quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Fanáticos chiquistas de um Brasil confuso


A complacência em torno de Francisco Cândido Xavier gera pessoas fanáticas, deslumbradas e complacentes. E mostra o Brasil atolado num moralismo confuso, uma espécie de esquizofrenia moral que gera convulsões sociais em doses e qualidades surreais.

É um país maluco, em que as pessoas se mantém nas zonas-de-conforto de suas convicções pessoais, desenvolvidas numa pior fase do país, entre o auge da ditadura militar e o ocaso da Era FHC, e agora têm medo de ver esses valores, confusos e retrogrados, perecerem de repente.

Um país cuja "cultura popular" é deplorável, marcada pela cafonice, pelo sensacionalismo, pela pieguice e pelo pedantismo.
Um país que mal consegue digerir valores arrojados e não quer expelir valores retrógrados. Valores novos e velhos se combinam numa mistura indigesta e doentia, que faz com que pessoas tenham perspectivas, abordagens e reações confusas a qualquer coisa.

É um país, por exemplo, que, com tantos grandes homens e mulheres que faleceram cedo e que deram grandes contribuições para os brasileiros, de cineastas a poetas românticos, de roqueiros a cientistas sociais, a sociedade prefere ter medo de ver morrerem feminicidas.

Isso mesmo. Homens que matam mulheres em geral e são dotados de algum expressivo poder aquisitivo não podem morrer. E nota-se a desigualdade de tratamento, pois a mesma sociedade que não vê a hora de músicos idosos de heavy metal "baterem as botas" e "baixarem o couro" é a mesma que se irrita quando se fala que um feminicida em idade avançada está perto de morrer, mesmo quando ele sofre os efeitos orgânicos de seus vícios antigos.

Uma parcela da "boa sociedade" se irrita quando se fala que ricos homens que anos atrás mataram suas mulheres hoje estão doentes e perto da morte. "Deixem eles em paz!", reage essa elite com raiva, ao lado de seus "papagaios de pirata" nas mídias sociais, como se o sossego dos feminicidas fosse mais merecido do que consolar a tristeza das famílias das vítimas.

É um país de direitistas que se passam por "esquerdistas convictos". De valentões que se autoproclamam "nerds". Um país que tem um juiz como Sérgio Moro, um reles xerife urbano do estilo Hollywood que passa uma falsa imagem de honestidade e transparência ao investigar somente os desafetos políticos do PT, mas sem dar um passo sequer para investigar seriamente a corrupção de nomes como Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso, que é bastante explícita.

É um país em que o "funk carioca" é tido como "revolucionário" pela mesma sociedade que aceita a volta da ditadura militar. E acha natural que subcelebridades como Solange Gomes e Mulher Melão exibam seus corpos como se fossem meras mercadorias, mulheres que se reduzem a coisas.

Afinal, o que é ser humano? As pessoas não contestam sequer a pintura padronizada nos ônibus, em que diferentes ônibus só mostram a identidade padrão determinada por cada prefeitura ou governo estadual. Identidade? Que identidade, para uma multidão que tem uma multidão pessoal de 'fakes' no WhatsApp? Como reivindicar a identificação de uma empresa de ônibus se a pessoa não consegue saber quem é ela mesma?

E o que é ser humano se as pessoas viraram coisas, num consumismo sem freio? O fanatismo do futebol, no Rio de Janeiro, os "livros para colorir" da literatura junto aos Minecrafts, vampiros e obras religiosas, a felicidade forçada do "deixa pra lá", o conformismo compulsivo e até um tanto tirânico, no qual pessoas com alguma visão crítica da sociedade são riscadas das agendas de contatos sociais das pessoas "bacanas".

O mercado de trabalho preferindo contratar comediantes do que pessoas com talento diferenciado mas que pareçam "tímidas", que parecem reservadas e quietas e potencialmente mal-suscetíveis em qualquer entrevista de emprego ou mesmo num teste psicológico de uma seleção para emprego.

Os cursos de pós-graduação nas universidades, mesmo públicas, só querem trabalhos com aparência de discurso científico, com enrolações, textos rebuscados e divagações intelectualoides, mas de conteúdo oco, de preferência sem expressar qualquer análise crítica. É um cenário que barra os potenciais equivalentes brasileiros de Umberto Eco e Christopher Hitchens que são condenados ao semi-anominato da blogosfera.

É um quadro de muita burrice, muita vaidade, muito pretensiosismo, muito fingimento, muitas e muitas desonestidades de um país que não consegue se encontrar e que prefere ficar preso a velhos paradigmas, devido às zonas-de-conforto e aos privilégios que estão em jogo dentro delas.

ATEUS FANÁTICOS POR CHICO XAVIER? AHN?!

Diante desse cenário aberrante, no qual até a antes culta Folha de São Paulo contrata um nome como Kim Kataguiri, que faz o tipo de quem mal consegue fazer uma redação de escola primária, nota-se que ninguém tem coragem de enfrentar as irregularidades do "movimento espírita".

Ninguém reabilita investigadores sérios como Osório Borba e Attila Paes Barreto, por causa de preconceitos religiosos e apegos a estereótipos de amor e bondade tão tendenciosamente fabricados. O apego desesperado, paranoico e, podemos dizer, neurótico e até psicótico em torno de Chico Xavier é um reflexo desse país ensandecido que só vê seus conceitos baixarem no exterior.

O fanatismo em torno de Chico Xavier é tanto que um dado surreal é que as pessoas até aceitam que ele seja conhecido como mentiroso, fraudador e farsante, desde que ele seja aceito por causa da "bondade".

Sim, aceita-se um mentiroso porque ele foi "bonzinho" e "ajudou muita gente". Como se fosse possível ser ao mesmo tempo honesto e bondoso. E isso é um grande absurdo, até porque, prestando bem atenção, a "bondade" de Chico Xavier nunca passou de uma grande armação publicitária.

Afinal, os dados de filantropia associados a Chico Xavier são nebulosos. Nada foi feito além das esmolas de sempre e outros paliativos sem muito efeito tranformador na sociedade. Além disso, a "maior bondade" de Chico Xavier se revelou uma crueldade: sob o pretexto de assistir famílias que perderam entes queridos, as enganou com falsas psicografias e expôs suas tragédias de maneira prolongada e sensacionalista, evitando cicatrizar as dores dessas pessoas.

Mas o pior não são os habituais fanáticos por Chico Xavier, que sabemos serem um fenômeno compreensível por causa do estrelato de um ídolo religioso. O pior é que tem ateus (sim, ATEUS) fanáticos pelo anti-médium mineiro, que não aceitam que se faça uma contestação a seu mito.

Aí a coisa enlouqueceu de vez. Que nas mídias sociais já se viu aberrações como macartistas que se dizem seguidores de Che Guevara e valentões violentos que juram que são "nerds de verdade", num país cuja mídia "democrática" defende valores elitistas, isso dá para compreender.

Mas ateus defendendo Chico Xavier é algo que não dá para explicar pelos motivos simples. Afinal, que interessa Chico Xavier para os ateus? Chico Xavier era um católico beato, de valores ortodoxos, adorador de imagens de santos, crente fervoroso na existência de Deus, ele representa a antítese da personalidade que um ateu poderia admirar ou respeitar.

É só ver o caso de Christopher Hitchens, um ateu que decidiu investigar imparcialmente o mito de Madre Teresa de Calcutá. Sem ódio, sem sectarismo nem intolerância religiosa, mas com análise crítica e espírito pesquisador.

Madre Teresa, um mito que inspirou o de Chico Xavier, foi constatada de não ter assistido devidamente os enfermos, de defender valores retrógrados e de se aliar a políticos opressores e magnatas corruptos.

