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A recepção hierarquizada de Chico Xavier e a cumplicidade de Lula com o povo


Muita gente acha que Francisco Cândido Xavier era progressista e, em parte, igualzinho a Lula. Mas um pouco de semiologia é bom para a saúde, sobretudo de semiólogos esforçados como Wilson Roberto Vieira Ferreira, do Cinegnose que, todavia, se congelam diante do "canto-de-sereia" do "médium" de Pedro Leopoldo e Uberaba, fonte de uma infinidade de "bombas semióticas" que, no entanto, nunca são devidamente contestadas.

Pois vejamos as duas imagens. Na imagem acima, o "médium" Chico Xavier recebe uma multidão de senhoras pobres que vieram cumprimentá-lo. As senhoras aparecem com posição triste, melancólica e submissa. Não há alegria em seus rostos. A relação delas com Chico Xavier sugere formalismo rigoroso e uma hierarquização social explícita, o que indica desigualdade de posições, entre o religioso, tido como "superior", e os pobres "inferiorizados".

Depois, temos a foto do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, testa a testa com uma senhora idosa. Os dois sorriem, cúmplices, de igual para igual, com uma alegria espontânea. A idosa está feliz, e ela tem os mesmos aspectos humildes das senhoras da outra foto, e, ainda por cima, parece ter mais idade que as demais.

Vamos parar para pensar. As duas fotos sugerem a mesma cumplicidade? Para os desavisados, sim, mas a resposta a essa questão é NÃO. Isso porque, no caso de Chico Xavier, a imagem requer um "respeito" nos velhos padrões hierárquicos, em que o ídolo religioso se coloca num pedestal acima da população.

Hoje virou moda os "isentões espíritas" apelarem, desesperados, para que Chico Xavier "seja admirado, não como um semi-deus, mas como criatura imperfeita e humilde, sem atribuir a ele poderes especiais". É uma declaração hipócrita, que merece análise posterior, e que nada diz em relação ao sentido semiótico da imagem do "beija-mão".

Afinal, nesta foto Chico Xavier ainda aparece "divinizado", e sua simbólica "superioridade" está evidente nesse contraste semântico entre ele e as senhoras que se enfileiram para cumprimentá-lo. Na outra foto, esse contraste não existe pois Lula e a senhora nos fazem lembrar da identificação do ex-presidente com o povo, ele mesmo um antigo retirante nordestino que virou operário no ABC paulista.



"CARIDADE" DE CHICO XAVIER LEMBRA LUCIANO HUCK

E antes que os patrulheiros chiquistas venham a dizer que o "médium" e o ex-presidente "se igualam na dedicação aos pobres", é bom explicar que essa alegação não é verdadeira, pois a "caridade" de Chico Xavier segue um viés bastante conservador.

É só observar, por exemplo, que a "caridade" de Chico Xavier se baseia em ações paliativas. E, na verdade, a "caridade" não vinha dele: o "médium" pedia aos outros a colaborarem - mesmo assim, dentro dos limites paliativos do Assistencialismo, filantropia de fracos e baixos resultados sociais - e se promovia às custas das ações alheias.

A "caridade" de Chico Xavier não combate frontalmente a pobreza, e não por falta de condições, mas falta de interesse, mesmo. A ideia não é trazer a emancipação plena dos pobres - até porque isso irrita as elites que tanto apoiam o "espiritismo" brasileiro - , até porque Chico sempre dizia para os sofredores aguentarem o sofrimento, sem reclamar da vida. Uma pauta cujo conservadorismo só um idiota pode renegar.

Portanto, é uma "caridade" mais espetacular do que eficiente. Ela se volta mais para a adoração do suposto benfeitor do que do atendimento pra valer dos problemas sociais. Esses problemas são parcialmente resolvidos, mais para evitar efeitos extremos do que para resolver realmente a situação, e os pobres continuam em sua inferioridade social, apenas dentro de condições "suportáveis".

