sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Crise, crise e crise. E o pessoal muito alegrinho?


Onde estão os "indignados"? Fora os ensandecidos que invadiram a Câmara dos Deputados para pedir a volta da ditadura militar, não se observa uma única indignação. Pelo contrário, se Neymar é ameaçado de ser preso por corrupção, as mesmas pessoas que pediram "fora Dilma" meses atrás torcem pela absolvição do jogador. Também, vestiram a camisa da CBF...

É o país que sonha com a volta do Vasco da Gama na Série A - ou, melhor dizendo, diante de um futebol carioca extremamente ruim, será a Série A que cairá para a Segundona - e que lê "livros para colorir" que agora vem com nova obra de "não-ficção", a tal de "Animais Fantásticos", se somando às bobagens literárias que as pessoas leem, como youtubers, minecrafts, vampiros e coisa parecida.

Pessoas que contraditoriamente se enraiveciam só de ver Dilma Rousseff na tela da televisão, batendo panelaços e gritando "vadia corrupta" hoje estão felizes nas ruas e contam piadas sem prestar atenção no fedor do lixo que está ao lado. Compram produtos em lojas que exploram trabalho análogo ao da escravidão (Riachuelo, McDonald's etc) e saem felizes da vida ligando o celular para ver mais uma bobagem "divertida" no WhatsApp.

O Brasil está pegando fogo e as luzes das chamas são confundidas com a iluminação das boates. A crise política dos últimos meses é extremamente pior do que quando Dilma estava no governo e isso não é uma visão eminentemente esquerdista. Isso porque o grupo político que retomou o poder é bem mais corrupto do que a suposta corrupção que se atribui oficialmente ao PT.

Um surto de sadomasoquismo acontece no Brasil e as pessoas acham que tem que extinguir empresas públicas e entregar nossas riquezas para empresas estrangeiras. A retomada ultraconservadora reanimou machistas, racistas, escravistas e elitistas em geral, que não medem escrúpulos para expressar seus preconceitos e defender ideias retrógradas como redução de salários.

Mas é o mesmo pessoal que aceita ver corruptos no poder, e ainda sente esperança em vê-los consertando o Brasil e livrando o nosso país da crise. Romero Jucá, Geddel Vieira Lima, Aécio Neves, José Serra, Geraldo Alckmin e mesmo o presidente Michel Temer estão enrolados em gravíssimos casos de corrupção, com provas documentais e tudo, e não só gozam de impunidade como mantém a simpatia de uma boa parcela da população.

As pessoas estão com uma moral tão estranha que internautas despejam ataques racistas violentos contra negros, ignorando que isso é um crime inafiançável. Pais e mães considerando aceitar como genros homens que haviam matado antigas namoradas ou esposas também é uma tendência chocante no Brasil de hoje.

Matar esposas ou namoradas virou um "diferencial" de tal forma que a imprensa e parte da sociedade têm medo de imaginar um feminicida desses falecer de câncer ou infarto, mesmo com 80 e tantos anos de idade. O que a tal "defesa da honra" deixou como legado.

A onda de convulsão social que vive o Brasil, quando há indignação demais por nada e resignação demais também por coisa nenhuma, deixa as pessoas numa espécie de Síndrome de Riley-Day social, de uma falta de percepção da realidade em volta, e uma fuga dos problemas de tal forma que, no mercado literário, as obras que mais vendem são aquelas que renegam qualquer compromisso de lazer, quando, na melhor das hipóteses, prevalecem livros de poemas inexpressivos, arremedos ruins de Carlos Drummond de Andrade.

Temos explosões de crises violentas no governo Temer que poderiam, se o Brasil fosse um país sério, botar o povo para fazer gigantescas passeatas nas ruas, dessas que transformam a carioca Av. Pres. Vargas e a paulistana Av. Paulista em verdadeiros "tapetes" humanos, rogando a saída imediata de Temer, a realização de eleições diretas e exigindo punição até para os tecnocráticos políticos do PSDB, partido mais sujo do que pau de galinheiro.

Mas isso não acontece. As pessoas encaram a corrupção do PMDB e PSDB como se fosse uma esquete de palhaços de circo. Acham ridículo, mas vão para a cama dormir tranquilas. Pouco importa a "sangria" que Romero Jucá tem medo que ocorresse na Lava Jato (ou seja, a investigação de políticos desses dois partidos) ou se Geddel Vieira Lima provocou a queda de um ministro porque este não aceitou um acordo de especulação imobiliária.

As coisas são graves. Gravíssimas. Mas para uma população que aceita comprar picolé de R$ 10, torce pela absolvição de Neymar e pela volta do Vasquinho para a Série A do Brasileirão, tanto faz botar um corrupto no poder, que promova medidas de demissão em massa - como se prevê em empresas públicas como Caixa e Banco do Brasil - , que venda nossas riquezas para empresas estrangeiras, que diminua salários e elimine encargos trabalhistas etc.

Essa onda de resignação em massa é terrível, diante de crises violentas. Não se trata de mostrar força para aguentar as piores situações, mas um sentimento masoquista de que todo retrocesso é bem vindo. Se na saída de casa as pessoas se resignam com a abominável pintura padronizada, pegando um ônibus pensando ser outro, porque tudo tem a mesma pintura, pouco importando se mudou empresa, nome de empresa ou se o ônibus provocará um grave acidente no caminho, então a coisa é séria.

Temos que aceitar limites. Não vamos aceitar prejuízos sucessivos às nossas vidas por uma suposta capacidade de superação. Daqui a pouco vamos dormir em camas de pregos como o básico do nosso conforto na hora do sono. Depois da queda de Dilma Rousseff, a resignação popular atinge níveis de um masoquismo quase suicida.

Até nossas desilusões devem ser reguladas, e talvez a volta do Vasco da Gama para a Série A do Brasileirão importasse muito menos do que a manutenção dos salários e encargos e o banimento da PEC dos Gastos Públicos. Os brasileiros têm que reaprender sobre o que realmente querem e precisam na vida.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Que Coração do Mundo?


Os "espíritas" são estranhos. Eles afirmam, otimistas, que o Brasil inicia um processo de "regeneração", que a humanidade, "mesmo com alguns conflitos", está caminhando para um tempo de "prosperidade e fraternidade" e que as "boas notícias" escapam da fúria comercial dos noticiários de televisão.

É certo que nossa grande mídia é mercenária, reacionária, glamouriza a violência, como se dela fizesse apologia e promove o "mundo cão" como se fosse uma mercadoria de consumo, para a diversão e o entretenimento dos espectadores. Mas também não é por isso que vamos aceitar o otimismo de contos de fadas do "movimento espírita", que vivem em outras ilusões.