Enquanto isso, nada consegue deter Chico Xavier, e ainda vemos alguns internautas que se dizem ateus defenderem o anti-médium e se irritarem com uma vírgula que se lance contra ele. A gente até pergunta se eles são realmente ateus ou se adotam a postura por puro modismo, ao tratarem Chico Xavier como o "deus" deles.

LULA ÀS AVESSAS

Chico Xavier é uma espécie de Lula às avessas. O ex-presidente da República é condenado até pelos acertos que fez ou prometeu fazer. O anti-médium mineiro é inocentado até pelos erros mais graves que cometeu. E isso mostra o quanto o país é desigual até no tratamento de injustiças e de abusos.

Não há pessoas com coragem para enfrentar um mito como o de Chico Xavier, que é até mais confuso do que o de Madre Teresa de Calcutá. De início, Christopher Hitchens até recebeu ameaças e protestos, mas depois sua tese teve comprovação acadêmica em trabalhos e pesquisas sérios.

Aqui, juristas, juízes e advogados estão com rabo preso no mito de Chico Xavier. O meio acadêmico também, com teses delirantes que, com graves falhas metodológicas, atribuem falso pioneirismo científico a Chico Xavier em vários casos. Chegam mesmo a ignorar fontes necessárias, como no caso da glândula pineal, quando acadêmicos não mexeram em uma página sequer dos livros originais dos anos 1940.

Também não há um parecer oficial para derrubar a tese de que Humberto de Campos teria sido autor espiritual de alguns livros de Chico Xavier. Embora esteja mais do que claro que os referidos livros nem de longe refletem o estilo do autor maranhense, não há um comunicado oficial que confirme por definitivo essa constatação.

Em vez disso, Humberto de Campos continua sendo um nome levianamente associado a Chico Xavier, lido de maneira impune nos "centros espíritas" como se fosse autêntico e vinculado, na Internet, ao traiçoeiro "médium" travestido de "bondoso".

É preciso mudar essa mentalidade de vez. O próprio Erasto, em comunicado lançado nos tempos de Allan Kardec, havia dito que era melhor que caia um único homem do que uma multidão. Infelizmente, há pessoas que preferem que o Brasil caia e só sobre o mausoléu e os livros de Chico Xavier. Essa aberração tem que acabar de vez. O Brasil precisa se desapegar de Chico Xavier e deixar de ser obsediado pelo seu mito. Urgentemente.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A grande farsa "profética" de Chico Xavier virou livro


Longo caminho se deu entre a obsessão do jovem Francisco Cândido Xavier pela liderança mundial do Brasil, usando o nome de Olavo Bilac num poema publicado na primeira edição de Parnaso de Além-Túmulo, de 1932, até o livro mais recente sobre as "profecias" do caipira mineiro.

Era artigo atrás de artigo, palestras de dirigentes "espíritas" aqui e ali, entrevistas com Chico Xavier, conversas diversas, citações de livros e tudo o mais, tudo porque, como todo caipira sonhador, o "médium" queria porque queria que o Brasil fosse o "centro do mundo", ou melhor, o "coração do mundo" e a "pátria do Evangelho", como se não só Deus, mas também Jesus fosse brasileiro.

A ideia, a princípio, parecia tão somente um sonho de contos de fadas. Chiquinho queria que o Brasil, que tinha aquela história bonitinha que ele aprendeu nas bancas escolares, com todos aqueles pretensos heróis como Tiradentes, Dom Pedro I, Dom Pedro II e Duque de Caxias, além da simpática e gentil Princesa Isabel, fosse liderar a chamada "comunidade das nações".

Aí, quando Chico Xavier já era velhinho, e veio aquela notícia da viagem de astronautas dos EUA à Lua, e ele resolveu dar uma abordagem diferente. Ele, de repente, depois de tantos escândalos, passou a ter um sentimento catastrofista, como se viu em Cartas e Crônicas, de 1966.

Nesse livro, usando o nome de Humberto de Campos, muito mal disfarçado pelo tendencioso codinome de Irmão X, o anti-médium acusou os pobres frequentadores do Gran Circo Norte-Americano, de Niterói, que a uma semana do natal de 1961 foram vítimas de um incêndio criminoso, de terem sido romanos sanguinários que viveram na Gália, atual França, em meados do século II de nossa era.

Com esse dedo acusador, Chico Xavier pegou gosto no catastrofismo e, anos depois do tal sonho de 1969, relatou-o a um jovem chamado Geraldo Lemos Neto, que resolveu divulgar depois como a "profecia da data-limite".

Com isso, Chico Xavier havia juntado a fome de ver o Brasil comandando o mundo com o apetite de suas neuroses pessoais. Sim, Chico Xavier tinha neuroses e contradizia a si mesmo quando pedia para "não julgarmos quem quer que fosse" mas acusava as pobres vítimas do incêndio de um circo de terem sido patrícios sanguinários do Império Romano.

E ainda se irritava. Quando amigos do falecido Jair Presente, em 1974, desconfiaram das mensagens supostamente "espirituais", Chico Xavier, sempre tido como "meigo" e "manso", reagiu de maneira ríspida, chamando a atitude dos coitados dos amigos de Jair, que tanto o conheciam bem, de "bobagem da grossa".

E a neurose de Chico Xavier correspondia ao "velho mundo" que impedia o Brasil de mandar no mundo. Aí ele veio com o tal sonho, que não sabemos se ele realmente teve ou não, de uma suposta reunião de Jesus Cristo com os governantes do plano espiritual e de outros planetas - tinha desde o governador de Nosso Lar até autoridades de Marte, Vênus e Júpiter - , que decidiram dar 50 anos de prazo para o mundo evitar uma Terceira Guerra Mundial.

Reunião insólita, previsão absurda, e relato muito fantasioso. E aí vem a ameaça moralista típica de Chico Xavier: se o mundo não se comportar direitinho e resolver fazer guerras e terrorismos aqui e ali, Deus castigará mandando catástrofes naturais para destruir apenas o Hemisfério Norte.

Sim, apenas o Hemisfério Norte. Pouco importa se o Chile fica no mesmo Círculo de Fogo do Pacífico, que irá tirar a Califórnia (com Hollywood e tudo) e o Japão do mapa, se o país sul-americano for poupado da catástrofe, porque o raciocínio de Chico Xavier não incluía aspectos geológicos nem sociológicos, mas tão somente o papel de um mapa-mundi e suas linhas certinhas.

E olha que querem ver Chico Xavier como "cientista", mesmo cometendo aberrações como acreditar que povos eslavos tenham condições térmicas de enfrentar o calor do Nordeste. E aí veio o livro Não Será em 2012, de Geraldo Lemos Neto e Marlene Nobre, o documentário Data-Limite Segundo Chico Xavier, de Fábio Medeiros, que gerou livro homônimo de autoria de seus co-produtores, Juliano Pozati e Rebeca Casagrande.

O documentário e o livro derivado são um atestado de muito pretensiosismo pseudocientífico. Quiseram dissimular o igrejismo histérico de Chico Xavier, católico ortodoxo até a medula, com alegações pretensamente proféticas e falsamente científicas.

Com um deslumbramento infantil, Pozati sonhava em ver Chico Xavier como cientista, atitude corroborada por Geraldo Lemos Neto. E o documentário de Fábio Medeiros entrevistou Divaldo Franco, que também sempre gostou de brincar de ser cientista, falando difícil e pregando ninharias cósmicas.

