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A "cultura do estupro" reflete a coisificação da mulher


Vemos posturas sociais retrógradas e muito mal disfarçadas. O politicamente correto de anos atrás fazia com que elites acadêmicas tratassem o povo pobre como um bando de idiotas e, mesmo assim, achar tudo isso "generoso" e "progressista".

O povo pobre é visto como idiota, infantilizado, tolo e ignorante. Os intelectuais mais badalados diziam que isso era "felicidade", que a favela era um "paraíso", que a ignorância era "sabedoria" e o grotesco era apenas uma reação ao "bom gosto das elites".

Para piorar, esse pessoal que, sem botar um único dedo do pé nas periferias, se achava detentor da palavra final sobre o que deveria ser o povo pobre lançava seus pontos de vista preconceituosos - embora eles jurassem que eram "contra todo tipo de preconceito" - em monografias, documentários, grandes reportagens, livros e outros meios de trazer uma abordagem mais "objetiva".

Eles se achavam vitoriosos na sua visão do que deveria ser a "cultura das periferias" e, sem saber, abriram caminho para preconceitos piores: eles mal conseguiam disfarçar a apologia que faziam à ignorância, à miséria e até a valores retrógrados que, segundo eles, "mostravam o melhor da cultura das comunidades pobres".

Eram um julgamento de valor elitista. Achavam esses antropólogos, cineastas, historiadores, jornalistas culturais, ou mesmo membros de associações de "funk" que o povo pobre tinha que ficar na miséria, na pobreza, apenas tendo algum dinheiro.

A "emancipação social" que eles defendiam era apenas um meio de expor sempre a "ajuda" das elites. O pobre, segundo esses intelectuais, não poderia superar a pobreza por conta própria, e por isso precisava da aceitação da classe média para dar margem à ajuda de gente com mais dinheiro. Seja ela uma socialite, um estilista de moda ou as verbas do antigo Ministério da Cultura de Lula e Dilma Rousseff.

Diante desse festival de lorotas, que garantiu muitos aplausos de plateias desavisadas e enganou direitinho as forças progressistas - que achavam que essa "cultura do mau gosto" era o máximo em folclore popular - , os intelectuais festivos permitiram porém que o povo pobre continuasse sofrendo sua tragédia de todo dia.

Como no caso da exploração da mulher "popular", cujos efeitos só poderiam resultar no aberrante caso do estupro de 33 homens em uma moça de 16 anos. O terrível caso não aconteceu numa festa de socialites na Barra da Tijuca nem em um bastidor de um desfile de moda, mas no subúrbio de Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro, uma região predominantemente pobre e violenta.

"DIREITO AO CORPO"?

Durante muitos anos, os intelectuais apenas se limitavam a falar mal da exploração leviana da mulher nos comerciais de TV. Era o comercial de detergente que mostrava uma dona de casa debiloide que custava a tirar a sujeira da parede da cozinha ou eliminar a gordura de um fogão. Ou a maluquete que aparece em outros comerciais: automóvel, jeans, lingerie, margarina etc.

Isso tudo só era criticado quando a exploração atingia a mulher de classe média. Quando ela envolvia mulheres que representavam o público das classes populares, ninguém criticava, todos achavam maravilhoso.

O "funk", por exemplo, sempre mostrou essa exploração leviana da mulher. As mulheres-frutas - que apesar do nome, podem incluir uma Mulher Filé ou Mulher Caviar - , a Valesca Popozuda (que tentou ser politicamente correta, bancando a pretensa feminista depois de aceitar fazer o papel do objeto sexual no palco), fizeram até pior do que muito comercial de detergente, lingerie e margarina.

Mas ninguém dava bola para essa gravidade. As funkeiras faziam o jogo da ideologia machista, que fazia com que elas aceitassem essa função de ser mercadorias eróticas, mas os intelectuais, e, sobretudo, as mulheres que integram essa elite "pensadora", tentavam inventar que as funkeiras faziam isso para esnobar os machistas e blablablá.

A alegação é que as funkeiras usavam os valores machistas para "denunciar" sua opressão e, "rompendo" com eles - algumas, aparentemente, se declaram "solteiríssimas", embora rumores indiquem que várias dessas funkeiras têm namorados e até são bem casadas - e usam a misandria (horror simbólico à figura masculina) como um falso sinônimo de "feminismo".

Juntamente a elas, uma avalanche de siliconadas chegou a congestionar a Internet com suas fotos "sensuais": umas deixando o biquíni cair na praia, outras deixando o vestido ser levantado pelo vento, outras usando roupas apertadas, outras exibindo blusas curtíssimas. outras com decotão, outras com traseirão etc.

