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Esquerdas ainda não admitem direitismo de Chico Xavier

 


Mesmo quando um conhecido portal de esquerda furou a bolha para publicar um texto sobre o apoio do suposto médium Francisco Cândido Xavier à ditadura militar - tão convicto que rendeu condecoração da Escola Superior de Guerra, que não premiaria qualquer um, mesmo quem fosse de direita - , os esquerdistas mainstream, ocupados com a queda de Bolsonaro, conseguem acreditar no direitismo do beato de Pedro Leopoldo / Uberaba.


Ainda iludidos com a imagem de "fada madrinha" que promove Chico Xavier nos últimos 45 anos - com base em narrativas importadas de ideias de Malcolm Muggeridge - , imaginam ser "um absurdo" que o "bondoso médium", se estivesse vivo, fosse um bolsonarista radical, que avisasse a todos para "não usar o instrumento do impeachment como um brinquedo".


Ninguém acredita no direitismo de Chico Xavier, mesmo quando aqui apresentamos provas vindas das palavras e textos do próprio "médium" (mesmo se considerarmos as "autorias espirituais" como se fossem autênticas - em verdade, elas são fake - , pressupõe que o "médium" concordaria em praticamente tudo que é veiculado).


E aí a gente vê os motivos para tanto. A imagem de Chico Xavier, artificialmente montada pela intensiva propaganda midiática trazida desde meados da década de 1970, foi podada para mostrar apenas os "aspectos positivos", a ponto de, a respeito dele, se preferir mostrar uma mentira agradável ou um boato animador do que trazer verdades dolorosas e desagradáveis que revelassem o lado sombrio do beato mineiro.


As esquerdas ignoram até mesmo as suspeitas, até agora sem chance, infelizmente, de investigação, de que o "espiritismo" brasileiro foi usado, juntamente com as seitas neopentecostais, para se projetarem como religiões concorrentes para enfraquecer o Catolicismo, que estava não só se opondo à ditadura militar como estava ajudando na organização dos movimentos populares (como os protestos dos sem-terra e do operariado, por exemplo), o que botaria todo o sistema de valores vigente a perder.


Pensam os esquerdistas que o "espiritismo" brasileiro é uma "segunda Teologia da Libertação" e que os conceitos obscurantistas de aceitar a própria desgraça em silêncio ou de dar murro em ponta de faca para vencer na vida são meras metáforas de provérbios chineses. Iludidos com o desfile binário do yin e do yang, vão para a cama tranquilos ao ouvirem os "espíritas" pregarem que "o silêncio é a voz dos sábios".


Sabemos que isso é uma mentira descarada. A ideia de que "o silêncio é a voz dos sábios" não passa de discurso chantagista de reacionário querendo falar manso. Isso não tem a menor lógica, porque o sábio que não fala é o sábio que não ensina, porque não falando ele não se comunica, e, calado, não compartilha seu saber com outras pessoas. Daí isso ser uma falácia vergonhosa, porque é de fácil contestação, mas todos concordam com ela sem questionar. Inclusive as esquerdas que, em outros momentos, questiona até a beleza sexy de uma Ana Paula Henkel.


Nem a aparência repulsiva, de rosto feio - que se enfeiou mais ainda na velhice - , da peruca cafona, do boné antiquado e dos ternos velhos e bregas fazem Chico Xavier ser repudiado pelas esquerdas, ainda mais nesse momento de otimismo exagerado em relação à queda de Bolsonaro, que faz muitos esquerdistas felizes até com o apoio de neoliberais doentios à candidatura de Lula.




Sim, porque vivemos um período de otimismo exagerado, de grande ilusão para as esquerdas que acreditam terem virado o jogo do golpe de 2016. Isoladas nas bolhas das redes sociais, as pessoas, em sua grande maioria, estão iludidas em achar que vivemos num "grande momento histórico" e superestimam as vantagens que Lula obteve do Judiciário e do poder midiático.


As elites que, cinco anos atrás, pregaram a saída de Dilma Rousseff, aparentemente, passaram a apoiar Lula, com exceção daqueles que "fecharam" com Bolsonaro. E essa aparente virada está iludindo tanto as esquerdas que elas só se manifestam se a "frente ampla" lhe disser o que e como fazer. Daí o vergonhoso adiamento, depois do sucesso do 19 de junho, para uma data distante, 24 de Julho.


As forças progressistas estão numa situação pior que 2002, por sinal o ano em que Chico Xavier "voltou para a pátria espiritual". Desnorteadas, as esquerdas estão achando que tudo que representar apoio a Lula é "sincero" e "válido", se esquecendo que muitos adotam essa postura para apagar da memória a contribuição para a queda de Dilma.


Se essas esquerdas se iludem até com o presidente dos EUA Joe Biden, considerado por elas "tão esquerdista quanto Fidel Castro" e acham que o "funk" e o grupo sul-coreano BTS são "os novos Bob Dylan" num contexto em que, para fazer música, basta um sâmpler na mão e uma ideia na cabeça. Para esse pessoal, Lula "fará milagres" se limitando apenas a promover o auxílio emergencial de R$ 600 como única medida para promover o desenvolvimento nacional.


