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"Espiritismo" brasileiro prova seguir a Teologia do Sofrimento


Caiu a máscara. O "espiritismo" brasileiro confirmou mesmo seguir a Teologia do Sofrimento, corrente do Catolicismo medieval, trazida no Brasil através dos jesuítas portugueses, que descreve o sofrimento humano como caminho para a "purificação da alma".

Em diversos sítios "espíritas", o que se observa é esse mesmo discurso: aceitar as dificuldades como meio de "salvação" e abrir mão de desejos e necessidades, achando que a desgraça é "um tipo de benefício" e que os infortúnios garantem um ingresso rápido para obtenção das "bênçãos futuras".

São recomendações do tipo "não reclame", "abandone muitos de seus desejos", "você está sendo testado o tempo todo", "bem-aventurados os perseguidos e deserdados da sorte", "não mostre sofrimento para os outros", "suas necessidades são fontes de sensualismo e cupidez", "no pior dos sofrimentos, você está sendo abençoado", "confie que estão garantidas as bênçãos da vida futura".

Isso é o quê? Textos filosóficos? Preceitos científicos? Ideias progressistas? Nada disso. Isso tudo é a Teologia do Sofrimento, que nem toda a Igreja Católica apoia, mas apenas alguns setores dela, justamente os mais retrógrados.

Ela foi popularizada nos tempos mais recentes por Santa Teresa de Lisieux (1873-1897), freira carmelita francesa que viveu vários de seus últimos anos com tuberculose, doença que veio a matá-la prematuramente. Ela via no sofrimento uma forma de "purificação da alma" e consta-se que a última palavra que a jovem disse em vida era "Meu Deus, eu te amo!".

No século XX, quem consagrou a Teologia do Sofrimento foi Madre Teresa de Calcutá (1910-1997), madre albanesa que, vivendo na Índia, criou as casas aparentemente assistenciais dedicadas a crianças ou a idosos e doentes.

Segundo denunciou o jornalista inglês Christopher Hitchens (1949-2011), Madre Teresa deixava os assistidos sofrerem sem o devido cuidado. Eram mal alimentados, expostos doentes uns diante dos outros, a princípio deitados no chão, mas depois com camas pouco confortáveis, e, para piorar, só eram remediados com aspirina ou paracetamol e recebiam seringas recicladas, o que é bastante perigoso.

Hitchens acrescentou que Madre Teresa desviava dinheiro que recebia de autoridades e outras instituições para os cofres do Vaticano e também viajava com magnatas que doavam suas fortunas para ela. Quase nada ia para as mãos dos assistidos.

Madre Teresa vai ser considerada "santa" em breve, como se isso garantisse alguma pureza espiritual. No entanto, consta-se que, nos bastidores, ela era antipática e tinha um semblante carrancudo, coisa que seus adeptos se desculpam pelo fato dela ter vivido doente nas suas últimas décadas de vida.

Ela dizia sempre que o sofrimento humano era um "presente de Deus" e falava que o mundo "deveria aprender muito" com os sofredores, como se os desgraçados fossem as pessoas mais sortudas do mundo. Isso é Teologia do Sofrimento.

NO BRASIL...

Os "espíritas" adoram Madre Teresa de Calcutá. Adotam ela como se fosse uma personalidade de sua doutrina, embora admitissem que ela era uma freira católica. Até Robson Pinheiro inventou uma "psicografia" atribuída a ela, que, sabemos, nunca teria escrito o livro A Força Eterna do Amor porque, possivelmente, teria reencarnado ou estaria sofrendo as amarguras de ter sido desmascarada já em vida, por Hitchens e por um grupo de acadêmicos sérios.

Mas, quando o assunto é Teologia do Sofrimento, os "espíritas" se omitem e, quando admitem sua existência, acham que ele se restringe aos redutos mais fechados do Catolicismo, entre párocos e sacerdotes do interior ou, quando muito, entre os burocratas do Vaticano.

Estão enganados. A Teologia do Sofrimento, no Brasil, foi popularizada dentro do "movimento espírita", através da figura do suposto médium Francisco Cândido Xavier, que nunca escondeu ser um beato, dos mais fanáticos, da Igreja Católica Apostólica Romana.

