quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Factoide tenta abafar escândalo de Madre Teresa de Calcutá e transformá-la em "santa"

RONALD REAGAN, QUE FINANCIAVA O GENOCÍDIO NA AMÉRICA CENTRAL E ORIENTE MÉDIO, ERA VISTO COMO "DEFENSOR DA PAZ" PELA "ILUMINADA" MADRE TERESA DE CALCUTÁ.

Um factoide atribuído a um caso brasileiro foi forjado para não só tentar abafar as denúncias escandalosas que envolveram a Madre Teresa de Calcutá como também liberar o caminho para sua "santificação", que a Igreja Católica define como canonização, a promoção artificial (feita por homens da Terra) de certos indivíduos já falecidos a uma presumida "pureza" e "perfeição espiritual".

Consta-se que um engenheiro então com 35 anos, mais tarde identificado como Marcílio Haddad Andrino, que morava em Santos, havia acabado de se casar com a mulher - com a qual vive hoje com dois filhos no Rio de Janeiro - e vivia uma lua-de-mel em Gramado, conhecida cidade gaúcha.

De repente ele teria se sentido mal. Foi atendido num hospital de Gramado e, constatado como "portador de hidrocefalia", com supostas "oito infecções graves" no cérebro, foi levado às pressas para um hospital de Santos.

Aí ele teria entrado em coma e foi marcada uma cirurgia de emergência e alto risco. Seu estado era tido como "irreversível" e "terminal". No dia seguinte, porém, o paciente se levantou naturalmente, estava lúcido, tomou o café sozinho e se dizia "curado".

A "razão" para isso foi que a esposa, devota religiosa, viajou de Santos para São Vicente para visitar uma paróquia e falar com um padre, que lhe deu uma medalha de Madre Teresa de Calcutá e recomendou a mulher a orar pela freira. Ela depois voltou para Santos, foi para o hospital e pediu para que deixassem a medalha sob o travesseiro do marido enfermo.

Os médicos definiram o caso como "inexplicável" sob a lógica científica. Atribuíram o feito a um "milagre". 15 testemunhas colaboraram para um documento de 400 páginas enviado para o Vaticano, que garantiu a canonização de Madre Teresa, já marcada para setembro de 2016.

ESTRANHEZAS

O "admirável" caso chama a atenção pelos seus aspectos bastante estranhos. A "cura" levou sete anos para ser divulgada, muito suspeita para uma "brilhante notícia" da qual as pessoas naturalmente se apressariam em divulgar, tamanho o entusiasmo de seus envolvidos.

Também chama a atenção o fato de que o paciente estava internado num hospital católico, o Hospital São Lucas, o que traz um teor tendencioso do "milagre", porque Madre Teresa é considerada uma das maiores estrelas do imaginário católico mundial, bastante apreciada entre os católicos brasileiros, mas também adotada pelo "movimento espírita".

Será que o diagnóstico foi forjado? Ficamos perguntando se Marcílio teria tido apenas uma dor-de-cabeça grave, ou um refluxo, um enjoo ou uma intoxicação alimentar, e foi internado longo tempo e dormido muito e, no dia seguinte, apenas acordou e recuperou a disposição como um outro qualquer.

Mas constatar isso é "cruel demais", diante da "agonia" do pobre coitado, Não podemos questionar a visão oficial, que, por mais surreal que seja, tem que ser aceita como "verdade absoluta". Para todo efeito, o sujeito sofreu uma infecção cerebral gravíssima, esteve perto de morrer e Madre Teresa de Calcutá salvou sua vida e, por isso, ela deve ser santa para a alegria de seus fiéis.

Seria tudo maravilhoso não fossem os aspectos sombrios que foram denunciados por Christopher Hitchens, independente deste ter sido ateu ou não. Ele poderia até ter sido um católico. Alceu Amoroso Lima, conhecido escritor católico, denunciou as fraudes de Francisco Cândido Xavier com a mesma consistência com que Hitchens denunciou as irregularidades da trajetória de Madre Teresa.

Hitchens escreveu um livro, A Intocável Madre Teresa de Calcutá (The Missionary Position: Mother Teresa in Theory and Practice), em 1995, e, dois anos depois, o curto documentário Anjo do Inferno (Hell's Angel).

Os dois, livro e filme, sobretudo pelo título deste último, enfureceram a Igreja Católica e até a Madre Teresa, ainda viva, reagiu de maneira ríspida a eles (ela morreria pouco depois do lançamento do documentário). Só mais recentemente universitários canadenses confirmaram as denúncias de Hitchens (Engole esta, Universidade Federal de Juiz de Fora!).

Madre Teresa de Calcutá é acusada de não dar a devida assistência a pobres e doentes em suas "casas de caridade" em Calcutá, Índia. Eles eram deixados em leitos juntos, expostos uns aos outros sob alto risco de contágios. Eram mal alimentados e os únicos remédios a eles dados eram paracetamol e aspirina. Eram mantidos sem higiene e seringas infectadas eram reutilizadas, sendo elas lavadas somente com água de torneira (que não é esse primor de limpeza, como sabemos).

Não era por falta de dinheiro. Madre Teresa sempre fazia excursões para arrecadar dinheiro e obtinha recursos capazes de transformar suas casas de enfermos e moribundos em excelentes hospitais superequipados, limpíssimos e com farta alimentação para os enfraquecidos. Ela não os fez.

Pelo contrário, o que se viu foi Madre Teresa falar que é "preciso sofrer o que há de pior para chegar perto de Deus". Era uma má interpretação do martírio de Jesus de Nazaré, que forma o ideal da Teologia do Sofrimento, desumana corrente do Catolicismo que foi adotada, com muito entusiasmo, por Chico Xavier.

Várias vezes Chico Xavier também pregava o sofrimento como "caminho para Deus". Ele falava para "sofrermos amando e em silêncio" e não botar nossos infortúnios "na pauta dos outros". Tínhamos que sofrer calados e pensar que vamos, com isso, acelerar nosso caminho para o "paraíso", a "vida eterna" ou a "vida futura". Visão do mais puro e cruel sadismo.

Pior: enquanto Madre Teresa defendia que os sofredores tinham que permanecer sofredores para garantir o "espetáculo da caridade", ela se aliava a ditadores e políticos sanguinários e a magnatas corruptos (um deles criou sua fortuna roubando dinheiro de doações "para a caridade") e tudo o que a "bondosa freira" arrecadava era desviado para os cofres dos poderosos chefões do Vaticano.

Daí não ser difícil ver que factoides são criados para "santificar" uma freira que tanto representou lucros financeiros para a Santa Sé. Tentou-se atribuir ao "milagre de Madre Teresa" um outro caso, de uma indiana que sofria câncer no ovário, só que ela se curou não por causa da medalhinha com o retrato da freira, mas com o correto uso de medicamentos indicados pelos médicos.

Tudo isso é feito para abafar as denuncias de Christopher Hitchens e forçar a "santificação" de Madre Teresa de Calcutá, que permitirá a propaganda do Vaticano no mundo inteiro, e, além disso, a canonização entra no contexto da competitividade religiosa em que vivemos.

No mundo, a canonização tenta frear a ascensão do Islamismo no Ocidente, que acontece sobretudo com a migração, de países muçulmanos sob ditaduras ou guerras, como a Síria e a Argélia, de multidões de refugiados. A Itália recebe milhares deles e, por isso, o Vaticano precisa de um pretexto para recuperar o poder da Igreja Católica na Europa e nas Américas.

No Brasil, a "façanha" do "milagre de Madre Teresa", uma pegadinha viável dentro dos quintais da Igreja Católica (como o hospital católico de Santos), tem como objetivo frear a ascensão do neopentecostalismo, simbolizado pelo crescimento da Rede Record, da Igreja Universal do Reino de Deus, favorecido pela grande audiência da novela bíblica Os Dez Mandamentos.

Isso é o que está em jogo. E as elites que querem se fazer de "boazinhas" através dos estereótipos de Chico Xavier, Madre Teresa, Divaldo Franco e outros ídolos da fé deslumbrada, se enfurecem diante do menor questionamento.

Eles se enfurecem até quando passamos a defender os pobres e enfermos que não recebiam os devidos cuidados de Madre Teresa, como vemos nessa declaração da blogueira "A Catequista" que mostra um desprezo pelos pobres digno do personagem cômico Justo Veríssimo:

"Hitchens acusava a Madre de não ajudar os pobres a sair de seu estado de pobreza. De fato, Madre Teresa não fundou uma ONG, ela não fazia trabalho social; ela fazia CARIDADE, ela amava cada pobre como um filho saído de seu ventre. A mesma acusação que se fez a ela, poderia-se fazer a São Francisco de Assis: quem aí ouviu dizer que o santo levou algum pobre a ascender socialmente? E, no entanto… ele era a maior riqueza dos pobres, em seu tempo".

Que caridade é essa que "não é trabalho social"? Que instituição não pode ser uma ONG? A blogueira católica não sabe que o que Madre Teresa organizou, em tese, era uma ONG, mas uma má ONG, que não assistia os pobres direito. Além disso, a blogueira mostrou seu desprezo aos pobres quando deixou vazar sua ideia de que os pobres "não precisavam de ascensão social".

É assim que as elites pensam dos pobres, do sofrimento. Elas querem que os pobres e sofredores se mantenham assim nessas condições humilhantes, para que o teatrinho da "caridade" continue a ser feito. Criem-se vítimas, faça-se o holocausto, façam-se os desgraçados e deserdados da sorte, para que se fabriquem os "bonzinhos de ocasião" que garantam o sono tranquilo das elites preconceituosas que podem, enfim, se passar por "piedosos" e esconder suas neuroses debaixo do tapete.

sábado, 19 de dezembro de 2015

"Você e a Paz" e o medo das pessoas em questionar ídolos religiosos

DIVALDO FRANCO ESPALHA A DETURPAÇÃO DA DOUTRINA ESPÍRITA E AINDA ACUMULA TESOUROS NA TERRA.

É muito triste o que acontece no Brasil. Mesmo pessoas dotadas de algum raciocínio questionador ficam muito melindrosas diante de certas coisas, por causa de determinados estereótipos. E isso ocorre em vários setores da vida humana.

Na cultura, por exemplo, vemos o "funk carioca" que trabalha os estereótipos de pobreza que anestesiam a classe média. Um bando de intelectuais badalados aproveitou isso e veio com o papo de "ruptura do preconceito" para forçar a aceitação do ritmo carioca, enquanto este difunde nas classes populares valores dos mais retrógrados, ligados ao machismo, ao racismo, à burrice e a violência.

Poucos perceberam a "apologia à ignorância e à pobreza" que os sádicos empresários do "funk carioca", que financiavam esses etnógrafos de bosta, que devolviam mais dinheiro por causa da reputação do "funk" através de um discurso pseudo-intelectual feito por rebuscadas monografias e documentários supereditados e superproduzidos.

As pessoas se deslumbram, porque é o elogio à embalagem. O "funk" simboliza um paradigma de pobreza que tranquiliza as elites, uma forma domesticada de "rebelião popular", um engodo ideológico que misturava desfiles de moda, falsas alegações de provocação cultural e modernismo antropofágico e suposta rebeldia comportamental a um ritmo musicalmente ruim que evocava os mais retrógrados valores sociais, como a imagem de "mulher-objeto" das "mulheres-frutas".

Na religião, os exemplos são muitos. No "espiritismo", exemplos como os dos anti-médiuns Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco são bem ilustrativos. O que eles fizeram com a Doutrina Espírita é de uma aberração sem tamanho, uma deturpação doutrinária que chega ao nível do irresponsável e deplorável, mas eles são sempre protegidos por uma imagem de "bondade" que os cerca.

O evento de hoje, o suposto Dia do Movimento pela Paz, instituída politicamente para garantir patrocínios ao evento "Você e a Paz" comandado por Divaldo Franco, realizado todo ano no Largo do Campo Grande, em Salvador, é um exemplo de como temos que ser melindrosos porque a "criançada" com mais de 18 anos e até na meia-idade ou velhice, não quer que questionemos o evento.

O "Você e a Paz" é uma simples "missa ecumênica", mas todos são obrigados a acreditar que é um poderoso evento ativista vinculado à doutrina de Allan Kardec, e duvidar que o evento possa causar uma revolução social é, infelizmente, garantia de perda de amigos e boicotes diversos. Você pode até perder seu emprego se duvidar do "poder revolucionário" de "Você e a Paz".

