quarta-feira, 20 de abril de 2016

O direito de ir e vir, sob as bênçãos de...um logotipo de prefeitura nos ônibus!


O Rio de Janeiro - tanto o Estado quanto sua capital - virou uma obra do surrealismo em plena realidade cotidiana. Tantos aspectos ridículos, nocivos ou absurdos prevalecem simplesmente porque uma minoria de pessoas querem, sem ter alguma razão aparente. Franz Kafka? Não. É o Rio de Janeiro!

É a cidade cujo ritmo, marcado pelas baixarias e pela imbecilidade sócio-cultural, o "funk", é definido como "folclore carioca", "vanguarda artístico-cultural" e "ativismo sócio-cultural". Qualquer queixa é rebatida com os lamentos dos partidários do "funk" que, com seu coitadismo, dizem que o ritmo é "vítima de preconceito e discriminação cruel".

É a cidade que já teve rádios de rock de primeira linha, como Eldo Pop e Fluminense FM, mas agora tem o segmento comandado por uma emissora de rádio estúpida como a Rádio Cidade, que é controlada por pessoal sem especialização no rock e cuja programação só toca os "sucessos das paradas" (geralmente as bandas só têm direito a ter uma ou duas músicas tocadas).

Pior: a Rádio Cidade surgiu sem qualquer compromisso com o rock, era apenas uma emissora despretensiosamente pop, e hoje, forçando a barra com o tal "rock de verdade", isso com locutores de estilo Jovem Pan e um coordenador que só entende de "sertanejo universitário" e "pagode romântico", e programas que são clones do Pânico da Pan, inclusive um tal de Rock Bola, que força uma inexistente associação entre futebol e rock (deve rolar graninha de "cartolas" por trás).

O Rio de Janeiro está tão surreal que o McDonald's explora cruelmente os funcionários, mas os fregueses cariocas vão lá felizes lanchar lá, com aquela comida engordurada que, dizem, é até cancerígena. Pior: se um caminhão de lixo (que no Grande RJ é fedorento) estaciona ao lado de um restaurante ou lanchonete, o pessoal fica lá sem perceber a virose que podem contrair com o fedor exalando em direção à comida que é exposta nesses ambientes.

Os cariocas adotam um comportamento absurdo, e completamente surdo às advertências, que já começam a surgir a piada de que carioca é incapaz de sentir dor. Ignoram a crise e a decadência e acham que podem achar os "anos dourados" até em vídeos engraçados no WhatsApp.

Ficam indiferentes aos seus problemas, que crescem vertiginosamente e até de forma trágica, mas acham que são apenas "probleminhas de cidade grande". Vão achar que é "probleminha de cidade grande" o bangue-bangue da Zona Norte que mata dezenas de cidadãos por bala perdida. Isso é porque quem diz isso não levou um tiro no peito ou na cabeça.

Outra "pérola" está relacionada ao direito de ir e vir. É a terrível pintura padronizada nos ônibus que mais parece um joguinho de adivinha, desses que aparecem nos programas infantis, que dizem para a gente adivinhar o que é que está por trás de tal esconderijo.

É terrível. Você agora vai para o Lins sem saber se vai mesmo para o Lins ou para a Pavuna. Vai para o Leblon sem saber se pega um ônibus para a Usina. Vai para Bangu achando que está indo para Sepetiba e para na entrada de uma "boca de fumo" e é metralhado por traficantes.

Isso é ridículo. Mas as pessoas aceitam e não dão bola. Carioca acabou se tornando sado-masoquista, por conta de sua insensibilidade. O Rio de Janeiro, Estado e capital, vivem sua pior fase, a pior de toda a História, e as pessoas nem aí, achando que o Estado e sua ex-Cidade Maravilhosa (há quem insista em manter esse título) vivem "o melhor dos tempos" ou "uma excelente (?!) época, apesar das imperfeições" (os tais "probleminhas").

