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Mercado de trabalho e meio acadêmico exigem o impossível


É fácil os moralistas dizerem: "faça o impossível". Sobretudo no moralismo religioso do "espiritismo" que não enxerga individualidades, não reconhece condições para certos problemas nem limitações ou necessidades de pessoas que enfrentam dificuldades acima dos limites suportáveis.

Vendo como o Brasil se tornou hoje, quando a incompetência atinge os altos escalões profissionais e acadêmicos enquanto na miséria das ruas pessoas inteligentíssimas se escondem em trajes fedorentos e na vida improvisada do lixo e da falta de moradia, dá para pensar que a crise que vivemos é muito menos econômica e muito mais de princípios e valores humanos.

Temos, na verdade, um dos mercados profissionais e acadêmicos mais preconceituosos do mundo. Mercados que fazem exigências descomunais e que, por sorte, até conseguem obter "especialistas" que, aparentemente, ultrapassam a "bola de fogo" das monografias empoladas, com muito discurso e pouco conteúdo, e das especializações profissionais engenhosas que não têm efeito prático.

A "crise" que faz uma empresa ou instituição não empregarem certos candidatos dotados de talento e competência simplesmente desaparece quando surgem candidatos que, não necessariamente talentosos, fazem jus a critérios de aparência e status: descontração, extroversão, beleza física, inglês fluente, pouca idade.

E aí, o que vemos é um desempenho medíocre, em diversos aspectos. No Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, palco de avassaladora decadência social em todos os aspectos, observa-se um surreal declínio nos trabalhos de logística, quando produtos demoram para terem reposição de estoque, já que o Estado está dentro dos grandes centros de fabricação e distribuição de produtos do país.

É um quadro que poucos questionam, já que as pessoas com maior status quo vivem a ilusão da segurança e da consciência limpa que não possuem. Hoje temos um país em apreensão, com desgaste de antigos paradigmas, apesar da tentativa hercúlea em manter esses paradigmas em rápido processo de perecimento, através do cenário político, jurídico e midiático representado pelo governo de Michel Temer.

É como alguém que não está satisfeito em embalsamar um cadáver em acelerada decomposição, e quer mantê-lo vivo. Valores que caem, que perecem de forma acelerada, como madeira devorada em poucos minutos por um cupinzeiro voraz, tentam ser mantidos na marra, no desespero cego e paranoico de sobreviverem aos tempos.

O mercado de trabalho discrimina de forma até menos simplória do que se pensa. Não se trata apenas de discriminar por raça ou deficiência física, por exemplo, mas pela aparência supostamente pouco atrativa de certos candidatos, e pela formação aparentemente precária e pelo suposto baixo status social.

Os profissionais de recursos humanos, perdidos entre a insegurança e a arrogância, rejeitam muitas vezes os candidatos que fariam uma empresa ou instituição crescer. É como o rapaz que recusa o pedido de namoro de uma colega de escola e, depois que se torna adulto, percebe que ela poderia ter sido o grande amor de sua vida.

Ilusões aparentemente tão caras como a experiência cronológica, o status econômico, os diplomas acadêmicos, o prestígio religioso, estão caindo de podres, numa decadência que deixa os privilegiados sociais, que apostam num derradeiro "remédio" político, financeiro, jurídico e midiático que cercam o governo de Michel Temer, de cabelo em pé.

São as posições de comando, de prestígio, de fortuna e de experiência cronológica que mais sofrem a insegurança e declínio, e por isso tentam salvar todo um acervo de velhos paradigmas, dos mais diversos tipos, como se, paranoicos, tivessem que montar uma máquina do tempo e forçar todo o Brasil a voltar aos tempos coloniais ou, quando muito, à República Velha ou, ao menos, à Era Geisel.

E isso faz com que mesmo o mercado de trabalho e o meio acadêmico sejam movidos pela aparência. É assustador ver que o império dos diplomas sem saber esteja em sério declínio, quando tais documentos sofrem não o perecimento físico da deterioração do papel ou da ação de possíveis fungos ou cupins, mas o perecimento social que os tempos não podem resolver.

Exigir o impossível para quem não tem privilégios nem contatos influentes pode garantir a boa aparência do cotidiano de trabalho ou estudo, de empresas "limpas" no seu visual e no seu aparato discursivo, e universidades publicando textos enfeitados do mais correto vocabulário técnico, mas cujos temas de pesquisa escondem verdadeiras asneiras fenomenológicas meramente descritivas.

Exige-se demais para quem não tem, e isso faz com que os que têm demais, até mesmo sem necessidade, experimentem hoje a insegurança que tanto se esforçaram em evitar, enfrentando prejuízos que se mostram incapazes de contornar e, quando muito, escondem no armário ou sob os tapetes, envergonhados das responsabilidades que nunca imaginaram que teriam.

É isso que o Brasil que torce para que Michel Temer se torne presidente efetivo ignora haver. É um grave risco de declínio, dos mais graves, descontrolados e irresolúveis, de antigos paradigmas e totens sociais, uma série de visões dominantes e de mitos de sucesso e competência que se reduziram à ruína, sem que alguém pudesse dar uma explicação plausível.

Esse agravamento da crise, praticamente tão certo quanto o alagamento de ruas em uma violenta tempestade, revelará as contradições e impasses que uma sociedade desigual, extremamente tecnicista, moralista e burocratizada, tanto esconderam para manter sua supremacia. E mostram um país cada vez mais inseguro e vulnerável que está sendo o Brasil nos últimos meses.

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