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Com Chico Xavier, fica mais "delicioso" ser bolsonarista

O QUE IMPORTA É SERVIR, SEM RECLAMAR, ORANDO EM SILÊNCIO PARA DEUS...

As palavras são traiçoeiras. Pode-se argumentar a burrice com um método sofisticado, dando a impressão de que ela tem sustentação lógica. Pode-se argumentar a mentira descarada de forma que ela pareça uma verdade indiscutível. Pode-se apelar para a carteirada com o objetivo de fazer grandes e vergonhosas asneiras terem credibilidade só por causa do status de quem a disse.

Diante do conservadorismo ideológico, as forças progressistas ainda não conseguem entender certas armadilhas. O recente modismo do "funk carioca" pegou as esquerdas desprevenidas, seduzidas pelo "falso cheiro de pobre" de um modismo falsamente folclórico cujo discurso "etnográfico" foi armado por ambiciosos DJs e empresários do setor, que criaram uma retórica sutil para continuar ganhando dinheiro vendendo a falsa imagem de "movimento cultural".

No seu bojo, o "funk carioca" trouxe valores retrógrados, que vinham da precarização do mercado de trabalho, da mediocrização e idiotização da expressão cultural e de apologias à ignorância humana e ao machismo, a ponto de vender a objetificação do corpo feminino como se fosse "novo feminismo", sob a desculpa que as mulheres-objeto fazem sucesso sem a sombra de um homem.

Com um discurso que misturava, de maneira confusa, manifestações tendenciosas em torno da causa LGBTT, alegações falsamente libertárias de suposta revolta popular e uma não-explicada relação entre consumismo e periferia no discurso da "ostentação" do cenário do "funk" de São Paulo. São discursos que apelam para a emoção, o pensamento desejoso, a relativização gratuita que passa longe das questões de lógica e coerência dos fatos.

É a partir dessa mordida de isca que as esquerdas perderam o protagonismo, deixaram-se levar por pretensos aliados que depois apunhalaram os esquerdistas pelas costas e tiraram uma governante do poder. Agora, os antigos "aliados" que se tornaram traidores abriram o caminho para o cenário político que agora desfaz, uma a uma, as conquistas sociais históricas do povo brasileiro.

CHICO XAVIER, INIMIGO INTERNO DO ESPIRITISMO E FIGURA ULTRACONSERVADORA

Atualmente, os esquerdistas menos avisados estão rodopiando, piruetando e fazendo mil rodeios e meias-voltas para atribuir algum esquerdismo em Francisco Cândido Xavier. E isso é feito de maneira risível, com base naquela imagem "apaixonante" atribuída ao "médium" através de narrativas agradáveis e confortáveis trazidas pela mídia nada esquerdista, a Rede Globo, e isso ainda durante a ditadura militar.

As esquerdas caem no ridículo com isso. Acabam se equiparando a crianças que acreditam em Papai Noel (outro "comunista", vestido de vermelho, ignorando que essa cor foi adotada pela capitalista Coca-Cola, pois o uniforme original dele era verde). Arrumam mil desculpas para desmentir, relativizar ou pseudo-contextualizar o ultraconservadorismo de Chico Xavier, com um discurso que desesperadamente tenta impor a fantasia acima da realidade.

Esquecemos que Chico Xavier foi um inimigo interno do Espiritismo. Isso é fato. Seus conceitos e ideias refletem os aspectos negativos que a literatura kardeciana advertiu com muita antecedência. Textos empolados, ideias levianas, moralismo retrógrado, uso de nomes ilustres para impressionar o público. São muitos aspectos negativos que, representados por Chico Xavier, são erroneamente vistos como "positivos" e até "admiráveis".

Seu conservadorismo saltava nos olhos. E isso basta uma leitura atenta, na qual Chico, mesmo com textos rebuscados, era claro em suas posturas retrógradas, com um moralismo que antecipava um apetite bolsonarista. A ideia de aturar o sofrimento sem reclamar da vida, de perdoar os abusos dos algozes, de aceitar o trabalho opressivo porque "o que importa é servir a quem quer que seja", tudo isso é uma pauta ultraconservadora. Chico Xavier foi bolsonarista por antecipação.

Isso choca muita gente, mas é verídico. E tem mais. A pregação do "tóxico do intelectualismo" é um duro aviso às esquerdas que ainda se sentem apaixonadas pelo "médium" e sua "missão de paz". Enquanto os esquerdistas tendem a avançar nos questionamentos e na busca de sentido lógico aos fenômenos diversos da vida, Chico Xavier "criminalizava" o senso crítico mais afiado, definindo como "tóxico do intelectualismo" quando os questionamentos se tornam "incômodos" para certos temas.

SERVIDÃO, ESCOLA SEM PARTIDO E CONDENAÇÃO TOTAL AO ABORTO

O discurso de Chico Xavier é ultraconservador e não é difícil reconhecer essa realidade difícil de muitos aceitarem. Seu ultraconservadorismo é evidente, definido em suas próprias palavras ou através da atribuição tendenciosa das mensagens dos mortos. Esse discurso é um conteúdo amargo que está por dentro de uma embalagem falsamente progressista associada ao "médium".

