sexta-feira, 7 de abril de 2017

Pobre de direita: uma ameaça masoquista às classes populares


Um episódio terrível ocorreu em um ônibus de Niterói, ontem pela manhã. Um homem, negro, pobre e evangélico, estava reclamando da corrupção política e passou a fazer um discurso de defesa ao deputado Jair Bolsonaro, um dos símbolos da extrema-direita brasileira e considerado um grande ídolo no Grande Rio.

Com pontos de vista de valor duvidoso, mas suficientes para criar um clima de catarse coletiva dentro do veículo, os demais passageiros passaram a concordar com o rapaz, que ainda descreveu a fábula de Adão e Eva como se fosse um episódio da História da humanidade. Um verdadeiro espetáculo de burrice, de estupidez, mas que se impõe como se fosse uma verdade indiscutível.

Esse é o pobre de direita, que virou um fenômeno esquisito no Brasil. Um pobre que aceita o fim dos direitos trabalhistas, a venda de riquezas brasileiras para corporações estrangeiras e quer o país governado por pessoas autoritárias ou elitistas. O pobre de direita é um masoquista social, achando que, quanto mais o Brasil agir contra os pobres, melhor. O pobre direitista é, portanto, um lambedor de gravatas, um babador de paletós e de fardas militares.

O pobre deu um tiro no pé. Três dias antes, Jair Bolsonaro deu uma palestra numa instituição judaica, o Clube Hebraica, na zona sul do Rio de Janeiro. O "heroico homem" passou a difundir comentários racistas e machistas para uma plateia que assistia àquela estranha palestra.

Ele disse que ter uma filha era "fraquejada", demonstrando seu machismo, já conhecido em outras ocasiões, como na discussão com a deputada Maria do Rosário, contra a qual Jair declarou que "só não a estuprava porque ela era feia". E depois despejou comentários racistas que deixariam o passageiro do ônibus bastante preocupado, se ele tivesse consciência do que realmente falou.

Entre outras coisas, Jair Bolsonaro falou que o "afrodescendente" era incapaz até de procriação e que, se fosse presidente da República, ele não criaria áreas de terras para negros e indígenas. Isso é terrível, e a declaração causou indignação de setores do poder Judiciário e do Legislativo que, pelo menos, têm algum senso mínimo de humanidade.

Isso é muito perigoso. O Estado do Rio de Janeiro, sofrendo uma decadência vertiginosa, virando antro de fumantes, tendo a capital como cidade mais poluída do país, e, mesmo sendo um dos centros distribuidores de mercadorias, deixou de reabastecer com regularidade os seus mercados, sem falar que o Grande Rio tem os caminhões de lixo mais fedorentos, as ruas cheirando a fuligem e é o maior reduto de cyberbullies e de policiais truculentos no país.

Nós não somos necessariamente petistas, mas sabemos o quanto os opositores do governo Dilma estão abusando de seus preconceitos sociais. De repente sofremos um surto reacionário de gigantescas proporções e isso é um grande alerta. Especialistas sérios, juristas que estudam as leis com cautela e objetividade, alertam que o Brasil vive um clima semelhante ao da Alemanha do começo dos anos 1930.

A catarse coletiva dos reacionários, sempre furiosos quando os movimentos sociais se manifestam, mas tolamente alegres quando são os próprios direitistas que se envolvem em graves escândalos políticos, como se isso não fosse escândalo e sim uma piada de programa humorístico, é um fenômeno muito perigoso que deveria preocupar juristas e legisladores, se eles tivessem algum pingo de consideração ao ser humano.

Tudo virou uma epidemia de comentários racistas, machistas, rancorosos em geral, como se, em pleno século XXI, tivessem sido liberados todo tipo de visão desumana, ofensiva, depreciativa e reacionária. E uma parcela psicopata da sociedade acaba tendo uma forte esperança de ver um homem como Jair Bolsonaro comandando o Palácio do Planalto. Vai ser um pesadelo. Já tem gente querendo que ele seja governador do Rio de Janeiro. Será uma catástrofe sem tamanho!