ESQUERDA PEQUENO-BURGUESA


Essas bolhas felizes das esquerdas lacradoras, identitárias, festivas, religiosas (?!), mais preocupadas em transformar a camiseta da Seleção Brasileira de Futebol num "símbolo marxista", as esquerdas "sandália Havaianas", as esquerdas "Malhação", as esquerdas namastê e as esquerdas nem-tão-namastê assim, têm motivos para ter esse imaginário infantilizado e fantasioso, capaz de qualquer absurdo, até mesmo tentar converter Chico Xavier num "ícone esquerdista", à "luz" (quer dizer, treva) do Pensamento Desejoso, mesmo sob o custo da briga permanente com a realidade dos fatos.


Essas esquerdas são pequeno-burguesas, elites de classe média que se contentam em um intervalo de um mês separando um protesto popular deoutro. Em um mês, um trabalhador pobre vê seu salário ir embora com contas e com a compra de mantimentos que se esgota em dez dias. As esquerdas confortáveis não sabem o que é realidade de chão de fábrica e ser camponês jurado de morte por pistoleiros só porque exige condições melhores de vida.


Essas esquerdas ficam facilmente sonhando com Lula governando o país porque ignoram a gravidade da coisa. Jair Bolsonaro ainda não caiu e ele é o único brasileiro realmente sintonizado com Chico Xavier, por conta de afinidades imensas, como a forma como um e outro "venceram na vida".


Chico Xavier carrega suspeita de "queima de arquivo" nas costas, e analistas sérios já falam que o sobrinho Amauri Xavier Pena não foi sequer alcoólatra, pois tal atribuição teria sido plantada pelo "meio espírita" para depreciar o rapaz, num verdadeiro "assassinato de reputação".


E a revista Manchete, em 09 de agosto de 1958, avisou que Amauri recebia ameaças de morte do "meio espírita" e, na época, uma campanha de ódio que incluiu palestrantes "espíritas" pôs por terra abaixo qualquer certeza de que essa "maravilhosa religião" prega o amor, a solidariedade e reprova qualquer tipo de manifestação rancorosa e sem piedade.


Quando podem, os "espíritas", principalmente e, acima de tudo, os devotos de Chico Xavier - sem esquecer os de Divaldo Franco, igualmente reacionários, e os de José Medrado, que adoram ouvir suas piadas  gordofóbicas e contra sogras e "louras falsas" - , são tão raivosos quanto os bolsonaristas, e vamos combinar que Chico Xavier nunca passou de um Jair Bolsonaro após tomar uma xícara de chá calmante.


É como o enredo do Médico e o Monstro, que, respectivamente, põe Chico Xavier e Jair Bolsonaro num só contexto, porque vemos que os chamados "kardecistas", no Brasil, também são inclinados a uma emotividade tóxica, que só é "elevada" e "alegre" quando tudo está bem, mas quando há a menor contrariedade, ela se reverte em explosões intensas e preocupantes de raiva. Vendo o filme dos Gremlins, se observa isso, os bichinhos fofinhos que viram monstros assustadores.


Se um suposto médium teve que "lavar as mãos" ao aceitar que um sobrinho seja morto para evitar denúncias contra o beato de Uberaba, se o filho de um escritor postumamente lesado, com o mesmo nome de Humberto de Campos, foi assediado num espetáculo religioso, para que ele e outros herdeiros cancelem as ações recorrentes de um processo judicial que deu em nada, não podemos dar o menor crédito a Chico Xavier.


"Esquerdizar" a pessoa de Chico Xavier, mesmo brigando com os fatos e lutando para que prevaleçam mentiras agradáveis e confortáveis, que façam todo mundo dormir tranquilo, é muito fácil para quem está bem na vida, que mostra a vida cor-de-rosa no Instagram e no WhatsApp, vive na sua bolhinha com umas centenas de amigos e não tem muito que se queixar da vida, daí feliz com a Teologia do Sofrimento que confunde com Teologia da Libertação.


O drama quem vive são os índios, camponeses, operários, sem-teto e outros pobres e miseráveis que não têm tempo nem dinheiro nem condição alguma para ficar no celular e mostrar a "doce vida" . Para eles, sofrer em silêncio é doloroso, porque é difícil sentir uma tragédia na carne e se calar e fingir que está tudo bem. O que é um dia de sol, com riacho descendo pelos relevos, passarinhos voando sobre flores, se as contas aumentam, a comida se esgota, e o salário zera já em dez dias, não tendo um centavo sequer para um gasto a mais?


Para eles, não dá para fantasiar Chico Xavier como uma "princesinha marxista" às custas de suas poses ao lado de gente pobre e suas ideias simplórias em torno da paz. As esquerdas que se apavoram com o direitismo profundo do "médium" são as burguesas, que têm parentes frequentando "centros espíritas", que acreditam em religiosidade e usam a fé até para crerem que Lula já tem, sob decisão de Deus, seu assento garantido na Presidência da República.


São essas esquerdas, em boa parte namastê e outra não-tão-namastê-assim, que ficam acreditando em diversas ilusões e, no seu mundo cor-de-rosa, não cabe um Chico Xavier esculhambando as esquerdas no Pinga Fogo da TV Tupi e defendendo a precarização do trabalho e a conformação com a desgraça pessoal. Para essas esquerdas, o que vale é sustentar a fantasia, para que possam se manter em alegria e numa positividade tóxica cujo único sacrifício é apenas brigar com a realidade para que se garanta sempre um sono tranquilo. Até que a nova realidade do dia seguinte lhes traga um novo choque.

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