Vai dizer que pintura padronizada nos ônibus é "probleminha". Você não sabe mais que empresa de ônibus serve uma linha. A roubalheira acontece sob a roupagem dos "consórcios". Empresas mudam de nome, linhas trocam de empresa, tem linha com mais de uma empresa, empresa com mais de um consórcio, e uma "sopa de letrinhas" que é o próprio número do carro, afinal, a correria não nos permite parar para ver a diferença de um B25501 e um B75510, por exemplo.

Pior é que, com a facilidade com que os parlamentares e a mídia agem para derrubar Dilma Rousseff, sem que acusações precisas e comprovadas sejam feitas contra ela, o pessoal não reage contra a pintura padronizada nos ônibus, tratando essa medida deplorável como se fosse "decisão divina" e "irreversível".

"Não dá para cancelar a medida, ela tem prazo até 2030!", tentam argumentar. É, mas Dilma tem um prazo de governo até 2018 e ninguém pensa nisso quando quer vê-la fora do poder. E, com toda a certeza, manter a pintura padronizada nos ônibus é mais perigoso, mil vezes mais perigoso, do que derrubar um chefe do Executivo de esquerda.

Isso porque, se o PT rouba ou não, os cidadãos podem até ter problemas na Economia e no emprego, mas a situação é bem menos trágica do que esse processo de esconder diferentes empresas de ônibus sob uma mesma pintura de "consórcio", "zona de bairro", "tipo de ônibus ou serviço" etc, favorece a corrupção político-empresarial que influi até no sucateamento das frotas dos ônibus.

Com o "corrupto" governo Dilma, as pessoas podem improvisar no controle de gastos, comprando produtos mais baratos, arrumar trabalhos ou buscar outras soluções. É certo que as dificuldades são pesadas, mas os riscos são muito menores do que você pegar um ônibus na "cabra-cega" para ir a um lugar errado e ser "marcado" por traficantes desconfiados que lhe apontam a metralhadora.

Ou então os acidentes de ônibus diversos, ou os gastos a mais de passagem por causa do ônibus errado, porque o Bilhete Único tem prazo limitado e, mesmo assim, nem sempre funciona. E isso quando a empresa boa (embora nem tão boa assim, porque uma Real, Matias ou Alpha da vida estão um lixo) e a empresa ruim exibem a mesma cor, e os nomes mudam, as empresas trocam de linha sob as costas dos cariocas, sempre os últimos a saber.

E por que será que o pessoal não luta contra a pintura padronizada, pedindo transparência no transporte através da volta da diversidade visual, quando cada empresa de ônibus mostrava a sua pintura própria, facilitando a identificação pelos passageiros?

Será porque o idealizador dessa porcaria toda, o arquiteto Jaime Lerner, embora tenha sido um prefeito paranaense dos tempos da ditadura militar, é visto como um "deus" por setores da "opinião pública"?

Ou então é porque a qualidade dos ônibus se mede por um logotipo de prefeitura ou de governo estadual impresso em cada veículo, como se isso fosse trazer o milagre da "mobilidade urbana"? Santificaram o logotipo de prefeitura de ônibus, em troca do "milagre" de tantos benefícios supérfluos e sensacionalistas?

Enquanto as pessoas ficam felizes ao ver empresas de ônibus se confundindo com a mesma pintura, achando que irão e voltarão sem sofrer um arranhão - apesar da média de 30 feridos por acidente que esse esquema sucateador e corrupto de transporte coletivo causa - , a realidade mostra que não é bem assim e os cariocas são prejudicados sem saber, sofrendo a dor que se acham incapazes de sentir.

O fato do Rio de Janeiro ser um dos Estados mais religiosos do país, ser sede ou reduto de movimentos religiosos diversos - como a Igreja Universal, o Catolicismo brasileiro e até o "movimento espírita" - não significa que as pessoas que vivem em seu território estejam invulneráveis e possam sair ilesas diante de qualquer retrocesso.

Afinal, a decadência do RJ é avassaladora, preocupante e atinge a todos. E quem não consegue sentir sua própria dor é o que mais corre o risco de ser atingido por um mal. Se a decadência envolve até mesmo o fanatismo do futebol (que impulsiona torcidas violentas) ou mesmo atitudes "sorvete na testa" como a Rádio Cidade, a rádio do "rock de verdade", achar que clássico do rock é Mamonas Assassinas, então é bom se preocupar.

