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"Espiritismo" brasileiro permite o "calote moral" de Chico Xavier


Notaram que, quando se falam dos erros no "espiritismo" brasileiro, o "médium" Francisco Cândido Xavier é sempre livrado de culpa? Beneficiado por uma narrativa que lembra muito um conto de fadas, o "médium", de tão esperto, virou uma espécie de "caloteiro moral" e nunca é contestado nem questionado e, muito menos, responsabilizado pelos seus próprios erros.

Vivemos a onda dos seguidores e até dos simpatizantes "leigos" do "espiritismo brasileiro" dizerem que os ditos "médiuns" são "imperfeitos e falíveis", dentro daquele modismo de dizer que "todo mundo erra" trazido por bolsonaristas assumidos ou não.

Essa "carteirada por baixo", que em nada resolve quanto aos erros cometidos pela religião que traiu os postulados originais da literatura kardeciana, beneficia sobretudo Chico Xavier, que agora recebe uma espécie de idolatria não-assumida, uma adoração cega e fanática que não se declara cega e fanática para não ficar mal na fita.

É uma espécie de divinização não assumida, pretensamente "pé-no-chão", na qual se assume imperfeições do ídolo para evitar que o ídolo seja responsabilizado pelos seus erros, gravíssimos. Ora, se "todo mundo erra", ninguém será punido. E Chico Xavier foi o maior beneficiado da impunidade que envergonha nosso país.

Primeiro, porque ele usurpou os mortos numa pretensa psicografia que apresentava explicitamente irregularidades preocupantes. Os "mortos" evocados "perdiam" sua personalidade e passavam a "pensar igualzinho" a Chico Xavier. Isso é falsidade ideológica, pois consiste em Chico usar os nomes de autores mortos para tornar as opiniões pessoais dele, de um ultraconservadorismo bem retrógrado, "menos pessoais" e "universais".

Segundo, porque ele fez horrores em sua trajetória. Estamos acostumados com a imagem do "doce velhinho, frágil e meigo", mas esse foi um disfarce que a narrativa que prevalece hoje e foi criada durante a ditadura militar produziu. Chico Xavier causou escândalos comparáveis aos de Jair Bolsonaro e eles não podem ser vistos como "inocentes traquinagens". O que Chico Xavier fez em prejuízo ao Espiritismo original é algo que não deve ser subestimado.

Por exemplo, as fraudes de materialização. Chico Xavier assinou atestados tentando legitimar essas atividades fraudulentas, nas quais pessoas sentadas apareciam com fios de gaze, esparadrapo e pedaços de algodão colocados sobre a boca aberta ou modelos cobertos de lençol e roupas brancas cobriam suas cabeças nas quais eram coladas fotos mimeografadas de pessoas mortas.

No caso de Otília Diogo, que realizou um espetáculo de ilusionismo circense, falou-se que Chico Xavier foi "usado" pela farsante para ela fazer os seus truques. Com base nessa tese, o "bondoso médium" foi enganado, mas fotos posteriormente divulgadas de Nedyr Mendes da Rocha, num "fogo amigo" que atingiu Chico Xavier, mostrou este bastante desenvolto e comunicativo, apresentando fortes indícios de que sabia da farsa e a apoiava completamente.

DESLIZES "ESPÍRITAS"

Ultimamente se questionam erros aqui e ali em relação ao "movimento espírita". A suposta novidade do "espiritismo de direita" - que faz esquerdas ignorarem que a Federação "Espírita" Brasileira sempre foi conservadora até a medula - , os crimes de João Teixeira de Faria, o João de Deus, a homofobia de Divaldo Franco, as brincadeiras dos "espíritas" em adivinhar fatos futuros ou especular encarnações pessoais passadas, tudo isso está sendo fartamente criticado.

No entanto, Chico Xavier, o primeiro a apedrejar a vidraça do bom senso e da lógica, sai totalmente livre da culpa, ele que só se tornou "realista e íntegro" dentro dessa "caverna de Platão" chamada Brasil. Até mesmo as provas de desvios doutrinários do Espiritismo, muitos deles aberrantes - como a suposta "profecia da data-limite" - , não incriminam Chico Xavier, que além disso tornou-se o "dono" de mortos como o escritor Humberto de Campos, à maneira que Michael Jackson tentou ser "dono" dos direitos autorais das canções dos Beatles.