E vem Pozati feliz da vida dizendo que "adora ciência", que considera Chico Xavier um "filósofo", e ainda se acha na moral de dizer que seu livro favorito é O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec, obra na qual muitos ensinamentos simplesmente desmascarariam a obra do "médium" mineiro.

E esse livro, infelizmente, está indo bem nas vendas, apesar de não ter chegado à lista dos mais vendidos. Se chegar, será terrível, porque o que Chico Xavier, o maior deturpador do Espiritismo e a personificação do "inimigo interno" da Doutrina Espírita já alertado nos tempos de Kardec, fez mereceria o mais absoluto desprezo.

O apego desesperado dos brasileiros a Chico Xavier e a obsessão pesadíssima que sentem pelo seu mito de "amor e bondade" estragam o país, a ponto de, talvez, o Brasil nem vir a ser "coração do mundo". Daí a crise que o Brasil vive, com esse atestado de profunda cegueira que o fanatismo religioso faz nas pessoas que acreditam demais e sabem menos, muito menos.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

A palhaçada em torno de Chico Xavier: "profecia" que confirma o passado


Uma das mentiras mais idiotas em torno do "médium" Francisco Cândido Xavier é a suposta confirmação de suas "profecias" sobre extra-terrestres levando em conta uma interpretação, que só existe no Brasil, de que militares dos EUA teriam "confirmado" as previsões que o deturpador do Espiritismo teria feito em 1969.

Vamos à estória. Chico Xavier, em algum momento de 1969, e pouco depois da expedição de astronautas à Lua, conversou com o jovem Geraldo Lemos Neto, alegando que teve um sonho resultante após a famosa viagem.

Segundo o relato, houve a chamada "terceira reunião" que havia sido citada no livro A Caminho da Luz, de 1939, ditado por Emmanuel. A estória relata que houve três reuniões: a primeira, para o surgimento da Terra, a segunda para a vinda de Jesus e a terceira seria "num momento vindouro", que para muitos acabou sendo após a viagem à Lua.

Vejam que coisa. Chico Xavier estava com medo de que a viagem à Lua fosse indício de uma futura guerra nuclear, por causa da corrida espacial entre EUA e URSS - atenção, esquerdistas brasileiros, Chico Xavier era de direita e odiava o comunismo - , o que até tem algum sentido, mas não é motivo para tanta paranoia supostamente "profética".

O Chico Xavier que teve raivinha porque o cronista Humberto de Campos fez um comentário irônico sobre um livrinho de "poemas do além", e, como revanche, resolveu, depois que o escritor morreu, usar seu nome e criar uma "psicografia" diferente, fazendo o suposto espírito Humberto "escrever" feito padre, também ficou com raivinha do Primeiro Mundo por causa da ameaça nuclear.

E aí o sonho que Chico Xavier relatou para Geraldinho ficou 17 anos em segredo. Em 1986, Geraldo se achou autorizado a revelar (o "médium" ainda estava vivo) e o fez para a "espírita" Marlene Nobre que então divulgou o relato com a seguinte novidade: a partir de 1969, o suposto Jesus Cristo e as "lideranças cósmicas" do além-túmulo contabilizaram 50 anos para a recuperação da Terra.

O prazo se referia ao período que a humanidade do planeta teria que, sob o prisma religioso, resgatar valores morais e princípios de solidariedade e fraternidade, O prazo terminaria em 2019. Se até lá nada for feito, e houver ataques terroristas de fundamentalistas do Oriente Médio e ações bélicas da OTAN (Organização Tratado do Atlântico Norte), Deus castigará o "velho mundo" mandando hecatombes que tornariam o Hemisfério Norte inabitável.

CATASTROFISMO

É o catastrofismo e a psicologia do terror, que aparentemente foi divulgada por Geraldo Lemos Neto, sem um aparente relato registrado na voz de Chico Xavier. Isso cria um desentendimento entre os "espíritas", já que uns dizem que Xavier "previu tudo isso" e outros acham absurdo isso. E olha que eles são de uma religião que tanto prega "união" e mendiga "fraternidade", o "espiritismo" brasileiro.

Mas a "profecia" condiz com os relatos de livros como A Caminho da Luz e Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, este de 1938, que Chico Xavier e o presidente da roustanguista FEB, Antônio Wantuil de Freitas, escreveram a quatro mãos e botaram tudo na conta de Humberto de Campos.

Afinal, a "profecia" falava que o abobalhado Jesus caricato de Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, que chorando feito uma criança porque o mundo ficou mauzinho, perguntava a um tal de Helil onde ficava o Brasil, iria comandar a reunião que teve também Emmanuel, Chico Xavier (o único encarnado presente no "sonho de 1969") e "líderes" de outros planetas e "planos espirituais".

Da mesma forma, a "profecia" afirmava que o Brasil seria o "centro da Terra", se tornando o país líder do mundo, com suas "lições de progresso e fraternidade". Para tanto, Chico Xavier falava na "destruição do velho mundo", mesmo com erros geológicos e sociológicos graves.

Alguns exemplos. Catástrofes naturais destruiriam, entre outras áreas, todo o Japão e os EUA. Isso inclui a Costa Oeste, sobretudo a Califórnia (onde se situa Hollywood, a "meca" do cinema norte-americano), que, como o Japão, faz parte do Círculo de Fogo do Pacífico, ou seja, área de intensos terremotos e atividades vulcânicas.

Só que Chico Xavier alegava que o Chile seria poupado de catástrofes naturais. O Chile fica na América do Sul, mas é parte do Círculo de Fogo do Pacífico. Se atividades vulcânicas e terremotos se tornam intensos no Japão e na Califórnia, a ponto de destrui-los, o Chile também sumiria do mapa da mesma maneira.

Quanto a dados sociológicos, é risível que as "previsões" de Chico Xavier, que muitos incautos afirmam ser "o maior filósofo do Brasil" (vá entender isso), acredite que os povos eslavos, que vivem em regiões frias, fossem migrar, após o "fim do velho mundo", para o Nordeste brasileiro, considerado calorento demais para eles, que muito provavelmente seriam mortos pelo calor que dificilmente poderiam suportar.

Além disso, Chico Xavier acreditava que os estadunidenses fossem fixar residência na Amazônia e arredores, como se fosse o máximo um morador da cosmopolita Nova York passar a viver no isolamento do interior do Acre, por exemplo.

Chico Xavier não estudou História? Ele deveria saber que, quando ele era criança, os eslavos já haviam migrado para o Brasil para viverem não no Nordeste, mas nos Estados do Sul, como Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. E os estadunidenses se sentem mais à vontade quando migram para capitais como Rio de Janeiro e São Paulo.

"PREVER" O QUE JÁ OCORREU

Se já é um absurdo creditar um simples sonho como "profecia" - se todo sonho fosse "profético" o mundo se tonaria uma bagunça maior que o caos de hoje - , ainda por cima com graves erros de Geologia e Sociologia que, por si mesmos, anulariam qualquer validade do "sonho profético" de Chico Xavier, um absurdo pior ainda foi acrescido a essa palhaçada toda.

Em 2006, a mídia estadunidense havia difundido em larga escala relatos de dois militares daquele país, Robert Jacobs e Robert Salas. Eles afirmam terem visto naves extraterrestres em suas respectivas bases militares, na década de 1960.

Robert Jacobs viu o ocorrido na base de Vandenberg, no Estado da Califórnia, em 15 de setembro de 1964, e seu xará, na base de Malmstrom, no Estado de Montana, em 16 de março de 1967. Ambos teriam visto luzes no céu se movimentando como se fossem discos voadores.

