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Pobre de direita: uma ameaça masoquista às classes populares


Um episódio terrível ocorreu em um ônibus de Niterói, ontem pela manhã. Um homem, negro, pobre e evangélico, estava reclamando da corrupção política e passou a fazer um discurso de defesa ao deputado Jair Bolsonaro, um dos símbolos da extrema-direita brasileira e considerado um grande ídolo no Grande Rio.

Com pontos de vista de valor duvidoso, mas suficientes para criar um clima de catarse coletiva dentro do veículo, os demais passageiros passaram a concordar com o rapaz, que ainda descreveu a fábula de Adão e Eva como se fosse um episódio da História da humanidade. Um verdadeiro espetáculo de burrice, de estupidez, mas que se impõe como se fosse uma verdade indiscutível.

Esse é o pobre de direita, que virou um fenômeno esquisito no Brasil. Um pobre que aceita o fim dos direitos trabalhistas, a venda de riquezas brasileiras para corporações estrangeiras e quer o país governado por pessoas autoritárias ou elitistas. O pobre de direita é um masoquista social, achando que, quanto mais o Brasil agir contra os pobres, melhor. O pobre direitista é, portanto, um lambedor de gravatas, um babador de paletós e de fardas militares.

O pobre deu um tiro no pé. Três dias antes, Jair Bolsonaro deu uma palestra numa instituição judaica, o Clube Hebraica, na zona sul do Rio de Janeiro. O "heroico homem" passou a difundir comentários racistas e machistas para uma plateia que assistia àquela estranha palestra.

Ele disse que ter uma filha era "fraquejada", demonstrando seu machismo, já conhecido em outras ocasiões, como na discussão com a deputada Maria do Rosário, contra a qual Jair declarou que "só não a estuprava porque ela era feia". E depois despejou comentários racistas que deixariam o passageiro do ônibus bastante preocupado, se ele tivesse consciência do que realmente falou.

Entre outras coisas, Jair Bolsonaro falou que o "afrodescendente" era incapaz até de procriação e que, se fosse presidente da República, ele não criaria áreas de terras para negros e indígenas. Isso é terrível, e a declaração causou indignação de setores do poder Judiciário e do Legislativo que, pelo menos, têm algum senso mínimo de humanidade.

Isso é muito perigoso. O Estado do Rio de Janeiro, sofrendo uma decadência vertiginosa, virando antro de fumantes, tendo a capital como cidade mais poluída do país, e, mesmo sendo um dos centros distribuidores de mercadorias, deixou de reabastecer com regularidade os seus mercados, sem falar que o Grande Rio tem os caminhões de lixo mais fedorentos, as ruas cheirando a fuligem e é o maior reduto de cyberbullies e de policiais truculentos no país.

Nós não somos necessariamente petistas, mas sabemos o quanto os opositores do governo Dilma estão abusando de seus preconceitos sociais. De repente sofremos um surto reacionário de gigantescas proporções e isso é um grande alerta. Especialistas sérios, juristas que estudam as leis com cautela e objetividade, alertam que o Brasil vive um clima semelhante ao da Alemanha do começo dos anos 1930.

A catarse coletiva dos reacionários, sempre furiosos quando os movimentos sociais se manifestam, mas tolamente alegres quando são os próprios direitistas que se envolvem em graves escândalos políticos, como se isso não fosse escândalo e sim uma piada de programa humorístico, é um fenômeno muito perigoso que deveria preocupar juristas e legisladores, se eles tivessem algum pingo de consideração ao ser humano.

Tudo virou uma epidemia de comentários racistas, machistas, rancorosos em geral, como se, em pleno século XXI, tivessem sido liberados todo tipo de visão desumana, ofensiva, depreciativa e reacionária. E uma parcela psicopata da sociedade acaba tendo uma forte esperança de ver um homem como Jair Bolsonaro comandando o Palácio do Planalto. Vai ser um pesadelo. Já tem gente querendo que ele seja governador do Rio de Janeiro. Será uma catástrofe sem tamanho!

Temos um Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal e as pessoas ainda vão dormir tranquilas. Ele está lá como advogado de Michel Temer, e já contradisse o que o próprio ministro do STF, anos antes, havia escrito em seus livros de direito. Ver alguém contrariando suas próprias ideias é de arrepiar os cabelos, mas as pessoas saem de casa tranquilas, achando que vivem os "dias mais felizes de todos os tempos".

Estamos numa catástrofe política no Brasil, num pesadelo sem fim. A despreocupação das pessoas é preocupante, porque o Brasil está desgovernado, caótico, desordeiro, retrógrado. Recentemente, o ator José Mayer, antes uma figura de prestígio inabalável, foi denunciado por assédio sexual por tocar numa genitália de uma figurinista, Susllem Tonani, e causou grande revolta no país.

Jair Bolsonaro fez apologia ao estupro, mas como ele discutiu com uma deputada do PT e não com uma jornalista da Globo - se ele tivesse discutido com Miriam Leitão e dito a mesma coisa, talvez tivesse dificuldades de contornar o escândalo - , tudo ficou nisso mesmo.

E o "espiritismo", como fica? Os palestrantes, tão cheios de palavras bonitinhas, só ficam dizendo para os sofredores "suportarem as desgraças" e "perdoarem os abusos dos algozes", mais compactuando com o egoísmo que dizem condenar. Ficam tão vagamente reprovando o egoísmo e o materialismo, mas da forma como pregam as elites só ficam gratas a essa Teologia do Sofrimento fantasiada de "postulados de Allan Kardec" (ele reprovaria tudo isso que os "espíritas" daqui fazem).

As pessoas precisam reagir, porque o Brasil está tomado por elites retrógradas que veem o topo da pirâmide arder em chamas - é o "inferno na torre" - e tentam jogar o ônus da decadência para os "de baixo". É preciso dar um freio a esse pessoal porque o Brasil corre um grave risco de sucumbir ao obscurantismo mais repressivo, a um holocausto que não saberemos como se dará. É preciso realizar uma faxina nessa ponta da pirâmide cada vez marcada pela podridão mais doentia.

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