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Mentira "cristã" e o "canto de sereia" sem sereias


Esta postagem é um exercício de semiologia para quem acha que Francisco Cândido Xavier não seria um paiol de bombas semióticas. Ele não só é um paiol como o é de maneira profundamente perigosa, embora a fascinação obsessiva possa anestesiar até mesmo muita gente de raciocínio afiado e senso crítico bastante cético mas que falha na hora H (ou não seria na hora CX?).

Duas bombas semióticas relacionadas a Chico Xavier devem servir de lições para o pessoal que lê Cinegnose e similares. São exercícios de questionamentos que precisam ser divulgados amplamente e aprofundados, sem medo da reprovação dos "amados espíritas", que demonstram não serem amigos do senso crítico nem do rigor da Razão, por mais que papariquem falsamente a "liberdade do Saber".

Uma bomba semiótica é o mito da mentira "cristã". Não existe uma teoria nesse sentido, mas montando o quebra-cabeça discursivo da retórica "espírita" trazida a partir de Chico Xavier, chega-se a essa ideia macabra, bem ao gosto da pós-verdade, esta sim a causa amiga do "movimento espírita".

Devemos saber e admitir que:

1) Chico Xavier foi um dos pioneiros da literatura fake que usa os nomes dos mortos para produzir sensacionalismo e alimentar a promoção pessoal do "médium" através de aparente polêmica e de confusões;

2) A constatação de literatura fake se dá porque as análises lógicas sempre apontam problemas de estilos e aspectos pessoais em relação a supostos autores mortos e a própria obra kardeciana nos advertia que, se há algum sério problema em relação à lógica, a ideia equivocada é invalidada, ou seja, não pode ser aceita;

3) O primeiro livro de Chico Xavier, Parnaso de Além-Túmulo, é comprovadamente uma fraude. Fontes solidárias a ele, por acidente, denunciaram que o livro sofreu revisão de editores da FEB. Muitos textos já exprimiam opiniões pessoais de Xavier.

4) Além disso, era bom demais para ser verdade que, como o primeiro livro, Parnaso de Além-Túmulo reúna, assim de bandeja, os mais diferentes escritores de diferentes procedências, que decidiram se reunir em torno de um caipira de Pedro Leopoldo para difundir novas mensagens "do além".

5) Não há tese que possa comprovar nem tornar plausível, sob o rigor da Lógica e da Razão, qualquer chance de autenticidade das obras "mediúnicas" de Chico Xavier. Tentativas supostamente nesse sentido que apontavam essa possibilidade não passaram de arremedos de raciocínio acadêmico, meras maquiagens verborrágicas e abordagens pretensamente neutras que mais protegem do que invalidam problemáticas supostamente analisadas por monografias, reportagens e documentários.

MENTIRA "CRISTÃ"

A retórica da mentira "cristã" faz com que os fakes do bem de Chico Xavier sejam legitimados de graça, ainda que haja um discurso confuso entre os chiquistas, que, lendo mensagens atribuídas a Emmanuel e André Luiz, não conseguem dizer se "Chico Xavier disse" ou se foram espíritos que disseram isso.

No "espiritismo à brasileira", uma divergência mortal em relação ao Espiritismo de Allan Kardec se situa nas relações entre Fé e Razão. Kardec defendia que nada pudesse passar pelo crivo da Razão, tese que continua valendo por sua surpreendente atualidade. Já Chico defendia o contrário, pregando que a Razão "não pode tudo" e que a Fé é que deveria prevalecer na compreensão de tudo, sendo a Razão submetida a tão somente legitimar os devaneios e os dogmas da Fé.

Dentro dessa perspectiva, o "espiritismo" brasileiro defende a ideia, oculta no discurso, da mentira "cristã" dentro da seguinte falácia: quando a verdade dos fatos sugere pontos desagradáveis à "fé espírita", a verdade é "amaldiçoada", "manipulada" pelas paixões terrenas e escrava dos "limites materialistas da compreensão humana".

Por outro lado, quando a mentira está a serviço de ideias "religiosamente agradáveis", ela é tratada como uma "verdade fracassada que merece perdão". Desse modo, se, por exemplo, a mensagem atribuída a um morto, como Domingos Montagner, é fake mas apresenta "lições de vida" e "mensagens cristãs", ela é "passível de autenticação".

Cria-se, então, uma outra falácia: aquela que supõe que "o que é mentira entre nós pode ser verdadeiro no plano espiritual". Cria-se uma teia metodológica na qual os "espíritas" desaconselham a interferência da Razão nos segredos da Fé. Razão é só para dizer "amém" para a Fé e ponto final, o que permanecer misterioso tem que permanecer "em aberto", ou seja, como fala o acadêmico "espírita" Alexandre Caroli Rocha, depois de "compreender" a natureza da vida espiritual e da comunicação entre vivos e mortos.

Isso é uma forma atualizada e "espírita" do antigo dogma do Catolicismo medieval sobre os "mistérios da fé", aos quais qualquer questionamento lógico era passível de condenações severas, incluindo a forca e a queima em fogueira exibida em praça pública. É certo que os contextos são outros e, no lugar dos terraplanistas da Idade Média (debilmente revividos pelo bolsonarismo), temos uma religião que se diz "racional" mas que tem medo do senso crítico derrubar seus dogmas.