A notícia, nos EUA, se limita ao âmbito da Ufologia. Ela é discutível, mas não se relaciona a supostas profecias religiosas que só foram inventadas no Brasil, onde se acredita que os militares "confirmaram" a "profecia" de Chico Xavier sobre o rearmamento nuclear. Aí é que vem a grande tolice.

A "profecia" aconteceu em 1969 e foi levada a público em 1986. Mas os dois episódios são mais antigos, de 1964 e 1967. Aí está o ponto patético. Uma "profecia", de 1969, que é "confirmada" por fatos de 1964 e 1967, não é previsão, não é profecia, mas uma grande tolice.

Se "profecias" existissem (na verdade, a doutrina de Allan Kardec assegura que NÃO existem), elas em tese se voltariam a prever o futuro, anunciar acontecimentos que só viriam na posteridade. Se uma "profecia" alega confirmar suas "previsões" pelo que já aconteceu, então não é "profecia", pois não se pode prever o que já aconteceu. "Prever" o passado é ridículo de tão absurdo.

PEGADINHA

Mas isso não para por aí. Além do fato da "profecia" de Chico Xavier não ser corroborada por todos os seus seguidores - alguns alegam que o "bondoso médium" seria "incapaz de dizer tais barbaridades" - , eis que um fator surpresa ocorre para confundir ainda mais as coisas.

O espírito do padre jesuíta Manuel da Nóbrega, conhecido por ter sido autoritário (um verdadeiro fascista), machista e racista, sendo escravocrata e tendo cometido intolerância religiosa (havia defendido a condenação à morte de um herege), que através de Chico Xavier retornou sob o codinome Emmanuel, ainda veio com mais uma "pérola".

Com toda a "profecia", com todo o catastrofismo que está por trás dos relatos, Emmanuel, com seu jeito grosseiramente jocoso, como se fosse um Danilo Gentili do além-túmulo, disse que "profecias existem para não serem cumpridas".

E o que significa isso? Que não vai haver a "catástrofe" da tal Data-Limite! Narra-se um monte de absurdos, com erros geológicos e sociológicos grotescos, com estórias de arrepiar, com tsunamis atingindo Hollywood e tirando a vida de multidões de astros e estrelas, que em parte também são engolidas por valões de ruas "rasgadas" pelos terremotos, para dizer que nada vai acontecer.

Cria-se um medo danado, um pavor descomunal, enquanto se torce para o Brasil ser o "líder do mundo" com sua "cultura de alta qualidade" (vá entender que Wesley Safadão, Mr. Catra, Luan Santana e Mulher Melão sejam "cultura de alta qualidade") e sua "ciência de altíssimo nível" (que atribui a Chico Xavier previsões sobre "vida em Marte" que já existiam antes do "médium" nascer) e suas personalidades importantes (Neymar? Luciano Huck? Kim Kataguiri? Solange Gomes?).

E aí vem Emmanuel com sua pegadinha dizendo que todo esse relato de horror e de catástrofe foi feito para forçar as pessoas a se tornarem "mais fraternas" e "mais solidárias", o que mostra o quanto a religião não está aí para a verdadeira bondade, que é espontânea e incondicional.

A religião, seja católica, evangélica, "espírita" etc,, sempre defende a bondade condicionada. Não é uma bondade surgida naturalmente, mas desenvolvida sob a ameaça de supostos ambientes sombrios do além-túmulo, como o Inferno católico e o Umbral "espírita". Não se trata de ser bom por vontade própria, mas visando prêmios ou punições dependendo do cumprimento ou não da tarefa.

E isso é muito grave. E faz com que os seguidores tão "elevados" de Chico Xavier boicotem amigos no Facebook, evitem falar com as pessoas, atravessem a calçada assim que encontram um não-chiquista na frente, deixem de seguir blogues "incômodos" e reagem com raiva diante de opiniões contestatórias, por mais construtivas e calmas que estas sejam.

As pessoas devem defender Chico Xavier porque precisam de uma cara e de um corpo, apesar de já morto, para a "bondade" que não existe em seus corações. Daí o desespero de colocar no Facebook memes de frases de Chico Xavier e a corrida para o YouTube para curtir e fazer comentários elogiosos aos vídeos com bobagens em favor do "médium" de Pedro Leopoldo. Sem amor próprio, eles precisam de uma forma material para simbolizar o amor que não têm ao próximo.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

"Vidente" britânica é denunciada por mandar "psicografias" iguais


Uma "médium vidente" foi denunciada por fraude. Segundo o jornal britânico Daily Record, a denúncia veio de duas britânicas contra a "médium" Paula Barstow, conhecida como Lillyanne, que teria enviado cartas iguais sob o pretexto de serem "diferentes psicografias".

A denúncia partiu quando uma delas, a escocesa Karen Brannigan, de 47 anos, que perdeu a mãe em setembro de 2015, resolveu consultar a vidente para tentar se comunicar com o espírito da genitora. O marido de Karen resistiu e aconselhou a mulher a não fazer a "loucura", mas ela decidiu fazer. E pagou o equivalente a R$ 225 pela consulta.

Karen, depois, recebeu uma carta atribuída ao espírito da mãe, e logo que leu a carta sentiu muita estranheza. A carta nada lembrava os aspectos pessoais da mãe falecida. Com isso, a escocesa resolveu procurar alguma pessoa que tivesse tido uma experiência semelhante.

Aí ela encontrou uma senhora inglesa de Gloucestershire, que se identificou apenas como Sue (nome que, em inglês, tanto pode ser diminutivo de Susan, com inicial maiúscula, como o verbo "processar"), que também recorreu à "médium" para se comunicar com um ente falecido. Lillyanne é muito conhecida por ser convidada em vários programas da televisão britânica.

Karen então pediu a Sue para lhe mostrar a carta, e as duas ficaram então surpresas ao verem que se tratam de exatamente a mesma mensagem, um mesmo texto que só diferia na data de envio. As duas resolveram processar a "vidente", pedindo indenização por danos morais. A filha de Lillyanne tentou argumentar que o envio de uma mesma carta teria sido uma "falha administrativa". Em vão.

No Brasil, vemos a coisa semelhante. O "movimento espírita" é famoso por mensagens padronizadas. Eles não chegam a publicar rigorosamente o mesmo texto, mas criam um modelo de mensagem que segue a mesma narrativa do "falecido": "depois que morri sofri muito, até ser socorrido para uma colônia espiritual e conhecer o Evangelho de Jesus, por isso peço para que vocês sejam irmãos em Cristo". O mesmo apelo igrejista, variando apenas na formalidade das palavras usadas.

Há também a outra diferença que é a gratuidade. Como os "espíritas" querem ser "bonzinhos" - afinal, o "espiritismo" brasileiro se proclama a "religião da bondade" - , eles não iriam cobrar por consultas. Vai contra a "fraternidade" e o "amor ao próximo" que dizem praticar.

Além disso, eles têm outros meios de arrecadação financeira. Não pagam impostos. Fazem um grande lobby com a grande mídia, com juristas, empresários e políticos, que praticamente financiam o "movimento espírita" de mão beijada. Vendem livros, lançam carnês que "ninguém é obrigado" a colaborar, fazem workshops, programas de TV patrocinados, entre outras fontes de renda.

O que choca muita gente, deixando-a intransigente, reagindo como se fossem crianças teimosas, é a constatação de que até os "tarimbados" Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco estão associados a fraudes "mediúnicas".

Chico Xavier, então, nem se fala. Seu primeiro livro "psicográfico", Parnaso de Além-Túmulo, que pode ser enquadrada entre as Piores Antologias Poéticas de Todos os Tempos, era risível de tantos disparates estilísticos, que nada tinham a ver com os estilos pessoais dos autores alegados, apesar de alguma semelhança aqui e ali.

