sábado, 9 de setembro de 2017

Mídia brasileira continua depreciando a mulher solteira


A mídia do entretenimento brasileira é famosa por glamourizar preconceitos sociais. Pobres, negros, mulheres, crianças, quem não representar o paradigma do macho, mais velho, branco, rico e poderoso acaba sendo manipulado pela mídia de forma que, em certos casos, abordagens pejorativas sejam promovidas como se fossem "qualidades positivas".

A mulher solteira é também vítima dessa manipulação midiática, comandada pela Rede Globo mas exercida também por suas concorrentes. E mais uma vez a apelação atinge as solteiras através da música "Tô Solteira de Novo", "continuação" do antigo sucesso da funkeira Valesca Popozuda, intitulado "Agora Eu Tô Solteira".

Alguém em sã consciência vai parar para pensar e constatar que uma solteira de verdade não se preocuparia em fazer "músicas de solteira". Isso não existe. No Primeiro Mundo, a mulher que se considera "solteira e feliz" não fica alardeando isso, ela fica falando de outros assuntos, sem ficar a todo momento falando em sensualidade ou sexo.

Valesca é das últimas "musas populares" que, após o fim do portal Ego - reduto do sensualismo obsessivo das "musas populares", que não raro beirava ao mau gosto gratuito - , vende uma imagem caricatural e forçada da "mulher solteira", se valendo sempre dos mesmos bordões que causam muita suspeita por serem sempre o mesmo texto.

São esses bordões: "Estou solteiríssima", "os homens fogem de medo de mim", "estou à procura de um príncipe encantado" e outras frases parecidas. Desde o sucesso do É O Tchan, ouvimos ou lemos diferentes mulheres dizendo a mesmíssima coisa, como se fosse um texto decorado.

Essas "musas" sempre estão a serviço de uma visão caricatural da mulher solteira no Brasil, voltada a uma sensualidade obsessiva, uma curtição compulsiva, um hedonismo extremamente forçado. É como se, sutilmente, a mídia trabalhasse a mulher solteira como uma desocupada que só fica preocupada em frequentar noitadas, ir à praia ou exibir suas "generosas formas corporais", geralmente com glúteos e bustos siliconados, piercing no umbigo e alguma tatuagem.

Valesca tenta, agora, promover uma imagem de "líder feminista" e está fazendo tratamento de redução de glúteos. Isso não adianta muito, porque ela sempre trabalhou uma "sensualidade" que está de acordo com os padrões machistas de mulher-objeto.

HIGIENISMO

Essa imagem extremamente caricata da mulher solteira tem dois propósitos, de caráter higienista e até mesmo eugenista. Um é desestimular, nas mulheres pobres, a busca de uma vida amorosa estável, evitando a união de homens e mulheres afins nas classes populares, impedindo a solidariedade conjugal e familiar que possa refletir na união comunitária e na ampliação dos movimentos populares.

Desta forma, crianças nascem sem a ideia da união conjugal do pai e da mãe. A figura paterna, associada a ações de enfrentamento e coragem - não que a figura da mãe não se associe também a ações deste nível, mas os contextos são outros - , é praticamente ausente ou, na melhor das hipóteses, distante e eventual, o que faz com que os meninos tenham dificuldade de aprender o que um homem adulto faz para vencer na vida.

Em comunidades ainda dominadas por valores retrógrados, como são as favelas e os subúrbios, herança da opressão coronelista de muitas pessoas vindas das zonas rurais para as cidades, novidades como a causa LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) são indigestas, ainda mais quando as religiões evangélicas, hostis a essa novidade, dominam o imaginário religioso do povo pobre.

A imagem "descontraída" e "livre" da "solteira que não tem medo de se divertir" e, a pretexto de expressar a "liberdade do corpo", exibe seu físico exagerado por uma demanda de machos, que lotam plateias, compram revistas e dão mais audiência à TV e à Internet por conta da "boazuda do momento", é feita para impedir que moças jovens pobres, que veem nas "musas" um ideal de ascensão social, se preocupem em se casarem e formarem famílias.

Isso faz com que a higienização social ocorra nos dois lados. Um, evitando que nasçam mais filhos nas classes populares, sobretudo negros, índios e mestiços. Outro é que, se caso as solteiras tiverem uma vida sexual descontrolada, a alta natividade de crianças é "compensada" pelos abusos da violência policial ou marginal, que dizimam tantos pobres inocentes, sem poupar crianças.

A ideia é estabelecer, a médio ou longo prazo, um "enxugamento" da população pobre, negra, índia ou mestiça, diminuindo a natividade. Através de uma "cultura" popularesca, difundida pelas redes de televisão, mostra mulheres de origem mestiça adotando uma postura caricatural da mulher hipersexualizada, e ídolos musicais com canções que falam de conflitos amorosos que soam como hipnoses para um público que também ouve tais músicas nas rádios FM regionais.

