quinta-feira, 30 de junho de 2016

O "espiritismo" está fora da realidade


Governo golpista no Brasil, violência rolando solta no Rio de Janeiro, fundamentalismos religiosos, crise econômica mundial, corrupção. Uma realidade dura, que se conforma quando, mesmo a alguns metros adiante, ocorrem tiroteios próximos às residências das pessoas.

Enquanto isso acontece e deixa as pessoas aflitas os "espíritas" se comportam como se estivessem no mundo da lua. Todos muito, muito felizes, dizendo que o Bem está imperando na Terra e que os noticiários não passam de "mimimi" para atrair mais público e abocanhar umas boas verbas publicitárias.

Que triunfalismo é esse? Os "espíritas" são pressionados de todos os lados? Culpa nossa, por recusarmos a reconhecer o "trabalho do bem"? Não, culpa dos próprios "espíritas" que usam a filantropia apenas para camuflar a desonestidade doutrinária que cometem.

O próprio aniversariante (de morte) de hoje, Francisco Cândido Xavier, a mentira personificada - a culpa não é nossa, mas dos atos sombrios que ele fez e os chiquistas, teimosos, se recusam a aceitar, entorpecidos pelo estereótipo de "bondade" do anti-médium - , havia transmitido seu "otimismo" sobretudo em relação ao Brasil.

Chico Xavier - que, pelo jeito, por ter sido um conservador de direita, tem como único "mal" não ter se filiado ao PT, porque assim a sociedade anti-petista tivesse alguma disposição para investigar suas fraudes - acreditava, como caipira católico, na fantasia infantil de ver o Brasil dominando o mundo, na risível condição de "pátria do Evangelho".

Claro, Jesus nasceu no Brasil, natural do antigo Distrito Federal (a hoje decadente cidade do Rio de Janeiro) e passou a vida indo para cidades como Pedro Leopoldo, Uberaba e Salvador (para ir à Mansão do Caminho ou aos bilionários hotéis onde Divaldo Franco faz palestras para os riquinhos, arrecadando fortunas para construir a fortuna "espírita" enquanto os incautos pensam que nesta doutrina só tem gratuidade) para compartilhar a "boa palavra" com os famosos "médiuns".

Simples assim. Afinal, coelhinho da páscoa põe ovos, eles são de chocolate e dentro deles nascerá um carrinho. É uma maravilha, já que é o país da Escola Sem Partido, que deixará de ensinar coisas como a contribuição da negritude na cultura brasileira, os problemas da inflação e explicar por que certas pessoas se apaixonam por gente do mesmo sexo para ensinar que o primeiro homem nasceu do barro e a mulher veio depois, nascida da costela do homem.

Até mesmo as tais "profecias" de Chico Xavier, que a turminha de deslumbrados como Geraldo Lemos Neto, Juliano Pozati, Rebeca Casagrande e Laércio Fonseca acreditam serem "filosofia futurista", com seus erros grotescos de Geologia e Sociologia, viam o Brasil de maneira bastante otimista.

Tudo maravilhoso. O "velho mundo" seria destruído, primeiro por ataques terroristas e depois por cataclismas que, de forma estranha, fariam o Círculo de Fogo do Pacífico se explodir com surreal parcialidade, destruindo a Costa Oeste dos EUA (Califórnia incluída), o Havaí, o Japão, a Nova Zelândia e a Indonésia, mas deixaria o Chile intato.

Em seguida, um Brasil confuso e despreparado, com uma democracia frágil, uma imprensa decadente que surta com facilidade e um Poder Judiciário que parece não ter conhecimento exato das leis ou, se tem, as descumpre "só para sacanear", irá comandar a "comunidade das nações" porque trará "grandes lições de humanismo e fraternidade".

Papai Noel é brasileiro e seu nome não foi Nicolau, mas Adolfo Bezerra de Menezes. Quanta fantasia de um movimento religioso que parece alheio à realidade. De que "bem" eles falam? As ajudas existem como existiram antes, mas os "espíritas" tentam alegar um "momento excepcional" dos dias de hoje, como se o "progresso espiritual" tivesse chegado.

