quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Factoide tenta abafar escândalo de Madre Teresa de Calcutá e transformá-la em "santa"

RONALD REAGAN, QUE FINANCIAVA O GENOCÍDIO NA AMÉRICA CENTRAL E ORIENTE MÉDIO, ERA VISTO COMO "DEFENSOR DA PAZ" PELA "ILUMINADA" MADRE TERESA DE CALCUTÁ.

Um factoide atribuído a um caso brasileiro foi forjado para não só tentar abafar as denúncias escandalosas que envolveram a Madre Teresa de Calcutá como também liberar o caminho para sua "santificação", que a Igreja Católica define como canonização, a promoção artificial (feita por homens da Terra) de certos indivíduos já falecidos a uma presumida "pureza" e "perfeição espiritual".

Consta-se que um engenheiro então com 35 anos, mais tarde identificado como Marcílio Haddad Andrino, que morava em Santos, havia acabado de se casar com a mulher - com a qual vive hoje com dois filhos no Rio de Janeiro - e vivia uma lua-de-mel em Gramado, conhecida cidade gaúcha.

De repente ele teria se sentido mal. Foi atendido num hospital de Gramado e, constatado como "portador de hidrocefalia", com supostas "oito infecções graves" no cérebro, foi levado às pressas para um hospital de Santos.

Aí ele teria entrado em coma e foi marcada uma cirurgia de emergência e alto risco. Seu estado era tido como "irreversível" e "terminal". No dia seguinte, porém, o paciente se levantou naturalmente, estava lúcido, tomou o café sozinho e se dizia "curado".

A "razão" para isso foi que a esposa, devota religiosa, viajou de Santos para São Vicente para visitar uma paróquia e falar com um padre, que lhe deu uma medalha de Madre Teresa de Calcutá e recomendou a mulher a orar pela freira. Ela depois voltou para Santos, foi para o hospital e pediu para que deixassem a medalha sob o travesseiro do marido enfermo.

Os médicos definiram o caso como "inexplicável" sob a lógica científica. Atribuíram o feito a um "milagre". 15 testemunhas colaboraram para um documento de 400 páginas enviado para o Vaticano, que garantiu a canonização de Madre Teresa, já marcada para setembro de 2016.

ESTRANHEZAS

O "admirável" caso chama a atenção pelos seus aspectos bastante estranhos. A "cura" levou sete anos para ser divulgada, muito suspeita para uma "brilhante notícia" da qual as pessoas naturalmente se apressariam em divulgar, tamanho o entusiasmo de seus envolvidos.

Também chama a atenção o fato de que o paciente estava internado num hospital católico, o Hospital São Lucas, o que traz um teor tendencioso do "milagre", porque Madre Teresa é considerada uma das maiores estrelas do imaginário católico mundial, bastante apreciada entre os católicos brasileiros, mas também adotada pelo "movimento espírita".

Será que o diagnóstico foi forjado? Ficamos perguntando se Marcílio teria tido apenas uma dor-de-cabeça grave, ou um refluxo, um enjoo ou uma intoxicação alimentar, e foi internado longo tempo e dormido muito e, no dia seguinte, apenas acordou e recuperou a disposição como um outro qualquer.

Mas constatar isso é "cruel demais", diante da "agonia" do pobre coitado, Não podemos questionar a visão oficial, que, por mais surreal que seja, tem que ser aceita como "verdade absoluta". Para todo efeito, o sujeito sofreu uma infecção cerebral gravíssima, esteve perto de morrer e Madre Teresa de Calcutá salvou sua vida e, por isso, ela deve ser santa para a alegria de seus fiéis.

Seria tudo maravilhoso não fossem os aspectos sombrios que foram denunciados por Christopher Hitchens, independente deste ter sido ateu ou não. Ele poderia até ter sido um católico. Alceu Amoroso Lima, conhecido escritor católico, denunciou as fraudes de Francisco Cândido Xavier com a mesma consistência com que Hitchens denunciou as irregularidades da trajetória de Madre Teresa.

Hitchens escreveu um livro, A Intocável Madre Teresa de Calcutá (The Missionary Position: Mother Teresa in Theory and Practice), em 1995, e, dois anos depois, o curto documentário Anjo do Inferno (Hell's Angel).