Diferente de Chico Xavier, que não conseguiu dissimular seu catolicismo, Divaldo Franco é visto como mais verossímil, entre os deturpadores da Doutrina Espírita que se autoproclamam "rigorosamente fiéis a Allan Kardec e sua obra". Há quem acredite que Divaldo é "espírita autêntico" por causa de seu ar professoral e de seu aparente "intelectualismo".

Ver que, na ideologia religiosa, ideias como "amor", "paz" e "caridade" intimidam as pessoas e impedem que questionamentos profundos sejam feitos, é assustador. E ver que muita gente boa com algum funcionamento no cérebro ainda põe fé nos deturpadores espíritas é muito preocupante.

O evento é apenas uma "missa ecumênica". Tem musiquinha, tem festa, tem pipoqueiro ao redor, camisetinhas, carrinho de cachorro-quente, convidados e tudo o mais. As pessoas que ainda vivem no deslumbre religioso não iriam abrir mão dessa diversão. Para muitos, Divaldo Franco é seu "Papai Noel", pouco importando se ele entendeu errado o pensamento kardeciano.

Divaldo Franco faz o discurso rebuscado de sempre, aquela fala empolada e prolixa, mas cheia de "coisas boas". De vez em quando ele solta um falsete de Adolfo Bezerra de Menezes, um político fisiológico que adorava Jean-Baptiste Roustaing, o rival de Kardec. Tudo muito "lindo".

Você questiona isso e, frequentemente, vai outra pessoa dizendo "mas não é bem assim". Vem um cara chorosamente dizendo "Sabemos que Divaldo deturpou a DE, mas este evento tem valor, sim" e aí, de grão em grão, se empurra um deturpador para a galeria de "espíritas autênticos". Se não der para salvar Chico Xavier, pelo menos o "Rolando Lero" da Escolinha do Professor Kardec manterá sua cadeira cativa.

O Dia do Movimento pela Paz foi instituído politicamente pelo prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto, o ACM Neto. Divaldo Franco é conhecido colecionador de prêmios, acumula tesouros na Terra premiado pelos donos do poder e por figurões da política.

Mas todos nós somos aconselhados a acreditar que o dia é dedicado a um ativismo sério, como temos que acreditar que o Dia Mundial do Rock, instituído por uma emissora de rádio ridícula que é a 89 FM de São Paulo (que se diz roqueira mas só investe em besteirol), é comemorado no mundo inteiro, como se um evento comercial como o Live Aid (que tinha muita gente não-roqueira, como Madonna e George Michael) fosse o supra-sumo da combinação entre ativismo social e cultura rock.

Se não acreditarmos, bingo! Seremos considerados pessoas cruéis, que não compreendem as coisas, que não sabem o poder que uma missa tem de pedir paz às pessoas, e se ocorre um massacre na Europa devido a um atentado terrorista, enquanto o "sábio" Divaldo Franco faz uma palestrinha em algum lugar, mesmo que fosse no Brasil, então a culpa é dos europeus por estarem surdos a esse "apelo poderoso".

Na verdade, as pessoas estão com medo de questionamentos. A fé religiosa é uma muleta emocional, um sustentáculo frágil para a insegurança de muitas pessoas que, enquanto não são questionadas em suas fantasias místicas e religiosas, são felizes e simpáticas, mas quando surge um questionamento, por mais construtivo que fosse, elas reagem feito bestas-feras a quererem sair de suas jaulas.

Além do mais, o "movimento espírita" é muito conhecido por teorizar demais a paz, a bondade e a caridade. Pratica muito pouco, porque sempre atua nos limites clichês da filantropia católica, em que a ajuda ao próximo é feita sem comprometer a estrutura de desigualdades vigente. São apenas doações diversas, assistencialismo morno, sopinhas e projetos educativos que até ensinam a ler e a escrever, mas não impedem da pessoa ser "mais um ninguém na multidão".

Divaldo Franco, além disso, é festejado e considerado "maior filantropo do mundo" com uma ajuda ínfima, pois a Mansão do Caminho só ajudou, até agora, 0,08% da população de Salvador, o que, em dimensões mundiais, é o mesmo que nada. Como ser considerado "maior filantropo do mundo" desta forma não dá para entender. Festeja-se demais por praticamente nada.

Além disso, o bairro de Pau da Lima, onde se situa o "vitorioso projeto de Divaldo Franco", vive constantemente sob o clima da violência. Todo dia os noticiários policiais registram alguma violência e criminalidade no bairro soteropolitano.

Pessoas dormem na Mansão do Caminho sob eventuais barulhos de tiroteios. Não fosse a grande muralha que cerca a Mansão e seu conjunto de casas, balas perdidas teriam atingido o local e provavelmente alguma vítima seria incluída num incidente.

Mas aí temos que viver no mundo da fantasia e acreditar que existem pessoas surdas ao apelo "sábio" de Divaldo Franco. Como se ele pudesse falar para o mundo, ele, um astucioso deturpador da Doutrina Espírita. o que é impossível.

Afinal, um homem que não chega a ajudar 1% da população de uma cidade grande não seria a voz que pudesse ressoar forte no resto do mundo. Sua voz só consegue ressoar para os ouvidos complacentes de seus seguidores.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A péssima dedicação do "espiritismo" brasileiro às Ciências


O "espiritismo" brasileiro se diz amigo da Ciência, defensor do Conhecimento e valorizador da inteligência, do raciocínio e do bom senso. Mas isso é apenas conversa para boi dormir. Por debaixo dos panos, vemos pregações igrejistas aqui e ali e a supremacia da fé "raciocinada", mas em verdade irracional, acaba sempre vencendo dentro da ideologia da doutrina brasileira.

A verdadeira Ciência, ou melhor, as verdadeiras Ciências, se percebermos as diversas correntes do ramo do Conhecimento, sofrem a cruel discriminação dada pelos "espíritas". Eles, com todo o discurso que os coloca como supostos arautos do pensamento científico, só admitem a Ciência quando ela não contraria os mitos e fantasias trazidos pela fé religiosa.

Gabam-se os "espíritas" de sua suposta postura anti-medieval, porque a retórica do "movimento espírita" sempre tenta nos fazer crer que a doutrina brasileira capitaneada pela Federação "Espírita" Brasileira mas também defendida por aparentes "dissidências", se autoproclama "uma nova revelação" que toma como "superados" os pesadelos doutrinários da Idade Média.

No entanto, isso é mais um engano. Sabe-se que o "espiritismo" brasileiro nada tem a ver com Allan Kardec, apesar de toda a bajulação e todas as chorosas juras de fidelidade ao pensador francês, e na verdade se trata de um engodo religioso que combina moralismo católico medieval como práticas hereges ocultistas como a homeopatia dos mascates, a bruxaria e a Astrologia.

Curandeirismo barato, esoterismo ocultista, moralismo religioso, tudo isso faz do "espiritismo" brasileiro não a tão alardeada adaptação local da doutrina de Allan Kardec, mas uma espécie de variação informal do Catolicismo, um Catolicismo sem batina e sem o senta-e-levanta das missas, mas dotado também de suas frescuras manifestas em dogmas e ritos.

Daí que a apreciação da Ciência, da parte do "movimento espírita", tende a ser a mais tendenciosa e seletiva possível. As publicações "espíritas" precisam em algumas páginas mostrar um desfile de intelectuais e cientistas diversos, como Isaac Newton, Galileu Galilei, Albert Schweitzer e tantos outros.

Mas a máscara cai quando vemos três cientistas alvos de profunda discriminação no Brasil e que, por isso, abrem caminho para mentiras cruéis e nada científicas que favorecem os habituais ídolos do "espiritismo" brasileiro.

QUANDO A CIÊNCIA É INJUSTIÇADA

Três cientistas de renome, mas pouco conhecidos no Brasil, nunca foram estudados devidamente e sofrem a discriminação que permitiu as mentiras relacionadas a suas descobertas e atividades, que só servem para atribuir falso pioneirismo aos festejados totens do "movimento espírita".

Um dos casos mais graves é o de Franz Anton Mesmer, médico e cientista que estudava os processos de magnetização entre animais, cujos resultados chamaram a atenção do professor Hippolyte Leon Denizard Rivail, antes dele adotar o codinome Allan Kardec.

Foi a partir de Franz Mesmer que Kardec estabeleceu os métodos de pesquisa que resultaram na Codificação Espírita, um sistema de ideias e procedimentos relacionados às pesquisas sobre vida espiritual e comunicação com espíritos falecidos.

No entanto, no Brasil não há um livro de Mesmer traduzido para nossos leitores. O que se transmite de Mesmer vem de terceiros, o que não pode ser absolutamente confiável, por mais bem intencionado que alguns autores sejam, porque falta a fonte original, falta o pensador pioneiro, falta o ponto de partida de uma linha de conhecimento e pesquisa que aqui chega em segunda mão.

Há o caso do astrônomo estadunidense Percival Lowell, que fundou um observatório espacial no Arizona (que existe até hoje) e que realizou trabalhos de pesquisa sobre vida em Marte, analisando indícios de existência de vida humana, de civilizações adiantadas e de construções de canais fluviais artificiais. E isso ainda no século XIX.

No entanto, Percival Lowell não é conhecido pelos brasileiros. Também não tem trabalhos traduzidos aqui e o máximo que os leigos podem saber é que ele escreveu um livro sobre o Japão, com uma análise antropológica sobre seus hábitos religiosos.

Com essa lacuna, permitiu-se que um radialista, o presidente da Rádio Rio de Janeiro AM, Gerson Simões Monteiro, também colunista do jornal Extra, inventasse a estória de que Francisco Cândido Xavier teria "descoberto" vida em Marte, através de livros de 1935 e 1939.

Beneficiado pela visibilidade e prestígio altos, Gerson Monteiro, com sua "Lei de Gerson espírita", fez com que Chico Xavier fosse festejado como um suposto "pioneiro científico" ao qual se atribuiu cerca de 80 anos da suposta façanha de ter previsto vida em Marte.

O que Gerson fez foi uma grande bobagem. Afinal, bem antes de Chico Xavier nascer, Percival Lowell lançou livros sobre o assunto, com todos os elementos que no Brasil acredita-se serem "pioneiros" em Chico Xavier: civilizações adiantadas, vida humana, construção de canais fluviais.

Lowell criou uma trilogia de livros sobre o assunto, e o último dos três volumes foi publicado em 1908, portanto, dois anos antes de Chico Xavier nascer. O que significa que Chico Xavier não poderia ser pioneiro de jeito algum, porque o assunto da possibilidade de haver vida em Marte era considerado velho mesmo em 1935.

Outro caso é Wolfgang Bargmann, um cientista conhecido praticamente apenas na Alemanha. Até mesmo em países de língua inglesa, como EUA e Reino Unido, pouco conhecem desse cientista alemão, sobretudo nos EUA, que acolheram, no auge do nazi-fascismo, uma boa parcela de intelectuais da chamada Escola de Frankfurt, que passaram a lecionar no país americano.

Bargmann teria sido um dos principais estudiosos da glândula pineal na década de 1940 e, portanto, integrante de um cenário fértil, embora aparentemente pouco produtivo, sobre o assunto. Talvez essa aparência seja discutível, mas o que se sabe é que a glândula pineal, um assunto já antigo, teve pesquisas impulsionadas na mesma década da Segunda Guerra Mundial.

Mas Bargmann, se é pouco conhecido nos EUA, seria portanto bem menos no Brasil. Praticamente ele "não existiu" e essa lacuna fez com que um pesquisadores que se autoproclamam "sérios" supusessem que um fictício personagem como André Luiz teria "descoberto" novas teses sobre glândula pineal através de livros como Mensageiros da Luz, de 1945.

Sem pesquisar as próprias fontes de 1940 - os estudiosos se limitaram a consultar fontes de terceiros, publicadas a partir de 1977 - , os acadêmicos "espíritas" festejaram e alardearam um suposto pioneirisimo de André Luiz em até seis décadas em relação à glândula pineal.

Daí que isso se configurou numa grave situação, como nas outras acima citadas. E mostra o quanto o "espiritismo" brasileiro não está aí para a Ciência, ou para as Ciências, e que sua apreciação ao conhecimento científico é falsa e oportunista. Para os "espíritas", a Ciência pode até ter atuação autônoma, desde que não contrarie os dogmas da "moderna" fé religiosa. Essa é a dura verdade.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O moralismo cruel dos "espíritas"

"ESPÍRITAS" COSTUMAM VER NESSES COITADOS ANTIGOS TIRANOS "PAGANDO PELO QUE FIZERAM".