Há dois dias um grupo de mais de 800 pessoas invadiu a Câmara dos Deputados, de maneira grotesca. Destas, 50 entraram no local e as demais ficaram fora. Quebraram vidros, agrediram pessoas, entraram no plenário durante a votação de um tal "pacote anti-corrupção" bolado por uns direitistas do Paraná. Exaltaram o nome do juiz Sérgio Moro, pediam a presença de um general e desejavam a volta da ditadura militar.

A confusão foi notícia em todo o país. Mesmo os parlamentares mais conservadores acharam isso uma desordem, uma baderna, e os invasores chegaram a ser detidos, mas depois foram liberados. Houve todo um discurso de defesa da prisão dos "manifestantes", com multa por depredação de patrimônio público e defesa de um ato inconstitucional como a volta da ditadura.

De fato, há um equívoco sobre essa lembrança da inconstitucionalidade, porque o próprio presidente da Câmara, o carioca Rodrigo Maia, do DEM, é do grupo de Michel Temer, que propõe cancelar os direitos sociais com a PEC dos Gastos Públicos e as reformas trabalhista e previdenciária, desfazendo de muitas conquistas trazidas pela Constituição de 1988,

Mas outro aspecto a considerar é que essa invasão se deu porque a própria grande mídia e toda a sociedade conservadora consistiram com a campanha de ódio e vingança que havia nas redes sociais e era estimulada por um seleto número de comentaristas políticos, como os da revista Veja, da Rede Globo e da Globo News e da rádio Jovem Pan, entre outros.

Esse rancor fez voltar aquele ridículo sentimento anti-comunista de psicopatas aloprados, que parecem sentir alergia da cor vermelha (devem odiar comer tomate). Voltaram surtos de racismo, de machismo homicida, de neofascismo e até parece que expressar preconceitos sociais cruéis virou uma atitude "socialmente aceitável".

O surto ultraconservador que tomou conta do país, essa maré de mofo que atinge sobretudo o Sul e Sudeste brasileiros, embora encontre focos em outros cantos do nosso país, permite que preconceitos absurdos e atitudes antissociais eclodissem como vulcões adormecidos, até porque, desde 1990, esses movimentos nunca haviam sido extirpados, mas deixados num canto, até esperar o momento certo para reagir.

Isso contraria, e muito, as perspectivas otimistas do "movimento espírita". Mas, também, a doutrina da desonestidade, que diz ser fiel a Allan Kardec mas o trai sempre, Eles falavam que, desde 2012 a Terra se preparava para um período de fraternidade e evolução moral, com o combate às injustiças e a decadência dos surtos reacionários.

O que ocorreu foi o contrário. Uma onda reacionária que mais seria típica dos anos 1930 voltou à tona na humanidade. Os "espíritas" costumam se sair desses imprevistos usando a mirabolante manobra das desculpas.

Contradizendo sua "inabalável força", os "espíritas" sempre dizem que imprevistos negativos surgem pela "influência de irmãozinhos pouco esclarecidos", eufemismo dado para espíritos inferiores. Uma "força" que é inabalável mas é abalada, que é inatingível e é atingida, que permanece forte mas é fraquejada a todo momento. O que querem os "espíritas", afinal?

Não somos idiotas para acreditar nessa lorota, que nos tratamentos espirituais que viram celeiros de azar para seus pacientes, os assistentes "espíritas" argumentam que tais terapias "dão certo" justamente nos infortúnios, por causa de "certos irmãos que ficam incomodados". A força que nunca fraqueja mas que fraqueja cai em contradição, e sabemos que tratamentos espirituais que trazem desgraça e azar nunca dão certo, dão errado, fracassam.

O Brasil não virou nem vai virar Coração do Mundo. Também não precisamos disso. Precisamos de justiça social e qualidade de vida. Não queremos o holofote do mundo, e por isso pouco nos importa a supremacia de uma religião ou de um movimento direitista. Ficamos imaginando, no caso dos invasores neofascistas, o que se espera no país em breve. Com certeza, tempos mais sombrios.

É até perigosa a perspectiva de supremacia de uma nação ou religião. Mesmo com todo o papo de "fraternidade e amor", não devemos nos iludir com esse papo de "coração do mundo e pátria do Evangelho" porque a doce retórica pode representar uma prática sombria e sanguinária, como se viu no antigo Catolicismo da Idade Média, que praticou atrocidades usando o papo fácil da "união entre irmãos" e "comunhão no Cristo".

Talvez a invasão seja vista apenas como um "ato exagerado" e "precipitado". Em todo caso, tivemos Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, defendendo a ditadura militar. Recentemente, Robson Pinheiro tenta associar seu anti-petismo doentio à "espiritualidade superior". Isso tudo deixaria Allan Kardec profundamente envergonhado.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Mentiras do bem e do mal


Notaram que há grandes mentiras circulando por aí como se fossem verdades indiscutíveis? Mentiras que, dependendo da pessoa envolvida, são feitas para exaltar ou depreciar, usando factoides, teses absurdas, meias-verdades ou boatos muito mal interpretados.

É um país surreal, o Brasil, e vemos duas pessoas com tratamentos bastante desiguais e injustos, em ambos os casos influenciados pelas aparências. É o caso do "médium" Francisco Cândido Xavier, tão glorificado oficialmente, e do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, que virou a "vidraça" dos sonhos de todo vândalo social.

O ex-presidente Lula, até pela aparência de roliço robusto, aparentemente grotesco e rude, que para certas pessoas lembra o vilão Brutus, das revistas em quadrinhos do Popeye. A aparência o faz ser alvo de profundo ódio de uma grande parcela de brasileiros, embora Lula seja associado a qualidades negativas lançadas por boatos e apurações muito tendenciosas e malfeitas.

Já Chico Xavier é diferente. Com a aparência inicial de um jovem caipira, supostamente atrapalhado, depois transformada num velhinho doente de sorriso triste, ele está associado a qualidades elevadas que também foram plantadas através de muita fantasia, boatos e interpretações muito falsas e tendenciosas. Só tardiamente Chico Xavier "ganhou" um "sósia", ainda no final da vida, que é o ranzinza Eustácio, do seriado de animação Coragem o Cão Covarde (Courage the Cowardly Dog).

Em ambos os casos, é o preconceito que fala alto, o mau preconceito contra Lula e o bom preconceito contra Xavier. Contra aquele e a favor deste, não existem provas lógicas de respectivas qualidades, mas há convicções movidas por paixões doentias, ligadas, em ambos os casos, a valores ultraconservadores. E mentiras sustentam os mitos do "vilão" petista e do "herói" religioso.

Quanto a Lula, não bastassem as denúncias infundadas sobre corrupção nas quais boatos viram verdades absolutas sem uma apuração rigorosa - quando muito, há somente simulacros de "investigação" - , há mentiras risíveis difundidas pelos meios de comunicação (cada vez mais patéticos de tão reacionários) sobre supostas propriedades do ex-presidente.

