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Bomba semiótica no visual de Chico Xavier no seu auge


Os brasileiros têm muito medo de questionar Francisco Cândido Xavier. Muito, muito medo. Preferem que suas casas sejam completamente destruídas em um incêndio do que abrir mão de suas convicções em favor do anti-médium (termo que se justifica porque nossos "médiuns" se recusam a ter a função intermediária própria do aparente ofício).

O medo atinge até mesmo pessoas com determinado grau de esclarecimento, que chegam a ser brilhantes em análises difundidas em seus espaços diversos na Internet, mas quando se chega ao mito de Chico Xavier, se congelam, como se Ulisses, da Odisseia, tivesse se rendido ao canto das sereias. E olha que o pior canto de sereia no Brasil não vem de moças bonitas, mas de velhos feiosos.

É preocupante essa situação e essa zona de conforto que as pessoas, presas em paradigmas de 40 ou 45 anos atrás, se apegam de maneira neurótica, um padrão medíocre, porém organizado, de vida, na qual as pessoas desesperadamente não querem abrir mão e até se enfurecem quando aconselhadas a abandoná-los, a ponto de criar páginas ofensivas contra o desagradável interlocutor, num claro processo de assassinato de reputação.

Sim, os brasileiros estão presos na Era Geisel, época em que a sociedade que pediu o golpe militar em 1964 considera que o Brasil atingiu um "nível ideal". Um padrão de vida "mais ou menos", que conforme sua percepção seria a realização de um "perfeito equilíbrio social", no qual o Brasil não é "honesto nem desonesto demais", "pobre nem rico demais", "próspero nem degradado demais" etc. É claro que isso é só falácia, mas é o que essa percepção da maioria das pessoas quer dizer.

E elas dizem não pelo discurso aberto, porque essa perspectiva envolve aspectos sombrios que elas se recusam a admitir. Imagine admitir que se matam camponeses, operários, pessoas LGBTQ, mulheres, moradores de rua e favelados em geral com o intuito de "limpar a sociedade" e "diminuir a população", premiando assassinos com a "vida eterna" de nunca terem suas mortes noticiadas, no caso de morrerem de repente (de infarto, por exemplo).

É extremamente surreal que o Brasil aceite uma "cota de retrocessos" achando que "dá para viver assim". Surgem "filósofos de Facebook", ""intelectuais de e-mail", "acadêmicos de caixa de mensagens" que tentam, com seu discurso "imparcial", com a análise "mais objetiva do mundo" e sua "modéstia" de "não serem donos da verdade", mas de ficar sempre com a "palavra final" em tudo, para justificar e zelar por essa realidade medíocre que assola nosso país.

ESCLARECIMENTO?

Evidentemente, esse Brasil medíocre só pode ter ídolos como Chico Xavier, ele mesmo, que promoveu a "fraternidade" do Bom Senso com o Contrassenso e fez com que a deturpação espírita fosse maior do que o Espiritismo original.

Chico Xavier é um perigoso paiol de bombas semióticas. É necessário que analistas como Wilson Roberto, do Cinegnose, percam o medo e a complacência de questioná-lo, deixando de cair no canto de sereia do traiçoeiro "médium". Já nos basta a complacência total da mídia hegemônica e o endeusamento que Chico Xavier recebe do cinema comercial e das telenovelas da televisão.

Se verificamos que a vida de Chico Xavier, pelo seu aspecto aberrante - ele produziu um livro fake que, com excessiva e inconcebível facilidade, foi creditado aos mais diversos autores literários (não há razão lógica desses autores se sentirem atraídos, no começo dos anos 1930, por um anônimo funcionário de Pedro Leopoldo), e, com o tempo, virou um "semi-deus" - , se encaixaria em dramas surreais poloneses ou tchecos ou em comédias tipo Monty Python, então o Brasil virou um grande hospício.

Afinal, se lermos com atenção os livros e os depoimentos de Chico Xavier, veremos que ele em nenhum momento foi progressista. Seus livros remetem a valores católicos medievais: resignação com a própria desgraça, aceitação do trabalho exaustivo, ecos da "cura gay" (aconselhar a pessoa a aceitar as condições sexuais determinadas pelo nascimento) e da "livre negociação trabalhista" ("só Deus vai legislar os acordos trabalhistas, cabendo, no resto, ao livre-arbítrio entre as partes", é a síntese do conceito xavieriano).

Mesmo a alegação de Chico Xavier de que "tudo passa" é algo que mesmo o mais ferrenho sacerdote medieval teria dito e se perdeu pela poeira do tempo. Muitos se assustam quando se considera Chico Xavier um medieval, mas é porque não existe máquina do tempo. Se existisse, iríamos para o Império Bizantino do século XII e veríamos gente pensando igualzinho.

O problema é que as pessoas, no Brasil, são dissimuladas. Elas têm medo, muito medo, de revelar suas próprias debilidades. Todos somos "modernos", "progressistas" e "futuristas" da boca para fora, e há um esforço gigantesco até para que as pessoas acreditem até nas mentiras que montam para si mesmas. "Mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira", disse Renato Russo, parecendo prever a onda de dissimulação que faz as pessoas levarem a sério seu próprio fingimento a ponto delas mesmas terem que acreditar em suas mentiras.