Temos um Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal e as pessoas ainda vão dormir tranquilas. Ele está lá como advogado de Michel Temer, e já contradisse o que o próprio ministro do STF, anos antes, havia escrito em seus livros de direito. Ver alguém contrariando suas próprias ideias é de arrepiar os cabelos, mas as pessoas saem de casa tranquilas, achando que vivem os "dias mais felizes de todos os tempos".

Estamos numa catástrofe política no Brasil, num pesadelo sem fim. A despreocupação das pessoas é preocupante, porque o Brasil está desgovernado, caótico, desordeiro, retrógrado. Recentemente, o ator José Mayer, antes uma figura de prestígio inabalável, foi denunciado por assédio sexual por tocar numa genitália de uma figurinista, Susllem Tonani, e causou grande revolta no país.

Jair Bolsonaro fez apologia ao estupro, mas como ele discutiu com uma deputada do PT e não com uma jornalista da Globo - se ele tivesse discutido com Miriam Leitão e dito a mesma coisa, talvez tivesse dificuldades de contornar o escândalo - , tudo ficou nisso mesmo.

E o "espiritismo", como fica? Os palestrantes, tão cheios de palavras bonitinhas, só ficam dizendo para os sofredores "suportarem as desgraças" e "perdoarem os abusos dos algozes", mais compactuando com o egoísmo que dizem condenar. Ficam tão vagamente reprovando o egoísmo e o materialismo, mas da forma como pregam as elites só ficam gratas a essa Teologia do Sofrimento fantasiada de "postulados de Allan Kardec" (ele reprovaria tudo isso que os "espíritas" daqui fazem).

As pessoas precisam reagir, porque o Brasil está tomado por elites retrógradas que veem o topo da pirâmide arder em chamas - é o "inferno na torre" - e tentam jogar o ônus da decadência para os "de baixo". É preciso dar um freio a esse pessoal porque o Brasil corre um grave risco de sucumbir ao obscurantismo mais repressivo, a um holocausto que não saberemos como se dará. É preciso realizar uma faxina nessa ponta da pirâmide cada vez marcada pela podridão mais doentia.

sábado, 1 de abril de 2017

Divaldo Franco fez juízo de valor contra refugiados do Oriente Médio


Imagine a seguinte situação. Você e seus familiares vivem em uma cidade onde os atentados a bomba e tiroteios ocorrem nas proximidades. Sua casa é um potencial alvo de bombardeios. Barulhos de explosões e de tiros são constantes na madrugada, de forma a impedir que as pessoas tenham um sono tranquilo.

Você e seus familiares, evidentemente, vão arrumar as malas com tudo o que podem levar e, com muito sacrifício, se juntar a multidões que iniciam sua peregrinação difícil para se mudarem para outro país. Escolhem um país europeu para se exilarem, não pela aparente imponência do Velho Continente, mas porque lá há um nível menor de insegurança, com mais chances de viver num ambiente de paz e tranquilidade.

Vocês se instalam num país europeu e decidem trabalhar em empregos modestos, mas que possam garantir renda para manter o aluguel, uma alimentação minimamente digna e algum entretenimento para distrair as mentes cansadas e traumatizadas.

Mas, de repente, longe de suas casas, um palestrante religioso, dotado do mais alto prestígio entre os seus, tido como "sábio" e supostamente em contato com as mais altas esferas da espiritualidade, acusa você e seus familiares de terem sido sanguinários colonizadores europeus, que dizimaram povos na América Latina e que, por isso, vão pagar as consequências dos delitos de vidas passadas.

Você e seus familiares, enfrentando com a mais possível calma e um mínimo de habilidade, as dificuldades para viver num outro país, porque o país de origem virou um cenário de guerra. Todos tentam arrumar suas vidas, com calma e perseverança, se alegrando com as pequenas conquistas alcançadas, e vem um ídolo religioso, à distância, acusar vocês de terem sido colonizadores com sede de sangue, que retornaram à Europa em busca de antigos privilégios.

Pois é justamente isso que foi o julgamento de valor de ninguém menos que o anti-médium baiano Divaldo Pereira Franco, um habilidoso manipulador de palavras e dono de um discurso rebuscado. Tido como "sábio" e considerado "unanimidade" religiosa, veio com a seguinte "pérola" ao ser entrevistado para um periódico português durante um congresso "espírita" na Espanha:

"No campo das deduções e de acordo com o meu pensamento, penso que aqueles que estão hoje, de volta à Europa, são os antigos colonizadores que deixaram, até hoje, a América Latina na miséria.
Como foi negado todo o direito aos seus residentes, como aculturaram os silvícolas, destruindo culturas veneráveis, pela Lei de Causa e Efeito aqueles estão retornando hoje à pátria, no estado de miséria, e que ameaçam os próprios países de onde saíram, para, um dia, buscarem a fortuna para o conforto europeu. 