Primeiro foram o sítio de Atibaia, uma propriedade que pertence a outro e parece um modesto albergue de estudantes pobres do interior, e um barco que parece mais uma canoa de pesca e foi difundido como se fosse um "iate" pela grande mídia. E mais tarde foi atribuído a Lula um triplex no Guarujá que nunca passou de um apartamento de classe média para famílias numerosas, e que Lula e sua mulher Marisa Letícia recusaram a comprar.

Outras falsas propriedades já são ainda mais cômicas. A reforma do estádio do Itaquerão, uma obra na piscina do Palácio da Alvorada, a mansão em Punta Del Este, no Uruguai, tudo isso teria sido presente da Odebrecht a Lula, segundo as fofocas transmitidas pela "imprensa independente, idônea e isenta". São boatos risíveis, sem fundamento, lançadas pelos jornalistas da grande mídia cada vez mais patética como se fossem verdades absolutas e denúncias graves e verídicas.

Enquanto isso, vamos para o outro lado. Chico Xavier é transformado pela mesma sociedade venal e hipócrita em tudo o que você pode imaginar: filósofo, psicólogo, cientista político, profeta, jornalista, físico, sociólogo e tudo o mais. A favor dele existem também mentiras cabeludas, que neste caso são feitas para exaltá-lo.

Uma delas foi plantada vergonhosamente por um Gerson Simões Monteiro, presidente da Rádio Rio de Janeiro e radialista "espírita", que, só por ter grande visibilidade e prestígio, se achou no direito de inventar que Chico Xavier previu a existência de vida em Marte, atribuindo a ele descrições de civilizações humanas avançadas e canais fluviais artificiais.

Gerson, se valendo da "lei de Gerson espírita", atribuiu como fontes os livros Cartas de uma Morta, de 1935, atribuído à mãe Maria João de Deus, e Reportagens de Além-Túmulo, que Chico e Antônio Wantuil de Freitas, presidente da FEB, escreveram em 1939 usando o nome do saudoso escritor Humberto de Campos.

Lendo os referidos livros, no entanto, as descrições são risíveis, que parecem romances ficcionais, sem qualquer serventia científica autêntica, pois nem chega à precisão dos verdadeiros romances de ficção científica. Neste sentido, tentar fazer Chico Xavier um arremedo de Isaac Asimov e Arthur C. Clarke e ainda assim dar um status não-ficcional aos livros é de um descaramento sem tamanho. Mas o mais grave é ver o ridículo da "profecia" através de outro detalhe.

Bem antes de Chico Xavier nascer, o astrônomo estadunidense Percival Lowell, entre 1896 e 1908, portanto bem antes do "bondoso médium" nascer, havia lançado livros descrevendo, com análises científicas e argumentos bem mais objetivos, a possível existência de rios artificiais e civilizações avançadas em Marte.

Isso significa que cabe a Percival o pioneirismo de ter previsto as descobertas trazidas pela Nasa a partir de 2004, e não Chico Xavier, que em 1935 e 1939 explorava um assunto velho, já surrado pelas obras de ficção científica e tendo sido um tema já fartamente pesquisado no decorrer do século XIX. O amigo de Allan Kardec, Camille Flamarion, já falava do tema muitíssimo antes. O próprio Percival Lowell já estudava o assunto antes de lançar o primeiro livro específico, em 1896.

Os dois mitos, o que deprecia Lula e exalta Xavier, também foram favorecidos por falhas da Justiça brasileira. 70 anos antes de Sérgio Moro e sua atuação seletiva na Operação Lava Jato, revivendo o caráter tendencioso do caso Banestado, há quase 15 anos, quando "peixes grandes" do PSDB, comprovadamente corruptos, foram todavia inocentados, juízes inocentaram Chico Xavier de um crime com provas, o de falsidade ideológica e apropriação indébita do prestígio de um morto.

É só verificar os livros de Humberto de Campos, pivô da ação judicial, originalmente lançados pelo autor em vida, e as supostas psicografias que levam seu nome, e nota-se claramente a aberração: a disparidade de estilos, a gritante diferença entre a obra lançada em vida e a "obra espiritual". Algo que nenhuma carteirada moral, como as tais "lições de vida, de amor e fraternidade", podem justificar.

Isso porque, sob o nome de Humberto de Campos ou Irmão X (pseudônimo que remete à paródia de um codinome usado pelo autor, Conselheiro XX, embora se lesse "conselheiro vinte" e o outro, "irmão xis"), algumas crueldades foram feitas, não bastasse o estilo nada ter a ver com o que o autor de O Brasil Anedótico havia deixado entre nós.

O suposto espírito de Humberto, não bastasse a narrativa deprimente, igrejista e com uma escrita pesada e de leitura cansativa - em nada lembrando a escrita fluente do escritor e membro da Academia Brasileira de Letras - , ainda esculhambava sofredores que reclamavam demais da vida e acusava humildes frequentadores de circo de terem sido romanos com sede de sangue.

Tudo isso vinha dos juízos de valores pessoais de Chico Xavier. Muito dos livros que levaram o nome do "espírito Humberto de Campos" são comprovadas fraudes que, em muitas passagens, têm o mesmo estilo de linguagem dos depoimentos conhecidos do "médium". Havia provas consistentes do crime de falsidade ideológica e usurpação do nome de um morto, mas os juízes não tinham convicções, como Deltan Dallagnon e seu caricato esquema de Power Point.

São dois pesos e duas medidas. Chico Xavier foi um realizador de pastiches literários e plágios grosseiros de livros, mas, como arrivista religioso favorecido pelas circunstâncias, foi elevado a um quase deus pelos seus seguidores fanáticos, que se julgam "dotados das mais elevadas energias" mas perdem a cabeça quando são contrariados, reagindo praticamente como se fossem psicopatas.

Já o próprio Chico Xavier, esperto que era, realizador ainda de falsa mediunidade, que nunca passou de mero mershandising religioso - dando a falsa impressão de que todo falecido vira igrejista no mundo espiritual - , ainda usava o vitimismo quando era duramente criticado, enganando as pessoas e atraindo seguidores fanáticos com sua falsa humildade, através do coitadismo choroso que era favorecido pela mera aparência corporal de pessoa frágil e doente.

Por outro lado, Lula, que criou um governo que, mesmo com erros, buscou melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, se cercando de ministros de alta capacidade técnica, procurando ouvir críticas e acertar nos seus atos, é visto como "criminoso" apenas por sua aparência supostamente rude.

Pior é que Lula foi o único que, nos últimos anos, pagou toda a dívida externa ao FMI, e até nessa qualidade admirável Lula é hostilizado por uma horda de fanáticos que foram para as ruas pedir "fim da corrupção" vestindo camisetas da mais-do-que-corrupta CBF!