Só falta mesmo dizer que "crianças-índigo" são gente como Kim Kataguiri, Marcello Reis - líder de um grupo que (atenção "espíritas"!) tem o nome de Revoltados On Line - , Flávio Bolsonaro (o filho do "homem", no caso Jair Bolsonaro), ou a neurótica Janaína Pascoal.

Mas se, com base nas "lições sábias" de Chico Xavier, que no auge da ditadura pediu para orarmos em favor dos generais, isso no auge da repressão, tortura e censura, em 1971, somos tentados a acreditar que até o coronel Brilhante Ustra era responsável pelo "reino de amor" do futuro e que suas maldades foram apenas um meio de promover "resgates espirituais" às vítimas, estas sim algozes que voltaram para a Terra para "pagar pelo que fizeram". No "espiritismo" a vítima é a "culpada".

Então, em que planeta os "espíritas" vivem? Nosso Lar, aquele paraíso católico fictício, com hospital, BRT, VLT, cineminha, anfiteatro, capela, cachorrinhos e gatinhos correndo pelas ruas, coelhinho pulando na relva, árvores verdejantes, lanchonete onde se serve até suco de acaí e uma periferia, um subúrbio chamado "umbral" onde pessoas "provocativas" vestidas de zumbis de teatro mambembe dançam o "funk", que pelo jeito será a "batida do Coração do Mundo".

Se a gente ir fundo a essas fantasias tão "sabiamente" trazidas por Chico Xavier e Divaldo Franco, vamos nos enlouquecer. Eles não estão fora da plutocracia em que vivemos. São apoiados pela Rede Globo, que cometeu suas diabruras. A Globo também serve de porta-voz das diversas elites que estão no poder tirando o dinheiro do povo, e poucos têm noção disso e de sua gravidade.

Em vez disso, voltou-se à moda exaltar pessoas com muito status social. De repente, tecnocratas, plutocratas, aristocratas, teocratas, autocratas, burocratas etc. É por causa deles que aberrações como os ônibus com pintura padronizada que ocultam empresas de ônibus para o bem da corrupção ou as siliconadas que se acham feministas bancando as "mercadorias sexuais" sem a intromissão de algum marido ou namorado, são aceitas e até apoiadas sem questionamento.

Se essas coisas são aceitas e o "espiritismo" vive uma impunidade extrema demais para uma doutrina que se valeu de desonestidades conceituais e fraudes na paranormalidade, então aceita-se qualquer coisa. Só que, pelo menos, a crise de valores em que o Brasil vive deveria ao menos ser reconhecida. Não dá para sermos felizes nesse trágico caos da desordem estabelecida.

terça-feira, 21 de junho de 2016

A bobagem da "filosofia da Data-Limite"

PARA MUITOS LUNÁTICOS, A TERRA É CHIQUISTA.

Bom, os incautos religiosos que acham que Francisco Cândido Xavier está acima de Jesus Cristo e apenas abaixo de Deus estão em festa. A criançada agora pode brincar de ser filósofo com palestras sobre "data-limite" de Juliano Pozati, Laércio Fonseca e outros lunáticos.

Isso tudo se encaixa perfeitamente no contexto em que vivemos, desse bagunçado governo de Michel Temer e sua equipe de deploráveis e que foi instaurado por um golpe político e jurídico que se vale pelo uso leviano e parcial das leis.

É um país que endeusa um juiz como Sérgio Moro, bastante parcial por ser rigoroso demais com o PT mas extremamente cauteloso com o PSDB. E que tem Gilmar Mendes tratando as cartas legais como se fossem papéis higiênicos.

É um país que assiste a um Jornal Nacional que mente diariamente e dá ouvidos a jornalistas como Reinaldo Azevedo, que simplesmente fazem calúnias gratuitas e escrevem como se fossem internautas desordeiros que se vê aos montes nas redes sociais.

