sexta-feira, 21 de julho de 2017

Articulador do golpe político, Rio de Janeiro se perde em tantos (e graves) problemas


O Rio de Janeiro tem problemas cuja frequência e gravidade são preocupantes demais para serem considerados "normais para uma cidade moderna". Até porque o Estado do Rio de Janeiro e sua capital há muito deixaram de simbolizar alguma modernidade, vivendo agora um surto de provincianismo de assustar até matuto do Norte, e deixou de ser referência de progresso para o Brasil.

Enumeramos muitos e muitos problemas envolvendo não só a cidade do Rio de Janeiro, que vão além da violência ou da crise financeira, e incluem até mesmo a sua responsabilidade pelo golpe político já que, num surto de catarse moralista-administrativa, os cariocas puseram na Câmara dos Deputados reacionários como Eduardo Cunha (hoje cassado e preso) e Jair Bolsonaro (que segue impune depois de dar declarações claramente ofensivas a negros e mulheres).

Chega a soar estranho que o Rio de Janeiro não esteja incluído entre as cidades mais perigosas do país - na prática, é a capital brasileira mais perigosa para se viver - , num tendencioso levantamento estatístico que demonstrou claro preconceito contra os nordestinos, colocando em altas posições cidades consideradas tranquilas como Aracaju.

Este levantamento surreal, que colocou o Rio de Janeiro como a 23ª capital mais perigosa do país (algo equivalente como dizer, numa inversão de ranking, que a cidade é a 5ª capital mais tranquila do Brasil), mesmo com um bairro inteiro se "fortificando" contra a violência (o de Vila Kosmos, na região da Penha), é compreensível.

Explica-se: os dados do Rio foram colhidos entre 2014 e 2016, época de eventos turísticos de grande envergadura (Copa de 2014 e Olimpíadas Rio 2016) e auge do domínio político do grupo de Sérgio Cabral Filho, hoje preso por corrupção, e que também simbolizou o poder dos hoje denunciados Eduardo Paes e Luiz Fernando Pezão. Os dados "pacíficos" da ex-Cidade Maravilhosa foram uma maquiagem para não assustar os turistas nem os investidores.

Vamos enumerar os defeitos que contribuem, de uma maneira ou de outra, para a decadência do Estado do Rio de Janeiro e sua capital, e que contribuíram para a perda do status de "cidade-modelo" da cidade do Rio, que, mesmo com suas imperfeições, "ditava" o que poderia valer no país em termos de cultura, mercado, sociedade, mobilidade urbana etc.

1) VIOLÊNCIA - O crime organizado deixou-se crescer, pelo descaso político e outras falhas, desde os tempos da ditadura, quando perigosos assaltantes de banco foram alojados junto com presos políticos e, de conversa em conversa, os bandidos criaram organizações criminosas. O Rio de Janeiro vive o domínio do narcotráfico, da milícia e da contravenção que, juntos, apresentam práticas de violência que, em muitos momentos, lembram a pistolagem e o domínio coronelista dos latifúndios da região Norte.

2) ULTRACONSERVADORISMO - Os cariocas se revelaram, a partir dos anos 1990, algo que apenas estava latente neles depois do golpe de 1964: um certo ultraconservadorismo reacionário, que faz com que muitos indivíduos tenham um "pensamento único" para qualquer coisa, desprezando as diferenças do outro e criando uma perspectiva extremamente limitada, voltada à mesmice consumista das boates, praias e estádios de futebol. O Rio de Janeiro é famoso também por ser um reduto da direita ideológica, que prefere manter as desigualdades sociais entre pobres e ricos.

3) INTOLERÂNCIA - O Rio de Janeiro é um dos maiores redutos de bullying e cyberbullying no Brasil, por causa tanto da intolerância de muitos indivíduos à discordância alheia quanto à defesa do "estabelecido" por conta do status social de quem impõe certas medidas e valores retrógrados ou restritivos. A fúria em humilhar o outro, que produz ataques em massa nas redes sociais e blogues de conteúdo calunioso e difamatório, é tanta que os valentões são imprudentes. Suas páginas ofensivas são denunciadas para a Polícia Federal e suas visitas à cidade de residência de sua vítima são tão frequentes que chama a atenção de milicianos. Os valentões reagem com sua risada digital "KKKKK", até que sejam condenados, tenham seus computadores e celulares confiscados ou serem mortos por algum pistoleiro de ocasião.

4) MESMICE CULTURAL - O antigo vanguardismo e diversidade cultural dos cariocas está se dissolvendo, em razão da mentalidade consumista que predomina nos cariocas e nos fluminenses por associação. Enquanto a Bossa Nova é condenada ao esquecimento e a apreciação de MPB se restringe a eventos claramente saudosistas e o rock se limita a um gênero de one-hit wonders (artistas de um sucesso só), a mais recente gafe do momento (imagine um Deep Purple com longa trajetória, reduzido a um único sucesso, "Smoke on the Water"!), os cariocas estão mais receptivos ao canhestro "funk" e ao embuste chamado "sertanejo universitário". Chama a atenção também que, seja no pop dançante juvenil ou no pop adulto, os cariocas ficam ouvindo sempre um mesmo punhado de músicas. Fora do âmbito musical, a mesmice cultural revela apego à atrações da TV aberta, um cenário teatral reduzido a comédias americanizadas ou franquias de personagens infantis estrangeiros e a aberrações literárias como "livros para colorir" e diários de youtubers.

5) LAZER LIMITADO - Há uma piada que diz que é preciso apresentar o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e outros pontos turísticos para os cariocas. Os únicos pontos turísticos que os cariocas conhecem são as praias de Copacabana e Ipanema e o Maracanã. O lazer limitado ao consumo de celulares (Facebook e WhatsApp), à televisão, o apego à noitada e o fanatismo esportivo revelam que o carioca, para se divertir, está se tornando bastante repetitivo.

6) FANATISMO PELO FUTEBOL - O grande problema do Rio de Janeiro é que o fanatismo pelo futebol, que envolve quatro times (Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco), torna-se moeda corrente nas relações sociais. Muitos cariocas, quando querem conhecer alguém, perguntam seu time antes de perguntar seu nome. Além disso, há denúncias de que não gostar de futebol é fator determinante para o assédio moral, pois uma simples postura desse tipo é motivo para demissões no trabalho, e, com a reforma trabalhista, que liberou os patrões da fazerem o que querem, isso se torna ainda mais grave. O fanatismo pelo futebol só é considerado "natural" pelos cariocas, mas para os demais brasileiros isso é sinônimo de chatice e falta de assunto.

7) DESUMANIDADE - Os cariocas, tomados de tanto consumismo, precisam se reencontrar. A vida carioca tornou-se desprovida de humanidade. As pessoas estão menos preocupadas em arrumar amigos do que parceiros de alguma diversão (mas sempre aquela: noitadas, vôlei na praia, ver futebol no "Maraca" etc). Não há lugares para paquera se não os redutos caros e perigosos das boates. E as pessoas ainda carecem de alguma afeição, a ponto de extrovertidos esperarem que introvertidos se tornem extrovertidos e pessoas deprimidas virem piadistas para se "entrosar" com os cariocas. As mulheres são muito insensíveis para paquera e se esquecem que os homens também adoram serem amados.

8) APEGO AO STATUS QUO - Alguns retrocessos cariocas recentes, como rádios de rock feitas por quem NÃO é do ramo (Rádio Cidade), o falso folclore do "funk" e a pintura padronizada dos ônibus cariocas (uma medida que confunde passageiros e favorece a corrupção político-empresarial; que o diga a Operação Lava Jato que prendeu empresários cariocas de ônibus), chegaram ou chegam a prevalecer porque quem decidiu por tudo isso era gente ligada a algum status quo: tecnocratas do transporte trabalhando na Prefeitura do Rio, empresários do ramo de shows que se associam com rádios, acadêmicos que julgam ter uma visão "ideal" de "cultura popular" etc. Mas foi essa visão divinizada do "alto da pirâmide" que faz os cariocas endeusarem a Rede Globo e elegerem figuras "moralistas" como Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro. Os cariocas superestimam as pessoas pelo privilégio social que estas possuem.

9) CONTENTAMENTO COM POUCO - Existe uma piada em que o carioca, num restaurante, assim que chega um garçom, faz um único pedido: "Eu quero arroz, feijão, carne e alguma salada. O que todo mundo come. O que matar a fome, está bom demais". A ideia do carioca gostar do "básico" (que, em muitos casos, é abaixo do básico) faz com que limitações diversas como a falta de certos produtos nos mercados e a ausência de revistas e fotos raras nos sebos ou na Internet, além da repetição dos mesmos sucessos musicais em rádio FM - que envolve até os one-hit wonders forjados no segmento rock - revela o contentamento dos cariocas com pouco, o que mostra sua visão de mundo superficial e pragmática demais.

10) FALTA DE LOGÍSTICA - Os supermercados cariocas são ilustrativos. Há uma lentidão no reabastecimento de estoques, e a falta de percepção de que não se pode oferecer apenas "produtos básicos". Produtos mais baratos e diferenciados somem nos estoques e levam até um mês para serem repostos. Não há diversidade de produtos, e os mercados se concentram apenas em duas ou três marcas, complicando a concorrência e dificultando o barateamento dos preços. Além disso, o gerente parece se comportar como um boneco de corda que só age se houver pressão da freguesia, carecendo de visão estratégica para pressentir as necessidades da demanda.

11) PERDA DE SENTIDOS E SENTIMENTOS - O carioca deixou-se de emocionar, preferindo a catarse que favorece mais os instintos do que as emoções. Até a "emotividade religiosa", como vemos, por exemplo, no "espiritismo", são mais uma "masturbação com os olhos" nos quais pessoas se divertem às custas do sofrimento alheio, através do entretenimento das "estórias de dor e superação". Mas também deixou de sentir até mesmo o fedor do lixo em sua volta. Caminhões de lixo circulam fedorentos e mal-conservados pelas cidades do Grande Rio e as pessoas nem sentem mais o odor incômodo e asqueroso. Pessoas ficam na praia rindo e contando piadas com fezes de animais ao seu lado, sem que houvesse algum senso de repugnância. Isso gera até um trocadilho do Rio de Janeiro com a Síndrome de Riley Day (que faz a pessoa ser insensível à dor e outros sentidos), criando o apelido de "Riley Day Janeiro".

12) NITERÓI CONFORMADA EM SER QUINTAL DO RJ - Niterói era capital do Estado do Rio de Janeiro quando a cidade vizinha era capital do Brasil e, depois, da Guanabara. Quando veio a fusão, o antigo status de Niterói, que fazia o sonho de todo interiorano fluminense, ruiu aos poucos, mas o sinal mais evidente se deu nos anos 1990, quando a antiga Cidade Sorriso, fundada pelo valente Arariboia, passou a se comportar como uma cidade do interior, e, o que é pior, como uma cidade do interior que nem as cidades do interior querem mais ser. Uma mentalidade provinciana, matuta, indiferente e resignada a tudo, uma indigência cultural, coisa que não é diferente do que ocorre no município vizinho, mas em Niterói isso se torna ainda mais intenso. É preocupante essa sensação dos niteroienses em estarem felizes em serem província.

13) EXCESSO DE FUMANTES - É terrível como no Grande Rio as pessoas fumam cigarro, apesar de tantas campanhas de esclarecimento. E, mais grave, nem as mortes de pessoas que de alguma forma tiveram uma trajetória ligada ao fumo, como atores e jornalistas de TV mortos ainda na casa dos 60 anos e até menos, conseguem sensibilizar os fluminenses. E nem as notícias de amigos prematuramente falecidos por câncer ou infarto devido ao fumo. Há até mesmo o hábito de pessoas ficarem muito tempo com o cigarro na mão, quando poderiam abandonar o cigarro de vez.

14) ALTO CUSTO DE VIDA - Produtos e serviços, no Grande Rio, custam muito caro, o que justifica o aumento dos assaltos, porque muitos pobres não têm dinheiro sequer para comprar o mais barato dos almoços. Os fornecedores de serviços e os vendedores, assim como os empresários ligados, deveriam ter noção de que o dinheiro do povo não é capim e poderiam baixar serviços e produtos de forma a se tornarem mais acessíveis à população, garantindo movimentação de renda e impedindo o perecimento de produtos e a falência de empresas.