Outro aspecto a considerar é que a Rede Globo está por trás dessa manobra toda, seja transformando Chico Xavier num suposto "ícone da caridade" - se observarmos a situação degradante de Uberaba, cidade adotiva do "médium", se verá que a "bondade extrema" do anti-médium é papo furado - , seja transformando o ex-presidente Lula num suposto "símbolo do banditismo".

Tem gente que acha que Chico Xavier virou "ícone da caridade" avisado pelas brisas do céu e do cheiro de orvalho das flores. Nada disso. O mito foi muito bem construído e trabalhado pela Rede Globo, para combater a ascensão de pastores evangélicos como Edir Macedo, depois dono da Rede Record, e a emissora dos Marinho ainda teve o descaramento de remontar o mito de Chico Xavier com base num documentário da BBC sobre Madre Teresa de Calcutá.

Sobre essas manobras todas, temos que citar uma declaração que o ativista negro dos EUA, Malcolm X, escreveu sobre a imprensa e sobre a manipulação da opinião pública, o que diz muito sobre a exaltação de um religioso a serviço da plutocracia, Chico Xavier, e a depreciação de um político que buscou melhorar a vida das classes pobres, Lula. Encerremos com o que disse Malcolm X:

"A imprensa é tão poderosa no seu papel de construção de imagem que pode fazer um criminoso parecer que ele é a vítima e fazer a vítima parecer que ela é o criminoso. Esta é a imprensa, uma imprensa irresponsável. Se você não for cuidadoso, os jornais terão você odiando as pessoas que estão sendo oprimidas e amando as pessoas que estão fazendo a opressão".

sábado, 12 de novembro de 2016

O que o Rio de Janeiro precisa aprender...


Nós nem de longe estamos aqui para defender o sofrimento, como o "movimento espírita" tanto faz com seu espetáculo de palavras enfeitadas. Mas diante do complexo de superioridade dos cariocas, aliadas a uma resignação com os retrocessos vividos no Estado do Rio de Janeiro nas últimas décadas, e de forma intensa nos últimos anos, os cariocas têm que aprender para que não desenvolvam, a curto prazo, um estereótipo que lhes trará preconceitos futuros.

Note o que ocorre com a chamada "boa sociedade" no Rio de Janeiro. Pessoas que já estão felizes diante do fedor do lixo ou das fezes de cachorros que já não sentem mais. O carioca virou o portador da Síndrome de Riley-Day, aquela doença que faz os enfermos serem insensíveis à dor, e já existe até um trocadilho que apelida o Rio de Janeiro de "Riley-Day Janeiro".

As pessoas só se incomodam quando veem a cara dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff em alguma página de jornal, revista, Internet ou na tela da TV. Aí vem aquele refrão um tanto reacionário e hipócrita "ah, esse é ladrão, essa é corrupta salafrária", ignorando que essa visão é preconceituosa e que eles saíram do poder expulsos pelos verdadeiros corruptos. Romero Jucá, um verdadeiro gangster, é um dos líderes do governo Temer e ninguém se incomoda.

O próprio Temer e outros aliados diretos e indiretos, como Geddel Vieira Lima, Moreira Franco, José Serra, Henrique Meirelles, Alexandre de Moraes, Geraldo Alckmin, Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso, estão todos submersos no mar de lama da corrupção e as pessoas, principalmente os cariocas, ficam felizes e os veem, se não com simpatia, mas com generosa tolerância.

Enquanto isso, os cariocas demonstram, em maioria - não estamos falando nas exceções, que merecem nosso respeito e admiração - , aspectos bastante lamentáveis, que mostram o quanto o Estado do Rio de Janeiro mergulha numa decadência vertiginosa e numa queda livre que desmerece o título de "Estado-modelo" para o resto do país.

São fumantes inveterados que demonstram completa arrogância quando vão para a rua, achando que estão com um ouro nas mãos, circulando quarteirões sem dar um trago e, quando dão, é diante de não-fumantes em ruas mais fechadas, cercadas de prédios. O cigarro pelo jeito está com preço de bala num Estado de elevado custo de vida, em que os alimentos costumam custar muito caro.

Não há óbito que pareça sensibilizar as pessoas. Constantemente vemos pessoas, no Grande Rio, se surpreenderem com certas mortes. "O fulaninho morreu aos 36 anos? Ele parecia jovem e saudável! Anteontem falei com ele e ele estava firme e forte!", "A sicrana morreu com 56 anos? Coitada! Tão cheia de vida". "Aquela menina tinha câncer de mama e já morreu? E só com 30 anos? Tão linda, ainda com pinta de ninfeta...". Ignoram que o fumo é o culpado de muitas dessas mortes.

Os cariocas médios estão se tornando mais insensíveis, monolíticos, impondo pensamento único e ameaçando quem discorda deles com cyberbullying ou blogues ofensivos. Os cariocas médios parecem deixar de ser gente e se tornarem algo entre coisas e animais selvagens, mais preocupados com o consumismo e com a curtição, não admitindo ser contrariados num só ponto.

Eles acreditam em "cultura qualquer nota", como se o ídolo medíocre de hoje se tornasse genial amanhã apenas pondo mais dinheiro no bolso. Recentemente, até os órfãos da rádio de rock Fluminense FM cometeram a gafe de acreditar que uma Rádio Cidade, uma rádio pop, de hit-parade, iria se tornar uma "nova Maldita", algo equivalente a crer que um Justin Bieber possa ser o novo Jim Morrison.

Isso mostra a falta de noção dos cariocas médios com a realidade de que nem todo mundo tem competência para tudo. E ficam com raiva quando são contestados, criando surtos de raiva que os faz agir com violenta ironia e profundo senso de desrespeito, que já mostrou casos de ataques raciais e outras humilhações marcadas pela defesa desesperada dos reacionários pelo "estabelecido".

Consta-se que, no caso da pintura padronizada nos ônibus do Rio de Janeiro, um busólogo da Baixada Fluminense, defensor da causa, quase doou sua cabeça para a "máfia das vans" de Niterói e São Gonçalo, na sua obsessão de "patrulha ideológica" forçando todo mundo a concordar com ele, que se esqueceu que milicianos faziam ponto frente ao Terminal João Goulart e haviam sido capazes de matar uma juíza.

Mas o fanatismo pelo futebol mostra o quanto os cariocas médios têm que aprender. Não é uma devoção saudável, mas uma obsessão doentia. O fanatismo pelo futebol faz com que os cariocas médios, quando quiserem conhecer alguém, perguntassem, antes do nome da pessoa, o time de sua preferência.

Num recente jogo com o Flamengo, no sábado, torcedores pareciam tão possessos que a menor provocação era linchamento na certa. Se você dissesse que o tênis de um deles está desamarrado, ele e os amigos correriam atrás de você para linchá-lo. Pessoas gritando - infelizmente, o carioca médio adora gritar - a tal ponto que, quando ocorre um gol, os berros atingem decibéis insuportáveis, pouco importando se o jogo está em andamento perto da meia-noite.