O que esperar um país como o Brasil, que valoriza um Judiciário que não cumpre nem compreende direito o rigor das leis e uma imprensa que desinforma escancaradamente e confunde as pessoas, além de permitir que mentiras e calúnias sejam livremente despejadas como se fossem "direito à informação" e "liberdade de opinião"? Nada, a não ser burrice.

E é esse emburrecimento e imbecilização do público, que o mercado e os meios de Comunicação fizeram gradualmente desde os anos 90, que permite que se conceba uma ideia confusa, equivocada e sem qualquer fundamento do que é Filosofia.

E é com base nessa ideia sem fundamento, sem o menor sentido de coerência e lógica, que gente aproveitadora como Juliano Pozati investe na transformação de Chico Xavier em "cientista" e "filósofo", a partir de bobagens esotéricas sem pé nem cabeça.

COMO É A IDEIA ERRADA DE FILOSOFIA?

Vamos explicar como se dá a ideia errada de Filosofia, primeiro explicando o que realmente é esse termo. Filosofia é a valorização da sabedoria, a busca da verdade e ainvestigação realista dos problemas dos mais diversos tipos.

Filosofia vem do grego philosophia, "amor pela sabedoria". E, como um processo racional de investigação, não é uma ciência de verdades prontas nem de um saber que se pretenda absoluto, mas muito antes um esforço de alguém inicialmente ignorante em questionar, avaliar e buscar argumentos prováveis de problemas específicos, de qualquer natureza.

E como se dá a deturpação do termo Filosofia? Num Brasil com hábito irregular de leitura, onde até pouco tempo atrás livros para colorir estavam entre os livros de não-ficção (?!) mais vendidos, e que as pessoas têm o vício de pescar frases curtas de famosos de qualquer tipo como se isso fosse "filosofia de bolso", o termo Filosofia é simplesmente estuprado, em termos semânticos.

Em primeiro lugar, a ideia deturpada de Filosofia consiste não no processo de busca da verdade ou do conhecimento, mas naquilo que a gente entende como tentativa de pessoas que nada sabem de expor aquilo que não entendem para pessoas que entendem menos ainda.

Ou seja, a Filosofia que os leigos costumam apreciar não é o ato de apreciar a sabedoria, mas antes fingir que é sábio diante da incompreensão e da própria incompetência de saber alguma coisa. E é isso que garante a fortuna de charlatães e enganadores de plantão, de Gabriel Chalita a Divaldo Franco, ou até mesmo qualquer politiqueiro de coreto do interior do país.

Normalmente, essa deturpação tem um método trazido pelos espertalhões mais típicos. Junta-se nesse engodo ideológico, primeiro, um arremedo superficial de compreensão filosófica, pegando umas frases soltas de Sócrates e Platão e algum pensamento de gente como Santo Agostinho, Immanuel Kant e Jean-Jacques Rousseau e interpretar de maneira distante do que tais filósofos originalmente pensaram.

Esse pastiche de pensamento filosófico, que já vem misturado com frases de famosos - vale até Neymar fazer arremedos de sabedoria, se ele disser do tipo "Se você se mostrar inseguro na frente do gol, o gol que você perder poderá ser um drama para toda a vida" - , já que ele vem sobretudo do hábito preguiçoso e viciado de pessoas que colhem frases curtas para seu pequeno caderninho de "filosofia de todo dia".

Segundo, diante desse arremedo, que não são migalhas do bolo original desfeito por essa farra imbecilizante de falsos sábios, junta-se algumas crendices esotéricas. Como, por exemplo, como a conjunção de Saturno com Urano vai influir na paz mundial e se o horóscopo publicado pelo jornal Meia-Hora ou Diário de São Paulo vão contribuir para resolver a crise no Brasil.

Mas isso é o mais simplório. Em sentido mais ambicioso, descreve-se coisas surreais e fictícias como "crianças-índigo" ou "crianças-estrelas", planetas ou astros como Nibiru, Alcione, Cryon ou qualquer coisa não muito diferente do Crypton das estórias do Super-Homem, inseridas num processo de suposta transformação da espécie humana.

