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Kardec - O Filme. Ou o fogo-de-palha



Aparentemente, o longa-metragem (apesar de sua linguagem explicitamente de dramalhão novelesco) Kardec - O Filme, tornou-se um grande sucesso nas bilheterias, alcançando, na primeira semana de exibição, 132 mil expectadores e um faturamento de R$ 4,4 milhões de reais.

No entanto, em época de Netflix e da preferência de muitos brasileiros em ver filmes em casa, o "sucesso" do referido filme de Wagner de Assis, um dramalhão com linguagem de novela da Rede Globo, pode ser definido como um fracasso, se levarmos em conta dois aspectos:

1) 132 mil é um número ínfimo diante dos 38 milhões que oficialmente se dizem "espíritas", segundo dados do IBGE;

2) O "sucesso" dificilmente se repete nas semanas posteriores e o que se vê é a gradual redução de público do filme;

3) A maioria dos que foram ver a "biografia de Allan Kardec" (tão equivocada quanto o filme Bohemian Rapsody), na verdade, eram católicos.

O filme que tenta estabelecer o vínculo da deturpação do Espiritismo - que através de Francisco Cândido Xavier, conhecido como Chico Xavier, regrediu para os parâmetros do Catolicismo medieval - com o Codificador é um grande desserviço aos brasileiros.

Esse desserviço se dá sobretudo quando interpreta muito mal uma frase de Allan Kardec que representa a pior divergência entre os "espíritas" brasileiros e o Espiritismo francês: a questão da Fé e da Razão, descrita numa frase que os brasileiros descontextualizaram: "Só é inabalável a fé que pode enfrentar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade". No filme, a frase aparece da seguinte forma: "A fé inabalável é aquela capaz de enfrentar sem temor a Razão. Essa é a mais pura verdade".

Kardec nunca disse que a Fé está acima da Razão, ou que a Razão, ainda que admissível, teria que se subordinar à superioridade da Fé, com base na falácia estúpida de que "é a Fé que está mais próxima dos desígnios de Deus do que a Razão movida pelos homens da Terra". Qualquer dúvida nesse sentido é eliminada com essa passagem de O Evangelho Segundo o Espiritismo, no Capítulo 19, "A Fé que Transporta Montanhas", segmento "A Fé Religiosa - Condição da Fé Inabalável":

"É precisamente o dogma da fé cega que hoje em dia produz o maior número de incrédulos. Porque ela quer impor-se, exigindo a abdicação de uma das mais preciosas prerrogativas do homem: a que se constitui do raciocínio e do livre-arbítrio".

Embora os "espíritas" brasileiros digam reprovar a "fé cega", eles estão mentindo com isso. Afinal, eles sempre falam que o raciocínio lógico "precisa ter limites", "não pode ser tomado pelas paixões humanas", eles sempre recusam provas lógicas quando elas lhes são desfavoráveis - sobretudo em relação à irregular "psicografia" de Chico Xavier - e acham que "certas coisas" escapam "irremedievalmente" ao crivo da Razão.

Isso não é "fé raciocinada", termo que foi de uma tradução infeliz, pois o certo deveria ser "fé fundamentada". "Fé raciocinada" tem um aspecto de "algo pronto", como se não precisasse mais de análises lógicas, é uma "fé que se raciocinou e está confirmada e encerrada na sua avaliação", e "fé fundamentada" é um processo beta de permanentemente usar as questões da Fé pelo crivo da Razão.

O que os "espíritas" fazem é "fé cega", quando a Fé se recusa a ter o exame da Razão. A "fé cega" é defendida sob o eufemismo do "olhar do coração", algo que soa poético no discurso e faz os "espíritas" irem para a cama dormirem tranquilos. Mas os "espíritas" brasileiros, com isso, revelam o que Allan Kardec rejeitava severamente: a pretensão da Fé em ter mais razão do que a própria Razão.

Usar uma frase de Kardec contra ele mesmo, que na sua vida sempre lutou para que examinasse as coisas pelo rigor da lógica, e reprovasse aquilo que não estivesse de acordo com a Razão, por mais que apresentem "lindos apelos de religiosidade e comoção humana". É sempre o contrário do que os brasileiros imaginam, quando é a Fé que combate o que supostamente se define como "desvio do raciocínio lógico às cobranças exageradas das paixões humanas".

Enquanto Kardec dizia que nada poderia ser considerado sem o crivo da Razão, os "espíritas" alegam que "a Razão não pode tudo". São divergências irreconciliáveis das quais os "espíritas" brasileiros sempre põem debaixo do tapete, nesse casamento forçado entre os deturpadores doutrinários e o Codificador.

Judas Iscariotes traiu Jesus uma única vez, denunciando-o pouco depois de beijá-lo. Os "espíritas" brasileiros traem Allan Kardec o tempo inteiro, sem descansar, e no entanto vão depois beijá-lo e jurar uma fidelidade que nunca cumprem. Pior traição não há do que traidores que fingem manifestar fidelidade absoluta a quem é traído.

O filme Kardec é apenas um gancho para sustentar esse jogo de faz-de-conta, pois o filme é tão falso que mostra, na verdade, um "Allan Kardec da Praça Tiradentes", bem ao gosto do antigo "vaticano espírita" que hoje é a filial da Federação "Espírita" Brasileira, na Av. Passos, Centro do Rio de Janeiro. O filme é tão carioca, nos padrões das novelas da Rede Globo, que de Paris mesmo só há a praça situada na altura do Passeio Público. Até as paisagens usadas são cariocas.

Só faltava mesmo haver deslizes como filmar aviões voando em direção ao Aeroporto Santos Dumont para a carioquice do filme ficar completa. Como filme genuinamente espírita, Kardec - O Filme é um fiasco. E deve se tornar um fogo-de-palha na medida em que Allan Kardec é abordado sob o ponto de vista de seus deturpadores.

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