Os cariocas já não se emocionam mais, não discernem mais as coisas, não toleram ideias diferentes das suas, suas rotinas estão tão repetitivas, já não conseguem sentir a beleza da própria paisagem, são tão consumistas que pedem nos restaurantes, fartos pratos de comida que só comem a metade, jogando muita comida fora que só serviu para a vaidade e não para o apetite.

Ouvem as mesmas músicas das antigas paradas de sucesso das rádios de pop adulto. Defendem nomes nem tão geniais como Bee Gees, ABBA, Whitney Houston e Michael Jackson com um fanatismo típico de nazipunks. Os roqueiros que ouviam a Rádio Cidade nem sabiam o que estava tocando, para eles não havendo diferença entre Deep Purple e Black Sabbath, bandas das quais só conhecem através de uns dois ou três sucessos (aliás do Deep Purple só "Smoke on the Water").

MPB, para eles, não é mais a Bossa Nova nem a música dos festivais, mas o som qualquer nota que rola no couvert artístico dos restaurantes. É a música qualquer que fale de amor, seja lenta ou levemente rítmica e seja feita "para toda a família". Mais consumismo do que arte, com fórmulas pré-estabelecidas que fazem jogar qualquer breguice nesse balaio musical.

Os cariocas deixaram isso ocorrer. Desde que veio a fusão na ditadura militar, o Estado do Rio de Janeiro que absorveu a antiga Guanabara tornou-se um caos administrativo que fez crescer fenômenos criminosos como banqueiros de bicho, traficantes e milicianos, que apresentaram a pistolagem que os cariocas só conheciam de notícias distantes do sertão nordestino ou nos conflitos de terra na Região Norte.

O fisiologismo religioso, o crime organizado, o obscurantismo religioso - no qual até os "espíritas" aderem, com muito gosto, através de um moralismo retrógrado dissolvido em "belas palavras" - , a degradação cultural, o fanatismo futebolístico, o coronelismo midiático, o risco da "monocultura" do "funk", num tempo em que até Salvador está desmontando a "monocultura do axé", tudo isso são males que o Rio de Janeiro acumulou como numa avalanche que desce do alto da montanha.

Até os ônibus com pintura padronizada, a maior aberração que se pode ocorrer no transporte público e que deveria ser cancelada o mais rápido possível, devolvendo a cada empresa de ônibus sua identidade visual para favorecer a transparência que falta no sistema, causa sua tragédia cotidiana diante de cariocas resignados, com acidentes diversos, até com mortos, causados por empresas sucateadas que mudam de nome e trocam de linha sem que o carioca tenha a menor ideia disso.

O Rio de Janeiro caiu tanto que tornou-se a capital mais poluída do país. Superou até mesmo São Paulo, sua parceira de decadências semelhantes. É tanta poluição que os cariocas médios não sentem, felizes em ver a repetitiva comodidade de seus cotidianos, já que parecem terem perdido até o olfato, diante de calçadas escurecidas pela fuligem e pelo fedor que há até em caminhões de lixo, que ignoram técnicas de evitar a exalação de fedor.

Paciência. Não estamos fazendo propaganda negativa alguma. É um acúmulo de retrocessos que os cariocas deixaram ocorrer, acreditando que podem aguentar todo tipo de sacrifício. A ilusão de perfeição e força faz até com que pessoas acreditem que vão sair vivas e ilesas dos tais ônibus padronizados que confundem as pessoas no seu ir-e-vir.

A ilusão de que se pode passar por cima de tudo e a conformação exagerada na crença vã de que o pior de hoje será o melhor amanhã faz o Rio de Janeiro cair numa decadência irreversível. Hoje se critica a austeridade do governador Pezão em cortar gastos públicos com rigor excessivo. Mas os cariocas é que elegeram ele, Paes e companhia, permitindo que eles fizessem a farra financeira que eles querem reparar cortando os benefícios da população.

Daí que não dá para acreditar que o paraíso vai voltar se o Flamengo "dormir" no G-4 do Brasileirão ou o Vasco da Gama voltar para a Série A. Melhor que isso não ocorresse. É preciso uma decadência do futebol carioca para evitar tanta gritaria, antes que o Rio de Janeiro em crise, no Brasil em surtos de reacionarismo libertino, possa produzir um número cada vez maior de hooligans, já que equivalentes aos truculentos torcedores ingleses já existem aos montes no território fluminense.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Mídia continua depreciando a imagem da solteira no Brasil


A armadilha parece imperceptível, porque no cotidiano solteiras de todos os tipos tocam sua vida em frente. Mas o que se observa na grande mídia é uma campanha depreciativa e humilhante para as solteiras, vistas como "vagabundas", "erotizadas" e "narcisistas".

O estereótipo da mulher solteira na mídia comercial, que reflete na adesão de muitas incautas nas redes sociais, é dos piores: ouve música ruim, só exibe o corpo, só quer saber de noitadas, é obcecada por tatuagens e adota um comportamento arrogante e exibicionista que beira à egolatria.

Sabemos que não é uma visão real e nem correta. Nela escondem preconceitos sociais cruéis. Mas o poder de penetração da mídia comercial, que voltou a aumentar sua audiência pelo grande público, influi para que a brasileira média seja induzida a perseguir esse estereótipo de uma maneira ou de outra.

A banalização da sensualidade feminina, que ganha desculpas como a "liberdade do corpo" e o "direito ao sexo", segue dois caminhos: se a mulher é considerada "em forma", ela abusa da sensualidade. Se ela é considerada "fora de forma", ela se mantém na aparência física usando o "combate à ditadura da beleza e da forma" para manter uma gula que pode lhe trazer câncer de mama ou infarto em pouco tempo.

A "solteira" midiática é uma figura caricata. É uma mulher manipulada pela mídia e pelo "sistema", mas que sempre é induzida a pensar que é "livre", "independente" e "com a consciência do seu próprio corpo" e "dona do seu próprio nariz". É consumista e erotizada, arrogante e convencida, hedonista ao extremo mas sem responsabilidades de romper com seus paradigmas de vida consumista e alienada.

O gosto musical se volta ao pior da música brasileira: "sertanejo", "funk" e "pagode romântico". Na literatura, ênfase nos livros de auto-ajuda. Em certos casos fanatismo religioso e um desmedido fanatismo pelo futebol. Apreciação de bobagens que as faz entrar em comunidades como "Eu Fiz Besteira na Vida. Quem Nunca?" ou "Eu Já Chupei Dedo Quando Crescida" também são típicas.