Esses catorze itens são apenas os principais. O Rio de Janeiro, Estado e capital, precisa de uma violenta mudança e reavaliação de sua realidade, de forma a, pelo menos, alcançar uma reputação mais respeitável. Do jeito que está, o Estado sucumbirá a uma decadência tão grande que até o Acre passará a se tornar mais moderno e cosmopolita. O Rio de Janeiro não pode mais "continuar sendo", tudo tem que mudar.

sábado, 17 de junho de 2017

Deturpadores agora querem "exaltar" espíritas brasileiros autênticos


A crise no "movimento espírita" se torna tão aguda, com as velhas e as mais recentes contradições sendo reveladas na Internet - só falta um "Joesley Batista" entregar os deturpadores ao establishment da opinião pública - , que seus dirigentes, palestrantes e "médiuns" estão apelando para tudo para evitar a decadência.

Paciência, eles fizeram suas más escolhas, que um dia acabam cobrando seu preço caro, uma conta que os infratores de outrora não querem pagar. A desonestidade doutrinária das traições em torno de Allan Kardec e a preferência original por J. B. Roustaing criou impasses que foram sendo maquiados pouco a pouco por essa doutrina que praticamente rompeu com o pedagogo de Lyon.

Como não podem afirmar a veracidade de tantas mediunidades fake, forjadas pelos "tarimbados" Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, eles tentaram se projetar pela aparente "filantropia". Mas como a "caridade" de Chico Xavier e Divaldo Franco não trouxe os resultados desejados, os "espíritas" então fazem todo tipo de malabarismo para se manterem em pé.

E aí o que é que estão fazendo ultimamente? Andam bajulando espíritas autênticos, como José Herculano Pires e Deolindo Amorim - um foi sobrinho do prosador caipira Cornélio Pires, outro pai do jornalista e "ansioso blogueiro" Paulo Henrique Amorim - , descrevendo fatos biográficos ou reproduzindo seus textos, como se a deturpação tivesse feito seu dever de aula com o Espiritismo mais genuíno.

Sabemos que não. Afinal, os "espíritas" deturpadores, que professam na verdade um Catolicismo paralelo que se encontra escancarado nas "casas espíritas", e nesses horrendos romances "espíritas" que parecem folhetins de segunda categoria - isso quando não é a ficção científica de baixa qualidade, como Nosso Lar - , nunca abririam mão desse igrejismo sem batina que tanto defendem e praticam.

Nas últimas décadas, o "movimento espírita" entrou numa fase de profunda hipocrisia e demagogia, como se ser contraditório fosse a receita do sucesso. Roustanguistas, seus membros apenas romperam com o "alto clero" da Federação "Espírita" Brasileira, que ficou isolado no seu roustanguismo ortodoxo.

Chama-se de "fase dúbia". Afinal, o "espiritismo" brasileiro passou a ter duas caras, saindo daquela linha assumidamente roustanguista do antigo presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas. A "fase dúbia" também rompeu com o poder central da FEB reafirmado pelo Pacto Áureo de 1949 e passou a enfatizar mais as federações regionais.

A "fase dúbia" do "espiritismo" brasileiro, que passou a se autodenominar "kardecismo" ou "espiritismo kardecista", na verdade nem de longe representa a volta aos postulados de Kardec, até porque as fontes kardecianas são ainda muito duvidosas. Apenas se trocou as traduções da FEB de Guillón Ribeiro pelas da IDE por Salvador Gentile. Mas o igrejismo, na essência, permanece o mesmo.

Trata-se, na prática, de um roustanguismo heterodoxo, acolhendo apenas na fachada os postulados espíritas originais e o eventual desfile de personagens da Ciência e do Ativismo Social mais autênticos. A "fase dúbia" permitiu aos roustanguistas mais regionais tentar agradar os espíritas autênticos e promover uma pretensa "fraternidade" que mais favorece os deturpadores, vistos como "conciliadores" e "tolerantes".

A manobra, que voltou com mais força, dos deturpadores que "vaticanizam" o Espiritismo em "valorizar" os exemplos dignos de Herculano e Deolindo, tem como objetivo criar um bom-mocismo entre determinadas personalidades da doutrina deturpada, sendo o mesmo apelo que víamos após o fim da fase Wantuil, em que todos os roustanguistas que não integravam a alta diretoria da FEB passaram a embarcar no navio da "retomada das bases kardecianas".

Evidentemente, os próprios deturpadores tentam fazer o público esquecer que Herculano e Deolindo fizeram duras críticas aos que praticam a Deturpação. Tem deturpador que fala mal de "falsos Constantinos que vaticanizam o Espiritismo", mas ele mesmo se traveste de um "falso Herculano" que fala em "pureza doutrinária" mas depois vai lá dizer amém a um livro mistificador de Chico Xavier.

Os deturpadores do Espiritismo tentam nos fazer crer que, exaltando os espíritas autênticos, promovem o "equilíbrio", a "tolerância", a "imparcialidade" e o "esquecimento das diferenças". Tentam trabalhar um estranho conceito de "fraternidade", em que o "esquecimento das diferenças" torna-se uma desculpa traiçoeira para que os deturpadores continuem no domínio ou, quando muito, sejam coadjuvantes oportunistas da aparente recuperação das bases doutrinárias.

É uma "fraternidade decidida de cima", se não dos escritórios centrais da FEB, ao menos de ilustres dirigentes "espíritas" regionais e seus festejados "médiuns". É como na frase-denúncia no livro Revolução dos Bichos de George Orwell: "Todos somos iguais, mas uns são mais iguais do que outros". De que adianta elogiar os espíritas autênticos se a deturpação igrejeira segue inteira?

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Pobre de direita: uma ameaça masoquista às classes populares


Um episódio terrível ocorreu em um ônibus de Niterói, ontem pela manhã. Um homem, negro, pobre e evangélico, estava reclamando da corrupção política e passou a fazer um discurso de defesa ao deputado Jair Bolsonaro, um dos símbolos da extrema-direita brasileira e considerado um grande ídolo no Grande Rio.

Com pontos de vista de valor duvidoso, mas suficientes para criar um clima de catarse coletiva dentro do veículo, os demais passageiros passaram a concordar com o rapaz, que ainda descreveu a fábula de Adão e Eva como se fosse um episódio da História da humanidade. Um verdadeiro espetáculo de burrice, de estupidez, mas que se impõe como se fosse uma verdade indiscutível.

Esse é o pobre de direita, que virou um fenômeno esquisito no Brasil. Um pobre que aceita o fim dos direitos trabalhistas, a venda de riquezas brasileiras para corporações estrangeiras e quer o país governado por pessoas autoritárias ou elitistas. O pobre de direita é um masoquista social, achando que, quanto mais o Brasil agir contra os pobres, melhor. O pobre direitista é, portanto, um lambedor de gravatas, um babador de paletós e de fardas militares.

O pobre deu um tiro no pé. Três dias antes, Jair Bolsonaro deu uma palestra numa instituição judaica, o Clube Hebraica, na zona sul do Rio de Janeiro. O "heroico homem" passou a difundir comentários racistas e machistas para uma plateia que assistia àquela estranha palestra.

Ele disse que ter uma filha era "fraquejada", demonstrando seu machismo, já conhecido em outras ocasiões, como na discussão com a deputada Maria do Rosário, contra a qual Jair declarou que "só não a estuprava porque ela era feia". E depois despejou comentários racistas que deixariam o passageiro do ônibus bastante preocupado, se ele tivesse consciência do que realmente falou.

Entre outras coisas, Jair Bolsonaro falou que o "afrodescendente" era incapaz até de procriação e que, se fosse presidente da República, ele não criaria áreas de terras para negros e indígenas. Isso é terrível, e a declaração causou indignação de setores do poder Judiciário e do Legislativo que, pelo menos, têm algum senso mínimo de humanidade.

Isso é muito perigoso. O Estado do Rio de Janeiro, sofrendo uma decadência vertiginosa, virando antro de fumantes, tendo a capital como cidade mais poluída do país, e, mesmo sendo um dos centros distribuidores de mercadorias, deixou de reabastecer com regularidade os seus mercados, sem falar que o Grande Rio tem os caminhões de lixo mais fedorentos, as ruas cheirando a fuligem e é o maior reduto de cyberbullies e de policiais truculentos no país.

Nós não somos necessariamente petistas, mas sabemos o quanto os opositores do governo Dilma estão abusando de seus preconceitos sociais. De repente sofremos um surto reacionário de gigantescas proporções e isso é um grande alerta. Especialistas sérios, juristas que estudam as leis com cautela e objetividade, alertam que o Brasil vive um clima semelhante ao da Alemanha do começo dos anos 1930.

A catarse coletiva dos reacionários, sempre furiosos quando os movimentos sociais se manifestam, mas tolamente alegres quando são os próprios direitistas que se envolvem em graves escândalos políticos, como se isso não fosse escândalo e sim uma piada de programa humorístico, é um fenômeno muito perigoso que deveria preocupar juristas e legisladores, se eles tivessem algum pingo de consideração ao ser humano.

Tudo virou uma epidemia de comentários racistas, machistas, rancorosos em geral, como se, em pleno século XXI, tivessem sido liberados todo tipo de visão desumana, ofensiva, depreciativa e reacionária. E uma parcela psicopata da sociedade acaba tendo uma forte esperança de ver um homem como Jair Bolsonaro comandando o Palácio do Planalto. Vai ser um pesadelo. Já tem gente querendo que ele seja governador do Rio de Janeiro. Será uma catástrofe sem tamanho!

Temos um Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal e as pessoas ainda vão dormir tranquilas. Ele está lá como advogado de Michel Temer, e já contradisse o que o próprio ministro do STF, anos antes, havia escrito em seus livros de direito. Ver alguém contrariando suas próprias ideias é de arrepiar os cabelos, mas as pessoas saem de casa tranquilas, achando que vivem os "dias mais felizes de todos os tempos".

Estamos numa catástrofe política no Brasil, num pesadelo sem fim. A despreocupação das pessoas é preocupante, porque o Brasil está desgovernado, caótico, desordeiro, retrógrado. Recentemente, o ator José Mayer, antes uma figura de prestígio inabalável, foi denunciado por assédio sexual por tocar numa genitália de uma figurinista, Susllem Tonani, e causou grande revolta no país.

Jair Bolsonaro fez apologia ao estupro, mas como ele discutiu com uma deputada do PT e não com uma jornalista da Globo - se ele tivesse discutido com Miriam Leitão e dito a mesma coisa, talvez tivesse dificuldades de contornar o escândalo - , tudo ficou nisso mesmo.

E o "espiritismo", como fica? Os palestrantes, tão cheios de palavras bonitinhas, só ficam dizendo para os sofredores "suportarem as desgraças" e "perdoarem os abusos dos algozes", mais compactuando com o egoísmo que dizem condenar. Ficam tão vagamente reprovando o egoísmo e o materialismo, mas da forma como pregam as elites só ficam gratas a essa Teologia do Sofrimento fantasiada de "postulados de Allan Kardec" (ele reprovaria tudo isso que os "espíritas" daqui fazem).

As pessoas precisam reagir, porque o Brasil está tomado por elites retrógradas que veem o topo da pirâmide arder em chamas - é o "inferno na torre" - e tentam jogar o ônus da decadência para os "de baixo". É preciso dar um freio a esse pessoal porque o Brasil corre um grave risco de sucumbir ao obscurantismo mais repressivo, a um holocausto que não saberemos como se dará. É preciso realizar uma faxina nessa ponta da pirâmide cada vez marcada pela podridão mais doentia.

sábado, 1 de abril de 2017

Divaldo Franco fez juízo de valor contra refugiados do Oriente Médio


Imagine a seguinte situação. Você e seus familiares vivem em uma cidade onde os atentados a bomba e tiroteios ocorrem nas proximidades. Sua casa é um potencial alvo de bombardeios. Barulhos de explosões e de tiros são constantes na madrugada, de forma a impedir que as pessoas tenham um sono tranquilo.