De "musas" como Solange Gomes - que aos 42 anos se atreve a promover sua imagem de mercadoria sexual - às "peladonas", "proibidas", "liberadas" e "miss bumbum" da vida que proliferam como cupins em madeira podre, o machismo recreativo brasileiro só poderia dar na "cultura do estupro" que se deu nos últimos tempos.

"PASSAGEM DO TREM BALA"

Essas "musas", sobretudo a Mulher Melão, a funkeira mais exibicionista - ela chegou a atrapalhar um toplessaço que seria um evento ativista para mostrar seu corpo grosseiro - , publicam suas fotos nas mídias sociais e os machos na Internet ficam babando. É assustador como a Mulher Melão, Solange Gomes e companhia fazem muito sucesso nas mídias sociais e continuam em evidência.

É porque vivemos num país machista, em que a mulher só tem duas opções: ser a "rainha do lar" num casamento patriarcalista, como ´o caso da atual primeira-dama Marcela Temer, ou ser o "brinquedo sexual" dos machos sexualmente afoitos, como Solange Gomes e Mulher Melão.

Mulheres assim que "mostram demais" eram propagandistas de algo bem pior do que comerciais de detergentes. Eram propagandistas de um produto ainda mais terrivelmente consumista: a ilusão de permissividade do sexo representada pela imagem da mulher-objeto. A mulher-objeto era o produto a ser "vendido".

Essas mulheres lançavam sempre fotos com poses "sensuais". Não havia interrupção. Podia ser feira de automóvel, lançamento de livros, eventos musicais ou até mesmo um funeral, lá estava fulana "mostrando demais", seja exibindo decote, usando vestido colado no corpo ou "pagando peitinho". Mesmo se a "culpa" seja do vento que levantou um vestido ou da alça do mesmo que fez mostrar o mamilo do seio, a apelação demonstra-se puramente gratuita.

E tudo isso sempre veio acompanhado de apelos como "me deseje", "hoje estou solteira e carente", "meu consolo são vocês, meus fãs", e a desculpa da "liberdade do corpo" é usada para permitir que essa aberrante exibição sem contexto do corpo "turbinado" tenha continuidade, nem que seja para cansar a paciência de qualquer um.

O público dessas mulheres-objetos, que não tem lá uma boa escolaridade nem uma educação social ou familiar exemplares, acaba acreditando, ao ver as fotos de Solange Gomes, Mulher Melão e companhia, que a liberdade sexual é absoluta e as mulheres sempre estão aí para atender aos desejos sexuais dos machos afoitos.

E aí, o resultado foi esse: uma moça adolescente que os machos acreditavam estar disponível a tudo. Ignoraram eles que ela ia visitar o namorado, mas mesmo se ela fosse "encalhada" isso não era motivo para os mais de 30 brutamontes fizerem o que fizeram. Não há uma justificativa que autorizasse tal atitude. Nem mesmo atenuantes nem relativizações.

"Estado do Rio de Janeiro inaugura novo túnel para a passagem do trem-bala", disse um internauta sarcástico ao anunciar o vídeo do estupro que foi gravado no sábado dia 21 de maio e lançado no dia 25. Muitos internautas que seguiram esse vídeo, incrivelmente, elogiaram a "façanha".

"A novinha está folgada", comentou um outro internauta, diante de outros comentários "divertidos". O que se tornou um agravante, já que o estupro havia sido apoiado por vários machos entusiasmados. E, mesmo que esse estupro fosse uma encenação - o que algumas fontes chegaram a dizer - , ele já era grave pela apologia que se fazia a esse crime terrível.

É uma "cultura do estupro" que teve o respaldo de dois "adoráveis cidadãos" ligados à "moralidade" e aos "bons costumes". Um Alexandre Frota que narrou um estupro que ele fez com uma mãe-de-santo a um Danilo Gentili que gostou da estória, e um Jair Bolsonaro que disse que não estupraria uma parlamentar de esquerda porque "ela não merecia".

ATÉ O "ESPIRITISMO" CRIMINALIZA A VÍTIMA

E ai vemos a "cultura do estupro" que se vale por causa da coisificação da mulher. As siliconadas ainda vão fazer beicinho e reclamar de que "são acusadas de incitar o estupro", etc etc, mas o problema é que elas aceitaram fazer propaganda de uma ilusão de "liberdade sexual" que impulsionou esses homens a fazer o que fizeram com a pobre garota.

As siliconadas, "boazudas", "popozudas" e "musas populares" têm em parte responsabilidade, porque elas sempre venderam a imagem de que sexualmente "se pode tudo", estimulando com a exibição de seus corpos a sexualidade obsessiva de machos descontrolados.

