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Terceirização e reformas trarão prejuízo aos brasileiros


Quando houve, no ano passado, a queda de Dilma Rousseff e a ascensão de seu vice, Michel Temer, que rompeu com a titular e abraçou um projeto político ultraconservador, uma boa parcela dos brasileiros se iludiu com o aparato de status e prestígio social do presidente.

A impressão que se tinha é que um presidente de perfil moderado, dotado de uma equipe dotada de competência técnica e prestígio político havia chegado ao poder. Gente tida como responsável, defensora da Família, associada a paradigmas de moralidade velhos, porém ainda tidos como sagrados. O governo Temer tentava passar essa imagem, associada à disciplina e à precisão cirúrgica da capacidade administrativa.

Tudo isso se revelou uma ilusão. Uma sucessão de escândalos políticos, até hoje se acumulando nesse histórico, tornaram o governo Temer uma grande vergonha nacional, embora os brasileiros mais convencionais vissem tais escândalos como se fossem um programa de comédia da TV.

Só que isso não tem a menor graça. Está em andamento uma série de medidas amargas que trarão sérios prejuízos para a vida dos brasileiros, inclusive para aqueles que acham que podem dormir tranquilos diante desse governo cheio de gravíssimos escândalos de corrupção.

Várias delas já foram aprovadas ou estão perto de serem sancionadas pelo sombrio presidente. O congelamento das verbas públicas para os próximos 20 anos deixará setores como Educação e Saúde mais precarizados, forçando apelar para a iniciativa privada, que nem está aí para o interesse público.

Na fila de aprovação, tem-se a terceirização para atividades-fim. O que deveria ser feito era regulamentar a terceirização apenas para atividades-meio, estabelecendo limites para os abusos dos empregadores, mas, infelizmente, o que se fez foi ampliar a terceirização para atividades-fim e dar sinal verde para os patrões tratarem os empregados feito gato e sapato.

Nesta proposta, os trabalhadores deixarão de ter vínculo empregatício com a empresa em que trabalham. Haverá um contratante que fornecerá a mão-de-obra para a prestadora de serviços. Em muitos casos, isso permitirá a "pejotização", termo baseado na sigla PJ, pessoa jurídica, que transformará cada trabalhador em uma empresa-fantasma para assim dispensar dos patrões o cumprimento de obrigações trabalhistas.

Outra armadilha será a "quarteirização", espécie de terceirização ampliada. Na quarteirização, haverá um contratante, outro intermediário e uma empresa que "acolhe" o trabalhador, como prestadora. O trabalhador terá dificuldades para processar, até porque também perderá direitos trabalhistas e deixará de ser um empregado nos moldes formais. A terceirização nivela o emprego aos padrões do mercado informal.

O trabalhador perderá os encargos e as remunerações adicionais, ainda que como ajuda de custo. Se o trabalhador, por exemplo, ganhava R$ 5.500 mais alguma remuneração extra para transporte, alimentação e outros gastos, essa remuneração extra é eliminada e o referido salário incluirá essas despesas.

Somada à reforma trabalhista e à reforma da Previdência Social, o trabalhador terceirizado ainda viverá novos dramas. Poderá trabalhar numa jornada diária maior, sem receber mais por isso, talvez até recebendo menos. Sobrecarregado, poderá sofrer acidente de trabalho e morrer. Sendo seriamente ferido, será demitido e/ou não terá assistência médica, tendo que pagar pelo sistema privado, porque a essas alturas o SUS, Sistema Único de Saúde, será sucateado com as verbas no freezer.

No caso da aposentadoria, existe a proposta de idade para 65 anos, tanto para homem e para mulher, e o tempo de 49 anos de contribuição. Boa parte das cidades brasileiras tem expectativa de vida nesta mesma idade. Na hora de se aposentar, o trabalhador já foi sepultado ou cremado. No caso do tempo de contribuição, então, o trabalhador pode morrer e ainda estar no seu processo de contribuição à Previdência Social.

Isso é terrível. Já se fala em genocídio silencioso, porque tudo o que o governo Temer quer fazer, sob a desculpa de "estimular o crescimento", é degradar o trabalho assalariado de forma a desgastar progressivamente os trabalhadores e sufocar, sutilmente, qualquer esforço de sobrevivência.

E o "espiritismo", com isso? Os palestrantes "espíritas" só ficam apelando para "aceitar o sofrimento", com uma série de falácias que vão desde as rimas simplórias de um tal de "poeta alegre" aos apelos um tanto hipócritas sobre o "ser e o ter". Isso porque os palestrantes "espíritas" não sofrem aquilo que aconselham aos desafortunados da sorte.

Para eles, tanto faz pedir ao trabalhador terceirizado apenas "trabalhar e ter fé". O bombardeio de textos "espíritas" dizendo para abrir mão de necessidades, revisar projetos de vida partindo do zero, abandonar desejos e anseios, é enorme e preocupante, e tudo isso parece "lindo", mas vai um palestrante "espírita" viver aquilo que ele aconselha ao outro. O palestrante não iria gostar.

O "espiritismo" é um reflexo dessa sociedade conservadora, hipócrita. É difundido por supostos médiuns dotados do culto de personalidade, vaidosos em serem os centros do espetáculo de entretenimento da fé religiosa, com suas palestras verborrágicas e suas exibições de pretensa mediunidade, que mais parecem ilusionismo ou produção de mensagens apócrifas.

E tudo isso é defendido como se fosse autêntico. Afinal, as desculpas se apoiam no deslumbramento religioso, que protege até o mais charlatão dos anti-médiuns. Simulacro de humildade, arremedo de filantropia, que mais ajuda o "benfeitor" do que o necessitado, sempre protegem esses astros do "espiritismo", que nunca promove o verdadeiro Conhecimento e ainda recomenda outrem a aceitar e até amar o sofrimento. O "espiritismo" já terceiriza a vida humana há muito tempo.

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