Os dois, livro e filme, sobretudo pelo título deste último, enfureceram a Igreja Católica e até a Madre Teresa, ainda viva, reagiu de maneira ríspida a eles (ela morreria pouco depois do lançamento do documentário). Só mais recentemente universitários canadenses confirmaram as denúncias de Hitchens (Engole esta, Universidade Federal de Juiz de Fora!).

Madre Teresa de Calcutá é acusada de não dar a devida assistência a pobres e doentes em suas "casas de caridade" em Calcutá, Índia. Eles eram deixados em leitos juntos, expostos uns aos outros sob alto risco de contágios. Eram mal alimentados e os únicos remédios a eles dados eram paracetamol e aspirina. Eram mantidos sem higiene e seringas infectadas eram reutilizadas, sendo elas lavadas somente com água de torneira (que não é esse primor de limpeza, como sabemos).

Não era por falta de dinheiro. Madre Teresa sempre fazia excursões para arrecadar dinheiro e obtinha recursos capazes de transformar suas casas de enfermos e moribundos em excelentes hospitais superequipados, limpíssimos e com farta alimentação para os enfraquecidos. Ela não os fez.

Pelo contrário, o que se viu foi Madre Teresa falar que é "preciso sofrer o que há de pior para chegar perto de Deus". Era uma má interpretação do martírio de Jesus de Nazaré, que forma o ideal da Teologia do Sofrimento, desumana corrente do Catolicismo que foi adotada, com muito entusiasmo, por Chico Xavier.

Várias vezes Chico Xavier também pregava o sofrimento como "caminho para Deus". Ele falava para "sofrermos amando e em silêncio" e não botar nossos infortúnios "na pauta dos outros". Tínhamos que sofrer calados e pensar que vamos, com isso, acelerar nosso caminho para o "paraíso", a "vida eterna" ou a "vida futura". Visão do mais puro e cruel sadismo.

Pior: enquanto Madre Teresa defendia que os sofredores tinham que permanecer sofredores para garantir o "espetáculo da caridade", ela se aliava a ditadores e políticos sanguinários e a magnatas corruptos (um deles criou sua fortuna roubando dinheiro de doações "para a caridade") e tudo o que a "bondosa freira" arrecadava era desviado para os cofres dos poderosos chefões do Vaticano.

Daí não ser difícil ver que factoides são criados para "santificar" uma freira que tanto representou lucros financeiros para a Santa Sé. Tentou-se atribuir ao "milagre de Madre Teresa" um outro caso, de uma indiana que sofria câncer no ovário, só que ela se curou não por causa da medalhinha com o retrato da freira, mas com o correto uso de medicamentos indicados pelos médicos.

Tudo isso é feito para abafar as denuncias de Christopher Hitchens e forçar a "santificação" de Madre Teresa de Calcutá, que permitirá a propaganda do Vaticano no mundo inteiro, e, além disso, a canonização entra no contexto da competitividade religiosa em que vivemos.

No mundo, a canonização tenta frear a ascensão do Islamismo no Ocidente, que acontece sobretudo com a migração, de países muçulmanos sob ditaduras ou guerras, como a Síria e a Argélia, de multidões de refugiados. A Itália recebe milhares deles e, por isso, o Vaticano precisa de um pretexto para recuperar o poder da Igreja Católica na Europa e nas Américas.

No Brasil, a "façanha" do "milagre de Madre Teresa", uma pegadinha viável dentro dos quintais da Igreja Católica (como o hospital católico de Santos), tem como objetivo frear a ascensão do neopentecostalismo, simbolizado pelo crescimento da Rede Record, da Igreja Universal do Reino de Deus, favorecido pela grande audiência da novela bíblica Os Dez Mandamentos.

Isso é o que está em jogo. E as elites que querem se fazer de "boazinhas" através dos estereótipos de Chico Xavier, Madre Teresa, Divaldo Franco e outros ídolos da fé deslumbrada, se enfurecem diante do menor questionamento.

