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Morte de Sabrina Bittencourt complica situação do "espiritismo" brasileiro



A morte da ativista social Sabrina Bittencourt, que foi abusada sexualmente na infância e, nos últimos meses, estava denunciando o "médium" João Teixeira de Faria, o João de Deus, e o guru farsante Sri Prem Baba, revela uma tragédia que pode complicar não só a situação do pretenso curandeiro goiano, mas também do "espiritismo" brasileiro como um todo.

Sabrina Bittencourt morreu de suicídio, depois de concluir o levamamento de provas contra acusados de assédio sexual - incluindo vários líderes religiosos - e, por ironia, depois que o filho de João de Deus, Sandro Teixeira de Faria, foi preso acusado de comprar testemunhas para forçar a defesa do pai.

Em outra ironia, Sabrina Bittencourt morreu de uma forma que só o "movimento espírita" e alguns movimentos moralistas semelhantes considera "crime hediondo": o suicídio. Para piorar, os partidários de João de Deus estão investindo para produzir uma campanha de difamação póstuma contra a ativista, nos moldes que bolsonaristas fizeram contra a vereadora assassinada Marielle Franco, a primeira a ser citada na carta da outra.

Além disso, Sabrina Bittencourt também usou o recurso da denúncia, indo contra ídolos religiosos aos quais, oficialmente, se recomenda apenas o "perdão" (no sentido do "perdão permissivo", espécie de consentimento com o abuso alheio), e não ficou em silêncio aguentando infortúnios, sendo o sofrimento resignado e calado um dos maiores princípios do "espiritismo" brasileiro.

Isso lembra muito o caso Amauri Xavier. Ele ameaçou denunciar as falcatruas de ninguém menos que Francisco Cândido Xavier - o mesmo Chico Xavier que é adorado até por esquerdistas e ateus, afinal há muitas galinhas endeusando raposas no Brasil - , no ano de 1958, e isso comprometeria os lucros e a ascensão do "movimento espírita", contra o qual seriam denunciadas fraudes "mediúnicas".

Amauri foi vítima de uma campanha de difamação. Um texto rancoroso foi publicado por um famoso palestrante "espírita" mineiro, Henrique Rodrigues. Até um delegado de polícia participou da campanha, chamando o jovem Amauri de "vagabundo" para baixo. Inventou-se que ele fabricava dinheiro falso, arrombava casas e outras práticas de roubo e outros crimes.

Amauri foi internado num sanatório, onde há suspeitas dele ter sido agredido. Depois, ele foi solto, mas teria morrido envenenado, com apenas 27 anos, em 1961. Oficialmente, a FEB emitiu nota "lamentando" a morte do sobrinho de Chico Xavier e atribuiu o falecimento a uma hepatite. Mas a Medicina fala em casos de hepatite tóxica causada por envenenamento. Suspeita-se que a morte de Amauri teria sido "queima de arquivo" comandada por Antônio Wantuil de Freitas.

CASO GRAVÍSSIMO

Sabrina Bittencourt sofria ameaças de diversas partes. Entre elas, está a ameaça de capangas de João de Deus, que também é latifundiário e possui uma fazenda com uma extensão tão grande que equivale a dezoito Parques do Ibirapuera (alusão a um famoso parque em São Paulo). Isso é vergonhoso para um Estado com a extensão de Goiás, levando em conta que metade de seu território passou a ser de outro Estado, o de Tocantins.

A situação é extremamente grave, pois um potencial novo líder do "movimento espírita" - que a FEB só descartou depois que vieram as denúncias - possui ligações suspeitas com a pistolagem, embora aparentemente nada se tenha confirmado neste sentido. Poucos meses antes do escândalo, João de Deus aparecia até em revistas "espíritas" como "um dos maiores médiuns do país".

A FEB tenta se desvincular do caso, emitiu nota dizendo que o "movimento espírita" condena "os métodos de atendimento particular do médium" e se esforça em manter Chico Xavier longe de qualquer associação, apesar da imagem famosa do "médium" mineiro, em 1993, beijando a mão de João de Deus e enviando uma carta saudando ele. Consta-se que Abadiânia e Uberaba são cidades bem próximas, entre o município goiano e o mineiro dá meia-hora de viagem.

O que chama a atenção é que as denúncias mais antigas contra João de Deus remetem a 1983, dez anos antes do "iluminado médium" abençoá-lo, o que derruba de vez a reputação elevada de Chico Xavier. Afinal, um sujeito, oficialmente tido como "sábio", que muitos acreditam ser capaz de prever a regeneração da humanidade, não conseguiu observar as falcatruas de seu pupilo, o que faz muitos seguidores se confundirem todos ao alegarem que Chico "foi enganado".

Há muito o que investigar nos bastidores do "espiritismo" brasileiro. A forma como o método do inglês Malcolm Muggeridge, considerado um "fabricante de santos" pela forma que fez para promover a imagem de Madre Teresa de Calcutá, foi usado no Brasil para promover Chico Xavier tem que ser detalhada. Sabe-se que o roteiro foi usado, porque a imagem "bondosa" de Chico corresponde ao mesmo roteiro de Algo Bonito Para Deus (Something Beautiful For God).

Também temos que observar o mercenarismo do mercado literário "espírita", liderado pela FEB e trabalhado, também, por editoras-satélites. Em 1969, foi denunciado o acordo de Chico Xavier e Wantuil de que os lucros dos livros "psicográficos" iriam para os cofres dos diretores da FEB (Wantuil incluído), o que gerou um escândalo nos bastidores do "movimento espírita". Forjando vitimismo, Chico Xavier não assumiu a culpa e alegou "estar muito triste" com a "descoberta".

O mercado literário "espírita" exerce um lobby tão poderoso que chegou a forçar a retirada de catálogo dos livros originais de Humberto de Campos para evitar uma leitura comparativa. Sabe-se que o estilo original de Humberto foi um, o estilo do suposto "espírito" é completamente outro, e mesmo as semelhanças que alguns supõem haver (é o "efeito Forer" ou "efeito Barnum", a falta de discernimento às avessas, que é ver diferença onde não existe) são raras.

A situação do "espiritismo" brasileiro se complica ainda mais. A religião que traiu os ensinamentos e o legado original de Allan Kardec tenta dar a falsa impressão de que continua fiel ao pedagogo lionês, embora cometa traições graves a ele 25 horas por dia, oito dias por semana. Isso vem desde que manifestou sua preferência a Jean-Baptiste Roustaing, que só foi descartado quando o legado roustanguista foi adaptado por Chico Xavier.

Daí que a religião mais hipócrita do Brasil, dissimulando seu roustanguismo com um engodo igrejista e esotérico que fingem ser "um equilíbrio entre Ciência, Filosofia e Moral", tenta se contorcer para evitar a decadência, dissimular seu ultraconservadorismo e alegar que, mesmo nesses horrendos tempos bolsonaristas em que vivemos, a sociedade brasileira "está progredindo".

Não está progredindo, infelizmente. E a decadência do nosso país anda produzindo cadáveres assassinados ou suicidas aqui e ali. O reitor Luiz Carlos Chancelier, o músico Moa do Katendê, a vereadora Marielle Franco e a ativista Sabrina Bittencourt são mártires de um tempo em que pessoas moralistas, mas sem moral, fazem o que querem. E o "espiritismo" fingindo estar fora disso mas apoiando, na surdina, pautas reacionárias, para não frustar sequer as esquerdas. Quanta hipocrisia.

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