Você e seus familiares, evidentemente, vão arrumar as malas com tudo o que podem levar e, com muito sacrifício, se juntar a multidões que iniciam sua peregrinação difícil para se mudarem para outro país. Escolhem um país europeu para se exilarem, não pela aparente imponência do Velho Continente, mas porque lá há um nível menor de insegurança, com mais chances de viver num ambiente de paz e tranquilidade.

Vocês se instalam num país europeu e decidem trabalhar em empregos modestos, mas que possam garantir renda para manter o aluguel, uma alimentação minimamente digna e algum entretenimento para distrair as mentes cansadas e traumatizadas.

Mas, de repente, longe de suas casas, um palestrante religioso, dotado do mais alto prestígio entre os seus, tido como "sábio" e supostamente em contato com as mais altas esferas da espiritualidade, acusa você e seus familiares de terem sido sanguinários colonizadores europeus, que dizimaram povos na América Latina e que, por isso, vão pagar as consequências dos delitos de vidas passadas.

Você e seus familiares, enfrentando com a mais possível calma e um mínimo de habilidade, as dificuldades para viver num outro país, porque o país de origem virou um cenário de guerra. Todos tentam arrumar suas vidas, com calma e perseverança, se alegrando com as pequenas conquistas alcançadas, e vem um ídolo religioso, à distância, acusar vocês de terem sido colonizadores com sede de sangue, que retornaram à Europa em busca de antigos privilégios.

Pois é justamente isso que foi o julgamento de valor de ninguém menos que o anti-médium baiano Divaldo Pereira Franco, um habilidoso manipulador de palavras e dono de um discurso rebuscado. Tido como "sábio" e considerado "unanimidade" religiosa, veio com a seguinte "pérola" ao ser entrevistado para um periódico português durante um congresso "espírita" na Espanha:

"No campo das deduções e de acordo com o meu pensamento, penso que aqueles que estão hoje, de volta à Europa, são os antigos colonizadores que deixaram, até hoje, a América Latina na miséria.
Como foi negado todo o direito aos seus residentes, como aculturaram os silvícolas, destruindo culturas veneráveis, pela Lei de Causa e Efeito aqueles estão retornando hoje à pátria, no estado de miséria, e que ameaçam os próprios países de onde saíram, para, um dia, buscarem a fortuna para o conforto europeu. 

Mas, também me recordo dos grandes problemas que estão a acontecer no antigo Levante, graças às tropas muçulmanas. “O Homem é o lobo do Homem” e, verificamos que estamos a transformar este lobo em cordeiro. Como sou otimista, acredito que em breve, o lobo e o cordeiro beberão no mesmo regato, em fraternidade. Já vemos muitas dessas uniões, através da educação que é proporcionada, e nós vemos isso na Internet, diariamente. Porque não, na realidade, amanhã?".

Terrível julgamento de valor seguido ainda de ideias truncadas sobre o "lobo" e o "cordeiro". Um típico deturpador da Doutrina Espírita, que comete a hipocrisia de se autoproclamar "rigorosamente fiel" a Allan Kardec, mesmo contrariando seus ensinamentos - Divaldo acredita, por exemplo, em fantasias como "crianças-índigo" - , usa seu prestígio religioso para acusar os refugiados dos países asiáticos e africanos do Oriente Médio de terem sido "antigos colonizadores em busca de fortuna".

Depois, no morde-e-assopra de sua retórica espetacular, com seu exército de palavras de pretensa erudição, Divaldo não parece claro diante de sua exposição prolixa sobre a ideia de que o "homem é o lobo do homem". Até que ponto Divaldo fala na intenção de transformar o lobo em cordeiro, se para o bem e para o mal, não dá para entender.

Além disso, ele tenta um conceito igrejista de "fraternidade" - mais próxima de um "gado" ou "rebanho", como reza o Catolicismo medieval, do que do convívio harmônico da sociodiversidade humana - , embora também não deixe claro que "uniões" ele fala de "lobos" e "cordeiros" na "educação proporcionada na Internet".

A julgar da tendência comum, nós, que fundimos a cuca diante desse relato prolixo de Divaldo Franco, indagamos se a tal "união entre lobos e cordeiros" não seria os ataques de cyberbullying que os valentões fazem contra as pessoas pouco convencionais, apoiados por demais internautas que pareciam simpáticos e admiráveis. Seriam os "lobos" que chamam os "cordeiros" para humilhar as "ovelhas negras" nas redes sociais?

Muitas pessoas que recorreram a tratamentos espirituais nas "casas espíritas" - algumas delas tidas como de "alto conceito" - reclamam que, em vez de conseguir superar as dificuldades que as inspiraram a tão arriscado socorro, conseguiram mais azar, e não raro pessoas vão fazer tratamento para depois serem vítimas de bullying na Internet e alvo de páginas ofensivas das quais eles têm alguma dificuldade de denunciar sem sofrer alguma represália.

O que Divaldo Franco fez não merece aprovação alguma e põe em xeque seu aparente prestígio, conseguido em milionárias palestras feitas para elites embevecidas. É algo que nem a pose de humildade nem uma suposta filantropia que não ajuda mais do que 0,01% do povo brasileiro, consegue atenuar, pois o julgamento de valor, mesmo em tenras palavras, é de uma gravidade sem tamanho.

Será que Divaldo Franco gostaria de ser acusado de ter sido, em antiga encarnação, um antigo sacerdote medieval europeu que, designado para colaborar com Anchieta e companhia na dizimação cultural das crenças indígenas no Brasil, regressou séculos depois à Europa para usufruir de confortáveis palestras cheias de pompa e receber prêmios dos ricos e poderosos?

Deve-se levar em conta que seu "espiritismo" deturpado não tem moral para atribuir encarnação passada aqui e ali, e, além disso, Kardec recomenda o esquecimento de vidas passadas para evitar situações e sentimentos desagradáveis ou exagerados. Além disso, os refugiados, pelas dificuldades que sofrem, merecem respeito, e não é o prestígio religioso que permitirá juízos de valor severos contra pessoas que não têm como recorrer para processar alguém por danos morais.

sábado, 25 de março de 2017

Terceirização e reformas trarão prejuízo aos brasileiros


Quando houve, no ano passado, a queda de Dilma Rousseff e a ascensão de seu vice, Michel Temer, que rompeu com a titular e abraçou um projeto político ultraconservador, uma boa parcela dos brasileiros se iludiu com o aparato de status e prestígio social do presidente.

A impressão que se tinha é que um presidente de perfil moderado, dotado de uma equipe dotada de competência técnica e prestígio político havia chegado ao poder. Gente tida como responsável, defensora da Família, associada a paradigmas de moralidade velhos, porém ainda tidos como sagrados. O governo Temer tentava passar essa imagem, associada à disciplina e à precisão cirúrgica da capacidade administrativa.

Tudo isso se revelou uma ilusão. Uma sucessão de escândalos políticos, até hoje se acumulando nesse histórico, tornaram o governo Temer uma grande vergonha nacional, embora os brasileiros mais convencionais vissem tais escândalos como se fossem um programa de comédia da TV.

Só que isso não tem a menor graça. Está em andamento uma série de medidas amargas que trarão sérios prejuízos para a vida dos brasileiros, inclusive para aqueles que acham que podem dormir tranquilos diante desse governo cheio de gravíssimos escândalos de corrupção.

Várias delas já foram aprovadas ou estão perto de serem sancionadas pelo sombrio presidente. O congelamento das verbas públicas para os próximos 20 anos deixará setores como Educação e Saúde mais precarizados, forçando apelar para a iniciativa privada, que nem está aí para o interesse público.

Na fila de aprovação, tem-se a terceirização para atividades-fim. O que deveria ser feito era regulamentar a terceirização apenas para atividades-meio, estabelecendo limites para os abusos dos empregadores, mas, infelizmente, o que se fez foi ampliar a terceirização para atividades-fim e dar sinal verde para os patrões tratarem os empregados feito gato e sapato.

Nesta proposta, os trabalhadores deixarão de ter vínculo empregatício com a empresa em que trabalham. Haverá um contratante que fornecerá a mão-de-obra para a prestadora de serviços. Em muitos casos, isso permitirá a "pejotização", termo baseado na sigla PJ, pessoa jurídica, que transformará cada trabalhador em uma empresa-fantasma para assim dispensar dos patrões o cumprimento de obrigações trabalhistas.

Outra armadilha será a "quarteirização", espécie de terceirização ampliada. Na quarteirização, haverá um contratante, outro intermediário e uma empresa que "acolhe" o trabalhador, como prestadora. O trabalhador terá dificuldades para processar, até porque também perderá direitos trabalhistas e deixará de ser um empregado nos moldes formais. A terceirização nivela o emprego aos padrões do mercado informal.

O trabalhador perderá os encargos e as remunerações adicionais, ainda que como ajuda de custo. Se o trabalhador, por exemplo, ganhava R$ 5.500 mais alguma remuneração extra para transporte, alimentação e outros gastos, essa remuneração extra é eliminada e o referido salário incluirá essas despesas.

Somada à reforma trabalhista e à reforma da Previdência Social, o trabalhador terceirizado ainda viverá novos dramas. Poderá trabalhar numa jornada diária maior, sem receber mais por isso, talvez até recebendo menos. Sobrecarregado, poderá sofrer acidente de trabalho e morrer. Sendo seriamente ferido, será demitido e/ou não terá assistência médica, tendo que pagar pelo sistema privado, porque a essas alturas o SUS, Sistema Único de Saúde, será sucateado com as verbas no freezer.

No caso da aposentadoria, existe a proposta de idade para 65 anos, tanto para homem e para mulher, e o tempo de 49 anos de contribuição. Boa parte das cidades brasileiras tem expectativa de vida nesta mesma idade. Na hora de se aposentar, o trabalhador já foi sepultado ou cremado. No caso do tempo de contribuição, então, o trabalhador pode morrer e ainda estar no seu processo de contribuição à Previdência Social.

Isso é terrível. Já se fala em genocídio silencioso, porque tudo o que o governo Temer quer fazer, sob a desculpa de "estimular o crescimento", é degradar o trabalho assalariado de forma a desgastar progressivamente os trabalhadores e sufocar, sutilmente, qualquer esforço de sobrevivência.

E o "espiritismo", com isso? Os palestrantes "espíritas" só ficam apelando para "aceitar o sofrimento", com uma série de falácias que vão desde as rimas simplórias de um tal de "poeta alegre" aos apelos um tanto hipócritas sobre o "ser e o ter". Isso porque os palestrantes "espíritas" não sofrem aquilo que aconselham aos desafortunados da sorte.

Para eles, tanto faz pedir ao trabalhador terceirizado apenas "trabalhar e ter fé". O bombardeio de textos "espíritas" dizendo para abrir mão de necessidades, revisar projetos de vida partindo do zero, abandonar desejos e anseios, é enorme e preocupante, e tudo isso parece "lindo", mas vai um palestrante "espírita" viver aquilo que ele aconselha ao outro. O palestrante não iria gostar.

O "espiritismo" é um reflexo dessa sociedade conservadora, hipócrita. É difundido por supostos médiuns dotados do culto de personalidade, vaidosos em serem os centros do espetáculo de entretenimento da fé religiosa, com suas palestras verborrágicas e suas exibições de pretensa mediunidade, que mais parecem ilusionismo ou produção de mensagens apócrifas.

E tudo isso é defendido como se fosse autêntico. Afinal, as desculpas se apoiam no deslumbramento religioso, que protege até o mais charlatão dos anti-médiuns. Simulacro de humildade, arremedo de filantropia, que mais ajuda o "benfeitor" do que o necessitado, sempre protegem esses astros do "espiritismo", que nunca promove o verdadeiro Conhecimento e ainda recomenda outrem a aceitar e até amar o sofrimento. O "espiritismo" já terceiriza a vida humana há muito tempo.

domingo, 12 de março de 2017

Os pesos e medidas diferentes na Justiça e na Internet


Estamos em risco, nesses tempos de convulsões sociais. E isso cria uma realidade desigual, mas igualmente perigosa. A repressão a trabalhos investigativos, por um lado, e a tolerância a atos de difamações digitais, por outro, revelam o quanto se compreende muito mal a ideia de liberdade e ética.