O mais complicado, para os "espíritas", é que é impossível eles reagirem a essa constatação sob a desculpa de que "não foi Chico Xavier que disse isso". A influência da Teologia do Sofrimento no pensamento de Chico não é invenção nossa, isso está claro em suas palavras, mesmo quando elas usam nomes alheios, como Humberto de Campos e Auta de Souza.

É só verificar várias ideias "progressistas" de Chico Xavier: "sofrer sem mostrar sofrimento", "sofrer amando", "sofrer sem queixumes", "não reclamar da vida", "nas piores dificuldades, ter paciência e acreditar nas bênçãos da vida futura" etc etc etc. Está tudo claro nas palavras dele.

O próprio "espiritismo" nasceu catolicizado, em primeiro momento por razões de sobrevivência, já que as atividades realizadas sob o nome de "Doutrina Espírita" eram reprimidas pela polícia, que invadia os "centros espíritas" e detinha seus praticantes acusados de charlatanismo e curandeirismo.

Charlatanismo sabemos que se pratica, sim. A quase totalidade dos "médiuns" não tem concentração sequer para receber espíritos enganadores, e eles, sabendo disso, influem os "paranormais" através dos maus conselhos, como Chico Xavier recebendo conselhos do traiçoeiro Emmanuel para embarcar no sucesso do falecido Humberto de Campos ou o maligno "Máscara de Ferro" (talvez usando depois o codinome Joana de Angelis) sugerindo Divaldo Franco a plagiar o plagiador Chico Xavier.

O "médium" geralmente inventa mensagens, faz umas pesquisas aqui e ali, pede ajuda a algum colaborador e monta uma falsa psicografia de um morto, juntando um repertório considerável de informações. Às vezes informações mais sutis são dadas, tipo "o tio do falecido me falou de informações que a mãe do mesmo não sabia", que muitos pensam ser psicografia autêntica.

O "espiritismo" brasileiro, seguindo o vício do nosso país em que toda novidade é acolhida aqui misturando pioneiros e usurpadores - até a Jovem Guarda brasileira surgiu misturando roqueiros legítimos como Bill Haley e Chuck Berry com canastrões tipo Pat Boone e Bobby Darin - , surgiu aparentemente acolhendo tanto o pioneiro Allan Kardec quanto ao usurpador Jean-Baptiste Roustaing.

E vemos que, durante muitos anos, havia um entusiasmo por Roustaing que se seguiu até uma parte da trajetória de Chico Xavier, que na prática foi usado pela FEB como adaptador das ideias igrejistas escritas no livro roustanguista Os Quatro Evangelhos e criar um "espiritismo" catolicizado com caraterísticas bem brasileiras, com sotaque de "mineiro que come quieto".

É uma manobra muito conhecida no Brasil. Há vezes em que certos reacionários são usados para impor certas circunstâncias, mas, quando atingem seus objetivos, são descartados. Foi assim com Carlos Lacerda, jornalista e político carioca que pediu a ditadura militar para derrubar o trabalhismo, e, recentemente, com Eduardo Cunha, deputado também carioca que se empenhou pela derrubada do "lulopetismo" da política carioca.

Desta forma, quando Roustaing parecia reinar no inconsciente dos brasileiros, ele foi descartado. Assim como as "pautas-bombas" de Eduardo Cunha, como a terceirização do mercado de trabalho em geral e a definição conservadora de família como "grupos de marido, mulher e filhos", na medida em que foram assimiladas pelo governo de Michel Temer, não foi preciso mais manter seu idealizador.

Com Chico Xavier dando um tempero bem brasileiro à ideologia católica de Roustaing, não foi preciso apelar para o advogado francês que deturpou Kardec. E aí Chico Xavier traz um "espiritismo" catolicizado e os brasileiros acham natural, só porque é "inofensivo" e "não faz mal".

As pessoas aceitam Chico Xavier falando que "sofrer é obter bênçãos futuras" e o pessoal acredita. E ainda há idiotas que acham que ele é reencarnação de Allan Kardec. De incoerência em incoerência, de complacência em complacência, o pessoal vai oferecendo seus pescoços à forca. Só falta eles pedirem que as cordas pelo menos sejam bonitas e coloridas.

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