Para piorar, é sempre bom deixar claro que Parnaso de Além-Túmulo, que se proclamava uma "obra acabada da espiritualidade superior", teve que sofrer reparos cinco vezes em pouco mais de duas décadas. É algo estranho uma obra que se defina como "superior" tenha que ser remendada cinco vezes, tirando poemas aqui e ali, acrescentando outros, alterando alguns existentes etc.

Depois Chico Xavier realizou outros pastiches e plágios, enquanto passou a fazer "cartas mediúnicas" com a mesma "metodologia": seus assistentes entrevistavam parentes de um falecido, em tom intimista (que soa verossímil no ambiente amistoso dos "auxílios fraternos" nos "centros espíritas"), para colher informações sutis e complexas (extraídas até da forma como os entrevistados reagem e dizem certos detalhes, mesmo através de gestos).

É a chamada "leitura fria", recurso originário do ilusionismo, e que era feita para colher "material" para as mensagens "mediúnicas", de forma a disfarçar a mesmice dos apelos religiosos, dos mesmos pedidos de "fraternidade", do mesmo sentimentalismo de "amor e bondade".

Houve até um episódio em que Chico Xavier escreveu uma falsa psicografia (os "espíritas" alegam ser ela "verdadeira"), e Divaldo Franco resolveu plagiá-la em "outra psicografia". A iniciativa deu num escândalo que quase abalou a amizade dos dois.Em entrevista há cerca de dez anos, Divaldo usou a desculpa para as suspeitas de plágio: as semelhanças dos dois textos eram fruto de "universalidade dos ensinamentos". Então tá.

Aqui o processo é bem mais sutil que o de Lillyanne. Ela escreveu uma só carta e enviava o mesmíssimo texto para clientes diferentes. Pelo menos os "espíritas" brasileiros são mais espertos. Eles produzem textos diferentes aqui e ali, que mostram um mesmo ingrediente. Existe até um roteiro para isso:

1) Quando mensagens atribuídas a famosos, geralmente são relatos em prosa ou verso que sempre apelam para algum igrejismo, exaltando a "bondade" e a "caridade", e transmitindo dogmas religiosos defendidos pelo "movimento espírita". Até o vocalista da banda punk Cólera, Redson Pozzi, pode ser usado numa mensagem "espírita" para falar coisas dignas de um padre católico. Um Redson escrevendo como se fosse o Padre Marcelo Rossi!!

2) Quando mensagens atribuídas a pessoas comuns, cria-se geralmente uma narrativa inspirada no livro Nosso Lar: "eu morri, enfrentei o sofrimento no umbral, depois fui socorrido em uma colônia espiritual, me apresentaram o Evangelho de Jesus e, agora que estou bem, venho aqui pedir para meus amigos se unirem na fraternidade em Cristo".

No caso dos nomes famosos, houve aberrações como a suposta Auta de Souza "escrevendo" como Chico Xavier e defendendo a Teologia do Sofrimento do "médium" mineiro. Um suposto Olavo Bilac esquecendo sua rigorosa e hábil métrica poética, um suposto Humberto de Campos falando como padre, e, através de outros "médiuns" seguidores de Chico, veio um Noel Rosa reduzido a um bobalhão infantil de cinco anos pensando em que "presente de Natal" dará a Jesus.

Os "espíritas" tentam nos fazer crer que a bondade pode tudo, até faltar com a verdade, com a lógica e o bom senso. Como se fosse possível mentir e publicar bobagens em favor do "pão dos pobres famintos". É vergonhoso que se tente manter essa ideia a todo preço, quando sabemos que bondade é uma questão de honestidade. Mentiras de amor ferem, sim.

Mentira feita em nome da bondade não é bondade, mas crueldade, porque é uma atitude de enganação e, portanto, um ato de desonestidade. E, uma vez enganando as pessoas, já se comete alguma crueldade, por mais que se usem pretextos da "mais absoluta bondade e caridade".

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Fizeram um "carnaval" com Noel Rosa. No pior sentido


O "espiritismo" brasileiro tem das suas. Diz que mantém "respeito rigoroso" e "fidelidade absoluta" ao pensamento e aos procedimentos de Allan Kardec, mas o desobedece de tal maneira que, na prática, os "espíritas" simplesmente romperam com o pensador francês, do qual praticamente nada é aproveitado pela doutrina brasileira.

De vez em quando, personalidades famosas falecidas "reaparecem" em mensagens atribuídas a suas manifestações espirituais, mas que, de forma bastante evidente, destoam de suas caraterísticas pessoais e carregam demais no apelo religioso, como se todo mundo no além fosse membro de igreja.

Aí aparece um suposto Renato Russo parodiando o lirismo que o compositor trabalhava no disco As Quatro Estações (1989), da Legião Urbana, e exagera na dose na religiosidade que era apenas uma pálida citação, como na "Carta de São Paulo aos Coríntios" citada na canção "Monte Castelo". Nada a ver com o "espírito Renato Russo" mais próximo do Vaticano do que das raízes familiares italianas.

Aparece um suposto Raul Seixas reduzido a um debiloide abobalhado, que se apegava ao misticismo que o Raul Seixas verdadeiro já havia largado nos anos 80, e exagerava no pastiche esotérico, sucumbindo ao apelo religioso mais antiquado, impróprio para um roqueiro contestador como foi o artista baiano.

Depois aparece um suposto Ayrton Senna infantilizado, fazendo musiquinha, apelando para a "fraternidade em Cristo", com apelos igrejistas tolos que nem lembram o ágil e, por vezes impulsivo, corredor brasileiro. Dizem rumores que Adriane Galisteu, sua ex-namorada, não teria gostado das "mensagens espirituais".

Em seguida, aparece um pseudo Eça de Queiroz sem o seu talento literário, escrevendo uma narrativa estranhamente maçante e pachorrenta, sobre um falso Getúlio Vargas que vai para uma colônia tipo Nosso Lar, numa prosa em que se divaga demais sobre teorias igrejistas do "movimento espírita". Nada da agilidade literária de Eça nem da altivez política de Getúlio.

E aí chega um falso Cazuza meio aloprado que mais parece o Serginho do Absyntho, e não o saudoso cantor do Barão Vermelho e de seu breve trabalho solo. Um rapaz abobalhado, euforicamente religioso, que é acolhido por um pseudo Chacrinha pior do que o que os humoristas daqui imitam, e ainda mais parecendo um pároco de quermesse.

E tem também a caricata Cássia Eller, que, ateia, não iria acreditar em anjos nem demônios, deuses nem diabos, mas "aparece espiritualmente" dizendo que "o Inferno existe" e fala em dragões cuspindo fogo no umbral.

E ainda tem um falso Marechal Deodoro que, num falsete dado por Divaldo Franco, faz um discurso digno de um Odorico Paraguassú e "garantindo" que está no mundo espiritual, contrariando a tese que o amigo de Divaldo, Francisco Cândido Xavier (o "popular" Chico Xavier) - vejam como os "espíritas" são muito unidos - , defendia, a de que Deodoro teria reencarnado no hoje senador Fernando Collor de Mello.

E, mais ainda, ainda tem um José do Patrocínio que nada tem a ver com a altivez e a coragem político-ativista de um militante negro, "falando" (era uma suposta psicofonia) como um padre e apelando para o aleatório e impreciso conceito de "paz".

