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É fácil os "espíritas de esquerda" criticarem o argueiro dos olhos dos "espíritas conservadores"


NÃO TEM ESSE PAPO DE "AMOR X ÓDIO" - CHICO XAVIER E JAIR BOLSONARO COMPARTILHAM DE UM MESMO CONSERVADORISMO IDEOLÓGICO.

Quando o assunto é Chico Xavier, seus partidários vão logo criticando os argueiros nos olhos dos outros, sejam eles os evangélicos neopentecostais, os "espíritas de direita" e outros que vierem num "balaio de gatos" que mistura de Carlos Vereza a Padre Quevedo, passando por Edir Macedo, Ernesto Che Guevara, Carlos Baccelli, a boneca Momo, as bandas de heavy metal e o que vier de "maligno" no imaginário dos "espíritas" em geral.

Só que esses seguidores de Chico Xavier, tão julgadores da cegueira alheia, não reparam as traves nos seus olhos. Em nome de seu ídolo, caem em contradições, falham em argumentos, carecem de fundamentação, e, mesmo assim, criam todo um exército de palavras para brigar com a realidade, sobretudo quando ela mostra o "médium" de maneira desagradável, por mais realista que possa ser.

No caso dos "espíritas de esquerda", a situação beira o patético, pois estes não conseguem evitar o conflito de ideias. Num momento, endeusam Lula e exaltam o progressismo combativo dos proletários, sem-terra, LGBTQ e estudantes. Em outro, exaltam Chico Xavier, que prega que as pessoas que sofrem adversidades devam aceitá-las em silêncio, sem queixumes.

Se já no "espiritismo" considerado "neutro", em gente como Orson Peter Carrara, se há a seletividade temática que distribui as contradições doutrinárias em textos diferentes - se Orson, num texto, bajula Erasto, em outro ele reserva a exaltar Emmanuel - , vemos neste texto de Ana Cláudia Laurindo, "A derrocada do espiritismo conservador", um exemplo dessa seletividade, da tática da contradição distribuída.

É essa distribuição de textos contraditórios, em que o autor se aproxima de uma posição em um texto e, em outro, se aproxima de uma tendência oposta, que parecem forjar um equilíbrio de harmonia, quando estão soltos na Internet. Reunidos em livro, porém, esses textos mostrarão o preocupante e verdadeiro torneio UFC de ideias brigando umas com as outras, em claro conflito de pensamento e confusão conceitual.

É fácil ver "coerência" nesse texto porque a autora evita pontos incômodos. Mas não se sabe se ela viu o Pinga Fogo da TV Tupi e tem ideia de que o "espiritismo conservador" que ela tanto fala mal só existe por causa de Chico Xavier. Ou será que o esquerdismo da articulista não seria falso, algo feito mais para fazer proselitismo nos meios esquerdistas, moldando-os ao sabor das ideias conservadoras do "bondoso médium"?

Vamos analisar alguns pontos desse texto, no qual há a infeliz ilustração de um céu azul onde uma montagem insere Allan Kardec ao lado de Emmanuel e Chico Xavier, tão fácil quanto forjar uma montagem mesclando Lula e Dilma Rousseff com o narcotraficante Pablo Escobar, que circula na Internet. Paciência, o "espiritismo" brasileiro é o precursor do deep fake, concebendo uma "vida espiritual" sem qualquer fundamentação e diante do mais descarado arrepio à Ciência Espírita.

Vamos a esse trecho:

"O codificador deixou sérios alertas quanto as possíveis ações dos espíritos enganadores, chame-os pseudo-sábios, hipócritas ou presunçosos; e toda a investidura destes para enganar, ludibriar, confundir o espírita em atividade.

Tais comunicadores de má fé, utilizariam palavras bonitas, usariam linguagem rebuscada e manejariam o convencimento sob roupagens atraentes, ou seja, armariam verdadeiras ciladas à espera de um instante de fraqueza.

Será que os espíritas conservadores e direitistas brasileiros, caminharam por uma via alternativa de fascinação?".

A autora esquece que há o pseudo-sábio Chico Xavier e a atuação, junto a ele, de espíritos zombeteiros que impulsionaram ele, identificado com tais forças, para o engodo anti-doutrinário de 412 livros ou mais, que só não chamamos de lavagem de porco porque respeitamos a alimentação que dá sobrevivência a essa espécie animal, mais digna do que o conjunto do "espiritismo" brasileiro que trai Kardec 25 horas por dia, 8 dias por semana, 32 dias por mês, sem dar um milésimo de descanso, mas juram falsa fidelidade ao mestre lionês.