Do tucano mineiro Eduardo Azeredo, que enquanto senador queria votar leis de restrição à liberdade de informação na Internet, até o hoje ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, ordenar a retirada da entrevista do ex-ministro da Justiça da ex-presidenta Dilma Rousseff, Eugênio Aragão, por conter informações tidas como "inverídicas".

Moraes, aliás, antecessor de Aragão na pasta ministerial, é conhecido pela atuação repressiva. Como secretário de Segurança Pública do governador paulista Geraldo Alckmin, ele investiu em violenta repressão policial contra estudantes que se manifestavam pacificamente contra a reforma educacional do governo paulista. A ação se repetiu contra movimentos sociais que, em Brasília, protestavam contra a PEC dos Gastos Públicos em Brasília.

A investida contra Eugênio Aragão, o que sugere a oficialização de um Judiciário policialesco, é motivada pelo fato deste ser ligado ao PT, o que faz muitos cidadãos torcerem o nariz. Mas a atuação de Aragão não tem cunho ideológico, e em suas entrevistas ele se manifestou um profundo conhecedor de leis.

Moraes, em contrapartida, entrou no STF por indicação do presidente Michel Temer, que não tinha condições para tal tarefa, já que era um usurpador de poder político, um impedido político - proibido de concorrer a novos cargos eletivos, por conta de um crime eleitoral em 2014 - e que conquistou a República sem legitimidade popular e com um projeto político que daria sempre errado nas urnas.

Moraes também é acusado de ter feito plágios em seus livros sobre direito, de obras de um jurista espanhol falecido no ano passado. Moraes jura ter citado o autor em referências bibliográficas. Mas, também, plágio não vem ao caso, quando o status social fala mais alto.

Vemos o caso de Francisco Cândido Xavier. O aclamado Chico Xavier cometeu muitos plágios literários nas obras que usam os nomes de autores mortos, e cometeu até a aberração de copiar um capítulo de um livro cômico de Humberto de Campos, O Brasil Anedótico, para compor um capítulo no tendencioso Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, atribuído oficialmente ao autor maranhense.

Chegamos ao ponto deplorável de permitir que uma parcela de cidadãos se apropriasse dos nomes dos mortos, escrevendo (ou falando, ou pintando) mensagens apócrifas, que destoam dos aspectos pessoais dos falecidos, em que pese aparentes semelhanças. Basta usar o pretexto da caridade e ter algum prestígio religioso para usurpar o morto de sua escolha e escrever em seu nome qualquer mensagem de propagandismo religioso.

Infelizmente, em casos assim, a Justiça não pega. Se alguém possui prestígio religioso, tem alguma casa "filantrópica" (uma "casa espírita" que faz assistencialismo) e constrói um carisma com palestras de palavras bonitinhas, a única hipótese de um juiz abordá-lo é para pedir um autógrafo, um abraço e ser fotografado ao lado do suposto médium publicada alegremente nas colunas sociais.

Ser tucano e "espírita" tem dessas blindagens. Enquanto isso, se alguém tem um trabalho investigativo que vai contra os interesses dominantes, ou alguém não corrobora com certos posicionamentos, aí há tanto o risco da censura pela Justiça quanto pelo reacionarismo de internautas valentões.

Enquanto entrevistas como a de Eugênio Aragão recebem notificação para serem retiradas do ar, ocorrem livremente as publicações de páginas ofensivas na Internet. Páginas de ofensas e difamações são impunemente mantidas, e haja trabalheira para acionar o Safernet e sair pedindo ajuda para apoiar na denúncia da página ofensiva, que só é retirada do ar quando a vítima, ainda que "incômoda ao sistema", possui uma notável visibilidade.

Se essa visibilidade não existe, a página é mantida. E isso é horrível. Vê-se dois pesos e duas medidas, em que páginas que colaboram com a informação mais transparente, ainda que invista em denúncia, principalmente contra o grupo político que está no poder, são condenadas a saírem do ar, enquanto páginas de calúnias e difamação continuam no ar, numa boa.

Não estamos aqui falando de petismo, de esquerdismo ou coisa parecida. Aqui não se está falando de ideologia, mas de ética. A gente observa que existem irregularidades do lado da plutocracia política e não se pode publicar trabalhos profundamente investigativos sobre certas personalidades.

Por outro lado, há até engraçadinhos publicando páginas ofensivas de "comentários críticos", "piadas hilárias", "humor divertido" e outras barbaridades e se precisa gastar horas na Defensoria Pública ou no Ministério Público para banir as páginas, levando semanas e com o risco de contrapartida de um advogado alegando que "não há conteúdo ofensivo".

E isso quando o agressor não sai de seu quarto onde usa o computador para ir à cidade do desafeto para fazer ameaças, até de morte. É verdade que um cyberbullying é um imprudente por excelência, mas até ele, na sanha em perseguir seu desafeto, se esbarrar no cano de revólver de um miliciano - que estranha as visitas do valentão num mesmo lugar, achando que é alguém de quadrilha rival - , a ameaça assusta e deixa a vítima insegura.

Esses fatos todos revelam uma realidade que nos põe a pensar. Que ética queremos? Que transparência queremos? Que liberdade queremos? Usar o status quo como peso social - que favorece, nos planos mais rasteiros, os valentões que são tidos como "os mais divertidos" nas redes sociais - não é suficiente para garantir a justiça humana.

Nem o prestígio religioso pode permitir abusos como usurpar pessoas mortas e mandar mensagem qualquer nota de propaganda religiosa. Fazer isso e depois se "esconder" por trás de crianças pobres e velhinhos doentes não pode ser visto como atestado de honestidade, mas fuga de possíveis acusações e processos.

Os valentões da Internet, os politiqueiros do Judiciário, também não podem cometer abusos como se fossem os donos da verdade. Devemos deixar de lado o critério do prestígio social e evitar as carteiradas diversas que só fazem com que a justiça social seja sempre desigual, desumana e humilhante.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O Brasil passará por uma fase de corrupção escancarada


Com o caminho aberto para a entrada, praticamente garantida, de Alexandre de Moraes para a vaga de Teori Zavascki no Supremo Tribunal Federal, o Brasil consagra sua mais aberrante fase, em que uma coleção de retrocessos gravíssimos que transformam o país numa nação institucional e politicamente insegura e vulnerável.

Mas o que mais preocupa a todos é a despreocupação daqueles que, meses antes, despejavam fúria descontrolada quando viam Dilma Rousseff ou Lula discursando na televisão, a ponto de baterem panelas de cozinha ou soprarem vuvuzelas em plenas horas noturnas.

São pessoas que vão para as ruas ou praias sorrirem, como se vivessem num paraíso, se reunindo para cantar sobre flores e amores, jogar conversa fora, contar piadas e, nas redes sociais, mostrarem fotos de viagens, selfies com amigos, reencontros com antigos colegas, tudo o mais. Não que isso não deva ser feito, mas da forma como se faz, num momento de catástrofe política em que vivemos, essa alegria mais assusta do que conforta.

Hoje prevalece uma mentalidade que já causou uma tragédia ecológica devastadora, com quase vinte pessoas mortas - animais, então, nem se fala - , que foi a de Mariana, em Minas Gerais, num contexto em que há um plano de privatizações vorazes, em que, se deixarmos, até as creches públicas serão entregues a corporações educacionais dos EUA, venda de nossas riquezas e até entrega de parcelas do território brasileiro para empresas estrangeiras, criando "principados" empresariais gringos aqui.

Que as pessoas possam discordar do PT, de Dilma, de Lula, de José Dirceu e achar que o projeto político deste partido não é de agrado da população, tudo bem. Têm todo o direito de pensar assim. Mas faltou paciência ao aguentar Dilma Rousseff por mais dois anos, perdendo uma boa oportunidade dos opositores "se vingarem" nas urnas em 2018, dando vitória eleitoral a um tucano ou coisa parecida.

Quiseram derrubar as coisas na maior pressa e abriram caminho para um processo de delinquência política que pode trazer defeitos danosos para os brasileiros. E é bom deixar claro que as pessoas que estão felizes hoje também vão pagar a conta, altíssima, dos retrocessos que se acumulam como numa tragicomédia de erros graves.

Até o "folclórico" senhor de idade, que diante das bancas de jornais, ao ver as más notícias na primeira página, ri dizendo que "não tem mais jeito" e volta para casa ou vai ao trabalho tranquilo, vai também pagar a conta. Quando a praia de Copacabana se tornar uma propriedade privada de hotéis de Los Angeles, o pessoal vai perceber.

Se até a cultura popular está privatizada - essa bregalização cultural que certos intelectuais treinados pela mídia patronal para fazer proselitismo nas esquerdas e sabotar os debates culturais - , então a situação está muito, muito feia para o país.

O Brasil virou um país em que uma minoria acha que pode tudo. E isso vem desde aquele valentão das redes sociais, que transforma fóruns de Internet em ringues, cria blogues de ofensas e difamação e depois, despindo de seus fakes truculentos, vai para eventos sociais mostrando seu verdadeiro nome e posando de civilizado, conciliador e antenado.

Chegamos a esse ponto dos abusos humanos de pessoas que julgávamos importantes, gabaritadas e moderadas. Tudo porque apostávamos nossas fichas àqueles a que se presumia alguma superioridade ligada a um atributo material: desde aquele internauta que parecia "o mais divertido" até aquele rico que parecia "responsável" no uso do porte de arma.

Nesse caminho, endeusávamos pessoas por causa do diploma, da fortuna, do poder político, da formação acadêmica, da visibilidade, da fama, e sobretudo do prestígio religioso. As paixões religiosas são justamente as mais perigosas, armadilhas traiçoeiras em que ideias supostamente "puras" ligadas a supostos ideais de simplicidade e humildade revelam sentimentos orgiásticos dos mais cruéis e mais perniciosos e fúteis.

Achávamos que uma coleção de paradigmas de superioridade social iria resolver as crises ocorridas desde 2013. Víamos em políticos conservadores e corruptos pessoas "moderadas" e "responsáveis" para tocar o país na frente. Acreditávamos que sacrifícios traziam mais benefícios do que a obtenção justa dos próprios benefícios.

E o que ganhamos de presente? A perda das nossas riquezas que, vendidas para estrangeiros, não se resultarão no retorno de investimentos sociais e renda socialmente compartilhada pela população, mas em meras migalhas investidas no Brasil, enquanto o grosso do lucro obtido pelas empresas gringas vai para as contas dos paraísos fiscais dos seus donos e de seus aliados mais chegados.

Mas não é só isso. Vamos perder conquistas trabalhistas, trabalhar até morrer, porque a forma como se dará a reforma administrativa só vai garantir os vencimentos da aposentadoria quando o beneficiário já estiver na "pátria espiritual". Se o dinheiro, pelo menos, estiver disponível para seus herdeiros, seria menos mal.

Com a aprovação do repressivo ministro licenciado da Justiça, Alexandre de Moraes, para a vaga do STF, a situação do Brasil ficará ainda pior. Teremos um Judiciário que já conta com pessoas de atuação duvidosa, como Gilmar Mendes. O STF, que monitora a aplicação das leis no Brasil, deixará sua isenção de lado e reafirmará como um órgão do PSDB.

Moraes promete que atuará de forma "independente e imparcial", mas sabemos que isso é conversa para boi dormir. Como é conversa para boi dormir tudo o que o presidente Michel Temer diz, achando que, por exemplo, prorrogar a aposentadoria para o fim da vida será ótimo para a população, assim como restringir investimentos públicos para a Saúde e Educação.

Os ricos ficam mais ricos, mais esnobes, mais sádicos, mais preconceituosos, mais violentos. De repente vivemos a ditadura de elites que acham que podem fazer o que querem. Não controlam seus impulsos, mas acham que podem controlar suas circunstâncias e saírem impunes numa boa. Vivemos uma catástrofe social que deve causar perplexidade em todos. Não é hora de sorrir e caçar borboletas pelas ruas das grandes cidades. A hora é de pararmos para pensar no que está o país hoje.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Cuidado, cyberbully, você está sendo vigiado!