O "movimento espírita" tem uma moral estranha. Ele defende a Teologia do Sofrimento, que defende os infortúnios pesados como forma de "evolução social" dos indivíduos, e no seu juízo de valor, supõe encarnações anteriores das quais consideram as vítimas de hoje "culpadas" de supostas faltas passadas.

É um moralismo que corresponde à maior herança que Jean-Baptiste Roustaing, o advogado que produziu o duvidoso livro Os Quatro Evangelhos - que ele jura ter sido obtido de espíritos dos antigos evangelistas - , deixou no "movimento espírita", que hoje renega qualquer associação ao roustanguismo em prol de uma pretensa e hipócrita "fidelidade a Allan Kardec".

A "moral espírita" consiste em dizer que, se a pessoa sofre demais, ela "responde" por faltas passadas. Só que essa visão, de um descarado juízo de valor, é hipócrita, ante o desconhecimento que os próprios "espíritas" têm da Ciência Espírita, já que eles no fundo nunca se identificaram de verdade com o cientificismo e o rigor metodológico de Allan Kardec.

Que desonestidade doutrinária é esta que tem a autoridade de dizer que fulano sofre as desgraças de hoje porque teria sido um tirano no Império Romano, ou que era um senhor de engenho, um corrupto, um sanguinário, um fútil, um fanfarrão? Que certezas têm os "espíritas" para garantir que fulano foi alguma pessoa cruel no passado?

Quanto à Teologia do Sofrimento, para os "espíritas" o ideal é sofrer em silêncio, passar o tempo todo orando, não se preocupar em resolver o problema etc. Até quando busca um tratamento espiritual, em vez dos problemas serem resolvidos, outros, mais graves, são contraídos.

E pouco importa se a pessoa é castrada e acuada em infortúnios e barreiras intransponíveis. Parecemos minhocas que não podem pular uma roda de fogo, mas que isso é nossa obrigação e cabe fazê-la com perseverança e esforço descomunal, de preferência acima de nossas capacidades.

Tudo isso é feito visando as premiações da vida futura. As "graças" e "bênçãos" que o além-túmulo promete nos oferecer, nessa competição desigual em que as derrotas de uma encarnação seriam compensadas pelos "prêmios de consolação" após a morte, compensações estas que não sabemos o que é, mas os "espíritas" garantem serem "lindos presentes de Deus" para os bons sofredores.

Vamos, assim, obedecendo aos "desígnios do Alto", a sofrer infortúnios vindos do nada, a "vivermos como pudermos", a desperdiçarmos nossos potenciais com atividades à toa ou enfrentando barreiras insuperáveis, a perdermos pessoas valiosas que nos ajudariam muito, a termos que aturar pessoas sem valor cujo convívio traz prejuízos severos, tudo por conta de um prêmio de nada.

É muito fácil os "espíritas" defenderem tudo isso. Não são eles que perdem entes queridos, sofrem infortúnios, enfrentam limitações severas. Quando são duramente criticados, eles ainda vêm com choradeira, atribuindo os erros do "movimento espírita" a alguns "peixes pequenos" de "centros espíritas desorganizados". Eles, os "peixes-grandes", é que estão "sempre certos" até nos erros que cometem.

O moralismo "espírita" descreve o sofredor ou o desafortunado social como um "desgraçado que merece nosso carinho e misericórdia". Esse discurso revela uma crueldade sutil, porque contrapõe os "infelizes" e os "bonzinhos", num maniqueísmo bastante hipócrita e oportunista.

Afinal, os "espíritas" é que são "bons". Eles é que são "piedosos", agem por "compaixão", são de uma "misericórdia infinita". Já os que sofrem alguma desgraça ou limitação na vida e não conseguem controlar seus infortúnios, eles são os "desgraçados", os que "pagam caro pelo que fizeram", os que "sofrem por merecer".

Vejam só. De um lado, o paternalismo "bondoso" dos "espíritas", que apelam para o morde-e-assopra do juízo de valor severo, da presunção de que todo sofredor "responde por faltas de outras vidas" e que por isso "teve razões" para tanto sofrimento sem controle.

De outro, é a "assistência" um tanto tendenciosa, depois do juízo de valor cruel, em que primeiro se acusa para depois socorrer, em que primeiro vem a maledicência e depois a misericórdia, o que mostra que essa "compaixão" não é tão piedosa assim.

Na "moral espírita", a pessoa é como um peixinho de rio que é obrigado a escalar uma montanha. A ele se exigem esforços descomunais, acima de suas capacidades, buscando alternativas surreais e agindo com fé e perseverança. Mas o peixinho não tem condições para escalar a montanha, e, se sair da água, morreria.

Pouco importa isso para os "espíritas". Se o peixinho não tem condições, "falta-lhe a fé". Se ele deixa de tomar iniciativa, é por "falta de perseverança". Adeptos da Teologia do Sofrimento, os "espíritas" simplesmente dizem para quem está acuado pelos infortúnios e barreiras insuperáveis: "saiam já daí, se virem!".

Isso é crueldade. Primeiro se faz um julgamento sem fundamento, mas baseado em falsas noções de vida espiritual, numa doutrina que demonstrou não ter qualquer apreço com o verdadeiro pensamento de Allan Kardec. Segundo, se presta assistência paliativa só para dar a impressão de que os "espíritas" são "bonzinhos", que "ajudam" o "desgraçado" com sua "misericórdia infinita".

Em contradição, a religião "espírita" empurra o sofredor para continuar aguentando suas limitações e barreiras, com dificuldades criadas para sua superação, sempre desafiando as condições e capacidades que o desafortunado tem limitadas, e que mesmo o esforço mais hercúleo não consegue dar em compensações e superações reais.

Diante desse moralismo, como é que o "espiritismo" brasileiro fala em querer que as pessoas vivam felizes? Depois de tudo isso, eles ainda falam, sorridentemente: "viva cada momento". Como se é o momento presente que se encontram sérias barreiras para uma vida melhor? Como sonhar coisas bonitas num momento de intenso pesadelo?

Isso se torna muito fácil quando aqueles que dizem tudo isso vivem em situação confortável de astros da religiosidade, que se beneficiam às custas do sofrimento alheio, protegidos por uma falsa roupagem de superioridade que lhes enche de vaidade e orgulho extremo.

No entanto, aqueles que dizem que o sofrimento "é lindo" e que tenhamos que sofrer as piores coisas visando as "bênçãos da vida futura" são os mesmos que, iludidos com as recompensas terrenas que recebem pelo fato de serem "bonzinhos", como os "prêmios humanitários" recebidos, mal sabem o que esperará por eles.

Pois serão eles que, no além-túmulo, em vez de receberem também as "bênçãos futuras" que tanto rogam aos desafortunados, receberão as desilusões do mundo espiritual que se mostrará diferente do que suas lindas fantasias insistiram tanto em supor.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

"Espíritas" brasileiros se tornam vítimas dos próprios erros

O "ESPIRITISMO" É DOUTRINARIAMENTE MAIS PRÓXIMO DO CATOLICISMO FUNDADO PELO IMPERADOR ROMANO CONSTANTINO.

A crise na qual passa o "espiritismo" brasileiro é de conhecimento de seus líderes e palestrantes, que, agora, reagem como se eles fossem o exemplo de coerência e de bom senso, mesmo quando são eles mesmos que apresentam as mais aberrantes contradições em relação à doutrina de Allan Kardec.

Vemos muitos "cavaleiros da esperança", como são conhecidos os líderes "espíritas" que prometem consolar os infelizes com suas palestras sempre cheias de belas palavras. Divaldo Franco, José Medrado, Richard Simonetti, Orson Peter Carrara, Geraldo Lemos Neto, e, in memoriam, Lino Curti e o próprio Francisco Cândido Xavier, aparecem todos jurando fidelidade total ao professor francês.

No entanto, eles são os que mais contribuem para manter a deturpação da Doutrina Espírita. Eles é que tudo fazem para manter a doutrina mais próxima do Catolicismo medieval inaugurado pelo imperador romano Constantino, que foi introduzido no Brasil colonial através de sua forma portuguesa - paciência, Portugal fez parte do Império Romano - do que do pensamento kardeciano.

É até risível que esses mesmos "espíritas" denunciem a deturpação da Doutrina Espírita, como se isso não fosse da parte deles. Os "cavaleiros da esperança" chegam a usar, em causa própria, as palavras de Erasto, os princípios do Controle Universal do Ensino dos Espíritos e as recomendações mais preciosas de Allan Kardec.

Tudo em vão. Afinal não se pode evocar Erasto, Kardec e o CUEE se, por outro lado, tempera seus textos embelezados de palavras e recados alegrinhos com epígrafes tiradas de livros de Emmanuel, que claramente contrariam o pensamento sistematizado pelo pedagogo francês.

Não adianta cobrar dos outros coerência se é o primeiro a cometer incoerências. Não é possível se proteger pelo verniz da bondade, se comete desonestidades intelectuais severas. A ideia de que o amor tudo permite, até mesmo erros grosseiros, é ridícula e não tem o menor sentido lógico, mas no "espiritismo" brasileiro ele é usado para acobertar aberrantes fraudes doutrinárias.

Sabemos que Chico Xavier cometeu erros gravíssimos, e foi ele quem bem personificou o "perigo espírita" prenunciado por Erasto. Daí ser impossível e inconcebível recorrer a Erasto quando se defende Chico Xavier, como usar a verdade para proteger a mentira.

Chico Xavier causou muita confusão com seus trabalhos. Se observarmos bem, ele criou problemas, muitas vezes pelo propósito de seus atos, a partir dos pastiches literários trazidos pelo embuste chamado Parnaso de Além-Túmulo, em 1932.

O livro é tão ridículo que, feito sob a pretensão de ser uma obra acabada de espíritos benfeitores, sofreu reparos muito grandes por cinco vezes e em mais de duas décadas. Poemas eram incluídos e excluídos, mediante motivos tendenciosos ou oportunistas, ou pela má repercussão de alguns poemas. A mais longa reparação foi entre a quinta e a sexta edições, considerada "definitiva", que durou dez anos, de 1945 a 1955.

Só esse detalhe é uma aberrante irregularidade. Imagine, um livro considerado de "alto grau de elevação", que é remendado cinco vezes em duas décadas, contrariando sua pretensão de "mensagem pronta" e acabada. E, numa observação cuidadosa, percebe-se que é uma coleção de pastiches literários, com várias evidências de plágios, sem falar que o conteúdo destoa dos estilos dos autores originais.

Descobriu-se que o livro foi feito por Chico Xavier, Antônio Wantuil de Freitas, alguns editores da Federação "Espírita" Brasileira e um serviço de consultores literários de fora da instituição. Provavelmente uma dezena de escritores, com Chico incluído, fazendo um trabalho sujo, que já demonstrava a que veio esse anti-médium que as pessoas cultuam com certo fanatismo.

Vieram outros atos, como plágios literários em prosa, livros pseudo-científicos que claramente contrariam a obra de Allan Kardec, participação evidente em fraudes de materialização - Chico assinava atestados de "autenticidade" e apoiou até a farsante Otília Diogo - e escreveu cartas de sua própria imaginação, se servindo de dados que colhia daqui e dali sobre um morto de ocasião.

Como é que o pessoal vai jurar fidelidade absoluta a Allan Kardec, se apoia de todo esse processo de fraudes e deturpações doutrinárias seriíssimas? Eles querem brincar com a fé de seus seguidores? Eles vão tentar nos fazer crer que as crises que o "movimento espírita" sofrem parte da "campanha de perseguição" dos inimigos?

Eles chegam ao ponto de dizer que não se deve investir "demais" na lógica. Eles veem o ceticismo de Allan Kardec como um pecado, como um mal. Eles incriminam o ato de raciocinar, contrapondo-o ao do coração, acham que a fé tem mais razão que a própria razão e investem na mesma credulidade que, na Idade Média, tanto marcou a ideologia católica.

Daí que os "espíritas" só evocam a Ciência quando ela se submete a ajoelhar no altar da Fé. Reagem incômodos à ideia da utilização rigorosa do pensamento questionador, e falam de um tal "Império da Dúvida" como forma, que eles consideram desesperada e maldosa, de buscar certezas ou comprovar teses.

