segunda-feira, 30 de maio de 2016

A "cultura do estupro" reflete a coisificação da mulher


Vemos posturas sociais retrógradas e muito mal disfarçadas. O politicamente correto de anos atrás fazia com que elites acadêmicas tratassem o povo pobre como um bando de idiotas e, mesmo assim, achar tudo isso "generoso" e "progressista".

O povo pobre é visto como idiota, infantilizado, tolo e ignorante. Os intelectuais mais badalados diziam que isso era "felicidade", que a favela era um "paraíso", que a ignorância era "sabedoria" e o grotesco era apenas uma reação ao "bom gosto das elites".

Para piorar, esse pessoal que, sem botar um único dedo do pé nas periferias, se achava detentor da palavra final sobre o que deveria ser o povo pobre lançava seus pontos de vista preconceituosos - embora eles jurassem que eram "contra todo tipo de preconceito" - em monografias, documentários, grandes reportagens, livros e outros meios de trazer uma abordagem mais "objetiva".

Eles se achavam vitoriosos na sua visão do que deveria ser a "cultura das periferias" e, sem saber, abriram caminho para preconceitos piores: eles mal conseguiam disfarçar a apologia que faziam à ignorância, à miséria e até a valores retrógrados que, segundo eles, "mostravam o melhor da cultura das comunidades pobres".

Eram um julgamento de valor elitista. Achavam esses antropólogos, cineastas, historiadores, jornalistas culturais, ou mesmo membros de associações de "funk" que o povo pobre tinha que ficar na miséria, na pobreza, apenas tendo algum dinheiro.

A "emancipação social" que eles defendiam era apenas um meio de expor sempre a "ajuda" das elites. O pobre, segundo esses intelectuais, não poderia superar a pobreza por conta própria, e por isso precisava da aceitação da classe média para dar margem à ajuda de gente com mais dinheiro. Seja ela uma socialite, um estilista de moda ou as verbas do antigo Ministério da Cultura de Lula e Dilma Rousseff.

Diante desse festival de lorotas, que garantiu muitos aplausos de plateias desavisadas e enganou direitinho as forças progressistas - que achavam que essa "cultura do mau gosto" era o máximo em folclore popular - , os intelectuais festivos permitiram porém que o povo pobre continuasse sofrendo sua tragédia de todo dia.

Como no caso da exploração da mulher "popular", cujos efeitos só poderiam resultar no aberrante caso do estupro de 33 homens em uma moça de 16 anos. O terrível caso não aconteceu numa festa de socialites na Barra da Tijuca nem em um bastidor de um desfile de moda, mas no subúrbio de Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro, uma região predominantemente pobre e violenta.

"DIREITO AO CORPO"?

Durante muitos anos, os intelectuais apenas se limitavam a falar mal da exploração leviana da mulher nos comerciais de TV. Era o comercial de detergente que mostrava uma dona de casa debiloide que custava a tirar a sujeira da parede da cozinha ou eliminar a gordura de um fogão. Ou a maluquete que aparece em outros comerciais: automóvel, jeans, lingerie, margarina etc.

Isso tudo só era criticado quando a exploração atingia a mulher de classe média. Quando ela envolvia mulheres que representavam o público das classes populares, ninguém criticava, todos achavam maravilhoso.

O "funk", por exemplo, sempre mostrou essa exploração leviana da mulher. As mulheres-frutas - que apesar do nome, podem incluir uma Mulher Filé ou Mulher Caviar - , a Valesca Popozuda (que tentou ser politicamente correta, bancando a pretensa feminista depois de aceitar fazer o papel do objeto sexual no palco), fizeram até pior do que muito comercial de detergente, lingerie e margarina.

Mas ninguém dava bola para essa gravidade. As funkeiras faziam o jogo da ideologia machista, que fazia com que elas aceitassem essa função de ser mercadorias eróticas, mas os intelectuais, e, sobretudo, as mulheres que integram essa elite "pensadora", tentavam inventar que as funkeiras faziam isso para esnobar os machistas e blablablá.

