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A canonização de Madre Teresa de Calcutá no Brasil pós-Dilma


Tinha que ser o espírito do tempo, mesmo. Com a retomada do poder de elites ultraconservadoras, das quais envolvem burocratas, tecnocratas, corruptos de direita, extremo-direitistas, barões da grande mídia, entreguistas, rentistas e especuladores financeiros e outras espécies reacionárias - não nos esqueçamos dos valentões que "zoam" nas redes sociais - , tinha que Madre Teresa de Calcutá ser canonizada por um segundo "milagre" ocorrido no Brasil.

Foi uma coisa maluca. Uma beata religiosa que dependia de dois supostos milagres, mas bastou o segundo para ser canonizada pelo Vaticano, ontem. Isso porque provas foram apresentadas que invalidaram o "primeiro milagre", já que a indiana Monica Besra, doente de câncer em 2002, foi curada não por causa da medalha de Teresa, mas por ter feito um tratamento contra o câncer com rigoroso procedimento médico.

O "segundo milagre" é que é coisa de doido. Em 2008, o engenheiro Marcílio Haddad Andrino, de Santos, foi fazer uma lua-de-mel com a esposa, em Gramado, Rio Grande do Sul. De repente ele se sentiu mal e o casal voltou para a cidade de origem. Internado, houve um suposto diagnóstico de um sério coágulo no cérebro, e Marcílio, então com 35 anos, teria sido desenganado pelos médicos, sendo obrigado a fazer uma cirurgia de difícil êxito.

Ele teria entrado em coma e aí a esposa foi para uma paróquia na cidade, falou com um padre, que a recomendou a orar para Madre Teresa de Calcutá e pôr a medalhinha no peito do marido, que supostamente tinha pouquíssimas chances de sobreviver.

De repente, Marcílio acordou como se nada tivesse acontecido, e estava apenas abatido como alguém que acordou ainda com sono. Foi tomar o café e os médicos o examinaram, concluindo que ele havia sido curado do terrível mal. Os médicos aparentemente teriam constatado que a cura escapou de qualquer avaliação médica e teria sido clinicamente inexplicável.

A estória é linda, mas duvidosa. Com todo o respeito com o aparente sofrimento dos familiares, deve-se levar em conta que o hospital que protagonizou o "milagre" é um hospital católico, São Lucas. Além disso, há posturas estranhas como o cuidado que os partidários do "milagre" fazem em consideraer apenas as fontes oficiais da Igreja, evitando que o caso Monica Besra se repetisse.

Há indícios de que o que Marcílio teria sofrido pode ter sido uma intoxicação alimentar, que causa uma sensação de formigamento na cabeça, dores fortes e que fazem com que o enfermo seja internado e tivesse que ter um sono prolongado.

A canonização, na verdade, foi tendenciosa, assim como a de José de Anchieta, um jesuíta de mentalidade medieval e parceiro de Manuel da Nóbrega (que regressou mais tarde como o espírito Emmanuel) nas atrocidades "catequistas" no período colonial, que pelo jeito traz muitas saudades nos brasileiros de classe média alta que pediram o "Fora Dilma" e agora têm que engolir esse governo decadente de Michel Temer.

Por trás desse mito de Madre Teresa, há a estereotipação da caridade como um produto de consumo simbólico, que alimentará o turismo e encherá de fortunas empresários de agências de viagens, autoridades políticas envolvidas, donos de companhias aéreas e, sobretudo, o alto clero do Vaticano.

Segundo se investiga nos bastidores, Madre Teresa nunca foi amiga dos pobres, antes inventasse a pobreza para forjar caridade. Como ideóloga, foi tão perversa quanto Francisco Cândido Xavier. Aliás, se "almas-gêmeas" existissem mesmo, Madre Teresa e Chico Xavier seriam exemplos típicos.

Os dois professavam a "cultura do sofrimento", ou melhor, a Teologia do Sofrimento, corrente medieval da Igreja Católica que fazia apologia das desgraças humanas como caminho de "purificação" da alma. É, mal comparando, um "AI-5 do bem", um holocausto disfarçado com "palavras de amor" e "mensagens de esperança", que ludibriam e seduzem muitas e muitas pessoas.

Madre Teresa condenava o planejamento familiar, o controle da natalidade e o aperfeiçoamento de técnicas e medidas de combate à pobreza. A freira condenava o aborto até no caso de estupro, quando a mulher vítima desse crime sofre um trauma enorme. Ela talvez não fosse com a cara de Paulo Freire, ironicamente falecido no mesmo ano dela, 1997.