Um Estado que gerou Jair Bolsonaro e Eduardo Cunha é para fazer seus habitantes ficarem de cabelos em pé (o que não tem a ver com a nova moda do momento, mas indício de uma ameaça, mesmo). Não é a proteção religiosa - os "espíritas" ainda têm o Correio Espírita e a Rádio Rio de Janeiro como "antenas de proteção" - que faz as pessoas poderem dormir sossegadas, porque muitas vezes o manto religioso é insuficiente para evitar tragédias diversas.

Portanto, quando existe algum retrocesso, a única coisa que os cariocas têm que fazer é reagir e combater, pouco importa se esse retrocesso vem de decisão de alguém importante ou se tal prejuízo será compensado com ônibus refrigerados ou com bandas tipo Pearl Jam se apresentando todo ano no Rio de Janeiro.

Os cariocas e, no aspecto geral, os fluminenses, deveriam ter autocrítica e ver a gafe que cometem com tanto conformismo, com tanta resignação. Achar que os retrocessos "fazem parte da modernidade", "são probleminhas pequenos" ou "sacrifícios necessários", é ter baixa auto-estima, se contentar com pouco e achar que pode aguentar qualquer parada. É um comportamento assim que dá origem a situações cada vez mais trágicas e calamitosas. Vale tomar cuidado e agir.

sábado, 2 de abril de 2016

Mau espiritismo tenta se promover com bom-mocismo

SOPA DOS POBRES - No exterior, é apenas um socorro paliativo. No Brasil, porém, é visto erroneamente como "revolução social".

Hoje, dia dos "espíritas" se lembrarem do seu festejado ídolo Francisco Cândido Xavier, mais conhecido como Chico Xavier, a doutrina que vive a fase "dúbia", oscilando entre uma apreciação um tanto oportunista e hipócrita do legado de Allan Kardec e um igrejismo entusiasmado que vai contra esse mesmo legado, tenta prevalecer com suas manobras discursivas.

O mau espiritismo, a incompreensão ou mesmo a ignorância de muitas práticas e ideias estudadas pelo pedagogo de Lyon, tenta compensar esse grave equívoco com a farsa do bom-mocismo. É como se os "espíritas" admitissem que são maus kardecianos, mas são "pessoas boazinhas".

É o que se vê nas palestras "espíritas" e nos textos publicados em vários veículos, principalmente na Internet. Mensagens "positivas", ações "filantrópicas", um desfile de "palavras de amor" ao lado de figuras de corações desenhados ou fotos de crianças sorridentes, ou de meninos negros tomando sopa, todo esse marketing feito para boi dormir.

"Nosso diferencial é a bondade", dizem os "espíritas", como se quisessem convencer alguém com isso. Até convencem, já que muitos de seus seguidores vão dormir tranquilos com isso. Só que tratar a bondade como um diferencial soa como a pior das hipocrisias.

Isso porque, se uma instituição considera a bondade como seu diferencial, está na verdade dizendo que só a instituição é que pode ser boa, o resto não presta ou "não" trabalha a bondade conforme "o desejado".

Além disso, a ideia de usar a bondade como diferencial revela uma série de problemas. Primeiro, bondade não tem religião. Segundo, bondade não é uma qualidade específica para instituição alguma, é uma qualidade geral que deveria fazer parte de todos. Terceiro, porque se uma instituição define como sua maior qualidade a bondade, é porque ela é incompetente.

Imagine um hospital que não atende direito as pessoas. Médicos estão ausentes, corredores e salas estão superlotados. Recintos estão infectados, e até a sala de curativos carece de higiene adequada. Pessoas são deitadas no chão e atendidas ali mesmo por enfermeiros que improvisam tratamentos, sem se especializarem das doenças relacionadas.

Digamos que, com todo esse quadro, o diretor do hospital divulgue mensagens de paz, amor e fraternidade. A propaganda mostra a instituição hospitalar como um ambiente acolhedor, uma convivência entre irmãos, e a mensagem diz que a bondade é a marca desta instituição.