Mas como a farra, o "carnaval" que os "espíritas" fazem com os mortos, sem fazer qualquer estudo decente da Ciência Espírita - a noção de mundo espiritual e vida após a morte do "movimento espírita" se limita a especulações e fantasias (não somos nós quem dissemos; basta ler os livros de Kardec e comparar), eis que uma nova vítima da "folia espírita", ainda que uma personalidade de um passado remoto (falecida há quase 80 anos), aparece: Noel Rosa.

Quem armou a coisa foi Geralcino Gomes, mais um dos "donos dos mortos" que buscam cartaz, contrariando a atividade discreta e despretensiosa dos médiuns, como se observava nos tempos de Allan Kardec, quando não havia um médium exclusivo para cada espírito e o médium não se achava o centro das atenções nem bancava o dublê de pensador e de ativista social.

Só no Brasil é que existe essa aberração. O "médium" é o centro das atenções, não o canal intermediário de manifestação de espíritos. O "médium" é um propagandista religioso, um dublê de pensador e de ativista. O "médium" é uma grife para a qual as pessoas selecionam para saber de mensagens do além-túmulo. E há um "médium" especializado para cada personalidade finada.

E aí Geralcino alega que "conversa" com o "espírito" de Noel Rosa, que sabemos foi um sambista de brilhante talento mas de vida brevíssima. Diz que "Noel Rosa" irá "reencarnar", e lançou mensagens atribuídas ao suposto espírito, uma delas lançada no livro Um Sonho...Natal Todos os Dias, coletânea de supostas mensagens espirituais atribuídas a vários autores. Geralcino ainda lançou um livro "solo" atribuído a Noel Rosa, Cordas, Cores e Noel.

Vejamos então este texto que foi reproduzido da referida antologia, intitulado "Falando com Jesus", que não reflete o estilo pessoal do poeta da Vila Isabel, e mais parece uma mensagem infantilizada de alguma criança católica. Geralcino reduziu Noel Rosa a um pirralho ingênuo. Leiam o texto e depois sigam com nossos comentários:

FALANDO COM JESUS

Por Geralcino Gomes - Do livro Um Sonho...Natal Todos os Dias, de vários autores. Texto atribuído ao espírito de Noel Rosa

- Jesus, eu gostaria de oferecer um presente ao Senhor!
Por isso me ajoelho aqui neste cantinho escondido da pracinha, para rezar pedindo inspiração e esclarecimentos.
Perdoe dirigir ao Senhor assim, mas tenho duas dúvidas.
A primeira, o que doar a Jesus?
Olhe, tenho algum dinheirinho guardado.
Quem sabe posso ajudar oferecendo alguma coisa que fale ao seu coração?
A segunda dúvida é: como fazer chegar ao Senhor o presente?
Quem sabe eu coloco aqui neste cantinho, fecho os olhos e o Senhor dá um jeito de um anjo carregar até aí o presente?
Ah, muito obrigado por me escutar. Olha, eu volto amanhã e fico quietinho para esperar sua resposta, está bem? Até amanhã.

- Filho do coração, aceito seu presente, mas o que quero é que você considere todo dia um Natal, porque o Sol irá brilhar sempre presenteando ao mundo luz e calor. Procure doar, em meu nome, carinho, paciência, calma, palavras úteis, silêncio quando necessário, e muito amor.
Meus mensageiros não serão anjos, e sim os caídos dos caminhos, das ruas de Vila Isabel, crianças, adultos, sofridos. Caridade para com elas, boas palavras, tempo para escutá-las e - por que não? - para também sorrirem ao seu lado.
Viu, filho, como quero pouco. Faças por mim e observe que tudo ficará mais fluído por onde você costuma caminhar.

*****

Ele não condiz sequer à sombra que acompanhou Noel Rosa em sua vida. E o texto mais parece ter sido escrito por um coroinha de igreja. Consta que, em suas memórias, o jornalista Carlos Heitor Cony, quando criança, vivia em Vila Isabel e era coroinha de igreja e, quando fazia o seu caminho entre a casa e o templo, Noel Rosa estava na sua boemia, junto a seus amigos.

Cony narra Noel Rosa como um jovem rebelde, sem o jeito piegas que o sentimentalismo das pessoas supusesse haver. Noel era um sambista com temperamento de roqueiro, um jovem de personalidade bastante moderna, com o seu saudável cinismo e seu senso de humor com a natural acidez juvenil.

Mas aí Geralcino Gomes desenha Noel Rosa como um igrejista lacrimoso, um coroinha de igreja pedindo para Jesus lhe dizer qual o presente que este queria receber no Natal. Um texto muito piegas, tolo, inócuo, um daqueles apelos de caridade paliativa que não mexem no sistema ideológico de desigualdades que vemos no cotidiano.

Para reforçarmos a comparação, fiquemos com uma montagem de depoimentos de Noel Rosa com base em trechos de músicas, colhidas pelo pesquisador Sérgio Cabral (cujo talento e integridade não foram herdados pelo seu filho político do mesmo nome) na semana de 8 a 14 de maio de 1973, edição de número 201. 

A "entrevista" foi reproduzida no livro O Pasquim: 1973-1974, seleção de edições publicadas nessa época. Há um levantamento de canções das quais os trechos foram extraídos. Mas, apesar da montagem, nota-se a coerência de estilo pessoal de Noel Rosa que não existe na "psicografia" de Geralcino. 

Conclui-se, sem a menor sombra de dúvida, que o historiador e jornalista Sérgio Cabral, o pai, entendeu bem melhor que Geralcino o espírito do poeta da Vila.

*****

ENTREVISTA PÓSTUMA COM NOEL ROSA

Por Sérgio Cabral - O Pasquim - edição 201 - 8 a 14 de maio de 1973 - página 15

“Trinta e seis anos depois de sua morte (morreu dia 4 de maio de 1937), procurei Noel Rosa para uma entrevista.

- Eu não tenho nada a dizer. O que você quiser saber está na minha obra – disse ele modestamente.

O resultado foi esta entrevista. Se não estiver boa, não ponham a culpa exclusivamente no repórter. Afinal, o entrevistado não dá entrevista há, pelo menos, 36 anos”. (Sérgio Cabral).

O PASQUIM – Você um cara cheio de problemas de saúde, não saía dos bares, bebendo a noite inteira, batendo papo, etc.

NOEL ROSA – Saber sofrer é uma arte. E pondo a modéstia de parte, eu sei sofrer.

O PASQUIM – Então você sofreu pra burro.

NOEL ROSA – Mesmo assim não cansei de viver.

O PASQUIM – Mas as mulheres de vez em quando, te faziam sofrer mais ainda.

NOEL ROSA – Quem sofreu mais do que eu não nasceu.

O PASQUIM - Uma das suas mulheres foi até visitá-lo, quando você esteve doente. Mas você estava fora. Por que ela foi lá?

NOEL ROSA – Porque pretendia somente saber qual era o dia que eu deixaria de viver.

O PASQUIM – Você sofreu várias decepções mas continuou amando.

NOEL ROSA – Nunca se deve jurar não mais amar a ninguém.

O PASQUIM – Quer dizer que você não tem nada contra o amor.

NOEL ROSA – Quem fala mal do amor não sabe a vida gozar.

O PASQUIM – Mas você, de vez em quando, fala mal da mulher.

NOEL ROSA – A mulher mente brincando e, às vezes, brinca mentindo.

O PASQUIM – Explica isso melhor.

NOEL ROSA – Quando ri está chorando e quando chora está sorrindo.

O PASQUIM – Você sabe se a Betty Friedman o conhecesse teria uma imensa bronca de você que é contra a mulher trabalhando.

NOEL ROSA – Todo cargo masculino, seja grande ou pequenino, hoje em dia é pra mulher.