Vivemos uma época em que as elites detentoras de algum privilégio social acham que podem fazer o que querem. Numa retomada ultraconservadora, pessoas cujos privilégios variam do domínio tecnológico ao prestígio religioso se viram, de repente, na plenitude de seus abusos, como se nada pudesse detê-las.

São pessoas que até se envolvem em escândalos, muitas vezes cabeludos, veem a encrenca bater à porta de sua casa ou de seu ambiente profissional, mas aparentemente dão a volta por cima, seja com algum jogo de cintura, seja com alguma represália.

Estamos vendo exemplos assim no governo Michel Temer, que empurra medidas impopulares e prejudiciais à população, enquanto põe seus integrantes da "equipe de notáveis" em cargos estratégicos ou até em cargos no Judiciário. Nunca um senhor de 77 anos se comportou como se fosse um menino teimoso e mimado (por sinal, pela grande mídia) de sete anos.

Recentemente, o ex-governador do Rio de Janeiro, Wellington Moreira Franco, citado inúmeras vezes em atividades de corrupção por delatores da Operação Lava Jato, e já definido pelo antigo rival Leonel Brizola (1922-2004) como "gatinho angorá", porque passa "de colo em colo" (ou seja, muda o padrinho político conforme as conveniências), conseguiu não só assumir o cargo de ministro da Secretaria-Geral da República, como adquiriu foro privilegiado, só podendo ser julgado pelo STF.

A propósito, temos também a possibilidade de Alexandre de Moraes ser ministro do Supremo Tribunal Federal, mesmo com todo o acúmulo de inconvenientes. Foi constatado que ele não tem um pós-doutorado que havia sido declarado, porque ele foi registrado por engano. E, o que é mais grave, o "ilustre jurista" também é acusado de plagiar, em seus livros, um teórico espanhol, Francisco Rubio Llorente.

Isso lembra Francisco Cândido Xavier. Ele havia plagiado trechos de várias obras literárias. Em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, um livro pretensamente de "História e de Espiritualidade", há um capítulo que copiou um outro inteiro de um livro, pasmem, cômico, O Brasil Anedótico, que o alegado autor Humberto de Campos - que nunca escreveria as barbaridades que atribuem à sua autoria espiritual - havia produzido em vida.

Chico Xavier, sabemos, fez o que queria. De um pastichador de livros - tarefa que ele não fazia sozinho, mas com uma equipe de editores e redatores da FEB - , ele virou algo perto de um Deus, um "dono da verdade" e um "proprietário do Brasil". Seus defensores fazem o possível para manter ele no pedestal, ainda que haja desentendimentos mil, como uns achando que ele era profeta e outros pensando que ele era reencarnação de Allan Kardec (o que é um absurdo sem tamanho).

Ele fez o que queria porque gozava de prestígio religioso. Era um beato católico ortodoxo - sim, Chico era devoto da Igreja Católica Apostólica Romana, rezador de terços, adorador de imagens, rigoroso espectador de missas católicas - e entrou no Espiritismo pela porta dos fundos, graças a uma ajudinha do presidente da FEB, Antônio Wantuil de Freitas.

A ascensão de Chico Xavier tornou-se tão descontrolada que hoje é um mito gigantesco no qual se torna difícil questionar. Ele poderia não entender de Espiritismo e sua mediunidade teria sido mais limitada do que muitos acreditam, mas ele entendia de hipnose e de técnicas de manipulação da mente, sendo habilidoso na técnica da falácia chamada Ad Passiones, ou "apelo à emoção".

No Ad Passiones, usa-se todo tipo de apelo emocional para seduzir a opinião pública. É uma tática de controle mental mais perigosa que a coerção, porque pode dominar o inconsciente. Chico Xavier foi um praticante de estratégias como o vitimismo ou coitadismo, reagindo em silêncio e com poses e depoimentos de tristeza quando era duramente questionado.

Graças a isso, o Espiritismo foi empastelado no Brasil. O legado que Kardec concebeu com muito trabalho e dor - seus últimos livros foram escritos quando ele sofria de aneurisma - foi simplesmente desmoralizado, reduzido, no Brasil, a um sub-catolicismo marcado pela permissividade e por uma falsa imagem de filantropia, feita mais para ajudar o benfeitor do que o povo carente.

Aí, faz-se o que bem entender. Se você é um novelista ruim, não mande seu roteiro para a televisão, mas adapte suas novelas medíocres com alguma temática sobrenatural, preencha as páginas com alguma lição moralista, use um mero prenome ou nome composto para um suposto espírito (Verônica ou Pedro Lúcio, por exemplo), e vai vender como água. Se disser que o lucro do livro será "para a caridade", melhor ainda. Blindagem na certa.

Da mesma forma, se plagiar e realizar pastiches literários ou falsificar quadros imitando (e muito mal) os estilos de vários pintores mortos, basta correr para adquirir uma casa velha, botar uns pobres dentro e sair por aí fazendo palestras com palavras bonitas sobre família, amor e compaixão, dentro daquele igrejismo que conhecemos e, pronto. Ninguém mexe com quem fizer tudo isso. Os juízes só chegarão perto de você só para lhe dar um abraço e pedir um livro autografado.

OS VALENTÕES DIGITAIS

Se você tem dinheiro, fama, poder político, poder de liderança em geral, porte de arma, prestígio religioso, diplomas, etc etc, você acha que faz o que quer. As elites surtaram e hoje despejam seus piores preconceitos sociais, sob os quais não medem escrúpulos em cometer crimes graves. Há poucos dias, um publicitário, ex-militar e saudosista da ditadura militar matou a filha só por causa de discussões tolas sobre herança.

O pior é que existe a ilusão da impunidade, da imunidade e, o que é pior, a ilusão de que tais pessoas podem cometer abusos e se manter em popularidade. Se você é do tipo que falsifica quadros e plagia livros e corre para um "abrigo institucional" da religião "espírita", ninguém mexe com você e, quando há um escândalo, nada que um Ad Passiones não possa resolver. A carteirada religiosa ainda arranca lágrimas de muita gente e cala a boca de muito questionador de vontade mais débil.

Até quando se tira a vida de alguém a pessoa que acha que pode fazer o que quer a ponto de homicidas ricos acharem que não podem adoecer pela forte pressão dos efeitos de seus atos. Acham que podem não só ficarem impunes como se acham no direito de uma vida "cor-de-rosa".

Acham que suas vítimas podem morrer até na mais tenra juventude, mas se revoltam quando um médico lhes alerta do risco de morrerem de repente antes dos 60 anos. Não querem morrer sequer antes dos 90! E, quando não há jeito, suas mortes não podem ser reportadas pela imprensa.

O egoísmo humano ou as demais ilusões que vão do luxo da alta sociedade à falsa modéstia do prestígio religioso - tão perigoso por direcionar a vaidade humana aos "tesouros do céu", desejando avidamente não o luxo terreno, mas as extravagâncias no "porvir" - consistem no espírito do tempo que faz com que valentões usem a Internet para intimidar e desmoralizar os outros.

Troleiros, hackers e cyberbullies, ou mesmo falsos denunciadores - que primeiro criam um fake para cometer atrocidades sob o nome da vítima para depois denunciá-la como se fosse um "delinquente digital" - constituem o cenário de horror que reside nas redes sociais e transforma computadores e telefones celulares em "terras sem lei".

Recebemos denúncias de gente sendo vitimada por blogs de ofensas e calúnias. Há até um feito por um busólogo da Baixada Fluminense que, dizem, foi criar uma página de "comentários críticos" para se vingar de uma abortada ascensão política, porque o cara fazia um curso de Informática para jovens carentes.

O valentão copiava os textos e fotos de suas vítimas e, para cada parágrafo, fazia um "comentário crítico", ao mesmo tempo jocoso e ofensivo. Quando era contrariado, ele ainda ia para redes sociais, fóruns e até petições de Internet, para despejar comentários ainda mais agressivos. Ele tinha um aliado mais jovem que fazia fakes personificando o mesmo tipo de "tarado gay".

O valentão dos "comentários críticos" ainda ia para a cidade dos outros fazer ameaças, a pretexto de tirar fotos para sua página pessoal (quando ele assumia a identidade de um "equilibrado" busólogo). Ele não encontrava os desafetos, mas era observado de longe por milicianos que controlam serviços de vans e que faziam ponto num estacionamento próximo ao terminal rodoviário.

Mas se o valentão era observado por gente da pesada, sua página de horrores era também denunciada pelo SaferNet, página na Internet que recebe denúncias de crimes virtuais. O valentão atualiza sua página, capricha nos comentários mais "picantes", e, dentro de seu quartinho não sabe que suas páginas estão sendo lidas por funcionários da Polícia Federal, que não raro têm até o Protocolo de Internet (registro digital do computador usado pelo internauta) do valentão.

Muitos valentões das redes sociais ou da blogosfera têm suas páginas ofensivas com algum registro policial. Isso é fato. Mas não é qualquer um que pode alertar os brutamontes eletrônicos sobre isso, já que a resposta que estes dão é "KKKKKKKKK" e, irritados com o alerta, são capazes de atualizar os blogs com mensagens ainda mais ofensivas e ameaçadoras.

Vivemos uma época em que a Justiça começa a aprender essa nova realidade, de que o status quo dominante não é garantia de imunidade, impunidade e prestígio. É claro que temos estruturas sociais velhas e os chamados privilegiados de toda ordem, do dinheiro à religião, passando pela fama ou até pelo prestígio "doméstico" da turma de amigos ou apreciadores de um hobby, estão demonstrando visões cada vez mais reacionárias, violentas e socialmente preconceituosas.

Desde que o feminicídio foi considerado crime hediondo e até o "espiritismo" brasileiro foi pivô de um crime de recusar atendimento a uma vítima de estupro, fatos diversos desafiam a compreensão de juristas e outros especialistas sobre os abusos humanos protegidos por alguma vantagem social.

Até mesmo na Justiça se observa uma atuação irregular, tendenciosa e nem sempre benéfica à sociedade. Permite-se que o presidente da República, Michel Temer, lance propostas que ameaçam gravemente os direitos sociais dos brasileiros, tão trabalhosamente adquiridos. E isso num país em que a maior corporação de Comunicação, as Organizações Globo, são controladas por irmãos sonegadores de impostos e donos de fortunas descomunais.

O maior desafio no Brasil é se desapegar das antigas condescendências movidas pelas conveniências sociais e adquirir coragem para, se preciso, punir ou limitar os privilégios de pessoas consideradas "admiráveis". Derrubar totens é algo que muitos sentem dificuldade, sobretudo quando é um parceiro de hobby, o "maioral da turma" ou o ídolo religioso de práticas cheias de irregularidades.

Fazer uma grande revisão de valores e deixar de lado a aura divinizada dos privilegiados da Terra é um imperativo que juristas e outros especialistas devem assumir, mesmo que seja sob o preço de derrubar totens antes vistos como sagrados ou pessoas antes vistas como "legais". Não se pode considerar pessoas com tais qualidades se elas cometem abusos que vão contra a ética, o bom senso, a lógica humana, a coerência e, sobretudo, o respeito humano.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Brasil está em séria crise, e isso não é uma piada


Que as pessoas até sentissem raiva só por ver Lula e Dilma Rousseff na tela da TV ou numa página de jornal, isso é compreensível. Que o pessoal não aguentasse 14 anos de PT no poder, vá lá, talvez não esteja preparado para um projeto político como esse.

Mas ficar despreocupado e feliz diante de um governo caótico que se sucedeu ao impeachment de Dilma é inadmissível. Desde maio de 2016, quando o insosso vice-presidente Michel Temer assumiu o mandato, houve uma série infinita e trágica de confusões, recuos, escândalos de corrupção, arbitrariedades, covardias, retrocessos políticos, crises econômicas e tantas ameaças.

Era para o Brasil estar uma situação de calamidade pública. E está mesmo. Mas a Rede Globo não noticia isso. Não vira primeira página de Veja. Não vira postagem com mais curtidas do Facebook. Não impulsiona uma parcela de brasileiros para as passeatas com camisas verde-amarelas.