A "caridade" de Chico Xavier sempre foi a mesma conversa para boi dormir que hoje vemos em Luciano Huck, sem tirar nem pôr. E para os chiquistas que dizem "não suportar" Huck, é bom lembrar que ele é um admirador declarado de Chico Xavier. "Todos são", diria qualquer um, mas essa falácia toda desconhece que Huck tem uma identificação muito especial com o "médium", a ponto de ter visto um filme biográfico e ter gravado seu Caldeirão do Huck em Pedro Leopoldo.

Afinal, raramente alguém gravaria um programa de TV em Pedro Leopoldo, uma cidade sem atrativos especiais e que só é conhecida por nela ter nascido Chico Xavier. Se Huck tomou essa iniciativa, é porque a admiração dele pelo "médium" é algo além do usual, porque o apresentador do Caldeirão do Huck está bastante ciente desse referencial que o impulsionou para fazer seus quadros "assistenciais".

É, portanto, uma associação entre Luciano Huck e Chico Xavier. Oportunismo? Talvez, mas menos pela associação a Chico Xavier, que também foi um oportunista em seu tempo. É mais para criar um "novo filantropo", sob o respaldo da mesma Rede Globo que promoveu Chico Xavier como arremedo de "filantropo" e "pacifista", num discurso que parece, hoje, uma admirável unanimidade, mas que nunca passou de uma falácia montada sob um discurso importado do inglês Malcolm Muggeridge.

Chico e Luciano são, portanto, dois significantes de um mesmo fenômeno: a "caridade" fajuta do Assistencialismo, feita mais para promover adoração (aos supostos benfeitores) do que o progresso social dos mais necessitados. Estes ficam com as migalhas, com os restos ou com alguns donativos modestos, enquanto os louros e os aplausos, por sinal bastante barulhentos, vão para os "benfeitores".

Não imaginamos essa sutileza do Assistencialismo, mas somos tomados por essa mística que vê o sentido da "caridade" não pelos resultados, mas pela iniciativa. É como se déssemos um troféu para um corredor na linha de largada, sem garantir que ele vá vencer uma corrida.

Nunca vemos o valor da caridade na linha de chegada, na contabilização dos resultados. Os pobres passam a ser só "um detalhe". Se o "médium" Chico Xavier não realizou os prometidos progressos sociais, ele mesmo assim é valorizado porque sua mítica já toma o "fazer" como se já fosse o "feito".

Mas sabemos que a "caridade" de Chico Xavier nunca funcionou. Ela nem veio dele, como nem veio de Luciano Huck, pois eles são apenas "anunciadores da caridade alheia", e recebem os aplausos e os festejos por conta da ação de outrem.

Além do mais, essa "caridade", tão associada ao "médium" e que ilude até parte de seus opositores, nunca realizou progressos sociais plenos no Brasil. Esse papo de que "Chico Xavier fez caridade" ressoa há mais de 40 anos como "bomba semiótica" no Brasil, sem que algum efeito real fosse produzido. Se houvesse algum efeito nesse sentido, o nosso país teria atingido altos graus de desenvolvimento social.

Só que, da parte de Chico Xavier, isso nunca aconteceu de fato. E, quando tivemos no nosso país resultados sociais mais expressivos, nas mãos do ex-presidente Lula, a mesma sociedade que tanto paparica que "Chico Xavier transformou vidas" se enraiveceu contra o petista. Desconta-se os lunáticos esquerdistas, que acendem velas a esses dois ícones antagônicos superficialmente associados a duas causas que só se igualam na fachada.

Afinal, os ingênuos e crédulos esquerdistas que elegem direitistas como "heróis" por causa do apelo de falsa humildade - vide o "funk", que poucos admitem ser um subproduto do mesmo Rio de Janeiro bolsonarista - e se deixam levar por devaneios extremamente emocionais.

Assim, tomados de emoção, as esquerdas que confundem alhos com bugalhos, achando que qualquer um que aparece ao lado de um pobre sorrindo é "de esquerda", são em parte responsáveis pelo golpe político que deixaram acontecer, desconhecendo que nem sempre pretensos aliados são verdadeiros solidários. Há momentos em que as raposas parecem solidárias às galinhas, até o momento da próxima refeição.

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