Há também o uso deturpado de referenciais científicos, compondo assim uma pseudo-ciência em bases verossímeis. Claro, cita-se cientistas autênticos, como Galileu Galilei, Isaac Newton, Albert Einstein, Albert Schweitzer, mas seus conhecimentos são distorcidos numa interpretação pedante que tem mais de esotérica ou de bajulatória, um puxa-saquismo do conhecimento científico que os pseudo-amigos da sabedoria se recusam a desenvolver.

No "espiritismo" brasileiro, houve até uma torcida para ver quem havia sido o fictício André Luiz: se foi Carlos Chagas, Osvaldo Cruz, Miguel Couto, etc etc. Botaram até um dirigente do Flamengo, Faustino Esporel, mas, por incrível que pareça, ele não saiu vitorioso, para desespero dos flamenguistas que sonhariam ter um vínculo com o médico "espiritual" criado pelas mentes de Chico Xavier por inspiração de George Vale Owen e sob colaboração de Waldo Vieira.

Aos arremedos filosóficos e científicos e ao esoterismo, coloca-se um pouco de Ufologia. Muitos consideram a Ufologia uma pseudo-ciência, já que trabalha muito mais com especulações e tenta lançar teses prováveis com base em palpites com nível frágil de probabilidade, já que podem ser "provados" com argumentos verossímeis, que no entanto são facilmente questionáveis e com alta tendência de serem refutados por definitivo.

Com isso, fala-se em vinda de extra-terrestres, evocação de civilizações adiantadas, que virão os tais "planetas-chupões" para, de maneira estranhamente seletiva, tirar do nosso convívio pessoas consideradas malignas para a humanidade, como nenhum aspirador de pó conseguiria fazer com a sujeira, já que, sabemos, tais utensílios absorvem tudo, de poeira com ácaro grudada na parede até moedas tanto de níquel quanto de papel.

E aí, junta-se todo um repertório que os incautos e até mesmo os idiotas (estes com maior convicção do que aqueles, que por sua vez agem com boa-fé) entendem como "filosofia". E que nada tem a ver com busca da verdade, valorização do conhecimento etc,, por mais que seus partidários tentem provar que tem a ver.

Esse engodo armado por Juliano Pozati e comparsas só serve para fortalecer a terrível blindagem que Chico Xavier, originalmente um terrível plagiador e pastichador de livros e um explorador de tragédias familiares, recebe, na mais absoluta impunidade. Ele faz suas traquinagens paranormais e é considerado quase um Deus, chegando a ser considerado "mais importante que Jesus Cristo".

Como uma pessoa tão leviana e sem qualquer confabilidade como Chico Xavier pode alcançar uma reputação dessas é algo construído por diversos jogos de interesses, como religiosos, empresariais, midiáticos, políticos etc.

Até a Rede Globo tem sua participação na elaboração desse mito gosmento de pretenso filantropo (e ela já faz o mesmo com Divaldo Franco). E poucos conseguem perceber que muita gente promove essa imagem de "bondade" e "caridade" para ganhar dinheiro, com palestras caríssimas, livros e documentários que servem para gerar a fortuna dos envolvidos, enquanto eles fingem generosidade com a tendenciosa gratuidade em outras atividades.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Brasil tem uma minoria que é rica demais


Há muitos mendigos nas ruas? Os assaltos já acontecem em horários diurnos de grande movimento? Você não consegue emprego de jeito algum? Os concursos públicos afunilam demais a seleção, com provas cada vez mais complicadas?

Essas perguntas surgem num momento de aparente crise econômica que atinge o país. Uma crise que é muito mal explicada, principalmente por uma mídia que não quer saber de realidade. A mídia deforma e, nos últimos meses, defendeu a instalação de um cenário político deplorável e pior do que supostamente parecia o governo anterior.