Enquanto o governo Temer se marcava por uma série de incidentes graves como este, as pessoas iam para as praias e praças jogar conversa fora, rir despreocupadamente, fazer suas compras e rir até do aumento de preços. "Ih, está caro! Mas é isso mesmo!", diz a pessoa, tranquila, e compra o produto assim mesmo.

Jovens que poderiam reagir em passeatas - até existem os que fazem isso, mas de repente até isso se esfriou - vão jogar vôlei, caçar borboletas e, agora, bichinhos do Pokemon, e quando leem os jornais sobre mais um escândalo do governo Temer, ficam rindo como se não fossem escândalos políticos, mas demonstrações de senso de humor, como se a política fosse um programa humorístico de TV.

A situação está terrível e, sobretudo no Estado do Rio de Janeiro, existe uma figura típica daquele cidadão que lê as barbaridades que ocorrem no local e, de um jeito esnobe, fica dizendo para qualquer transeunte: "Mas não tem jeito mesmo o Rio, hein?". E depois volta para casa viver sua vidinha confortável de quem não se sente atingido pelos problemas.

Os escândalos, no plano nacional, também causam a mesma reação. Só que o Brasil não é uma versão ao vivo do A Praça é Nossa. O que vemos são casos de corrupção e outras atrocidades - como a terrível medida de limitar os gastos públicos - , envolvendo nomeação de políticos lenhados em cargos importantes do governo, além da catástrofe de pôr o terrível Alexandre de Moraes para ser ministro do Supremo Tribunal Federal, algo que, espera-se, nunca aconteça.

Isso porque o currículo de Alexandre de Moraes é extremamente calamitoso. Há até mesmo acusações de plágio em seus livros - o "espiritismo" já mostra caso semelhante, sobretudo com o "iluminado" Chico Xavier, ele mesmo uma coleção de irregularidades - , além de outros casos como a repressão aos movimentos sociais, práticas de corrupção e outras coisas de arrepiar.

O grande perigo de ter um sujeito desses no STF é porque a instância máxima do Poder Judiciário, que já está maculada por figuras como Gilmar Mendes, pode botar tudo a perder. Teremos que aguentar Alexandre de Moraes por cerca de 30 anos, ganhando um rio de dinheiro, gozando de foro privilegiado e imunidades mil, gozando de privilégios que, para um brasileiro médio, seria um sonho de contos de fadas.

E ninguém faz passeata, ninguém bate panela quando vê aquele sósia do Lex Luthor - que parece bonzinho diante do "ilustre jurista", que carrega um semblante bastante agressivo - , e o pessoal vai postar nas redes sociais foto de bichinho, de pesca ao lado do titio, de bolo de aniversário, de receita de comida, poeminhas, passarinhos, pôr-do-sol etc.

Caramba, e é o mesmo pessoal que espumava de raiva só de ver Lula! Eles reviveram esse momento quando, na cerimônia de cremação do corpo da ex-primeira-dama Marisa Letícia, não suportavam sequer ver Lula chorando, no seu direito de ser humano de manifestar seus prantos quando morre um ente querido.

Ao verem que Lula, depois, fez um discurso, as pessoas se espumaram de raiva. e houve até gente manifestando profundo rancor, até uma Luana Piovani dizendo que o ex-presidente "fez draminha". Isso como se não bastasse gente comemorando a morte de dona Marisa, na maior insensibilidade.

Já basta fazerem oposição ao PT. Se isso fosse feito dentro dos níveis respeitosos, seria até saudável e naturalmente democrático. Mas a onda de calúnias e difamações que os anti-petistas fizeram e fazem, da maneira mais doentia possível, chega a causar preocupação não só quando neste caso, quando eles fazem o que não devem, mas no atual contexto político, em que eles não fazem o que devem.

Para quem vomita rancor só quando vê o rosto de Lula, pelo menos poderia contribuir para barrar o acesso de Alexandre de Moraes ao STF. Fazer passeatas, ocupar as avenidas, soltar panelaços, soprar vuvuzelas etc. Ninguém faz. E, se um brutamontes desses entra no STF e lá permanece por cerca de três décadas, o pessoal deveria agitar para que tudo seja impedido para tal finalidade.

As nomeações de ministros "inundados até o topo da cabeça" em denúncias de corrupção para cargos estratégicos do governo Michel Temer já era coisa de arrepiar os cabelos e botar as pessoas para irem às ruas com auto-falantes despejando protesto contra todos eles. E não é para defender a substituição deles por alguém mais autoritário, porque isso pode botar o Brasil a perder.

Temos que levar a sério o problema quando vemos pessoas como Geddel Vieira Lima, Romero Jucá, Wellington Moreira Franco, Eliseu Padilha e Aécio Neves como homens de confiança do governo Temer. Assim como a ida de Alexandre de Moraes ao STF, na qual os religiosos deveriam apelar até para Deus colocar uma barreira no Supremo a um sujeito desses. Problemas com essa gente são gravíssimos e não devem ser visto como coisa sem importância ou uma piadinha qualquer.

E não se pode também defender políticos autoritários. É um horror ver que, nas redes sociais, há mensagens de pessoas que preferem exército nas ruas do que o povo debatendo leis, esquecendo o grande mal que foi a ditadura militar, fase política que envergonha até mesmo as Forças Armadas e que fez o Brasil afundar numa violenta crise econômica. Defender aventureiros políticos é extremamente perigoso e nocivo para o país.

Só para se ter uma ideia, vazou uma gravação de uma imagem de mensagens em que o "herói" dos reacionários extremistas, Jair Bolsonaro, discute com seu filho Eduardo, com trocas de grosserias e com o jovem ainda chamando de "m****" o irmão Renan, também filho do "grande brasileiro". Jair também tem histórico de corrupção, pois seu patrimônio é bem maior do que seu "jeito simples" que empolga os midiotas sugere.

As pessoas deveriam pelo menos prestar atenção no que foi a ditadura militar, ou prestar atenção no que é a atividade do Judiciário e do Ministério Público hoje. Uma figura irregular como o juiz Sérgio Moro, que prefere as conveniências do jogo de interesses do que o respeito rigoroso à lei, só consegue deixar o meio jurídico bastante vulnerável.

Mas para quem aceita que pastichador de obras literárias use a Doutrina Espírita para virar um semi-deus, vale tudo. Só não vale petista no poder. Tudo bem que as pessoas não queiram o PT no governo, mas pelo menos honrem seu ódio à corrupção, a ponto de dar ao Alexandre de Moraes uma grande frustração em sua carreira de advogado, barrando-lhe o acesso ao STF.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Supremo Tribunal Federal não merece Alexandre de Moraes

UMA DAS OBRAS DE ALEXANDRE DE MORAES - Reprimir manifestações contra a arbitrariedade e os abusos do poder político.

Que ninguém aceite o nome de Alexandre de Moraes como ministro do Supremo Tribunal Federal. Entidade máxima do Poder Judiciário, o STF será prejudicado com a presença de um jurista de atuação não só irregular, mas completamente maléfica para o Brasil.

As pessoas tem que entender a nomeação de hoje como uma catástrofe para o país, como um sério prejuízo às leis e à normalidade democrática nacional. Se caso, depois da edição deste texto, ele for escolhido, que tudo seja feito para retirá-lo do cargo. Se houve pressão para tirar Dilma Rousseff do poder, seria melhor que também se tirasse Alexandre de Moraes do STF de qualquer maneira.

Onde estão os manifestantes, as pessoas nas ruas? Cadê as pessoas com camisa verde-amarela para protestar contra uma indicação destas? Será que as pessoas não se preocupam com a catástrofe? Alexandre de Moraes nem era para ser ministro da Justiça, quanto mais ministro do Supremo Tribunal Federal, considerado instituição máxima do Judiciário!

A atuação de Alexandre de Moraes foi um risco para o país, seja como secretário de Segurança Pública do governo de Geraldo Alckmin, seja como ministro da Justiça desse calamitoso governo de Michel Temer.

Moraes já tem em seu currículo acusações de ter defendido o PCC, como advogado. Ele mandou reprimir violentamente manifestações estudantis, a ponto de deixar manifestantes seriamente feridos e com sequelas graves. Ele advogou até para o ex-deputado Eduardo Cunha, algo que deveria botar as pessoas para fazer passeatas em todo o país!!

Moraes, tendencioso, participou de um comício de um candidato do PSDB a uma prefeitura paulista, e disse, fazendo gracinha, que viria "mais Lava Jato" nos dias seguintes. Um rival do candidato, o ex-ministro de Lula, Antônio Palocci, foi preso. A atitude de Moraes foi considerada ilegal e inconveniente e quase pôs sua situação a perder. Apenas as conveniências políticas garantiram a permanência do ministro, que tinha tudo para ser expulso do cargo.

Moraes também não se interessou a mandar tropas federais para conter uma rebelião de presos em Roraima. Uma prefeita de Roraima, do partido da base aliada do governo Temer, o PP, pediu o envio de tropas e Moraes recusou. Resultado: uma chacina ocorreu no local, matando detentos de menor periculosidade, sem envolvimento com facções e cumprindo prisão provisória.

O perfil de Alexandre de Moraes não tem a isenção necessária para assumir um posto do Supremo Tribunal Federal. Ele que seja um jurista atuando no ostracismo. Quando muito, como um professor universitário, embora já seja demais. O mais irônico é que o próprio Alexandre de Moraes defende uma tese em seus livros de Direito que ocupantes de cargos de confiança não podem ocupar funções no Supremo Tribunal Federal.

O Brasil já enfrentou retrocessos demais para encarar uma cilada dessas. Já foi aprovada a PEC que limita os gastos públicos, está em andamento a venda de nossas riquezas para estrangeiros, as reformas trabalhista e previdenciária irão desfazer históricas conquistas sociais e há um lobby para elas serem aprovadas.

Pior: já morreu a ex-primeira-dama Marisa Letícia, pressionada por calúnias contra ela e sua família, sobretudo o marido Lula, resultante do abuso irresponsável e truculento do direito de se opor ao PT, que seria até saudável se fosse evitada toda essa campanha de ódio e calúnias.

Que algo seja feito para impedir que Alexandre de Moraes assuma o cargo de ministro do STF, na vaga do falecido Teori Zavascki. Que tudo seja feito para o STF ser uma instituição completamente distante da vida desse jurista e que tudo fosse feito para o cargo escapar de suas mãos. Pedimos à presidente do STF, Carmen Lúcia, prudência e que impeça a entrada de um sujeito nesses no órgão. Temer não é dono do Brasil!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Morte de Marisa Letícia: fruto do azar?


Sem querer aqui dar conclusões sobre qualquer coisa, mas é estranho que tantas tragédias ocorram depois do contato com o "espiritismo" brasileiro, de uma forma ou de outra. A morte de Marisa Letícia Lula da Silva, mulher do ex-presidente Lula, é um episódio que sugere também esse mau agouro "espírita".

Marisa Letícia parecia estar estável e com o acidente vascular cerebral aparentemente sob controle. De repente, o "médium" João Teixeira de Faria, o João de Deus, foi ao Hospital Sírio-Libanês (onde ele foi operado para extrair um câncer), em São Paulo, para "fazer orações" pela ex-primeira-dama. Dias depois, o estado dela piorou e hoje foi anunciada morte cerebral.

Embora muita gente reclame das acusações de que o "espiritismo" traz azar, o que, à primeira vista, pode soar "injusto" e "cruel demais", é indispensável lembrar da natureza contraditória e falha da doutrina brasileira, que por suas escolhas tornou-se a religião mais desonesta da História do Brasil.

Temos que, neste caso, abrir mão de qualquer paixão religiosa, esquecer toda aquela propaganda enganosa de "caridade", até porque ela fascina, encanta e comove, mas pouco realizou em termos de ajuda, ajudando muito mais o ídolo religioso que festeja demais com filantropia de menos.

O "espiritismo" brasileiro surgiu deturpando o legado de Allan Kardec. Optou pela visão igrejeira e medieval de Jean-Baptiste Roustaing, por estar de acordo com as paixões religiosas que até hoje conduzem o que os incautos chamam de "kardecismo" (termo que, na prática, mais parece pejorativo em relação ao professor lionês).