Eles se enfurecem até quando passamos a defender os pobres e enfermos que não recebiam os devidos cuidados de Madre Teresa, como vemos nessa declaração da blogueira "A Catequista" que mostra um desprezo pelos pobres digno do personagem cômico Justo Veríssimo:

"Hitchens acusava a Madre de não ajudar os pobres a sair de seu estado de pobreza. De fato, Madre Teresa não fundou uma ONG, ela não fazia trabalho social; ela fazia CARIDADE, ela amava cada pobre como um filho saído de seu ventre. A mesma acusação que se fez a ela, poderia-se fazer a São Francisco de Assis: quem aí ouviu dizer que o santo levou algum pobre a ascender socialmente? E, no entanto… ele era a maior riqueza dos pobres, em seu tempo".

Que caridade é essa que "não é trabalho social"? Que instituição não pode ser uma ONG? A blogueira católica não sabe que o que Madre Teresa organizou, em tese, era uma ONG, mas uma má ONG, que não assistia os pobres direito. Além disso, a blogueira mostrou seu desprezo aos pobres quando deixou vazar sua ideia de que os pobres "não precisavam de ascensão social".

É assim que as elites pensam dos pobres, do sofrimento. Elas querem que os pobres e sofredores se mantenham assim nessas condições humilhantes, para que o teatrinho da "caridade" continue a ser feito. Criem-se vítimas, faça-se o holocausto, façam-se os desgraçados e deserdados da sorte, para que se fabriquem os "bonzinhos de ocasião" que garantam o sono tranquilo das elites preconceituosas que podem, enfim, se passar por "piedosos" e esconder suas neuroses debaixo do tapete.

sábado, 19 de dezembro de 2015

"Você e a Paz" e o medo das pessoas em questionar ídolos religiosos

DIVALDO FRANCO ESPALHA A DETURPAÇÃO DA DOUTRINA ESPÍRITA E AINDA ACUMULA TESOUROS NA TERRA.

É muito triste o que acontece no Brasil. Mesmo pessoas dotadas de algum raciocínio questionador ficam muito melindrosas diante de certas coisas, por causa de determinados estereótipos. E isso ocorre em vários setores da vida humana.

Na cultura, por exemplo, vemos o "funk carioca" que trabalha os estereótipos de pobreza que anestesiam a classe média. Um bando de intelectuais badalados aproveitou isso e veio com o papo de "ruptura do preconceito" para forçar a aceitação do ritmo carioca, enquanto este difunde nas classes populares valores dos mais retrógrados, ligados ao machismo, ao racismo, à burrice e a violência.

Poucos perceberam a "apologia à ignorância e à pobreza" que os sádicos empresários do "funk carioca", que financiavam esses etnógrafos de bosta, que devolviam mais dinheiro por causa da reputação do "funk" através de um discurso pseudo-intelectual feito por rebuscadas monografias e documentários supereditados e superproduzidos.

As pessoas se deslumbram, porque é o elogio à embalagem. O "funk" simboliza um paradigma de pobreza que tranquiliza as elites, uma forma domesticada de "rebelião popular", um engodo ideológico que misturava desfiles de moda, falsas alegações de provocação cultural e modernismo antropofágico e suposta rebeldia comportamental a um ritmo musicalmente ruim que evocava os mais retrógrados valores sociais, como a imagem de "mulher-objeto" das "mulheres-frutas".

Na religião, os exemplos são muitos. No "espiritismo", exemplos como os dos anti-médiuns Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco são bem ilustrativos. O que eles fizeram com a Doutrina Espírita é de uma aberração sem tamanho, uma deturpação doutrinária que chega ao nível do irresponsável e deplorável, mas eles são sempre protegidos por uma imagem de "bondade" que os cerca.

O evento de hoje, o suposto Dia do Movimento pela Paz, instituída politicamente para garantir patrocínios ao evento "Você e a Paz" comandado por Divaldo Franco, realizado todo ano no Largo do Campo Grande, em Salvador, é um exemplo de como temos que ser melindrosos porque a "criançada" com mais de 18 anos e até na meia-idade ou velhice, não quer que questionemos o evento.

O "Você e a Paz" é uma simples "missa ecumênica", mas todos são obrigados a acreditar que é um poderoso evento ativista vinculado à doutrina de Allan Kardec, e duvidar que o evento possa causar uma revolução social é, infelizmente, garantia de perda de amigos e boicotes diversos. Você pode até perder seu emprego se duvidar do "poder revolucionário" de "Você e a Paz".