A alegação é que as funkeiras usavam os valores machistas para "denunciar" sua opressão e, "rompendo" com eles - algumas, aparentemente, se declaram "solteiríssimas", embora rumores indiquem que várias dessas funkeiras têm namorados e até são bem casadas - e usam a misandria (horror simbólico à figura masculina) como um falso sinônimo de "feminismo".

Juntamente a elas, uma avalanche de siliconadas chegou a congestionar a Internet com suas fotos "sensuais": umas deixando o biquíni cair na praia, outras deixando o vestido ser levantado pelo vento, outras usando roupas apertadas, outras exibindo blusas curtíssimas. outras com decotão, outras com traseirão etc.

De "musas" como Solange Gomes - que aos 42 anos se atreve a promover sua imagem de mercadoria sexual - às "peladonas", "proibidas", "liberadas" e "miss bumbum" da vida que proliferam como cupins em madeira podre, o machismo recreativo brasileiro só poderia dar na "cultura do estupro" que se deu nos últimos tempos.

"PASSAGEM DO TREM BALA"

Essas "musas", sobretudo a Mulher Melão, a funkeira mais exibicionista - ela chegou a atrapalhar um toplessaço que seria um evento ativista para mostrar seu corpo grosseiro - , publicam suas fotos nas mídias sociais e os machos na Internet ficam babando. É assustador como a Mulher Melão, Solange Gomes e companhia fazem muito sucesso nas mídias sociais e continuam em evidência.

É porque vivemos num país machista, em que a mulher só tem duas opções: ser a "rainha do lar" num casamento patriarcalista, como ´o caso da atual primeira-dama Marcela Temer, ou ser o "brinquedo sexual" dos machos sexualmente afoitos, como Solange Gomes e Mulher Melão.

Mulheres assim que "mostram demais" eram propagandistas de algo bem pior do que comerciais de detergentes. Eram propagandistas de um produto ainda mais terrivelmente consumista: a ilusão de permissividade do sexo representada pela imagem da mulher-objeto. A mulher-objeto era o produto a ser "vendido".

Essas mulheres lançavam sempre fotos com poses "sensuais". Não havia interrupção. Podia ser feira de automóvel, lançamento de livros, eventos musicais ou até mesmo um funeral, lá estava fulana "mostrando demais", seja exibindo decote, usando vestido colado no corpo ou "pagando peitinho". Mesmo se a "culpa" seja do vento que levantou um vestido ou da alça do mesmo que fez mostrar o mamilo do seio, a apelação demonstra-se puramente gratuita.

E tudo isso sempre veio acompanhado de apelos como "me deseje", "hoje estou solteira e carente", "meu consolo são vocês, meus fãs", e a desculpa da "liberdade do corpo" é usada para permitir que essa aberrante exibição sem contexto do corpo "turbinado" tenha continuidade, nem que seja para cansar a paciência de qualquer um.

O público dessas mulheres-objetos, que não tem lá uma boa escolaridade nem uma educação social ou familiar exemplares, acaba acreditando, ao ver as fotos de Solange Gomes, Mulher Melão e companhia, que a liberdade sexual é absoluta e as mulheres sempre estão aí para atender aos desejos sexuais dos machos afoitos.

E aí, o resultado foi esse: uma moça adolescente que os machos acreditavam estar disponível a tudo. Ignoraram eles que ela ia visitar o namorado, mas mesmo se ela fosse "encalhada" isso não era motivo para os mais de 30 brutamontes fizerem o que fizeram. Não há uma justificativa que autorizasse tal atitude. Nem mesmo atenuantes nem relativizações.

"Estado do Rio de Janeiro inaugura novo túnel para a passagem do trem-bala", disse um internauta sarcástico ao anunciar o vídeo do estupro que foi gravado no sábado dia 21 de maio e lançado no dia 25. Muitos internautas que seguiram esse vídeo, incrivelmente, elogiaram a "façanha".

"A novinha está folgada", comentou um outro internauta, diante de outros comentários "divertidos". O que se tornou um agravante, já que o estupro havia sido apoiado por vários machos entusiasmados. E, mesmo que esse estupro fosse uma encenação - o que algumas fontes chegaram a dizer - , ele já era grave pela apologia que se fazia a esse crime terrível.

