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E se Chico Xavier fosse um astro do rock?


Está certo que Francisco Cândido Xavier deixou de ser médium. O mineiro eliminou o caráter intermediário da palavra "médium" (surgida do latim que, bem traduzido, quer dizer "meio") para se tornar o centro das atenções.

Até para procurar mensagens de outrem do além, as famílias acabam aderindo à grife de Chico Xavier. Como ele está morto desde 2002, recorrem então àqueles que de uma forma ou de outra estavam ligados a ele.

Chico Xavier virou de tal forma o centro das atenções que tornou-se o astro pop do "movimento espírita". Como no show business e sua habitual mitomania, o "espiritismo" brasileiro inventou que Chico Xavier era discípulo de Allan Kardec, um autor que o mineiro de Pedro Leopoldo desprezava.

Chico tinha preferência pelo Catolicismo, adorar imagens de santos, rezar terços e falar com fantasma de padre jesuíta. Só que setores ultra-ortodoxos da Igreja Católica não gostaram dele e a Federação "Espírita" Brasileira o adotou para ser o astro maior do "espiritismo" catolicizado.

E aí Chico Xavier virou o popstar do "espiritismo", sendo impulsionado a receber pessoas, atender muitas famílias e ter seu nome associado a uma bibliografia produzida em ritmos industriais e que supostamente eram vinculadas à sua suposta mediunidade, que existiu mas era muito mais precária do que oficialmente se acredita.

Afinal, ele apenas falava com fantasma de padre - o jesuíta Manuel da Nóbrega, parceiro e BFF de José de Anchieta, como registra nossa História, e que depois mudou seu nome para Emmanuel - e tinha alguma atividade paranormal, mas não tanto para ficar produzindo a toda hora mensagens e livros do além.

Sabe-se hoje que muito que ele produziu e atribuiu à conta dos espíritos do além é bastante duvidoso. Pesquisas sérias apontaram que Chico Xavier praticou pastiches literários, escrevia cartas apócrifas com apenas a caligrafia sua, o mesmo padrão de mensagens e o mesmo apelo religioso, e lançava livros e ideias (como a "profecia" da "Data-Limite"), dotadas de muitos erros de abordagem.

E ele sofria pressões dignas não só de astros pop como Michael Jackson (ao qual Chico Xavier pode ser comparado pelo carisma adquirido), como de um astro do rock como Elvis Presley. Aliás, Chico Xavier tinha uma agenda sobrecarregada, impulsionado até pela tirania de seu "mentor" (ou obsessor) Emmanuel, daí ser difícil ele ter a mente inteira para fazer tanta mediunidade.

Evidentemente que Chico Xavier não teve o talento na Doutrina Espírita como Elvis Presley teve no rock. Chico Xavier, se fosse roqueiro, seria mais próximo do roquinho de butique que rola nas rádios 89 FM (SP) e Rádio Cidade (RJ), cujos ouvintes não entendem bulhufas de rock e só querem algo que soasse próximo ao som de um liquidificador, de uma furadeira ou de uma britadeira.

Aliás, o astral é o mesmo, assim como Chico Xavier não entendia de Espiritismo mas passou a ser seu "maior representante", a 89 e a Cidade são feitas por pessoal sem qualquer especialização. A programação diária das duas não passa de um monte de programas de besteirol, cópias do Pânico da Pan e o repertório musical dificilmente sai da linha de Pitty, Imagine Dragons, as lentinhas do Coldplay e dos momentos mais mornos do Red Hot Chili Peppers.

Daí ser até típico que, num modelo de família feliz, vejamos os pais e as mães fazendo a louvação católica enrustida, disfarçada de "doutrina espírita", enquanto os filhos se limitam a botar a língua para fora e fazer o sinal de "demônio" com as mãos, sem ter a menor ideia se o som que ouvem é de uma máquina furando a parede na casa vizinha ou o solo de um guitarrista mediano de rock. Roqueirinhos de comercial de achocolatado em pó.

E todos lembrando o quanto era "maravilhoso" Chico Xavier ficar sobrecarregado, acreditando que ele era capaz de atender multidões, dar entrevistas, ir a homenagens, assistir às missas, "receber" cartas do além, e ainda por cima produzir livros "mediúnicos" com a velocidade da luz, palavra favorita dos "espíritas" brasileiros.

O "espiritismo" brasileiro é um show business, e como astros do pop e do rock - nós, que diferimos Espiritismo e Catolicismo, não iriamos confundir pop e rock - , Chico Xavier sofria as pressões dos grandes astros. Mas como a tarefa era bastante pesada, ele mais parecia um desses roqueiros comerciais que são obrigados a fazer turnês, dar entrevistas, posar para fotos e descansar quase nada.

Faz parte do negócio do espetáculo.

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