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Mais bomba semiótica: "Espiritismo" brasileiro faz do futuro um ente inacessível



Por que as esquerdas se iludem com o "espiritismo" brasileiro? Uma religião ultraconservadora, embora com embalagem "progressista", que vende gato por lebre depois de trair os postulados originais de Allan Kardec - esses sim, bastante progressistas - ao acolher conceitos originários do Catolicismo da Idade Média, não pode ter o respaldo das esquerdas no Brasil.

Agindo como o nerd da escola, que teima em acreditar que a chefe da torcida esportiva da turma está apaixonada por ele, apesar da garota namorar o atleta do time, as esquerdas tentam em vão acreditar em Francisco Cândido Xavier e companhia, mesmo com um vasto currículo de defesa de ideais reacionários e conselhos moralistas de cunho severamente conservador.

Elas teimam, com seu pensamento desejoso, seguindo o "efeito manada" dos que, tentando proteger suas fantasias religiosas em torno de Chico Xavier, minimizassem, mesmo brigando com os fatos, seu apoio mais do que convicto e muito mais do que entusiasmado da ditadura militar, mesmo quando parte da direita já havia desembarcado desse apoio dado desde 1964.

Eles se esquecem que o apoio de Chico Xavier à ditadura militar, manifesto num programa de grande audiência, o Pinga Fogo da TV Tupi, com seu registro altamente acessível para qualquer um ver - há vídeos disponíveis no YouTube -  e também no comparecimento a uma homenagem feita pela Escola Superior de Guerra, que era um laboratório do golpe e da ditadura, foi convicto e certeiro demais para que se faça alguma relativização de qualquer espécie.

Vejamos a compreensão semiológica do apoio de Chico Xavier à ditadura militar:

1) Ele não se mostrou contido no apoio, que seria o caso se ele tivesse feito um apoio condicionado, visando apenas a sua própria sobrevivência naqueles idos de 1971-1972;

2) O apoio dele à ditadura militar era entusiasmado, escancarado e manifesto várias vezes. Ele usou até o nome de Castro Alves numa mensagem que exaltou o governo dos generais;

3) Ele manifestou o apoio à ditadura militar num programa de audiência gigantesca e cujo conteúdo foi preservado e tornado acessível na posteridade. Ninguém apoiaria a ditadura a contragosto diante de tamanha exposição, sabendo do risco da repercussão sobre sua postura;

4) A Escola Superior de Guerra, que planejou a ditadura militar, homenageou Chico Xavier com o claro intuito de que o "médium" foi estratégico para a defesa do regime dos generais. Não foi a contragosto, o que confirma que Chico Xavier foi um aliado de peso para a ditadura;

São coisas óbvias e racionais. Mas o caráter alucinado, catártico e fantasias infantis dignas de contos de fadas das esquerdas sentimentalistas não quer saber da realidade. Antes usassem a ideia de briga, que costumam odiar, para combater a realidade dos fatos, sob a desculpa idiota de que "a realidade é muito ruim, logo devemos substitui-la pelos sonhos e pela fantasia, porque eles trazem mais esperança", como se isso fosse melhorar a realidade (e nunca melhora).

Chico Xavier é um paiol de bombas semióticas muito perigoso e traiçoeiro. É necessário ver seu mito com cuidado, não acreditar em tudo que ele disse. Temos que medir o contexto para ver se ele está mentindo ou falando a verdade. Vejamos duas situações:

1) CHICO XAVIER ALEGA À IMPRENSA DE QUE "NÃO TEM A MENOR IDEIA" DO QUE ESTÁ ESCREVENDO NO PAPEL

Devemos duvidar dessa ideia. Afinal, há fortes indícios de que o trabalho "mediúnico" de Chico Xavier era combinado entre ele e os dirigentes "espíritas", a partir de Antônio Wantuil de Freitas, presidente da Federação "Espírita" Brasileira e dublê de empresário artístico do suposto médium.

É claro que Chico Xavier sabia o que estava escrevendo e o conteúdo era invariável, pairando entre recados moralistas ultraconservadores e narrativas igrejistas. Mas é claro que Chico Xavier teria que mentir (sim, Chico Xavier mentia, e muito) e dar a impressão de que o conteúdo de suas obras "psicográficas" era bastante sofisticado.

2) CHICO XAVIER PEDIU PARA SEUS SEGUIDORES VERIFICAREM EM FONTES (IMPRENSA, DADOS EM CARTÓRIOS, LÁPIDES EM CEMITÉRIOS ETC) OS DADOS FORNECIDOS POR SUPOSTAS PSICOGRAFIAS ATRIBUÍDAS A MORTOS COMUNS.

Esta ideia requer desconfiança. Mas, nesse caso, o fato de Chico Xavier ter feito esse pedido com uma frequência muito estranha, isso reforça as suspeitas de trabalho fraudulento, porque só fazendo esse pedido com uma constância fora do usual revela uma insegurança do "médium" de que as pessoas pudessem acreditar ou não no seu trabalho, o que indica um risco de desmascaramento, pois quem faz um trabalho digno de autenticidade não apela para tais demonstrações de insegurança. Quem não deve, não teme.