Diferente de Chico Xavier, que não conseguiu dissimular seu catolicismo, Divaldo Franco é visto como mais verossímil, entre os deturpadores da Doutrina Espírita que se autoproclamam "rigorosamente fiéis a Allan Kardec e sua obra". Há quem acredite que Divaldo é "espírita autêntico" por causa de seu ar professoral e de seu aparente "intelectualismo".

Ver que, na ideologia religiosa, ideias como "amor", "paz" e "caridade" intimidam as pessoas e impedem que questionamentos profundos sejam feitos, é assustador. E ver que muita gente boa com algum funcionamento no cérebro ainda põe fé nos deturpadores espíritas é muito preocupante.

O evento é apenas uma "missa ecumênica". Tem musiquinha, tem festa, tem pipoqueiro ao redor, camisetinhas, carrinho de cachorro-quente, convidados e tudo o mais. As pessoas que ainda vivem no deslumbre religioso não iriam abrir mão dessa diversão. Para muitos, Divaldo Franco é seu "Papai Noel", pouco importando se ele entendeu errado o pensamento kardeciano.

Divaldo Franco faz o discurso rebuscado de sempre, aquela fala empolada e prolixa, mas cheia de "coisas boas". De vez em quando ele solta um falsete de Adolfo Bezerra de Menezes, um político fisiológico que adorava Jean-Baptiste Roustaing, o rival de Kardec. Tudo muito "lindo".

Você questiona isso e, frequentemente, vai outra pessoa dizendo "mas não é bem assim". Vem um cara chorosamente dizendo "Sabemos que Divaldo deturpou a DE, mas este evento tem valor, sim" e aí, de grão em grão, se empurra um deturpador para a galeria de "espíritas autênticos". Se não der para salvar Chico Xavier, pelo menos o "Rolando Lero" da Escolinha do Professor Kardec manterá sua cadeira cativa.

O Dia do Movimento pela Paz foi instituído politicamente pelo prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto, o ACM Neto. Divaldo Franco é conhecido colecionador de prêmios, acumula tesouros na Terra premiado pelos donos do poder e por figurões da política.

Mas todos nós somos aconselhados a acreditar que o dia é dedicado a um ativismo sério, como temos que acreditar que o Dia Mundial do Rock, instituído por uma emissora de rádio ridícula que é a 89 FM de São Paulo (que se diz roqueira mas só investe em besteirol), é comemorado no mundo inteiro, como se um evento comercial como o Live Aid (que tinha muita gente não-roqueira, como Madonna e George Michael) fosse o supra-sumo da combinação entre ativismo social e cultura rock.

Se não acreditarmos, bingo! Seremos considerados pessoas cruéis, que não compreendem as coisas, que não sabem o poder que uma missa tem de pedir paz às pessoas, e se ocorre um massacre na Europa devido a um atentado terrorista, enquanto o "sábio" Divaldo Franco faz uma palestrinha em algum lugar, mesmo que fosse no Brasil, então a culpa é dos europeus por estarem surdos a esse "apelo poderoso".

Na verdade, as pessoas estão com medo de questionamentos. A fé religiosa é uma muleta emocional, um sustentáculo frágil para a insegurança de muitas pessoas que, enquanto não são questionadas em suas fantasias místicas e religiosas, são felizes e simpáticas, mas quando surge um questionamento, por mais construtivo que fosse, elas reagem feito bestas-feras a quererem sair de suas jaulas.

Além do mais, o "movimento espírita" é muito conhecido por teorizar demais a paz, a bondade e a caridade. Pratica muito pouco, porque sempre atua nos limites clichês da filantropia católica, em que a ajuda ao próximo é feita sem comprometer a estrutura de desigualdades vigente. São apenas doações diversas, assistencialismo morno, sopinhas e projetos educativos que até ensinam a ler e a escrever, mas não impedem da pessoa ser "mais um ninguém na multidão".

Divaldo Franco, além disso, é festejado e considerado "maior filantropo do mundo" com uma ajuda ínfima, pois a Mansão do Caminho só ajudou, até agora, 0,08% da população de Salvador, o que, em dimensões mundiais, é o mesmo que nada. Como ser considerado "maior filantropo do mundo" desta forma não dá para entender. Festeja-se demais por praticamente nada.