Esquece a autora de Parnaso de Além-Túmulo e outros livros "psicográficos" que se utilizam de "palavras bonitas", usando linguagem rebuscada e manejam o convencimento sob roupagens atraentes - as tais "mensagens de amor" e outras "lindas palavras" - , que sempre armam ciladas a quem possui um instante de fraqueza emocional.

Não adianta a autora desmentir que sinta fascinação por Chico Xavier, dizendo que "apenas o admira de maneira moderada e racional (sic)", porque até a mínima admiração já ocorre no terreno lodoso da fascinação, um pequeno mergulho no "canto de sereia" do "médium", ou talvez um mergulho de água rasa que resulta num perigoso e mortal afogamento assim que se desaguam as ondas fortes e violentas.

Isso porque a autora se esquece que Espiritismo, no Brasil, já foi contaminado pelo Roustanguismo, que Ana Cláudia ignora ter sido introduzido pelo médico Adolfo Bezerra de Menezes, em total consenso com os dirigentes da Federação "Espírita" Brasileira.

Esquece, também, a autora, que Jean-Baptiste Roustaing teve preferência, em detrimento a Kardec, na apreciação de ideias "espíritas". E que, como Roustaing era muito repudiado pelos espíritas científicos, o que poderia causar problemas, houve o artifício de arrumar alguém para adaptar as ideias roustanguistas à realidade brasileira e, assim, descartar o nome do advogado de Bordéus e fingir fidelidade a Kardec.

E quem adaptou os ideais roustanguistas? Chico Xavier. Sim, ele mesmo. Até mesmo a obra ufanista Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, é adaptação brasileira da obra roustanguiana Os Quatro Evangelhos, e com o conteúdo de História do Brasil que remete aos piores livros didáticos, não apenas sem acrescentar visões novas sobre a história do nosso país como também mantendo os preconceitos e idolatrias indevidas aos personagens históricos.

Mas a trave nos olhos de Ana Cláudia Laurindo vai mais adiante, ao rejeitar o argueiro alheio:

"Imaginaria Kardec que o equívoco trazida ao seio de um núcleo espírita em um país do tamanho de um continente, poderia ser motivado por questões humanas pontuais e eivadas de senso materialista, e este conglomerado usaria seu próprio nome neste fuzuê que mistura teoria e prática gerando um caldo horrendo de ignorância letal?

Não podemos deixar de analisar este fenômeno e o quanto ainda se sustenta esta ignorância no meio espírita, mesmo um ano depois de vermos o país transformado em pátio de miserabilidade crescente, afetando as humanas histórias de nossa gente e de cada um de nós.

Citar Kardec de maneira esvaziada, levou grande parte dos espíritas brasileiros a se tornarem seus próprios obsessores, vestindo a roupagem dos pseudo-sábios nas reuniões, nas relações, influenciando milhares a seguirem a cegueira que os guia".

Ela fala da ignorância dos outros, mas em outros textos, ao ser uma "esquerdista" apoiando Chico Xavier, e ainda por cima se gabando em abraçar o "espiritismo autêntico", esquece ela do conservadorismo evidente do seu ídolo, que em sua obra doutrinária cometeu desvios graves dos ensinamentos kardecianos originais.

É só Ana Cláudia ver conceitos como o de almas-gêmeas, "crianças no além", "datas-limites" - sim, não adianta fazer vista grossa e negar que Chico Xavier determinou datas fixas para fatos futuros, porque isso estava claro até no Pinga Fogo - , e mesmo o machismo esteve presente em sua obra, diferente do acolhimento que Kardec deu aos ideais feministas.

E talvez a autora tenha que ler com atenção as verdadeiras ideias do "progressista" Chico Xavier, antes de fazer qualquer crítica ao conservadorismo dos outros. Mas ela insiste no papo surrado do contraste "amor x ódio" que artificialmente contrapõe os igualmente arrivistas Chico Xavier e Jair Bolsonaro, parecidos até no lema ufanista que, na linguagem do "capitão", se traduz em "Brasil, Acima de Tudo, Deus Acima de Todos".

"Foi mesmo impossível não lembrar de Bolsonaro e a visão de um homem no cavalo branco que o apontaria como escolhido, Sergio Moro e uma possível reencarnação de Emannuel, a república arbitrária de Curitiba e o desrespeito à Constituição do nosso país. Foi impossível não lembrar de espíritas ativos nas casas disseminando o ódio pregado nas ruas e palanques, e tudo isso mostra o quanto não foi necessário os espíritos pseudo-sábios investirem na confusão destes espíritas, pois seria algo obsoleto.

(...)

