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A exemplo de Jair Bolsonaro, Chico Xavier também é "trampolim" para famosos esquecidos

 

MÁRIO FRIAS E FERNANDA SOUZA - Ele, secretário de pasta do governo Jair Bolsonaro, ela acolhendo "profecias" de Chico Xavier.


Em muitos aspectos, Francisco Cândido Xavier e Jair Messias Bolsonaro se afinam. Seja na trajetória arrivista, seja no conservadorismo de ideias, seja na forma como são glorificados, seja na sua legião de "isentões" que tentam desmentir o fanatismo, seja no lema "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho" e "Brasil, Acima de Tudo, Deus, Acima de Todos" que nem os semiólogos mais esforçados perceberam a analogia.


Também ficamos perguntando se os "neopentecostais", os "neopenteques", não estariam apenas arrumando o picadeiro como bobos da corte do obscurantismo religioso, preparando o espetáculo ainda mais medieval que é o "espiritismo" brasileiro, que, de maneira bastante explícita nos livros de Chico Xavier, envolvem pautas moralistas e sociais que parecem dignas das forças golpistas de 2016 que derrubaram Dilma Rousseff, mantiveram Michel Temer, elegeram Jair Bolsonaro e continuam apoiando o ex-capitão.


"Mas Chico Xavier nunca pregou o ódio e a violência e defendia a solidariedade de todos", se apressam a dizer os chiquistas. Mesmo? E as difamações feitas contra o sobrinho Amauri Xavier, no final dos anos 1950, com fúria digna de qualquer bolsomínion de hoje em dia? E a defesa de Chico Xavier à ditadura militar e ao AI-5 (que o "bom médium" dizia ser necessário para "combater o caos", eufemismo dado por ele para reprimir o esquerdismo) e a homenagem recebida pela Escola Superior de Guerra, que naquela época nunca faria isso para quem não colaborasse com o regime ditatorial?


Para um país cujas esquerdas têm mais facilidade de se desiludir com Fernando Gabeira, um antigo símbolo das esquerdas intelectuais, agora considerado um direitista antiquado, é digno de comédia surreal a dificuldade extrema desses mesmos esquerdistas em se decepcionar com Chico Xavier, que era direitista mais radical que Carlos Vereza, mas esse direitismo é engolido em silêncio e a contragosto, bem naquele estilo birrento de quem diz "Vocês que pensem o que quiserem".


Enquanto os brasileiros se assustam quando a Verdade se volta contra Chico Xavier, mesmo que seja com base no raciocínio lógico recomendado pela Codificação, vemos que o "bondoso médium" cada vez mais se afina, em muitos e muitos pontos, com o presidente Jair Bolsonaro. Não fosse assim, Bolsonaro teria sido derrubado faz tempo e os bolsomínions teriam desaparecido, sob as "ordens iluminadas" do "médium que mais amava o Brasil".


Só que Bolsonaro segue firme e forte, derrubando obstáculos como o repúdio internacional, denúncias de corrupção, acusações de genocídio (através de sua indiferença em relação à Covid-19) e de associação com o crime organizado (milicianos), e mesmo a própria Covid-19. Nada derrubou Bolsonaro, até parece que ele é um protegido de Chico Xavier e que a "Pátria do Evangelho" será mesmo iniciada pelo ex-capitão.


Um aspecto sobre Jair Bolsonaro é que ele tornou-se o político preferido de famosos esquecidos, vários deles fracassados. Atores hasbeen, músicos decadentes, esportistas aposentados sem ter o que fazer na vida, subcelebridades em geral, famosos problemáticos que viraram evangélicos etc. Toda a constelação de estrelas cadentes que agora habitam a órbita do "capitão".


E o mesmo parece reabilitar Chico Xavier, que também está sendo "ressuscitado" pelas mesmas bancas de jornais que "educaram" os brasileiros a pedir "Fora Dilma" e a eleger Bolsonaro. Os jornaleiros tomam muito cuidado para não colocar revistas sobre Adolf Hitler e Chico Xavier lado a lado, mas eles são dois lados de uma mesma moeda ultraconservadora, defendem teocracias políticas.


Alguém imagina que a "Pátria do Evangelho" seria um país de contos de fadas ou um alegre multirão populacional, com gente construindo casas assobiando lindas cantigas? Não é por ser "espírita" que a fusão Estado e Religião será maravilhosa, até porque o "espiritismo" brasileiro acredita na tese do "reajuste espiritual" como pretexto para qualquer holocausto. O Império Bizantino também prometeu "paz e fraternidade" com o Catolicismo medieval, a "religião do Cristo", e deu no que deu.


Sobre os sub-famosos, se Bolsonaro tem o apoio de gente como Tiririca, Sérgio Mallandro, Marcelinho Carioca, Ana Paula Henkel, Mário Frias (hoje secretário de Cultura) etc, vemos que Chico Xavier anda tendo como propagandistas atores e atrizes que caíram no esquecimento. Fernanda Souza requentando a fracassada "profecia da data-limite", oferecendo live para Juliano Pozati e a ex-casseta Maria Paula, no seu ostracismo, inventando que o "médium", só por elogiá-la quando bebê, "previu que ela faria grande sucesso no Brasil". Até fez, mas dizer isso numa ocasião de ostracismo é vergonhoso.


E aí vemos como o "espiritismo" brasileiro não é muito diferente dos "neopenteques", como seitas ultraconservadoras que tentam prevalecer no Brasil. Religiões progressistas mesmo são a maioria do Catolicismo e da Igreja Batista, das religiões anglicana e prebisteriana e de religiões populares como o candomblé e o islamismo, entre outras. 


Mas o "espiritismo" que nós temos é ultraconservador, é uma versão repaginada do Catolicismo medieval, e as únicas exceções se limitam a Dora Incontri e Sérgio Aleixo, porque mesmo os autoproclamados "esquerdistas" Franklin Félix, Ana Cláudia Laurindo e Carla Pavão seguem o igrejismo conservador, que entra em conflito com suas posturas supostamente progressistas. 


No todo, o "espiritismo" brasileiro é de direita, mesmo as correntes "nem de esquerda nem de direita" que atribuem esta postura à "verdadeira posição" de Chico Xavier. Só que esse discurso não cola, porque, para essas pessoas, o "normal" já é ser de direita, pois seus valores é que são vistos como "neutros", "imparciais" e "universais". E, assim como Jair Bolsonaro, Chico Xavier também se cercou e se cerca, mesmo postumamente, de subcelebridades e outras personalidades de baixa expressividade.

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