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Defendendo o sofrimento em silêncio, Chico Xavier NUNCA seria progressista



O povo brasileiro tem que mudar radicalmente seu modo de pensar, abrir mão de seus totens e paradigmas que até faziam algum sentido há 45 anos, mas hoje não fazem mais. E é terrível que, justamente, as pessoas mais velhas são as que mais resistem a essa necessidade, e os mais jovens, desinformados, também acham isso desagradável e até inútil.

Não vivemos mais no Brasil de 1974, quando faziam sentido desigualdades sociais, soluções violentas, represálias raivosas, restrições cruéis e torturas de toda ordem. Hoje temos uma marcha-a-ré forçada do "Titanic" social brasileiro, quando a sociedade, sem disposição de querer algo melhor, decidiu eleger o candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro, para governar o país, sonhando em ver o Brasil de volta aos parâmetros sociais da Era Geisel.

O pior é que até pessoas idosas se perdem em fantasias insólitas. Temos que ensinar para adultos que feminicidas também morrem, num país onde grandes personalidades do nível de Renato Russo, Santos Dumont ou Mário de Andrade morreram precocemente, mas dois ricos machistas doentes, Doca Street e Pimenta Neves, não podem sequer ser noticiados de que estão no fim da vida (isso com 84 e 81 anos, respectivamente), apesar do que ambos fizeram de ruim para suas saúdes.

Isso é grave, porque, a essas alturas, já tem criança deixando de acreditar em Papai Noel, aceitando que meninos de suas idades também morrem e que coelhos não são ovíparos nem geram carrinhos de brinquedo brotando de seus ovinhos de chocolate.

Ver que os mais velhos têm neuroses que só imaginávamos em crianças pequenas é dose. E ainda tem gente idosa se revoltando quando Francisco Cândido Xavier é revelado como um apoiador da ditadura militar e como uma das figuras mais reacionárias do Brasil, praticamente tendo sido, em seu tempo, uma espécie de Olavo de Carvalho mais zen.

Sim, Chico Xavier foi um reaça dos mais convictos, dos mais firmes e intransigentes de toda a História do Brasil. Isso é fato. Vem das palavras dele, apesar de todo o imaginário construído em prol dele criar uma imagem adocicada na qual o "médium", aliás, o anti-médium, era portador de virtudes avançadas de qualquer natureza, que uns, delirantemente, o viam como um sobrinho-neto de Karl Marx ou como um primo perdido do ateu Stephen Hawking.

Não, meus caros amigos. Não é assim. Não podemos idealizar pessoa alguma, mesmo um "médium" que se tornou a fada-madrinha de gente grande. Não podemos conceber uma pessoa ao sabor de nossas fantasias, mesmo quando o discurso de relativismo permite as mais desvairadas desculpas a respeito de posturas desagradáveis que muitos de nós têm muita dificuldade em admitir.

Temos pessoas muito populares mas também muito reacionárias. Recentemente, a atriz Regina Duarte e o apresentador Sílvio Santos revelaram serem reacionários e apoiadores de Jair Bolsonaro. E ninguém saiu fazendo mimimi, como se faz em relação a Chico Xavier, cujo reacionarismo foi revelado aos quatro ventos no programa Pinga Fogo, da TV Tupi.

E quem acha que Chico Xavier mudou com o tempo, se enganou. Ele sempre foi o mesmo pregador ultraconservador de sempre. Era retrógrado em toda sua trajetória, de 1932 a 2002. Vem de suas raízes sociais, de sua formação ideológica, e ele mesmo gostava de defender ideias bastante conservadoras, vindas do Catolicismo medieval de que ele era devoto, através da Teologia do Sofrimento.

SOFRER EM SILÊNCIO

Em várias de suas obras, algumas creditadas, de maneira oportunista, a nomes de autores mortos para tornar as opiniões "menos pessoais", Chico Xavier defendia que as pessoas que encarassem adversidades pesadas aguentassem o sofrimento em silêncio, sem reclamar da vida, sob o pretexto de que, em dado momento, Deus irá lhes conceder as "bênçãos prometidas".

Pessoas que reclamavam da vida, mesmo se tornando "capacho do destino", eram "criminalizadas" pela "boa maledicência" de Chico Xavier. Isso revela um terrível aspecto dos "espíritas", a partir do exemplo do "médium": imaginar que, assim como as pessoas se suicidam por passatempo, as pessoas reclamam da vida por esporte.