Mas, também me recordo dos grandes problemas que estão a acontecer no antigo Levante, graças às tropas muçulmanas. “O Homem é o lobo do Homem” e, verificamos que estamos a transformar este lobo em cordeiro. Como sou otimista, acredito que em breve, o lobo e o cordeiro beberão no mesmo regato, em fraternidade. Já vemos muitas dessas uniões, através da educação que é proporcionada, e nós vemos isso na Internet, diariamente. Porque não, na realidade, amanhã?".

Terrível julgamento de valor seguido ainda de ideias truncadas sobre o "lobo" e o "cordeiro". Um típico deturpador da Doutrina Espírita, que comete a hipocrisia de se autoproclamar "rigorosamente fiel" a Allan Kardec, mesmo contrariando seus ensinamentos - Divaldo acredita, por exemplo, em fantasias como "crianças-índigo" - , usa seu prestígio religioso para acusar os refugiados dos países asiáticos e africanos do Oriente Médio de terem sido "antigos colonizadores em busca de fortuna".

Depois, no morde-e-assopra de sua retórica espetacular, com seu exército de palavras de pretensa erudição, Divaldo não parece claro diante de sua exposição prolixa sobre a ideia de que o "homem é o lobo do homem". Até que ponto Divaldo fala na intenção de transformar o lobo em cordeiro, se para o bem e para o mal, não dá para entender.

Além disso, ele tenta um conceito igrejista de "fraternidade" - mais próxima de um "gado" ou "rebanho", como reza o Catolicismo medieval, do que do convívio harmônico da sociodiversidade humana - , embora também não deixe claro que "uniões" ele fala de "lobos" e "cordeiros" na "educação proporcionada na Internet".

A julgar da tendência comum, nós, que fundimos a cuca diante desse relato prolixo de Divaldo Franco, indagamos se a tal "união entre lobos e cordeiros" não seria os ataques de cyberbullying que os valentões fazem contra as pessoas pouco convencionais, apoiados por demais internautas que pareciam simpáticos e admiráveis. Seriam os "lobos" que chamam os "cordeiros" para humilhar as "ovelhas negras" nas redes sociais?

Muitas pessoas que recorreram a tratamentos espirituais nas "casas espíritas" - algumas delas tidas como de "alto conceito" - reclamam que, em vez de conseguir superar as dificuldades que as inspiraram a tão arriscado socorro, conseguiram mais azar, e não raro pessoas vão fazer tratamento para depois serem vítimas de bullying na Internet e alvo de páginas ofensivas das quais eles têm alguma dificuldade de denunciar sem sofrer alguma represália.

O que Divaldo Franco fez não merece aprovação alguma e põe em xeque seu aparente prestígio, conseguido em milionárias palestras feitas para elites embevecidas. É algo que nem a pose de humildade nem uma suposta filantropia que não ajuda mais do que 0,01% do povo brasileiro, consegue atenuar, pois o julgamento de valor, mesmo em tenras palavras, é de uma gravidade sem tamanho.

Será que Divaldo Franco gostaria de ser acusado de ter sido, em antiga encarnação, um antigo sacerdote medieval europeu que, designado para colaborar com Anchieta e companhia na dizimação cultural das crenças indígenas no Brasil, regressou séculos depois à Europa para usufruir de confortáveis palestras cheias de pompa e receber prêmios dos ricos e poderosos?

Deve-se levar em conta que seu "espiritismo" deturpado não tem moral para atribuir encarnação passada aqui e ali, e, além disso, Kardec recomenda o esquecimento de vidas passadas para evitar situações e sentimentos desagradáveis ou exagerados. Além disso, os refugiados, pelas dificuldades que sofrem, merecem respeito, e não é o prestígio religioso que permitirá juízos de valor severos contra pessoas que não têm como recorrer para processar alguém por danos morais.