"FUTURO" IMPALPÁVEL

Uma das bombas semióticas que observamos no "espiritismo" brasileiro e que deixam as esquerdas iludidas é a ideia de "vida futura". O "futuro melhor" é uma ideia que é inacessível no tempo e no espaço, portanto não sendo algo que seja palpável aqui e no presente. Ele sempre é algo distante, de difícil alcance, que não se pode ser obtido aqui nem agora.

O moralismo "espírita" segue uma visão punitivista, segundo a qual a pessoa reencarna para cumprir o "pagamento de suas dívidas morais". Com base nessa abordagem, cria-se a ideia do "quanto pior, melhor": quanto mais o sujeito sofrer, mais bênçãos conseguirá no futuro. É a falácia de que "dia de desgraças é véspera de bênçãos".

Devemos observar que existe uma contradição, um choque entre a ideia do carma e do livre arbítrio, que os "espíritas" pregam de maneira confusa e dúbia. Num momento, falam que a pessoa não pode descumprir sua missão de "reajuste espiritual", noutro falam que "carma não existe" e "ninguém está aqui para sofrer".

Nota-se uma variação hierárquica e medida conforme o público-alvo destinado, entre as pregações "espíritas" para o sofrimento, mais cautelosas quando o público é de pessoas iniciantes e ex-leigos:

1) Quando se prega que "ninguém está aqui para sofrer", notemos o status de quem fala, pregadores "espíritas" de menor grau, como mediadores e expositores de "centros espíritas" e simples escritores e palestrantes sem a atribuição "mediúnica" de "falar com os mortos".

2) Da mesma maneira, quando se diz "ninguém está aqui para sofrer", o público-alvo são os novos frequentadores das "casas espíritas", que não podem ser advertidos de grave advertência sobre a "conformação com a própria desgraça". Não se pode assustar as pessoas que estão começando a professar a "religião espírita".

3) Quando se trata de gente como Chico Xavier, espécie de "sacerdote do espiritismo" (o título de "médium" equivale ao do "sacerdote" católico, com a suposta atribuição de "falar com os mortos"), a ideia é de que se deve "aceitar o sofrimento, sem queixumes", renunciando, se preciso, a tudo, e acreditando que algo melhor poderá vir na velhice, no mundo espiritual ou na próxima encarnação.

4) Esse grave conselho é dado para quem já está "firmado" na "religião espírita", contrariando a declaração dada aos iniciantes de que "ninguém está aqui para sofrer". Para quem está mais "por dentro", informa-se que as pessoas nasceram, sim, para sofrer, e estão pagando "dívidas morais", mesmo quando estas são uma espécie de "estelionato moral", ou seja, desgraças que continuam vindo até depois do arrependimento e do aprendizado das amargas lições.

Então notemos a hierarquia. Palestrantes comuns, de menor status, dizendo que "ninguém nasceu para sofrer". Gente com o status de Chico Xavier, considerado "mestre" entre seus seguidores, dizendo que "tem que se aceitar o sofrimento extremo, sem queixumes". Levando em conta o nível hierárquico, nos "meios espíritas" o peso da "razão" está no "médium", não em palestrantes de menor projeção.

Quanto à "vida futura", Chico Xavier inventou até uma "vida espiritual", desprovida de qualquer fundamentação científica. A "cidade" de Nosso Lar é concebida como um condomínio de luxo dotado de um gigantesco hospital, sede administrativa e alguns prédios e serviços atraentes (como cinemas), além de uma praça com uma "concha acústica" (palco ao ar livre). Tudo isso para fornecer um prêmio póstumo àqueles que aceitarem viver as piores coisas da vida, só sofrendo e vivendo na servidão.

As esquerdas se iludem muito com isso. Acham que Chico Xavier falou que a "vida melhor" será amanhã. O "médium", que nunca defendeu a redemocratização do país, fazendo-nos crer que essa viria pelo "desígnio de Deus" - o "Deus" de Chico Xavier não foge da ideia de um "chefe invisível", versão dimensionada e "universal" do "patrão invisível" previsto nas normas de precarização profissonal da reforma trabalhista - , até chegou a criar um texto chamado "Tudo passa", mas ele nunca soou convincente.

Afinal, a "vida melhor" é sempre algo que está fora do nosso alcance. Está distante no tempo e no espaço, e a única recomendação é que os sofredores extremos aceitem calados e conformados suas desgraças sob o pretexto de que "um dia isso acabará". Chico Xavier chega a apelar, em sua abordagem, para narrativas que nos sugerem a comparação com uma tempestade, um recurso tipicamente materialista e terreno.

Com isso, uma bomba semiótica explode não só nas mãos da "esquerda Namastê" mas em todo crítico das esquerdas dentro do esquerdismo que prestam alguma consideração por Chico Xavier, porque este, queiram ou não queiram seus seguidores, sempre foi um defensor do ultraconservadorismo, e dos mais convictos, dos mais irredutíveis, dos mais conscientes. Qualquer tentativa de desmentir isso pelo pensamento desejoso sempre encontra um choque severo na realidade dos fatos.

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