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Espiritismo, no Brasil, é um paiol de bombas semióticas



A deturpação do Espiritismo feita no Brasil conseguiu a façanha de usar múltiplos mecanismos de dissimulação. Um exemplo é sobre sua "catolicização", esse roustanguismo envergonhado que o "movimento espírita" adota. Nele, usa-se de forma distorcida os ensinamentos de Allan Kardec para permitir que esses mesmos ensinamentos sejam deturpados.

Assim, se Kardec disse que a Fé inabalável é a que enfrenta a Razão de igual a igual, os "espíritas" brasileiros veem isso como um sinal verde para sua farra mistificadora, sem perceberem que o pedagogo lionês nunca aprovou a atuação da Fé à margem do rigor da Razão.

As esquerdas brasileiras, mesmo as mais autocríticas, e setores do ateísmo, caíram nas armadilhas da retórica "espírita". O Chico Xavier do qual acreditam é um bonequinho de brinquedo que fala "paz, irmãos" muito diferente do beato reacionário que ele sempre foi, e esse brinquedinho é moldado de forma ingênua pelos caprichos do Pensamento Desejoso, que oferece um grande perigo nesses tempos de pós-verdade.

São esquerdistas - alguns comunistas declarados! - e ateus que caem na imagem mítica de Francisco Cândido Xavier, ele mesmo um repositório de bombas semióticas, e o único sujeito que é adorado sendo o oposto que realmente é. E, no país em que o ex-presidente Lula é condenado sem provas, exalta-se a "caridade" de Chico Xavier também sem provas nem fundamento algum.

Se a "caridade" de Chico Xavier funcionasse, nosso país não seria o caos que hoje vivemos. E perceber que essa "caridade" também não partiu dele, pois se limitava ao "médium" pedir para outros praticassem Assistencialismo (forma fajuta e espetacularizada de "caridade"), é ainda mais frustrante, mas como a pós-verdade permite que adultos continuem brincando no playground do Pensamento Desejoso, ficamos blindando essa "caridade" que nada fez para o país.

Afinal, ontem mesmo houve um assalto, com tiroteios e reféns, em Uberaba, cidade conhecida pelos chiquistas como "antena de luminosidade divina". A cidade que acolheu Chico Xavier sofreu momentos de pânico e, no intenso tiroteio, duas pessoas saíram feridas mas uma delas sofreu ferimentos graves na cabeça. O episódio durou horas e repercutiu em todo o Brasil, e dez ladrões foram presos, e com eles foi apreendido um arsenal de fuzis e munições próprio das Forças Armadas.

Com esse modismo dos "médiuns que erram", que "não são milagreiros nem salvadores da pátria", uma falácia "gente como a gente" que cria uma carteirada por baixo, um estranho envaidecimento pelas limitações e defeitos humanos - que distorce a níveis ridículos e de presunção a ideia difundida por Allan Kardec sobre os "médiuns imperfeitos" - , vão dizer agora que Uberaba é uma "cidade como qualquer outra" e os "médiuns" não têm obrigação de fazer coisa alguma pelo país.

LEITURAS APRESSADAS FAZEM COM QUE SE ENTENDA CHICO XAVIER DE MANEIRA ERRADA, VENDO PROGRESSISMO ONDE NÃO EXISTE

É essa estranha visão do "orgulho de ser errado" que acaba norteando (ou desnorteando) a atual fase do "espiritismo" brasileiro, que agora tenta mais uma vez enganar as pessoas com sua suposta (mas nunca cumprida de fato) fidelidade a Kardec. Uma verdadeira religião da mediocridade, que justifica sua licenciosidade e seus abusos deturpadores com um estranho "direito de errar", que lhes permitem, à maneira do governo Jair Bolsonaro, agir por impulso e depois recuar.

Isso se chama canelada. E o "espiritismo" brasileiro age assim porque o povo brasileiro é muito desinformado. A imprensa não colabora, pois ela nunca denunciou a deturpação espírita, que comete traições de deixar Judas Iscariotes bastante assustado, porque os "espíritas" brasileiros traem Kardec até quando dormem ou nadam debaixo d'água. E ninguém fala nisso!