Há "garotas-propaganda" para essa "solteirice" pejorativa que a mídia comercial, através de programas ou portais de Internet "populares", serve para as mulheres. No mais grotesco dos casos, há a funkeira Renata Frisson, a Mulher Melão, cujo único papel que desempenha na vida é o de mulher-objeto. No mais contido dos casos, tem-se a ex-BBB Ana Paula Renault, que vende uma imagem de "solteirice" associada à curtição obsessiva da vida, como fama, noitadas e visibilidade.

A imagem da solteira trabalhada pela mídia brasileira, com suas mulheres-frutas, ex-BBBs, cantoras de "forró eletrônico", "musas fitness", "gatas do Brasileirão", "ring girls do UFC" e outras aberrações mostra o extremo oposto da imagem da solteira em países desenvolvidos, como França, Bélgica, Suíça, Suécia e Noruega.

Nesses países, a solteira está associada a uma mulher que combina inteligência aguçada e prazer na vida. É uma mulher que só se sensualiza quando é necessário e quando o contexto permite, sem transformar o corpo numa mercadoria.

A solteira do Primeiro Mundo é capaz de dar entrevistas sensatas sobre vários assuntos, possui um gosto musical sempre decente e nunca convencional - ela escapa dos listões de "paradas de sucesso" radiofônicas e digitais (como as "mais-mais" do Youtube) - e é discreta e comedida. E não se sente obrigada a ter o corpo tatuado: quando muito, apenas tatuagens discretas ou artísticas.

Só que o perfil de solteira que vigora nos países europeus chega ao Brasil como paradigma de mulher que tem que estar casada, se mantendo vinculada a um marido que é geralmente um empresário ou um advogado, cerca de cinco anos mais velho e dotado de uma personalidade insossa e "discreta", geralmente um homem sisudo que não tem que tirar satisfações com a sociedade, nem mesmo nas horas de lazer ao lado da esposa.

Isso é o machismo condicionado com os avanços do feminismo, como se o mundo machista tivesse que negociar com a mulher emancipada. A mulher que busca uma independência plena e foge de paradigmas de coisificação e erotização obsessiva tem que estar vinculada a um marido, como se a mulher que fugisse de padrões machistas tivesse que ser domada por um macho.

Em contrapartida, a mulher que segue padrões machistas, como a coitada submissa que só ouve o caricato "pagode romântico" e brinca com o pequeno afilhado, como se fosse mais criança do que ele, ou a "boazuda" que só cuida do corpo e possui uma forma "turbinada" e "esculpida", cheia de tatuagens, silicones e, em certos casos, botox e plásticas outras feitas sem necessidade, o "sistema" dispensa a mulheres assim o vínculo com algum namorado ou marido.

É o reflexo de uma sociedade ultraconservadora que retomou o poder nos últimos anos. Um machismo que nunca quis perder o poder e negocia com a mulher os freios a serem feitos pela emancipação sócio-econômica. A mulher que foge de padrões ideológicos machistas têm que estar vinculada a um marido poderoso. Já a mulher que segue o machismo "por conta própria" pode ficar solteira à vontade porque ela não precisa de macho. Já obedece o machismo de forma "exemplar".

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Haverá uma "guerra santa" no Rio de Janeiro?

TERÇO DOS HOMENS - CORRENTE MACHISTA DA IGREJA CATÓLICA.

O Estado do Rio de Janeiro, em especial a capital do mesmo nome, virou um palco para todo tipo de decadência e tragédia. O Estado tornou-se diretamente responsável pela queda de Dilma Rousseff quando, em 2014, elegeu o deputado federal Eduardo Cunha, hoje preso por corrupção, mas que, de político inexpressivo, tornou-se presidente da Câmara dos Deputados com uma pauta retrógrada e uma personalidade prepotente.

A decadência ocorre intensa desde os anos 90, mas na Era Eduardo Paes ela se tornou mais intensa. O Rio de Janeiro tornou-se o "paraíso" dos valentões digitais, os cyberbullies, com seus ataques em série nas redes sociais e seus blogues de ofensas e calúnias. Virou arena de contraventores, milicianos e traficantes, e reduto do proselitismo religioso e de movimentos de extrema-direita no país.

Ainda há a chamada "religiosização" das coisas, que é o modo de encarar fatos e fenômenos não-religiosos como se fossem religiosos. Geralmente são medidas ou fenômenos "laicos", geralmente medíocres ou nocivos, que são vistos como "milagres religiosos".

O fanatismo pelos quatro times do futebol carioca, Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco são um exemplo. A vinda de nomes do hit-parade é outro. Vai o ABBA se reunir e realizar turnê no Rio de Janeiro para os fãs cariocas se comportarem como devotos de santos. Eles endeusam até o Double You!

Claro que alguns excessos retrógrados cometidos por cariocas tiveram que ser descartados. Eduardo Cunha, o superdeputado do "resgate da ética e dos bons valores", teve que ser descartado de maneira humilhante. O pastiche de rádio de rock Rádio Cidade, de tão ruim, teve que sair do ar e se esconder em algum canto da Internet. Já se está pensando duas vezes antes de transformar o "funk" numa monocultura carioca. E há quem aposte no fim da pintura padronizada nos ônibus do Rio!

Mesmo assim, o Rio de Janeiro já desceu no fundo do poço dos valores sociais, criando dois extremos da criminalidade extrema e do religiosismo extremo. Valentões que criam páginas de ofensas contra desafetos, acreditando na impunidade, e religiosos fanáticos criam movimentos para conter os avanços sociais da sociedade democrática.

E aí temos três movimentos religiosos em disputa: católicos, evangélicos e espiritólicos, os ditos "espíritas" ou "kardecistas" (rótulo que, apesar do nome, nada diz de fato quanto ao legado de Allan Kardec), que no Rio de Janeiro poderão travar uma disputa que, ao menos, se espera se reduzir a uma "guerra fria" e apenas uma disputa ideológica de públicos.

No catolicismo, vemos um grupo de tendência neo-medieval, o Terço dos Homens, crescer no Rio de Janeiro, sendo um grupo machista de ideais católicos conservadores. Na Zona Norte o movimento cresce, tornando o Rio de Janeiro a cidade onde há maior número de adeptos dessa facção católica.

Depois do Reveillon, entrará em ação a Igreja Universal do Reino de Deus, que terá seu "bispo" Marcelo Crivella como novo prefeito da ex-Cidade Maravilhosa. Com isso, a IURD crescerá como "instituição filantrópica" oficial e a TV Record Rio receberá subsídios públicos e procurará crescer em audiência na cidade que é o berço da Rede Globo.

A Globo, ameaçada de perder a supremacia na sua cidade de origem, terá que reagir, mas de forma moderada. Não poderá fazer ataques ao prefeito Crivella, sob pena de ter os "podres" da emissora denunciados fartamente pela concorrente Record. E não pode reagir explorando o catolicismo porque a Record acusará a "laica" Globo de estar competindo religiosamente com a rival.

