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Combater fake news e não combater Chico Xavier é um contrasenso


Sabemos que existem campanhas contra a propagação de fake news, mensagens falsas de qualquer natureza, seja pela atribuição falsa de autoria, seja pela veiculação de informações falsas, e que servem de apelo para as ações propagandistas da chamada alt-right, a extrema-direita "alternativa".

Sim, isso é muito importante para que se combatam as "fábricas" de mentiras que existem na Internet, das quais vários recursos são usados, desde imagens editadas e outras imagens interpretadas de forma mentirosa ou fora de contexto, até mesmo calúnias tão grosseiras que nem se tornam verossímeis.

Seja qual for o mentiroso de plantão, não se pode aceitar fake news, mesmo que elas não tragam algo de ofensivo. Porque mentira é mentira de todo jeito, mesmo que ela promova a reconciliação de inimigos, o perdão ao agressor, ou mesmo prometa a paz mundial. A bondade não pode ser paga pela falsidade, que sempre é um ato de enganar alguém.

Com isso, não se pode ser complacente mesmo com a obra supostamente psicográfica de Francisco Cândido Xavier, que aponta para práticas de charlatanismo, na hipótese de enganar as pessoas na pretensa finalidade de oferecer consolação e curas emocionais.

Observando as supostas psicografias, que carregam desde nomes ilustres como Olavo Bilac e Humberto de Campos - uma prática condenada severamente pela Codificação - , Chico Xavier cometeu fraudes, sim, e das piores e das mais pesadas. Não tem como passar pano nisso tudo, como fizeram gente como Alexandre Caroli Rocha e Ana Lorym Soares.

Vamos deixar as paixões religiosas de lado e ver o quanto essas obras, por mais que prometam, em tese, a paz e a fraternidade, são vergonhosamente farsantes. A própria Codificação recomenda, em O Livro dos Espíritos de Allan Kardec, capítulo 20, Influência Moral dos Médiuns, item 230, através de mensagem de Erasto:

"Os médiuns levianos, pouco sérios, chamam, pois, os Espíritos da mesma natureza. É por isso que as suas comunicações se caracterizam pela banalidade,a frivolidade, as idéias truncadas e quase sempre muito heterodoxas, falando-se espiritualmente. Certamente eles podem dizer e dizem às vezes boas coisas, mas é precisamente nesse caso que é preciso submetê-las a um exame severo e escrupuloso. Porque, no meio das boas coisas, certos Espíritos hipócritas insinuam com habilidade e calculada perfídia fatos imaginados, asserções mentirosas, como fim de enganar os ouvintes de boa fé".

Esses são alertas dos quais as paixões religiosas não servem de desculpa alguma para adotar uma postura de complacência, mesmo usando farta argumentação. Não há como apenas dizer que "Chico Xavier errou, mas é preciso compreender (sic) as razões disso", como se o suposto médium não tivesse culpa dessas fraudes ou supostamente agiu por desatenção ou impulso.

O resultado diz tudo: mensagens de autoria desonesta, atribuídas a mortos que não seriam capazes de escrever tais mensagens, por elas divergirem das naturezas pessoais do que os mortos haviam sido em vida. Podem apresentar aparência de pretensa beleza, mas tais mensagens são mentirosas de qualquer maneira. Não tem escapatória, elas são falsas e, por isso, deploráveis.

Para piorar as coisas, as supostas psicografias de Chico Xavier equivalem, com um nível de gravidade muitíssimo maior, aos falsos testemunhos que o Evangelho do Novo Testamento atribui a Simão Pedro, discípulo de Jesus de Nazaré, quando perguntado por terceiros se conhecia seu mestre, que havia sido levado à prisão.

Sim, porque falso testemunho é atribuir a um morto a autoria de mensagens que nem de longe o finado teria escrito, ou pelo menos da maneira como se apresenta. E uma análise simples da obra atribuída a Humberto de Campos, do contrário do que alega o acovardado Caroli Rocha, pode-se facilmente identificar fraudes, sim, através das seguintes comparações:

- A obra original de Humberto de Campos tinha texto ágil, culto mas coloquial, era laica e dirigida a diversos temas, e constantemente dotada de senso de humor. Mesmo num conto religioso, "Jesus", de O Monstro e Outros Contos - por ironia, lançado pouco após Parnaso de Além-Túmulo - , a abordagem é laica, com Humberto sugerindo que Jesus, criança, se sentia incomodado em ser tratado como "futuro Deus" pela família, impedindo-o de brincar com outras crianças;

- A obra "mediúnica" que carrega o suposto nome do autor maranhense tem uma narrativa mais pesada e são cansativos de ler. Narrativa mais melancólica, textos forçadamente eruditos porém prolixos e enfadonhos, com temática meramente religiosa, situada entre temas bíblicos e defesa de um moralismo retrógrado e ultraconservador. Um "Humberto de Campos" inseguro, beato e com escrita bem menos inspirada que a original apresenta, também, vícios de linguagem, como o uso constante de cacófatos ("que cada", "chama Maria") que o autor maranhense dificilmente usaria.

As "cartas mediúnicas", então, mostram, além do mesmo enunciado quase sempre invariável de "Querida mamãe", a caligrafia pessoal de Chico Xavier, de forma que seus adeptos não conseguem decidir se ele "recebeu as mensagens" através da alegada escrita dos espíritos mortos ou se eles ditaram para ele. 

A confusão mental é um costume entre os adeptos de Chico Xavier e eles, dominados pela armadilha da fascinação pelo "médium", se perdem em desculpas esfarrapadas para desmentir qualquer acusação de fraude que, essa sim, apresenta argumentos e fatos consistentes.

Não se pode aceitar desculpas, e se deve repudiar com severidade tudo isso, porque o que vale é a honestidade, que é a ferramenta da verdade. Não existe bondade a serviço da mentira, ninguém mente para defender a fraternidade e a paz. 

Mentiras eventuais, quando aceitáveis, só servem para evitar sofrer encrencas, mas nunca para transmitir mensagens fraternais, sobretudo quando o "espiritismo" brasileiro se diz seguidor dos ensinamentos de Jesus de Nazaré, ele mesmo um inimigo da mentira e da falsidade e que, por ironia, havia combatido rigorosamente os "Chico Xavier" de seu tempo, personificados nos escribas fariseus ou saduceus, tidos como "falsos sábios e falsos profetas".

Abrir mão de paixões religiosas é muito importante para que a pessoa não se perca na mistificação e na idolatria obsessiva, mesmo quando essa idolatria é disfarçada grosseiramente pela "admiração a um homem imperfeito e bom". 

Afinal, o fanatismo enrustido por Chico Xavier, mesmo usando e abusando de palavras fáceis e vagas como "o trabalho do bem", são também mentiras do mesmo jeito que, numa época em que se combate fake news, deve se combater também a falsidade textual sob o rótulo de "psicografia" (ou psicografake), e a falsidade do fanatismo e da fascinação obsessiva que blindam, com assustador desespero, a reputação artificialmente conseguida por um "médium" charlatão.

É necessário repudiar até mesmo pessoas que vestem a capa da "religiosidade" e da "filantropia", visando mistificar e enganar as pessoas com mensagens supostamente sublimes e com supostas ações de solidariedade que só servem para a promoção pessoal do suposto benfeitor. Por isso, combater fake news sem combater Chico Xavier é um grande contrassenso que só a cegueira emocional das paixões religiosas insiste em manter. Não há como transformar um mentiroso num símbolo da verdade.

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