Eles remetem aos medievais que dizem criticar, quando condenam o pensamento questionador, quando a lógica ultrapassa os limites determinados pela Fé, que havia imposto um terreno limitado para a "livre expressão" da Ciência, única e pequena concessão que o "espiritismo" representou para o rigor rigoroso e punitivo dos antigos católicos.

Se os católicos mandavam os cientistas para serem queimados em fogueira, exposta em praças públicas ou em estádios lotados, ou para serem enforcados, decapitados ou devorados por leões, os "espíritas" apenas aceitam a Ciência desde que ela não ameace a supremacia da Fé. Em outras palavras, abriram espaço para a Ciência, desde que com limites.

O religiosismo dos "espíritas" trava e compromete o desenvolvimento do Brasil. E, o que é pior, faz o "espiritismo" ser uma verdadeira fogueira das vaidades, escondida num forno coberto pelo verniz da humildade e da bondade.

Muito se faz contra a doutrina de Allan Kardec, através de deturpações severas e graves. Criam-se distorções doutrinárias, pela falta de estudo sério do pensamento kardeciano. Criam-se falsas mediunidades, pela falta de estudo sério da Ciência Espírita. Enquanto isso, reina a demagogia, quando os que juram fidelidade doutrinária absoluta são justamente os piores deturpadores.

E é por isso que a crise acontece. A postura dúbia de jurar fidelidade a Allan Kardec e a seguir a deturpação de Chico Xavier revela que os "espíritas" se contradizem e não conseguem sequer dar argumentos sérios. Eles se tornam vítimas dos próprios erros, pagam hoje o preço caríssimo da deturpação doutrinária.

Daí que é muito difícil eles convencerem quando falam em "conduta", "coerência" e "respeito à doutrina". Eles são os que menos respeitam o pensamento de Kardec. Bajulá-lo é muito fácil, como fácil é fazer montagens de Photoshop em que Allan Kardec aparece ao lado de Chico Xavier, Bezerra de Menezes e Emmanuel.

Só que isso não convence em coisa alguma. A deturpação doutrinária torna-se mais evidente quando as antigas crises vividas pelo "movimento espírita" estão sendo publicadas na Internet, ao lado da atual crise que o movimento sofre. E isso é que deixa os "espíritas" transtornados, já que agora eles têm que aceitar hoje os efeitos drásticos que suas más escolhas causaram. Essa é a realidade.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

"Espiritismo" vê a vida futura de forma materialista


O "espiritismo" brasileiro é espiritualista? Não. Ele é materialista. Pode parecer estranho para muita gente, mas se fizermos um exame bastante cuidadoso e atento, livrando-nos do fardo da complacência e da submissão a mitos, totens e dogmas, veremos que essa "estranha" e "inconcebível" constatação é de uma verdade contundente.

A influência do moralismo do Catolicismo medieval português, das práticas ocultistas e esotéricas que dissimulam todo o desconhecimento de mediunidade rigorosamente analisado por Allan Kardec faz os "espíritas" se apoiarem em visões materialistas, como a forma como supõem ser a "vida futura" no além-túmulo.

Daí a desculpa que eles fazem quanto aos sofrimentos humanos. O "espiritismo" não tem ideia de como a vida material é complexa e que as pessoas têm projetos de vida diferenciados, nem todo mundo aceita viver qualquer coisa, qualquer infortúnio, qualquer experiência medíocre, a título de "deixar o tempo correr" para a volta à "verdadeira vida".

As pessoas querem viver de forma diferenciada. Ter desejos e interesses próprios não pode ser visto como uma busca fútil de satisfação pessoal. Há critérios específicos de aproveitamento de talentos, de expressão do desejo humano que expressa a consciência de que determinadas experiências de vida é que permitem a evolução espiritual, bem mais do que "viver como se pode".

Aceita-se a namorada que a vida impuser, o emprego que estiver no caminho, a moradia que tem que se hospedar, sem verificar a questão de afinidades nem mesmo a do aprendizado. A única regra é abrir mão do que se gosta, até passar a aceitar o abominável, o aberrante, o surreal, até que o retorno ao mundo espiritual seja visto como uma esperança de "algo melhor".

Só que sabemos que o mundo espiritual ainda é um mistério. Existe vida espiritual, existe reencarnação, existe contatos com os espíritos. Mas o atrapalhado "movimento espírita" deturpa tudo isso e envolve essas ideias num processo em que envolve burrice, desonestidade e fantasia, criando concepções fictícias que são tidas como "realistas", "verídicas" e "fidedignas"... porque sim!

Note-se, por exemplo, a forma como é vista o Nosso Lar. Uma ficção copiada de outra ficção. Se o livro original, A Vida Além do Véu (Life Beyond the Veil), que o reverendo protestante de dons paranormais, o inglês George Vale Owen, produziu em cinco volumes, criava muita fantasia da espiritualidade, o clone brasileiro de Francisco Cândido Xavier e seu André Luiz foi muito mais fundo do que a fonte de inspiração.


Nosso Lar, o livro, é uma ficção científica ruim. Há rumores de que mesmo pré-adolescente na época (1943), o menino-prodígio do "movimento espírita" Waldo Vieira, fã de quadrinhos de sci-fi, teria dado sugestões. Ele também era de família de médicos, que também teriam encaminhado sugestões de narrativa e abordagem "científica".

A obra narra uma suposta colônia espiritual cuja localização é tida como no céu da cidade do Rio de Janeiro. Não é preciso dizer que isso influiu nos retrocessos que tomam conta da ex-Cidade Maravilhosa, reduzida a uma mistura de Disneylândia com "terra de ninguém", eu que os políticos e tecnocratas fazem o que querem e o povo é obrigado a aceitar e até a endeusá-los.

Nosso Lar, a colônia, é narrado como um complexo arquitetônico que envolve um misto de hospital com internato, o núcleo central desta "cidade do além", e é cercado de prédios imponentes e praças e parques muito atraentes.

A analogia que fizemos nas imagens desta postagem, com shopping centers, condomínios de luxo e outras construções é evidente. Só faltou dizer qual é a empreiteira que construiu Nosso Lar. As ilustrações mostram o caráter publicitário, puramente marqueteiro, desse mundo "espiritual" que muito tem de material.

Lá as pessoas comem, bebem, dormem, vão ao cinema, andam de BRT (Aeróbus), usam Bilhete Único (Bônus-Hora) não só para o transporte, mas também para o cinema, teatro, lanchonete, etc, e há uma concha acústica que, em tese, tocava música clássica. Isso em tese.

Afinal, do jeito que é o "espiritismo" brasileiro, o que se poderia observar são apenas arremedos de boa música, provavelmente um polido Mr. Catra acompanhado de orquestra sinfônica, um É O Tchan com dançarinas usando camisolas brancas, um Chitãozinho & Xororó tão pedantes quanto os da Terra, pretensamente sinfônicos e preciosistas com seu caipirismo de araque.

O livro Nosso Lar já é um pastiche de relatos futuristas e abordagens científicas que serve para dissimular todo o religiosismo blasé, retrógrado e viscoso, do moralismo mais canhestro, da fé mais apegada e fanática, que fez do livro um dos best sellers do charlatão Chico Xavier.

Sem estudos que nos façam sequer supor como seria a vida espiritual - longe das abordagens materialistas que o "movimento espírita" tão convictamente afirma em suas teses especulativas - , achamos que, quando morrermos, terá parentes nos esperando como que no desembarque do aeroporto e seremos transportados para pousadas que funcionam também como hospitais psiquiátricos.

Veremos o "bom da vida material" no além-túmulo? Haverá a separação correta entre o que é bom e mau, sendo o "lixo" depositado no chamado "umbral"? Cairemos na ilusão de irmos para lindos parques para ouvir passarinhos cantando em árvores ou a assistir a corais de anjos em cantos harmoniosos?

Tudo é muito complexo. Não sabemos o que é o mundo espiritual, simplesmente porque não estudamos, não pesquisamos, não questionamos. E os "espíritas" pioram as coisas quando nos aconselham a não questionar e a apenas "crer". Eles impõem a credulidade que dizem ser "fé raciocinada". Mas que fé raciocinada é essa em que a coisa que não se pode fazer é raciocinar?

Diante dessa falta de estudo, de raciocínio, de pesquisa, a vida espiritual é feita por especulação, a partir das paixões materialistas dos "espíritas", que desprezam a vida material que aqui temos, para sonhar com a vida material no além-túmulo, querendo assim que tenhamos que viver nossos pesadelos diários na esperança de alcançarmos os sonhos bonitos do amanhã.

E acreditamos em tudo isso até que um dia retornamos ao mundo espiritual e as ilusões "espíritas" são drasticamente desfeitas...

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Como se faz a ideologia da "caridade"?


Muitos ficam chocados quando se contestam totens associados à ideia consagrada de caridade e filantropia. Curiosamente, a gente vê o lado real dessas pessoas "tão bondosas": em maioria, elas reagem como egoístas, raivosas e rancorosas que ainda são, presos nas suas zonas-de-conforto da fé deslumbrada e do fanatismo religioso.

Ao divulgar que Francisco Cândido Xavier e Divaldo Franco fizeram muito pouco pelo próximo, portanto, muito menos que suas consagradas imagens sugerem, muita gente fica chocada e reage com fúria, irritada e deprimida, tomada dos piores sentimentos. Afinal, que energias elevadas eles julgam ter? Eles não conseguem ser bons e evoluídos por conta própria.

O que está em jogo é que muitas pessoas se aprisionam a uma ideia formal de caridade, solidariedade, fraternidade e amor ao próximo. São apenas ideias materialistas de humildade, estereótipos de desapego, abnegação, resignação e doação que se prendem aos clichês moralistas relativos à caridade.

Mesmo a ideia de fraternidade se subordina à ideia medieval de sermos forçadamente iguais, eliminarmos nossas individualidades e nossa diversidade. E a filantropia defendida é sempre aquela que não incomoda as estruturas das verdadeiras desigualdades que a fé religiosa deixa passar, com a complacência diante dos privilégios e abusos dos poderosos e dos algozes em geral.

O Brasil se mostra muito atrasado. Paciência, o país só tem 515 anos de existência, não passou por dramas que as nações europeias passaram, o que pode nos fazer apostar que uma Grécia no fundo do poço tenha maior capacidade para dar a volta por cima do que o Brasil festivo e triunfante que "apenas" vive "momentânea crise".

Daí que o nosso país se prende a uma ideia medieval de fraternidade, solidariedade e amor ao próximo, preso ao igrejismo e ao donativo elitista. Nosso "ativismo" se perde no maniqueísmo de Black Blocs e Revoltados On Line, de um lado, e as esmolas e inócuos cursos de alfabetização, de outro.

Surpreendemos em todo ano com muitas pessoas que, supostamente modernas, se demonstram profundamente conservadoras. Pessoas que parecem modernistas, alternativas, rebeldes, vanguardistas, acabam exibindo sempre algum ponto retrógrado no Brasil. Seja defendendo a degradação cultural do povo pobre ou a intervenção militar, a consciência das pessoas de uma forma ou de outra vai "descendo até o chão".

Dentro desse contexto, Chico Xavier é considerado "ativista" e "progressista" por coisa nenhuma. Isso porque no Brasil existe o chamado malabarismo discursivo, em que as pessoas tentam parecer mais avançadas e corretas do que realmente são, e ficam usando todo tipo de desculpa para adotar posições tão retrógradas.

E isso quando não há a tripla truculência de políticos obscurantistas como o deputado Eduardo Cunha, jornalistas reacionários como Reinaldo Azevedo e o fascismo circense dos trolls da Internet, a defender de modismos da mídia a preconceitos raciais, que causam apreensão de como será o futuro de nosso país.

Embora sabemos que o Catolicismo propriamente dito tenta sobreviver e crescem as chamadas "seitas evangélicas" no país, o "espiritismo", com sua retórica "racional", faz parte dessa "santíssima trindade" do obscurantismo da fé que busca dividir o tráfico de influência no país.

Daí que até mesmo entre pessoas libertinas há um certo conservadorismo ideológico. Movimentos de bregalização cultural, que se dizem defensores da causa LGBT e se autoproclamam libertários, defendem o duvidoso ofício da prostituição como algo "progressista", sem saber dos históricos de violência, machismo e criminalidade que cruzam os caminhos das prostitutas aqui e ali.