É uma "cultura do estupro" que teve o respaldo de dois "adoráveis cidadãos" ligados à "moralidade" e aos "bons costumes". Um Alexandre Frota que narrou um estupro que ele fez com uma mãe-de-santo a um Danilo Gentili que gostou da estória, e um Jair Bolsonaro que disse que não estupraria uma parlamentar de esquerda porque "ela não merecia".

ATÉ O "ESPIRITISMO" CRIMINALIZA A VÍTIMA

E ai vemos a "cultura do estupro" que se vale por causa da coisificação da mulher. As siliconadas ainda vão fazer beicinho e reclamar de que "são acusadas de incitar o estupro", etc etc, mas o problema é que elas aceitaram fazer propaganda de uma ilusão de "liberdade sexual" que impulsionou esses homens a fazer o que fizeram com a pobre garota.

As siliconadas, "boazudas", "popozudas" e "musas populares" têm em parte responsabilidade, porque elas sempre venderam a imagem de que sexualmente "se pode tudo", estimulando com a exibição de seus corpos a sexualidade obsessiva de machos descontrolados.

Daí que vemos episódios como um fã neuroticamente apaixonado pela apresentadora Ana Hickmann (que, sabemos, é uma mulher casada e com filho), e que achou que tudo era possível e foi invadir o hotel onde ela estava para se vingar do "amor não correspondido", tendo que ser morto pelo cunhado durante uma briga corporal para evitar a chacina que o maníaco pretendia realizar.

Mas é essa mesma mídia "popular" que impulsiona os machos a desejarem sexualmente as mulheres como se elas aceitassem tudo. Sendo brutamontes sem qualquer tipo de discernimento, eles não veem diferença de uma Solange Gomes que "adora ser paquerada" e uma Ana Hickmann ou uma jovem de Jacarepaguá que só querem privacidade e o direito de não serem assediadas de forma fútil.

Só que o caso grave do estupro da menina de Jacarepaguá revela também a complacência aos valores machistas. Um país em que se tem medo de ver feminicidas morrerem - a imprensa provavelmente deixou passar tantos feminicidas antigos, cujos julgamentos viraram notícia em todo o país, mas cujos óbitos, vários prematuros, se perderam no semi-anonimato das estatísticas hospitalares - mas pouco importa com a tragédias femininas, ainda criminaliza a mulher vítima de violência.

Um delegado chegou a dizer que a vítima era culpada. E são sempre aqueles papos: "Por que ela foi se casar com aquele crápula?", "Por que ela andou sozinha na rua?", "Não teria a moça gritado com o marido para ele reagir daquela forma?", "Também ela quis se separar dele, que até a levava para jantar...", são muitas das desculpas arrumadas pela sociedade machista que ainda fala em "defesa da honra" para certos feminicídios de caráter conjugal (os antes chamados "crimes passionais").

E o "espiritismo", a "religião da bondade, da misericórdia e da luz", que se diz "esclarecedora" e defensora da "paz e da caridade", de vez em quando faz seus julgamentos de valores perversos e cruéis. Prática que Francisco Cândido Xavier, o "tão querido" Chico Xavier, também fez e mostrou com suas próprias palavras (embora ele tenha que atribuir levianamente aos espíritos do além que eram apropriados para sua traiçoeira literatura "mediúnica").

O "espiritismo" defende a ideia de que "a vítima é a culpada" por um engodo moralista chamado "Lei de Causa e Efeito", uma espécie de Imposto Moral que se segue ao "fiado espírita", e que são próprios da visão "espírita" da Teologia do Sofrimento, corrente da Igreja Católica que Chico Xavier tanto apoiava (com suas próprias palavras, vale lembrar).

O "fiado espírita" é uma forma de fazer com que as pessoas possam cometer suas crueldades e abusos numa encarnação, sem que possam sofrer um dano severo ou uma punição definitiva. Mesmo que encontrem escândalos, infortúnios e prejuízos em seu caminho, nada é feito para lhes derrubar por definitivo, mesmo quando o prestígio e a popularidade despenquem em dado momento na vida.