Por outro lado, nas classes mais abastadas, o processo é o inverso. Estimula-se o casamento à mulher de considerável instrução e que, embora dotada de beleza atrativa e formosura corporal, não se preocupa em vender a imagem de sexy o tempo inteiro. Ela pode até posar em fotos sensuais de vez em quando ou usar roupas sensuais, ainda que sem exageros, mas de vez em quando ela pode abrir mão da sensualidade e se ocupar em outras atividades.

Ainda que essa mulher, ao se casar, geralmente com um homem mais velho e que ocupa uma posição de comando ou liderança, leve uma vida de "solteira" - pelo menos comparecendo à maior parte dos eventos sem que o marido apareça ou tenha, ao menos, sua presença registrada em fotos - , o vínculo dela com seu cônjuge é um fator que o sistema de valores dominante no Brasil se empenha em manter estável e permanente.

Esta mulher se sente desencorajada a ficar solteira, ao ver que o paradigma da solteira vigente no Brasil é o da ociosa "sensual", a desocupada que só frequenta noitadas, usa tatuagem, exibe demais o corpo e não demonstra grandes qualidades intelectuais. No gosto musical, a "solteira" está associada às piores músicas que ouve através de rádios "populares" controladas por oligarquias empresariais locais.

Isso desestimula a mulher de perfil mais diferenciado de viver uma vida de solteira. A imagem de vulgaridade a constrange, fazendo com que a mulher diferenciada tenha que se apressar na vida amorosa, acolhendo o primeiro homem "mais influente" que aparece em seu caminho.

Essa tendência revela o quanto o feminismo, no Brasil, ainda tem que negociar com o machismo para ter algum espaço. Contraditoriamente, o machismo "aconselha" as mulheres emancipadas a se casarem, se vinculando à imagem masculina do "provedor", enquanto libera as mulheres que fazem o papel de "objetos sexuais" para ficarem sozinhas até não se sabe quando.

É como se o machismo tivesse que controlar os impulsos da mulher de se livrar do jugo machista. O machismo age para controlar a emancipação feminina, impondo a figura do marido poderoso, como se a mulher emancipada tivesse que ser domada pela figura machista do "provedor".

Por outro lado, as mulheres que fazem o papel de "brinquedos sexuais", mesmo quando se autoproclamam, tendenciosamente, "feministas" - algo feito, sobretudo, para agradar acadêmicos e ativistas culturais - , obedecem "por contra própria" as diretrizes machistas, sendo dispensadas da figura "reguladora" do marido.

No sentido da geração de filhos, nas classes abastadas se estimula a figura da família conjugal estável, do casamento que dura anos, mesmo que seja sem amor nem afinidades pessoais. A figura da mulher atraente por sua inteligência, charmosa e discreta, é associada ao marido poderoso (geralmente um empresário ou profissional liberal, tipo médico, economista e advogado), às vezes bem mais velho e mais sisudo, é feita também para permitir a formação social estável dos filhos.

Claro que também há problemas. Nas classes pobres, os filhos sentem uma forte tristeza ao verem outros casais de pais e mães com seus filhos, e, comparando com estes, se sentem "órfãos de pais vivos", a só ter o convívio paternal "de vez em quando" e, geralmente, com a companhia de outra mulher, não havendo o prazer das crianças pobres em ver seus pais biológicos unidos.

Já nas classes mais abastadas, os problemas são outros. Casais sem afinidade, mas forçadamente estáveis, transtornam os filhos de outra maneira. Embora eles estejam em situação confortável de viverem sob o casamento estável de seus genitores, eles percebem a falta de cumplicidade, não raro vendo a "solidão a dois" do casal, sobretudo quando a mãe se reúne com as amigas para falar mal do marido e este, com seus amigos, reclamar também da esposa.

Ser mãe solteira é mais complicado nas classes pobres do que nas classes abastadas, por razões óbvias. Mas há um elemento extra: a surreal situação de que casais afins, nas classes pobres, se dissolvem com muito mais facilidade que os casais abastados sem afinidade, que, quando se separam, enfrentam divórcios caríssimos e deixem perplexos amigos, sócios e colegas de trabalho.

Numa época em que os retrocessos sociais são retomados com toda a força, uma "saudável" abordagem da mulher solteira pela mídia do entretenimento esconde um processo muito perverso de higienização social, pois há a sutil preocupação de evitar que populações negras, índias e mestiças gerem mais descendentes, enquanto a população branca é estimulada a gerar filhos em relações estáveis e com formação social menos problemática.

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