Isso é conservador porque os "animados ativistas", que cobrem suas personalidades direitistas com as bandeiras das esquerdas - há muitos assim entre a intelectualidade "cultural" mais reacionária, mas parasita de verbas da Lei Rouanet - , querem que as mulheres pobres sejam prostitutas a vida inteira, impedindo-as de buscar um trabalho melhor que não lhes dê só salário, mas dignidade.

É muito simplório dizer que o ativismo social é manter os pobres na pobreza, apenas "minimizando" seus efeitos. Se a intelectualidade cultural mais empenhada se comporta assim, se irritando quando sambas autênticos voltam a bater nos corações dos pobres moços, imagine quem vê a fraternidade e a solidariedade sob a miopia da fé religiosa!

A IDEOLOGIA DA "CARIDADE"

Criam-se paradigmas os mais inócuos e inofensivos de caridade, que apenas ajudam um pouco, sem romper com a desigualdade e a injustiça. Os próprios ideólogos da "caridade", como o próprio Chico Xavier, adepto da Teologia do Sofrimento, apelam para que aceitemos resignados o arbítrio dos algozes e dos dominadores, na esperança de que eles "pagarão pelo que fazem um dia".

Isso mostra o que é essa ideia de fraternidade que faz as pessoas dormirem tranquilas. Afinal, é uma ideia de filantropia e amor ao próximo que não trazem grandes transformações, apesar de tanta retórica nesse sentido. São apenas ações paliativas que minimizam o sofrimento mas não fazem as pessoas saírem definitivamente da miséria.

Afinal, os donativos que consistem em ser o carro-chefe dessa ideologia, sejam roupas, material de limpeza e alimentos para os pobres são apenas benefícios provisórios que se consomem. Se eles se esgotam, os pobres voltam à situação inferior que viveram antes. A caridade não teve resultado definitivo, porque foi apenas provisória, daí sua falta de mérito.

Há também os cursos de alfabetização e outras matérias escolares que apenas ensinam a ler e escrever, a fazer contas e respeitar as pessoas, mas não a pensar ativamente sobre a realidade em volta. Em muitos casos, a "brilhante educação" tem como preço o proselitismo religioso. "Você vai ler, escrever e até se virar na vida, mas tem que seguir nossas crenças", diz, não necessariamente de maneira assumida.

E realmente por que essa caridade não é transformadora, por mais que consiga tirar as pessoas da pobreza? Para responder a isso, podemos enumerar alguns aspectos da ideologia da "caridade" restrita a paradigmas religiosos para entender a situação:

1) As atividades em prol do próximo são geralmente paliativas ou de restrita eficiência.

2) Elas não representam ameaça ao sistema de desigualdades que causa esse mesmo quadro de pobreza, "melhorando" sem melhorar de fato.

3) A caridade se fundamenta sempre em valores fundamentados no conformismo e na resolução parcial e amena de problemas apenas de extrema gravidade.

4) Há uma exploração publicitária da imagem dos pobres, como uma multidão de gente submissa que deve obter melhorias relativas sem que ultrapassem sua pobreza simbólica, de gente resignada, ingênua e inócua, sempre defendida pela ideologia religiosa.

5) O sistema de relações sociais continua sendo desigual, e para quem sofre basta adotar uma postura de resignação e submissão dócil, com batalhas apenas limitadas ao que o "sistema" permite para "vencer na vida", dentro dos estereótipos trazidos pela meritocracia.

6) A caridade paliativa causa uma sensação enganosa de que as pessoas estão ajudando, e disfarça a insegurança moral dos indivíduos que não costumam ser dispostos a ajudar de maneira ampla e efetiva, e até constroem suas vaidades atraves da caridade pouca (em quantidade e qualidade) que exercem.

E AS "CARIDADES" DE CHICO XAVIER E DIVALDO FRANCO?

Chico Xavier ajudou pouco, dentro dos limites que o conservadorismo religioso permite para a filantropia. Nada que o pudesse ser visto realmente como ativista e transformador. Doações de cestas básicas, algumas visitinhas a obras de caridade, e a "caridade de cabra-cega" que é deixar de receber dinheiro pela venda dos livros e outros produtos associados.

Por que "caridade cabra-cega"? Porque o "beneficiado" simplesmente não vê o dinheiro chegar em suas mãos. Ele deixa de recebê-lo e só. Isso não corresponde, necessariamente, a um ato de generosidade, mas apenas a renúncia de receber algum dinheiro.

Além disso, o dinheiro era destinado para a cúpula da Federação "Espírita" Brasileira, o que não é um ato de caridade, em si. Até porque os líderes são poderosos e sabemos que instituições assim também acumulam bens materiais.

Um exemplo é que o poderio do então presidente Antônio Wantuil de Freitas, "padrinho" religioso de Chico Xavier e seu parceiro na produção de vários livros, sobretudo os que levam (de forma fútil) o nome de Humberto de Campos, foi alimentado por essa doação de cachê e fez a FEB ter seu domínio cada vez mais centralizador, discriminando até mesmo as federações regionais coligadas.

Algumas aparentes caridades de Chico Xavier foram paliativas, apenas minimizando os efeitos extremos da pobreza. Mas nada que transformasse o povo brasileiro num padrão de Primeiro Mundo. Por outro lado, algumas das outras alegadas caridades de Chico Xavier se revelaram bastante traiçoeiras e oportunistas.

Daí, por exemplo, as psicografias bastante duvidosas. É até estranho que Chico Xavier, que dizem ter feito também psicofonia, seja pouco conhecido nessa atividade. Ela apenas é defendida pelo viúvo de Irma de Castro, Meimei, o já falecido Arnaldo Rocha, que alega ter registrado psicofonias entre 1954 e 1956.

Curiosamente, também, é estranho que o Chico Xavier das supostas psicografias "reapareça" agora em psicofonias, via Ariston Teles, e não por supostas psicografias, atividade mais típica de seu mito, até por causa das tais misteriosas e risíveis "senhas".

A crueldade está em torno da usurpação dos nomes dos mortos, não só através da fraude de cartas e livros que mostram apenas o estilo do "médium" e, no caso das cartas, só mostram sua caligrafia pessoal, como por dois aspectos traiçoeiros que a medida acaba trazendo para as famílias dos falecidos.

Primeiro, é o prolongamento das tragédias familiares, que poderiam ser sofridas na intimidade de seus lares, mas são exploradas pelo sensacionalismo midiático e pelo exotismo que a glamourização dessas tragédias, sobretudo a de jovens de boa aparência, inspira no grande público.

Segundo, é o fato de que o caráter mediúnico é bastante duvidoso, porque as mensagens têm sempre o estilo do "médium" e a caligrafia dele, o que torna incerto o caráter de consolação de mensagens divulgadas dessa forma.

Chico Xavier era moralista, ultraconservador, católico heterodoxo em método - afinal, era um paranormal - , mas bastante ortodoxo em ideias. Era devoto de Nossa Senhora da Abadia e Santa Teresa de Lisieux, uma das ideólogas da Teologia do Sofrimento.

Por outro lado, Chico Xavier se promovia através dos mortos, levianamente evocados, em mensagens "espirituais" que mostram divergências sérias à personalidade original de cada falecido. Humberto de Campos, que havia sido intelectual e literato, mais parecia um padre católico nas obras atribuídas a seu espírito.

A caridade de Divaldo Franco também não foi muita. Além de compartilhar da mesma psicografia e psicofonia irregulares de Chico Xavier, seu trabalho filantrópico, que chegou a ser comemorado por uma reportagem do Fantástico, da Rede Globo (logo ela), na Mansão do Caminho, não foi mais do que meramente inexpressivo.

Isso não é maledicência de gente invejosa. É só fazer os cálculos. A Mansão do Caminho, surgida em 1952, alega ter ajudado cerca de 160 mil pessoas, em toda sua existência. Isso requer um cálculo, comparando esse dado com o da população de Salvador e o tempo de existência da instituição.

Primeiro dividimos o número 160.000 por 63, correspondente ao tempo de atividade da Mansão do Caminho em 2015. Dá algo em torno de 2.540, equivalente à média de beneficiados por ano. Depois, comparamos com o número de habitantes de Salvador, cerca de 2,9 milhões, que arrendondamos para 3 milhões devido às irregularidades do êxodo rural, já que as cidades do interior baiano costumam creditar como seus habitantes cidadãos que delas emigraram para a capital baiana.

Isso significa fazer a prova dos nove, colocando 3.000.000 como 100% e 2.540 como "x" e o resultado obtido dá 0,08%. O que indica que Divaldo Franco só beneficiou menos de 1% da população de Salvador, número bastante inexpressivo que, em escala mundial, é sinônimo de nada. Ser considerado o maior filantropo do mundo dessa maneira é completamente ridículo.

A caridade existe de outras formas, e é fora da religião que existem exemplos mais belos, em que a solidariedade ultrapassa os limites do sofrimento resignado e da submissão devota. O Método Paulo Freire é um exemplo, em que o educador mineiro ensina alfabetização mas também com estímulo ao raciocínio crítico, à mobilização comunitária e até uma introdução ao trabalho jornalístico.

Personalidades como o poeta Vinícius de Moraes, Oscar Niemeyer e Mário de Andrade também fizeram muita caridade, apoiando projetos em prol da cultura brasileira e das causas democráticas. Uma caridade de cabeça erguida, sem as amarras da fé. Isso é que muitos não conseguem perceber, apegados a paradigmas religiosos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Filantropia de Chico Xavier não passou de jogada marqueteira da Rede Globo


Sabe-se que Francisco Cândido Xavier tem uma trajetória muito mais cheia de confusões e escândalos do que qualquer esboço de coerência e consistência. Só que ele é adorado, até de maneira ferrenha e fundamentalista, porque ele é "bonzinho".

As pessoas falam tanto na sua "bondade e humildade", elas que não conseguem ser boas e humildes por conta própria. Além do mais, que bondade Chico Xavier realmente fez? As "afirmações" são muito vagas, superficiais e subjetivas, não têm qualquer tipo de embasamento.

O que poucos se lembram é que a "bondade e humildade" de Chico Xavier não passa de um truque publicitário montado pela Rede Globo de Televisão, à semelhança do que o jornalista britânico Malcolm Muggeridge, da BBC, fez com Madre Teresa de Calcutá, no documentário Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), de 1969.

MALCOLM MUGGERIDGE "INVENTOU" O MITO "FILANTRÓPICO" DE MADRE TERESA.

A Madre Teresa, na verdade a freira albanesa Anjezë (ou Agnes) Gonxhe Bojaxhiu, era apenas uma católica como outras que montaram instituições aparentemente filantrópicas, a partir dos anos 1950. Iniciativas sem muito caráter transformador, apenas um alojamento de pessoas infelizes, que não necessariamente são assistidas de forma brilhante, mas apenas paliativa.

De repente, o documentário de Muggeridge tocou nos sentimentos que misturam o apreço pelo sensacionalismo midiático e uma moral herdada do Catolicismo desde a Idade Média, e aí a Madre Teresa acabou sendo vista como "santa" e até canonizada pelo Vaticano.

No Brasil, Chico Xavier já havia sido mitificado como um paranormal católico que tentava se passar por "porta-voz dos mortos", primeiro usando nomes de poetas ilustres, através de Parnaso de Além-Túmulo, de 1932. A fraude não foi difícil de ser constatada, diante de dois aspectos:

1) O livro, que se pretendia "expressão acabada dos espíritos superiores", teve que sofrer bruscas revisões cinco vezes e no prazo de 23 anos. o que causa muita estranheza, afinal, um livro que se supõe contar com "mensagens mais elevadas da espiritualidade" nunca iria fazer revisões tão sucessivas e durante muito tempo, bastando sua primeira edição como definitiva. Em vez disso, poemas foram reescritos, outros foram incluídos, outros excluídos. Isso é elevado?

2) Os poemas apresentados não correspondem aos estilos dos autores originais. Há pastiches literários que apenas se assemelham na forma, à primeira vista, como um produto pirata, visto de longe, se parece muito com o original. Olavo Bilac "perdeu" a métrica poética. Castro Alves, o seu lirismo baiano. Auta de Souza, a sua doçura de menina. Antero de Quental, a sua dramaticidade lusitana.

