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"Mediunidade" de Chico Xavier não passou de alucinação

 


Uma matéria da revista Realidade, de novembro de 1971, dedicada a Francisco Cândido Xavier, mostrava inúmeros pontos duvidosos de sua trajetória "mediúnica", incluindo um trote feito pelo repórter José Hamilton Ribeiro - o mesmo que, ultimamente, faz matérias para o Globo Rural, da Rede Globo - , incluindo uma idosa doente, mas ainda viva, que havia sido dada como "morta" (ela só morreu depois da suposta psicografia e, nem por isso, seu espírito se apressou a mandar mensagem) e um fictício espírito de um paulista.


Embora a matéria passasse pano nos projetos assistencialistas de Chico Xavier e alegasse que sua presença era tão agradável que "ninguém queria largar ele", uma menção "positiva" do perigoso processo do "bombardeio de amor" (love bombing), a matéria punha em xeque a "mediunidade" dele, e aqui mostramos um texto que enfatiza um exame médico que constatou que esse dom era falso.


Os chiquistas alegaram que outros exames teriam vindo depois e "desmentiram" a conclusão do exame de 1971. Nós temos dúvida a respeito disso. Não somos cientistas, mas vemos o quanto se pode usar o processo científico para fins tendenciosos, quando o interesse é passar pano em personalidades estratégicos, pois Chico Xavier, com a venda dos livros, rende fortunas homéricas para os dirigentes da Federação "Espírita" Brasileira. Não existe almoço grátis, muito menos o "almoço grátis espírita".


Realidade é uma revista que foi comprometida com o jornalismo honesto, e isso incomodava a ditadura militar, apoiada escancaradamente por Chico Xavier. E, lembremos uma coisa, o mito do "bondoso médum" a ditadura militar fabricou, via Rede Globo e sob inspiração em Malcolm Muggeridge, no decorrer dos anos 1970, depois dessa matéria que apresentamos abaixo. Criou-se um lobby a favor de Chico Xavier, espécie de "Aécio-Bolsonaro-Huck do bem", a ponto de hoje Ciência, Justiça e Imprensa passaram a fingir que investigam o mito do "bondoso médium" e depois passam pano em tudo.


Portanto, o texto não é agradável para muita gente que está tomada de paixões religiosas e sente fascinação obsessiva por Chico Xavier. Infelizmente o "médium", mesmo postumamente, é tão blindado - mais do que qualquer cacique tucano (líder político do PSDB) - que a Verdade não toca um dedo nale. Nem sob o mais criterioso e rigoroso exame da Lógica. Infelizmente os mais contundentes ensinamentos da Codificação não servem para contestar as fantasias que envolvem o "bondoso médium", a "fada-madrinha da vida real".


TRECHO DA REPORTAGEM DE REALIDADE SOBRE CHICO XAVIER


Por José Hamilton Ribeiro - Realidade - Novembro de 1971


Em maio deste ano, Chico Xavier foi submetido, em Uberaba, a um eletroencefalograma. Conclusão do médico que fez o teste:


- 1. A hiperpneia (respiração forçada), surtos de ondas pontiagudas tipo Sharp, nas regiões temporais à esquerda, com predomínio nas enetromediais. 2. Durante a psicografia, deu-se o aparecimento de raros surtos de ondas Sharp, nas regiões temporais à direita, sem predomínio nítido.


Em São Paulo, e sem saber de quem se tratava, o neurologista Juvenal Guedes deu estes esclarecimentos:


- Não é um eletro normal, absolutamente. Durante a ativação pela hiperpneia e pela psicografia, nota-se uma disritmia de origem subortical, com predominância nas regiões temporais do hemisfério esquerdo. Em miúdos: há uma descarga elétrica anormal produzida abaixo do córtex que se irradia ora à direita, ora à esquerda, com predominância para a esquerda. Diante de uma ativação dessa descarga, o paciente pode chegar à convulsão do tipo epiléptico, ou equivalente (alheamento, sensação de ausência, automatismo psicomotor, sensação de já visto etc). Qualquer afirmação médica, no entanto, precisa ser cotejada com a história clínica do paciente.


Aliando uma curiosidade natural à constatação de que percentagem apreciável de pessoas que procuram as clínicas psiquiátricas foi antes submetida a tratamentos espirituais, o dr. Eunofre Marques, médico-assistente da Clínica Psiquiátrica do Hospital das Clínicas, frequentou sessões espíritas e umbandistas com o objetivo de estudar a personalidade dos médiuns. Ele os enquadra em quatro categorias: 1. altamente sugestionáveis; 2. indivíduos pouco dotados e com sentimentos de inferioridade; 3. portadores de disritmia cerebral (seria este o caso de Chico Xavier); 4. casos de psicose delirante. De um artigo do Dr. Eunofre, retiramos esses trechos:


1. Os altamente sugestionáveis. São indivíduos com distúrbios neuróticos e possuidores de fértil imaginação. Apesar de levarem vida normal, chegam a acreditar que são mesmo reais as fantasias que engendram. Como médiuns, realizam-se dando vazão a suas fantasias, nas quais assumem o papel de espíritos eruditos ou messiânicos. Ao mesmo tempo em que satisfazem seus desejos de auto-engrandecimento, satisfazem também as expectativas da assistência, que neles acredita.


2. Pessoas de baixa capacidade intelectual. Intelectualmente pouco dotados, têm dificuldade de compreensão dos acontecimentos da vida cotidiana, para os quais aceitam qualquer explicação. São também muito sugestionáveis e, ao serem apontados como médiuns, acreditam nisso e passam a explicar com esse fato tudo que lhes acontece. Geralmente recebem espíritos atrasados (de acordo com sua capacidade intelectual) e são mais numerosos nos centros umbandistas.


3. A disritmia cerebral. A disritmia cerebral consiste na existência de descargas elétricas anômalas em certas regiões do cérebro  (focos) e pode ser causada por dificuldades no parto, contusões na cabeça etc. Costuma ser acompanhada de convulsões (ataques epilépticos), mas isso pode não ocorrer. Principalmente quando o foco se localiza na região temporal do cérebro, surgem com grande frequência as alterações psíquicas que levam o portador à sessão espírita: ele apresenta crises alucinatórias (tem visões, ouve vozes), perturbações de consciência (como se estivesse sonhando acordado) ou momentos em que tem dificuldades para compreender o que se passa consigo e com o ambiente onde está. Como as alucinações se referem algumas vezes a pessoas falecidas ou têm conteúdo religioso, passam imediatamente a ser consideradas como manifestações mediúnicas. A associação entre disritmia cerebral e a sugestionabilidade elevada tem sido observada com frequência.


4. Psicoses delirantes. É o caso de pessoas que se acham enviadas por Deus para salvar a humanidade, ou que se consideram possuidores de poderes sobrenaturais. Essas psicoses são frequentemente acompanhadas de alucinações que, ao ver do indivíduo, confirmam sua missão.


Em certas situações culturais, é muito melhor ser médium do que ser doente mental. Ser médium traz prestígio, respeito e uma condição de normalidade, enquanto o tratamento mental implica ser considerado anormal por amigos e familiares. Assim, assistimos à procura de centros espíritas e umbandistas por neuróticos e psicóticos.


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