Vamos esclarecer. Até pouco tempo atrás, o PT comandava o Governo Federal. Tivemos Lula em dois mandatos e Dilma Rousseff, no segundo, foi afastada por supostas acusações. O motivo para que Câmara dos Deputados e Senado Federal votassem para seu impeachment, manipulações econômicas conhecidas como "pedaladas fiscais", foi vagamente mencionado e mesmo assim permitiu que ela saísse do poder, com chances de uma nova votação reafirmar essa condição.

Só que foi instaurado um governo pior, o do vice Michel Temer, de tendência conservadora, antissocial, que promete "gerar renda" cortando gastos sociais e fortalecendo industriais e banqueiros. O pessoal acredita que isso trará prosperidade para o brasileiro comum, o que é uma grande e perigosa ingenuidade.

A situação é tão surreal que um dos "heróis" do governo Temer, o ministro da Fazenda Henrique Meirelles, está fazendo justamente o que se acusou Dilma de supostamente fazer: adulterar dados fiscais e transferir recursos de um destino para outro, no caso cortar gastos sociais para fortalecer empresas e bancos privados, sob a desculpa de "aquecer a economia" e "combater a inflação".

Isso é que é "pedalada fiscal". Mas, como tecnocrata, Henrique Meirelles pode fazer errado que é endeusado. É um executivo do mercado financeiro e uma espécie de "novo Roberto Campos" no sentido de ser um "salvador da pátria" da economia.

Só que ele adulterou dados fiscais. Criou uma meta fiscal fictícia, inflando os R$ 120 bilhões originalmente, avaliados por sua própria equipe, com pouco mais de R$ 50 bilhões vindos do nada. Vieram os R$ 170,5 bilhões feitos para assustar a "criançada" que vê o Jornal Nacional e lê a revista Veja, fazendo com que a "nação coxinha" pedisse mesmo para que se cortassem gastos sociais aqui e ali.

De repente, o Brasil foi enxurrado de preconceitos sociais que estavam atolados nas gargantas de muitos brasileiros reaças. O racismo dos trolls de Internet, os "fascistas mirins" que também defendiam coisas "estabelecidas" pelo status quo político, midiático e mercadológico, o estupro coletivo de machistas vorazes, o elitismo doentio da classe média masoquista.

Só os mini-tiranos das mídias sociais, com seu autoritarismo cômico do cyberbullying, defendiam coisas absurdas como uma gíria patética ("balada"), mulheres-frutas (mulheres-objetos dotadas de muito silicone e muito mais arrogância), medidas nocivas como pintura padronizada nos ônibus (propaganda política travestida de "mobilidade urbana"), "rádios rock" fajutas (a paulista 89 FM e a carioca Rádio Cidade) e o culto a sub-celebridades que nada têm a dizer, como ex-BBBs.

É essa "galera irada" que rezou para o Pato da FIESP tirar Dilma Rousseff do poder e pede o Nobel da Paz para o Kim Kataguiri. É uma "galera" de midiotas (idiotas midiáticos), que finge odiar a Rede Globo mas segue servilmente ao que William Bonner, Galvão Bueno e Luciano Huck lhe dizem na TV e que, "moderna", lutou para que a plutocracia tomasse o poder em maio passado.

CRISE

A classe média "esclarecida", que toma como "verdade absoluta" qualquer mentira "de impacto" que vira capa da revista Veja, acaba sofrendo da "síndrome de Estocolmo" (distúrbio psicológico em que o sofredor sente algum amor por seu algoz) e defendendo uma elite que pretende deixar o povo na miséria, numa queda gradual de qualidade de vida.

Muitos estão comparando o governo Temer ao de Ernesto Geisel, devido a um processo de marcha-a-ré política. É como se fosse o governo FHC piorado, sem o verniz de modernidade e intelectualismo que pelo menos o governo do ex-presidente tucano tinha.

O mais surreal disso tudo é que quem está no poder, no Governo Federal, é um condenado político. Sim, porque o TRE de São Paulo verificou que Michel Temer havia gasto mais do que tinha direito nas doações da campanha eleitoral em 2014. Resultado: Temer está proibido de concorrer a qualquer cargo político por oito anos.

