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"Espiritismo" vê a vida futura de forma materialista


O "espiritismo" brasileiro é espiritualista? Não. Ele é materialista. Pode parecer estranho para muita gente, mas se fizermos um exame bastante cuidadoso e atento, livrando-nos do fardo da complacência e da submissão a mitos, totens e dogmas, veremos que essa "estranha" e "inconcebível" constatação é de uma verdade contundente.

A influência do moralismo do Catolicismo medieval português, das práticas ocultistas e esotéricas que dissimulam todo o desconhecimento de mediunidade rigorosamente analisado por Allan Kardec faz os "espíritas" se apoiarem em visões materialistas, como a forma como supõem ser a "vida futura" no além-túmulo.

Daí a desculpa que eles fazem quanto aos sofrimentos humanos. O "espiritismo" não tem ideia de como a vida material é complexa e que as pessoas têm projetos de vida diferenciados, nem todo mundo aceita viver qualquer coisa, qualquer infortúnio, qualquer experiência medíocre, a título de "deixar o tempo correr" para a volta à "verdadeira vida".

As pessoas querem viver de forma diferenciada. Ter desejos e interesses próprios não pode ser visto como uma busca fútil de satisfação pessoal. Há critérios específicos de aproveitamento de talentos, de expressão do desejo humano que expressa a consciência de que determinadas experiências de vida é que permitem a evolução espiritual, bem mais do que "viver como se pode".

Aceita-se a namorada que a vida impuser, o emprego que estiver no caminho, a moradia que tem que se hospedar, sem verificar a questão de afinidades nem mesmo a do aprendizado. A única regra é abrir mão do que se gosta, até passar a aceitar o abominável, o aberrante, o surreal, até que o retorno ao mundo espiritual seja visto como uma esperança de "algo melhor".

Só que sabemos que o mundo espiritual ainda é um mistério. Existe vida espiritual, existe reencarnação, existe contatos com os espíritos. Mas o atrapalhado "movimento espírita" deturpa tudo isso e envolve essas ideias num processo em que envolve burrice, desonestidade e fantasia, criando concepções fictícias que são tidas como "realistas", "verídicas" e "fidedignas"... porque sim!

Note-se, por exemplo, a forma como é vista o Nosso Lar. Uma ficção copiada de outra ficção. Se o livro original, A Vida Além do Véu (Life Beyond the Veil), que o reverendo protestante de dons paranormais, o inglês George Vale Owen, produziu em cinco volumes, criava muita fantasia da espiritualidade, o clone brasileiro de Francisco Cândido Xavier e seu André Luiz foi muito mais fundo do que a fonte de inspiração.


Nosso Lar, o livro, é uma ficção científica ruim. Há rumores de que mesmo pré-adolescente na época (1943), o menino-prodígio do "movimento espírita" Waldo Vieira, fã de quadrinhos de sci-fi, teria dado sugestões. Ele também era de família de médicos, que também teriam encaminhado sugestões de narrativa e abordagem "científica".

A obra narra uma suposta colônia espiritual cuja localização é tida como no céu da cidade do Rio de Janeiro. Não é preciso dizer que isso influiu nos retrocessos que tomam conta da ex-Cidade Maravilhosa, reduzida a uma mistura de Disneylândia com "terra de ninguém", eu que os políticos e tecnocratas fazem o que querem e o povo é obrigado a aceitar e até a endeusá-los.

Nosso Lar, a colônia, é narrado como um complexo arquitetônico que envolve um misto de hospital com internato, o núcleo central desta "cidade do além", e é cercado de prédios imponentes e praças e parques muito atraentes.

A analogia que fizemos nas imagens desta postagem, com shopping centers, condomínios de luxo e outras construções é evidente. Só faltou dizer qual é a empreiteira que construiu Nosso Lar. As ilustrações mostram o caráter publicitário, puramente marqueteiro, desse mundo "espiritual" que muito tem de material.

Lá as pessoas comem, bebem, dormem, vão ao cinema, andam de BRT (Aeróbus), usam Bilhete Único (Bônus-Hora) não só para o transporte, mas também para o cinema, teatro, lanchonete, etc, e há uma concha acústica que, em tese, tocava música clássica. Isso em tese.

Afinal, do jeito que é o "espiritismo" brasileiro, o que se poderia observar são apenas arremedos de boa música, provavelmente um polido Mr. Catra acompanhado de orquestra sinfônica, um É O Tchan com dançarinas usando camisolas brancas, um Chitãozinho & Xororó tão pedantes quanto os da Terra, pretensamente sinfônicos e preciosistas com seu caipirismo de araque.

O livro Nosso Lar já é um pastiche de relatos futuristas e abordagens científicas que serve para dissimular todo o religiosismo blasé, retrógrado e viscoso, do moralismo mais canhestro, da fé mais apegada e fanática, que fez do livro um dos best sellers do charlatão Chico Xavier.

Sem estudos que nos façam sequer supor como seria a vida espiritual - longe das abordagens materialistas que o "movimento espírita" tão convictamente afirma em suas teses especulativas - , achamos que, quando morrermos, terá parentes nos esperando como que no desembarque do aeroporto e seremos transportados para pousadas que funcionam também como hospitais psiquiátricos.

Veremos o "bom da vida material" no além-túmulo? Haverá a separação correta entre o que é bom e mau, sendo o "lixo" depositado no chamado "umbral"? Cairemos na ilusão de irmos para lindos parques para ouvir passarinhos cantando em árvores ou a assistir a corais de anjos em cantos harmoniosos?

Tudo é muito complexo. Não sabemos o que é o mundo espiritual, simplesmente porque não estudamos, não pesquisamos, não questionamos. E os "espíritas" pioram as coisas quando nos aconselham a não questionar e a apenas "crer". Eles impõem a credulidade que dizem ser "fé raciocinada". Mas que fé raciocinada é essa em que a coisa que não se pode fazer é raciocinar?

Diante dessa falta de estudo, de raciocínio, de pesquisa, a vida espiritual é feita por especulação, a partir das paixões materialistas dos "espíritas", que desprezam a vida material que aqui temos, para sonhar com a vida material no além-túmulo, querendo assim que tenhamos que viver nossos pesadelos diários na esperança de alcançarmos os sonhos bonitos do amanhã.

E acreditamos em tudo isso até que um dia retornamos ao mundo espiritual e as ilusões "espíritas" são drasticamente desfeitas...

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