Mas Paulo Freire, ateu e socialista, tinha um projeto educacional que ensinava os pobres a se unirem em busca de direitos e benefícios, usando a solidariedade das pessoas como meio de buscar qualidade de vida, despertando corações e mentes para a mobilização, uma caridade verdadeira que, não fossem os empecilhos político-econômicos conhecidos, traria benefícios de quantidade imensurável.

O que assusta é que ser religioso garante uma fortíssima blindagem. Mesmo que o além-túmulo revele um choque aos canonizados da Terra, feitos "espíritos superiores" apenas pela leviana paixão religiosa, a blindagem é tão forte que ainda é quase um consenso que ídolos religiosos detenham a "superioridade" que parece firme aos olhos terrenos, mas que se dissolve no mundo espiritual, como um castelo de areia atingido pela onda do mar.

Para piorar, os partidários de Madre Teresa chegam a afirmar que a ciência, por "cometer exageros", perde sua validade em certos casos. Segundo o ministro das Relações Exteriores da Índia, Sushma Swaraj, "racionalistas também exageram exigindo provas científicas o tempo todo".

Isso lembra o "tóxico do intelectualismo" de Emmanuel. É uma herança da visão obscurantista do Catolicismo medieval, mas que apenas traz como concessão a aceitação da Ciência "com limites". A Ciência é bem vinda em atividades restritas ao seu âmbito, como estudar a cura da AIDS, por exemplo, mas não pode interferir no terreno da fé religiosa, na qual seus mistérios e mitos devam ser preservados sem questionamentos.

Ora, vamos pensar um pouco. É certo que a Ciência comete exageros e suas descobertas quase sempre estão sujeitas a questionamentos diversos. Mas se existe um equívoco cometido pela ciência, ele será corrigido não com a paralização da atividade científica, ou de qualquer linha de pensamento similar, mas com o seu avanço.

É como se dissessem que a pessoa, por tropeçar algumas vezes, nunca devesse mais andar. Imagine se considerássemos que o sujeito, só por ter cometido um tropeço enquanto andava, tivesse que ficar paralítico? É o caso do pensamento científico ou simplesmente do pensamento questionador.

Fala-se muito do "tóxico do intelectualismo". E do "tóxico da fé religiosa"? Com exceção de Karl Marx e seus seguidores, que falaram que a religião é o "ópio do povo", não se viu uma abordagem similar com semelhante repercussão.

Pois o "tóxico da fé religiosa" revela um fanatismo furioso de pessoas que, enquanto não são contrariadas, podem trazer a aparente impressão de profundo equilíbrio emocional e de admiráveis qualidades espirituais. Quando se concorda com essas pessoas, elas respondem com muita simpatia, apreço e alegria.

Mas é o efeito Gremlins. Quando contrariadas, as pessoas dotadas de deslumbramento ideológico deixam de ser as "iluminadas" e "abençoadas" pessoas para se transformarem em verdadeiros monstros despejando desaforos ou, mesmo quando tentam dizer palavras "bonitas", mal conseguem esconder sua irritação e desespero.

É por isso que se espera que um religioso apoie pessoas sórdidas como Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e Alexandre Frota, este convertido num "divulgador da boa educação". Os "espíritas" podem ver nos pentecostais algum exagero, mas em muitos momentos eles consentem com tais práticas e até agem de forma semelhante a eles.

Daí que a Escola Sem Partido e figuras como Madre Teresa de Calcutá - que em suas casas de caridade deixava seus "assistidos" em condições sub-humanas, sem higiene, mal alimentados e mal remediados e expostos ao contágio de doenças graves - são aceitas pelos "espíritas", diante daquela visão de "misericórdia" e "ensinamentos cristãos" que o dogmatismo religioso apresenta.

Daí essa "caridade" feita para consumo, uma caridade-mercadoria que é vendida como se fosse enredo de novela, que emociona mais do que mobiliza. Uma "caridade" que só serve para dissimular vaidades pessoais através de um falso sentimento de bondade que defende a "ajuda ao próximo" sem que se mexam drasticamente nas estruturas reais de desigualdades sociais existentes.

É ilustrativo que, no caso de Divaldo Franco e sua "escola sem partido" na Mansão do Caminho, que ensina as pessoas a ler, escrever e trabalhar desde que acreditassem em "crianças-índigo" e outras bobagens, um fanático divaldista, escondido numa comunidade de ateus no Facebook, não conseguiu explicar por que Divaldo é "o maior filantropo do país" ajudando menos de 0,01%.

Faz parte do contexto. Num Brasil ultraconservador, o sentimento religioso medieval, da caridade paliativa, da apologia do sofrimento como "purificador da alma", do fanatismo por ídolos religiosos tidos como "superiores", faz sentido esse clima que propiciou a canonização de Madre Teresa de Calcutá. Só falta agora dar o Prêmio Nobel da Paz ao Eduardo Cunha.

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