Pouco importa se Humberto de Campos "virou padre", Casimiro de Abreu passou a "gostar de sofrer", Olavo Bilac "perdeu" seu talento na Terra e Ricardo Boechat "retorne" com uma "crônica do além-túmulo" manifestando "remorso com o ateísmo". A pós-verdade "espírita" se julga ter mais Razão do que a Razão, a ponto de usar o melífluo termo "olhar do coração" como eufemismo para a fé-cega, que, aliás, é rejeitada pela literatura kardeciana original.

"CANTO DE SEREIA" SEM SEREIAS

A poesia Odisseia, de Homero, clássico da Antiguidade, narra o famoso episódio do "canto de sereia", quando monstros marinhos que aparentam belíssimas mulheres e expressavam cantos surpreendentemente belos, seduziam os navegadores que, indo buscá-las para captura ou conquista, morriam afogados em alto mar.

Ulisses, sabendo do perigo das sereias, que invadiam a embarcação para dominar ele e sua tripulação, ordenou a seus parceiros que o acorrentassem no mastro do navio, o que fez eles não entenderem a princípio, porém cumpriram a ordem. Ulisses foi amarrado no mastro para evitar ser rendido à tamanha sedução.

O episódio foi entendido pela sociedade contemporânea ao pé da letra. Superestimou-se a tentação marcada pela beleza física e pelo sexo, algo que existe, mas não é exclusivo. A nossa sociedade é complexa e existem maneiras traiçoeiras de seduzir as pessoas.

Ultimamente, a religião se tornou reduto de orgias piores do que as do sexo, drogas e dinheiro. E, no "espiritismo", as sessões "mediúnicas" que Chico Xavier fazia nas suas reuniões públicas eram ocasiões de profundos sentimentos obsessivos, orgiásticos e morbidamente emotivos, a partir do próprio "médium", identificado com o apelo sensacionalista de suas atividades.

Com Chico Xavier, através de uma propaganda reforçada e difundida pela mídia hegemônica num momento difícil da ditadura militar - que entendeu que a adoração a um ídolo religioso serviria de cortina-de-fumaça para abafar a indignação popular com o regime dos generais - , tornou-se o mais perigoso "canto de sereia" existente no Brasil.

Mas como? Um "canto de sereia" sem sereias, atribuído a um velho feioso, frágil e doente, com fala molenga e sem qualquer atrativo! Como Chico Xavier pôde seduzir tanta gente, apesar dessa aparência que poderia (e deveria) ter sido bastante repulsiva?

Simples. O "canto de sereia", na verdade, antecipava o "bombardeio de amor", sua forma moderna, na qual aspectos de profunda beleza e afetividade são utilizados com o objetivo de dominar e manipular as pessoas, pois as "ideias mais lindas" servem de meio de capturar as pessoas que são emocionalmente envolvidas e seduzidas por essa armadilha muitas vezes mortal.

O "bombardeio de amor" - do inglês love bombing - de Chico Xavier usava a falácia do contraste, para confundir e enganar as pessoas. O "médium" era o artífice dessa retórica dicotômica: "o silêncio que fala", "o fraco que se fortalece", "o ignorante que vira sábio", "o derrotado definitivo que sai vencedor" e outras falácias mistificadoras.

Elas seduzem o público que se deslumbra com tais contrastes que inserem nelas ideias erradas sobre humildade e perseverança humanas, que deixam muitas delas à mercê da servidão, da desgraça e da alienação mental, não raro transformando chiquistas em pessoas passíveis de reagir às críticas com ódio e ameaças. A falácia do contraste busca promover a confusão mental, seja emotiva ou intelectual, de cada pessoa.

Essa falácia de contraste sustenta o "bombardeio de amor" que, através de Chico Xavier, se manifesta a partir de uma pregação ideológica que supõe que o "médium" transmite "lindas mensagens" e "lindos exemplos de vida". Há até livros sobre "lindas estórias" publicados aos montes por aí. No entanto, sabemos que as frases de Chico Xavier nada têm de lindas, sendo grosseiros receituários morais que, muitas vezes, exploram a falácia do contraste.

Isso é reforçado pelas inserções de imagens de Chico Xavier em paisagens celestiais ou floridas, ao lado de frases que, para forjar beleza, são descritas em fontes serifadas (que dão um tom "literário" da coisa) ou em fontes graciosas ou caligráficas (que forjam "doçura"). Além disso, há apelos que forjam um "Chico Xavier meigo" e, a ele, palavras como "um homem chamado amor" ou "Chico 'Amor' Xavier" são criadas para completar esse traiçoeiro "bombardeio de amor".

A vida é tão complexa que mesmo os aparatos de beleza de uma religião não garantem a pureza ou a confiabilidade de um apelo "afetivo". Muitas vezes, as mulheres que lembram "sereias" estão mais próximas de algo mais relevante e saudável e não oferecem perigo traiçoeiro de sedução.

Mas, em outros casos, o pior "canto de sereia" pode partir de um velhinho de aparência feiosa, franzino, doente, frágil e de olhar tristonho, principalmente se esse sujeito for um Chico Xavier que fez literatura fake, cometeu fraudes de materialização e era um reacionário contumaz. A vida nos ensina que as piores armadilhas nunca se encontram onde a gente imagina achar.

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