A prática mostra que as pessoas que se dizem "progressistas", "modernas" e "futuristas" são o extremo oposto do que dizem. Mas, uma vez identificados esses defeitos, as pessoas se irritam, se enfurecem, surtam.

E aí vem os "intelectuais de caixa de mensagens" patrulhando com seu discurso chato: "É certo que tais defeitos aconteçam, mas vejo que você exagerou no seu parecer, afinal blablablá", "Você deveria perceber que patati-patatá..." ou "Seria melhor que você apresentasse fundamento para sua tese porque bibibi-bobobó...". Muito discurso "cabeça" para ideias ocas e sem sentido.

PERUCA E ÓCULOS ESCUROS

Vejamos um dos aspectos semióticos de Chico Xavier no seu auge, os anos 1970 e 1980. Ele usava peruca, sob a alegação de que ele "esperava fazer um implante capilar". Mas, independente dessas alegações, vemos que a combinação de óculos escuros envolve um significado, pelo menos, subliminar: a ideia de OCULTAÇÃO, do ato de ESCONDER.

O Brasil atravessava uma fase difícil da ditadura militar. No começo, o milagre brasileiro via em Chico Xavier um instrumento diversionista para desviar o povo da indignação com os arbítrios do regime. Vejamos, nessa fase, entre 1970 e 1974, os seguintes aspectos:

1) CHICO XAVIER APOIAVA A DITADURA MILITAR E O AI-5 E FOI HOMENAGEADO PELA ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA, "LABORATÓRIO" DO REGIME MILITAR

Ninguém pode ser ingênuo para acreditar que Chico Xavier apoiou a ditadura militar a contragosto - "foi uma estratégia", dizem seus partidários - e que a ditadura militar foi forçada a homenageá-lo. Recusar a admitir a cumplicidade de Chico Xavier, que defendia claramente valores ultraconservadores, comprovadas pela sua natureza social e por muitos fatos de sua realidade, é uma incoerência que só faz os chiquistas se irritarem profundamente com a realidade. Os chiquistas, tão "pacifistas" e tão "fraternos", vivem a brigar com os fatos!

Por que Chico Xavier apoiou o golpe civil-militar de 1964 (ele pode ser definido tanto como "golpe militar", porque os militares participaram do processo, quanto como "golpe civil-militar", pelo apoio do empresariado nacional e estrangeiro na iniciativa)? Porque ele, em suas raízes ultraconservadoras, não tinha simpatia com o governo progressista de João Goulart.

Devemos parar de nos iludirmos e admitir que religiosos costumam, salvo exceções (os "médiuns espíritas" estão fora destas), se irritar com políticos progressistas que ajudam os pobres de maneira ampla, sendo uma concorrência perigosa para o assistencialismo que apenas "ajuda aos poucos", dentro de valores moralistas religiosos. "Não se dá um croissant para quem só pede um pão", defendem os religiosos.

Neste sentido, Chico Xavier se identificava com o projeto político da ditadura militar, mesmo num momento em que ela estava mais cruel e parte da direita que pediu o golpe deixou de apoiá-la. Alceu Amoroso Lima (um dos que denunciaram as fraudes de Parnaso de Além-Túmulo), era católico ultraconservador, defendeu o golpe de 1964, mas passou à frente de Chico Xavier no que se diz à coragem, que o "médium" nunca teve, de romper com o regime dos generais.

E se a ditadura militar homenageou Chico Xavier, é porque ele deu uma contribuição para isso. Evidentemente, não existe almoço grátis para isso ou aquilo. E ninguém homenageia uma pessoa à força. Vejamos dois aspectos:

a) Se a Escola Superior de Guerra, "laboratório" de todo o processo que envolveu a campanha contra João Goulart até o "remédio ditatorial" do AI-5, homenageou Chico Xavier em 1972, é porque ele fez algo a favor dos militares, mais do que simples agrado. Isso confirma que Chico Xavier foi um instrumento muito útil para a ditadura militar anestesiar as pessoas;

b) Se Chico Xavier compareceu ao convite da ESG para discursar para um grupo de cadetes, é porque ele se sentiu identificado com a causa golpista. Não tem como fugir dessa ideia, até porque um humanista nunca se daria ao luxo de aceitar esse convite, pois o verdadeiro humanista estaria ao lado dos oprimidos mesmo em momentos de risco.

Chico Xavier ficou ao lado dos opressores, vale lembrar. E isso num momento em que os oprimidos estavam em situação pior, com os pobres ficando mais pobres, e os trabalhadores perdendo tudo, do salário à liberdade.

De que adianta glorificar Chico Xavier como "enxugador de lágrimas"? Antes fosse alguém que prevenisse prantos, em vez de fazer esse papel de "lenço de Deus" e socorrer depois que as tragédias já ocorreram. O apresentador de À Prova de Tudo (Man Vs Wild), o inglês Bear Grills, só por apresentar dicas de sobrevivência, já venceu Chico Xavier pois o britânico, que é evangélico, previne prantos, ao orientar as pessoas para como se virar em situações difíceis na Natureza.

