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O caso Malafaia X Boechat e o "espiritismo" brasileiro



A natureza nos mostra que as raposas são animais graciosos, diferente da aparência abertamente agressiva dos lobos. Á primeira vista, raposas podem se tornar animais domésticos, pelo jeito aparentemente gracioso, visto assim superficialmente, mas, prestando atenção, raposas são animais selvagens cujo olhar, na verdade, é tão agressivo e matreiro quanto lobos e coiotes.

A alegoria da raposa cuidando do galinheiro é certeira, visto que galinhas servem de alimento para uma raposa. E o que vemos no Espiritismo brasileiro, infelizmente, é o fato de que a raposa chamada Francisco Cândido Xavier, foi chamada para cuidar do galinheiro de Allan Kardec. Constatação dolorosa, para muitos, porém bastante verdadeira. Paciência, há quem aposte na "fraternidade" das raposas com as galinhas, acreditando que estas, ao serem devoradas, se transformam em "pássaros alegres de Deus".

Quando houve o terrível acidente que chocou o Brasil, quando Ricardo Boechat, jornalista que, ainda de manhã, havia apresentado seu habitual programa na Band News FM, faleceu num acidente com o helicóptero que o transportava, os fãs de Silas Malafaia, pastor da Assembleia de Deus, se entusiasmaram com a morte do jornalista, dizendo que era uma "vingança de Deus".

Silas Malafaia, no entanto, desmentiu que tenha torcido pela tragédia. "Não trabalho com um Deus que se vinga porque alguém me xingou. Então tinha que morrer um monte aí, sou caluniado a todo momento", disse.

O religioso acrescentou: "Ele [Deus] pode até discordar do que Ricardo Boechat dizia, mas é inegável que ele era um grande jornalista. Sou 100% contra Lula, mas desconhecer que ele é uma liderança é ignorância da minha parte. Só posso pedir que Deus console sua família, a perda não e uma coisa fácil pra ninguém".

Para quem não sabe, Ricardo Boechat criticou Malafaia, que não gostou de ouvir o jornalista associando o apedrejamento sofrido por uma menina de 11 anos por ela ser praticante do candomblé. Boechat acusou o incidente de intolerância religiosa movida por evangélicos neopentecostais. Malafaia acusou Boechat de falar asneira. Boechat replicou, mandando Malafaia "procurar uma rola".

A declaração de Silas Malafaia sobre a tragédia de Boechat é humanista? Talvez não, mas é respeitosa. Mas mostra uma ponderação que talvez não exista em "símbolos de fraternidade" como Madre Teresa de Calcutá, a "adorada santa" que, diante da estúpida tragédia de uma fábrica da Union Carbide, em Bophal, na Índia, há 35 anos, apenas pediu perdão para os responsáveis pelo descaso que propicou o mortal acidente, que matou milhares de pessoas e intoxicou muito mais outras.

Madre Teresa apenas declarou, a respeito do episódio: "Perdoe, perdoe", com aquele jeito ranzinza da "santa", curiosamente uma sósia real life da vilã das estórias do Popeye, a Bruxa do Mar. E, quando ela foi informada das mortes dos 29 mil internos nas casas da sua instituição, Missionárias da Caridade, vítimas de maus tratos, ela declarou, alegremente, que "é muito bonito as pessoas morrerem com tanta alegria" e que "Deus havia recebido novos anjos no céu".

"ESPIRITISMO" E O DEDO ACUSADOR DOS "REAJUSTES MORAIS"

Sendo uma religião desenvolvida ao arrepio dos ensinamentos originais da Doutrina Espírita, o "espiritismo" brasileiro possui um moralismo punitivista e aspectos macabros por trás de sua atraente embalagem de "simplicidade e pura beleza". São coisas tão medonhas que fazem com que muitos simpatizantes de Chico Xavier fugissem, apavorados, dos textos que apontam dados negativos sobre ele.

A atribuição de "reajustes morais" e "resgates espirituais" - incluindo a aberrante tese do "gado expiatório" dos "resgates coletivos" - , herança do pensamento de Jean-Baptiste Roustaing, é uma leviandade que inexiste no pensamento espírita original, mas que se torna uma espécie de "cláusula pétrea" do "espiritismo" brasileiro, através de sua visão punitivista da reencarnação.