O que conhecemos aqui como Espiritismo é um paiol de bombas semióticas. Falamos muito de seitas evangélicas, dos seus abusos, do seu obscurantismo. Mas nunca lemos os livros de Chico Xavier, que são verdadeiros receituários medievais travestidos por um aparato semiótico que serve de fachada, definível dessa forma:

1) O maior pregador é um velhinho doente de olhar choroso, cuja fraqueza intimida as pessoas pela simbologia vitimista que ela representa;

2) O tal velhinho aparece ao lado de pessoas pobres e/o doentes, o que reforça sua suposta imagem de filantropo, ainda que sob o signo da subserviência, como uma fileira de mulheres humildes para a cerimônia do beija-mão de Chico Xavier;

3) As ideias de Chico Xavier, de um aberrante medievalismo que apela para as pessoas aguentarem suas desgraças e praticarem pesados sacrifícios, só são tidas como "progressistas" porque se confunde "vida presente" com "vida futura", algo aceito sob o âmbito da retórica religiosa.

Os esquerdistas caíram na armadilha e cometeram contradições. Afinal, na vida normal os esquerdistas reclamam dos abusos do poder político, econômico e midiático, mas ao expressarem adoração a Chico Xavier acabam idolatrando quem reprova severamente essas reclamações.

Da mesma maneira, os esquerdistas, na vida normal, pedem melhores salários, aumento de qualidade de vida no presente e questionam a abordagem histórica sob o âmbito do dominador. Mas, dotados de cegueira emocional, ao exaltar Chico Xavier, eles estão exaltando aquele que rejeita as "mordomias" da vida presente, reprova o questionamento das coisas e cujo livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, não serve para programa de governo do PT, mas apresenta uma abordagem da História do Brasil bem do agrado das velhas oligarquias do Século XIX.

Tem esquerdista que sonha feliz da vida em chamar Chico Xavier para uma reunião sindical. "Esse é humilde, abriu mão de renda dos livros e doou para aquela federação", diz o incauto. Mas se Chico Xavier participasse de uma reunião sindical, os esquerdistas se arrependeriam completamente, envergonhados diante de alguém que é pior do que todos os pelegos do mundo juntos.

Chico diria para não fazer greve, para aceitar qualquer negociação salarial, para manter a jornada de trabalho intensa e exaustiva, para não fazer passeatas, para compreender a vida dos patrões etc. Com um sujeito desses, cujo reacionarismo (a níveis de uma Regina Duarte em momentos "bolso-histéricos") nunca foi oficialmente reconhecido, para que precisar de pelegos?

E o ateu? Aquele episódio de Chico Xavier dizendo, a alguém que não acredita em Deus, a frase "Não faz mal. Deus acredita em você!" é entendida erroneamente como um apoio ao ateísmo. "Espíritas" gostam tanto de ateus quando raposas gostam de galinhas. Simples assim.

A ideia de Chico Xavier como um pretenso esquerdista, como um falso progressista tido como apoiador do proletariado e da causa LGBTQ é construída pela imagem mítica e ficcional construída pelo discurso midiático. E essas bombas semióticas que estão por trás se manifestam assim:

1) Elas se baseiam em supostas atribuições de Chico Xavier à "caridade" e ao "pacifismo". Diante disso, supõe-se que ele apoiaria todo tipo de causa progressista;

2) O "esquerdismo" de Chico Xavier é elaborado movido pela cegueira emocional, por ideias superficiais e duvidosas e sem qualquer fundamento teórico sério;

3) Esse falso esquerdismo é justificado pela má compreensão de frases de Chico Xavier entendidas pela metade.

Neste terceiro item, vemos a pior bomba semiótica do "médium", um habilidoso manipulador de corações e mentes humanas. Boa parte de suas posturas pessoais é defendida da seguinte forma, através do que a gramática da Língua Portuguesa chama de período composto. As premissas de Chico Xavier seguem essa mesma estrutura a seguir:

"O fenômeno progressista merece ser entendido com absoluto respeito. Mas ele é motivado por sérios problemas inerentes à sua natureza. Portanto, cabe convencer as pessoas de que o fenômeno progressista é inválido ou deveria ser neutralizado por algum fenômeno mais conservador".