Além disso, o bairro de Pau da Lima, onde se situa o "vitorioso projeto de Divaldo Franco", vive constantemente sob o clima da violência. Todo dia os noticiários policiais registram alguma violência e criminalidade no bairro soteropolitano.

Pessoas dormem na Mansão do Caminho sob eventuais barulhos de tiroteios. Não fosse a grande muralha que cerca a Mansão e seu conjunto de casas, balas perdidas teriam atingido o local e provavelmente alguma vítima seria incluída num incidente.

Mas aí temos que viver no mundo da fantasia e acreditar que existem pessoas surdas ao apelo "sábio" de Divaldo Franco. Como se ele pudesse falar para o mundo, ele, um astucioso deturpador da Doutrina Espírita. o que é impossível.

Afinal, um homem que não chega a ajudar 1% da população de uma cidade grande não seria a voz que pudesse ressoar forte no resto do mundo. Sua voz só consegue ressoar para os ouvidos complacentes de seus seguidores.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A péssima dedicação do "espiritismo" brasileiro às Ciências


O "espiritismo" brasileiro se diz amigo da Ciência, defensor do Conhecimento e valorizador da inteligência, do raciocínio e do bom senso. Mas isso é apenas conversa para boi dormir. Por debaixo dos panos, vemos pregações igrejistas aqui e ali e a supremacia da fé "raciocinada", mas em verdade irracional, acaba sempre vencendo dentro da ideologia da doutrina brasileira.

A verdadeira Ciência, ou melhor, as verdadeiras Ciências, se percebermos as diversas correntes do ramo do Conhecimento, sofrem a cruel discriminação dada pelos "espíritas". Eles, com todo o discurso que os coloca como supostos arautos do pensamento científico, só admitem a Ciência quando ela não contraria os mitos e fantasias trazidos pela fé religiosa.

Gabam-se os "espíritas" de sua suposta postura anti-medieval, porque a retórica do "movimento espírita" sempre tenta nos fazer crer que a doutrina brasileira capitaneada pela Federação "Espírita" Brasileira mas também defendida por aparentes "dissidências", se autoproclama "uma nova revelação" que toma como "superados" os pesadelos doutrinários da Idade Média.

No entanto, isso é mais um engano. Sabe-se que o "espiritismo" brasileiro nada tem a ver com Allan Kardec, apesar de toda a bajulação e todas as chorosas juras de fidelidade ao pensador francês, e na verdade se trata de um engodo religioso que combina moralismo católico medieval como práticas hereges ocultistas como a homeopatia dos mascates, a bruxaria e a Astrologia.

Curandeirismo barato, esoterismo ocultista, moralismo religioso, tudo isso faz do "espiritismo" brasileiro não a tão alardeada adaptação local da doutrina de Allan Kardec, mas uma espécie de variação informal do Catolicismo, um Catolicismo sem batina e sem o senta-e-levanta das missas, mas dotado também de suas frescuras manifestas em dogmas e ritos.

Daí que a apreciação da Ciência, da parte do "movimento espírita", tende a ser a mais tendenciosa e seletiva possível. As publicações "espíritas" precisam em algumas páginas mostrar um desfile de intelectuais e cientistas diversos, como Isaac Newton, Galileu Galilei, Albert Schweitzer e tantos outros.

Mas a máscara cai quando vemos três cientistas alvos de profunda discriminação no Brasil e que, por isso, abrem caminho para mentiras cruéis e nada científicas que favorecem os habituais ídolos do "espiritismo" brasileiro.

QUANDO A CIÊNCIA É INJUSTIÇADA

Três cientistas de renome, mas pouco conhecidos no Brasil, nunca foram estudados devidamente e sofrem a discriminação que permitiu as mentiras relacionadas a suas descobertas e atividades, que só servem para atribuir falso pioneirismo aos festejados totens do "movimento espírita".

Um dos casos mais graves é o de Franz Anton Mesmer, médico e cientista que estudava os processos de magnetização entre animais, cujos resultados chamaram a atenção do professor Hippolyte Leon Denizard Rivail, antes dele adotar o codinome Allan Kardec.