Um outro ponto que se deve observar é que Chico Xavier, no auge de sua carreira e durante a ditadura militar, usava peruca e óculos escuros, o que mostra uma grande bomba semiótica: um sujeito que esconde seus olhos e o topo de sua cabeça, o que, simbolicamente, representa a ocultação do olhar e do cérebro.

"SABER", NO BRASIL, TEM QUE SER INACESSÍVEL

As pessoas no Brasil têm uma noção completamente errada de sabedoria. Saber é aquilo que "não é possível entender", e o processo de provas de alguma teoria devem envolver não métodos de fácil compreensão, mas antes fórmulas difíceis, complicadas, "objetivas" em sua forma, mesmo que nenhuma resposta consigam trazer.

Há muitos "isentões" - no Espiritismo, temos os "isentões espíritas", tão "donos" da "sua verdade" que chegam a desqualificar Allan Kardec, mas nunca Chico Xavier, o qual só admitem "alguns erros" e "eventuais imperfeições" - que acham que a graça de uma teoria está na fórmula complicada, numa "cosmética científica" que mais oculta do que esclarece, porque, para eles, a função da Ciência não é de explicar, mas antes deixar uma "problemática" intocável, guardada no armário.

E quantos estúpidos surgem querendo que a gente lhes mostre a verdade que eles não querem admitir? A favor de Chico Xavier, os "isentões espíritas" não exigem provas. Fala-se vagamente que "o médium ajudou muita gente", ninguém pergunta e vão para a cama sonhar o sonho dos tolos. Mas quando é contra Chico Xavier, já estão cobrando equações matemáticas dificílimas para provas uma simples teoria!

Chico Xavier oculta seus segredos sob a simbologia da peruca e dos óculos escuros. Quando ele demonstrava mais suas irregularidades - o que lhe valeu um processo judicial em 1944 que, para sua sorte, "terminou em pizza" - , ele não se escondia tanto, mas, durante a ditadura militar, quando os Diários Associados e a Rede Globo o moldavam como um falso ativista, Chico Xavier usava peruca e óculos escuros, além de vestir ternos claros, em pretensa luminosidade da roupa - como um sacerdote informal - , contrastando com o ocultismo dos olhos e da cabeça "escondidos".

E isso demonstra o quanto o Brasil é obscurantista. O "saber" tem que ser inacessível e complicado. O "esclarecimento" é obscurantista. "Conhecimento" é mistificador. As pessoas misturam Física quântica com Horóscopo e acham que são sábias. Um palestrante fala coisas rebuscadas e, se as pessoas só capturam, em suas memórias, palavras como "amor", "paz", "fraternidade" e "Jesus Cristo", elas o consideram um "sábio", sem entender bulhufas de sua verborragia.

E é isso que faz Chico Xavier ser visto como "esclarecedor", mesmo tendo sido ele um dos maiores obscurantistas do pensamento religioso brasileiro. E sua peruca e seus óculos escuros, simbolicamente, escondem o cérebro e a visão (ele não era cego totalmente, apenas a cegueira atingia um dos olhos), transformando o mito do pretenso saber num processo oculto.

A maioria dos brasileiros acredita que um "sábio" obtém seus conhecimentos "às escuras". Sempre Moisés se escondendo dos hebreus para "anotar a Lei de Deus". O "saber" é para poucos. O "saber" não pode ser democratizado. Daí que a imprensa hegemônica é endeusada, porque os jornalistas mais reacionários são como mini-deuses, colhem informações de "fontes secretas", por isso são "sábios". Nem se fala da qualidade da informação, qualquer "antagonista" vira "deus" com isso.

Daí ser uma coisa surreal. É a hierarquização do saber. Mas aí os "isentões" tentam dizer "ué, mas o saber não é democrático?", zelosos pela falsa coerência de seus discursos. Mas eles mesmos são miniaturas de pseudo-sábios, sempre exigindo provas, obtidas por métodos escalafobéticos, para teses que desagradam suas convicções.

Quando tudo é agradável, não é necessário provas, basta uma fofoca, como "Chico Xavier, em espírito, se materializa e, voando como um Super-Homem, socorre crianças que estavam quase se afogando nas águas turvas do Rio São Francisco" (o trocadilho é coincidência). "Ah, isso também é um exagero", dizem os "isentões", mas com um sorriso nos lábios. Qualquer exagero em favor de Chico Xavier lhes pode ser até equivocado, mas eles aceitam mais isso.

Se as forças progressistas pelo menos não participarem desse carnaval obscurantista, dessa farra ocultista que envolve o "espiritismo" brasileiro, tudo bem. O que não pode é o professor Wilson Roberto criticar a "esquerda Namastê" com a análise brilhante sobre as "bombas semióticas" e a "guerra híbrida" oculta nos discursos da direita e, diante de Chico Xavier, o brilhante semiólogo do Cinegnose se comportar igualzinho à essa mesma "esquerda Namastê" que critica. Já tem gente caindo demais no canto de sereia do "bondoso médium".

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