Não. Ninguém se mata por diversão, ou para testar se a "arma" do suicídio - um veneno, uma faca ou uma arma de fogo - funciona, da mesma forma que ninguém reclama porque acha maravilhoso ficar falando mal de tudo. Se alguém se mata, é porque as adversidades se tornaram excessivas e de difícil superação, da mesma forma que as mesmas também motivam alguém a ficar só reclamando, abatido de tanta desilusão.

O conservadorismo dos "espíritas" brasileiros, que não aproveitaram sequer a sombra do Espiritismo francês, preferindo repaginar o velho Catolicismo medieval e jesuíta, que prevaleceu no período colonial brasileiro, inserindo nele concessões esotéricas (a tal "ciência espírita"), não percebe que, quando pessoas se tornam suicidas e queixosas, elas têm um fundo de infortúnios excessivos que chegam como um remédio tomado acima da dose necessária, provocando efeitos colaterais.

ESQUERDAS NÃO PODEM SEQUER SONHAR EM GOSTAR DE CHICO XAVIER

As esquerdas precisam abrir mão urgentemente de Chico Xavier, até porque ele é considerado um "pé frio" para o trabalho das forças progressistas. Se o maior "ensinamento" do "médium" é aguentar o sofrimento em silêncio, é aí que as esquerdas deveriam descartá-lo por completo, não movendo uma vírgula sequer de relativismo.

Isso porque o que as esquerdas mais fazem na vida é reclamar dos abusos do poder neoliberal, sejam os políticos, a mídia associada, o empresariado, os valores sociais vinculados. Reclama-se do artigo reacionário de Veja, da coluna da Folha de São Paulo, da pauta do Jornal Nacional, do plantão da Globo News.

Reclama-se, da mesma forma, da privatização de uma estatal, do comentário machista ou racista de um humorista medíocre de TV, da postagem nas redes sociais de um juiz esbanjando preconceitos sociais graves, da atuação irregular da Operação Lava Jato que, muitas vezes, agiu ao arrepio dos mais preciosos e urgentes princípios do Direito, nacional e internacional.

Como é que as esquerdas, apesar disso, de repente amolecem o coração, com base na imagem adocicada e pasteurizada que conheceram de Chico Xavier nos programas da Rede Globo, seguindo o roteiro fantasioso de Malcolm Muggeridge para Madre Teresa de Calcutá, que mais parece enredo de contos de fadas.

E aí evocam textos duvidosos sobre "paz" trazidos por Chico Xavier, sem observar se os autores espirituais eram fake - o "Humberto de Campos" supostamente mediúnico é ruim de doer - ou se a "paz" que se fala não é a tal "paz sem voz" daquele sucesso famoso do grupo O Rappa.

As esquerdas, agindo assim, acabam caindo no ridículo, como foi no caso de um blogueiro esquerdista que chamou o "médium" de "comunista". Deveria ele prestar atenção ao anticomunismo com apetite bolsonarista que Chico Xavier expressou no programa Pinga Fogo, com suas palavras, diante de um público imenso, e com total consciência daquilo que estava falando e de como sua postura iria repercutir na posteridade.

Nunca um "médium" que dizia para as pessoas aceitarem o sofrimento em silêncio, não demonstrar sofrimento para outrem e, até para orar, tem que ser em silêncio, pode ser considerado "progressista". Deveriam desistir disso, porque há ídolos bastante populares que são confirmadamente reacionários, e a religião é um dos maiores redutos de reacionarismo devido ao seu moralismo rigoroso.

Não há como idealizar, relativizar ou ficar colocando a fantasia, por ser mais agradável que a realidade, acima de qualquer lógica realista. Vamos deixar de infantilismos. Chico Xavier, de maneira indiscutível, sempre foi um sujeito ultraconservador, e espera-se que as correntes chiquistas que tentem mostrar o contrário através de interpretações movidas pela fantasia e pela idealização possam desaparecer com o tempo.

Até porque, hoje, quem foi eleito presidente da República foi um sujeito reacionário de trajetória arrivista semelhante a de Chico Xavier, o ex-capitão Jair Bolsonaro, fã do coronel Brilhante Ustra - um dos militares envolvidos no que o "médium" definiu como "reino de amor" em construção pela ditadura militar - , cujo lema é bastante idêntico ao do beato de Pedro Leopoldo e Uberaba.

Só para não esquecer:

- BRASIL, CORAÇÃO DO MUNDO, PÁTRIA DO EVANGELHO (CHICO XAVIER);
- BRASIL, ACIMA DE TUDO, DEUS, ACIMA DE TODOS (JAIR BOLSONARO).

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