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Medo contagia os brasileiros, até mesmo os de esquerda

 

BRASILEIROS SE ESQUECEM QUE JAIR BOLSONARO E CHICO XAVIER SÃO DOIS LADOS DE UMA MESMA MOEDA ARRIVISTA.


O Brasil vive uma pandemia pior do que a Covid-19, que, por sinal, não está assustando muita gente, não. O que assusta é a queda anunciada de muitos paradigmas, totens. O que assusta é a reestatização de antigas estatais privatizadas. O que assusta é a Rádio Cidade, no Rio de Janeiro, retomar sua vocação original de tocar pop. O que assusta é saber que velhos feminicidas também morrem. O que assusta é ver a pintura padronizada nos ônibus acabar em todo o Brasil. O que assusta é subcelebridade cair no ostracismo. O que assusta é o PT voltar ao Governo Federal.


Mas o medo ronda mesmo entre as esquerdas que torcem justamente para o PT voltar ao poder na República, bastando que Jair Bolsonaro tivesse um resfriado para que ele seja tirado do poder, à revelia de Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, porque o "mito" seria derrubado no caso por um Twitter lacração do tipo "Por que dona Michelle Bolsonaro recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz?".


Há muita fantasia, há muito medo, há muito apego. Estamos no clima de "fim da infância" de um país com apenas 520 anos de idade e mesmo as esquerdas "namastê" ou mesmo as esquerdas "nem tão namastê assim" vivem também seus climas de medo, da consciência de que não estamos mais no Brasil de Ernesto Geisel, quando o Brasil atingia os níveis da "perfeição", sob o ponto de vista dos "isentões", espécie de "neoconservadores light". Uma espécie de "perfeição" imperfeita, ótima para esses adeptos da "neutralidade absoluta" viverem.


Há muito medo porque o Brasil ameaça derrubar uma série de paradigmas. E aí temos a síndrome do entulho abandonado, do qual ninguém se dá conta, mas quando alguém fala em retirá-lo, o pessoal já se revolta. O Brasil insiste na mania de jogar fora a mobília nova, despejar no esgoto a água suja com o bebê dentro. 


Por exemplo, aceitamos numa boa quando morre um grande artista como Moraes Moreira. Chora-se e depois tudo fica numa boa. Mas e se morrer Lindomar Castilho, já octogenário e tendo dada como encerrada sua carreira musical? Os brasileiros moralmente terraplanistas vão correr para se entupir de Rivotril? Só no Brasil homens que praticaram feminicídio ganham a "vida eterna". Doca Street segue "oficialmente ainda vivo" quando se suspeita que seu corpo já foi cremado. Senão a Justiça não teria liberado a minissérie Quem Ama Não Mata, que seria alvo de uma longa batalha judicial.


MEDO DE TUDO


Sim, os brasileiros só não têm medo do coronavírus. Os cariocas e fluminenses têm medo de ver seus quatro times, Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo, passarem a só perder partidas, neste Estado do Rio de Janeiro onde o fanatismo pelo futebol é tanto que chega a gerar relações sociais tóxicas que se refletem no assédio moral no trabalho.


Neste medo, as pessoas correm atrás de seus rabos. Precisam repetir os momentos em que achavam que eram felizes, mesmo com uma mente confusa que não aceita desilusões. Até o discurso de que "tal coisa é minha única alegria na vida" se torna um irritante bordão, sobretudo para "isentões" que estufam o peito se achando "mais realistas que o rei".


Esse medo atinge níveis estratosféricos. Um medo que envergonharia qualquer criança de sete anos, que ficaria abismada com tamanho pavor vivido pela "gente grande". Se a criançada já reconhece haver crianças morrendo de câncer, por que os adultos têm medo que um feminicida morra, mesmo na casa dos 80 anos (o "ideal", então, seria morrer aos 95, mesmo com o corpo há muito tempo em frangalhos)?


Mas é tanto medo, medinho até de ver os ônibus de São Paulo e Curitiba recuperando as identidades visuais das respectivas empresas - horrorizando políticos fisiológicos que usam a desculpa imbecil da "poluição visual" para impor a pintura padronizada e prejudicar a população - , que muita gente tida como "normal" deveria correr urgentemente para uma consulta psiquiátrica antes que apareçam os primeiros sintomas de demência.