Desta forma, o sujeito que é cruel numa encarnação só vai pagar pelo que fez na outra. É o "fiado espírita". E, na encarnação seguinte, quando não está mais interessado em cometer crueldades, o sujeito vai, todavia, pagar caro demais, sofrendo desgraças acima do nível em que pode suportá-las.

E o que os "espíritas" vão dizer sobre a menina que foi vítima de estupro por 33 homens?

1) Que ela teria sido, em antiga encarnação, uma cortesã romana que mandou seus 33 escravos para serem devorados por leões famintos?

2) Que a cruel experiência que ela sofreu foi um "resgate moral" das faltas que ela supostamente cometeu?

3) Que os 33 homens tinham ausência de Jesus no coração? (observa-se, todavia, que a religião não faz as pessoas ficarem imunes aos maus instintos, antes os protegessem pelo "remédio da fé", como um remédio "protege" um resfriado ou uma gripe).

O juízo de valor "espírita" também tem suas apologias cruéis. Os "espíritas" desvalorizam a vida material, no sentido de oportunidade para o espírito intervir nela para melhorá-la, e prega que todos aceitemos os "desígnios do Alto" e adiemos nossos planos de transformação para uma ou duas encarnações depois.

Daí o caráter desumano do "espiritismo", que se diz "voltado ao amor e à bondade". Ele está mais preocupado em culpar a vítima de estupro e pedir para ela ter misericórdia com os culpados. Diz que o ato é "reprovável", mas cria atenuantes que mais parecem uma conivência com os criminosos, enquanto seu moralismo acusa a moça de "pagar pelas faltas passadas".

Depois os "espíritas" é que, implorando por "fraternidade" (algo que eles pedem demais, porque não têm interesse em dar e por isso pedem para recebê-la dos outros), choram por ver seus contestadores "atirando tantas pedras" contra essa "bondosa" doutrina de "amor e luz"...

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Brasil retrocede politicamente. Coração do Mundo?


Pronto, a sociedade conservadora insandecida, que, de forma um tanto debiloide, vestiam camisetas da seleção brasileira de futebol para, junto com o Pato da Fiesp, o Batman do Leblon e aquele líder estudantil de Kimta Katiguria que escreve mal e informa pior ainda na Folha de São Paulo, conseguiu tirar Dilma Rousseff do poder.

Quem assumiu o poder agora é o inexpressivo Michel Temer, indiferente à ideia de ter ou não vocação de estadista, já que o que importa é conquistar o poder e governar para as elites. A classe média que via em qualquer coisa errada sinônimo de "marxismo" e "comunismo" e sentia ódio por roupa vermelha e estrelas amarelas, dorme tranquila sem perceber a armadilha em que caiu.

Como o governo Temer não vai distribuir grana para todo mundo, boa parte dos paranoicos que pediam "Fora Dilma" pelo simples fato de não gostarem dela, portanto, vão pagar pela festa que fizeram com o impeachment, berrando histéricos, no fim de noite de 17 de abril, quando a Câmara dos Deputados iniciou essa palhaçada que deu origem a esse atual governo.

O projeto político já pretende restringir o poder de compra dos brasileiros, tirando encargos salariais, afrouxando a legislação trabalhista - o que favorece que os patrões decidam o que querem, sob o aparato do "diálogo" com os trabalhadores - , privatizando, se possível, até a escola pública da esquina, e esse aspirador de pó maluco irá, com certeza, raspar também alguma coisa dos chamados "coxinhas".

Os "coxinhas" é que segurem seus bens, porque a máquina neoliberal de Michel Temer - que levou para sua equipe propostas e membros ligados ao grupo derrotado nas eleições presidenciais de 2014 - vai abocanhar tudo. Aquele dinheiro sonhado pelos "coxinhas" vai voar para bem longe ao exterior, ficar nas mãos dos especuladores de Wall Street.

E os "espíritas"? Desde 2010 anunciaram uma época feliz, um caminho estrelado para a transformação do Brasil não só na potência da Terra, mas também no Coração do Mundo e na Pátria do Evangelho. Quantas pessoas foram dormir tranquilas acreditando nas falácias de Divaldo Franco dizendo que o Brasil já estava começando o período de regeneração...