Pela brecha das leis, Temer pôde continuar exercendo os cargos que desempenha, daí que ele continuou sendo vice-presidente, hoje é presidente em exercício e, além disso, ele acredita que irá terminar o mandato em 2018. A título de comparação, é como se um jogador de futebol recebesse cartão vermelho e continuasse jogando a partida.

O que se observa é que a desculpa da crise econômica - na verdade, um elemento menor diante de uma crise ainda mais dinâmica, que envolve valores morais, sócio-culturais e praxe política - faz com que Temer e sua equipe criem um projeto político-econômico que vai prejudicar os trabalhadores sob o pretexto de impor "alguns sacrifícios".

Esses "sacrifícios", que muita gente boa, entorpecida com os valores trazidos pela Teologia do Sofrimento - seja pela via Católica, já dissolvida como tempero na ideologia capitalista, ou seja pela via do "bondoso" Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier - , acha "tudo natural", são na verdade prejuízos a serem impostos com os retrocessos em relação ao projeto político do PT.

O PT não era o partido "mar-de-rosas", tinha membros realmente corruptos, mas é duvidoso que Lula e Dilma Rousseff tenham realmente comandado os crimes que lhes são atribuídos. Sozinho, Aécio Neves roubou mais do que um PT inteiro, e até Jair Bolsonaro pratica corrupção de deixar os "coxinhas" boquiabertos.

Mesmo assim, o PT tinha um projeto político que fazia as classes populares ficarem confiantes com os progressos a serem feitos no Brasil. Não era perfeito, mas mesmo assim tinha uma maior preocupação em beneficiar os brasileiros comuns e, sobretudo, as classes trabalhadoras, geralmente maltratadas por políticas excludentes, aquelas que muitos imaginam "salvar o país".

RICAÇOS

O plano Temer, chamado "Ponte para o Futuro" - que mais parece afundar o país para os parâmetros de "prosperidade social" de 43 anos atrás, ano da crise do governo Médici - , só serve para salvar os ricos de perder seus privilégios.

Os ricos estavam furiosos com os avanços sociais dos últimos 13 anos e resolveram usar a grande mídia para disparar seu ódio contra o PT. Financiaram intelectuais culturais para se fantasiarem de "esquerdistas convictos" para defender a degradação sócio-cultural necessária para impedir que os pobres melhorem de vida e estabeleçam uma visão crítica do mundo.

Faziam um jogo duplo. Enquanto apoiavam uma imprensa que caluniava Lula, Dilma e o conjunto do PT, liberavam intelectuais "de esquerda" para dizer que "a pobreza é linda", que o pobre "não precisa" de escola, trabalho com carteira assinada, nem dignidade. Esses intelectuais pregavam que "dignidade" nas populações pobres era a prostituição, o analfabetismo, o subemprego.

"Feminismo" era a mulher se oferecer como objeto sexual, "provocatividade" era fazer papel de ridículo na TV, "negritude" era o negro afirmar, por si mesmo, estereótipos trabalhados por racistas, e "combate ao preconceito" era aceitar as classes populares na sua visão mais caricatural e depreciativa.

É aquela coisa: promove-se a desqualificação das classes populares, insere-se nelas a decadência sócio-cultural, o povo é feito refém de suas próprias debilidades e problemas, e vem uma geração de "pensadores", entre "acadêmicos", "ativistas" e "famosos" dizer que toda essa porcaria era "a realidade do povo pobre" e devemos aceitá-la "como ela é".

Enquanto isso, contradições apareciam. Os ricos ficavam mais ricos por causa do circo midiático de jornalistas reacionários e temperamentais e intelectuais que espetacularizavam a miséria do povo pobre. O povo permanecia na sua pobreza, acreditando no papo de festejados jornalistas culturais de que "tudo era lindo": o subemprego, o analfabetismo, o alcoolismo, a prostituição, a grosseria, a pornografia descontrolada etc.