Na religião, temos um medo surreal de ver Chico Xavier sendo desmascarado. Num momento em que as igrejas neopentecostais (as seitas "neopenteques") e o catolicismo neocon da "renovação carismática", os brasileiros se comportam como aquele rapaz nerd da escola que passou a odiar a sua colega "feinha" porque ela matou um cachorro ao atropelá-lo com sua bicicleta, e o rapaz ainda confia que irá conquistar aquela cheerleader que tanto o odeia.


Pelo menos as esquerdas são assim com o "espiritismo" brasileiro. Há um silêncio radical, omisso, complacente, em relação a Chico Xavier, mesmo quando fatos e argumentos robustos - sim, robustos - mostram o lado negativo de sua pessoa e trajetória. Para quem fica incomodado com o termo "robustos", vamos lembrar pela enésima vez (e lembraremos sempre que necessário):


Primeiro, o "médium" que pregou, em toda sua obra, que as pessoas deveriam sofrer caladas as piores adversidades da vida - não cabem relativizações nem metáforas, é isso que Chico Xavier escreveu, pouco importando as "assinaturas espirituais" feitas para salvar sua pele - e que defendeu, antes de qualquer golpista de 2016, a precarização do trabalho como caminho para encurtar o "acesso a Deus", defendeu a ditadura militar com um radicalismo que muitos têm medo de assumir.


A Escola Superior de Guerra condecorou Chico Xavier pelo apoio que ele deu para a ditadura militar, então o "bondoso médium" foi, sim, colaborador do regime ditatorial, passou pano para a repressão, defendeu o AI-5 como "mal necessário para combater o caos das esquerdas" e incluiu, por associação, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra entre os militares que "mereciam nossas preces a favor" por "estarem fazendo do Brasil um reino de amor do futuro".


Vá se entender que "amor" é esse (talvez abreviatura para "amordaçar") a ser feito sob um banho de sangue de milhares de inocentes. E se a Escola Superior de Guerra condecorou Chico Xavier, não foi por mútuo contragosto, porque ninguém homenageia uma pessoa por má vontade ou estratégia, assim como humanista não pede para orarmos em favor dos opressores. 


É sinal de que Chico Xavier era um reacionário doentio e a ESG nunca iria dar um pirulito (não o traje militar com esse apelido, mas o famoso doce infantil) para quem não fosse colaborador do regime ditatorial, quanto mais oferecer um espaço para palestras e recebimento de prêmios. Na boa, será que a Escola Superior de Guerra iria homenagear Chico Xavier se ele não fosse um colaborador estratégico da ditadura militar e da direita civil vinculada?


E as fraudes literárias? Se pessoas solidárias, como Suely Caldas Schubert, e simpatizantes, como Ana Lorym Soares, não só não esconderam as fraudes como deram detalhes das mesmas sem querer, revelando que supostas psicografias sofriam "modificações editoriais dos homens da terra", que "aperfeiçoavam" as "obras mediúnicas" com o apoio cúmplice e a colaboração do próprio Chico Xavier, como pessoas ainda choram de tristeza quando se fala que o "médium" foi pioneiro na literatura fake, sendo quase um "padroeiro" das fake news no nosso Brasil?


Por muito menos, Madre Teresa de Calcutá - que só no Brasil ainda recebe apoio das esquerdas "namastê" - foi desmascarada com facilidade, tendo como único delito as ideias reacionárias (como a radical reprovação do aborto; por ela, aquela menina de 10 anos de São Mateus, Espírito Santo, completaria a gravidez, mesmo morrendo depois do parto) e os maus tratos aos internos nas casas da sua organização Missionárias da Caridade.


Mas aqui não há um jornalista investigativo que possa reforçar as denúncias contra Chico Xavier. A Verdade, infelizmente, não toca nele. Nem mesmo as recomendações da Codificação de rejeitar quem atuasse contra a Lógica e o Bom Senso são ouvidas. Allan Kardec é desprezado, no Brasil, quando seus conselhos desagradam os mitos desenvolvidos pelo fanatismo obsessivo dos brasileiros, fascinados por um velho feioso, mais perigoso do que uma infinidade de mostros mitológicos.