2010 era o centenário de nascimento de Francisco Cândido Xavier, conhecido pelos fanáticos seguidores apenas como Chico Xavier. Claro, vão falar mil maravilhas, falar de paisagens de contos de fadas, sinfonias de passarinhos, rios cristalinos, coelhinhos saltitantes, céu sempre azul e outras fábulas.

Só que a realidade é mais embaixo e não há apelos para oração ou fraternidade que deem jeito. Afinal, isso não resolve as injustiças, as desigualdades e os abusos que ocorrem no país. Além disso, que potência mundial ou "coração do mundo" será o Brasil diante de uma multidão tão desinformada das coisas, a pensar com o umbigo quando escrevem nas mídias sociais?

Pessoas que não precisam raciocinar porque têm a Globo e a Veja para pensar por elas acabam sendo donas da "palavra final", nem que seja sob o preço violento das trolagens que fazem na Internet. Veem o mundo de acordo com o que o Globo e a Veja mostram, falam as gírias de Luciano Huck e Fausto Silva, exaltam o esporte a partir do ufanismo de Galvão Bueno, e trabalham o cotidiano como se fosse uma novela "global".

Claro, nesse espetáculo todo tem o maniqueísmo maluco, de santificar dois dos cruéis deturpadores da Doutrina Espírita, Chico Xavier e Divaldo Franco, que espalham mentiras igrejeiras e moralistas sob o véu do "amor e bondade", mas demonizam Lula e Dilma Rousseff pela tentativa que eles fizeram, mesmo com erros, de distribuir justamente a renda aos brasileiros e promover o desenvolvimento e a justiça sociais.

Daí o preço caro que se tem. E as elites, felizes com o governo Michel Temer, é que pagarão caro, diante de novas ondas de assaltos, mais custo de vida, serviços cada vez piores e entretenimentos cada vez mais tolos. O jeito é apelar para os livros para colorir, a burra literatura "anti-estresse".

domingo, 1 de maio de 2016

A esculhambação da imagem da mulher solteira


Mais uma vez, a subcelebridade Solange Gomes, que usa o corpo como mercadoria, apelou para ficar nua em dia de frio. "Desafiando o frio no Rio de Janeiro", se atreveu a escrever, ao mostrar mais uma foto "sensual" nas mídias sociais, ontem de noite.

Semanas atrás, a revista Veja publicou uma reportagem intitulada "Bela, Recatada e do Lar", relacionada à Marcela Temer, esposa do hoje vice-presidente da República, Michel Temer, preparando para ser titular do Governo Federal assim que se concluírem os processos, estranhos e tendenciosos, para tirar a presidenta Dilma Rousseff do poder.

E o que Marcela Temer e Solange Gomes têm a ver uma com outra. Aparentemente, nada. Mas, só aparentemente. Elas são dois lados de uma mesma moeda, de um machismo maluco existente no Brasil, que não aceita ver feminicidas morrerem e acha que mulher-objeto pode ser feminista.

Marcela, evidentemente, personifica um machismo mais "família", a da "escrava do lar". Já Solange, por sua vez, personifica o machismo "recreativo", feito "fora de casa". E isso mostra o quanto o sistema machista ainda é muito cruel com as mulheres, principalmente quando a imagem da mulher solteira é avacalhada gratuita e impunemente.

O machismo impõe "filtros" ideológicos para evitar a emancipação plena da mulher. Entre os casos extremos de Marcela Temer, submissa ao seu marido (muito mais velho, por sinal), e de Solange Gomes, submissa às taras sexuais de internautas machistas, a mulher brasileira quase sempre encontra uma barreira machista na busca da independência social.

A mulher que tem o que dizer, mostra bons referenciais culturais, se veste discretamente e por aí vai é "recomendada" pelo sistema de valores existente no Brasil a ter um marido, geralmente alguém poderoso, seja empresário, político ou profissional liberal, alguém que, profisionalmente, têm algum status de liderança ou mesmo de comando.

Já a mulher que não tem o que dizer e faz o papel de mercadoria sexual, mostrando o corpo fora de qualquer contexto e tratando o erotismo como um fim em si mesmo, ela é dispensada de ter um marido ou namorado. Pode até ter algum "parceiro" nos bastidores, mas a ideia é que, neste caso, ela esconda o máximo possível sua vida amorosa.