Contraditoriamente, alguns desses porta-vozes desse entretenimento "popular" ficavam ricos além da conta: funkeiros, jogadores de futebol, ex-membros de reality shows, mulheres-frutas e "musas" similares, ídolos do "sertanejo" e "forró eletrônico", apresentadores de noticiários policialescos etc.

Um sem-número de nulidades passou a engrossar o rol dos mais ricos, apenas aumentando um pouco a "multidinha" que detém rendas exorbitantes. Um Wesley Safadão que se hospeda num hotel em Dubai e ex-BBBs e funkeiras combinando viagens à Disney são exemplos dessa nova realidade.

Isso não representou a melhoria para as classes populares. Afinal, só uma parcela de supostos representantes da "cultura popular" é que ficava próspera, e ainda por cima além da conta, já que um ídolo de "forró eletrônico" ganha muito mais do que todo um quadro de operários de uma fábrica instalada no país. Com uma única apresentação, um funkeiro iniciante ganha, no mínimo, dez vezes o valor máximo que um servidor público iniciante (estágio probatório) consegue ganhar em um mês.

Temos os ricos de sempre: empresários, profissionais liberais, astros de TV, políticos, banqueiros, latifundiários, dirigentes esportivos, executivos em geral, entre outros privilegiados de sempre. Gente ganhando mais do que precisa, acumulando luxo à toa, vivendo de supérfluos que nem valorizam direito e não tendo noção do que realmente necessitam ou merecem para sobreviver.

Muitas famílias moralistas ficam resignadas com isso, vendo o Jornal Nacional que lhes obriga a acreditar que esse cenário de privilégios exorbitantes - é bom deixar claro que, sonegadores de impostos, os irmãos Marinho, donos da Rede Globo, estão entre os mais ricos do país segundo a Forbes - e acham que é o que "está embaixo" é que tem que "meter a cara" para obter pouca coisa.

A classe média sacrifica demais. Não consegue encontrar o emprego que procura, e tem que abrir mão das próprias habilidades para ter um trabalho qualquer na vida. Estuda demais para não conseguir passar num concurso público, porque, pela visão de seus organizadores, servidor público tem que ser matemático.

Aliás, são as neuroses do mercado de trabalho que fazem com que se façam exigências absurdas aos profissionais. É o profissional que tem que ser ao mesmo tempo jovem e veterano, ou então o que tem que ser comediante para interagir com os colegas. Ou então o servidor-matemático que pode até ser um mau assistente administrativo, mas pelo menos foi aprovado por "aquele concurso público" e conquistou o cargo por "seus próprios méritos".

Até feminicidas conjugais têm mais direito ao mercado de trabalho do que os cidadãos comuns, pois, com uma ficha criminal preenchida, eles continuam entrando nas profissões com relativa facilidade, são "ressocializados" acima do que merecem, e só não podem presidir empresas por causa da imagem criminosa que deixaram, mas mesmo assim podem decidir livremente como membros do conselho administrativo, quase que como se fossem os próprios presidentes.

Somos induzidos a nos conformar com uma minoria privilegiada que tem mais do que realmente precisa. A classe média tem que lutar demais para obter pouco, não bastasse ter que encarar assaltos, pagar contas caríssimas, racionalizar seus bens, e ainda ter que doar o que não tem para a "caridade", sem saber que muitas instituições (sem excluir as "espíritas") desviam muitos donativos para serem vendidos em brechós e bazares para o conforto de seus líderes religiosos.

E é assustador que essas religiões ainda falam em "justiça social" e se proclamam "progressistas". Elas preferem que tenhamos "misericórdia" aos que abusam demais de qualquer coisa do que buscarmos combater injustiças e crueldades.

E é por isso que um país que se apega às piores religiões, como as seitas neopentecostais que comandam a "Bancada da Bíblia" e o "movimento espírita" que monopoliza os paradigmas de "amor e bondade", acaba fazendo com que a plutocracia, o "governo dos ricos", reconquiste o poder, criando problemas que os próprios brasileiros pouco conhecem. Será preciso sofrer mais para entender melhor as coisas?