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A religiosidade "neopenteque" e "espírita" se valem pela emotividade tóxica


As duas tendências religiosas que a ditadura militar teria financiado, muito provavelmente, para neutralizar o poder opositor da Teologia da Libertação católica são movimentadas por uma emotividade tóxica que envolve contradições e alucinações.

No último dia 22, o pastor neopentecostal Huber Rodrigues, da cidade de Goiatuba, Goiás, faleceu vítima da Covid-19. A ocorrência fez relembrar uma suposta mensagem que Huber havia alegado ter recebido do Espírito Santo (não o Estado brasileiro, mas o ente cristão da "santíssima trindade", esse power trio no qual Deus está na guitarra solo, Jesus no baixo e vocais e o Espírito Santo na bateria).

A mensagem, anunciada em 2008, dizia que, depois de morrer, Huber Rodrigues, dirigente da Igreja Pentecostal Deus é Amor, iria ressuscitar no terceiro dia. Com a divulgação da mensagem, os fiéis ficaram enlouquecidos e multidões se aglomeravam (lembremos das restrições da Covid-19) para esperar o pastor retomar a vida, após o velório.

Três dias ocorreram e nada aconteceu. Para evitar constrangimentos, a viúva de Huber divulgou um comunicado dizendo que "Deus tem suas razões" para não ter autorizado a ressurreição. A Prefeitura de Goiatuba acionou a Vigilância Sanitária para exigir o enterro imediato, conforme recomendações sanitárias, mas o pedido não foi acatado, tendo ocorrido o sepultamento três dias depois, após o fiasco da "ressurreição".

Acreditamos que, se em vez de pastor neopentecostal, Huber fosse um "médium espírita", o que haveria era a expectativa da divulgação de uma suposta mensagem mediúnica, feita com aqueles mesmos clichês do fulano que foi para a pátria espiritual, passou uns dias no umbral, foi socorrido para uma colônia espiritual, reaprendeu o Evangelho e encerra a mensagem pedindo para as pessoas se unirem "na fraternidade do Cristo". Não é menos blazé do que esperar uma pretensa ressurreição.

Enquanto isso, na seara "espírita", um ex-locutor da Rádio Fluminense FM de sua fase áurea, Paulo Sisino, embora seja uma pessoa assumidamente de esquerda, comete a contradição de exaltar a pessoa de Francisco Cândido Xavier, na sua condição do Chico Xavier feito "fada-madrinha" do imaginário dos brasileiros. O locutor, que apresentava um programa de rock pesado (?!), o "Guitarras para o Povo", deve ter dificuldades para explicar de forma convincente por que ele, progressista, exalta um religioso tão reacionário.

Já dá para perceber que, por tamanha idolatria, tomada por uma emotividade tóxica que coloca a fantasia acima da realidade, o prestigiado radialista acabou favorecendo as energias para a rival da Fluminense FM, a Rádio Cidade, que nunca foi uma rádio de rock que pudesse ser minimamente razoável (sua programação era quase sempre pavorosa, só se salvavam um e outro programas feitos por especialistas em rock), mas mesmo fora do dial FM recebe a blindagem acima do que a emissora mereceria receber (se é que chegou a merecer um dia).

"Esquerdizando" o mito Chico Xavier, um dos vícios persistentes da parcela progressista de seguidores, é um artifício que pode garantir consenso aparente, desculpas profundamente agradáveis e um clima de concordância surreal. No entanto, as pessoas vão dormir tranquilas achando que o "médium" era progressista, para depois enfrentar mais uma batalha contra a realidade.

O que ninguém quer admitir é que Chico Xavier era um reacionário tão convicto que ele era até golpista. Apoiou o golpe de 1964, apoiou o AI-5 e a fase mais repressiva da ditadura e foi condecorado por isso por nada menos que a Escola Superior de Guerra, não apoiou a campanha pela redemocratização e ainda apoiou Fernando Collor contra Lula e, no fim da vida, ficou encantado com a pessoa de Aécio Neves, que chegou a conhecer pessoalmente o "médium", manifestando paixão recíproca entre um e outro.

Mas quem imagina que Chico Xavier só era reacionário nas suas "opiniões de cidadão", devemos prestar atenção nos livros tão louvados e nunca devidamente observados que ele lançou. Ele defendeu a precarização do trabalho (mote da "reforma trabalhista" de Michel Temer), a aceitação da desgraça humana pelos oprimidos, a complacência com os abusos dos opressores. E, quando apoiou a ditadura militar, o suposto "médium dos humildes" demonstrou sua ausência de humanismo, ao dar consideração aos opressores que exterminavam pessoas inocentes nos porões do DOI-CODI.

A emotividade tóxica, que faz neopentecostais esperarem "ressurreição" de pastor e os "espíritas" de esquerda cultuarem um "médium" de direita, mostra o quanto a burrice humana está dominando severamente o Brasil, o que faz com que uma figura tenebrosa como Jair Bolsonaro - fácil de derrubar, mas que hoje é fortalecido ao atuar como um protegido de Chico Xavier, o "padroeiro dos arrivistas" - se aproveitasse disso para aumentar ainda mais o poder.

É lamentável que temos uma parcela da sociedade, entre a classe média abastada e os pobres relativamente emancipados, que é tomada de uma burrice e uma estupidez tão grandes que são capazes de tamanhas alucinações religiosas. E ainda se acham mais sábios que o resto do mundo. O Mal de Dunning-Kruger afeta mais brasileiros do que a Covid-19 ou qualquer outra doença!
 

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