Pelo hábito dos brasileiros em ler tudo de forma apressada, interpretando errado as coisas pela captura de palavras soltas, entende-se as frases ideológicas de Chico Xavier pela metade. Isso é um jogo semiótico no qual, ao entender só a primeira premissa, tem-se a falsa ideia de que ele havia sido um primor de progressismo humano.

Foi assim com o comunismo, a causa LGBTQ (então conhecida como "homossexualismo"), entre outros. Imagina-se, só pegando a primeira oração do período composto gramatical, que a postura é progressista, e vai muito idiota espalhando na Internet que Nosso Lar é uma comunidade socialista situada nos céus do Rio de Janeiro e que Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho (apesar da clara analogia a um lema bolsonarista) prevê a volta do PT à Presidência da República.

Mas se prestarem atenção ao que Chico Xavier REALMENTE disse, apagariam esses textos e até pediriam para os demais internautas apagarem, devido ao vergonhoso mal entendido. Esquecem que Chico Xavier foi precursor da "cura gay" (não é fake news) e seu anti-comunismo ferrenho foi expresso com todas as letras, pontos e vírgulas num programa de grande audiência, e ele defendeu a ditadura militar com tanta convicção (achava a tortura um "mal necessário", para "evitar o caos" dos subversivos) que foi até a Escola Superior de Guerra (!) receber homenagens.

Sobre a "cura gay", devemos lembrar que Chico Xavier, apesar do jeito efeminado que despertava suspeitas, era homofóbico. Católico ortodoxo, ele defendia as estruturas sociais submetidas à condição sexual biológica. Ele pedia "respeito aos homossexuais", mas isso não era um apoio, mas uma forma de acolhê-los e convencê-los a aceitar a atual condição biológico-sexual que o "médium" atribui como "desígnio de Deus". "Não se pode ir contra a determinação de Deus", defendia Chico Xavier.

FÁCIL COMBATER TANQUES, SEM SE PREPARAR PARA O CAVALO DE TROIA

É preciso que a mídia alternativa, pelo menos, passe a informar que o Espiritismo é deturpado no Brasil, estando mais próximo de Jean-Baptiste Roustaing do que de Allan Kardec, e que sua ideologia é bastante conservadora. É necessário furar a bolha e nossos jornalistas investigativos e blogueiros semiólogos devem lançar questionamentos, porque muitos entendem errado o que é o Espiritismo e levam gato por lebre.

Chega-se ao ponto de usar uma frase de Allan Kardec sobre a fé inabalável para combater uma ideia do próprio Kardec, o rigor da Razão. No Brasil, os "espíritas" que exaltam a pessoa de Chico Xavier não conseguem esconder seu ódio à Razão e à Lógica, e alegam que o rigor da Razão é fonte de "perigosas malícias" e que a Fé é que deve prevalecer lançando ou não respostas a todos os problemas da Terra. O que a Fé não responder, a Razão não interfere.

Isso é muito ruim. Mas ninguém questiona. Estamos ocupados em questionar as religiões evangélicas neopentecostais, porque elas estão no poder através de Jair Bolsonaro, mas ignoramos que o "espiritismo" brasileiro sempre primou pelo ultraconservadorismo e o reacionarismo de Chico Xavier é uma realidade à qual não se pode desmentir nem arrumar desculpas para relativizar.

É, surpreendentemente, bastante lógico definir Chico Xavier como um ultraconservador, porque suas posturas são evidentes nesse sentido e as origens sociais em que viveu lhe propiciaram essa formação ideológica. Não dá para pegar um mito de Chico Xavier fabricado pelos noticiários da Rede Globo e atribuir a ele um progressismo que nunca existiu.

Do mesmo modo, não se pode se preparar para enfrentar tanques se não se prepara para enfrentar o Cavalo de Troia. O projeto "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho" não é a profecia de um mutirão planetário, mas a fusão Estado-religião que é mais explícita entre os neopentecostais, mas é um perigoso projeto latente no "meio espírita". A analogia com o lema "Brasil, Acima de Tudo, Deus Acima de Todos" é um grande sinal de alerta.

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