Diante disso, lembramos de quando a Rede Globo usou Francisco Cândido Xavier para neutralizar os fenômenos dos "pastores eletrônicos" Edir Macedo e R. R. Soares. Diante do surgimento da Universal, a Globo não podia explorar totalmente o catolicismo, e por isso usou Chico Xavier, um mito aparentemente "ecumênico", para concorrer com os "pastores", se baseando num documentário da BBC para realimentar o mito do "médium" como "ícone máximo de caridade".

Era só ver programas como Jornal Nacional, Fantástico e Globo Repórter, que para frear a ascensão dos "pastores eletrônicos" usavam fenômenos supostamente "científicos" como a "mediunidade" - da forma duvidosa que o "espiritismo" igrejista diz trabalhar - e valores aparentemente "ecumênicos" como a "caridade" (a caridade paliativa que mais fascina do que realmente beneficia), criando uma religiosidade "sem compromissos" que ocultava o caráter religioso propriamente dito.

Isso é uma estratégia da Rede Globo, a maior interessada em transformar Chico Xavier, Divaldo Franco e companhia em "ícones máximos de caridade" (ou você achou que a mídia não armou essa farsa publicitária?), usando a ideia de uma religiosidade "sem pretensões" que supostamente não seria fruto de uma organização ou seita, mas que estava "dentro dos corações das pessoas de bem". Uma religiosidade "atrelada ao ser humano" e "não a uma seita religiosa".

Vale lembrar que o Rio de Janeiro tem uma rádio homônima, uma emissora AM de orientação "espírita", que achará ótima a parceria da Globo com a doutrina igrejista, da mesma forma que o jornal "Correio Espírita". Só falta as Organizações Globo adquirirem a rádio e o jornal. Será a glória para quem acredita que o "paraíso" de Nosso Lar "flutua" no mundo espiritual sobre a famosa capital fluminense.

Essa manobra garante mais "imparcialidade" e "naturalidade" e por isso a Globo usa o "espiritismo" e não o Catolicismo como maior apelo religioso. Dá para camuflar e disfarçar e evitar acusações de proselitismo. Os "espíritas" não usam o vestuário pomposo dos padres e sacerdotes católicos, nem revestem de ouro suas igrejas, ou melhor, os "centros espíritas" que costumam ter aparência "mais modesta".

Com o Terço dos Homens católico, um "bispo" da Universal na Prefeitura do Rio de Janeiro e a Globo pensando em explorar o "espiritismo", a batalha religiosa na ex-Cidade Maravilhosa se aquecerá num cenário de intenso fanatismo futebolístico e com o governo estadual de Luiz Fernando Pezão querendo fazer um rigoroso corte de gastos públicos.

Diante desse quadro, especialistas afirmam que o Rio de Janeiro sofrerá os piores momentos de crise em 2017. A julgar pelas inúmeras situações degradantes relacionadas à cidade e seu Estado, pode-se dizer que o Rio de Janeiro viverá o pior dos infernos nos próximos anos. Temos pena do povo fluminense por essa triste sina.

sábado, 5 de novembro de 2016

Mercado literário continua sendo ruim


Em 2015, um dos piores anos do mercado literário brasileiro, surgiram fenômenos pitorescos que transformaram o ato de ler livros num antro de burrice e anestesia da alma, sem que coisa alguma seja acrescentada à breve vida em que vivemos.

Romances sobre jovens vampiros, biografias de cachorros com nome de roqueiros - a ideia era dar sequência ao cachorro Beethoven das insossas comédias enlatadas que passam na TV - , romances sobre jogos eletrônicos de Minecraft e a onda dos "youtubers", que são aquelas pessoas que ficam falando frivolidades na Internet, não necessariamente em vídeos do YouTube mas às vezes pelo Spapchat ou WhatsApp.

Os youtubers acabam sendo uma grande aberração, embora os primeiros escritores da leva tivessem vindo com alguma inteligência, dentro daqueles limites da geração MTV dos anos 90. Mas, depois dos primeiros autores, vieram pessoas que só falam bobagens e cada tolice que fazem vira tópico das 10 Mais do Twitter. É só um youtuber do momento espirrar, ele vai para o topo do Twitter. Ver que esse besteirol se transforma em cento e tantas páginas campeãs de vendas é assustador.

Mas junto a todos eles 2015 veio com o aberrante fenômeno dos "livros para colorir". "Literatura (?!) anti-estresse", prometia o filão. Vieram então "jardins secretos", "florestas encantadas", "oceanos perdidos", um grande desperdício de papel já que páginas para colorir podem ser baixadas livremente na Internet. Era algo na contramão de um país que começa a eliminar os jornais impressos.

A aberração era tão grande que os "livros para colorir" chegavam aos mais vendidos no critério de "não-ficção". Sim, é isso mesmo que você leu: NÃO-FICÇÃO. O que esses livros oferecem de realidade para as pessoas não dá para entender, e o pior é que uma média de três títulos aparecia nas listas dos mais vendidos. Os livros do gênero só começaram a decair este anos, mas o cenário do ano passado continua hoje a atingir níveis devastadores, num quadro desolador.

Há uma fuga voraz dos leitores médios do "monstro" do Conhecimento. A maioria dos livros mais vendidos corresponde à literatura água-com-açúcar: livros de auto-ajuda, livros religiosos, youtubers, livros sobre frivolidades diversas - vai uma dona de casa lançar um livro de tolices cotidianas tipo "Meus Filhos em Orlando à procura da Minnie" ou "Reflexões de um Pinguim de Geladeira" - e poemas inexpressivos sobre "lições da vida".

Sim, as pessoas fogem de medo de tudo o que representa saber. Quando muito, apenas aceitam obras informativas combinando visibilidade (como autores do nível de Fernando Morais), autores consagrados (Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade), obrigações acadêmicas ou de seleções para concursos (livros didáticos, apostilas ou obras exigidas em programas de estudo) ou manuais de instrução ou dicas culinárias e nutricionais para atividades práticas no cotidiano.

Fora isso, é uma corrida desesperada da fuga do saber. Se o livro combina um conteúdo questionador e a baixa visibilidade de seu autor, um emergente que não tem a sorte de ser um poderoso youtuber, a atrair milhares de seguidores falando muito e dizendo pouco, ele simplesmente tem dificuldades de ser vendido.

As pessoas que leem literatura água com açúcar, neste pais em que todo mundo tem mania de usar desculpas elaboradas para atitudes reprováveis, tentam dizer que praticam o hábito de ler livros "para relaxar" e não para "ficarem preocupados". Por isso os temas sem compromisso com o conhecimento, mas que, segundo tais pessoas, "sempre servem para aprender alguma coisa na vida".