E por que esse medo? Não vamos falar dos bordões do tipo "ele errou, mas fez caridade" porque isso é o "rouba mas faz" dos chiquistas. A "caridade" de Chico Xavier sempre foi a mesma prática chinfrim e fajuta que Luciano Huck hoje faz e que Bill Gates e Elon Musk também, que nunca trouxeram superação real da pobreza, antes reduziu o impacto da miséria nos paupérrimos, e, ainda assim, mais para evitar uma revolta popular do que para ajudar os sofredores extremos a melhorar de vida.


Esse medo se dá por algum ou todos esses aspectos:


1) Como Chico Xavier dizia "falar com os mortos", o medo dos brasileiros em investigar seu mito sofreria a represália de "espíritos obsessores" assombrarem o investigador de ocasião. Superstição semelhante a de não querer saber da morte de um feminicida, sobretudo com base nas inúmeras lendas de casas mal-assombradas que haviam sido abandonadas após a ocorrência de um feminicídio;


2) Há relatos de pessoas céticas que tentaram investigar Chico Xavier e depois foram dominadas por uma "esfera de lindas energias", eufemismo para "bombardeio de amor" (love bombing), que enfeitiçaram a ponto dos céticos mais inflexíveis se deixarem dominar pelo "bondoso médium". É um processo comparável ao de converter, na Idade Média, os hereges a "novos cristãos", dentro da perspectiva do Catolicismo medieval (que aliás teve no próprio Chico Xavier seu devoto mais fiel). Outra superstição.


O medo de dar xeque-mate no mito de Chico Xavier é comparável ao medo de derrubar Jair Bolsonaro. Ambos são dois lados de uma mesma moeda arrivista. Mas a sociedade brasileira insiste em vê-los como pretensos antônimos, como supostos opostos, tem gente de esquerda pulando feito criança malcriada dizendo "Chico Xavier nunca seria bolsonarista". Se o pessoal conhecesse as ideias pregadas por Chico Xavier, concluiria que ele seria, até hoje, um dos apoiadores de Jair Bolsonaro, e estaria hoje dizendo "Irmãos, deixem o homem trabalhar!".


Até esperamos que os telespectadores da Rede Globo, da Record, os leitores da Folha de São Paulo, do Estadão e da Veja, dos leitores de colunas sociais (que mostram gente rica e paparicam "médiuns espíritas"), do público da Superinteressante, do fã-clube do Luciano Huck e da audiência das novelas das nove da Globo que acreditem que Chico Xavier "fazia mesmo caridade" e "simboliza a paz entre os povos e a salvação da humanidade".


O que não se pode admitir é que as esquerdas pensem da mesma forma, e o mais grave é que mesmo as esquerdas "não tão namastê assim" não conseguem romper com isso. A fascinação obsessiva em torno de um velho feioso de trajes cafonas, apenas por uma simbologia de "lindas virtudes" trazida pelo discurso do "bombardeio de amor", deveria ao menos não ser compartilhada por pessoas com algum senso crítico.


A ideia não é o silêncio. Não é deixar de falar de Chico Xavier em portais e canais esquerdistas. Isso pode ser uma omissão cúmplice, do tipo "vocês que pensem o que quiserem". Só que, repetimos à exaustão - no esforço de esclarecer a quem recusa ser esclarecido - , o reacionarismo e as fraudes literárias de Chico Xavier não são opinião, são fatos, bastando apenas que as denúncias sejam reforçadas por uma atuação de um jornalista investigativo com coragem para romper com essa fascinação obsessiva que faz o Brasil construir sua própria ruína.


Não estamos aqui caluniando, cometendo intolerância ou coisa parecida. Se questionamos o mito de Chico Xavier, é porque seguimos o conselho de ninguém menos que Allan Kardec, que alertava sobre os inimigos internos que deturpam o Espiritismo. Repetiremos o alerta urgente, sempre que necessário: "melhor cair um único homem do que todos aqueles que se sentirem enganados por ele". Em outras palavras: "melhor que caia Chico Xavier do que cair o Brasil inteiro que se sinta fascinado por ele".

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