As pessoas vão acreditar nisso? Será que isso faz sentido? Será que o quadro humilhante dos pacientes pode ser compensado com uma "aura" de "fraternidade" trazida pela dócil e benevolente propaganda do hospital, com suas mensagens alegres, seu fundo musical adocicado e tudo o mais?

Mas as pessoas aceitam que uma doutrina que não entende bem o pensamento científico de Allan Kardec, que corrompe o legado do professor francês com igrejismo embolorado, e gosmento, que só pratica mediunidade de faz-de-conta ou curandeirismo mediúnico com espíritos grosseiros e práticas duvidosas, diga que seu diferencial é a "bondade".

Era mais ou menos isso que ocorreu com as "casas dos moribundos" de Madre Teresa de Calcutá, com pessoas alojadas em condições sub-humanas e atendidas com descaso ou incompetência pelas assistentes. Enquanto isso, se propagou todo um discurso de "fraternidade" que garantiu a imagem de "santa" da "filantropa", que será em breve oficializada pelo Vaticano.

E aí vem todo aquele papo de filantropia em que pouco se faz e muito se comemora. Vide a "caridade" de Chico Xavier, em muitos aspectos duvidosa, em muitos outros perigosa (como expor as tragédias familiares daquela maneira ostensiva, sensacionalista e piegas), ou vide a "caridade" de Divaldo Franco, bem menos expressiva (beeeeem menos...) do que se alardeia por aí.

Que transformação essas "caridades" fizeram? Nenhuma! Apenas pessoas transformadas em cidadãos medianos, religiosamente amestrados, que apenas fazem algumas coisas corretamente, sem deixarem marca como figuras humanas e sem ameaçar o sistema de desigualdades e injustiças existente.

Há tantas pessoas, fora desse "espiritismo" igrejeiro, que fazem muito mais pelo próximo, e no entanto são acusadas de "comunistas", "lavadores de cérebros", "manipuladores de pessoas", só porque desafiam o sistema de desigualdades vigente. Vide o educador Paulo Freire, por exemplo.

Quer dizer, uma pessoa que é ensinada a ver o mundo de maneira crítica e nele intervém de forma a desagradar os privilegiados do poder é considerada "manipulada" e sua escola, "fábrica de lunáticos". Da mesma forma, sofrem esta discriminação pessoas que são ensinadas a ler, escrever, pensar e agir para defender, por exemplo, a reforma agrária.

Já quem apenas é ensinado a ler, escrever e aprender uma profissão, mas também a ser um cordeirinho social dotado de crendices religiosas, claramente submisso e resignado, é visto como "atuante" e sua escola é tida como "transformadora" e "revolucionária".

Com o mesmo sentido, dar sopa aos pobres, que é uma medida paliativa necessária em casos extremos, só é vista como "revolucionária" no Brasil, enquanto, por outro lado, a luta por reforma agrária para que pequenos agricultores possam também plantar e produzir seus próprios alimentos é condenada pelos mesmos que preferem a "revolução pela sopinha".

São valores trocados. A educação que faz pessoas se unirem para lutar por melhorias de vida e ensina a ver o mundo de maneira crítica é vista, erroneamente, como "manipuladora". Já a educação que produz beatos religiosos que apenas fazem coisas inócuas, embora corretas e necessárias, é vista, tendenciosamente, como "transformadora".

Como definir como transformadora uma educação que não transforma, mas manipula, e definir como manipuladora uma educação que não manipula, mas transforma, é algo que ocorre só mesmo num país como o Brasil, cheio de contradições e equívocos.

Daí o grande problema do "espiritismo", que com seu igrejismo perde toda sua eficácia, o que mostra que não é o bom-mocismo que irá compensar as deturpações doutrinárias cometidas, muito pelo contrário. O bom-mocismo, mascarando a incompreensão da Doutrina Espírita, só atrapalha mais ainda no desenvolvimento moral das pessoas, domesticado pela fé religiosa.