Essa desculpa se refere sobretudo aos livros religiosos. É assustador ver que, nas bienais dos livros do Brasil, se permita que estandes da FEB sejam montados com o realizador de pastiches literários, Francisco Cândido Xavier, apareça em destaque. Chico Xavier cometeu fraudes literárias aberrantes e foi beneficiado pela mais absoluta impunidade que alguma pessoa poderia ter, sendo visto por seus deslumbrados seguidores até como um suposto intelectual!

O que vemos é que as pessoas pensam que são inteligentes, porque o saber já chega pronto, servido pela televisão como um combo de lanchonete. As pessoas têm medo de conhecimentos mais questionadores pela insegurança de derrubar convicções formadas pela manipulação midiática, pelo proselitismo religioso, pela pregação moralista de pais e professores, além do medo de reduzir a nada a galeria de ídolos fantasiosos acumulada desde a infância.

Daí a burrice de acreditar que "não precisamos pensar, porque já nascemos inteligentes". A estupidez em doses mesquinhas e arrogantes que ocorre nas mídias sociais, em que a pessoa faz um selfie e já está pedindo o Nobel da Paz para si mesma permite com que a cultura no Brasil seja um processo abaixo do indigente, apreciando artistas ruins, celebridades fake, valores retrógrados e literatura sem conteúdo voltado ao saber.

É o retrato de um Brasil que faz tudo para fugir de questionamentos, apelando para o hábito medieval de domar a capacidade de raciocínio, como se fosse sinal de equilíbrio impor limites ao saber, quando isso não é equilíbrio, mas censura, repressão, obscurantismo.

Pois é estimulando as pessoas a evitar o saber aprofundado e contestador que se estabelecem privilégios, quando os segredos de muitas armadilhas ideológicas, culturais, políticas, econômicas, tecnológicas etc, deixam de ser revelados. Com esses segredos protegidos sob sete chaves, mantém-se os privilégios das elites dominadoras e exploradoras da multidão simples, e é banindo o Conhecimento que se mantém o privilégio de tiranos, corruptos e mistificadores de todo tipo.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Para agravar decadência, Rio de Janeiro cortará gastos públicos

APOSENTADOS E PENSIONISTAS JÁ RECEBEM POUCO, MAS TERÃO QUE PAGAR PARA SALDAR AS DÍVIDAS DO ESTADO DO RJ.

Não bastasse a decadência vertiginosa que vive o Estado do Rio de Janeiro e sua antes imponente capital, o governador Luiz Fernando Pezão, recuperado de um câncer, reassumiu o mandato propondo cortes profundos nos gastos públicos.

Os cortes, que envolvem extinção de secretarias, fim de projetos como o Restaurante Popular e cortes de incentivos diversos, pretendem resolver a crise estadual que só voltará a estar próximo dos eixos normais daqui a três anos.

Um dos pontos polêmicos é o corte de 30 % dos vencimentos de aposentados e pensionistas, que já não recebem grande coisa e terão que perder uma boa parcela do dinheiro, obrigando-os a viver de empréstimos, já que muitos deles, doentes, terão que manter tratamentos com remédios muito caros.

O Rio de Janeiro será o Estado que sentirá os efeitos da PEC do Teto que o presidente Michel Temer só aplicará no ano que vem. Pezão pretende aplicar os cortes assim que a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) aprovar seu programa, o que parece provável que aconteça na sua quase totalidade.

Diante disso, os cariocas médios terão que aceitar isso, eles que acham que a decadência do Rio de Janeiro não passa de "mimimi" de paulistas invocados ou nordestinos frustrados, o que garante a farra do cyberbullying de cães de guarda do "estabelecido" com seus ataques em série de humilhação gratuita, seja em comentários combinadamente simultâneos, seja com blogues de ofensas gratuitas.

Mais uma vez hoje os cariocas gritarão o seu grotesco fanatismo pelo futebol, que faz com que torcedores se transformem em psicopatas diante da performance de seus quatro times , como Flamengo, Botafogo, Vasco e Fluminense. Hoje Flamengo e Botafogo se enfrentam e o Flamengo parece viver seus dias de contos de fadas, fazendo os cariocas felizes porque, se o Rio de Janeiro naufraga, o Flamengo continuará de pé.

E isso com gritarias, berros truculentos, que a cada gol de um time carioca ocorrem berros ensurdecedores, preocupando aqueles que precisam de um descanso, de um repouso. Para os torcedores, o que importa é a vitória de seu time, pouco importa se o vizinho vai acordar às duas da madrugada para preparar o café e ir ao trabalho num lugar distante. O que importa é só o gol, pode o Flamengo ou o Vasco, por exemplo, terem atuações pra lá de desastrosas.

É também o Rio de Janeiro de fumantes convictos, gente que parece indiferente e quer fumar ao lado de não-fumantes. Gente que parece se afirmar com um cigarro na mão e que, na maior hipocrisia, chegam a andar quarteirões só segurando um cigarrinho, provando que, se podem passar uns cinco minutos sem fumar, poderiam parar de fumar de vez. Até porque a quimioterapia para cura de um câncer no pulmão é de difícil sobrevivência.

Por isso é que muitos cariocas veem amigos morrerem de repente. É aquela senhora ainda moderna e simpática de 61 anos, ou aquele garotão barbudo e folgazão de 38 ou 42 anos. De repente pessoas assim morrem e surpreendem os que ficam: "Mas já? Tão novos, até ontem pareciam lúcidos e saudáveis!". Ou então: "Aquela menina morreu de câncer? Coitada, tão novinha, 37 anos...". Ora, ora, é porque essas pessoas passaram o tempo todo fumando.

O narcisismo dos cariocas revela o seguinte cacoete: primeiro se irritam para depois caírem na real. De preferência se a Rede Globo ou o jornal O Dia noticiarem. Antes de virar notícia, a decadência carioca era esnobada na Internet, até com demonstrações de ofensas gratuitas e ameaças violentas.

Será preciso que o Estado do Rio de Janeiro sofra no bolso ou sob o revólver dos bandidos para admitir a própria decadência? Se Copacabana se tornou um bairro tão perigoso quanto qualquer área de risco da Baixada Fluminense, as pessoas ainda sonharão com uma "Cidade Maravilhosa" que não existe mais?

Pois esse Rio de Janeiro de torcedores fanáticos e intolerantes, de ônibus padronizados que só causam acidentes no trânsito, de fumantes que se acham donos do ar que respiramos, dos produtos que falam nas prateleiras, do pensamento único de toda espécie, do consumismo e da coisificação do ser humano, da "cultura" qualquer nota que só serve para consumo e tantas coisas ruins, só se revelará decadente com os cortes financeiros.

Afinal, infelizmente é falando a linguagem do dinheiro que se fala a certas pessoas que alguma coisa está muito, muito decadente. Só mesmo a falta de dinheiro para as pessoas sentirem que os bons tempos acabaram. Triste pensar a vida em torno das finanças.