Foi a partir de Franz Mesmer que Kardec estabeleceu os métodos de pesquisa que resultaram na Codificação Espírita, um sistema de ideias e procedimentos relacionados às pesquisas sobre vida espiritual e comunicação com espíritos falecidos.

No entanto, no Brasil não há um livro de Mesmer traduzido para nossos leitores. O que se transmite de Mesmer vem de terceiros, o que não pode ser absolutamente confiável, por mais bem intencionado que alguns autores sejam, porque falta a fonte original, falta o pensador pioneiro, falta o ponto de partida de uma linha de conhecimento e pesquisa que aqui chega em segunda mão.

Há o caso do astrônomo estadunidense Percival Lowell, que fundou um observatório espacial no Arizona (que existe até hoje) e que realizou trabalhos de pesquisa sobre vida em Marte, analisando indícios de existência de vida humana, de civilizações adiantadas e de construções de canais fluviais artificiais. E isso ainda no século XIX.

No entanto, Percival Lowell não é conhecido pelos brasileiros. Também não tem trabalhos traduzidos aqui e o máximo que os leigos podem saber é que ele escreveu um livro sobre o Japão, com uma análise antropológica sobre seus hábitos religiosos.

Com essa lacuna, permitiu-se que um radialista, o presidente da Rádio Rio de Janeiro AM, Gerson Simões Monteiro, também colunista do jornal Extra, inventasse a estória de que Francisco Cândido Xavier teria "descoberto" vida em Marte, através de livros de 1935 e 1939.

Beneficiado pela visibilidade e prestígio altos, Gerson Monteiro, com sua "Lei de Gerson espírita", fez com que Chico Xavier fosse festejado como um suposto "pioneiro científico" ao qual se atribuiu cerca de 80 anos da suposta façanha de ter previsto vida em Marte.

O que Gerson fez foi uma grande bobagem. Afinal, bem antes de Chico Xavier nascer, Percival Lowell lançou livros sobre o assunto, com todos os elementos que no Brasil acredita-se serem "pioneiros" em Chico Xavier: civilizações adiantadas, vida humana, construção de canais fluviais.

Lowell criou uma trilogia de livros sobre o assunto, e o último dos três volumes foi publicado em 1908, portanto, dois anos antes de Chico Xavier nascer. O que significa que Chico Xavier não poderia ser pioneiro de jeito algum, porque o assunto da possibilidade de haver vida em Marte era considerado velho mesmo em 1935.

Outro caso é Wolfgang Bargmann, um cientista conhecido praticamente apenas na Alemanha. Até mesmo em países de língua inglesa, como EUA e Reino Unido, pouco conhecem desse cientista alemão, sobretudo nos EUA, que acolheram, no auge do nazi-fascismo, uma boa parcela de intelectuais da chamada Escola de Frankfurt, que passaram a lecionar no país americano.

Bargmann teria sido um dos principais estudiosos da glândula pineal na década de 1940 e, portanto, integrante de um cenário fértil, embora aparentemente pouco produtivo, sobre o assunto. Talvez essa aparência seja discutível, mas o que se sabe é que a glândula pineal, um assunto já antigo, teve pesquisas impulsionadas na mesma década da Segunda Guerra Mundial.

Mas Bargmann, se é pouco conhecido nos EUA, seria portanto bem menos no Brasil. Praticamente ele "não existiu" e essa lacuna fez com que um pesquisadores que se autoproclamam "sérios" supusessem que um fictício personagem como André Luiz teria "descoberto" novas teses sobre glândula pineal através de livros como Mensageiros da Luz, de 1945.

Sem pesquisar as próprias fontes de 1940 - os estudiosos se limitaram a consultar fontes de terceiros, publicadas a partir de 1977 - , os acadêmicos "espíritas" festejaram e alardearam um suposto pioneirisimo de André Luiz em até seis décadas em relação à glândula pineal.

Daí que isso se configurou numa grave situação, como nas outras acima citadas. E mostra o quanto o "espiritismo" brasileiro não está aí para a Ciência, ou para as Ciências, e que sua apreciação ao conhecimento científico é falsa e oportunista. Para os "espíritas", a Ciência pode até ter atuação autônoma, desde que não contrarie os dogmas da "moderna" fé religiosa. Essa é a dura verdade.