O PASQUIM – Mas o que é que atrapalha isso, Noel?

NOEL ROSA – E por causa dos palhaços, ela esquece que tem braços. Nem cozinhar ela quer.

O PASQUIM – Mas os direitos são iguais.

NOEL ROSA – Os direitos são iguais, mas até nos tribunais a mulher faz o que quer.

O PASQUIM – Então não são tão iguais assim.

NOEL ROSA – Pois o homem já nasceu dando a costela à mulher. 

O PASQUIM – Essa história não é bem assim, não. É preciso discutir.

NOEL ROSA – Mas não quero discussão.

O PASQUIM – Da discussão sai a razão.

NOEL ROSA – Mas às vezes sai pancada.

O PASQUIM – Você gosta mesmo é de samba, não é?

NOEL ROSA – O mundo é um samba em que eu danço sem nunca sair do meu trilho.

O PASQUIM – Você acha mesmo o samba um troço importante?

NOEL ROSA – Exprime dois terços do Rio de Janeiro.

O PASQUIM – Tenho vários amigos que não gostam de samba, querem voar mais alto.

NOEL ROSA – Mas quem voa em grande altura leva sempre grande queda.

O PASQUIM – Não fale assim, Noel, os caras podem se chatear.

NOEL ROSA – O que eu falo é bem pensado. Não receio escaramuça. E que aceite a carapuça quem se sente melindrado.

O PASQUIM – Assim como você está falando, o que é que quer que eles pensem de você?

NOEL ROSA – Que entre nós o páreo é duro.

O PASQUIM – Mas vão acabar seus inimigos.

NOEL ROSA – Meus inimigos, que hoje falam mal de mim, vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim.

O PASQUIM – Pelo que vejo, não se pode falar mal do samba perto de você.

NOEL ROSA – O samba é a corda e eu sou a caçamba.

O PASQUIM – Você não tem medo de ninguém?

NOEL ROSA – Sou independente como se vê.

O PASQUIM – Independente? Está rico?

NOEL ROSA – Não consigo ter nem pra gastar.

O PASQUIM – Ou seja: está durão.

NOEL ROSA – Já estou coberto de farrapo, eu vou acabar ficando nu. Meu paletó virou estopa e eu nem sei mais com que roupa que eu vou pro samba que você me convidou.

O PASQUIM – Você não vai porque está com medo dos malandros do samba.

NOEL ROSA – Não tenho medo de bamba. Na roda do samba, eu sou bacharel.

O PASQUIM – Como é que é esse negócio de bacharel?

NOEL ROSA – Quando me formei no samba recebi uma medalha.

O PASQUIM – Você vive em tudo que é samba, não é?

NOEL ROSA – A polícia em todo canto proibiu a batucada. Eu vou pra Vila onde a polícia é camarada.

O PASQUIM – O samba em Vila Isabel é de noite ou de dia?

NOEL ROSA – O sol da Vila é triste. Samba não assiste porque a gente implora: “Sol, pelo amor de Deus, não venha agora que as morenas vão logo embora”.

O PASQUIM – Mas tem mais samba em outros lugares, Noel.

NOEL ROSA – Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira, Oswaldo Cruz e Matriz.

O PASQUIM – E a Vila, como é que fica nisso?

NOEL ROSA – A Vila não quer abafar ninguém. Só quer mostrar que faz samba também.

O PASQUIM – Conforme você disse, o samba exprime dois terços do Rio de Janeiro.

NOEL ROSA – Mas tenho que dizer: modéstia à parte, meus senhores, eu sou da Vila.

O PASQUIM – Assim não pode, Noel. Com esta banca é melhor a gente acabar a entrevista.

NOEL ROSA – Ofereço meu auxílio. Passe bem, vá pela sombra.

O PASQUIM – Está me mandando embora, Noel?

NOEL ROSA – Não mandei você embora porque sou benevolente.

O PASQUIM – Sabe que se você dissesse isso para certos jornalistas, eles entenderiam como um desafio para briga?

NOEL ROSA – De lutas não entendo abacate.

O PASQUIM – Ué, eu soube que você já lutou profissionalmente.

NOEL ROSA – Cheguei até ser contratado para subir em um tablado para vencer um campeão.

O PASQUIM – E daí, venceu?

NOEL ROSA – Mas a empresa, pra evitar assassinato, rasgou logo o meu contrato, quando me viu sem roupão.

O PASQUIM – E como é que você se vira com esses valentões?

NOEL ROSA – No século do progresso, o revólver teve ingresso para acabar com a valentia.

O PASQUIM – Você sabe que o Josué Montello...

NOEL ROSA – Escreve sal com c cedilha.

O PASQUIM – Pois é. Ele agora é da Academia Brasileira de Letras, junto com a Pedro Calmon.

NOEL ROSA – Desta vez, juntou-se a fome com a vontade de comer.

O PASQUIM – Mas eles tem prestígio por aí, numa certa roda.

NOEL ROSA – Vassouras nos salões da sociedade.

O PASQUIM – Você não freqüenta essa roda, não é?

NOEL ROSA – Você pode crer que a palmeira do Mangue não vive em Copacabana.

O PASQUIM – Vamos falar mal das pessoas. E o Roberto Campos, hem?

NOEL ROSA – Que é também brasileiro. E em três lotes vendeu o Brasil inteiro.

O PASQUIM – Sabe que andaram pixando você sob o pretexto de que você é bom de letra mas não de música?

NOEL ROSA – Sendo as notas sete apenas, mais eu não posso inventar.

O PASQUIM – Bem, Noel, vamos acabar a entrevista. Adeus. 

NOEL ROSA – Adeus é pra quem deixa a vida. Três palavras vou gritar por despedida: até amanhã, até já, até logo.


************

As respostas de NOEL ROSA estão contidas nos seguintes sambas:

“Eu sei sofrer” – samba (1937) / (Noel Rosa), com Aracy de Almeida e Boêmios da Cidade. VICTOR (34.176A) – abril/1937.

 “Só pode ser você” (ILUSTRE VISITA) – samba (1935) / (Noel Rosa – Vadico), com Aracy de Almeida e Conjunto Regional RCAVictor. VICTOR (34.152A) – agosto/1936.

 “Provei” – samba (1936) / (Noel Rosa – Vadico), com Noel Rosa, Marília Batista e Conjunto Regional de Benedito Lacerda. ODEON (11.422A) – novembro/1936.

 “Nuvem que passou” – samba (1932) / (Noel Rosa), com Francisco Alves e Orquestra Copacabana. ODEON (10.927B) – julho/1932.

“Você vai se quiser” – samba (1936) / (Noel Rosa), com Noel Rosa, Marília Batista e Conjunto Regional de Benedito Lacerda. ODEON (11.422B) – novembro/1936.

 “É preciso discutir” – samba (1931) / (Noel Rosa), com Francisco Alves, Mário Reis e Orquestra Copacabana. ODEON (10.905A) – novembro/1931.

“Até amanhã” – samba (1932) / (Noel Rosa), com João Petra de Barros e Gente Boa. ODEON (10.950B) – outubro/1932.

“Quem dá mais?” (LEILÃO DO BRASIL) – samba humorístico (1930) / (Noel Rosa), com Noel Rosa e Orquestra Copacabana. ODEON (10.931A) – julho/1932.

 “Vitória” – samba (1932) / (Noel Rosa - Romualdo Peixoto [Nanô]), com Sílvio Caldas, Francisco Alves¹ e Os Diabos do Céu. VICTOR (33.657A) – julho/1932.
¹ O nome de Francisco Alves não aparece como intérprete no selo do disco original. Entretanto, percebe-se nitidamente a “canja” do Rei da Voz”.