O objetivo é avacalhar com a imagem da mulher solteira. Ver que a mulher solteira só pode estar associada a uma vagabunda que "sensualiza demais" e só curte noitadas e festas. Isso é o que a mídia promove das mulheres solteiras, uma imagem pejorativa, ofensiva, mas como ela se apoia em paradigmas ligadas ao "divertimento popular", a opinião pública, mesmo de esquerda, deixa passar.

Essa campanha abertamente pejorativa tenta intimidar as mulheres que querem buscar uma independência plena. A moça sai da faculdade querendo ser alguém na vida, querendo ampliar seus conhecimentos e sua cultura, ela terá que se apoiar na imagem "protetora" e "parceira" de um marido, se não quiser ser considerada "vagabunda".

É isso que pessoas como Solange Gomes, Mulher Melão (Renata Frisson), Valesca Popozuda, Mulher Melancia (Andressa Soares) e outras fazem. Elas ridicularizam a imagem da mulher solteira, associada pejorativamente a uma imagem hipersexualizada, como se a única coisa que a mulher solteira pode fazer é "mostrar seu corpo".

Intelectuais - inclusive femininas - tentaram afirmar esse sensualismo obsessivo de forma positiva, falando em "liberdade do corpo" ou "direito à sensualidade", criando uma verborragia pseudo-antropológica para dizer que essas mulheres-objeto "esfregam seus glúteos na cara dos homens" com a "auto-afirmação" de sua sensualidade.

Conversa para boi dormir. O discurso "progressista" desses intelectuais festivos não valeu, até porque a Mulher Melão expressou defender posições políticas reacionárias, não muito diferentes da Ju Isen, a "musa do impeachment".

Mesmo a postura politicamente correta de Valesca Popozuda não convence, pois se, fora dos palcos, ela tenta passar uma imagem de "feminista exemplar", nos palcos ela, que chegou a exibir os glúteos na cara da plateia, mostra uma imagem desesperadamente hipersexualizada.

Isso não é feminismo. É machismo e do grosso. Um machismo recreativo, no qual as mulheres aceitam o papel de objetos sexuais, levando a sensualidade como um fim em si mesmo e promovendo uma imagem depreciativa da mulher solteira, associada a orgias e ao erotismo obsessivo.

O objetivo é evitar que a mulher solteira tenha uma imagem similar à do Primeiro Mundo, da mulher que tem a dizer, aprecia cultura de qualidade e se veste de maneira sóbria, só mostrando sua sensualidade quando realmente necessário.

A mulher com esse perfil, no Brasil, representa um risco para o patriarcalismo machista em que vivemos. É como se a inteligência feminina fosse vista como um grande perigo, o que faz com que o "sistema" sempre arrume um jeito para as mulheres que têm a dizer tenham sua independência "filtrada" pela figura de um marido empresário, político, médico, economista, diretor de TV ou advogado.

Diante disso, as mulheres com personalidade e inteligência são induzidas a se vincularem à figura "moderadora" de um marido, uma figura que "influi" até quando as esposas aparecem quase sempre sozinhas e revelem nas entrevistas "profundas divergências" com seus maridos.

O marido serve como um "freio" para a "emancipação à francesa" (a França é conhecida por haver mulheres intelectualizadas solteironas) das mulheres, fazendo com que a inteligência delas seja expressa até livremente, mas sempre com uma associação simbólica ao marido empresário ou de algum cargo de liderança ou chefia, que represente um grande status sócio-econômico.

Já a mulher que faz o papel de objeto sexual não precisa de marido ou namorado. Ela segue o machismo por conta própria, não precisa de um vínculo conjugal com um homem porque elas já seguem o que os homens esperam delas, dentro da visão que o machismo impõe à mulher brasileira.

Com isso, as solteiras são ofendidas e depreciadas quando há exemplos como Solange Gomes, Valesca Popozuda e as mulheres-frutas. A sociedade hipersexualizada de um país machista serve para impedir a emancipação plena da mulher, impondo a ela duas opções: se ela quer ser solteira, terá que virar coisa, ou ela só será gente se arrumar um marido poderoso.