Daí que vemos episódios como um fã neuroticamente apaixonado pela apresentadora Ana Hickmann (que, sabemos, é uma mulher casada e com filho), e que achou que tudo era possível e foi invadir o hotel onde ela estava para se vingar do "amor não correspondido", tendo que ser morto pelo cunhado durante uma briga corporal para evitar a chacina que o maníaco pretendia realizar.

Mas é essa mesma mídia "popular" que impulsiona os machos a desejarem sexualmente as mulheres como se elas aceitassem tudo. Sendo brutamontes sem qualquer tipo de discernimento, eles não veem diferença de uma Solange Gomes que "adora ser paquerada" e uma Ana Hickmann ou uma jovem de Jacarepaguá que só querem privacidade e o direito de não serem assediadas de forma fútil.

Só que o caso grave do estupro da menina de Jacarepaguá revela também a complacência aos valores machistas. Um país em que se tem medo de ver feminicidas morrerem - a imprensa provavelmente deixou passar tantos feminicidas antigos, cujos julgamentos viraram notícia em todo o país, mas cujos óbitos, vários prematuros, se perderam no semi-anonimato das estatísticas hospitalares - mas pouco importa com a tragédias femininas, ainda criminaliza a mulher vítima de violência.

Um delegado chegou a dizer que a vítima era culpada. E são sempre aqueles papos: "Por que ela foi se casar com aquele crápula?", "Por que ela andou sozinha na rua?", "Não teria a moça gritado com o marido para ele reagir daquela forma?", "Também ela quis se separar dele, que até a levava para jantar...", são muitas das desculpas arrumadas pela sociedade machista que ainda fala em "defesa da honra" para certos feminicídios de caráter conjugal (os antes chamados "crimes passionais").

E o "espiritismo", a "religião da bondade, da misericórdia e da luz", que se diz "esclarecedora" e defensora da "paz e da caridade", de vez em quando faz seus julgamentos de valores perversos e cruéis. Prática que Francisco Cândido Xavier, o "tão querido" Chico Xavier, também fez e mostrou com suas próprias palavras (embora ele tenha que atribuir levianamente aos espíritos do além que eram apropriados para sua traiçoeira literatura "mediúnica").

O "espiritismo" defende a ideia de que "a vítima é a culpada" por um engodo moralista chamado "Lei de Causa e Efeito", uma espécie de Imposto Moral que se segue ao "fiado espírita", e que são próprios da visão "espírita" da Teologia do Sofrimento, corrente da Igreja Católica que Chico Xavier tanto apoiava (com suas próprias palavras, vale lembrar).

O "fiado espírita" é uma forma de fazer com que as pessoas possam cometer suas crueldades e abusos numa encarnação, sem que possam sofrer um dano severo ou uma punição definitiva. Mesmo que encontrem escândalos, infortúnios e prejuízos em seu caminho, nada é feito para lhes derrubar por definitivo, mesmo quando o prestígio e a popularidade despenquem em dado momento na vida.

Desta forma, o sujeito que é cruel numa encarnação só vai pagar pelo que fez na outra. É o "fiado espírita". E, na encarnação seguinte, quando não está mais interessado em cometer crueldades, o sujeito vai, todavia, pagar caro demais, sofrendo desgraças acima do nível em que pode suportá-las.

E o que os "espíritas" vão dizer sobre a menina que foi vítima de estupro por 33 homens?

1) Que ela teria sido, em antiga encarnação, uma cortesã romana que mandou seus 33 escravos para serem devorados por leões famintos?

2) Que a cruel experiência que ela sofreu foi um "resgate moral" das faltas que ela supostamente cometeu?

3) Que os 33 homens tinham ausência de Jesus no coração? (observa-se, todavia, que a religião não faz as pessoas ficarem imunes aos maus instintos, antes os protegessem pelo "remédio da fé", como um remédio "protege" um resfriado ou uma gripe).

O juízo de valor "espírita" também tem suas apologias cruéis. Os "espíritas" desvalorizam a vida material, no sentido de oportunidade para o espírito intervir nela para melhorá-la, e prega que todos aceitemos os "desígnios do Alto" e adiemos nossos planos de transformação para uma ou duas encarnações depois.

Daí o caráter desumano do "espiritismo", que se diz "voltado ao amor e à bondade". Ele está mais preocupado em culpar a vítima de estupro e pedir para ela ter misericórdia com os culpados. Diz que o ato é "reprovável", mas cria atenuantes que mais parecem uma conivência com os criminosos, enquanto seu moralismo acusa a moça de "pagar pelas faltas passadas".

Depois os "espíritas" é que, implorando por "fraternidade" (algo que eles pedem demais, porque não têm interesse em dar e por isso pedem para recebê-la dos outros), choram por ver seus contestadores "atirando tantas pedras" contra essa "bondosa" doutrina de "amor e luz"...

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