Não foi preciso fingir bonomia nem falar galantemente, para encontrar elementos de atração. Bolsonaro imitou arma com a mão e falou porcamente na mídia, agrediu e ameaçou, ainda por cima apresentou um projeto de governo tosco, com uma política econômica punitiva e outras tantas medidas injustas, e tem cumprido à risca o que prometeu; a violência e a desigualdade grassam.


O espírita afinado com a necro-política não percebe o erro histórico que cometeu, o flagelo social imposto às famílias pobres e a todos os trabalhadores, a penalização dos vulneráveis e, principalmente a incoerência da dita “pessoa de bem” que diz defender família e bons costumes, mas, que em verdade se tornou sinônimo de cúmplice do fascismo no Brasil".

Em outras ocasiões, Ana Cláudia Laurindo reagiu, com raiva estranhamente bolsomínion, às comparações de Carlos Baccelli entre Chico Xavier e Jair Bolsonaro. Acha ela que o "médium" era "amor puro", quando ela se esqueceu de fatos históricos de Chico Xavier como sua defesa radical à ditadura militar e do AI-5 (que envolve tortura e ódio, por parte de operadores como o coronel Brilhante Ustra).

Chico Xavier esculhambou operários, camponeses e sem-teto. Rejeitou severamente o comunismo. Disse que as famílias cristãs pediram o golpe militar porque o então presidente João Goulart promovia um governo "abertamente esquerdista". E defendeu que os brasileiros apoiassem os militares, porque eles fariam do Brasil um "reino de amor". Será preciso desenhar para Ana Cláudia entender?

E Chico Xavier premiado pela Escola Superior de Guerra? Chico Xavier premiado pelos opressores? E tal informação não veio de "evangélicos" ou "católicos" raivosos nem de malecidências da pior espécie, mas de seu biógrafo Marcel Souto Maior, considerado "isento" e solidário ao "médium"!

A própria tese dos "resgates espirituais", tão falada no "espiritismo" brasileiro, mostrando o moralismo punitivista que a doutrina brasileira prega, ao arrepio dos ensinamentos da Codificação, é uma forma de "justificar o ódio", dando atenuantes para assassinos, agressores e ladrões, enquanto se investe na culpabilização da vítima, que sofreu um infortúnio, adversidade ou tragédia porque, segundo os "espíritas", "pagou para ver".

E quem pensa que o "bondoso" Chico Xavier está fora dessa, se enganou. Que acusação mais perversa pode haver contra multidões humildes que foram assistir a um espetáculo circense, às vésperas do Natal de 1961, em Niterói, e tiveram que encarar um incêndio criminoso, morrendo, saindo feridos ou apenas traumatizados, e, cinco anos depois, a desgraça ser justificada porque os pobrezinhos "pagaram" por terem sido romanos sanguinários na vida passada.

E o caso Jair Presente? Os amigos do jovem engenheiro desconfiaram das "psicografias" de Chico Xavier, uma justa desconfiança de quem conviveu com o falecido rapaz, e o "bom médium" reagiu com rispidez, chamando isso de "bobagem da grossa".

Esses dois episódios mostram o quanto Chico Xavier também tem seu lado Jair Bolsonaro, e isso é doloroso para muitos, que preferem usar seus pensamentos desejosos para relativizar conforme as circunstâncias, ficando mais pacientes e compreensivos quando há fantasias exageradas em favor do "médium" do que denúncias realistas contra ele.

Não adianta dizer que Chico Xavier era "imperfeito" e "endividado", ou que suas opiniões de direita são pessoais e não têm efeito doutrinário. É mesmo? Leiam o que Chico Xavier falava sobre o trabalho humano, se preparando para não cair da cadeira, porque ele defendia valores tipicamente bolsonaristas como a servidão, o trabalho exaustivo e a perda salarial, vista como "reeducação para o desapego à matéria".

Vale lembrar que Chico Xavier não reviu seus valores. Ele nunca lutou pela redemocratização, por achar que esta seria um "imperativo de Deus". Ele manifestou horror a Lula em 1989 e 2002, apoiando, no primeiro caso, Fernando Collor, e, mesmo "apolítico", manifestando simpatia pelo PSDB e recebendo, com o entusiasmo que lhe restou, Aécio Neves no fim da vida.

Chega de ficar renegando o conservadorismo de Chico Xavier. E, além disso, Ana Cláudia deve reconhecer que o conservadorismo e a ignorância dos "meios espíritas" não vêm de correntes específicas, mas do conjunto do "espiritismo" que ela mesma acredita e está representado nas ideias de Chico Xavier, este um precursor dos "médiuns de direita", ainda mais radical que seus sucessores, a ponto de ser premiado por uma entidade militar, por ter colaborado em favor da ditadura.


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