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"Espiritismo" é a religião do Novo Reset Global


Esqueçam os pastores caricatos com camiseta de colarinho, gravata e calça de brim e sapatos de couro, pedindo aos berros para que os fiéis evangélicos doassem dinheiro e bens para o "crescimento da igreja", um estereótipo tão surrado que faz as seitas neopentecostais parecerem "cachorros mortos" no contexto da contestação dos vícios religiosos que predomina na opinião pública e no senso comum das pessoas.

Um novo imaginário surge, e que desafia as percepções cegas e deslumbradas de setores infantilizados das esquerdas, que não conseguem compreender essa nova realidade. É a de que a configuração do imaginário religioso, dentro de um contexto em que se fala de necrocapitalismo, Big Tech, Deep State e Novo Reset Global, será bem diferente, em formas de dominação e até instituição, do que a abordagem fácil dos estereotipados "pastores ou bispos evangélicos" clamando pela "extorsão da fé".

Depois de um período de retomada conservadora, regada a figuras reacionárias porém de conduta aparentemente caricatural como Donald Trump e Jair Bolsonaro, o cenário pós-2016 apontará para uma nova perspectiva, onde a "positividade tóxica" se lançará como um estranho clima de otimismo pleno onde as redes sociais se tornam paraísos virtuais de supostas alegria e prosperidade se manifestam sem que isso se reflita na realidade prática do nosso cotidiano.

"NOVA ERA" E IDENTITARISMO DE RESULTADOS

Esse Novo Reset Global rearticula e atualiza o imaginário de 1989-1990, quando a Queda do Muro de Berlim e do Leste Europeu, a globalização e o identitarismo da pretensa diversidade das propagandas da marca italiana Benetton prenunciavam a "Nova Era", pretexto do qual o "espiritismo" brasileiro encontrou terreno para se ampliar, cerca de uma década depois do seu maior expoente, Francisco Cândido Xavier, sob a alcunha de Chico Xavier, foi moldado como uma espécie de "fada-madrinha" do imaginário popular brasileiro, como tentativa diversionista de abafar a crise da ditadura militar.

Essa nova configuração do imaginário econômico, sócio-político e religioso anda enganando as esquerdas que, dotadas pelo infantilismo recente, perderam o interesse das agendas trabalhistas e enfatizam um identitarismo de resultados, abraçando supostos ideais de diversidade étnica e comportamental que não oferecem ameaça aos privilégios abusivos do capitalismo, mas mesmo assim são vistos ingenuamente como causas "libertárias" de um pretenso imaginário de "esquerda" que ganha espaço fácil até em veículos anti-esquerdistas como Rede Globo e Folha de São Paulo.

E como se dá essa nova configuração?

Juntam-se clichês do imaginário futurista, envolvendo conceitos de pseudo-ciências como a Astrologia e a Ufologia, nos quais o Ocultismo se traveste de Conhecimento, mesmo quando conceitos místicos chegam a se sobrepôr a ideias racionais ou mesmo a conceitos científicos autênticos.

A isso, se molda, também, o identitarismo de resultados no qual se costura a suposta defesa da diversidade étnica-comportamental ao conceito religioso de "fraternidade", o que faz juntar, no mesmo combo, o identitarismo pós-hippie que exalta gordos, tatuados, negros, índios e LGBTQIA+ (sigla que remete à diversidade sexual), os sentimentos místicos de religiosidade e a obsessão por extraterrestres e pela tecnologia.

Não é por acaso que Chico Xavier anda sendo muito cultuado pelas redes sociais e ele se tornou uma grande ferramenta para o Novo Reset Global no Brasil, por ter sido o pioneiro na literatura fake, atuando hoje quase como um "patrono das fake news", não fosse a imagem de "fada-madrinha" que faz o pretenso "médium" receber a complacência ou até o apoio de meios intelectuais e acadêmicos considerados "sérios".

Pioneiro na positividade tóxica que tem o Instagram como símbolo, Chico Xavier pregava, com base na Teologia do Sofrimento, que os oprimidos deveriam suportar calados as suas desgraças, para não atrapalhar a felicidade de quem é próspero e esperar que Deus ofereça a bênção prometida, não se sabe quando. Chico Xavier costumava usar a Natureza para argumentar sua positividade tóxica: "Enquanto você está em agonia, note que os rios continuam seguindo seu caminho e os passarinhos voam como sempre voaram". O "médium" também comparava o sofrimento humano aos fenômenos meteorológicos, como se fosse um temporal que, depois, se seguisse a um dia ensolarado.

O LADO SOMBRIO DE CHICO XAVIER

Esqueçamos as narrativas confusas que tomam gato por lebre, vendendo o "espiritismo" brasileiro, deturpado e mais voltado a uma repaginação do Catolicismo medieval, como se fosse ainda o Espiritismo original francês.

Esqueçamos, da mesma forma, todo o discurso positivo que engana até esquerdistas e ateus, vendendo o "espiritismo" brasileiro como se fosse uma outra Teologia da Libertação até porque, há 45 anos, o chamado "kardecismo" foi uma das religiões, ao lado das neopentecostais, que a ditadura militar teria patrocinado para neutralizar a ação de católicos de esquerda, que estavam fazendo oposição enérgica ao regime ditatorial brasileiro.