MADRE TERESA DE CALCUTÁ, EM DOCUMENTÁRIO DA BBC, E CHICO XAVIER, EM REPORTAGEM DO JORNAL NACIONAL, DA REDE GLOBO.

Até o Brasil ter alguma noção da repercussão de Algo Bonito para Deus, que como de praxe ocorreu em meados dos anos 1970, Chico Xavier era trabalhado como um mito de maneira atrapalhada e sujeita a escândalos.

De incidentes como a usurpação do nome de Humberto de Campos - que teria sido uma revanche de Chico Xavier contra a resenha um tanto irônica que o autor maranhense fez a Parnaso de Além-Túmulo, já que Chico inventou um suposto Humberto que escrevia não como intelectual mas como um padre - ao caso da farsante Otília Diogo, o mito de Chico trilhava um caminho de pedras.

Ele só se tornou mais organizado tempos depois, por volta de 1977, 1978, quando as Organizações Globo fizeram as pazes com Chico Xavier. Sabe-se que a corporação da família Marinho, por influência de católicos ortodoxos como Gustavo Corção, Alceu Amoroso Lima e outros, era inicialmente hostil a Xavier e chegou a corroborar denúncias que o Diário de Minas divulgou em 1958, vindas do sobrinho Amauri Xavier Pena, que disse que a mediunidade do tio era uma farsa.

Duas décadas depois, a família Marinho fez as pazes e as relações da Globo com Chico Xavier são tão harmoniosas que os filmes relacionados à trajetória dele e suas obras são co-produção da Globo Filmes, e se encaixaram bem na linha noveleira de sua dramaturgia.

MADRE TERESA DE CALCUTÁ E CHICO XAVIER ACOLHENDO CRIANÇAS - SEMELHANTE APELO PUBLICITÁRIO.

A Rede Globo herdou da extinta TV Tupi a apreciação de Chico Xavier. Sabe-se que os Diários Associados viveram uma relação de amor e ódio contra o anti-médium mineiro. Geralmente a revista O Cruzeiro era contra e a TV Tupi (casa de amigos como Augusto César Vannucci, Nair Bello, Ivani Ribeiro e Ana Rosa), a favor.

O Cruzeiro tinha reportagens como as de David Nasser e Jean Manzon que desconfiaram das obras literárias que Chico Xavier atribuía a espíritos de grandes escritores, sem falar do caso da ilusionista Otília Diogo, desmascarada diante das fraudes de materialização que contaram com o apoio de Chico e Waldo Vieira (provavelmente o episódio foi pivô do rompimento entre os dois).

A TV Tupi foi a primeira a transmitir a novela A Viagem, de Ivani Ribeiro, inspirada em Nosso Lar. Tinha profissionais, como os acima citados, que eram amigos e seguidores de Chico Xavier. Além disso, o programa Pinga-Fogo também recebeu Chico Xavier para a famosa entrevista de 1971 (na qual ele se assumia católico e defendia a ditadura militar) porque o apresentador era amigo dele.

Se prestarmos atenção nas reportagens que passaram a ser feitas, no final dos anos 1970, sobre Chico Xavier, observa-se todo o roteiro do documentário de Muggeridge. Todo o discurso devocional, marcado por tomadas como o suposto filantropo acolhendo humildes e sendo recebido pela população, o cuidado com pessoas carentes e tudo o mais.

OUTRO APELO PUBLICITÁRIO: MADRE TERESA E CHICO XAVIER ACOLHENDO HUMILDES.

A única diferença é o contexto brasileiro, como foi o caso de Chico Xavier representar a visão de Jean-Baptiste Roustaing, o homem que primeiro deturpou a doutrina do pedagogo Allan Kardec. Associar Chico Xavier ao roustanguismo é muito doloroso para seus seguidores, mas é uma realidade da qual não cabem contestações diante de tantas e tantas evidências deixadas em livros.

No caso da Globo, há os aspectos brasileiros, há a atividade "mediúnica" no lugar dos "lares de moribundos", a roupagem "espírita" no caso de Chico Xavier etc. Mas a verdade é que, descontados esses aspectos particulares, tudo o que se fez a respeito de Chico Xavier é idêntico ao trabalho de Malcolm Muggeridge.

MADRE TERESA E CHICO XAVIER ERAM ADEPTOS DA TEOLOGIA DO SOFRIMENTO.

Com base no caso de Madre Teresa, a grande mídia brasileira, num contexto de crise causada pela ditadura militar, que não conseguiu realizar o prometido desenvolvimento do país, precisava também de um mito que se associasse aos estereótipos de amor e bondade usados para anestesiar as almas humanas.

Dessa forma, as reportagens que programas da Globo, como Jornal Nacional, Globo Repórter e Fantástico sobre Chico Xavier tinham o mesmo roteiro de Muggeridge devidamente adaptado. Os mitos de bondade, humildade e caridade eram trabalhados com todos os clichês conhecidos.

Além de aparecerem acolhendo pobres, abraçando crianças e sendo saudados pela população, eles ainda davam depoimentos com frases de efeito, ideias aparentemente elevadas mas que, em dado momento, sempre esbarravam na apologia ao sofrimento e em valores ultraconservadores do mais rígido moralismo, que pregavam a subserviência dos humildes e dos bons.

Tanto Chico Xavier quanto Madre Teresa eram adeptos da Teologia do Sofrimento, defendendo a frase de Santa Teresa de Lisieux, que disse que "o próprio sofrimento passa a ser a maior das alegrias, quando é buscado como o mais precioso dos tesouros", interpretando de forma deturpada e sado-masoquista a visão glamourizada do martírio de Jesus.

PONTOS SOMBRIOS: POBRES MAL-TRATADOS PELA MADRE TERESA E FALSA PSICOGRAFIA DE CHICO XAVIER.

Tanto Madre Teresa de Calcutá quanto Chico Xavier apresentaram pontos sombrios em suas trajetórias. A partir de pesquisas divulgadas pelo escritor inglês Christopher Hitchens e por acadêmicos canadenses, a caridade de Madre Teresa mostrou aspectos negativos, como o descaso aos abrigados em suas casas de caridade e o apoio dela aos poderosos.

Enquanto os pobres e miseráveis eram alojados uns aos outros sem qualquer proteção, facilitando o contágio de suas graves doenças, e eram remediados apenas com aspirina e parecetamol, enquanto tesouras e seringas eram reutilizadas sem higiene e lavadas apenas com água suja de torneira, Madre Teresa desfilava ao lado de ditadores, políticos tiranos e magnatas corruptos sob o pretexto de atrair dinheiro para si e "doá-lo" para os grandes sacerdotes do Vaticano.

Chico Xavier fazia pastiches literários, usava "leitura fria" através de seus colaboradores para colher o máximo de informações sobre pessoas falecidas e forjar cartas que tinham o mesmo estilo do "médium" e só apresentavam sua caligrafia, enquanto repassava os lucros de seus livros para os chefões que comandavam a Federação "Espírita" Brasileira, cuja sede (primeiro no Rio de Janeiro, na Av. Passos, depois em Brasília) é apelidada de "Vaticano" por causa de sua pompa.

É até lamentável que familiares, como a senhora que mostra uma "carta mediúnica" na foto acima, acreditem na "veracidade" dessas cartas, que só mostram a caligrafia de Chico Xavier até mesmo quando é no caso da suposta assinatura espiritual. Exibem tais cartas como se fossem um troféu, um atestado de suposto contato com os espíritos do além. Mas nada há que indicasse, de maneira segura e confiável, alguma caligrafia do espírito atribuído em cada mensagem.

Chico Xavier também cortejava os poderosos e não representou qualquer ameaça a eles. Pelo contrário, sua figura tranquilizava os conservadores e a ditadura militar nunca agiu contra ele. Até a frase "não censures" do "mentor" Emmanuel não tem a ver com o protesto contra o arbítrio militar - que Chico Xavier achava necessário para "reprimir ideologias desagregadoras" - e sim com o apelo para que ninguém questionasse coisa alguma na vida.

Entre os seguidores de Chico Xavier, a comparação com Madre Teresa de Calcutá é até estimulada e defendida. Chegam mesmo a ficar entusiasmados diante dessa postura. Mas, entre os questionadores de Chico Xavier, faltou um Christopher Hitchens que pudesse repercutir bem com as investigações sobre o lado sombrio de sua "filantropia" que nunca foi além de medidas paliativas e outras até traiçoeiras, como sua falsa psicografia.

Talvez nesse aspecto é que Chico Xavier, mesmo com um mito bastante confuso e cheio de irregularidades, torna-se um mito difícil de ser desmascarado. O de Madre Teresa o foi, mesmo quando houve o risco de Hitchens chamá-la de "anjo do inferno", em contraste com a imagem de "santa" que ela expressava ainda viva.  Talvez pelo fato do Brasil ser, em si, um país confuso e irregular, que mal recomeça a se conhecer e se reencontrar.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Curto e grosso: Erasto reprovaria Chico Xavier

CHICO XAVIER SERIA REPROVADO, SEM RECUPERAÇÃO, PELO ESPIRITISMO AUTÊNTICO. E SEM ESSE PAPO DE SER BONZINHO.

Alguns ideólogos "espíritas", desesperados com as críticas que receberam, assustados com a crise que seu movimento sofre nos últimos anos, a pior desde que a corrente roustanguista - ligada a Jean-Baptiste Roustaing, o primeiro deturpador da Doutrina Espírita - , sofreu sua grave crise no Brasil e deu origem à atual corrente dúbia, agora tentam apelar.

Eles tendenciosamente usurpam o pensamento de Erasto, o espírito do antigo discípulo de Paulo de Tarso que havia divulgado seu aviso enérgico através de um discreto médium, conhecido apenas pelo nome de Sr. d'Ambel, discreto membro da Sociedade Espírita de Paris.

Tentam deturpar o sentido do aviso de Erasto para acobertar as mistificações que o "movimento espírita" sofre e se esforçam em manter de pé o abalado mito de Francisco Cândido Xavier, um dos maiores charlatães e traidores do pensamento espírita no mundo.

Tentam "salvar" Chico Xavier usando como pretexto a "bondade e humildade" a ele associadas. Só que sabemos que toda essa imagem maravilhosa não passava de um truque de marketing, rigorosamente semelhante ao que se fez com Madre Teresa de Calcutá.

E, para quem acha que isso tudo nada tem a ver com manipulações da mídia, advinhem quem espalhou a ideia de que Chico Xavier era "o homem mais bondoso do mundo": a Rede Globo de Televisão, capaz de promover bonapartistas como Fernando Collor e Aécio Neves como se fossem "heróis salvadores" da nação brasileira.

E tudo isso copiando milimetricamente o documentário Algo Bonito para Deus (Something Beautiful for God), que o jornalista Malcolm Muggeridge fez sobre Madre Teresa. As reportagens sobre Chico Xavier nos jornalísticos da Globo imitavam as tomadas, as abordagens, o discurso, colhiam do enfocado frases de efeito, criando todo um marketing da caridade com níveis de generosidade no padrão de um McLanche Feliz.

Chico Xavier não ajudou muito. Há milhões de brasileiros que dão um banho nele em caridade, sem sombra de dúvida. Até Vinícius de Moraes fez mais caridade que Chico Xavier. O que o anti-médium fez foi apenas caridade paliativa, recusar a receber pelo faturamento dos livros e só. Ele fez até atos "caridosos" que, numa observação cautelosa, se revelam bastante maliciosos.

Vide a falsa mediunidade dele. Obras literárias que não correspondem ao estilo original dos autores espirituais alegados. Cartas supostamente mediúnicas que só possuem o estilo e a caligrafia do suposto médium, e levantam indícios sérios de "leitura fria" (método de seduzir um entrevistado a dar informações mais sutis) e pesquisas diversas para forjar dados de indivíduos mortos.

Só as "cartas mediúnicas", supostamente consoladoras, causaram mais problemas que confortos. Pior: até o suposto conforto espiritual era, em si, um engano. E só essas cartas revelam uma série de maldades que Chico Xavier acabou causando nas pessoas. Vamos a elas:

1) As cartas causavam divisão em muitas famílias e grupos de amigos, porque havia alguns familiares desconfiados com o teor das mensagens divulgadas e outros não. As mensagens "consoladoras" mais desuniam que uniam, nesse sentido, pois havia os que se despertaram no ceticismo e havia os que se adormeciam na fé.