Suas ideias encontram elementos explicitamente análogos à pauta bolsonarista, o que só é aceito pela maneira como esse discurso retrógrado é feita: através de palavras dóceis, em tom paternalista, que fazem com que tais ideias amargas sejam absorvidas tranquilamente, como um veneno dissolvido em água com açúcar.

No que diz ao trabalho, Chico Xavier não via diferença entre serviço e servidão. Ele apresenta analogias aos conceitos da reforma trabalhista, apelando para as pessoas que trabalham sob carga horária extenuante e baixa remuneração a aceitar tal condição e orar a Deus em silêncio (talvez para não incomodar os patrões). Os pretextos seriam porque a missão da pessoa é "servir, sob que condições fossem" e a baixa remuneração seria uma forma de "reeducar os gastos" e "desapegar dos bens materiais".

Até a extinção do Ministério do Trabalho seria justificada, pelo ideário chiquista, com frases prováveis como estas: "Para que tanto incômodo, se todo o ministério, de certa forma dedicado a determinada ocupação humana, é um 'ministério do trabalho'? O serviço humano terá representação garantida em todo ministério, até mesmo o Ministério da Família. Convém aceitar isso e orar sempre".

A Escola Sem Partido é a menina dos olhos dos "espíritas", para desespero dos esquerdistas que se inclinam a cultuar Chico Xavier. Ele reprovava o questionamento, definia o debate aprofundado de "tóxico do intelectualismo", conforme vimos acima. Com isso, ele acolhe um projeto pedagógico conservador, baseado nas relações hierárquicas entre professor e aluno, no ensino pragmático de leitura, escrita e atividades laborais e na transmissão de valores religiosos.

A própria ideia de "vida futura", que muitos se maravilham através das palavras de Chico Xavier, é também reacionária. É uma forma suave de dizer "Se não gostou, saia do Brasil", como aquele lema ditatorial "Brasil, Ame-o ou Deixe-o". A fantasia de Nosso Lar é uma maneira das pessoas aceitarem que suas encarnações se desperdicem com desgraças sem fim ou mortes prematuras visando uma utopia de um "mundo espiritual" feito sem fundamento científico, mas sob o sabor dos devaneios materiais das paixões religiosas. É como se esse "mundo" fosse um exílio para os infortunados.

A condenação total ao aborto também é uma pauta abertamente anti-esquerdista defendida não só por Chico Xavier, mas por Madre Teresa de Calcutá (outra reacionária religiosa cortejada pelas esquerdas mais ingênuas). Ambos defenderam a reprovação do aborto com o mesmo apetite dos neopentecostais e sua "bancada da Bíblia" no Congresso Nacional, mas as esquerdas lhes prestam boa conta porque ambos estão associados a uma embalagem mais agradável que a dos "pastores midiáticos".

Ambos condenam o aborto até mesmo quando oferece risco à gestante e quando a gravidez foi gerada por estupro. No caso de Chico Xavier, "não haveria problema" da estuprada se casar com o estuprador ou, não sendo o caso, buscar "entendimento" com ele, talvez formando uma família análoga a de um casal divorciado, jogando sob o tapete o trauma do crime ocorrido.

São pautas conservadoras que as esquerdas nem se dão conta. Daí a sua vulnerabilidade, quando acolhem valores da direita que parecem "progressistas" através de apelos fáceis associados a suposta humildade e suposto pacifismo. Até apelos completamente idiotas e de alto teor de pieguice, como a falácia de que "Se o coração é vermelho, Chico Xavier é comunista", são aceitos abertamente pelas esquerdas que, pelo jeito, adoram por as cabeças nas guilhotinas, para ver se elas funcionam.

As verdadeiras esquerdas têm que romper com Chico Xavier, e passar a investigá-lo como um traidor dos ensinamentos espíritas e analisar suas irregularidades e episódios sombrios. Em sua trajetória, há suspeitas até de "queima de arquivo", no caso o sobrinho Amauri Xavier, que ameaçou denunciar a farsa das mediunidades e foi alvo de campanha difamatória, maus tratos e morte por provável envenenamento.

As esquerdas, tão objetivas em muitos aspectos, tão zelosas pela boa informação e cumprimento das leis, deveriam romper com Chico Xavier, que em seus livros publicava erros históricos grotescos (desinformação) e no processo judicial do caso Humberto de Campos, foi inocentado pelos mesmos critérios seletivos da Justiça de Sérgio Moro, há quase 75 anos.

Além do mais, o lema ufanista de Chico Xavier, "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", nunca deve ser visto como "profecia progressista", mas um projeto teocrático que equivale a um lema semelhante, lançado pela propaganda de Jair Bolsonaro: "Brasil, Acima de Tudo, Deus, Acima de Todos".

Há o risco de, quando as esquerdas acolhem Chico Xavier, sua pauta conservadora seja aceita, sem querer, pelas forças progressistas, deixando elas em embaraçosa contradição, pois o moralismo chiquista é ultraconservador e com pauta semelhante à do presidente eleito Jair Bolsonaro. O perigo é as esquerdas, acolhendo Chico Xavier, se deliciarem com valores próprios do bolsonarismo, iludidas com a forma com que o "médium" defendia os valores mais retrógrados.

Basta de ficar investindo nos malabarismos do pensamento desejoso só para manter um mito sob uma imagem agradável a seus admiradores. Nem tudo é como se quer na vida. É bom jair se acostumando com o ultraconservadorismo de Chico Xavier.

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