A "opção" pelas bases doutrinárias de Allan Kardec foi só um artifício marcado pelo jogo de interesses que se evidenciou em meados da década de 1970, com o falecimento de Antônio Wantuil de Freitas, ex-presidente da FEB que colocava o roustanguismo em "bons termos" e coordenava seu abrasileiramento pela obra de Francisco Cândido Xavier.

Sem Wantuil, o elo que ligava o alto clero da FEB - de atuação centralizada e postura assumidamente roustanguista - e as federações regionais (das quais se destacavam o mineiro Chico Xavier e o baiano Divaldo Franco) se rompeu e os "regionalistas" resolveram, apenas por uma mera formalidade, adotarem o nome de Allan Kardec para se contrapor à opção dos dirigentes da FEB por Roustaing.

E foi aí que a deturpação "espírita", juntamente com a "mediunidade" de faz-de-conta - a Justiça ignorou que o caso Humberto de Campos revelava que o que foi feito por Chico Xavier foi uma fraude, pelas contradições graves entre a obra de Humberto publicada em vida e sua suposta obra espiritual - , passou a assumir uma desonestidade doutrinária muitíssimo grave.

Isso porque, nos últimos 40 anos, os "espíritas" se encanaram em fingir que "respeitam rigorosamente" e que são "absolutamente fiéis" à obra de Kardec, enquanto continuavam mantendo práticas e valores que contrariavam frontalmente e de forma bastante chocante o legado do professor lionês.

Daí que a partir dos anos 70, o "espiritismo" ficou mais "popular", porém ficou mais desonesto. Antes ficasse com seu roustanguismo e se assumisse medieval. Em vez disso, os "espíritas" preferiram adotar uma postura "dúbia", defendendo o legado kardeciano no discurso e exaltando o igrejismo roustanguista na prática.

Enquanto bajulam Erasto, que havia dito que era melhor rejeitar dez verdades do que aceitar uma única mentira, aceitam a mentira chamada Chico Xavier, que de pastichador de livros virou um quase deus de "mil e uma qualidades" (quase todas inexistentes, diga-se de passagem).

Enquanto evocam, de maneira pedante, fatos e personalidades científicos em publicações e eventos ligados ao "movimento espírita", se exaltam os romances "espíritas" e toda a propaganda de "superação pessoal" que o "espiritismo" traz baseado na Teologia do Sofrimento.

Daí o mau agouro que se faz. Seguindo o caminho inverso de Allan Kardec, que partiu das brincadeiras "espirituais" da tábua Ouija e das mesas girantes para estudar o Espiritismo, os "espíritas" usaram as ideias de Kardec para rebaixá-las em práticas duvidosas e invigilantes - até de parte de "médiuns tarimbados", que já se corrompem movidos pelo "culto à personalidade" - , nivelando a "mediunidade" ao vale-tudo do ocultismo Ouija ou do faz-de-conta igrejista.

Há casos que indicam azar no contato com o "espiritismo". Foi Juscelino Kubitschek conceder à FEB o título de "organização de utilidade pública" e dar toda a consideração a Chico Xavier para o político contrair uma "maré de azar" que o impediu de tudo: ser novamente presidente da República, entrar na Academia Brasileira de Letras etc. E ainda foi exposto para sofrer uma tragédia que foi um estranho acidente automobilístico.

O ator José Wilker, ateu, que não parecia morrer relativamente cedo, foi procurar um "centro espírita" para fazer consulta sobre uma possível cirurgia espiritual. Pouco depois, sofreu um infarto fulminante numa noite, em abril de 2014.

Pessoas comuns também reclamam muito de terem contraído azar após obter tratamentos espirituais. Teve rapaz até que reclamou de que o "espiritismo", que tanto condena o "sensualismo", lhe deu azar porque, depois de um tratamento espiritual, só conquistava "periguetes", sem qualquer motivação plausível e sem um pingo de afinidade ou identificação espiritual, uma "atração" que ele exercia de mulheres que ele repudiava por não ter o menor interesse em tê-las.

Os "espíritas" vão dizer que, no caso de Marisa Letícia e José Wilker, eles fumaram demais. Tudo bem, eles fumaram. Mas, por outro lado, Doca Street também fumou demais, e, no passado, ainda consumiu cocaína, e "chegou inteiro" aos 72 anos em 2006, mesmo provavelmente "carregando" um câncer que lhe custou uma fracassada doação de um rim a um sobrinho que não resistiu ao implante. Dona Marisa e Wilker morreram sem chegar aos 70 anos de idade.

É certo, também, que a campanha midiática caluniosa, que violentava Lula e seus entes o tempo todo e permitia uma impune publicação de mentiras no YouTube, com o ex-presidente acusado de atrocidades que ele nunca cometeria, atingiu Marisa, que ficou angustiada, atormentada, deprimida e, em certas vezes, irritada com tal campanha.

Mas não há como desconfiar da mudança brusca que ocorreu, quando Marisa, que parecia ter um quadro de saúde estável com chances de recuperação (ela chegou a ter sedativos suspensos), ter se agravado da noite para o dia depois que recebeu orações do "médium" João de Deus. Mesmo que ele tenha feito aparentemente na melhor das intenções, ele serve uma doutrina dominada por energias maléficas, pelos motivos acima apresentados.

Essas energias podem vir sem querer, mas partem de espíritos maléficos que praticamente "governam" o "espiritismo", atraídos pela deturpação e por toda desonestidade doutrinária. Por isso é que o "espiritismo" dá azar, porque ele finge tudo: apreciar Allan Kardec, valorizar a Ciência e a Filosofia, praticar mediunidade. Nada disso é feito pelos "espíritas", que, ainda assim, mentem e afirmam fazer o que nunca fazem. É isso que sempre trouxe azar pelas energias "espíritas".

sábado, 28 de janeiro de 2017

Marisa Letícia, "espíritas" e SUS


Existe um grande debate sobre internações em hospitais públicos, autocirurgias etc. Uma série de polêmicas pode complicar as coisas se não fizermos as devidas observações, sobretudo por causa de um episódio ocorrido há poucos dias.

Na última terça-feira, a ex-primeira-dama, Marisa Letícia, esposa do ex-presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), Atualmente está internada em coma induzido no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, o que causou violentos protestos na Internet.

Marisa já estava estressada por causa das pressões que o marido recebe na Internet. Se no "espiritismo" um deturpador da pior espécie como Francisco Cândido Xavier é "santificado" e transformado em "profeta", "filósofo", "cientista" etc por um lobby combinado de contas no YouTube e no Facebook, Lula é, sob as mesmas condições, tratado como "bandido" e levianamente acusado até de ser "mandante de assassinatos".

Lula é a pessoa mais odiada do país, por fazer um bem às pessoas. Seu governo valorizou o emprego, a educação e a qualidade de vida, com suas imperfeições, é verdade, mas com intenção de acertar. Muito diferente de um ultraconservador Chico Xavier, que defendeu a ditadura militar e a "doce censura" do silêncio no sofrimento, e ganhou, de graça e sem motivo lógico, a pecha de "progressista".

Com isso, Marisa também foi bombardeada de ataques, de gente querendo que ela morresse na fila do SUS, como se seu marido e sua sucessora Dilma Rousseff tivessem sucateado o sistema. Bem oportuna a observação trazida pelo jornalista Eduardo Guimarães:

"De alguns anos para cá, o ex-presidente Lula e a ex-presidente Dilma Rousseff tiveram cânceres e, agora, a esposa do ex-presidente, dona Marisa Letícia, foi vitimada pelo AVC. Nem Lula nem Dilma fundaram o SUS nem tampouco são responsáveis pelos problemas de atendimento que possa haver na rede pública de saúde brasileira, mas ao adoecerem com tanta gravidade receberam ataques que nenhum outro presidente recebeu ao adoecer e ter que se tratar em hospitais.

Por exemplo: ano passado, em julho, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso descobriu que tinha um problema cardíaco e teria que usar um marca-passo. Foi internado no Hospital do Coração, em São Paulo, para realizar o procedimento. Nenhum dos subumanos que atacaram Lula, Dilma e dona Marisa exigiram que ele se tratasse no SUS. Por quê?".

Na verdade, quando autoridades progressistas tentam fortalecer os serviços públicos de Educação e Saúde, eles sofrem pressões contrárias diversas. É navegar na maré contrária do mercado, pois existem empresários que exploram os dois setores que não aguentam ver a concorrência forte do setor público. Daí que eles pressionam para sabotar o SUS e impedir que ele atinja padrões de Primeiro Mundo. Sob Lula, o SUS deu seus avanços, mas essas pressões ainda assim criaram dificuldades.


O mais irônico disso, e que não é de conhecimento dos reaças digitais, é que o Hospital Sírio-Libanês, sob o governo Lula, estabeleceu parcerias com o Sistema Único de Saúde no atendimento de pacientes com câncer, o que aproxima o hospital onde Marisa está internada, em estado estável até o momento, do contexto do referido sistema.

É fácil cobrar de políticos como Lula e Marisa ou Dilma ou outro similar que se internem em hospitais públicos para ver a dificuldade. Mas difícil é cobrar quando o contexto não justifica que certas pessoas recorram a atendimentos hospitalares para tratar de doenças graves.

O "médium" João Teixeira de Faria, o João de Deus, que recentemente ganhou de presente da Rede Globo uma tendenciosa visita "de agradecimento" da atriz Camila Pitanga - que é ateia, ótimo recurso para propaganda da conversão dos ateus, "cobiçados" pelo "movimento espírita" - , é um desses exemplos.

Ele é festejado pela sua suposta habilidade em realizar operações "mediúnicas", muitas vezes diante de um público na sua "casa espírita" em Abadiânia, Goiás, aparentemente tratando de doenças complicadas como o câncer. É curioso que "médiuns" assim não estejam associados a curas de supostas paralisias corporais. Até agora não se viu um "médium" desses fazer um tetraplégico ou paraplégico "voltarem a andar". "Episódios" assim, se "há", parecem raros.

João de Deus havia tido um câncer e, em vez de recorrer à auto-cirurgia - ele nem deve ter conhecido o caso corajoso do dr. Leonid Rogozov, médico russo que se auto-operou numa base na Antártida, em processo arriscado de cirurgia de apendicite, em 1961 - , foi para um hospital de renome, vejam só, o mesmo Sírio-Libanês que acabamos de citar, em São Paulo.

"Barbeiro corta o próprio cabelo?" tentou se desculpar o "médium", quando decidiu recorrer a outro hospital para fazer cirurgia "ao modo da Terra". Isso em si já cria uma desconfiança do trabalho de João de Deus, que ao menos deveria ter evocado o espírito do dr. Rogozov, morto pelas doenças da velhice em 2000, para lhe ajudar na auto-cirurgia.

Isso revela uma grande irregularidade. Os "médiuns" do "movimento espírita", tão festejados pela grande mídia e tidos tendenciosamente como  "símbolos de caridade e amor ao próximo" - como se fosse preciso ser religioso para praticar bondade, o que é um absurdo - ,sempre apresentam um problema sério em seus trabalhos.

Daí que há motivo para Marisa Letícia recorrer não ao SUS, mas a um hospital de renome, para se tratar do AVC que sofreu (e do qual a Rede Globo tem parte de responsabilidade, pois dona Marisa se estressava com a campanha difamatória contra seu marido, comandada pela rede televisiva). O SUS não consegue atingir o padrão ideal porque os mercadores da Saúde privada - com seus médicos colecionando trajes de gala pagos por seus pacientes - não deixam.

Mas muitos aceitam quando João de Deus, por sinal apoiado por essa mesma mídia reacionária - recebeu cobertura da Rede Globo e virou capa de Veja - , recusa-se a fazer auto-cirurgia (com as condições bem menos dramáticas que as que o dr. Rogozov enfrentou). Ser "espírita" garante todo tipo de blindagem. Deturpar o legado de Allan Kardec no Brasil foi moleza.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Nomear Alexandre de Moraes ministro do STF será uma CATÁSTROFE


Diante do falecimento recente, em um acidente aéreo na sexta-feira chuvosa em Parati, litoral Sul fluminense, do ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, criou-se uma situação delicada para a Operação Lava Jato, que teve seus trabalhos interrompidos com a morte repentina de seu relator.