Um aspecto curioso é em relação aos amigos de Jair Presente, um jovem que morreu afogado em 1974 e que teve seu nome associado em algumas mensagens divulgadas por Chico Xavier, ainda naquele ano. Os amigos, que conviveram com Jair, nunca acreditaram na veracidade das mensagens ditas espirituais, e Chico Xavier ficou irritado (isso mesmo: IRRITADO) com isso.

2) As cartas prolongavam o sofrimento das famílias que perderam entes queridos, pela exposição a que eles estavam sujeitos e pela publicidade que fazia os efeitos das tragédias perpetuarem por meses e até por anos. Se Chico Xavier ajudou alguém, ele ajudou, na verdade, a imprensa sensacionalista, que encontrou em seus trabalhos farto material para notícias bastante apelativas.

3) O caráter fraudulento das cartas e dos livros revelava que Chico Xavier pesquisava muito, lendo muitos livros e imitando - com imperfeição e grandes falhas, diga-se de passagem - os estilos dos autores falecidos. Houve denúncias de que ele havia confundido, em estilo, o poeta português Antero de Quental com o parnasiano brasileiro Augusto dos Anjos, dadas pelo crítico literário Osório Borba.

Chico Xavier chegava a plagiar capítulos inteiros de livros. Geralmente os livros eram escritos por ele e outros parceiros, como Antônio Wantuil de Freitas, presidente da Federação "Espírita" Brasileira. Geralmente os livros eram verdadeiros "Frankensteins" literários, montados a partir de plágios e citações diversos.

Quanto às cartas, era comum que Chico Xavier tivesse, nos "centros espíritas" em que atuava, colaboradores que colhiam informações, via "leitura fria" (técnica psicológica que se fundamenta numa entrevista "mais intimista"), dos parentes dos mortos. Mas outros recursos eram aproveitados, desde uma conversa informal no fim de uma doutrinária até dados colhidos em fontes que variam de notícias na imprensa até diários deixados pelos próprios mortos.

4) As atividades "mediúnicas", da forma como são feitas, eliminam o caráter intermediário do suposto médium. Ele deixa de ser o "canal" para ser o "emissor". O "médium" passa a ser o centro das atenções e, portanto, deixa de ser médium, no sentido da palavra "medium", "intermediário". Vira o anti-médium, o paranormal-estrela, o dublê de pensador e arremedo de conselheiro sentimental.

Em outras palavras, a atividade acaba transformando o "médium" em celebridade, contrariando a reputação dos verdadeiros médiuns dos tempos de Allan Kardec, tão discretíssimos que a eles cabia apenas servir de intermediários dos contatos espirituais, sem cair na tentação de bancarem os falsos filósofos.

Aliás, Erasto deu o seu recado através de um desses discretos médiuns, tão discreto que foi conhecido praticamente só por um sobrenome, d'Ambel. O extremo oposto de Chico Xavier e Divaldo Franco, que usam seus nomes todos para identificar suas carreiras de estrelas, dublês de pensadores, pretensos filantropos, sempre a dar pitaco nas vidas das pessoas e bancar os "donos da verdade".

Erasto advertiu que os espíritos mistificadores viriam, Com toda a mensagem inserida como resposta ao item 230 do capítulo XX de O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec, Erasto, definido como um espírito que produziu considerações com o cunho incontestável da profundidade e da lógica, parecia se dirigir, neste texto, a Chico Xavier.

Prestemos muita atenção a esse relato, lançado em 19 de setembro de 1861, de contundente atualidade:

"É essa a pedra de toque das imaginações ardentes. Porque, levados pelo ardor das suas próprias idéias, pelos artifícios dos seus conhecimentos literários, os médiuns desprezam o ditado modesto de um Espírito prudente e, deixando a presa pela sombra, os substituem por uma paráfrase empolada. Contra esse temível escolho se chocam também as personalidades  ambiciosas que, na falta das comunicações que os Espíritos bons lhe recusam, apresentam as suas próprias obras como sendo deles".

Note-se que os livros de Chico Xavier sempre possuem as tais "paráfrases empoladas", arremedos de erudição que revelam uma escrita pesada, misturando "ideias heterodoxas" (contrárias à Doutrina Espírita e várias explicitamente fora de qualquer sentido lógico) com "coisas boas", de forma a seduzir os leitores mais incautos.

Esse outro trecho de Erasto também serve para reprovar Chico Xavier, e é bom prestar atenção nestas seguintes palavras:

"Mas onde a influência moral do médium se faz realmente sentir é quando este substitui pelas suas pessoas aquelas que os Espíritos se esforçam por lhe sugerir. É ainda quando ele tira, da sua própria imaginação, as teorias fantásticas que ele mesmo julga, de boa fé, resultar de uma comunicação intuitiva. Nesse caso, há mil possibilidades contra uma de que isso não passe de reflexo do Espírito pessoal do médium".

Pesquisas sérias apontaram esse aspecto em Chico Xavier. Vide as "cartas" que tinham o mesmo estilo de narrativa e apelos religiosos. Além disso, em livros como os que usam o nome de Humberto de Campos, é gritante a presença do "estilo Chico Xavier".

O coitado do Humberto, intelectual laico de seu tempo, "voltava" em livros com linguagem de padre! Mas havia outros casos. Nos poemas supostamente espirituais, Auta de Souza, por exemplo, deixava de ser ela mesma para ser Chico Xavier. E o suposto Olavo Bilac abria mão de seu próprio talento poético em nome da "caridade".

Erasto recomendava não dar ouvidos a médiuns e espíritos mistificadores. Ele se consagrou com a frase "mais vale repelir 10 verdades do que aceitar uma única mentira". Ele sempre alertava que a mentira se mostraria habilidosa, cheia de mensagens atraentes, com um simulacro de amor e bondade, pronta a seduzir e convencer as pessoas invigilantes.

Pois Chico Xavier comprovadamente cometeu atos e posturas contrários à razão e ao bom senso. Isso os fatos mostram e não dá para escondê-los sob o verniz da "bondade e humildade". O anti-médium mineiro personificou muito bem os erros e mistificações que Erasto tentava evitar.

E se Erasto tentava prevenir os franceses das armadilhas depois reveladas pela "revelação da revelação" de Jean-Baptiste Roustaing, o roustanguismo foi depois adaptado para o contexto brasileiro por Chico Xavier, que muito inseriu de Roustaing no seu confuso e emporcalhado caldeirão de ideias.

O chiquismo é o roustanguismo com tempero brasileiro, como se Roustaing se servisse da culinária mineira. E se Erasto reprovou Roustaing, reprovaria Chico Xavier sem qualquer hesitação. E para ele não tinha essa conversa de "respeitar Chico Xavier por sua bondade e humildade". Até porque essas qualidades são muito vagas e duvidosas, e ainda mais ante os gravíssimos erros que Xavier fez em relação à Doutrina Espírita.

O próprio Erasto disse:  "Deve-se então eliminar sem piedade toda palavra e toda frase equívocas, conservando no ditado somente o que a lógica aprova ou o que a Doutrina já ensinou".  Diante disso, Erasto nunca aprovaria Chico Xavier.

Quem for que usasse os recados de Erasto para defender Chico Xavier, pode garantir é mentira da grossa. Pois essas pessoas, que existem aos montes no "espiritismo", só querem usar uma mensagem de sentido lógico e coerente para deturpá-la em benefício delas, acobertando mentiras pelo véu da falsa lógica e do falso bom senso.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Quem é que deixou Eduardo Cunha ser eleito?


Quem é que deixou Eduardo Cunha ser eleito? A prepotência descomunal e o senso de astúcia e oportunismo do presidente da Câmara dos Deputados, seu apetite por corrupção e sua arrogância em desmenti-la e ameaçar as pessoas mostra o quanto ele é um perigo para o país.

E quem elegeu Eduardo Cunha? Boa parte dos cariocas. Já dá para perceber que o Rio de Janeiro, que sofre uma infinidade de retrocessos, contribuiu muito para a chegada ao poder de uma figura dessas, um ex-chefão da Telerj que, como político, era um dos mais medíocres do Estado.

Até ser escolhido presidente da casa legislativa, Cunha era um político inexpressivo. Como vários do PMDB carioca que se promovem causando estragos na Segurança, no Transporte e na Economia, sem dar Educação que preste, sem garantir moradia digna para a população e fazendo pouco e comemorando demais para isso.

Só para se ter uma ideia, outro Eduardo, o Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro tão autoritário quanto seu xará, mas com a diferença de saber usar a simpatia, afirmou, feliz da vida, que a (ex-) Cidade Maravilhosa vai ganhar 10 mil novas casas em um prazo de dez anos.

Façam os cálculos. 10 mil casas em 10 anos. Mil casas por ano. O Rio de Janeiro tem mais de seis milhões de habitantes. Construir mil novas casas é muito pouco, diante da grande população que os recenseadores chegaram a contabilizar, fora aqueles que o Censo de 2010 nem chegou perto, já que sabemos que em muitas favelas os criminosos governam com mãos de ferro, em poder paralelo ao Estado.

E isso com galpões desocupados, edifícios com apartamentos ociosos, muitos terrenos baldios, muito espaço urbano ocioso. O Rio de Janeiro está assim, mesquinho, embora se deva respeitar seu povo, até porque é ele o maior lesado dessa tragicomédia toda.

As pessoas já ficam desnorteadas no direito de ir e vir. Primeiro, foram os ônibus padronizados que fizeram o povo ficar confuso, pegando o 328 para Bananal achando que está pegando o 378 para Marechal Hermes, ou correndo atrás do 229 para Usina acreditando ser o 119 para Copacabana (acho que não existe mais essa linha, né?).

E aí tem a redução de itinerários. Agora é um clone da 455 que só vai até a Candelária, e a pessoa que tem sorte de pegar um lugar sentado no terminal Gelton, no Méier, coitado, vai ter que pegar um ônibus em pé na Central, chegando cansado ao trabalho na Zona Sul.

E o secretário Rafael Picciani, em seu complexo de superioridade - de repente o rapazinho rico passou a se achar "entender de ônibus" - , disse que isso era para "racionalizar" o sistema de ônibus. e ele, com sua "vivência" no transporte coletivo (deve ter conhecido os ônibus cariocas através das novelas da TV Globo), acha que só 20% da população iria usar a baldeação.

Vá entender. Para ele, ônibus com lotação ideal é aquele que sai do ponto inicial com todos os passageiros sentados e no mínimo seis pessoas em pé. E tem os ambulantes e o pessoal que carrega caixas de isopor com bebida para vender na praia.

Isso é reflexo do autoritarismo dessa turma toda da política carioca, seja Eduardo Cunha, seja a turma do Eduardo Paes, Luiz Fernando Pezão e Sérgio Cabral Filho, sejam os "generosos" Carlos Roberto Osório, amigo dos "cartolas", o José Mariano Beltrame que hoje é acusado de improbidade administrativa e tudo o mais. Fora da órbita do PMDB, só a trolagem parlamentar de Jair Bolsonaro.

VAMOS "SER FELIZES"?

Dá para perceber que, nas mídias sociais, os cariocas e seus simpatizantes do Sul e Sudeste andam muito, muito aborrecidos. Eles querem um Facebook feliz, um Twitter asséptico, um WhatsApp alto astral, um YouTube mais condescendente, um Instagram mais positivo.

Essa "boa sociedade" e seus colegas de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, andam boicotando quem faz muitas críticas aos absurdos da realidade de hoje e andam definindo esses contestadores como "chatos" e "insuportáveis". A onda de "acomodados" ou "conformados on line" quer que as mídias sociais sejam quase um mar de rosas.

A gente diz quase, porque, se for para esculhambar o Partido dos Trabalhadores e dizer que Luís Inácio Lula da Silva é reencarnação de Al Capone, isso é válido. Dizer que o PT foi o partido mais corrupto da História do Brasil - ninguém mais se lembra da roubalheira da República Velha - também é estimulado pelos Acomodados On Line.

Mas, fora isso, o que se aceita são vídeos de bichos fazendo gracinhas, crianças pequenas cantando - tinha um menino cantando sobre galinha, sobre pintinho fazendo piu-piu - , publicar fotos tomando cerveja em alguma adega em Petrópolis ou similares e fotos com times de futebol carioca. Claro, é o fanatismo do futebol que faz cariocas gritarem até mesmo no final da noite.