“Fita amarela” – samba (1932) / (Noel Rosa), com Francisco Alves, Mário Reis e Orquestra Odeon. ODEON (10.961A) – dezembro/1932.

“O X do problema” – samba (1936) / (Noel Rosa), com Aracy de Almeida e Conjunto Regional RCAVictor. VICTOR ( 34.099A) – setembro/1936.

“Com que Roupa?” – samba (1936) / (Noel Rosa), com Aracy de Almeida e Bando Regional. PARLOPHON (13.245A) – 30/setembro/1930.

“Eu vou pra Vila” – samba (1930) / (Noel Rosa), com Almirante e Bando de Tangarás. PARLOPHON (13.256B) – janeiro/1931.

“Feitiço da Vila” (FESTIÇO SEM FAROFA) – samba (1934) / (Noel Rosa – Vadico), com João Petra de Barros e Orquestra Odeon. ODEON (11.175A) – outubro/1934.

 “Boa viagem” – samba (1934) / (Noel Rosa – Ismael Silva), com Aurora Miranda e Orquestra Odeon. ODEON (11.187B) – dezembro/1934.

 “Tarzan” (O FILHO DO ALFAIATE) – samba-choro (1936) / (Noel Rosa – Vadico), com Almirante e Conjunto Regional RCAVictor. VICTOR (34.086A) – agosto/1936.

 “Cidade mulher” – marcha (1936) / (Noel Rosa), com Orlando Silva e Conjunto Regional RCAVictor. VICTOR (30.085B) – julho/1936

“A.E.I.O.U.” – marcha colegial (1931) / (Noel Rosa - Lamartine Babo), com Lamartine Babo e Grupo do Canhoto e Coro. VICTOR (33.503A) – novembro/1931.

“Onde está a honestidade?” – samba (1933) / (Noel Rosa – Francisco Alves), com Noel Rosa e Turma da Vila. ODEON (10.989A) – março/1933.

“Mais um samba popular” – samba (1934) / (Noel Rosa – Vadico), com Ana Cristina e Conjunto de Luís Bittencourt. SINTER (345) – 1954.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

"Espiritismo" é a religião de "duas caras"


Até quando vamos aguentar os "espíritas" mantendo duas caras? Uma, a da alegada fidelidade e do suposto respeito rigoroso ao pensamento de Allan Kardec, e outra, a do igrejismo místico e conservador de um roustanguismo não assumido, desnorteiam a doutrina e envergonham aqueles que buscam um mínimo de coerência, mesmo no âmbito da religiosidade.

Nota-se que os palestrantes "espíritas" sempre se contradizem. Num momento, evocam Allan Kardec e apelam para a "coerência espírita". Falam que estão com a lucidez, que apreciam a lógica e o bom senso, admiram o pensamento científico, são amigos da objetividade lógica e tudo o mais.

No outro, se derramam em delírios igrejistas e esotéricos, sucumbem ao deslumbramento da histeria religiosa, no obscurantismo da fé, na severidade do moralismo, no vazio do sentimentalismo piegas, na euforia de exaltar totens e ídolos da doutrina.

A postura dúbia sempre existiu no "movimento espírita", mas em outros tempos havia um mínimo de sinceridade de, pelo menos, assumir a preferência pelo mistificador Jean-Baptiste Roustaing, expressando um desprezo por Allan Kardec por ser este "complicado demais".

O problema é que, de umas quatro décadas para cá, criou-se uma postura bastante dúbia, própria de um Brasil que adora fenômenos contraditórios, sempre valorizando pessoas que dizem uma coisa (geralmente mais avançada) e fazem outra (geralmente mais retrógrada).

Se isso existe até na trolagem, com muitos internautas de "extrema-direita" se autoproclamando de "centro-esquerda", ou mesmo no rádio FM, com a carioca Rádio Cidade se autodefinindo como "rádio de rock séria" se comportando como a mais debiloide FM pop, o que esperar de um kardecismo que despreza Allan Kardec mas insiste em fazer a ele falsas juras de amor?

É terrível ver que, nas publicações "espíritas", haja sempre a hesitação entre um igrejismo entusiasmado e um cientificismo pedante, e ver que seus ideólogos se alternam entre uma e outra coisa é assustador.

Chegam mesmo a evocar Erasto, que como espírito preveniu a sociedade francesa, nos tempos de Kardec, contra a deturpação da Doutrina Espírita, como se o recado não fosse para os verdadeiros destinatários, os próprios deturpadores brasileiros, que Erasto reprovaria sem a menor hesitação.

Nem Divaldo Franco, que posa de "mais correto discípulo de Allan Kardec do país", escaparia da reprovação de Erasto. O próprio "médium" baiano é anti-kardeciano por excelência: gosta de marcar datas fixas para o futuro, acredita em coisas duvidosas como "crianças-índigo" e "planetas-chupões" e ainda adota um discurso rebuscado e prolixo, que é o que carateriza suas "brilhantes" (sic) palestras.

Francisco Cândido Xavier, então, seria reprovado por Erasto por questão de um segundo. E se muitos pensam que essa reprovação é invenção da intolerância religiosa e da perseguição a quem "sempre fez o trabalho do bem", é bom verificar os livros de Allan Kardec.

Em obras como O Livro dos Médiuns, O Livro dos Espíritos e A Gênese, fora muitos artigos na Revista Espírita, Allan Kardec demonstra reprovação severa e firme a muitos elementos que estão presentes nas obras e ideias de Chico Xavier e Divaldo Franco, de maneira clara e concisa. É só ler e verá que reprovar os dois "médiuns" nada tem de intolerância nem de perseguição, mas de questionamento lógico.

Os "espíritas" caem em contradição o tempo inteiro. Acobertam fraudes, abordagens equivocadas, ideias ultraconservadoras, interpretações sem lógica, especulações fantasiosas etc, com todo um malabarismo discursivo que tenta nos fazer crer que contradição é "equilíbrio".

Na ciranda das palavras, fica fácil usar a "bondade" como uma ponte frágil para ligar o pedantismo pretensamente científico e o igrejismo apaixonado dos "espíritas", que os faz dormir tranquilos achando que estão com a consciência limpa diante do legado de Allan Kardec.

Quanto enganados eles estão com isso. Eles se tornam viciados em sua própria ilusão. Eles se acham os mais corretos servidores do pensamento kardeciano, mas apelam para o igrejismo que é claramente reprovado pelas obras do pedagogo francês. Quando os "espíritas" são questionados por causa disso, ainda se atravem a se passar por "vítimas", quando a verdade mostra que não há intolerância religiosa quando se aponta a mentira sob o manto da fé.

O que não se tolera não é o direito a fé, mas a mentira. Embora achemos que a religião é um processo duvidoso de trabalhar a realidade humana e de lidar com a lógica dos fatos, respeitamos quem queira se proteger em uma seita religiosa achando que sua vida vai melhorar assim. É um processo de valor muito duvidoso, mas para quem quer seguir, que fique à vontade.

O que não se tolera é a mentira, a desonestidade doutrinária. O "espiritismo" é uma aberração por constituir numa doutrina que ignora as lições de seu precursor, Allan Kardec, e de tanto desviar do caminho manteve uma rota bem diferente, e muito divergente.

Não há como dizer que segue um caminho se percorre outro. O que não toleramos do "espiritismo" é sua desonestidade doutrinária. Portanto, não dá para aceitar a mentira, a mistificação e a fraude sob o pretexto da "bondade" e da "caridade". Desonestidade em nome do "pão dos pobres" não é bondade, é enganação.