros, hackers e cyberbullies, ou mesmo falsos denunciadores - que primeiro criam um fake para cometer atrocidades sob o nome da vítima para depois denunciá-la como se fosse um "delinquente digital" - constituem o cenário de horror que reside nas redes sociais e transforma computadores e telefones celulares em "terras sem lei".

Recebemos denúncias de gente sendo vitimada por blogs de ofensas e calúnias. Há até um feito por um busólogo da Baixada Fluminense que, dizem, foi criar uma página de "comentários críticos" para se vingar de uma abortada ascensão política, porque o cara fazia um curso de Informática para jovens carentes.

O valentão copiava os textos e fotos de suas vítimas e, para cada parágrafo, fazia um "comentário crítico", ao mesmo tempo jocoso e ofensivo. Quando era contrariado, ele ainda ia para redes sociais, fóruns e até petições de Internet, para despejar comentários ainda mais agressivos. Ele tinha um aliado mais jovem que fazia fakes personificando o mesmo tipo de "tarado gay".

O valentão dos "comentários críticos" ainda ia para a cidade dos outros fazer ameaças, a pretexto de tirar fotos para sua página pessoal (quando ele assumia a identidade de um "equilibrado" busólogo). Ele não encontrava os desafetos, mas era observado de longe por milicianos que controlam serviços de vans e que faziam ponto num estacionamento próximo ao terminal rodoviário.

Mas se o valentão era observado por gente da pesada, sua página de horrores era também denunciada pelo SaferNet, página na Internet que recebe denúncias de crimes virtuais. O valentão atualiza sua página, capricha nos comentários mais "picantes", e, dentro de seu quartinho não sabe que suas páginas estão sendo lidas por funcionários da Polícia Federal, que não raro têm até o Protocolo de Internet (registro digital do computador usado pelo internauta) do valentão.

Muitos valentões das redes sociais ou da blogosfera têm suas páginas ofensivas com algum registro policial. Isso é fato. Mas não é qualquer um que pode alertar os brutamontes eletrônicos sobre isso, já que a resposta que estes dão é "KKKKKKKKK" e, irritados com o alerta, são capazes de atualizar os blogs com mensagens ainda mais ofensivas e ameaçadoras.

Vivemos uma época em que a Justiça começa a aprender essa nova realidade, de que o status quo dominante não é garantia de imunidade, impunidade e prestígio. É claro que temos estruturas sociais velhas e os chamados privilegiados de toda ordem, do dinheiro à religião, passando pela fama ou até pelo prestígio "doméstico" da turma de amigos ou apreciadores de um hobby, estão demonstrando visões cada vez mais reacionárias, violentas e socialmente preconceituosas.

Desde que o feminicídio foi considerado crime hediondo e até o "espiritismo" brasileiro foi pivô de um crime de recusar atendimento a uma vítima de estupro, fatos diversos desafiam a compreensão de juristas e outros especialistas sobre os abusos humanos protegidos por alguma vantagem social.

Até mesmo na Justiça se observa uma atuação irregular, tendenciosa e nem sempre benéfica à sociedade. Permite-se que o presidente da República, Michel Temer, lance propostas que ameaçam gravemente os direitos sociais dos brasileiros, tão trabalhosamente adquiridos. E isso num país em que a maior corporação de Comunicação, as Organizações Globo, são controladas por irmãos sonegadores de impostos e donos de fortunas descomunais.

O maior desafio no Brasil é se desapegar das antigas condescendências movidas pelas conveniências sociais e adquirir coragem para, se preciso, punir ou limitar os privilégios de pessoas consideradas "admiráveis". Derrubar totens é algo que muitos sentem dificuldade, sobretudo quando é um parceiro de hobby, o "maioral da turma" ou o ídolo religioso de práticas cheias de irregularidades.

Fazer uma grande revisão de valores e deixar de lado a aura divinizada dos privilegiados da Terra é um imperativo que juristas e outros especialistas devem assumir, mesmo que seja sob o preço de derrubar totens antes vistos como sagrados ou pessoas antes vistas como "legais". Não se pode considerar pessoas com tais qualidades se elas cometem abusos que vão contra a ética, o bom senso, a lógica humana, a coerência e, sobretudo, o respeito humano.