O "espiritismo" brasileiro não é uma colagem de trabalho de escola primária no qual se juntam personalidades que as pessoas acham agradáveis. Juntar Chico Xavier e Emmanuel com figuras como Allan Kardec, Jesus de Nazaré, Joana Angélica - que nunca deveria ser confundida com a "Joana de Ângelis", que seria o codinome que o Máscara de Ferro usou para coordenar a obra de Divaldo Franco - , Paulo Freire e Dom Paulo Evaristo Arns, soa um contrassenso, assim como dizer que Chico Xavier é "alma-gêmea" do ex-presidente Lula, desconhecendo que o "médium" repudiava veementemente o petista.

Há um "espiriitsmo profundo" por trás da fachada que faz até com que esquerdistas e ateus, com assustadora debilidade mental, acolhessem Chico Xavier acreditando na pretensa sabedoria e bondade de sua figura.

Por trás da fachada que vende o "espiritismo" brasileiro como uma religião "progressista", "moderna" e "altruísta", há uma religião obscurantista com um repertório moral punitivista e retrógrado, do qual se trabalha a ideia de que as vítimas de infortúnios são as "culpadas".

Chico Xavier sempre defendeu, em suas obras, a precarização do trabalho e a submissão hierárquica aos superiores, por mais abusivos e tirânicos que fossem. O "médium" foi um radical defensor da ditadura militar, a ponto de ser condecorado pela Escola Superior de Guerra. Embora haja narrativas de que Chico Xavier "só apoiou a ditadura para salvar a própria pele", as circunstâncias comprovam que o "médium" colaborou com o regime ditatorial, não havendo lógica de que as manifestações recíprocas de "médium" e ESG seriam atos oportunistas de um lado de outro, pois a cumplicidade era evidente.

As fantasias que contaminam até esquerdistas e ateus em torno de Chico Xavier - sempre sustentadas pela imagem de "fada-madrinha" promovida pela Rede Globo, nos mesmos moldes com que o inglês Malcolm Muggeridge trabalhou para inventar o "mito bondoso" de Madre Teresa de Calcutá - impedem uma compreensão maior e ainda prevalece a ideia de que o obscurantismo religioso se limita a neopentecostais e setores retrógrados do Catolicismo.

Mesmo quando um suposto médium é denunciado, como o latifundiário e charlatão João Teixeira de Faria, o João de Deus, ele é trabalhado mais como um bode expiatório do que como alguém que realmente cometeu crimes. E, enquanto o "movimento espírita" tenta renegar o vínculo de João de Deus, fatos confirmam que o "médium" goiano sempre foi discípulo de Chico Xavier que, ao saber dos crimes do pupilo, passou pano e ofereceu um casarão como "escudo religioso", que veio a ser a hoje Casa Dom Inácio de Loyola, de Abadiânia. 

Chico Xavier era de blindar farsantes, vide Otília Diogo, mas de pular fora quando estes estão envolvidos em alguma encrenca. O rompimento de amizade com Waldo Vieira, discípulo de Xavier, deveria ser levado em conta para o lado sombrio do "bondoso médium" mineiro. E o caso Amaury Xavier, mesmo criminalmente prescrito, deveria ser investigado, pela altíssima suspeita do sobrinho de Chico Xavier ter sido assassinado pelo "meio espírita" por motivos de "queima de arquivo".

"NECROESPIRITISMO"

Chico Xavier era um dos artífices do "necroespiritismo", complemento religioso do "necrocapitalismo" que prega a morte de determinados tipos sociais - mulheres, negros, índios, miseráveis em geral, camponeses, operários e supostos incapazes sociais - como forma de reduzir a população da Terra e "melhorar" a distribuição dos recursos naturais, industriais e financeiros.

Além de sua figura representar mau agouro para seus devotos - frequentemente, muitos dos seguidores de Chico Xavier sofrem a estranha maldição de terem seus filhos mortos prematuramente por algum motivo - , o "médium" mineiro, com base na mística dos "jovens anjos" do Catolicismo, transformava as mortes prematuras em espetáculo de exotismo e sensacionalismo evidentes.

Com suas pretensas profecias da "data-limite", Chico Xavier também alterava para o extermínio de uma grande parcela da humanidade que "não se adequasse para os novos (sic) conceitos do Cristianismo", sobretudo o chamado "mundo desenvolvido", que seria afetado por cataclismas e atos terroristas. 

Apesar do evidente recurso da "psicologia de medo", que faz os seguidores de Chico Xavier, inclusive o próprio Divaldo Franco, a definirem a pandemia da Covid-19 como um evento punitivista "imposto por Deus", a suposta profecia foi depois descartada pelos partidários do "médium" mineiro, por ver que o caráter fatalista da "data-limite" estaria em desacordo com a imagem adocicada que o "médium" de Uberaba goza no imaginário popular brasileiro, como uma "fada-madrinha" da vida real.