Só que esse "convite à felicidade" não tem a ver com a celebração do bom humor para levar a vida na frente. Até porque as pessoas que pensam assim são as mais mal-humoradas do mundo. Eles cobram dos outros a "felicidade" que são incapazes de transmitir.

Esse "convite" tem muito mais a ver com o peso da consciência de uma parcela de cariocas "bem de vida" que, apoiados por seus congêneres do Sul e Sudeste, elegeram o Eduardo Cunha esperando que ele desse uma injeção de moralidade no país. Acabou ele fazendo o contrário.

Elegeram Cunha e também o Bolsonaro e por isso pagaram um preço caro de ver dois encrenqueiros no Congresso Nacional. Isso refletiu uma vocação autoritária dos cariocas que, num momento, permitia a trolagem aberta nas mídias sociais, mas como hoje isso pode ser enquadrado como crime, dependendo do caso, agora a onda é o mau humor enrustido.

"Vamos ser felizes e pronto". Que inventemos o "mar de rosas" artificial nas chamadas "redes sociais", já que se tem até praia artificial, no entorno de Madureira e bairros vizinhos. Se é livro para colorir, aceitemos. Se é vlogues de piadas no YouTube, aceitemos. Se é criancinha dublando cantor veterano na TV, aceitemos. Mesmo se a marquise cair sobre nossas cabeças.

A ideia é se preparar para as Olimpíadas e darmos a impressão de que somos felizes para os turistas, que o Rio de Janeiro é a cidade mais moderna do mundo e até o esgoto da Baía da Guanabara deve ser visto como uma lama medicinal temperada por algas marinhas no cio.

A obrigação da "felicidade" exigida pelos cariocas "bem de vida" e seus "papagaios de pirata" que vivem até em Londrina, Uberlândia e Mogi das Cruzes, a aceitação de que, num momento de intensa decadência cultural, a cultura de qualidade sobrevive fechada em espaços raros e pequenos que nem seus apreciadores conhecem, tem, portanto, dois motivos.

Um é esquecer que o Rio de Janeiro, com seus retrocessos e o reacionarismo das elites - até os trolls cariocas tinham o temperamento e o QI do Comando de Caça aos Comunistas - , é em boa parte responsável pela eleição de Eduardo Cunha e Jair Bolsonaro, que despejam seus preconceitos sociais lá em Brasília.

Outro é preparar-se para o evento Rio 2016 e dar a impressão de que se trata de uma nação feliz, alegre, positiva. Por isso é que, quando pessoas andam carregadas de senso crítico, analisando problemas sérios e urgentes, a discriminação contra elas explode nas mídias sociais e o sol artificial dos "bem de vida" se torna uma tempestade de nuvens cinzas e trovões de mau humor e desaforos.

Até quem tem boa cultura e vê seus espaços serem fechados passaram a ficar felizes, como as pessoas que perdem livrarias e espaços de arte e acham que lhes basta pesquisar arte e literatura pelo Google (inclusive o Google Livros que nunca reproduz um livro na íntegra)

Ou então, no âmbito musical, é a MPB com novos talentos isolados e exilados em programas obscuros da TV paga e webradios de rock que não dão para sintonizar na praia, enquanto a Rádio Cidade, na sua forte sintonia disponível em qualquer lugar e também com versão webradio, trata a cultura rock como se fosse uma bobagem curtida por filhinhos-de-papai.

Quer dizer, temos que ser felizes para os outros ou eles reagirão infelizes conosco. Se perdemos quase tudo, fiquemos felizes e agradeçamos aos nossos algozes que nos fazem de gato e sapato. Tudo por umas míseras medalhas de ouro e prata que pouquíssimos dos nossos atletas ganharão nas arenas cariocas. Tudo para darmos a impressão de falsa felicidade para os turistas que trarão para nós menos dólares do que o esperado.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

O Brasil e as questões mal-resolvidas da mulher com o machismo

CLÁUDIA CRUZ E SOLANGE GOMES - Duas maneiras de lidar com o machismo.

O Brasil está na vanguarda mundial? Não. Sua idade histórica de 515 anos não permite que nosso país esteja na dianteira do concerto das nações. Ele é o mais desafinado e demonstra incapaz de perceber questões e dilemas que os estrangeiros tiram logo de letra.

Eles desmascararam Madre Teresa de Calcutá de forma bem menos temerosa e traumática, mesmo quando seu mito parecia verossímil e arraigado a estigmas e paradigmas tradicionais da "boa velhinha". E no Brasil, um mito bem mais confuso e desastrado - e ainda por cima, com o escancarado lobby da Rede Globo - como o de Francisco Cândido Xavier, é difícil de ser desmascarado.

Aqui é o país em que os valores de vanguarda só encontram valor quando são deturpados, mesclados com princípios e práticas conservadores e se consolidam sem sequer metade de sua essência original. De repente, muitos dos "novos valores" que valem no nosso país não passam de uma dissimulação de valores retrógrados que usam uma "nova roupagem".

Não é preciso imaginar que o Brasil tornou-se um terreno fértil para esse Espiritismo que, com toda a declarada "fidelidade a Allan Kardec", nada tem da essência do pedagogo francês. Pelo que se observa pela doutrina de Chico Xavier e Divaldo Franco, a "nossa Doutrina Espírita" não é mais do que uma combinação de dogmas do Catolicismo medieval com feitiçaria e ocultismo. Nada do pensamento lógico de Kardec.

Isso cria uma mania terrível de acolher novos valores na forma deturpada. É o "velho" que busca trabalhar o "novo". Novos edifícios em bases velhas e enferrujadas. Bolo cheio de mofo por dentro, mas que recebe uma nova cobertura. Maçãs que parecem frescas por fora e são podres por dentro.

É isso que traz um terrível diferencial negativo para o Brasil em relação ao resto do mundo e que revela a inexperiência do país de buscar sua emancipação. Até agora, 193 anos depois de Dom Pedro I dar seu grito da independência - que sabemos foi só jogo de cena, porque o Legislativo é que agiu pelo verdadeiro sentido da data - , esperamos uma verdadeira emancipação.

De que adianta o Brasil ter deixado de depender politicamente do Portugal ainda medievalizado, se até o Espiritismo que temos está mais próximo do imperador Constantino do que de Allan Kardec? E se ainda dependemos do "velho" para fazer o "novo", com revoluções sendo feitas por aqueles que deveriam ser seus combatidos, então o Brasil não é um país que irá pela frente.

MACHISMO E FEMINISMO

Um país que não quer ver os feminicidas morrerem - por mais hostilizados que sejam, eles ainda são protegidos pela aura moralista da "legitima defesa da honra" - , por mais doentes e vulneráveis que estes sejam, o machismo está até decadente no Brasil, mas ele resiste comendo pelas beiradas a mudança dos tempos e procurando encaixar seus valores em contextos aparentemente novos.

Daí que o machismo procura se condicionar ao feminismo de certa forma, como se fosse em alguma negociação. O feminismo só teria vez no Brasil se pudesse ceder para o machismo, como em todo movimento avançado que procura sempre fazer concessões para o retrógrado, sob o pretexto da "moderação" e do "equilíbrio".

Descontando as exceções - que, por serem exceções, não são regra, do contrário que muitos insistem em supor - , a situação da mulher brasileira segue dois caminhos em que a emancipação feminina é condicionada sem representar ruptura ao machismo, seja de que forma ele seja seguido.

Se a mulher quer se livrar de valores machistas e buscar uma emancipação inteligente, buscando atividades diversas, aprimoramento intelectual e valores considerados edificantes para a mulher independente, ela tem que viver sob a sombra de um marido poderoso, patrocinador da independência dessa mulher.

Mas se a mulher aceita fazer o papel de mulher-objeto, de "brinquedo sexual" do imaginário machista, "sensualizando" além da conta e se afirmando somente pela ostentação corporal, "temperada" por bustos e glúteos siliconados e usando roupas apelativas até em funerais e vestindo roupas curtas em dias de frio, então elas são dispensadas de ter qualquer marido.

Vemos casos de jornalistas, atrizes, modelos e apresentadoras que, dotadas de personalidade bastante interessante e perfis bastante atrativos, serem casadas por empresários sisudos, políticos reacionários, profissionais liberais obsessos pela elegância e formalidade a qualquer preço. Essas mulheres bacanas e seus maridos sem graça, mais preocupados estes com a próxima festa de gala que irão frequentar.

Por outro lado, observa-se a lista de "solteiras felizes" que predomina, só entre as famosas: "mulheres-frutas", ex-BBBs, ring girls, "peladonas", candidatas ao Miss Bumbum, quarentonas que haviam participado da Banheira do Gugu e foram casadas com ídolos musicais popularescos. Na melhor das hipóteses, atrizes de TV viciadas em "funk" ou fanáticas por axé-music.

DIZEM QUE O QUE SOLANGE GOMES FAZ É UM NOVO TIPO DE FEMINISMO. DÁ PARA ACREDITAR?

De um lado, uma Cláudia Cruz que era cult com sua beleza e talento, casada com um retrógrado Eduardo Cunha que havia sido seu patrão na extinta Telerj. Combinando charme, sofisticação intelectual e beleza classuda, Cláudia mesmo assim não foi imune às traquinagens político-financeiras do marido e até participou de seu esquema de corrupção através de empresas "fantasmas".

De outro, uma Solange Gomes que parece só ter conhecido a vida de casada através de uma relação turbulenta com um cantor de "pagode romântico" e que, com 41 anos, representa a geração "sênior" das que ficam "mostrando demais" na mídia, com uma "sensualidade" compulsiva que a ninguém seduz, através de seu físico exagerado e suas eventuais gafes.

Solange está em dia com os valores machistas, trabalhando sua imagem de "objeto sexual" e, portanto, dispensada de vincular sua imagem a algum outro homem. Como outras que, com corpos siliconados e traseiros redondos demais, trabalham uma imagem machista de "mulher desejada" (que ironicamente é mais repulsiva que desejável) e, por isso, podem viver seus "celibatos" à vontade.

A impressão que se tem é que o estabilshment brasileiro tenta arrumar um jeito de domar a emancipação feminina. As mulheres que tentam romper com paradigmas machistas precisam ser domadas pela figura de um marido poderoso. As que seguem padrões machistas ficam liberadas disso, porque "estão mais consciente de seu papel".

Sim, é surreal como muita coisa no Brasil. A Solange Gomes que ignorou quem havia sido o escritor José Saramago, um dos maiores nomes da língua portuguesa, é "mais consciente do seu papel" na sociedade machista brasileira, e por isso pode viver "feliz sozinha" e dispensar o vínculo a um homem.

Já jornalistas, atrizes, modelos e apresentadoras que apresentam algum aprimoramento intelectual, falam de coisas interessantes e não ficam explorando levianamente seus corpos - até sua sensualidade é mais discreta e eventual dentro do contexto - , elas devem viver sob a sombra de algum marido poderoso, "maduro" e "influente".

A mulher que segue o machismo, contraditoriamente, não precisa ser domada por um machista. Ela parece seguir o roteiro que a sociedade machista determina para ela, ela é "machista" por conta própria. Já a mulher que não segue o machismo precisa da "vigilância" machista na figura de um marido poderoso, rico e influente.

O discurso apela para a aparência, daí que a mulher que simplesmente não tem marido e não vive sob a simbólica influência de um homem é tida como "feminista". Se bem que as "musas" que "sensualizam demais" são empresariadas por homens, mas a "sombra masculina" se encontra escondida em seus escritórios refrigerados.

O quadro é estarrecedor se percebermos que, no Brasil, já morreram prematuramente muitas mulheres dotadas de perfil diferenciado, enquanto uma multidão de outras mulheres fica perdendo tempo se "sensualizando demais" até mesmo quando o contexto não permite. Já não são muitas as mulheres que combinam, com brilhantismo, talento e visibilidade.

É evidente que o Brasil, só através desse exemplo das mulheres, está em situação retrógrada. O Brasil precisa se reavaliar e repensar seus valores, porque está preso a paradigmas correspondentes às relações de poder e status quo originárias da ditadura militar, que deixou como herança para a democracia a burocracia acadêmica e o fisiologismo político-institucional.

Mas no país em que os questionadores do "estabelecido" são discriminados nas mídias sociais, nas rodas de amigos e no mercado de trabalho, como alertar as pessoas das armadilhas do dia a dia? Estas estão muito ocupadas vendo bichinhos fazendo gracinhas no WhatsApp ou lendo "livros para colorir"...