É um incidente que cria um consenso entre esquerdistas e direitistas na constatação de que seus trabalhos foram comprometidos e tarefas como a homologação das delações premiadas da Odebrecht e a investigação das irregularidades da campanha eleitoral de 2014 da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer terão que ser adiadas.

Já se discute quem vai ser o sucessor de Teori Zavascki, seja como ministro do STF ou como relator da Lava Jato. As duas funções podem não ser desempenhadas pela mesma pessoa. Tomados de paixonite midiática crônica, os midiotas que veem Rede Globo e Globo News e leem Veja, Época e Isto É torciam para colocar o juiz Sérgio Moro em uma das duas funções vagas, a de ministro e relator.

Um dos nomes cotados, todavia, revela uma grande ameaça. Fala-se em escolher não um homem ligado ao ministro da Justiça do governo Michel Temer, Alexandre de Moraes, mas ele próprio. Isso é algo que nenhum cidadão, independente de ideologias, deveria aceitar. Promover Alexandre de Moraes ministro do STF é uma CATÁSTROFE que nem sequer poderia ser cogitada, pelo histórico sombrio de uma figura dessas.

Alexandre de Moraes já deveria até ter saído do Ministério da Justiça, substituído por José Mariano Beltrame, um nome mais ponderado dentro do contexto político do governo Temer. Moraes tem fama de falastrão e truculento, e não tem um mérito sequer para assumir o STF, em cargo que será vitalício e dotado de grandes privilégios.

Moraes é acusado de advogar para uma cooperativa de vans de São Paulo cujos membros têm relações com o PCC (Primeiro Comando da Capital), grupo criminoso envolvido em várias rebeliões com chacinas, em presídios de quatro Estados brasileiros (Maranhão, Amazonas, Roraima e Rio Grande do Norte). Dizem que isso pesou na recusa de Moraes de mandar tropas federais para conter as rebeliões.

Outro aspecto sombrio é que Moraes tem atuação repressiva e autoritária. O semblante já mostra um homem extremamente duro, um brutamontes, como se vê na foto que ilustra esta postagem. Como Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, na gestão de seu padrinho político Geraldo Alckmin, Alexandre de Moraes mandou a polícia reprimir manifestações estudantis com gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral.

Os estudantes haviam protestado contra a reforma educacional de Alckmin, que queria fechar várias escolas públicas. Era o que o governador paulista definiu como "reestruturação da educação pública", sutilmente favorecendo empresários como João Carlos di Gênio, dono do colégio Objetivo e da Universidade Paulista. Os alunos faziam ocupações em escolas e passeatas.

A situação se repetiu com o governo Temer e os estudantes também fizeram ocupações desde quando o Ministério da Cultura teve sua extinção anunciada, e depois revertida. E o que se viu foi o mesmo método truculento que Alexandre de Moraes adotou em São Paulo, reprimindo violentamente os protestos.

Em Brasília, na época da votação da PEC dos Gastos Públicos, também houve intenso protesto de movimentos estudantis e sindicais em frente à Câmara dos Deputados e a polícia de Moraes agiu com muita truculência, despejando bombas de efeito moral sobre os manifestantes, vários deles detidos pela ação policial.

Um sujeito como o ministro Alexandre de Moraes era para ser tirado do Ministério da Justiça, depois que foi revelado que ele se recusou a mandar tropas para controlar as rebeliões num presídio em Roraima. Poderia ter prevenido a onda de chacinas, mas se omitiu e ainda falou mentira ao alegar que "não recebeu" pedido da governadora de Roraima para envio de tropas em caráter de urgência.

Um sujeito como Alexandre de Moraes era para viver no ostracismo político, fora da equipe do governo Temer. A sua entrada no Supremo Tribunal Federal será um desastre para o país, com uma figura truculenta na alta elite do Poder Judiciário. O Brasil não merece mais um suplício destes.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Propagandista de Chico Xavier, família Marinho está na lista de mais ricos do país


Delícia promover a reputação supostamente inabalável de um deturpador da Doutrina Espírita como Francisco Cândido Xavier. As Organizações Globo (Rede Globo, O Globo, Época, Globo News) é propriedade dos irmãos Marinho, que estão no grupo seleto dos oito brasileiros mais ricos do mundo.

Numa lista que inclui nada menos do que três sócios da Ambev, uma das maiores empresas fabricantes de cerveja no Brasil, os irmãos João Roberto, José Roberto e Roberto Irineu, filhos do "lendário" Roberto Marinho, somam, juntos, cerca de R$ 41,8 bilhões, cerca de um sétimo da fortuna total dos oito maiores bilionários do Brasil: R$ 285,8 bilhões.

Sabe-se que a Rede Globo foi a maior propagandista de Chico Xavier e outros deturpadores da Doutrina Espírita no Brasil. As Organizações Globo superaram a antiga animosidade em relação ao anti-médium e resolveram reinventar seu mito religioso, baseado no que o inglês Malcolm Muggeridge fez com Madre Teresa de Calcutá.

Para entender esta história, vamos voltar ao tempo. As relações de Chico Xavier com as Organizações Globo tiveram três fases. A primeira, a de nível sensacionalista, quando o "médium" era visto como uma figura pitoresca, um católico paranormal que dizia falar com os mortos.

É desta fase a publicação, em 1935, de uma foto com Chico Xavier olhando de frente, que mostra um semblante bastante assustador e pesado. Dizem que ele estava "incorporando" alguém. A energia pesada e assustadora contradiz com a imagem "purificada" que muitos têm do "bondoso médium".

Mais tarde, veio a segunda fase, a fase da animosidade. Nela, pelo fato de católicos tradicionais e ortodoxos terem colunas no jornal O Globo, a empresa de Roberto Marinho passou a reagir de maneira hostil a Chico Xavier, chegando mesmo a revelar as denúncias do sobrinho Amauri Xavier, misteriosamente falecido, possivelmente por queima de arquivo.

Não que Chico Xavier fosse um reformista da Igreja Católica. Muito pelo contrário. Em relação às crenças e hábitos católicos, Chico Xavier era medieval de tão ortodoxo, e não é de surpreender que um dos colunistas de O Globo nos anos 1950, Alceu Amoroso Lima, católico do Centro Dom Vital, ter passado a fazer oposição à ditadura militar depois do golpe de 1964, enquanto o "moderno" Chico Xavier ainda a defendia.

Alceu, também conhecido como Tristão de Ataíde (ou Tristão de Athayde), defendeu o golpe de 1964 como todo conservador que se indignava com o governo João Goulart, mas reviu seus valores quando percebeu o império da arbitrariedade que representou o regime dos generais e passou a fazer oposição e defender a volta da democracia.

Já Chico Xavier, que chegou a deslumbrar setores das esquerdas brasileiras, iludidos com o verniz de "humildade" que cercava sua pessoa, defendeu aberta e convictamente a ditadura militar, com suas próprias palavras, esculhambando operários e camponeses (categorias de trabalhadores de origem pobre) e dizia que os generais estavam "construindo um reino de amor" para o futuro.

Aí vamos parar para pensar. O "homem mais puro do Brasil" pedindo para orarmos a generais e, por conseguinte, aos torturadores, que estavam promovendo a carnificina contra acusados de desobediência ao regime militar, num contexto de dedurismo que, se puder, pode jogar inocentes aos porões da morte (como aliás se fez muitas vezes) apenas por um capricho rancoroso de um desafeto?

E isso é tão grave se observarmos o que o moralismo "espírita" é capaz de fazer. Embora não tenha havido exemplos desse nível, o "espiritismo" poderia atribuir ao sofrimento da tortura e dos assassinatos a supostos "reajustes morais" ou "resgates espirituais", um juízo de valor severo muito comum entre os "espíritas".

Imagine atribuir às vítimas de torturas da ditadura militar a supostas encarnações passadas de senhores de engenho que maltratavam escravos, uma acusação feita sem provas mas com convicções - Deltan Dallagnol, o procurador dos gráficos de Power Point, é evangélico, mas até parece ser "espírita" - , que mais contribui para ofender as vítimas do que explicar certos sofrimentos extremos, prolongados ou fatais.

E chegamos a terceira fase das relações da Globo com Chico Xavier. Saindo de cena a TV Tupi, que antes fazia blindagem ao "bondoso médium", que foi "presenteada" com a falência ("boas energias" dos "mui amigos espíritas"), a FEB, também vendo morrer o "mentor" terreno e dublê de empresário de Chico Xavier, Antônio Wantuil de Freitas, ex-presidente da entidade, resolveu agir.

Tomando como referência o documentário de Malcolm Muggeridge sobre Madre Teresa de Calcutá, intitulado Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), de 1969, a FEB realizou parceria com a Rede Globo, emissora em ascensão na ditadura militar, para reinventar o mito de Chico Xavier entre os brasileiros. Foi na década de 1970.

Para a Globo, foi ótimo, porque ela precisava se manter no poder usando um ídolo religioso supostamente de aceitação "ecumênica" e até "laica" (sem vínculos religiosos), para neutralizar o crescimento dos pastores eletrônicos Edir Macedo e R. R. Soares. Sabe-se que, mais tarde, Edir Macedo adquiriu a Rede Record de Rádio e Televisão.

A ideia era promover um ídolo religioso de apelo acima de crenças e ideologias. A Rede Globo tem essa habilidade. Chegou a expandir a gíria "balada", criada pelo apresentador Luciano Huck no circuito da noite paulistana e difundida pelo lobby Rede Globo / Jovem Pan, para além do público de frequentadores de casas noturnas e fãs de pop dançante comercial.

A Globo manipula até uma parcela daqueles que dizem odiar a emissora. E sua habilidade na manipulação dessas mentes supostamente esclarecidas e invulneráveis permitiu para fazer popularizar uma imagem idealizada de Chico Xavier, como um pretenso colecionador de virtudes humanas e um suposto símbolo máximo de "amor e caridade".

Essa imagem foi construída usando o mesmo roteiro de Muggeridge para Madre Teresa (mais tarde desmascarada como uma megera que deixava os pobres alojados em condições sub-humanas), criando um paradigma de "bondade" que serve mais para promover o "benfeitor" e criar comoção no público, como se fosse um espetáculo.

Não por acaso, Chico Xavier e Madre Teresa são muito comparados. As imagens feitas deles seguem o mesmo roteiro de suposta filantropia, até as frases moralistas são muitíssimo parecidas. Uma "bondade" espetacularizada, cheia de palavras e estórias bonitas, supostos "causos" que alimentam seus mitos e transformam a "bondade" num entretenimento a ser gozado na acomodação dos sofás das casas dos abastados.

A partir dos anos 1970, a Rede Globo reinventou Chico Xavier com o roteiro de Muggeridge, e isso se consolidou com noticiários (Jornal Nacional e Fantástico) e documentários (Globo Repórter) que serviram para ensinar (mal) a Doutrina Espírita ao grande público.

A partir dessa visão "descompromissada", o mito de Chico Xavier se agigantou e o deturpador da Doutrina Espírita ganhou a complacência de todos, até daqueles que tentam recuperar as bases doutrinárias originais e sentem a tentação de manter Chico, Divaldo Franco, João de Deus e outros deturpadores apenas como enfeites.

Tudo isso foi feito para que os beneficiários maiores se revelassem: os irmãos João Roberto, José Roberto e Roberto Irineu, os irmãos Marinho, donos da Globo, que, diferente da Rede Tupi, se comprometeram direta e explícitamente com o apoio a projetos políticos dominantes.

A Globo que cresceu apoiando a ditadura militar e reinventando Chico Xavier prosseguiu investindo em filmes "espíritas" através da Globo Filmes e sustentando a fase dúbia do "movimento espírita", a tendência que finge respeitar o legado de Allan Kardec e praticar o igrejismo roustanguista na surdina.

Diante desse serviço, vemos os irmãos Marinho acumulando fortunas, num país de considerável pobreza e muitos retrocessos sociais trazidos por esse cenário político confuso que hoje temos. E tudo isso graças ao "Velho Chico".