Para quem não sabe, o absurdo dos "resgates coletivos" que atribuem a um "gado expiatório" pessoas de diferentes procedências que sofrem uma ocorrência comum, dando a elas um inimaginável destino comum ao superestimar o fato de que elas estavam num mesmo lugar em um mesmo momento, vai contra a coerência da realidade, e revela o caráter punitivista e severo julgamento de valor dos "espíritas", que ignoram que em muitos momentos pessoas estranhas entre si se envolveram nessas ocorrências e, por isso, não podem ser "companheiras de um destino comum".

O que mais surpreende é que Chico Xavier desobedeceu a si mesmo, pelo menos, duas vezes, mostrando uma grande hipocrisia resultante do Espiritismo que ele desfigurou sem o menor escrúpulo.

Primeiro, foi na publicação do livro Cartas e Crônicas, de 1966. Nele Chico Xavier faz uma acusação bastante ofensiva, sem o menor fundamento de qualquer espécie, às vítimas do incêndio criminoso no Gran Circo Norte-Americano, em Niterói, no dia 17 de dezembro de 1961, do qual morreram mais de 500 pessoas (número até hoje impreciso), deixou vários feridos e os sobreviventes ficaram traumatizados pelo resto da vida. A tragédia comoveu o mundo inteiro, na época.

Pois Chico Xavier, com seu dedo acusador, atribuiu à tragédia o "pagamento" de uma "dívida antiga", que ele especulou no seu severo julgamento de valor. Ele acusou as vítimas (mortos, feridos, sobreviventes do local da tragédia) de terem sido patrícios da Gália (parte do Império Romano que hoje corresponde à França), que no século II tinham prazer de ver prisioneiros sendo jogados nas arenas para serem queimadas diante de plateias sádicas e esnobes.

Que impiedade, vinda do "maior símbolo da misericórdia humana e do perdão"! Quanta crueldade, vinda de um sujeito considerado "infinitamente bom e caridoso". Chico havia desobedecido seu próprio conselho, aliás não necessariamente um conselho seu, mas inspirado no Evangelho de Mateus, capítulo 7, versículos de 1 a 5:

"Não julgueis, para que não sejais julgados.
Pois com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido, hão de vos medir.
Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão, mas não percebes a trave que está no teu?
Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o cisco do teu olho, estando uma trave no teu?
Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás claramente para tirar o cisco do olho do teu irmão."

Outra desobediência foi quanto à calúnia e à ofensa, e também fruto de um julgamento de valor severo. Uma famosa grosseria de Chico Xavier se deu quando, depois das primeiras mensagens supostamente atribuídas ao espírito do engenheiro Jair Presente (1949-1974), amigos que conviveram com ele desconfiaram do teor das mensagens, que primeiro tinham o estilo pessoal do "médium", com aquele apelo igrejeiro e o começo tipo "Querida mãezinha", e depois apresentavam uma linguagem nervosa e forçadamente coloquial.

Os amigos tinham razão para desconfiar das mensagens. Mas Chico Xavier classificou essa desconfiança como "bobagem da grossa". Será que a carteirada religiosa de um ídolo vale mais do que a natural desconfiança dos amigos que conviveram com alguém que já faleceu? Chegamos ao ponto de sermos desumanos, só porque Chico Xavier é que "tem razão"?

Ficamos perguntando se os neopentecostais, que realmente são desumanos em vários aspectos, no entanto parecem mais respeitosos que muitos "espíritas" que se gabam em ser tidos como "humanistas". Os neopentecostais, por mais retrógrados e obscurantistas que sejam, pelo menos são mais sinceros, no obscurantismo religioso, que o "movimento espírita" brasileiro, que mesmo exibindo ideias medievais, se travestem de "modernos" e "esclarecedores".

No seu julgamento de valor, os "espíritas" parecem personificar as pessoas que criticam, como no aviso de São Mateus, os argueiros nos olhos dos outros. Quantas traves têm os "espíritas" em seus olhos, e, mesmo quando tentam forjar autocrítica - eventualmente algum figurão "espírita" vive dizendo que "também é infalível e erra muito na vida" - , é para proteger a vaidade e o orgulho de qualquer revelação, servindo mais de escudo para seu privilégio sob a idolatria religiosa.

Quantas falsas modéstias servem de verniz para vaidades homéricas, orgulhos doentios, protegendo ambições e presunções humanas! É isso que faz os "espíritas", que se gabam de "tanto humanismo", se colocarem abaixo de muitas religiões reconhecidamente falhas, e ainda usam o vitimismo e o triunfalismo para se acharem "vitoriosos" mesmo na derrota extrema. Só que isso, em vez de manifestar humildade e perseverança, só mostra uma coisa: os "espíritas" não sabem perder.

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