Chico Xavier é mais blindado que os políticos mais privilegiados do PSDB, de forma a sugerir que, como o partido tem interesse em mudar de nome, que o faça adotando o nome Espíritas ou Partido dos Médiuns. Com isso, a blindagem recebida pode se tornar ainda mais garantida, porque talvez se possa comprar até mesmo o silêncio das esquerdas, sob a falácia de que Nosso Lar é uma "comunidade socialista", uma pegadinha que engana perfeitamente muitos esquerdistas.

A cegueira em torno de Chico Xavier que, à maneira de um vilão-palhaço de revista em quadrinhos (Coringa?), parece soltar um gás inebriante que faz desnortear muitos de seus possíveis contestadores, é tanta que até seu reacionarismo explícito, que o acompanhou por toda a vida - do moralismo católico-ortodoxo ao apoio final ao PSDB, passando pelo apoio à ditadura militar e à candidatura de Fernando Collor - , é relativizado pelo pensamento desejoso.

Chico Xavier é o único indivíduo no qual a fantasia luta para prevalecer sobre a realidade. É o típico "sábio" da "caverna de Platão". Se não há gente com coragem, comparável à que um Attila Paes Barreto e Osório Borba foram capazes de ter, para questionar frontalmente o mito do "bondoso médium", há um exército de literatos, acadêmicos, empresários, donos da mídia e juristas que fazem de tudo para blindar o religioso, "dialogando" até com seus opositores.

Usam-se falácias como a misericórdia (entendida como o perdão-permissividade) e os mil malabarismos do pensamento desejoso, que imaginam coisas escalafobéticas como supor que Chico Xavier foi obsediado quando fez seu comentário sobre a ditadura militar. É irônico que, nessa religião que apela para a aceitação de adversidades, as pessoas se recusam a aceitar, da parte de Chico Xavier, detalhes pessoais adversos às convicções desses seguidores e simpatizantes.

Enquanto isso, quando o pobre do Allan Kardec é lembrado em eventos como a recente lembrança dos seus 150 anos de morte, faz-se o maior carnaval com Chico Xavier. Se nem a BBC Brasil, famosa por um jornalismo investigativo impecável, deixa de travar diante do "bombardeio de amor" trazido pela imagem do "médium", e se nem semiólogos como Wilson Roberto Vieira Ferreira, do Cinegnose, conseguem desvendar o paiol de bombas semióticas que o beato de Pedro Leopoldo trouxe em seus 92 anos, então a coisa é mais grave que se imagina.

Trata-se de um "calote moral" que abriu o caminho para as trajetórias de muitos arrivistas que fizeram popularizar o "jeitinho brasileiro". Chico Xavier é o "patrono do jeitinho brasileiro", o "padroeiro dos arrivistas", a ponto de permitir a consagração dos medíocres e a ascensão dos corruptos e demais criminosos.

E isso ocorre às custas de nossas infelicidades. Nós não queremos alcançar o Céu, mas ter um pouco de dignidade, de qualidade de vida mínima, de vida social e profissional decente, para desempenhar nossos dons e desejos, não lá muito ambiciosos. Mas encaramos o inferno de suportarmos adversidades, algumas delas trágicas e em níveis extremos ou surreais, que nos impedem de, ironicamente, ajudar o próximo da maneira como desejaríamos.

Enquanto isso, um sujeito que lançou livros e cartas fake usando os nomes dos mortos para se promover, apoiou fraudes de materialização, desfigurou o legado de Kardec, defendeu a ditadura militar e manipulou corações e mentes com o truque do "bombardeio de amor", esse farsante chamado Francisco Cândido Xavier, conquistou o Céu furando a fila da evolução espiritual e se promovendo à custa do sofrimento alheio.

Até mesmo os erros de Chico Xavier não foram punidos. Ele fez o que fez contra a memória de Humberto de Campos, usurpando seu prestígio até reduzi-lo a nada - hoje o autor maranhense "inexiste" em nossas livrarias, "substituído" por um fake "mediúnico" - , foi um dos atos mais deploráveis, depois das traições doutrinárias contra o legado de Allan Kardec.

Por isso Chico foi beneficiado pelo "calote moral", no qual ele é dispensado de sofrer as consequências, pagas pelos sucessores aqui e ali. Eles são responsáveis por seus erros, mas a pedrada inaugural contra o edifício do bom senso foi dada, sem a menor sombra de dúvida, por Chico Xavier. Mas chegará um dia em que ele será responsabilizado pelos seus piores atos.

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