O "espiritismo" brasileiro tende a ser uma religião que se encaixa não apenas em aspectos aparentemente positivos do imaginário emergente do Novo Reset Global, como o globalismo e a diversidade identitária. O aspecto negativo de pretensa consolação para a necropolítica sangrenta, para os novos holocaustos a dizimar multidões para "regular" a população da Terra, também envolverá mais os "espíritas" do que os neopentecostais, estes a abandonar o barco do neoconservadorismo inerente a esse novo imaginário.

Mais próximo de contextos como as viagens de Elon Musk e Jeff Besos e dos escândalos envolvendo Mark Zuckerberg, o dono do Facebook, WhatsApp e Instagram, o "espiritismo" brasileiro não pode mais ser entendido como uma doutrina "progressista, moderna e racional", nem como um movimento "espiritualista" a ser acolhido por isentos e esquerdistas em geral.

Pelo contrário. Cada vez mais voltado para o obscurantismo medieval, em seu tempo também afeito à necropolítica - como as queimas de hereges na Idade Média, por se recusarem a professar o Catolicismo - , o "espiritismo" de Chico Xavier, por trás de palavras dóceis, escondem um obscurantismo terrível e nefasto, através de ideias terrivelmente retrógradas que nem de longe trazem a tão alardeada consolação de que falam seus tão desavisados seguidores, a eventualmente lerem a bibliografia chiquista sem ter real ideia do que isso realmente significa.

Com a necropolítica pregando atos terroristas matando os povos árabes, muçulmanos e palestinos, os conflitos na África dizimando negros e, em países como o Brasil, a carnificina ocorrer através de feminicídios, pistolagens, ações de justiceiros em geral, conflitos em famílias de baixa consciência moral e violência no campo, fora o que a Covid-19 ainda faz com a população, o "espiritismo" brasileiro se oferece para chorar suas lágrimas de crocodilo diante da tragédia alheia, como um falso amigo que se aproveita da tristeza de alguém para tirar vantagem dela com um falso consolo.

NÃO SE CONSOLA COM PALAVREADO QUEM SOFRE TRAGÉDIAS PESSOAIS

O que a sociedade brasileira, completamente imbecilizada pelo culturalismo imposto pela mídia e pelo mercado - nos quais o "espiritismo" brasileiro é uma ferramenta decisiva para os interesses dos donos do poder - , ignora é que, numa tragédia pessoal, não se consola pessoas com palavreados.

Ninguém pode consolar uma pessoa enlutada dizendo que "tudo vai ficar bem", ou fazer perguntas vagas como "O que é que está acontecendo?', "O que você está sentido?", "Por favor, não se preocupe, Deus está protegendo aquele que hoje é mais um anjo no céu". Atitudes assim são consideradas condenáveis pela ética humana e podem agravar ainda mais a tristeza e o desespero, em vez de resolvê-los.

Pois é isso que Chico Xavier fez naquilo que, erroneamente, se considera "a sua maior caridade". O pretenso "enxugamento de lágrimas" pelo palavreado das "cartas mediúnicas" e pelos "livros espíritas" só serviu para promover sensacionalismo, além de prolongar o luto das pessoas e transformar as famílias dos que já morreram em criaturas pitorescas, tratadas como se fossem atrações de circo.

O mais grave, porém, é a bomba semiótica por trás das "cartas mediúnicas", que comprova o quanto Chico Xavier colaborou, sem um pingo de escrúpulo e com o prazer dos sádicos - não muito diferente do Coronel Brilhante Ustra, um dos que, segundo o "médium", preparava o "reino de Amor" do Brasil futuro - , com a ditadura militar.

O significado subliminar das "cartas mediúnicas" é o seguinte: se os cidadãos comuns que sofrem tragédias repentinas estão "em melhor situação", "protegidos por Deus" na dita "vida maior", as vítimas de torturas e violências da ditadura militar estão "em situação melhor ainda", recebendo "as graças do amparo divino no retorno à verdadeira Pátria, a Pátria Espiritual".

Esses aspectos todos mostram o quanto os brasileiros têm que se preparar para uma mudança radical dos paradigmas religiosos do Novo Reset Global, para não sofrerem, mais tarde, um choque traumático da realidade. Esse novo imaginário colocará pessoas que eram supostos símbolos de bondade, como Chico Xavier e Madre Teresa de Calcutá (a católica mais exaltada pelo "meio espírita"), ao lado de um contexto mais próximo de tiranos, gananciosos e outras figuras mais perigosas ainda, realidade nova que se confirmará quando se conhecerá melhor o que está por trás dos mitos infantilizados que envolvem tais personalidades religiosas.

Assim, temos que mudar esse imaginário para que o choque da realidade não traumatize pessoas que insistirem em velhas fantasias da fé idólatra e de paradigmas de suposta caridade que mais parecem culto à personalidade de pretensos altruístas do que de qualquer desejo de bem ao próximo que não passa de sentimentos vagos de uma "bondade" hipócrita e sentimentalmente piegas e sem efeitos práticos na vida dos oprimidos, que, aliás, são convidados por Chico e Teresa a continuarem sofrendo, sob a desculpa de "irem mais rápido para o Céu".

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